29 de setembro de 2018

Capítulo 14

DE FAHALI, AS MONTANHAS PARECIAM DENTES TORTOS contra o pôr do sol. Amonpour ficava atrás delas, do outro lado do vale de Dev. A fronteira significava soldados. Fomos parados nos portões pela guarda da cidade, mirajins com cara de tédio vestindo um uniforme amarelo pálido, vasculhando preguiçosamente nossos alforjes enquanto papeavam com Parviz. A maior parte da caravana sentou na areia, apoiando-se nas muralhas enquanto as sacolas eram revistadas.
Tínhamos caminhado praticamente sem descanso desde Dassama, parando apenas nas horas mais escuras da noite, quando continuar poderia significar a morte por causa dos carniçais em vez da sede.
Eu lembrei do que Jin tinha dito na nossa primeira noite no deserto: ali os fracos não sobreviviam. E ainda estávamos vivos. Éramos mirajins e tínhamos sobrevivido. Mesmo com as pernas falhando eu nunca estivera mais orgulhosa de ser uma garota do deserto, viajando com a Joelho de Camelo.
Yasmin brincava distraída com uma moeda, refletindo a luz do sol. Uma expressão de preocupação brilhou em seu rosto mais rápido do que o reflexo da luz no metal, e desapareceu na mesma velocidade. Ela fechou a mão com força em torno da moeda de meio louzi. Parviz desviava o olhar constantemente para observar o entorno enquanto o guarda revistava seus pertences, suas costas parecendo tensas demais. Levei a mão à arma sem ter muita certeza do que temia.
Olhei em volta, procurando Jin. Achei-o a uns bons vinte passos de distância, abaixando o chapéu enquanto se afastava do acampamento. Esquecendo por um momento do cansaço e das pernas doloridas, levantei e corri para alcançá-lo.
— Ei!
Dei um empurrão no ombro dele, chegando um momento antes que Jin pudesse desaparecer virando a esquina. Em um único movimento, Jin segurou meu punho, a outra mão já puxando a arma antes de se dar conta de que era eu. Ele estava mais aflito do que alguém descalço na areia quente.
— Você já devia saber que não se deve chegar de mansinho desse jeito, Bandida. — Jin baixou o braço, tentando manter um ar mais casual. Não mordi a isca.
— E você já devia saber que não tem como fugir sorrateiramente de mim. — Estávamos distantes o suficiente da Joelho de Camelo para que não nos ouvissem, mas mantive a voz baixa por via das dúvidas. — Você está escondendo alguma coisa.
Jin riu, mas não parecia ter achado graça. Era como se não soubesse por onde começar. Quando passou a mão pelo cabelo, seu sheema caiu. Agora eu podia vê-lo claramente, à luz do dia, pela primeira vez em semanas.
— Tem muitas coisas que você não sabe, Amani.
Era verdade. Jin não me contava muitas coisas. Havia poucos momentos em que as paredes erguidas em torno dele rachavam e eu vislumbrava algo através delas, quando Jin cometia um deslize e mencionava um irmão, ou a mãe morta, mas ele fechava essas brechas bem rápido.
— Então, o que eu não sei sobre Dassama? — A lembrança da areia queimada pairava desconfortável entre nós, matando qualquer tentativa de piada que ele pudesse fazer. Ambos tínhamos visto uma cidade inteira destruída pelas chamas. Jin mal falou comigo depois daquilo. Como se estivesse me evitando.
— Amani… — Ele estendeu a mão para mim, baixando-a a tempo de impedir um gesto que não faria sentido entre irmãos, caso a caravana visse. Olhei de relance para trás. Eles ainda estavam sendo revistados no portão. Cachecóis coloridos foram desenrolados por um dos guardas, que levou uma bronca da mãe de Parviz enquanto ela os pegava de volta do chão.
— Você não precisa seguir pelo deserto depois daqui se não quiser.
Voltei toda a minha atenção para Jin. Não era isso que eu estava esperando. Ele me observava com cuidado, medindo minha reação.
— Como assim? — perguntei, cautelosa.
— Dá pra pegar um trem. Ele parte de um entreposto a algumas horas de caminhada de Fahali. Vai direto para Izman. Você pode beber áraque à sombra das muralhas do palácio em poucos dias, se quiser.
Um trem. Que nem aquele do qual Jin havia me arrancado tantas semanas antes, do outro lado do deserto. Ele estava me oferecendo um tiro direto para o coração de Izman, depois de dezesseis anos mirando a capital. Eu nunca veria Jin novamente. Era aquilo que ele estava me oferecendo de verdade: um jeito de escapar. De dar as costas a Dassama e ao que ele sabia, de fugir para a vida que eu sempre quis. Ou sempre achei que quisesse.
— E se eu quiser outra coisa? — Meus olhos me traíam, e ele com certeza entendeu o que eu estava dizendo.
Jin respirou fundo. Eu não sabia dizer se era alívio ou resignação. Quando inspirou, pude ver o sol xichan sobre seu peito subir um pouco.
— Contei a você em Sazi que o sultão estava produzindo armas para os gallans. Mas não eram apenas armas de fogo.
— Como assim? — A fábrica perto de casa só fabricara armas de fogo durante minha vida inteira.
Jin moveu a mandíbula como se estivesse ruminando as palavras. Eu o vira enfrentar a morte e se esquivar dela acenando sarcasticamente com o chapéu meia dúzia de vezes. Aquilo era diferente. Era maior do que simplesmente estar em apuros.
