16 de setembro de 2018

Capítulo 15

AMARA
PAELSIA

O deus do fogo tinha sido muito específico sobre o lugar aonde queria que Amara fosse para obter poder infinito. Segundo ele, era um lugar tocado pela magia. Um lugar que até os próprios imortais reconheciam como um centro de poder.
Ela contou a Carlos sobre a mudança de planos. Não ia se mudar para o palácio limeriano. Não, seu destino ficava mais ao sul de Paelsia, próximo ao antigo complexo do chefe Hugo Basilius.
Em vez de questionar as ordens, Carlos planejou tudo no mesmo instante.
Com quinhentos soldados, Amara, Nerissa, Kurtis e o capitão dos guardas viajaram ao reino central de Mítica, que a nova imperatriz ainda não conhecia.
Pela janela da carruagem, ela via com surpresa o gelo e a neve de Limeros derreterem e darem espaço à terra seca, às florestas mortas e à escassa vida selvagem.
— Foi sempre assim aqui? — ela perguntou, assustada.
— Nem sempre, vossa graça — Nerissa respondeu. — Ouvi dizer que houve uma época, muito tempo atrás, que toda Mítica, de norte a sul, era quente e temperada, sempre verde, com pequenas mudanças de uma estação a outra.
— Por que alguém moraria em um lugar assim?
— Os paelsianos não podem escolher seu destino e são conhecidos por se conformarem isso, como se a aceitação tivesse se tornado uma religião em si. O povo é pobre, regido pelas regras que seu ex-chefe e o chefe antes do anterior estabeleceram. Por exemplo, os paelsianos só podem vender vinho legalmente a Auranos, e o vinho é o único produto de exportação valioso deles. Grande parte do lucro é taxado, e essas taxas foram determinadas pelo chefe.
Sim, o vinho paelsiano era famoso pelo sabor adocicado e por sua habilidade mágica de inebriar depressa e de modo prazeroso, sem mal-estar depois. Era o vinho que Amara tinha levado para Kraeshia para envenenar sua família.
O que quer que fosse dito sobre a bebida, ela jurava que nunca a beberia por causa da lembrança.
— Por que não vão embora? — ela perguntou.
— Para onde? Poucos teriam dinheiro para ir ao exterior, menos ainda para construir uma casa em outro lugar que não seja aqui. E os paelsianos não podem entrar em Limeros nem em Auranos sem permissão do rei.
— Tenho certeza de que muitos vêm e vão como querem. As fronteiras não são totalmente monitoradas.
— Não, mas os paelsianos costumam obedecer às leis. A maioria dos paelsianos, pelo menos. — Nerissa recostou na cadeira, as mãos sobre o colo. — Eles provavelmente não vão lhe causar nenhum problema, vossa graça.
Ouvir aquilo era um alívio, no mínimo, depois de tantos problemas no passado.
Amara continuou observando a paisagem árida pela janela da carruagem durante os quatro dias de viagem desde a partida da quinta de lorde Gareth, esperando ver a terra e a morte se transformarem em verde e vida, mas isso não aconteceu. Nerissa garantiu que mais a oeste, mais perto da costa, a paisagem melhoraria, e que a maioria dos paelsianos construía casas em vilarejos naquele pedaço da terra; poucos construíam mais perto dos picos assustadores e sombrios das Montanhas Proibidas, a leste.
Aquele era o reino mais distante da fartura de Kraeshia que ela já tinha visto, e Amara estava torcendo para não precisar passar muito tempo ali.
Na última etapa da viagem, o comboio usou a Estrada Imperial, que se estendia por Mítica de modo curioso, começando no Templo de Cleiona, em Auranos, e terminando no Templo de Valoria, em Limeros. Passava direto pelos portões de entrada do complexo de Basilius.
Os portões estavam abertos e um homem baixo de cabelo grisalho os esperava, cercado por uma dúzia de paelsianos enormes usando roupas de couro, com cabelo preto preso em tranças minúsculas.
Quando Carlos ajudou Amara a desembarcar da carruagem, o homem fez um leve sinal com a cabeça para ela.
