29 de setembro de 2018

Capítulo 15


NÃO TÍNHAMOS ESCOLHA A NÃO SER CAMINHAR PELA ESCURIDÃO. Havia perigos na noite do deserto, mas também havia ameaças atrás de nós em Fahali. E precisávamos estar bem longe delas quando o sol nascesse. Nem mesmo o comandante Naguib seria estúpido o suficiente para nos seguir pelo deserto no escuro.
A noite era diferente ali, sem uma fogueira de acampamento. Sem risos, música e histórias da caravana para abafar os sons que vinham da escuridão. Coisas que faziam barulho sob a areia na noite do deserto. Coisas que gritavam das montanhas. Agora podíamos ouvir todas elas.
Os integrantes da Joelho de Camelo se aglomeraram bem próximos. O único som que vinha deles era o tilintar da sela dos animais e o som de preces murmuradas. O rosto de Yasmin parecia pálido à luz do lampião que balançava nas costas do camelo mais próximo. Um de seus primos menores tinha dormido em seu colo.
— Três horas até o nascer do sol — Jin disse, observando o céu.
Assenti conforme ele voltava para defender o fim da caravana, enquanto eu permanecia à frente. Sabia que fazia muito tempo que estávamos caminhando. A distância tinha engolido Fahali atrás de nós. A noite parecia muito maior do que jamais havia sido. E eu me sentia menor do que nunca. Então ouvi um som e parei de andar. Tinha alguma coisa ali perto… Me virei devagar, examinando as áreas pouco iluminadas pela lua e pelo punhado de lampiões pendurados nos camelos, os poucos que tínhamos conseguido levar conosco, criando pequenos círculos de luz.
Eu o vi um instante antes de ele saltar. Uma pequena bola de couro viscoso se revelou um carniçal, com membros magros e compridos, asas negras translúcidas, a enorme boca aberta em um guincho.
Atirei. Algumas pessoas da caravana gritaram e abaixaram instintivamente diante do barulho. A bala o acertou bem no meio do peito. Tripas negras se espalharam pela areia. A criatura guinchou novamente. Dessa vez, das profundezas da noite, uma centena de vozes idênticas gritou em resposta.
Yasmin virou o cadáver com o pé enquanto a caravana olhava fixamente em silêncio. Congelada de medo.
— Um pesadelo — ela confirmou.
Eu não via um pesadelo desde criança, quando um deles rastejara para dentro de casa enquanto dormíamos. Minha mãe enfiou uma faca de cozinha nele antes que alcançasse alguém. A criatura não lutou muito. Mas era um pesadelo sozinho, ferido e desesperado. O que eu tinha acabado de matar estava no seu próprio território, onde viajavam em bando.
Eu podia vê-los conforme meus olhos se ajustavam à escuridão. Rastejando pela areia, as asas cheias de tendões ondulando nas sombras. Criaturas que se alimentavam de medo em vez de carne ou sangue. Uma mordida venenosa colocava as vítimas em um sono inquieto preenchido pelos piores pesadelos que a mente poderia criar. Então os pesadelos cravavam os dentes no coração e sugavam o medo que sangrava da primeira mordida. Alguns diziam que eles sugavam a alma da pessoa. A maioria não acordava depois da mordida de um pesadelo. Verifiquei o punhado de balas no bolso.
Não tinha o suficiente para tantas criaturas.
— Todo mundo perto da luz — gritei para a caravana. Carniçais não conseguiam caçar durante o dia. A luz dos lampiões não era exatamente a mesma coisa, mas era o melhor que tínhamos. — Isso não muda nada. Vamos continuar andando e…
— Um andarilho! — disse Oman, o alto.
Levantei a arma, pronta para encarar o novo monstro, procurando na direção que ele apontava.
Só que o homem estava apontando para mim.
Meu sheema, mal amarrado depois da fuga de Fahali, tinha caído quando eu atirara, e agora meu cabelo descia até os ombros, meu rosto exposto.
Oman avançou até mim a passos largos e furiosos. Jin chegou num instante. Ele barrou Oman, pondo a mão no peito dele antes que chegasse até mim, um gesto que avisava que poderia facilmente tornar aquilo doloroso se necessário.
— Pense bem no que vai fazer, amigo.
— Ele é um andarilho — Oman disse, ríspido, embora tivesse o bom senso de não se esforçar para se livrar da mão de Jin. — Acabou de mudar de forma.
— Não. — Parviz levantou um lampião para me ver melhor. — É só uma mentirosa.