— Existem rumores de outra arma — Jin finalmente disse. — Algo que estão criando lá no sul. Uma bomba capaz de destruir cidades inteiras, como a mão de Deus. Países inteiros.
Países inteiros, como o dele. Jin tinha me contado outras coisas sobre os gallans: eles estavam construindo um império, roendo as bordas dos países vizinhos conforme a magia deles se esvaía. Uma arma como a que destruiu Dassama permitiria que engolissem outros países por completo.
— Pensamos que pudesse ser apenas um boato para assustar as pessoas — Jin continuou. — Mas era melhor prevenir do que remediar. — Ele deixou escapar um longo suspiro, enquanto minha própria respiração ficava mais curta. — Então fui enviado até os confins da civilização para ver o que descobria. E veja só, existe uma fábrica gigantesca de armas. Imaginei que, mesmo que não fosse nada capaz de aniquilar civilizações, ainda assim era importante. Eu poderia atrapalhar os gallans por um tempo, interromper o suprimento de armas de fogo para seus exércitos no além-mar. Quando a explodi, pensei que qualquer grande arma capaz de dizimar cidades seria destruída junto. A julgar pelo oásis queimado, Naguib a retirou de lá antes. Se o sultão fabricou uma arma dessas para os gallans, eles não vão precisar de uma bala sequer para deixar o mundo inteiro de joelhos.
Eu pensava que conhecia o medo. Tinha crescido na Vila da Poeira. Mas aquele era um medo inquieto, do tipo que me fazia querer fugir correndo. O que eu sentia agora era do tipo que subia rastejando de dentro de mim e dizia que não havia para onde correr. Do tipo que paralisava.
— E Dassama foi…
— Um teste — ele completou, sombrio. — O comandante Naguib deve ter levado a arma até Izman para entregá-la. Mas eles precisariam de um local para ver se a coisa funcionava. Onde os gallans pudessem ver os resultados por si mesmos. — E o sultão deixou que usassem uma de suas cidades, com seu povo, para testar uma bomba que dominaria o resto do mundo. — Dassama era uma grande base gallan, mas havia rumores de que eles estavam perdendo o controle da cidade para a rebelião. — Lembrei da noite em que nos conhecemos em Tiroteio. Uma nova alvorada. Um novo deserto. A rebelião. O sultão estava se aliando aos gallan. A manutenção do seu poder dependia deles.
Eu nunca tinha percebido que o príncipe rebelde poderia ser a oportunidade de nos livrar dos gallan, assim como do sultão. Os gallans deviam ter percebido.
— E você acha que a arma está aqui? — perguntei. — Em Fahali?
— Esta é a única cidade próxima o suficiente de Dassama. Dizem que os gallans dobraram a quantidade de soldados aqui nos últimos meses, procurando pelo príncipe rebelde — Jin sorriu, como se fosse uma piada interna.
Seria mesquinho demais gritar com ele. Por não ter me contado. Por ter se afastado da caravana sem dizer uma palavra.
— Você vai fazer com que a gente acabe morto se sair procurando por ela sozinho, sabia? Se fosse para morrer por sua causa, teria sido melhor semanas atrás, antes de encarar toda essa caminhada. — Talvez eu fosse um pouco mesquinha, afinal.
— Amani, você não é parte disso se eu… — Jin parou de repente. Meus olhos seguiram os dele, para algum lugar atrás de mim. Percebi um reluzir de uniformes azuis. Era tudo o que precisava saber.
Jin pegou minha mão quando comecei a correr, me puxando para o lado, para dentro de um beco estreito. O frescor da sombra me envolveu e nos encolhemos ali enquanto soldados de Gallan cercavam a Joelho de Camelo.
— Todas as caravanas precisam passar por inspeção. — O soldado gallan falava mirajin com um sotaque carregado que vinha do fundo da garganta, como se estivesse fazendo gargarejo enquanto conversava.
— Nós já os revistamos. — Um dos guardas mirajins deu um passo à frente. — Eles não têm nada. Estávamos prestes a liberá-los, senhor.
— Vamos revistá-los mais uma vez. Ordens do general Dumas. — O soldado gallan acenou para que seus homens avançassem, ao mesmo tempo que a caravana recuava.
A guarda da cidade tinha revistado as sacolas da caravana como o calor preguiçoso de deserto. Entretanto, os soldados de Gallan as reviravam como uma tempestade, só que ainda mais hostil.
Observei quando as sacolas foram arrancadas dos flancos dos camelos, e o que sobrara dos suprimentos foi jogado no chão. Yasmin foi forçada a erguer as mãos atrás da cabeça enquanto soldados gallans a revistavam devagar.
Então alguém gritou. Um jovem gallan levantou o que tinha sobrado de um dos alforjes. Ele o cortara com uma faca, abrindo as camadas de couro, e segurava o que parecia ser um saco de seda fina. Virou de ponta-cabeça e alguma coisa caiu, dispersada pelo vento da tarde. Parecia um fio azul fino, quase como cabelo. Jin praguejou.
— O que é aquilo? — perguntei.
