16 de setembro de 2018

Capítulo 16

MAGNUS
PAELSIA

Magnus pensou nas doze pessoas que estavam na hospedaria Falcão e Lança, notando que quase metade queria vê-lo morto.
— E você é uma delas, com certeza — ele murmurou quando Nic atravessou a sala, arregalando os olhos ao passar pelo príncipe. Magnus estava sozinho sentado a uma mesa com um caderno de desenho que tinha encontrado em uma gaveta em seu quarto.
— Cassian, veja — ele disse. — Desenhei você.
Magnus ergueu o caderno. Com os dedos manchados de carvão, ele mostrou uma página na qual tinha desenhado um garoto magro pendurado em uma forca, a língua para fora da boca, X mórbidos no lugar dos olhos.
Nic, que supostamente era muito simpático com todo mundo, lançou um olhar de puro ódio para Magnus.
— Você acha isso engraçado?
— O que foi? Não gostou? Bom, dizem que a arte é subjetiva.
— Você acha que gastar seu tempo rabiscando nesse caderno vai fazer todo mundo considerar você menos ameaçador? Pense bem. Essa pose de inocente e bacana não me engana.
Magnus revirou os olhos.
— Certo — ele disse, enfiando o caderno embaixo do braço. — Mas não posso dizer que você não me magoou. Pensei que tivéssemos nos tornado amigos em Limeros.
Nic semicerrou os olhos, sem achar graça.
— A única coisa que me ajuda a dormir à noite é saber que Cleo sabe muito bem quem você é.
— Espero muito que você esteja certo — Magnus respondeu sem dar muita atenção. Ele nunca tinha deixado as palavras de Nic atingi-lo antes, e não deixaria agora, mas a questão de Cleo era um espinho. — Acho muito interessante ver que vocês decidiram ficar aqui na cova do leão.
— Talvez você esteja enganado a respeito de quem é o leão e quem é a presa.
Magnus deu risada.
— Conversar com você é sempre muito estimulante, Nic. De verdade. Mas tenho certeza de que tem outros lugares para onde ir, e eu detestaria fazer um cara tão brilhante como você perder tempo. Sem dúvida já atrapalhei seu próximo compromisso que é… qual é mesmo? Ficar à sombra de Ashur, à espera da maravilhosa atenção dele, agora que conseguiu voltar dos mortos? — Por ter testemunhado a morte de Ashur, Magnus ainda estava tentando processar a informação de que ele estava vivo. — Muito triste, de verdade, que ninguém veja o que de fato está acontecendo entre o príncipe ressuscitado e o ex-cavalariço.
Foi o suficiente para fazer Nic corar.
— E o que seria, Magnus? O que você acha que está acontecendo?
Magnus fez uma pausa, encarando o olhar incerto de Nic.
— O sabor da decepção amorosa é amargo, não é?
— Imagino que você entenda bem sobre o assunto, não? — Nic rebateu. — Nunca esqueça que Cleo odeia você. Você matou todo mundo que ela ama. Roubou o mundo dela. É uma verdade que nunca vai mudar.
Lançando um último olhar, Nic saiu da sala, deixando Magnus furioso, bufando, com vontade de socar alguma coisa. Ou alguém.
Ele está enganado, ele disse a si mesmo. O passado não determina o presente. E era no presente que ele tinha que se concentrar. Precisavam encontrar Lucia o mais rápido possível. Por que esperar mais um dia para minha avó encontrar a pedra mágica?, ele pensou. Eles estavam ali, acovardados como vítimas, quando deveriam estar fazendo o máximo possível para tirar aquela kraeshiana de suas terras para sempre.
Magnus empurrou o caderno de desenho para o centro da mesa e levantou. Ele ia encontrar a avó e exigir que ela — com ou sem a magia totalmente restaurada — testasse um feitiço para encontrar sua irmã.
— Está sozinho nessa sala enorme?
Ele parou ao ouvir a voz de Cleo. Ela estava na base da escada, observando-o do outro lado da sala enorme.
— Parece que sim — ele diz. — Mais um motivo para você não entrar.
Ela entrou mesmo assim.
— Parece que não conversamos a sós há muito tempo.
— Faz dois dias, princesa.
— Princesa — ela repetiu, mordendo o lábio inferior. — Minha nossa, você está fingindo muito bem. Na verdade, não sei se é só fingimento mesmo.