— Bem, eu não menti exatamente, só enganei vocês. — Era um alívio falar na minha própria voz, mesmo que estivesse me esforçando para manter um tom casual. — A diferença é que vocês podem culpar a si mesmos tanto quanto a mim. — Eu não estava mais tremendo. Me recusava a tremer, mesmo que a caravana inteira estivesse olhando para mim como se eu fosse uma aberração.
Isra sussurrou um pouco alto demais para Jin:
— Então vocês não são irmãos… — Ela me olhou de cima a baixo. — E cá estava eu pensando que você seria um bom partido para a jovem Yasmin. Devia ter suspeitado, era atenção demais para um irmão.
Parviz me analisou do mesmo jeito que tinha feito em Massil. Eu não sabia o que ele estava enxergando. O mesmo garoto com a arma, talvez, só que com seios e uma cintura bem definida.
— Como devo confiar em uma garota para nos manter vivos?
— Pai, ela nos salvou da forca em Fahali — Yasmin argumentou, mas foi silenciada com apenas uma mão levantada.
— Ela nos trouxe até o deserto à noite. — Parviz acenou para os pesadelos no escuro. — Veja onde estamos agora. — Parviz cuspiu de raiva. — Estaríamos seguros à luz do dia se não fosse por ela.
Aquilo doeu. Depois de quase dois meses de confiança, bastava eu ser uma garota para mudar tudo.
— Vocês estão aqui porque decidiram que o dinheiro era mais valioso do que a vida de vocês — Jin interrompeu. — E agora Amani é sua melhor chance de sobreviver. Eu ouviria o que a garota do deserto com uma arma tem a dizer, se fosse você.
— Pretendo continuar viva esta noite. — Fechei o tambor da arma. Parecia que naquele deserto eu sempre era vista como fraca, simplesmente por não ser homem. — Permaneçam na luz e peguem qualquer coisa de ferro que tiverem. Se alguma coisa se mexer, vamos atirar. — Como mulher, eu havia perdido qualquer autoridade que tivesse.
A caravana olhou para Parviz, cujos olhos se alternaram entre mim e Jin.
— Façam o que ela diz — ele ordenou finalmente, colocando a caravana em movimento. E então, voltando-se para nós, completou: — Protejam-nos até a alvorada e não vou cortar seu pagamento.
Os pesadelos estavam cautelosos, mas famintos. Eles se mantinham fora da luz, mas toda vez que notavam uma sombra saltavam no ar abrindo as asas e bloqueando as estrelas. Então um tiro ecoava e eles caíam se contorcendo na areia.
Eu praticamente atirava às cegas. Os pesadelos eram tão negros quanto a noite ao nosso redor. Pareciam parte da areia até se arremessarem na nossa direção, a luz de tochas os iluminando por apenas um instante antes que fosse tarde demais.
Mas nunca era tarde demais. Eu não errava.
Dava um tiro atrás do outro, em um transe hipnótico enquanto minha mente se rendia às minhas mãos e ao gatilho. A noite era gritos, cheiro de pólvora e o clique do tambor se fechando com balas novas.
Atirei de novo, duas vezes seguidas. Um par de pesadelos caiu e minha arma fez um som indicando a falta de balas. Eu já estava procurando munição nova antes de o último pesadelo parar de estremecer. Meus dedos roçaram três. Só três.
Voltei a mim mesma de repente.
Minhas mãos tremiam um pouco quando inseri as balas na arma. O céu tinha a cor de uma ferida convalescente. Em algum lugar além do horizonte, o sol parecia não ter pressa nenhuma. Eu não sabia se conseguiria fazer aquelas três balas renderem.
Um pesadelo se destacou das sombras a um metro de distância, e eu atirei antes que pudesse vê-lo direito.
Duas balas agora. Mais um pesadelo morto. Dezenas rastejando pela areia. Esfreguei os olhos, cansada.
— Você está bem? — As mãos de Jin estavam no meu ombro, mas seus olhos ainda fitavam o deserto. O brilho distante no horizonte criava um jogo de luz e sombras em seu queixo.
— Eu estou viva — falei. — Você parece estar também.
— Sabe, no mar tem um ditado que diz: “Céu vermelho ao amanhecer, marujos, melhor correr”.
Olhei de relance para o horizonte.
— É um pouco tarde para um alerta. Teria sido útil ontem. — Eu podia sentir minhas mãos doloridas de apertar a arma com tanta força. — Quantas balas você ainda tem?
Jin simplesmente sacudiu a cabeça em negativa. Abri o tambor da minha arma. Meus dedos cansados procuravam uma das balas.
— Não — Jin balançou a cabeça de novo. — Você atira melhor que eu.