— Remédios — ele disse. — Produzidos por magia, não ciência. — Não era possível. Havia muitos charlatões desesperados no deserto que vendiam água vermelha e diziam que era sangue de djinni com poderes curativos, mas ninguém acreditava naquilo. Por outro lado, essas pessoas não escondiam a mercadoria no revestimento dos alforjes. — Não importa quem você seja, a magia custa sua vida — Jin disse, sombrio. — Agora dá para entender por que Parviz queria evitar a cidade.
Observei aterrorizada quando Parviz foi arrastado e colocado de joelhos em frente ao soldado que tinha falado mirajin. Saquei rapidamente a arma, no mesmo instante em que o soldado gallan puxou a dele. Minha raiva foi instantânea. Eles não pertenciam ao nosso deserto. Tampouco à minha linhagem. Eu era uma garota do deserto. Odiava que metade de mim fosse forasteira.
Eu podia atirar nele.
O pensamento passou pela minha cabeça com a mesma naturalidade que uma bala passa pelo cano da arma. Talvez não salvasse Parviz, mas poderia tentar. Enquanto pensava a respeito, Yasmin correu, abrindo caminho pela guarda mirajin. Ela se atirou entre o pai e o guarda, bem na minha linha de tiro. O soldado não abaixou a arma; ela continuou apontada, só que para Yasmin em vez de Parviz. Ele colocou o dedo no gatilho. O meu já estava lá.
— Pare. — O guarda mirajin se adiantou. — Você não vai atirar nele aqui.
— É a lei — o soldado gallan disse. — Ordens do general Dumas. — Ele repetiu o nome, como se carregasse o peso da autoridade de Deus.
— A lei prevê que contrabandistas sejam julgados antes da execução — o guarda mirajin argumentou. — Ordens do príncipe Naguib.
Senti Jin ficar tenso atrás de mim com a menção do nome, assim como eu. Naguib estava ali. O comandante que tinha apontado uma arma para a minha cabeça e dado um tiro no joelho de Tamid.
Irônico que fosse justo ele salvando a caravana. Guardei a arma na cintura.
Encostei de novo na parede fria enquanto a caravana era reunida para ser levada presa. Jin e eu permanecemos parados na boca do beco. Quando não conseguimos mais ouvir passos, seu corpo relaxou contra o meu.
— Sabe, não acreditava em destino até conhecer você — ele disse, inclinando a cabeça até encostar na parede com um suspiro profundo. — Aí eu comecei a achar que a coincidência jamais teria um senso de humor tão cruel.
— Você é o charme em pessoa, alguém já te disse isso?
— Pra falar a verdade, já. Mas costumam dizer sem revirar os olhos.
Ficamos encostados na parede em silêncio. Um varal flutuava preguiçoso acima de nós no calor da tarde enquanto eu refletia sobre a situação. Estávamos presos em uma cidade com soldados gallans, sua grande arma destruidora de cidades e Naguib. E sem a caravana.
— Precisamos sair daqui — eu disse.
— E quanto aos outros, Bandida? — Toda vez que Jin me chamava assim, alguma coisa dentro de mim era atraída para ele de um jeito que eu não podia evitar. — Está planejando deixar todos para trás?
Eu não estava planejando deixar você para trás, pensei.
— Não estou planejando nada. — Eu realmente não tinha pensado em nada tão à frente. Mas agora que parara para refletir a respeito, Jin estava certo. Eu sabia o que a maioria das pessoas na caravana faria se estivesse no meu lugar. Estávamos no deserto. Cada um cuidava de si mesmo e da família. O resto era deixado na areia para morrer. Como Tamid.
— Um trem parte direto para Izman amanhã — Jin disse. — Não precisa pensar mais à frente do que isso.
— Então vem comigo. — As palavras saíram rápido demais. — Você não vai encontrar a bomba aqui sem acabar morto no processo. Sabe disso. E, se ficarmos por muito mais tempo, vamos morrer os dois.
Algo entre nós pareceu se acalmar. Observei seus ombros subindo e descendo lentamente enquanto Jin respirava fundo. Uma vez. Duas vezes. Três.
— Tudo bem.
— Tudo bem? — Eu estava pronta para discutir e arrastá-lo dali. Mas toda sua rebeldia tinha sumido com aquelas duas palavras. — É isso? Você não vai tentar me convencer do contrário com argumentos inteligentes?
— Tudo bem — Jin repetiu e então abriu os braços como se estivesse se rendendo, embora a expressão sombria em seu rosto dissesse que não estava nada contente com a situação. — Você tem razão. Então o que sugere?
Eu estava me sentindo mais ousada do que nunca.
— Poderíamos simplesmente continuar fugindo, Jin. Se for preciso.
— Você quer dizer se eu quiser.
Seu olhar vasculhou o meu e por um instante seus olhos pareciam tão escuros e concentrados como antes do beijo no trem. Meus olhos provavelmente também estavam tão selvagens quanto naquele momento. A última vez que estivemos tão perto um do outro. Na fronteira entre a vida e a morte. Entre o desejo e a necessidade.
— Diga pra mim que não seríamos capazes. — Jin interrompeu meus pensamentos. — Diga que nós dois juntos não conseguiríamos tirar cada uma das pessoas da caravana viva da cidade, se realmente tentássemos. Diga que não conseguiria fazer isso sozinha se realmente teimasse em fazer. — Um pequeno sorriso voltou sorrateiro ao seu rosto. — Diga isso pra mim e vamos embora. Neste instante. Vamos fugir, nos salvar e deixar os outros para morrer. Tudo o que precisa fazer é dizer isso. Diga que é assim que deseja que sua história seja contada, e vamos escrevê-la pela areia até o mar. É só dizer.
