23 de setembro de 2018

Capítulo 16

LUCIA
AURANOS

Quatro flechas. Todas atingiram o coração de seu pai com precisão.
O rei Gaius caiu de joelhos e despencou para o lado com um estrondo forte.
A vida tinha se esvaído de seus olhos castanhos.
Lucia se viu paralisada com o choque, incapaz de pensar ou se mover.
Magnus arrancou desesperadamente as flechas do corpo do rei e pressionou os ferimentos, mas aquilo não ajudava a estancar o fluxo de sangue carmesim.
— Não, você não vai morrer. Hoje, não. — As mãos de Magnus estavam escorregadias com o sangue do pai quando colocou o anel de pedra sanguínea no dedo do rei.
Magnus então respirou várias vezes antes de lançar um olhar sofrido para Lucia.
— Não está funcionando. Faça alguma coisa! — ele gritou para a princesa. — Cure-o!
Lucia cambaleou até chegar ao rei e caiu de joelhos. Ela podia sentir a magia negra do anel, a mesma magia que já tinha salvado a vida de seu pai e de seu irmão. A frieza dessa magia a repelia. Ela teve que se forçar a chegar mais perto.
— O que está esperando? — Magnus gritou.
Lucia fechou bem os olhos e tentou invocar magia da terra para suas mãos — a magia de cura que tinha preservado Magnus durante a batalha para conquistar Auranos, quando ele ficara tão perto da morte. Desde então, ela já tinha consertado uma perna quebrada dele e inúmeros cortes e arranhões. Tal magia havia se tornado quase instintiva para ela.
Ela sentiu um vestígio daquela magia valiosa, mas muito menor do que uma feiticeira profetizada deveria possuir.
E muito menor do que o necessário para curar um ferimento tão profundo.
Lucia já sabia da terrível verdade: mesmo que tivesse toda magia do universo, não ia adiantar.
Ela olhou para Cleo, que tinha coberto a boca com a mão ao ver todo aquele sangue, os olhos arregalados e repletos de horror. A princesa deu um passo à frente e colocou a mão trêmula sobre o ombro de Magnus. As linhas azuis finas e sinuosas estavam visíveis atrás da manga de renda de seu vestido azul-escuro.
Magnus não a afastou; sua atenção estava totalmente em Lucia.
— E então? — ele perguntou.
Lágrimas quentes correram pelo rosto de Lucia.
— Eu… eu sinto muito.
— O que quer dizer com sinto muito? — Magnus encarou o rosto do pai, os olhos vidrados. — Dê um jeito. — A voz dele falhou. — Por favor.
— Não posso — ela sussurrou.
O rei estava morto.
Lucia se esforçou para se levantar. Lágrimas escorriam por seu rosto quando ela saiu correndo para seus aposentos.
— Saia! — ela gritou para a ama.
A mulher correu para a porta.
Lucia foi até o berço e olhou para o rosto de Lyssa, não com o amor de uma mãe, mas com uma fúria cega.
Os olhos da criança piscaram com uma luz violeta.
— Você roubou minha magia, não é? — ela disse nervosa.
Se seus elementia tivessem próximos à superfície, fáceis de acessar com um simples pensamento, Lucia poderia ter reagido com mais rapidez, depois que a primeira flecha atingiu seu pai.
Mas seus sentidos estavam entorpecidos, inúteis.
E agora seu pai estava morto por causa disso.
— Você destruiu tudo! — ela resmungou para a criança.
Os olhos de Lyssa voltaram a ficar azuis; a bebê encarou a mãe por um instante para em seguida começar a chorar.
O som partiu o coração de Lucia, e a culpa tomou conta dela.
— Eu sou má — ela sussurrou enquanto se sentava no chão, dobrando as pernas e abraçando-as junto ao corpo. — É minha culpa, é tudo minha culpa. Sou eu que devia ter morrido hoje, e não o meu pai.
Ela ficou naquela posição pelo que pareceu um longo tempo enquanto Lyssa chorava perto.
Depois de um tempo, Magnus entrou no quarto.
Os olhos de Lucia estavam secos, e seu coração estava vazio quando olhou para o irmão.
— O assassino foi capturado antes de conseguir escapar — Magnus disse. — Pedi para interrogá-lo pessoalmente.
Ela esperou, sem dizer nada.
— Gostaria muito de sua ajuda, se estiver disposta — ele disse.
Sim, Lucia com certeza estava disposta a interrogar o assassino de seu pai. Ela levantou e saiu do quarto com Magnus. A ama aguardava pacientemente do lado de fora, olhando com nervosismo para Lucia.
— Peço desculpas pela grosseria — Lucia lhe disse.
A ama abaixou a cabeça.
— Não é necessário, vossa graça. Minhas profundas condolências por sua perda.