— Não sei ao certo do que você está falando. — Ele olhou para Cleo como um homem faminto olhava para um banquete. — Esse vestido é novo?
Ela alisou a saia de seda, da cor de um pêssego maduro.
— Olivia e eu fomos a uma feira perto das docas hoje.
— Você e Olivia fizeram o quê? — Ele franziu a testa, assustado por não saber que a princesa tinha decidido se arriscar por aí. — Que péssima ideia. Você poderia ter sido reconhecida.
— Por mais que eu goste de ser repreendida, acho que preciso dizer que ninguém me reconheceu, já que usei meu manto. E não estávamos sozinhas. Enzo e Milo estavam conosco, para nos proteger. Ashur também. Ele está explorando a cidade para saber o que os paelsianos pensam sobre a notícia da chegada da irmã dele.
— E o que dizem?
— Ashur disse que a maioria parece… disposta a mudar.
— É mesmo?
— Qualquer coisa depois do chefe Basilius seria um progresso. — Ela hesitou. — Bem, à exceção do seu pai, claro.
— Claro. — Magnus não se importava muito com os paelsianos nem com os auranianos, na verdade. Ele só se importava com o fato de Cleo ter saído da hospedaria sem que ele notasse. — Não importa com quem você saiu, porque ainda assim foi uma péssima ideia.
— Assim como beber até cair toda noite na taverna Videira Púrpura — ela respondeu, meio tensa. — E, no entanto, é o que você faz.
— É diferente.
— Tem razão. O que você faz é muito mais idiota e tolo do que passar o dia explorando uma feira.
— Idiota e tolo — ele repetiu, franzindo a testa. — Duas palavras que nunca foram usadas para me descrever.
— Elas são certeiras — disse Cleo, o tom firme e a testa franzida. — Quando vi você naquela primeira noite com Taran…
O som daquele nome atravessou o espaço entre eles como a lâmina afiada de um machado cortando um tronco de árvore.
— Sei que a presença dele aqui deve ser difícil para você — Magnus comentou, sentindo a garganta apertar. — Aquele rosto… Todas aquelas lembranças horrorosas que ele sugere…
— A única lembrança horrorosa de Taran que tenho é a da lâmina dele pressionada contra sua garganta. — Cleo parou, observando a expressão de Magnus e franzindo mais a testa. — Você entende que, quando olho para ele, só vejo Theon?
— E como não veria?
— Admito que foi inesperado encontrá-lo. Mas Theon se foi. Sei disso. Já aceitei isso. Taran não é Theon. Mas é uma ameaça.
— Compreendo.
— Compreende? — Cleo continuou a observá-lo concentrada, como se fosse um enigma que ela precisasse decifrar. — Mas você pensou mesmo que eu o veria e esqueceria tudo o que aconteceu desde aquele dia? Que o ódio que eu sentia por você voltaria a me cegar? Que eu… o quê? Me apaixonaria por Taran Ranus no mesmo instante?
— Parece mesmo um tanto quanto absurdo.
Ela ficou pensativa.
— Bom, Taran é muito bonito. Tirando o fato de querer você morto, o que é, admito, um objetivo que também já tive. Ele seria um pretendente perfeito.
— Deve ser muito divertido me atormentar.
— Muito — ela provocou, abrindo um sorriso discreto, mas levemente triste. Cleo segurou as mãos dele, e a sensação de sua pele quente junto à dele foi como um bálsamo numa ferida dolorosa. — Nada mudou entre nós, Magnus. Saiba disso.
As palavras dela confortaram sua alma atormentada.
— Fico muito feliz em saber disso. Quando pretende contar aos outros?
No mesmo instante, a expressão dela ficou tensa.
— Não é o momento. Há muita coisa em risco agora.
— Nic é a pessoa mais próxima de você, seu amigo mais querido, e ele me odeia.
— Ele ainda vê você como um inimigo. Mas, um dia, sei que vai mudar de ideia.
— E se não mudar? — Ele a encarou nos olhos. — O que vamos fazer?
— Como assim?
— Escolhas, princesa. A vida parece cheia delas.
— Você está pedindo para que eu escolha entre você e Nic?
— Se ele se recusar a aceitar… isso, o que quer que seja, princesa, então acho que você teria que escolher.