Minha história.
Eu tinha passado a vida sonhando que minha história começaria quando finalmente chegasse a Izman. Uma história escrita em lugares distantes com os quais eu nem sonhava ainda. No meu caminho até lá, eu me livraria do deserto até não sobrar nenhum grão de areia para marcar as páginas.
Mas Jin estava certo. Eu era uma garota do deserto. Mesmo em Izman ainda seria a mesma Bandida de Olhos Azuis, com uma mãe enforcada, que abandonou seu amigo morrendo. Jin não precisava que eu respondesse. Era fácil ler minhas intenções. Ou talvez ele me conhecesse bem demais.
— Alguma ideia, Bandida?
E, simples assim, éramos uma equipe novamente.
Olhei para cima. Entre duas janelas, o varal balançava devagar ao vento quente do deserto.
— Algumas.
Me vesti como garota pela primeira vez desde o outro lado do deserto. O khalat azul simples que tínhamos roubado do varal era muito apertado nos braços, principalmente com minhas roupas masculinas por baixo.
— Eu quase tinha esquecido que existia uma garota embaixo daquelas roupas. — Jin me olhou de cima a baixo, as mãos entrelaçadas atrás da cabeça. Ele parecia meio amarrotado. Enquanto esperávamos pela proteção da noite, exaustos, caímos no sono encostados na parede de um beco estreito o suficiente para nos esconder. Acordei com as costas duras e o braço de Jin me envolvendo como se estivesse tentando me impedir de fugir de novo enquanto ele dormia. Mas não havia a menor chance de isso acontecer. Eu não ia deixar mais ninguém para trás.
— Você queria ser a garota? — perguntei, ajustando o sheema vermelho que tinha amarrado na cintura como uma faixa.
— Você fica melhor como garota do que eu. — Ele piscou e eu revirei os olhos.
O plano era simples. Eu iria até o quartel da cidade e voltaria com informações sobre a localização da prisão. Na maior parte do tempo o quartel era usado pela guarda mirajin, mas parecia que metade dela estava acampada em tendas enquanto o Exército gallan ocupava o quartel com seus soldados.
Assim que soubéssemos a localização da prisão, poderíamos começar a bolar o plano para libertar a caravana. Se alguém perguntasse, eu deveria dizer que estava lá para buscar água, assim como o fluxo de mulheres que entrava e saía o dia todo.
Ao que parecia, os rumores estavam se espalhando mais livremente do que a água de Fahali. A Joelho de Camelo não era a única caravana a aparecer de lábios rachados contando histórias assustadoras sobre Dassama. Os suprimentos da cidade não davam conta de todos os soldados, pessoas e caravanas adicionais. A água estava sendo racionada, e metade dos poços e bombas se encontrava fechada. Mas não a bomba d’água no quartel.
— Estarei por perto caso se meta em apuros. Fique onde eu possa te ver. — Com a cabeça, Jin indicou o telhado com uma visão razoável do quartel, suficiente para um bom atirador acertar um soldado lá dentro. Eu atirava melhor. Mas ele estava certo: eu levava mais jeito para garota. O que significava que estava contando com Jin para me dar cobertura.
A caminhada até o quartel era curta, mas as ruas estavam cheias em meio ao frescor que antecedia o crepúsculo. Mantive a cabeça baixa enquanto abria caminho pela multidão sob os últimos raios do sol poente em Fahali. Quase havia esquecido a sensação de ser uma garota em Miraji. Eu desaparecia na multidão, mas de um jeito diferente de quando me vestia de garoto. Não porque era igual a todos os outros, mas porque como garota eu não importava.
Ninguém em Miraji valorizava uma garota o suficiente para imaginar que eu poderia ser uma espiã.
O quartel era composto de quatro prédios baixos pintados de branco em torno de uma praça empoeirada. Além da prisão, supostamente havia alojamentos, cozinhas, armazéns e estábulos. Foi o que Jin me contou, pelo menos. Eu só precisava descobrir onde ficava a prisão e sair dali.
Tentei fingir que estava olhando para os próprios pés enquanto caminhava pelo pátio empoeirado. Havia soldados praticando com armas de fogo e alvos variados. Um dos gallans tinha uma arma com uma ponta afiada que eu nunca tinha visto antes. Ele atirou em um boneco de pano antes de avançar, enfiando a ponta afiada na barriga dele.
No meio da praça, havia uma bomba d’água com três soldados gallans posicionados à frente, coletando pagamento de quem quisesse usá-la. Uma fila de mulheres segurando um balde na cintura esperava. Todas elas mantinham a cabeça baixa, como se tentassem evitar ser notadas pelos homens armados em volta. Eu não tinha um balde. Só podia torcer para que ninguém me notasse, ou haveria mais perguntas do que eu seria capaz de responder.
A garota na frente da fila tinha mais ou menos a minha idade e vestia um khalat rosa encardido. Uma criança pequena agarrava a bainha, chupando a própria mão. A garota implorava, seus olhos vermelhos de tanto chorar, e ouvi um pouco da conversa quando passei. Ela dizia que sua família passava sede. Não tinham água nem dinheiro. Ela não podia pagar o novo imposto sobre a água, mas implorava pela piedade deles. O soldado a olhou de cima a baixo do mesmo modo que as mulheres sedentas olhavam a bomba d’água.
