3 de setembro de 2018

Capítulo 14

LUCIA
LIMEROS

Com a ajuda das bruxas pelo caminho, Lucia e Kyan encontraram quatro dos portais de pedra.
Infelizmente, a magia de todos tinha sido removida.
Kyan estava quase certo de que Timotheus tinha enviado seus lacaios do Santuário para desativar cada uma das rodas. A cada nova descoberta e decepção, Kyan ficava mais furioso. E Lucia sabia que, quanto mais furioso ficasse, mais pessoas morreriam.
Depois de deixar Magnus e a terceira roda para trás, os dois viajaram para um campo vasto e deserto no centro de Limeros para encontrar a quarta, que estava enterrada bem fundo na neve.
— O Vigilante deve ter a si mesmo em muita consideração — Kyan rosnou, andando de um lado para o outro diante da roda. — Mas ele não vencerá.
Enquanto andava, um calor intenso emanava de Kyan, até que a neve ao redor deles derreteu, e ambos foram cercados por um mar de chamas. Lucia permaneceu parada e em silêncio enquanto Kyan reclamava de Timotheus, mas sua paciência estava acabando. Ela sabia que Kyan tinha temperamento forte, é claro, mas desde a visita ao palácio limeriano passou a questionar sua relação com ele.
Como aquele deus elementar onipotente, alguém que Melenia desejou por milênios, podia ser tão imaturo quanto um bebê?
Mas não. Ele não era onipotente. Se fosse, não precisaria de sua ajuda.
— Seu acesso de raiva já acabou? — ela perguntou.
Kyan olhou feio para ela, os olhos ainda de um azul brilhante.
— Quase.
— Ótimo. Porque isso está ficando cansativo.
— É mesmo? Minha jornada para destruir meu inimigo e me reunir à minha família está se tornando cansativa para você, é isso?
— Não. Mas tudo isso com certeza está. — Ela apontou para o campo em chamas.
— Achei que apreciaria ser aquecida neste dia gelado. Estava enganado. — De repente, suas íris voltaram à cor de âmbar, e as chamas a seu redor desapareceram. Ele levantou uma sobrancelha. — Melhor assim? Certifique-se de que não vai sorrir, pequena feiticeira. Vai arruinar o olhar austero que tem praticado.
— Não tenho intenção de sorrir. Sabe que ainda estou furiosa pelo que fez com Magnus.
— Seu irmão me desrespeitou.
— Ele não sabe quem você é.
— Exatamente.
— Então, em vez de poupá-lo por sua ignorância, decidiu matá-lo?
Toda a raiva na expressão de Kyan se esvaiu ao abrir um sorriso charmoso para Lucia.
— Eu não diria que descarregar minha fúria sobre ele foi exatamente uma decisão. A magia do fogo é quem sou. O que sou.
Ela cruzou os braços e começou a se afastar dele.
— Não é desculpa. Deixe Magnus fora disso. Se machucá-lo, de qualquer forma, não vou mais ajudá-lo.
Lucia não lidou bem com o fato de ter torturado Magnus com sua magia por vontade própria até ele falar a verdade. Ainda assim, se seu irmão não tivesse resistido, ela não teria tido necessidade de infligir tanta dor.
Causar dor a Cleo, entretanto, não a aborreceu nem um pouco.
Alcançando-a, Kyan começou a andar a seu lado.
— Timotheus merece morrer.
— Então morrerá. — Ela assentiu. — Só não entendo por que está com tanta pressa de arrancá-lo do Santuário. Você acabou de despertar. E é tão imortal quanto ele.
— Esperei uma eternidade para ser livre, pequena feiticeira. Por que devo esperar mais um dia para saber que isso será permanente? — Ele segurou o braço dela, reduzindo sua velocidade e fazendo-a parar. — Sei que está com raiva de mim, e é a última coisa que queria que acontecesse. Mas acho que posso me redimir.
— É mesmo? — Ela olhou para ele, cética. — Como?
— Vamos encontrar sua verdadeira família.
Ela ficou sem ar.
— Agora?
Kyan sorriu.
— Você está certa, minha vingança pode esperar alguns dias. Mas você esperou dezesseis anos para descobrir quem é de verdade.