— E você? — ela finalmente perguntou depois de um longo momento de silêncio. — Quem você escolheria se alguém ou algo o forçasse? Eu? Ou Lucia? Sei muito bem que ela foi seu primeiro amor. Talvez você ainda a ame como antes.
Magnus grunhiu.
— Garanto a você que não existe nenhum sentimento dessa natureza entre mim e Lucia. E no que diz respeito a ela, nunca existiu.
Seu coração tinha feito tanto progresso nos últimos meses que ele se perguntava se ainda era a mesma pessoa que tinha sofrido de amor por sua irmã adotiva. Apesar de ter assumido uma forma diferente, aquele amor ainda estava ali, dentro dele. Não importava o que Lucia pudesse fazer ou dizer, Magnus a amava incondicionalmente e estava pronto para perdoá-la por qualquer erro.
Mas o desejo que ele já sentira por sua irmã… seu coração tinha se voltado total e permanentemente para outra pessoa — alguém muito mais frustrante e perigosa do que sua irmã adotiva.
— Afinal, Lucia escolheu fugir com o tutor. — Cleo relembrou.
Ele franziu os lábios.
— Sim, e agora o destino do mundo depende da localização dela. — Cleo olhou para ele duvidosa. — O que foi, princesa? — ele perguntou. — Está em dúvida?
— Eu… — Cleo começou a falar, e então parou e olhou para os próprios pés, como se estivesse refletindo sobre o assunto. — Magnus, só não tenho certeza de que ela seja a única solução com a qual você parece contar.
— Ela tem ligações com o deus do fogo. Acredito que saiba como extrair a magia dos cristais da Tétrade sem permitir que o deus elementar escape.
— Parece que foi ela quem ajudou Kyan a escapar, se estão viajando juntos. Só pode ser.
— Talvez. Mas a magia dela é ampla.
— Ampla o suficiente para matar todos nós.
— Você está enganada — Magnus disse sem hesitar. — Ela não faria isso. Lucia vai nos ajudar, vai ajudar a todos. — Sempre que falava bem de Lucia, ele percebia que Cleo contraía os lábios e franzia a testa como se estivesse comendo alguma coisa amarga.
Será que ela poderia estar com ciúme do que sinto por Lucia?, ele se perguntou, achando graça.
— Vejo que você fica feliz quando pensa em sua irmã adotiva — ela comentou tensa, em um tom desagradável. — Tenho certeza de que pensar nela é uma ótima válvula de escape para você enquanto estamos presos aqui em Paelsia, cercados por rebeldes que adorariam a oportunidade de incendiar esta hospedaria com toda a realeza dentro.
— É esse o plano abominável de Agallon? — ele perguntou, contraindo os lábios e franzindo a testa. — O que mais ele contou na calada da noite desde que chegou?
— Muito pouco, na verdade.
Magnus deu um passo na direção dela. Cleo deu um passo para trás: a dança na qual se envolviam de vez em quando. Os dois continuaram até ele encurralá-la em um canto, e ela lançar um olhar desafiador.
— Talvez você preferisse dividir um quarto com o rebelde do que comigo — ele disse, enrolando uma mecha do cabelo dela no dedo. — Mas ele provavelmente preferiria uma casa na árvore feita de tábuas e barro.
Cleo riu.
— É nisso que está decidindo se concentrar agora?
— Sim. Porque se me concentrar em Agallon, posso parar de pensar em você e em como quero levá-la para a minha cama.
Ela só teve tempo de soltar um breve suspiro antes de Magnus beijá-la, segurando-a pela cintura e puxando-a para si. Cleo retribuiu sem limitações.
As mãos dele deslizaram pelo corpo da princesa, passando pela lombar, chegando à curva de seu quadril. Desesperado para se inclinar e beijá-la direito, ele pegou suas pernas por trás e a levantou, pressionando suas costas contra a parede.
Sim, ela deveria fazê-lo parar naquele momento.
Mas não foi o que aconteceu. Na verdade, Cleo tinha começado a puxar os cordões da camisa dele, sem afastar seus lábios nem por um segundo.
— Quero você — ele sussurrou enquanto a beijava. — Quero tanto você que posso morrer de desejo.
— Sim… — O hálito dela era doce e quente. — Também quero você.