Dois soldados gallans se aproximaram e conversaram um pouco em seu idioma estrangeiro desagradável. Então um deles, com olhos pálidos como os meus e cabelo excessivamente loiro, gesticulou para que a garota o seguisse. A garota ajoelhou e fez a criança soltar seu khalat, deixando o balde com ela. Eu estava longe demais agora, mas imaginava que dizia para a criança esperar. Apesar disso, a criança deu um passo cambaleante, mas uma das outras mulheres na fila a segurou, mantendo-a parada. Mesmo segurando a criança, a mulher cuspiu aos pés da garota.
— Puta dos forasteiros! — ela gritou, alto o suficiente para que eu ouvisse. A garota de rosa se encolheu.
Lembrei da minha mãe. A raiva me impulsionou na direção deles antes que eu pudesse pensar duas vezes. Eu não tinha um plano, não tinha nem uma arma, mas daria um jeito.
Estava a cinco passos deles quando dois vultos familiares saíram por uma porta, me fazendo congelar. O comandante Naguib vestia um uniforme mirajin dourado com o dobro de botões em relação à primeira vez em que o vira na Vila da Poeira. Ele parecia se esforçar para ficar reto o suficiente para que seu uniforme caísse bem. O gallan perto dele, por sua vez, parecia ter nascido de uniforme. Era velho o suficiente para ser pai de Naguib, e mais alto. Havia borlas vermelhas penduradas em seu uniforme, mas em vez de fazê-lo parecer uma almofada, elas lembravam cicatrizes. O soldado largou o braço da garota chorosa e saudou rapidamente o oficial superior:
— General Dumas.
Então aquele era o general gallan cujo nome era dito como se carregasse o peso da lei. Fora ele que deslocara meio Exército até lá para caçar o príncipe rebelde. Que arrasara uma cidade do deserto para testar uma arma feita para conquistar o mundo.
Talvez eu não me destacasse muito como mulher, mas Naguib com certeza me reconheceria. Virei rapidamente, olhos procurando uma via de escape. Havia uma porta à minha direita. Palavras sagradas tinham sido gravadas em um rabisco profundo na madeira, o que só podia significar uma coisa: uma casa de oração. Os gallans não veneravam o mesmo deus, Jin me explicara. A porta abriu sem dificuldade e eu entrei, batendo a porta atrás de mim.
Fui recebida pelo som de preces misturadas a soluços.
Os últimos raios de sol escoavam pelas treliças das janelas. Entravam irregulares nos pontos onde a madeira tinha apodrecido. Nas áreas em que a luz batia no chão, dava para ver que os azulejos tinham sido esmagados e transformados em pó. À medida que meus olhos se ajustaram à penumbra, percebi que as preces vinham de uma garota, de joelhos, as mãos acorrentadas à parede. Ela estava rezando, com o rosto pressionado contra o chão, escondido pelo cabelo desgrenhado que parecia quase vermelho no pôr do sol. Como se fosse tingido. Ou estivesse manchado de sangue.
Alguma outra coisa se movia na escuridão. Um uniforme dourado do Exército apareceu sob a claridade. Recuei em direção à porta, mas era tarde demais. Ele tinha me visto.
— Está aqui para rezar? — o soldado perguntou, um tom de sarcasmo palpável em sua voz. Alguma coisa tilintou em seus punhos. Mais correntes. Não era uma casa de oração afinal, pelo menos não mais. Fazia parte da prisão. — Não temos um pai sagrado, mas você é bem-vinda a se juntar a nós.
Por um breve e estúpido momento, eu poderia jurar que aquelas palavras vinham de Tamid.
Hesitei, lembrando dos incontáveis dias que passei ajoelhada ao lado dele, enunciando palavras sagradas. Então voltei para o presente, onde meu amigo devia estar morto. Era só o sotaque, percebi. Soava um pouco como o Último Condado. Mas havia mais alguma coisa familiar naquele soldado, algo que não era exatamente próprio da Vila da Poeira, mas que eu reconhecia. Finalmente seu rosto entrou na luz, revelando olhos excessivamente pálidos, e a memória voltou com tudo.
— Conheço você — eu disse.
Do outro lado do deserto, na loja do meu tio, quando Jin se escondeu atrás do balcão e o comandante Naguib entrou. Este deserto é um antro de pecados. O garoto magricela metido a esperto com olhos iguais aos meus, que seguia o comandante.
— E eu conheço você. — Ele franziu a testa e baixou as mãos, as correntes tilintando enquanto a garota continuava suas preces. Seu rosto amarelado se contorceu, até que ele lembrou de mim. — É a garota da loja.
— Então é isso que acontece quando você dá respostas sarcásticas ao seu comandante? — perguntei, sem conseguir me segurar.
— Não. — Seu sotaque parecia ficar cada vez mais carregado ao conversar comigo, e meu próprio jeito de falar voltou a ter aquela cadência do Último Condado. — Só sou especial mesmo.
— Você se tem em alta conta. — As preces da garota ficaram mais altas. — E ela?
— Ela é especial também — o soldado disse.
Imaginei que os dois deviam ter irritado bastante o comandante Naguib para merecerem ser trancados ali em vez de com o resto dos criminosos.
— E onde vocês dois estariam se não fossem tão especiais? — perguntei.
O jovem soldado percebeu minhas intenções.