As bruxas que os haviam ajudado a encontrar as rodas também tinham fornecido informações sobre a profecia de Lucia. Os dois descobriram que, na noite em que Lucia nasceu, as estrelas tinham se alinhado, levando várias bruxas a viajar a Paelsia para encontrá-la. De acordo com o boato transmitido por uma delas, duas irmãs com controle sobre a magia de sangue tiveram sucesso. Uma delas era Sabina, a bruxa que Lucia tinha matado muitos meses antes no palácio limeriano, quando seus poderes começaram a despertar. Quem dera tivesse esperado para esmagar o crânio da mulher e atear fogo nela só depois de perguntar sobre suas origens.
— Tudo bem, vamos — Lucia disse, o entusiasmo crescendo no peito. — Estamos perto de descobrir a verdade. Posso sentir.
— Então está decidido. — Kyan confirmou. — Amanhã vamos partir para Paelsia.


No segundo em que fechou os olhos para dormir, Lucia foi assombrada pela imagem de Magnus no chão do palácio.
A alegria e o alívio dele quando ela se aproximou.
A confusão quando ela não se jogou imediatamente nos braços dele.
A incerteza quando ela o beijou.
E a dor quando ela extraiu a verdade dele, com violência e contra sua vontade.
É assim que sou agora, querido irmão, ela pensou. É assim que sempre fui destinada a ser.
Com essa afirmação, ela finalmente foi tomada por um sono, e rezou para não sonhar.
Infelizmente, suas preces não foram atendidas.
Em seu sonho, ela estava em um prado. Mas não era um prado qualquer. Era o prado do Santuário, o mesmo onde havia encontrado Ioannes, também em sonho. Maçãs vermelhas como rubis pendiam das árvores ao redor, o céu estava radiante como uma safira, e o sol brilhava sobre o esplendor que a cercava.
Era o último lugar no mundo onde queria estar.
Um falcão voava em círculos bem alto no céu, para depois descer e pousar em uma árvore próxima.
Não é Ioannes.
Não pode ser.
Ainda assim, uma pequena parte de seu coração vinha alimentando a esperança de que talvez, apenas talvez, ele ainda pudesse visitá-la. Quando a existência de um imortal chegava ao fim, seu corpo retornava à magia elementar que o originara. Ele não deixava um cadáver para trás, a menos que tivesse vivido como mortal por muitos anos.
Seria possível ele ainda conseguir encontrá-la em sonhos?
Ela tentou se aproximar do pássaro.
— Ioannes?
O falcão levantou a cabeça e desapareceu diante de seus olhos.
— Sinto muito em dizer que, não, não sou Ioannes.
Lucia se virou. Diante dela estava um jovem que vestia um manto branco como os usados por sumos sacerdotes. Mas quase todos os sacerdotes que Lucia conhecia eram velhos, enrugados e feios — diferentes daquele homem, que era tão bonito quanto Ioannes.
— Bonito? — ele perguntou.
Ela engasgou.
— Você pode ler mentes.
— Apenas em sonhos. Como no seu agora.
— Quem é você? — ela indagou.
— Acho que já sabe a resposta para essa pergunta — ele respondeu, andando ao redor dela.
— Timotheus.
Ele confirmou, abrindo um leve sorriso.
— E você é Lucia Eva Damora, princesa de Limeros. A feiticeira renascida. O rei deu a você o nome de Eva. Que previsível.
Então lá estava a criatura que havia aprisionado Kyan e o mantido longe de sua família por incontáveis séculos. Um monstro tão cruel quanto Melenia.
Os punhos dela brilharam com as chamas, e Lucia estreitou os olhos.
— Você cometeu um erro ao me atrair para este sonho.
— Oh, não me insulte, criança. — Ele agitou o punho, e o fogo dela se apagou.
Ela olhou para as próprias mãos e, disfarçando a consternação, tentou reacender sua magia do fogo. Mas não conseguiu conjurar nem uma faísca.
— Vamos tentar nos entender desde o início — Timotheus disse. — Você não tem poderes aqui. Eu controlo este sonho.
— Este sonho é meu. E quero acordar.
Durante um longo silêncio, Timotheus não fez nada além de ficar parado diante dela e observá-la. Por fim, em um tom calmo e controlado, disse:
— Nunca entendi por que Ioannes se entusiasmava tanto com você. Até agora, não fez nada que tenha me impressionado. Dizem que é tão poderosa quanto Eva, mas mesmo que passasse os próximos quinhentos anos vivendo e respirando nada além dos elementia, teria apenas uma fração da grandeza dela.