Quando Magnus a beijou, toda a racionalidade sobre a maldição desapareceu de sua mente. Nada mais existia, só a necessidade enlouquecedora e alucinante de tocá-la, de senti-la…
Pelo menos, até ouvir passos de alguém se aproximando por trás.
Foi nesse momento que Magnus percebeu que não estavam mais sozinhos.
Deixando a princesa de volta ao chão, devagar, Magnus se forçou a se afastar e, com os ombros tensos, enfrentar o intruso.
Apesar de sua altura intimidadora e dos músculos avantajados, Felix Gaebras parecia envergonhado.
— Hum… Desculpe interromper. Eu estava… só passando. — Mas ficou parado onde estava, e então, ergueu o queixo. — Perdoe-me por dizer, vossa alteza — ele disse, olhando para Magnus —, mas talvez seja melhor o senhor ser mais discreto com a princesa de agora em diante.
— É mesmo? — Magnus perguntou.
Felix assentiu.
— Nic convenceu a todos do seu ódio por Magnus, princesa. E isso… não me pareceu uma atitude de ódio. Ele vai enlouquecer.
Cleo se afastou de Magnus, os dedos nos lábios e o rosto corado.
— Por favor, Felix — ela disse, quase desesperada. — Prometa que não vai contar nada a Nic sobre isso. Nunca.
Felix fez uma reverência.
— Não se preocupe, princesa. Não direi nada.
— Obrigada.
Magnus disfarçou a careta. Algo no modo como ela falou, no alívio que pareceu sentir por ter sido Felix quem os vira juntos e não alguém cuja opinião considerasse mais importante, o incomodou demais.


Se Ashur podia buscar informações sobre Amara, Magnus também podia.
Naquela tarde, ele deixou a hospedaria, subiu a rua até a feira que Cleo havia mencionado e passou na porta da tentadora Videira Púrpura. Na feira, ele mal olhou para as bancas de madeira com lonas coloridas protegendo os comerciantes do sol, cada um vendendo um produto paelsiano diferente — de vinho a joias, de frutas e legumes a lenços e túnicas de todas as cores, e diversas outras mercadorias. No movimentado labirinto de bancas, sentia-se o cheiro adocicado das frutas e da carne defumada, e mais perto das docas, o cheiro de suor e vômito pegou as narinas de Magnus de surpresa. Entre os diversos clientes da feira, incluindo a tripulação de navios e os cidadãos comuns da cidade, vários guardas kraeshianos chamaram sua atenção.
Ele observou um dos homens de Amara conversar com um vendedor de vinho paelsiano que lhe ofereceu um pouco da bebida. O copo de madeira não foi oferecido com mãos trêmulas nem medo nos olhos do vendedor, mas com um sorriso.
Para Magnus, era irritante ver que muitos paelsianos aceitavam o destino de se tornar parte do Império Kraeshiano sem se preocupar com nada. Será que as coisas estavam tão ruins antes que pensar em Amara como nova líder era uma dádiva?
Ele continuou a observar essa dinâmica entre paelsianos e kraeshianos até o sol ficar alto e insuportavelmente quente para continuar com o manto com capuz. Como já havia tido contato com paisagens, sons e cheiros bons e ruins da feira de Basilia, decidiu voltar.
Magnus virou na direção da hospedaria e descobriu que havia alguém em seu caminho. Taran Ranus.
O príncipe se forçou a não deixar claro que encontrar o gêmeo de Theon — alguém que quase tinha conseguido vingar o assassinato de seu irmão — o tinha assustado. Mas antes que Magnus decidisse o que dizer, Taran tomou a liberdade de falar.
— Estou curioso — ele disse em voz baixa. — Quantas pessoas você matou?
— Essa pergunta é muito pessoal para um lugar tão público.
Taran continuou, sem se deixar abater.
— Sabemos que matou meu irmão. Quem mais?
Magnus tentou não se encolher, tentou não levar a mão ao cabo da espada. A espada de Taran também estava visível, pendurada no quadril.
— Não sei ao certo — admitiu.
— Aceito uma estimativa.
— Muito bem. Talvez… uma dúzia.
Taran assentiu, sem deixar sua expressão revelar o que passava em sua mente quando olhou para a feira movimentada ao redor deles.
— Quantas pessoas você acha que eu matei?
