1 de setembro de 2018

Capítulo 16

IOANNES
O SANTUÁRIO

Quando encontrou Lucia, já fazia uma semana desde que partira do Santuário.
— Ioannes! — Timotheus o chamou quando estava deixando a Cidade de Cristal pela última vez.
Ioannes se esforçou muito para ignorá-lo.
Mas parou quando Timotheus tocou seu braço de maneira tão familiar. Ele se virou para seu mentor, que o encarou com a expressão tensa.
— Fiquei sabendo que pretende se exilar hoje.
— É verdade.
Timotheus balançou a cabeça.
— Não faça isso. Vamos conversar. Podemos resolver tudo. Sei que Melenia encheu sua cabeça com todo tipo de planos e promessas, mas…
— Não tem nada a ver com ela. — A garganta de Ioannes doía por todas as mentiras que andava contando desde que se aliara a Melenia. Abandonar o único lar que conhecia já era difícil o bastante, ainda que fosse, ao mesmo tempo, uma prisão e um paraíso. Mas ter alguém que se importava o suficiente para tentar impedi-lo tornava as coisas ainda piores. — Não posso ficar aqui. Me apaixonei por uma mortal. Meu lugar é ao lado dela.
As pontas dos dedos de Timotheus afundaram em seu ombro.
— Existe outra opção.
— Já pensei muito, e esse é o único jeito.
— Você nunca mais vai poder voltar. Não vai poder assumir a forma de falcão quando sair daqui. Vai perder a imortalidade. Se morrer lá fora, será o fim. Está abrindo mão de tudo.
Ele olhou Timotheus nos olhos. Era seu amigo, para quem sabia que podia contar todos os seus segredos sem ser julgado. Os dois tinham tanta história juntos, mas Melenia o forçara a construir uma muralha definitiva entre eles. Só de pensar em desafiar as ordens dela, Ioannes sentia tanta dor que mal conseguia desempenhar suas funções normais, mal conseguia pensar. O feitiço de obediência de Melenia havia fincado as garras no fundo de sua garganta e não queria soltar.
— Sinto muito. — Ioannes o abraçou por um breve instante, ignorando a ardência das lágrimas se formando em seus olhos. — Adeus, meu amigo.
Timotheus não disse mais nada. Com os olhos fixos no ancião, que agora o observava com uma expressão desolada e solene, Ioannes se transformou em falcão pela última vez. Bateu as asas e levantou voo, em direção ao antigo portal de pedra que lhe permitiria entrar no mundo mortal.
Antes de encontrar a princesa, Ioannes precisava cuidar de um assunto em Paelsia.
A Estrada Imperial que ligava Auranos a Limeros já estava pronta, mas Xanthus tinha ficado no último campo de trabalho abandonado para garantir que a magia permanecesse nas pedras.
Foi ali que Ioannes encontrou o vigilante exilado, curvado na lateral da estrada, com as Montanhas Proibidas se avultando às suas costas como gigantes nada amigáveis.
Ioannes se aproximou, instável sobre as novas pernas mortais. Sabia que eram as mesmas de sempre, mas agora — caminhando sobre o solo de Mítica e sabendo que também era mortal — pareciam diferentes. Fracas.
— Ioannes — Xanthus disse, com um sorriso no canto da boca. — Melenia me disse para esperar sua chegada. É bom revê-lo depois de tanto tempo.
— É difícil acreditar que vinte anos se passaram. — Ioannes deu uma olhada no homem alto dos pés à cabeça. Antes eternamente jovem, Xanthus tinha envelhecido durante o tempo que passara ali, mas seus cabelos cor de bronze e olhos cor de cobre continuavam brilhantes como sempre.
— Pois é. — Xanthus pegou a mão dele e a apertou com firmeza. — Mas nem parece tanto. Bem-vindo ao seu novo lar. Você vai gostar do mundo mortal. Venha, vou preparar algo para comermos. — Ele se virou, fazendo sinal para Ioannes acompanhá-lo, mas o vigilante mais jovem não saiu do lugar.
— Sei o que fez com Phaedra.
Xanthus parou de repente.
— Ela o amava. Sentia sua falta o tempo todo. Achou que estivesse perdido para sempre. Nem posso imaginar o quanto deve ter se sentido traída.
Xanthus encarou Ioannes com seriedade.
— Precisava ser feito.
— Porque Melenia ordenou.
— Phaedra era uma complicação.
— Ela era minha amiga. E sua irmã.
Xanthus franziu a testa.
— Não tive escolha. Melenia ordenou e eu obedeci. Mas juro que ela não sofreu.
— Talvez não tenha sofrido — Ioannes pegou a adaga que estava escondida sob seu manto. — Mas você vai sofrer.
Como presente, Melenia contara a Ioannes sobre Xanthus e permitira que ele tivesse essa breve oportunidade de vingança.