— Vossa graça, sou Mauro, o antigo conselheiro do chefe Basilius. Seja bem-vinda a Paelsia.
Ela olhou para o homem, bem mais baixo do que ela.
— Então, você ficou responsável por este reino depois da morte do chefe?
Ele confirmou.
— Sim, vossa graça. E estou às suas ordens. Por favor, venha comigo.
Junto com o grupo principal de guardas pessoais da imperatriz — incluindo Carlos —, Amara e Nerissa acompanharam Mauro pelos portões de pedra. Um caminho de pedra se estendia pelo vilarejo murado, levando-os por pequenas casas de sapê parecidas com as que Amara tinha visto enquanto atravessava várias cidades antes de chegar ao complexo.
— Naquelas casas ficavam as tropas do chefe. Infelizmente, quase todos foram mortos na batalha pelo palácio auraniano. — Mauro indicava os pontos de interesse conforme caminhavam pelo complexo, que no passado fora o lar de mais de dois mil cidadãos paelsianos.
Havia comércios que antes forneciam pão, carne, legumes e frutas, trazidos do Porto do Comércio. Mauro mostrou um espaço onde ficavam as bancas dos vendedores locais, que podiam atravessar os portões todo mês.
Outra área, uma clareira com bancos de madeira, tinha sido usada como arena para diversão — duelos, lutas e disputas de força que o chefe costumava gostar de assistir. Outra clareira surgiu com restos de fogueiras, onde o chefe fazia banquetes.
— Banquetes… — Amara comentou surpresa. — Em um reino como este, banquetes são a última coisa que eu esperaria de um líder.
— O chefe precisava de prazeres para abastecer a mente e conseguir explorar os limites de sua força.
— Certo — ela disse. — Ele acreditava ser um feiticeiro, não?
Mauro olhou para ela constrangido.
— Sim, vossa graça.
Para Amara, o chefe Basilius parecia um homem egoísta e pobre de espírito. Ela estava contente em saber que Gaius o havia matado depois da batalha auraniana. Se ele não o tivesse matado, ela teria feito isso.
Apesar do calor do dia com o sol já forte, Amara sentiu a temperatura ao seu redor aumentar ainda mais.
— Sei que não parece grande coisa, pequena imperatriz, mas garanto que aqui é exatamente onde precisamos estar.
Amara não respondeu, mas reconheceu a presença de Kyan com um meneio de cabeça.
— Estamos perto do centro do poder aqui — ele continuou. — Posso sentir.
— Aqui — Mauro indicou um grande buraco no chão, com cerca de dez passos de circunferência e vinte passos de profundidade para dentro da terra seca — é onde o chefe costumava deixar os prisioneiros.
Amara olhou para dentro do buraco.
— Como eles desciam?
— Alguns eram baixados com uma corda ou escada. Outros simplesmente eram jogados. — Mauro fez uma careta. — Peço desculpas se a imagem não lhe agrada, vossa graça.
Ela o encarou com uma expressão fulminante.
— Garanto, Mauro, que provavelmente não há nada que você possa me contar sobre como os prisioneiros eram tratados que eu consideraria surpreendente ou intolerável.
— Claro, vossa graça. Peço desculpas.
Amara estava cansada dos homens e seus falsos pedidos de desculpa.
— Carlos, cuide para que meus soldados recebam aposentos adequados depois dessa longa viagem.
— Sim, imperatriz. — Carlos fez uma reverência.
— Vossa graça ficará aqui, imperatriz Amara. — Mauro indicou a construção de três andares, feita de terra e pedra, a maior e mais forte do vilarejo. — Espero que seja do seu agrado.
— Com certeza será.
— Organizei tudo para levá-la a uma feira mais tarde e mostrar o trabalho de seus novos súditos paelsianos. Há, por exemplo, alguns bordados lindos que podem ser de seu interesse. E alguns enfeites com contas para seu belo cabelo. Uma comerciante virá da costa até aqui para trazer uma tinta de frutas silvestres que ela criou para pintar os lábios… — Mauro parou de falar ao ver a expressão contrariada da imperatriz. — Algum problema, vossa graça?