Em silêncio, com o coração pesado como chumbo dentro do peito, Lucia acompanhou Magnus pelos corredores do palácio, sem enxergar o que havia à sua esquerda ou à direita, apenas colocando um pé na frente do outro para sair do edifício e descer para o calabouço.
O prisioneiro era jovem, devia ter vinte e poucos anos. E tinha sido deixado em uma cela pequena, com punhos e tornozelos algemados a correntes de ferro presas à parede de pedra.
— Qual é o seu nome? — Magnus perguntou com frieza. Ele usava o anel de pedra sanguínea de novo e as mãos já estavam limpas do sangue do rei.
O homem não respondeu.
Lucia tinha muitas coisas a dizer ao pai que ficariam guardadas para sempre. Aquele assassino havia lhe roubado isso.
Lucia lançou um olhar de puro ódio para ele.
— Você vai morrer pelo que fez hoje — ela gritou.
O homem observou a princesa por tempo suficiente para demonstrar seu desdém.
— Você é a filha bruxa de que ele falou — ele disse. — Vai usar sua magia contra mim?
— Você não parece com medo.
— Não tenho medo de nenhuma bruxa comum.
— Ah, eu sou muito mais do que isso. — Lucia chegou perto o bastante para agarrá-lo pela garganta, cravando as unhas em sua carne e o obrigando encará-la. — Quem é você? Um rebelde? Ou um assassino?
Ela tentou arrancar a verdade da boca do homem como havia feito com lorde Gareth, mas ele apenas a encarou com desobediência.
— Fiz o que fiz por Kraeshia — ele disse. — Pela imperatriz. Pode fazer o pior comigo, já cumpri meu destino.
— Pela imperatriz — Magnus repetiu com os olhos escuros semicerrados. — Amara ordenou a morte do rei ou você tomou essa decisão por conta própria?
— E se ordenou? Vocês não têm nenhuma chance de vingança. Ela está muito acima de vocês neste reino minúsculo. — O assassino franziu a testa para olhar para o príncipe. — Seu pai era um covarde e um mentiroso, um mísero verme na presença da magnificência, e desperdiçou a chance de atingir a verdadeira grandeza quando se posicionou contra a imperatriz. Recebi ordens de matá-lo em público para que todos soubessem que está morto.
— É mesmo? — Magnus disse tão baixo que Lucia mal conseguiu ouvir suas palavras.
Os punhos dela tremiam com a necessidade incontrolável de reduzir aquele homem a cinzas.
Seu irmão chegou mais perto do assassino.
— Creio que devo cumprimentá-lo, pois sua pontaria é incomparável. Nunca vi alguém tão bom com arco e flecha. Os guardas me disseram que você estava no fundo da multidão quando mirou o rei. Quatro flechas, e nenhuma errou o alvo. Amara deve valorizá-lo muito.
O assassino riu.
— Esses elogios não significam nada, a menos que viessem da própria impera…
A lâmina da adaga brilhou sob a luz da tocha logo antes de Magnus cravá-la no queixo do homem, chegando até o cérebro.
Com a respiração curta, Lucia viu o homem se contorcer e sucumbir, totalmente imóvel.
Magnus olhou para Lucia.
— O que há de errado com seus elementia? — ele perguntou em um tom frio e controlado.
O primeiro instinto dela foi mentir, mas o tempo de mentiras já havia passado.
— Eles estão falhando — Lucia admitiu. As palavras pareceram cacos de vidro passando por sua garganta. — Lyssa… eu não entendo, mas ela está roubando minha magia desde antes de nascer.
Magnus assentiu devagar. Ele limpou a lâmina com um lenço. O sangue vermelho parecia preto nas sombras da cela do calabouço.
— Então você não pode ajudar Cleo — ele disse. — E não pode fazer nada para derrotar Kyan.
Uma fagulha de raiva se acendeu dentro dela diante daquela falta de consideração.
— Eu não disse isso.
— Foi o que eu ouvi.
— Estou tentando encontrar uma solução — ela disse. — Não vou decepcioná-lo de novo.
A expressão do irmão era indecifrável, desprovida de emoções. Ela não sabia dizer se Magnus estava chateado, zangado ou decepcionado.
Provavelmente, as três coisas.
— Espero mesmo que não — ele respondeu depois de um tempo.
Magnus não disse mais nada quando Lucia saiu do calabouço e voltou devagar para o palácio.
A primeira coisa que ela notou quando entrou em seus aposentos foi o cheiro de carne queimada. Seus olhos se encheram de terror ao ver o cadáver carbonizado e fumegante da ama no centro do cômodo.
Um grito escapou da garganta de Lucia, um chiado sofrido que mal parecia humano. Ela correu para o berço e o encontrou vazio.
Lyssa não estava lá.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!