Ela avançou, tentando atingi-lo. Se não podia usar magia, usaria a força bruta. Mas, quando moveu o punho, não acertou Timotheus, mas uma superfície invisível, sólida e dura como pedra.
Ela gritou quando uma dor inimaginável tomou conta de seu braço.
— Como ousa! — Ela o atacou, lutando contra sua insignificância para tentar arranhar e rasgar seu rosto, mas a barreira invisível e mágica que ele havia manifestado a impedia de tocá-lo.
— Pare de agir como uma criança.
Ele agitou o punho de novo e a fez voar para trás e se chocar contra um tronco de árvore áspero e grosso, arrancando o ar de seus pulmões.
— Me deixe ir! — ela disse, ofegante. — Me deixe acordar! Não quero ficar aqui com você. Esse prado era meu e de Ioannes, e você só está destruindo tudo.
Timotheus a observou com um olhar turbulento que parecia de ouro fundido, enchendo-a de repulsa.
— Ioannes desistiu da imortalidade para ficar com você.
— A pedido de Melenia.
— Você fala como se a parceria deles fosse amigável. Melenia o usou.
— E ele permitiu!
— Nossa, como você é teimosa. Muito bem. Não vou mais macular as lembranças que tem deste local imaginário. — De repente, o ar começou a girar e brilhar, e o cenário ao redor deles começou a se transformar.
Lucia levantou e se viu nos jardins de gelo do palácio limeriano. Timotheus estava parado à sua frente, vestindo manto negro e botas de couro, com a mesma expressão de ódio que tinha no prado.
— Agora que provei que estou no controle aqui, podemos começar — Timotheus disse.
— Começar o quê? — ela resmungou.
— O que o deus do fogo lhe contou? O que ele disse que queria?
— Deus do fogo? — Ela ofereceu um leve sorriso. — Não faço ideia do que está falando.
— Ele acha que pode me matar?
— Por que alguém desejaria matá-lo, Timotheus? — ela perguntou. — Para ser sincera, não consigo imaginar tal coisa, dada a maneira gentil e respeitosa como me tratou até agora.
— Ele contou o que planeja fazer depois que eu estiver morto?
Ela respirou fundo, ignorando o coração acelerado.
— Suas perguntas não fazem sentido para mim e não vou responder a nenhuma delas.
— Você matou Melenia — Timotheus afirmou, sem nenhum traço de dúvida no tom da voz.
— Tem certeza?
Ele a observou, ignorando suas respostas evasivas.
— Você drenou a magia dela. Ioannes lhe ensinou esse truque. Muito engenhoso da parte dele. Parece que ele tinha mais controle sobre seu livre-arbítrio do que eu imaginava.
— Como você...? — Mas então ela parou, porque, de repente, percebeu que Timotheus sabia sobre aquela noite no templo. No sonho, ele podia ler a mente dela e, portanto, também podia ver suas memórias. Todos os Vigilantes podiam fazer isso? Ioannes também tinha essa habilidade?
— Não, ele não tinha. — Timotheus disse, respondendo à pergunta silenciosa. — Embora pudesse ser considerado antigo em seu mundo, Ioannes era um dos mais jovens entre nós. Eu, entretanto, não sou tão jovem. Sou um dos primeiros imortais criados para proteger a Tétrade e tudo o que há para além do Santuário.
— Assim como Melenia — ela disse.
Ele assentiu.
— Havia seis de nós no começo.
— Agora você é o único que restou. — Ela levantou o queixo. — Por falar em imortalidade...
— Somos imortais. Não indestrutíveis.
— Muito obrigada por lembrar — Lucia disse, o peito doendo ao pensar em Ioannes mais uma vez.
— Kyan está te iludindo. Ele não se importa com você. Está manipulando você para chegar até mim.
— Ele não está me manipulando. Concordei em ajudá-lo.
— Então parece que Lucia Damora é capaz de dizer a verdade. — Ele balançou a cabeça, e então olhou para ela com algo que Lucia reconheceu como piedade. — Está tão cheia de raiva, dor e pesar... Ainda assim, em vez de deixar que essas emoções a permeiem e a tornem mais forte, escolhe descarregá-las no resto do mundo para que outros também possam sentir sua dor.