— Mais de uma dúzia, tenho certeza — Magnus respondeu. Ele contraiu os lábios. — Por quê? Está aqui para me provocar com suas habilidades com a espada? Para contar histórias de como fez homens maus chorarem chamando pela mãe diante da morte? Que mataria mais mil se isso fizesse o sol brilhar e a felicidade imperar nesse mundo?
Taran observou Magnus, semicerrando os olhos. Para alguém que quase tinha posto a hospedaria a baixo em uma noite para tentar cortar o pescoço de Magnus, ele parecia bem calmo naquele dia.
— Você se arrepende de ter matado meu irmão? — ele finalmente perguntou, ignorando as perguntas de Magnus.
Magnus pensou em mentir, sem saber se deveria fingir arrependimento. Mas sua intuição lhe disse que não conseguiria enganar o gêmeo de Theon.
— Não — ele afirmou com o máximo de confiança que conseguiu. — Minha vida estava em risco. Tive que me proteger de alguém muito mais habilidoso com a espada do que eu era na época, por isso agi. Não posso dizer que me arrependo de ter tomado as medidas necessárias para salvar minha vida, apesar de saber que hoje não faria as escolhas que fiz naquele momento.
— Qual escolha faria hoje?
— Combate direto. Minhas habilidades de luta melhoraram muito no último ano.
Taran assentiu, mas seu rosto não deixou transparecer nada.
— Meu irmão teria vencido você.
— Talvez — Magnus disse. — Mas e daí? Imagino que você esteja aqui para tentar me matar diante dessas pessoas. É isso? Ou estamos só conversando?
— Foi exatamente para isso que o segui até aqui: quero decidir o que fazer. Antes era muito simples, estava muito claro em minha mente que você tinha que morrer.
— E agora?
Taran puxou a espada da bainha, mas só o suficiente para mostrar a lâmina que trazia uma série de símbolos e palavras desconhecidas gravadas na superfície.
— Essa era a arma de minha mãe. Ela me contou que as palavras gravadas estão na língua dos imortais.
— Interessante — Magnus disse, o corpo tenso e pronto para a luta. — Sua mãe era bruxa?
— Sim. Ela era uma Vetusta, uma bruxa que adorava os elementos com magia de sangue e sacrifício.
— Tenho certeza de que você está me contando isso por um motivo.
— Estou. Pedi para você adivinhar quantas pessoas eu matei. — Taran embainhou a espada. — A resposta é uma. Apenas uma.
Uma gota de suor correu pelas costas de Magnus.
— Sua mãe.
Taran assentiu com seriedade.
— As Vetustas acreditam que os gêmeos têm uma magia poderosa. — Ele balançou a cabeça, franzindo a testa. — Existe uma lenda quase esquecida que diz que os primeiros imortais criados foram os gêmeos: um escuro e um claro. Minha mãe acreditava que a magia sombria era muito mais poderosa, então, para aumentar a dela, decidiu sacrificar o gêmeo claro.
— Theon.
— Na verdade, não. Fui eu, cinco anos atrás, quando tinha quinze anos. Talvez minha mãe achasse que eu fosse permitir que ela usasse essa mesma espada para me matar, mas estava enganada. Eu reagi e a matei. Theon chegou naquele momento e me viu empunhando uma espada e nossa mãe morta a meus pés. Ele não sabia o que ela era de verdade. Eu mesmo só descobri a verdade recentemente. Ele jurou que eu pagaria com a vida por tê-la matado, e eu sabia que ele nunca compreenderia. Então corri o máximo que pude, sem olhar para trás. Até agora. — Ele riu, e o som saiu seco e oco. — Parece que temos isto em comum: nós dois fomos forçados a matar para nos proteger, uma atitude da qual não podemos nos arrepender, porque, sem ela, não estaríamos vivos hoje.
Magnus não sabia o que dizer. A confissão de Taran o deixou sem fala. Ele se concentrou na movimentação da feira, fechando os olhos com força por um momento.
Quando voltou a abri-los, Taran se afastava dele em meio à multidão. Ele o observou à distância, pensando na conversa e sentindo-se grato por não ter tido que lutar para defender a própria vida naquele dia.