— Você está tentando achar a prisão, não está?
Passei a língua sobre os lábios ressecados, nervosa. Não deveria confiar nele. Era um soldado. Mas era um prisioneiro também. E aquilo deveria significar que estávamos do mesmo lado. Ou pelo menos que tínhamos o mesmo inimigo.
— Se eu ajudar você a sair daqui, vai me dizer onde é?
Encostei nas algemas em suas mãos. Seu pulso parecia febril. Eu tinha prometido a Jin que não faria nada idiota. Mas, se queríamos salvar a caravana, fazia sentido salvar os outros prisioneiros também. Jin sabia forçar uma fechadura. E tinha me ensinado. Numa das vezes em que começara a falar sobre algo que tinha aprendido com o irmão, para logo em seguida se fechar novamente.
— E para onde eu iria? — ele perguntou.
— Não sei — admiti. Ambos estávamos bem longe de casa. — Para onde você quiser.
O som de um tiro lá fora me assustou. E então tudo ficou em silêncio novamente, exceto pelas preces da garota.
— Amani. — Meu nome na boca do jovem soldado me pegou desprevenida. — É o seu nome, não é?
— Como sabe disso?
— Sua prima falava bastante de você. Aquela bonitinha de cabelo escuro. — Shira. Deviam tê-la levado para ajudar a me encontrar, e então chegar a Jin através de mim.
— O que aconteceu com ela? — perguntei. Minha prima tentara me entregar para ser executada. Eu não deveria me importar. — Shira está viva?
— Ela não foi tão útil para o comandante quanto fez parecer que seria. Ou talvez o problema tenha sido você não estar onde deveria. Nós a deixamos com o sultão em Izman. — Uma vez ele espancou até a morte uma mulher que amava. O que aconteceria com uma garota que não significava nada para ninguém em Izman? — Meu nome é Noorsham, aliás. Não que você tenha perguntado. — E o que aconteceria com um pobre menino magricela dos confins do deserto, muito metido a esperto para ser um soldado?
Vozes vieram do outro lado da porta. A garota redobrou a intensidade das preces. Levantei abruptamente.
— É melhor se esconder — Noorsham disse, seus olhos azuis sérios fixos em mim.
Com o coração acelerado, fugi da luz da lâmpada. Não havia iluminação nos fundos da enorme casa de oração transformada em prisão. Eu já estava escondida nas sombras quando a porta se abriu.
Naguib e o general Dumas entraram. Jin dissera que não acreditava em destino até me conhecer, e eu estava começando a achar que ele tinha razão. A única coisa que me impedia de ser pega era um fino véu de escuridão e a boca fechada de Noorsham. Mas Naguib e o general Dumas não deram nenhuma atenção a ele. Só pararam na frente da garota que rezava.
— É ela? — O mirajin do general Dumas era mais claro do que o do soldado que tinha prendido a caravana, como se tivesse sido polido por anos de prática. Ele olhou de relance para Noorsham: — E esse aqui?
— É só um soldado incapaz de obedecer a uma simples ordem — disse Naguib. Até eu sabia que desobedecer uma ordem direta significava execução no Exército. Se não tirasse Noorsham dali, ele estaria morto ao amanhecer.
— Soldados desobedientes representam uma falha de seu comandante — disse o general Dumas. A mandíbula de Naguib estremeceu. — Significa que não respeitam você. — O general sacou a arma. A cabeça da garota ainda estava pressionada contra o chão. Ele segurou seu cabelo, puxando-a para cima com força. A prece se transformou em um grito de dor.
— Por favor — ela implorou. — Não fiz de propósito.
— Solte as algemas dela — o general gallan ordenou. Naguib se incomodou com a ordem, mas o general não notou ou não se importou. O comandante fez como ordenado.
No instante em que as algemas caíram, alguma coisa aconteceu com a garota. As feições de seu rosto começaram a mudar. Seu queixo ficou mais pontudo, seu nariz se achatou, seus olhos pareceram afundar, antes de voltarem ao normal. Ela estava frenética, mudando de um rosto para outro, como se estivesse vasculhando um baralho, tentando encontrar a carta certa para se salvar.
Era uma andarilha? Com certeza não era humana.
O general observou com ar de tédio até que finalmente pressionou o cano da arma na testa dela. A metamorfose parou instantaneamente, e ela congelou na forma de uma garota de bochechas redondas e sobrancelhas altas, o cabelo ainda enrolado dolorosamente em torno do punho do general gallan.
Me senti indefesa. Parada no escuro, invisível, com outra pessoa prestes a morrer na minha frente.
Do mesmo jeito que havia me sentido com Tamid.
A prece para os mortos ecoou com força pelas paredes. Chegou ao ápice quando a garota suplicou por perdão por seus pecados. Fechei os olhos.
Então ouvi o barulho de um tiro. Eu o senti até nas minhas entranhas.
A prece parou de repente. Mordi meu próprio dedo para não gritar.
— Queime o corpo dela. — A voz do general deslizava pela escuridão. — E diga a qualquer um que perguntar que a levamos como prisioneira.
Quando abri os olhos novamente, a garota estava no chão, imóvel, o sangue se acumulando em torno da cabeça. Noorsham tinha recuado até onde as correntes permitiam e olhava fixamente para o corpo.
— Por quê? — Naguib perguntou. Sua voz não demonstrava qualquer emoção; tinha perdido a aspereza de sempre. — Ela já está morta. Para que fingir?