— Uma bala para cada um. É justo. Você cobre a traseira, eu pego a dianteira. — Jin hesitou apenas um segundo, então pegou a bala e abriu o tambor de sua arma enquanto eu apontava a minha para o deserto, dando cobertura por tempo suficiente para que recarregasse e recuasse. O sol estava quase nascendo.
Dois deles saltaram ao mesmo tempo. Mirei no segundo. E hesitei. O primeiro estava correndo pela areia, direto para Yasmin. Ela deu um grito. Jin a empurrou para fora do caminho. Ele atirou antes que eu pudesse mirar. E errou.
O pesadelo agarrou seu peito. Seus dentes afundaram em seu coração.
Atirei sem pensar no que aconteceria se eu errasse a criatura e acertasse Jin, e sem levar em conta que já era tarde demais para salvá-lo. Minha última bala atingiu o pesadelo na cabeça, e a criatura cambaleou para longe em um caos de asas se debatendo, morrendo na areia quando o sol irrompeu no horizonte.
O deserto foi preenchido pelo som de gritos e correria, e os pesadelos se enterraram de novo na terra.
Corri para Jin, com minha arma inútil na cintura.
— Ei, ei. — Dei tapinhas leves em seu rosto para não precisar olhar para a enorme ferida em seu peito e para o sangue e o veneno se misturando logo abaixo da tatuagem. Ele parecia ter tomado uma dose de veneno direto no coração. Eu tinha certeza de que o meu estava batendo forte o suficiente por nós dois.
Minhas mãos tremiam tanto que eu não conseguia achar sua pulsação. Seus olhos estavam fechados, seu corpo esparramado, a arma ainda na mão como um soldado caído. Finalmente vi seu peito subir e descer bem devagar, a respiração fraca.
Uma sombra alongada pela primeira luz da manhã caiu sobre nós. Apertei os olhos em direção a Parviz.
— Me ajude. — Eu não era muito fã de implorar, mas já estava de joelhos, então podia aproveitar. Não tinha como a situação ficar pior.
— Ele está condenado, a menos que receba o tratamento adequado — Parviz disse, avaliando Jin. Seu pulso parecia fraco demais na minha mão. — Ainda estamos a dias da civilização.
Tentei lembrar quanto tempo levava para o veneno de um pesadelo atingir o corpo inteiro. Uma noite? Um dia? Menos?
Parviz roçou a barba com o punho.
— Estamos desperdiçando a luz do sol.
Ele estava certo. Me posicionei para apoiar o braço de Jin e botá-lo de pé.
— Me ajude a levar Jin até um camelo.
Parviz franziu a testa, como se eu fosse ruim da cabeça. Imaginei que ele realmente achasse aquilo, já que eu não era homem.
— Ele já está praticamente morto. Os mortos são apenas peso adicional.
— Jin ainda não está morto. — Eu não conseguia evitar pensar que eles me ajudariam se ainda achassem que eu era um garoto. — E todos aqui estariam mortos se não fosse por ele.
— Vamos brindar em gratidão quando estivermos em segurança. — Parviz não hesitou. — Mas até lá estamos com baixíssimas reservas de água, e é desperdício tentar ajudar um garoto que não vai sobreviver até o próximo nascer do sol. Você pode ficar com ele e morrer também, ou vir conosco. É melhor decidir rápido.
Ele estava certo. Jin estava praticamente morto. E eu tinha jurado que não ia morrer naquele deserto por causa de ninguém. Eu tinha dito que não valia a pena morrer por Jin. Não quando eu estava tão próxima de Izman.
Seria tão fácil.
Não. Era Jin. Seria impossível. Eu havia temido a chegada a Dassama porque não queria me separar dele. Queria ficar com Jin mais do que queria ir a Izman. Gostava da vida com ele no deserto. Era como se fôssemos iguais. Como se nos encaixássemos. Emaranhados demais para nos separarmos tão fácil.
Pensei nas ruínas de Dassama. Se Jin morresse, não haveria ninguém para levar a notícia do que os gallans estavam fazendo com nosso povo. O deserto não tinha piedade, tampouco a merecia. Ele deixava os fracos morrerem, quando não os matava de uma vez.
Mas não Jin, que era de outro país. Ele não pertencia ao deserto, pelo menos não o suficiente para morrer com ele. Não importava a idiotice que ele estivesse tentando fazer. Ele não merecia ser deixado para trás por uma garota do deserto querendo salvar a própria pele.
Como Tamid foi deixado. E Noorsham.
— Você pode ir até a civilização ou para o inferno, eu não me importo. — Senti como se a areia estivesse se espalhando em torno dos meus pés até não haver nada além dela no mundo, deixando Izman cada vez mais distante. — Não vou abandonar Jin aqui para morrer.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!