— Já acabamos? — Lucia perguntou, ríspida, tentando ao máximo não pensar em nada que Timotheus pudesse usar contra ela. — Estou ficando muito entediada.
— Acha que essa armadura que criou vai protegê-la, mas é apenas uma distração. Debaixo dela, você ainda é a mesma garota mimada e egoísta de sempre.
Ela ficou boquiaberta. Se conseguisse conjurar pelo menos uma fração de sua magia, Timotheus já teria sido engolido pelas chamas naquele momento.
— Kyan está certo — ela resmungou. — Você é exatamente igual a Melenia. E merece ser destruído tanto quanto ela. Embora eu suponha que sua morte não o pegará de surpresa, não é?
— Acha que fui surpreendido pela morte de Melenia, criança?
— Pare de me chamar de “criança” — ela disse, rangendo os dentes.
— Eu vi a morte dela — ele disse, apontando para a têmpora. — Eu a vi há quase dezessete anos.
— Você “viu”? — Ela franziu a testa. — Pode ver o futuro, também?
— De vez em quando.
Lucia mal podia esperar para fugir daquele monstro e voltar para Kyan, mas estava muito curiosa. Quanto mais aprendesse sobre ele, mais poder teria quando finalmente se encontrassem em carne e osso.
— Todos os Vigilantes têm habilidades proféticas como a sua? — ela perguntou. — Melenia fez meu pai acreditar que ele seria poderoso se a escutasse, que ela era capaz de ver seu futuro. No entanto, ela não viu o próprio destino.— Melenia não tinha o dom da visão. Se tivesse, teria sido uma Vigilante bem diferente. — Então você é o sortudo?
— Sortudo? — Mais uma vez, ele não sorriu. Sua expressão se manteve melancólica enquanto a encarava com aqueles olhos dourados, adequados para seu jovem rosto dourado. — Quando a magia de Eva foi roubada, herdei suas visões. Então, sim, sou o único no Santuário sortudo o bastante para ver todos os futuros possíveis o tempo todo, passando pela minha mente sem serem convidados.
— Futuros possíveis? — Lucia exclamou.
Ele ficou tenso.
— Escolhas, criança. A liberdade de escolha faz toda a diferença. Por exemplo, você escolheu auxiliar o deus do fogo em sua jornada para me destruir. Essa escolha determina tanto o seu destino quanto o meu.
— Você viu? Meu futuro?
— Vi o suficiente.
— Pode compartilhar alguma coisa do que viu?
— Não.
Ela sentiu o corpo todo enrijecer de fúria.
— Então tenho certeza de que viu o dia em que Kyan e eu finalmente encontramos uma roda que você não tenha alterado.
— Ah, criança. Está tão imersa nisso que nem percebeu que está se afogando. Está certa, enviei meus lacaios para atrasá-los. Mas não para impedi-los. Não para matá-los.
Ela respirou fundo, perplexa com a confissão de Timotheus e com o que aquilo significaria se fosse verdade.
— Enviei meus lacaios a outras missões, também. Missões com o objetivo de mudar certas visões que considero inaceitáveis ou que comprometem o que devo proteger. Mortais são muito frágeis. São criaturas tolas que dançam em direção à própria morte a cada decisão idiota que tomam. Mas isso não muda o fato de que toda vida mortal é preciosa. Alguns mortais simplesmente requerem mais proteção do que os outros.
— Mortais como eu?
— Não, não mortais como você. Os outros precisam ser protegidos de você e seu novo amigo. Lembre-se de uma coisa, criança.
— Já disse para parar de me chamar de “criança” — ela rosnou.
— Lembre-se: toda magia tem um preço. Um preço que não é revelado até que o dano já tenha sido causado.
— Se estou além da salvação, se já me afoguei, se sou tão perigosa que todo o mundo mortal é ameaçado pela minha existência, então o quê, Timotheus? O que quer de mim?
Ele se aproximou um pouco mais, encarando-a nos olhos.
— Preciso que acorde, garota estúpida.
Com um suspiro, ela sentou na cama com os olhos bem abertos, observando frenética o quarto escuro e vazio.
— Obrigado por se apresentar para mim, Timotheus — ela sussurrou.
Kyan estava certo — aquele Vigilante precisava morrer.

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