— É um dos jogos que eu e seu pai fazemos, jovem príncipe. — O general gallan guardou a pistola de volta no coldre. — Eu estava lá na noite do golpe, sabia? A noite em que ele tomou o trono. Eu era apenas um jovem soldado na época. Mas estava logo atrás do meu general quando seu pai fez um acordo com ele, e sei o que foi dito, melhor do que muitos. Melhor até do que meu rei, talvez. Sei que o sultão concordou em público com a nossa autoridade, mas não concordou que livrássemos seu país desse culto pecaminoso aos demônios que vocês chamam de religião. Sei também o que não foi dito, mas ficou subentendido.
Naguib respirou como se fosse responder, mas o general prosseguiu sem pausa, ganhando impulso enquanto falava.
— Minha mãe também se deitou com um demônio, assim como a esposa do seu pai, mãe do filho que ele não consegue controlar. Minha mãe deu à luz uma criatura verde chorosa. Mas meu pai fez o que deveria fazer. Prendeu minha mãe com ferro e a jogou no mar para morrer afogada. O bebê foi entregue a mim. Parecia que tinha vindo do solo. Então eu o devolvi ao solo. Ele ainda gritava quando o enterrei.
Eu via a garganta de Naguib apertar, como se estivesse engolindo uma resposta.
— Quando aquele demônio nasceu no palácio do sultão, admirei seu pai por assumir a responsabilidade de matar a esposa com as próprias mãos, de acordo com a lei de Gallan. Lembro de pensar que tínhamos feito a escolha certa: aquele homem respeitava os valores gallans, ainda que nem todo mundo no seu país concordasse. Então, para manter os camponeses quietos, fingimos que pequenos demônios serão tolerados, mas eles são enviados discretamente para nós e depois esquecidos. Mas a sua guarda tentou esconder essa prisioneira de nós e entregá-la a você.
— A guarda da cidade não está acostumada a uma grande presença militar gallan. Eles não conhecem seu modo de vida. — Naguib parecia uma criança discutindo com os pais.
— O deserto está fraquejando — o general gallan prosseguiu. — A presença do seu irmão rebelde está cada vez mais forte. Dassama é uma grande perda para nós.
— Ele não é meu irmão — Naguib disse, cuspindo as palavras. — Meu pai o rejeitou.
— Você é um insulto maior para ele como irmão do que o contrário — o general Dumas retrucou. — Os rumores na capital são de que seu pai fala frequentemente de como gostaria que seus filhos leais fossem tão fortes e inteligentes quanto o dissidente. Acha que não sei que veio para cá montado nos cavalos de areia com sangue de demônio?
Cavalos de areia. Ele estava falando de buraqis. Meu coração deu um salto. Um buraqi foi capaz de distrair a Vila da Poeira por tempo suficiente para Jin escapar e explodir a fábrica. Vários deles seriam uma distração e tanto.
— Não há lei… — Naguib começou a falar.
— Não, só há jogos. — O general Dumas deu um passo à frente e Naguib cambaleou. — Ganhei minha primeira patente porque matei três dos seus tios na noite do golpe do seu pai. Homens que apoiavam os caminhos pecaminosos da magia e dos demônios, que nem seu avô. Sou muito bom em me livrar de príncipes. Estou aqui para encontrar e executar seu irmão, mas sou eu que decido quem são meus inimigos, jovem príncipe.
— Meu pai…
— Seu pai tem mais filhos do que o dia tem horas. Me pergunto se notaria sua ausência.
O general Dumas se virou e saiu. Naguib permaneceu parado, e ele e Noorsham observaram o general partir. Quando o som de seus passos já tinha cessado, o comandante falou com Noorsham, baixo demais para eu ouvir. Então foi embora também.
Fiquei encostada na parede por algum tempo, tremendo, enquanto o sol terminava de se pôr.
— Amani? — Noorsham chamou na direção da escuridão. Eu não tinha muito tempo. Jin tentaria vir atrás de mim em breve.
— Noorsham. — Saí das sombras. Eu mal podia enxergá-lo à luz dos lampiões do pátio lá fora, que vazava pelas rachaduras na porta. Ele parecia assustado. — Conte onde fica a prisão e os estábulos, e vou te tirar daqui.


Me perguntei se Jin conseguiria me ver no meu próprio esconderijo no telhado. Estava escuro agora e mesmo a luz da lua cheia não era suficiente para enxergar uma silhueta armada no topo do quartel. Ele tinha dito para eu não fazer nada idiota. Mas era muito idiota da parte deles deixar uma janela aberta nos estábulos. E eu teria que ser muito idiota para não aproveitar.
Segurei na beira do telhado e desci devagar, procurando um apoio com o pé. Em mais de uma ocasião, havia entrado e saído da janela de Tamid com as costas doloridas para trocar um dos meus livros por uma de suas pílulas contra a dor. Eu podia segurar na beira do telhado da mesma forma que me pendurava na beira da janela de Tamid e daria tudo certo. Ou pelo menos as chances de cair e rachar a cabeça seriam as mesmas.
A janela estreita mal possibilitava a passagem de uma pessoa. Tive que deslizar por ela como uma linha entrando pelo buraco da agulha. Senti a pedra raspando na cintura.
Respirei fundo e soltei.