— Você acha que estou interessada em bordados, enfeites e tintas para os lábios? — Ela esperou a resposta, mas ele só abriu a boca sem emitir nenhum som.
De trás dela, ouviu-se uma risada.
Amara virou imediatamente, os olhos fixos no guarda — seu guarda — que mantinha um sorriso no rosto.
— Está achando engraçado? — ela perguntou.
— Sim, vossa graça — o guarda respondeu.
— Por quê?
Ele olhou para os compatriotas ao redor, e nenhum deles fez contato visual.
— Bem, porque é do que as mulheres gostam: maneiras de ficarem mais bonitas para os homens.
O guarda disse isso sem hesitar, como se fosse óbvio e nada ofensivo.
— Minha nossa — Kyan disse no ouvido dela. — Que insolente, não?
Ela concordava.
— Me diga uma coisa… Você acha que eu deveria comprar tinta para os lábios para agradar meu marido quando ele finalmente voltar para mim? — ela perguntou.
— Acho que sim — ele respondeu.
— Esse é meu objetivo como imperatriz, claro. Agradar meu marido e qualquer outro homem que por acaso olhe para mim.
— Sim, vossa graça.
Era a última coisa que ele diria na vida. Amara fincou a adaga que trazia consigo no homem e viu os olhos dele se arregalarem de surpresa e dor.
— Se algum de vocês me desrespeitar — ela disse, lançando um olhar aos outros guardas que a encaravam, surpresos —, vai morrer.
O guarda que havia dito o que não devia caiu no chão. Ela sinalizou para Carlos retirar o corpo, e ele obedeceu sem hesitar.
— Muito bem, pequena imperatriz — Kyan sussurrou. — Você me prova mais seu valor a cada dia que passa.
Amara abriu um sorriso na direção de Mauro, cuja expressão era de medo.
— Estou ansiosa para ir à feira. Parece incrível.


Mais tarde, escoltadas por Mauro e pelos guardas reais, Amara e Nerissa exploraram a feira, composta por vinte bancas cuidadosamente escolhidas que, como o prometido, vendiam, em sua maioria, produtos fúteis — principalmente itens de beleza e de moda.
Amara ignorou os lenços e vestidos bordados, a tinta para os lábios, os cremes para remover manchas e os bastões de carvão para delinear os olhos e se concentrou nos comerciantes — paelsianos, jovens e velhos, com expressão cansada, mas esperançosa, quando ela se aproximava. Sem medo, sem desespero, só esperança.
Que estranho encontrar isso em um reino dominado, ela pensou. Mas a ocupação kraeshiana de Mítica tinha sido, até aquele momento, quase totalmente pacífica, em especial em Paelsia. Ainda assim, Carlos havia contado sobre grupos rebeldes que conspiravam contra ela, tanto em Limeros quanto em Auranos.
Não era um problema para Amara. Os rebeldes eram uma praga inevitável, mas que em geral podia ser combatida com facilidade.
Ela observou quando Nerissa se aproximou de uma banca para ver um lenço de seda que o comerciante mostrava a ela.
— Fico feliz em ver que você está se habituando — Kyan sussurrou carinhosamente no ouvido dela. Os ombros de Amara ficaram tensos com a voz dele.
— Estou fazendo o melhor que posso — ela respondeu em voz baixa.
— Infelizmente tenho que deixá-la por um tempo enquanto procuro a magia de que precisamos para realizar o ritual.
Pensar nisso a assustou. Eles tinham acabado de chegar!
— Agora? Vai embora agora?
— Sim. Em breve, retomarei minha glória, e você será mais poderosa do que pensa. Mas precisamos da magia para finalizar isso.
— A magia de Lucia. E seu sangue.
— O sangue dela, sim. Mas não precisamos da feiticeira em si. Vou encontrar uma fonte alternativa de magia. Mas precisaremos de sacrifícios; sangue para selar a magia.
— Compreendo — ela sussurrou. — Quando você volta?
Amara esperou, mas não houve resposta.