Quando voltaram para a hospedaria, Jonas estava na sala de convivência, como se os estivesse esperando. Ele levantou da cadeira e largou o livro que estava lendo. Magnus notou com surpresa que era o mesmo que tinha lido, sobre vinhos.
— Taran, precisamos conversar — Jonas anunciou. — No pátio não seremos ouvidos por bisbilhoteiros. Felix já está esperando. Você também, vossa alteza.
Magnus inclinou a cabeça.
— Eu?
— Foi o que eu disse.
— Agora estou profundamente confuso. Muito bem. Vamos lá, rebelde.
Atrás da casa havia um espaço a céu aberto que o dono da hospedaria e sua esposa chamavam de pátio. Na verdade, era uma área de grama marcada por uma horta, flores e dois cercados para os animais — um para as galinhas e outro para os porcos gordos que guinchavam alto quando alguém se aproximava.
Magnus e Taran acompanharam Jonas até onde Felix estava, no canto oposto do jardim.
— Temos informação sobre Amara — Jonas disse finalmente. — Ela está aqui em Paelsia.
Magnus tentou não demonstrar insatisfação.
— Informação vinda de quem?
— Há rebeldes por todos os lados, alteza.
O primeiro ímpeto de Magnus foi querer lembrar Jonas que a maioria dos rebeldes havia morrido, mas decidiu se controlar.
— Muito bem. Onde em Paelsia?
— No complexo do chefe Basilius.
— E onde, exatamente, é isso?
— A um dia de viagem daqui rumo ao sudeste. Fico surpreso por você não saber, já que é um ponto importante na Estrada de Sangue de seu pai.
— Estrada Imperial — Magnus o corrigiu.
— Estrada de Sangue — Jonas repetiu, rangendo os dentes.
Magnus decidiu não discutir a questão com um paelsiano, nem tocar no assunto de como ela tinha sido construída tão depressa pelos trabalhadores paelsianos sob ordens de seu pai. Não era à toa que os cidadãos daquele reino tinham recebido Amara tão bem.
— E esse informante também explicou por que ela veio para cá?
— Não.
— Não importa por que ela está aqui — Felix disse. — Essa é nossa chance.
— De quê? — Magnus perguntou. — De matá-la?
— Essa era a ideia.
— Não era, não — Jonas disse, arregalando os olhos para o amigo.
— Matar a imperatriz não muda o fato de que meu pai deu este reino para a família dela. Não muda que os soldados estão tão espalhados quanto manchas de lama. E Ashur? Você o trouxe aqui como se confiasse nele, mas não sabemos qual é o plano dele.
— Ashur é um problema, admito — disse Jonas. — Nic está de olho nele, informando qualquer comportamento incomum.
— Ah, sim. — Magnus cruzou os braços. — Isso deve dar certo. Então, você — ele virou para Felix — quer matar a imperatriz. E você — ele virou para Jonas — quer pagar para ver. — Ele assentiu. — Excelentes decisões. Acho que Amara não terá chance contra essa aliança.
Jonas hesitou.
— Taran, você não planejava matá-lo?
— Sim.
— Estou começando a me animar com essa possibilidade.
— Está claro que — Magnus começou —, se sabemos onde Amara está, a melhor estratégia é mandar homens para obter mais informações sobre os planos atuais dela, por que está aqui e onde escondeu o cristal da água.
Taran resmungou.
— Odeio concordar com ele, mas concordo. Posso ir. Não tenho motivos para ficar aqui sem nada para fazer, olhando para as paredes.
— Também vou — Felix anunciou animado.
Jonas lançou um olhar cauteloso para Felix.
— Você acha que consegue lidar com isso sem fazer nada de errado?
— Claro que não. Mas ainda assim, quero ir. — Felix suspirou. — Prometo que vamos conseguir informações. E só isso.
Magnus preferia entrar em ação, como Felix, e simplesmente varrer Amara do mundo, mas sabia que informações seriam úteis com os dois reinos em guerra.
— Devemos contar a Cleo sobre isso? Ou a Cassian?
— Por enquanto, não — Jonas respondeu. — Quanto menos pessoas souberem, melhor.
Magnus não gostava de guardar segredos de Cleo, mas Jonas tinha razão.
— Tudo bem. Vamos manter esse assunto entre nós quatro.
Jonas assentiu.
— Então, resolvido. Taran e Felix partem amanhã cedo.

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