— Você não precisa fazer isso! — Xanthus abaixou e desviou da lâmina.
— Errado. Preciso, sim. Agora que a estrada está pronta, você também é uma complicação. É uma ordem de Melenia, mas uma punição merecida.
Xanthus reagiu e conseguiu cortar a perna de Ioannes com um pedaço afiado de madeira, o que serviu para deixá-lo mais lento.
Mas não foi suficiente para detê-lo.
Logo a adaga de Ioannes encontrou seu alvo, e ele observou a vida se esvair dos olhos do irmão e assassino de Phaedra. Em seus dois mil anos de existência, Xanthus era a primeira pessoa que ele matava. A ideia o fez congelar, eliminando qualquer calor que lhe restasse no coração. Mas também o encheu de determinação.
— Ela ordena e eu obedeço — Ioannes disse. — Assim como você fez.
— Então que seu destino seja igual ao meu — Xanthus sussurrou em seu último suspiro.
Ioannes se afastou e não olhou para trás.
A morte de Phaedra tinha sido vingada. Ele havia concluído a viagem até a Cidade de Ouro. E encontrara a princesa. Como se ela fosse um raio de luz chamando-o, não demorou quase nada para localizá-la em uma cidade que tentava restabelecer a segurança logo depois de um levante rebelde.
De repente, lá estava ela, tão linda quanto lembrava.
Ver Lucia de novo trouxe mais alegria do que acreditava ser possível, o que ajudou a equilibrar um pouco a dor, mas não totalmente. Nunca poderia contar a verdade a ela. Não importava o quanto quisesse, nunca poderia alertá-la para ficar longe dele. Era impossível.
Depois de se recuperar da surpresa, a princesa o levou para o palácio. Assim que chegaram, um bando de guardas os acompanhou imediatamente até a sala do trono, onde o rei e o príncipe Magnus aguardavam. Ambos se viraram quando os dois entraram.
Em um instante, Magnus estava diante de Lucia, angustiado, segurando os braços da irmã.
— O que aconteceu? — ele perguntou. — Você estava bem ali ao meu lado, e logo depois tinha sumido. Achei que estivesse morta!
— Ao que parece — o rei disse — ela está bem viva. Nenhum arranhão. Eu disse que ela sabia se proteger. Não sei por que sempre se recusa a acreditar em mim.
Magnus não tirou os olhos da irmã.
— Você está bem?
Ela assentiu.
— Eu me perdi no meio de toda aquela gente, mas estou bem. Está tudo bem, meu irmão.
Finalmente ele a soltou, e sua expressão tornou-se hostil.
— Você devia tomar mais cuidado. Estava muito perto da beirada da plataforma. Qualquer um poderia tê-la agarrado. — Seus olhos escuros se desviaram para o garoto que aguardava em silêncio ao lado de Lucia. — E quem é você?
Lucia tinha contado a Ioannes muita coisa sobre o príncipe durante o período que passaram juntos em seus sonhos. Sentia-se confortável o suficiente com ele para desabafar sobre sua vida, sua família, suas esperanças e seus desejos. Suas decepções. Seus problemas. Seus medos. Tudo.
— Sim, Lucia — o rei disse. Ele se aproximou dos dois e fez sinal para os guardas saírem, para terem mais privacidade. — Quem é este rapaz?
Ioannes sabia que Lucia não tinha certeza do que dizer sobre ele. Ela podia ser uma feiticeira poderosa, mas hesitava quando se tratava da própria família.
— Meu nome é Ioannes — ele disse, vendo que Lucia não faria as apresentações.
Magnus franziu a testa, estudando o rosto de Ioannes como se ele guardasse a resposta para um enigma especialmente complicado.
— Conheço esse nome. Por que conheço esse nome?
Ioannes ficou olhando para o príncipe, paciente. O garoto estava repleto de fúria, repleto de dúvida e medo e dor. Era triste saber que Magnus imaginava estar apaixonado pela irmã só porque Lucia havia demonstrado uma bondade que ele nunca recebera em nenhum outro lugar naquela vida fria e solitária. Ele não tinha ciúmes do irmão adotivo de Lucia nem acreditava que Magnus fosse um desafio para o afeto de Lucia. Na verdade, sentia pena do príncipe.
E era melhor Magnus não ficar em seu caminho.
— Ioannes é importante para mim — Lucia disse, ousando segurar o braço dele.
Talvez ela não estivesse tão hesitante, afinal — pelo menos não quando se tratava dele. Melenia ficaria satisfeita em saber que Ioannes já estava caindo de novo nas graças da princesa depois de tão longa ausência.
— Ah, ele é importante? — o rei repetiu. — Como?
Ioannes não conseguia decifrar a expressão do rei Gaius, mas sabia que não devia subestimá-lo. O rei não deixaria Ioannes chegar perto da filha se acreditasse que ele não passava de um pretendente vindo de outras terras.