Então, ela sentiu sua saia mexer e olhou para baixo. Uma menininha, que não devia ter mais do que quatro ou cinco anos, com cabelo bem preto e sardas no rosto bronzeado, aproximou-se com certa hesitação, oferecendo uma flor.
Amara aceitou a flor.
— Obrigada.
— É você, não é? — a menina perguntou esbaforida.
— Quem você acha que sou?
— Aquela que veio salvar todos nós.
Amara sorriu e lançou um olhar para Nerissa, que estava ao seu lado usando um lenço colorido, e então sorriu para a criança.
— É o que você acha?
— Foi o que minha mamãe me disse, então deve ser verdade. Você vai matar a bruxa má que machuca nossos amigos.
Uma mulher se aproximou, claramente envergonhada, e pegou a mão da menininha.
— Perdoe-nos, imperatriz. Minha filha não teve a intenção de perturbá-la.
— Não me perturbou — Amara disse. — Sua filha é muito corajosa.
A mulher riu.
— Está mais para teimosa e tola.
Amara balançou a cabeça.
— Não, nunca é cedo demais para as meninas aprenderem a dizer o que pensam. É um hábito que as fará crescer mais corajosas e fortes. Diga, você acredita no que ela disse? Que vim salvar todos vocês?
A expressão da mulher se tornou mais séria, e seu cenho se franziu com preocupação e dúvida. Ela encarou os olhos de Amara.
— Meu povo sofreu por mais de um século. Estávamos sob o comando de um homem que tentou nos fazer acreditar que ele era feiticeiro, cobrando impostos tão altos a ponto que, mesmo com os altos lucros das vinícolas, não conseguíamos nos sustentar. A terra que chamamos de lar está se desfazendo sob nossos pés enquanto estamos aqui conversando. Quando o rei Gaius venceu Basilius e o rei Corvin, muitos de nós achamos que ele nos ajudaria. Mas isso não aconteceu. Nada mudou, só piorou.
— Sinto muito em ouvir isso.
A mulher balançou a cabeça.
— Mas então a senhora chegou. Aquela feiticeira má passou por aqui destruindo tudo, vilarejo por vilarejo, mas ela desapareceu quando a senhora chegou. Seus soldados têm sido rigorosos, mas justos. Eles acabaram com quem discordava, mas essas pessoas não fazem falta: seus detratores são os mesmos homens que espalharam a discórdia em nosso reino depois que o exército de Basilius parou de oferecer a pouca proteção que oferecia. Então, se acredito, como muitos aqui acreditam, que a senhora chegou para nos salvar? — Ela ergueu o queixo. — Sim, acredito.
Quando os guardas levaram Amara para longe da mulher e da filha, em direção à outra área da feira, aquelas palavras ficaram em sua mente.
— Posso fazer uma sugestão ousada, vossa graça? — Mauro perguntou, e ela olhou para o homenzinho que a seguia como um cão adestrado.
— Claro que pode — ela disse. — A menos que queira sugerir que eu compre tinta para os lábios.
Ele empalideceu.
— De modo algum.
— Então, vá em frente.
— O povo paelsiano está aberto a sua liderança, mas a notícia precisa ser espalhada. Sugiro abrir os portões do complexo para permitir que os novos cidadãos entrem para ouvi-la falar sobre seus planos para o futuro.
Um discurso, ela pensou. Era algo que Gaius gostaria muito mais de fazer do que ela. Mas Gaius não estava lá. E agora que tinha o deus do fogo para aconselhá-la sobre como acessar a magia da esfera de água-marinha, não havia mais motivos para deixar o rei viver por muito mais tempo.
— Quando? — ela perguntou a Mauro.
— Posso espalhar a notícia agora mesmo. Milhares virão dos vilarejos vizinhos para ouvi-la. Talvez em uma semana?
— Três dias — ela disse.
— Três dias parece perfeito — ele concordou. — Será maravilhoso. Muitos paelsianos, de braços e coração abertos, estão prontos a obedecer a todas as suas ordens.
Sim, Amara pensou. Um reino pronto para fazer o que ela mandasse sem questionar, que aceitaria uma mulher como líder sem discutir, seria incrivelmente útil.

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