— Melenia me enviou — ele disse, satisfeito ao ver que os olhos do rei se arregalaram no instante em que o nome dela foi mencionado.
— Melenia? — Algo pungente e perigoso logo tomou conta de seu olhar, capaz de intimidar rapidamente alguém menos determinado que Ioannes. — O que sabe sobre Melenia?
Ioannes soltou as amarras da camisa e revelou o peito, mostrando à família real sua marca dourada, evidência de sua ascendência. E de sua magia. As cicatrizes do encanto de Melenia já haviam se curado e desaparecido, mas ainda estavam gravadas em sua alma.
— Ela me mandou aqui porque não tem conseguido entrar em contato. Pede desculpas por qualquer confusão que possa ter causado, mas quer que saiba que cumpre suas promessas e que, de agora em diante, devo representá-la no mundo mortal.
Magnus olhou fixamente para Ioannes, como se uma fera de seis pernas e chifres tivesse acabado de entrar na sala.
— Você é um vigilante.
— Eu era. — Uma pontada de dor o distraiu, dessa vez emocional, e não física. Tinha passado dois mil anos no Santuário… e agora o resto de seus dias estava reduzido à expectativa de vida de um mortal comum. Não podia mais voar como um falcão. Não podia mais visitar sonhos, a menos que Melenia o convocasse. Se pelo menos a escolha de estar ali tivesse sido dele, e não de outra pessoa…
Mas estava feito e não tinha volta.
— Ele está dizendo a verdade — Lucia falou. — Quando fiquei todo aquele tempo adormecida, ele me visitava em meus sonhos. E me mostrou seu lar.
Magnus franziu o cenho.
— Você nunca me contou isso.
— E quando poderia ter contado? — ela perguntou com aspereza. — Você está me evitando como se eu tivesse uma doença contagiosa.
— Em se tratando de algo dessa importância, pensei que me procuraria.
— Eu não tinha certeza se era real. Se ele era real.
— Mas aqui está ele — Magnus disse, olhando para Ioannes com desgosto. — Em carne e osso. E agora, o que devemos fazer com ele? Acomodá-lo aqui no palácio? Alimentá-lo e vesti-lo? Tudo para que possa ficar ali sentado, com seu lindo rosto, transmitindo ordens do Santuário?
Ioannes abriu um sorriso contido para o príncipe insolente.
— Com certeza posso fazer mais para compensar minha estadia. Melenia sugeriu que me tornasse tutor de Lucia, ajudando-a a lidar com os elementia. Posso garantir que tenho muito mais conhecimento do que qualquer outro.
— Foi ideia de Melenia? — A expressão cética do rei se manteve inalterada.
Aquilo podia dar muito errado. O rei era imprevisível. Parecia furioso, tão decepcionado com Melenia por tê-lo ignorado por tanto tempo que seria capaz de jogar Ioannes no calabouço para tirá-lo de perto de Lucia.
Ele até poderia tentar, mas não ia gostar das consequências.
Havia só um final para aquela história, que tinha sido marcado em sua pele pela magia de Melenia.
— É um plano excelente. — Lucia assentiu com entusiasmo. — Ioannes seria um tutor maravilhoso.
— Não gosto disso — Magnus disse. — De nada disso.
— E do que você gosta? — Um lampejo passou pelos olhos de Lucia. — Não pode, uma vez na vida, tentar ir além daquilo que você gosta? Do que você quer?
Ele se encolheu como se tivesse levado um golpe. Mas logo a frieza tomou conta de seus traços.
— Peço desculpas, minha irmã. Só estou tentando protegê-la.
— Não se dê o trabalho — ela respondeu.
Ah, sim. Eles certamente tinham um relacionamento complicado.
O rei analisou um por um, finalmente fixando o olhar na espiral mágica de Ioannes mais uma vez.
— Vamos conversar, você e eu. Quero mais informações sobre Melenia. Sobre isso tudo.
— É claro, majestade.
— Mas ele pode ficar? — Lucia perguntou, cheia de esperança.
Fez-se um longo silêncio, durante o qual o rei analisou Ioannes com mais atenção ainda.
— Sim, e concordo plenamente com o plano de Melenia. Ioannes será um excelente tutor. Se não me engano, acho que nós dois temos o mesmo objetivo para sua magia.
O rei acreditava que Ioannes e os vigilantes estavam atrás da Tétrade, e que ele mesmo a possuiria e controlaria sua magia, tornando-se um deus.
Se ao menos soubesse a verdade…
— Temos, de fato, os mesmos objetivos, majestade — Ioannes confirmou.
O rei assentiu.
— Então vá. As aulas começam amanhã bem cedo, assim que Lucia estiver descansada. Bem-vindo ao meu reino, Ioannes.

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