Por um instante insano tudo o que podia ver eram as estrelas, e só conseguia pensar na tolice dos seres imortais que nunca tinham visto a morte e, portanto, não sabiam que deveriam temê-la.
Ralei as costas na pedra do parapeito. Meu cotovelo bateu na pedra, um instante antes de meus pés acertarem o chão com força suficiente para abalar todas as minhas articulações.
Enquanto tentava ficar de pé, soltei vários palavrões em mirajin e em cada idioma no qual Jin me ensinara a praguejar. Havia uma dúzia de baias de cada lado, com portas de madeira com ferrolhos de ferro.
O ar ali era como o céu do deserto antes de uma tempestade de areia. Dava para ouvir dezenas de corpos se mexendo, presos, magia lutando contra ferro. Totalmente de pé, agora eu conseguia vê-los, cabeças espiando sobre a porta de cada baia com curiosidade.
Buraqis.
Eu nunca tinha visto tantas criaturas imortais na vida, todas sozinhas em um único lugar, preenchendo boa parte das duas dúzias de baias. Mas, como os buraqis viviam para sempre, imaginei que os sultões de Miraji tivessem tido bastante tempo para encher o estábulo do palácio ao longo dos anos. Me perguntei se alguns deles seriam os buraqis das lendas. Aqueles cavalgados por príncipes heroicos em batalhas ou cruzando o deserto para salvar uma donzela antes de a noite cair.
A tranca de ferro na primeira porta deslizou com um estrondo capaz de acordar os mortos. Mas parecia que tudo tinha congelado ao meu redor. Respirei fundo, meus dedos tocando o ferro frio.
Empurrei a porta para abri-la antes que perdesse a coragem.
A cabeça que levantou para me encarar era da cor do sol do meio-dia sobre uma duna de areia.
Dei um passo cuidadoso para a frente. Eu era sobrinha de um comerciante de cavalos, e aprendera a tirar uma ferradura com praticamente a mesma idade em que aprendera a atirar. Mesmo no escuro, era fácil executar aquela rotina familiar. O buraqi sacudiu a cabeça, inquieto, quando a quarta ferradura caiu no chão. Talvez levasse algum tempo para ele se livrar do toque de ferro na pele e abandonar sua forma mortal, mas eu não podia esperar. Já estava na baia seguinte, com um buraqi da cor da luz fresca da manhã em montanhas poeirentas. O próximo era da cor da escuridão eterna do deserto à noite.
Todos os buraqis estavam se mexendo agora. Começavam a levantar a cabeça além da porta de ferro da baia. Começavam a se transformar de carne em areia e de volta em carne, como se estivessem se preparando para correr como um furacão, enquanto eu rastejava como o calor em um dia sem vento, libertando a todos.
Os buraqis podiam ser criaturas imortais, mas odiavam o som de um tiro tanto quanto um cavalo normal. Me encostei numa parede, levantei o cano da arma em direção ao céu e atirei.
Eles explodiram nas baias, estilhaçando-as pelo caminho. Recuei instintivamente, apertando os olhos enquanto corpos, areia e vento se agitavam ao meu redor. Os buraqis já estavam longe de serem mortais agora, mais próximos de tempestades do deserto em forma de cavalo, e a natureza já tinha derrubado mais paredes do que as mãos dos homens conseguiriam. Os galopes ecoaram pelo estábulo, trincando meus dentes. E então veio um barulho como uma explosão. Quando abri os olhos, a parede que dava para o quartel tinha sido destruída.
Corri pelos destroços e entrei no caos que havia criado. Os buraqis tinham invadido a área de treinamento, levando metade dela com eles — a maior parte de uma parede já tinha desabado, e o que restava parecia que ia cair a qualquer momento. Soldados com uniformes de todas as cores, e alguns sem uniforme, apareciam aos montes. Os gallans sacavam armas, mas os mirajins sabiam que não adiantaria. Não era possível lutar contra uma tempestade de areia com pistolas. Um homem com uma camisa azul abotoada pela metade ergueu a pistola, mirando, então desapareceu sob os cascos de um dos buraqis. Logo gritos humanos se juntaram aos dos seres imortais.
Os buraqis eram feras do deserto e achariam um jeito de retornar às areias. De fato, enquanto eu observava, dois deles atravessaram outra parede, correndo livres pelas ruas. No caos, notei que mais pessoas chegavam ao pátio. Mulheres e crianças com roupas do deserto. Reconheci Yasmin primeiro: ela estava bombeando água freneticamente em um grande cantil de couro pendurado num camelo, tentando reunir suprimentos.
Noorsham. Eu tinha quase esquecido dele no meio da confusão. Estava virando na direção da casa de oração quando fui agarrada por trás.
— O que eu falei sobre não criar problemas? — Havia um brilho bem-humorado nos olhos de Jin, e ele me segurava tão perto que se me puxasse me derrubaria em cima dele.
— Funcionou, não é? — retruquei.
— Isso é indiscutível. — Jin largou meu braço. — Mas precisamos correr enquanto ainda temos uma distração. — Ele olhou para o rastro de destruição criado pelos buraqis. — Diria que agora é um bom momento.
— Não. — Comecei a puxá-lo na direção contrária. — Prometi ajudar um soldado.
Enquanto eu tentava puxá-lo em direção à casa de oração, um buraqi passou acelerado, por pouco não me atropelando. Jin me puxou com força para trás.
— Amani, não temos tempo. Precisamos ir enquanto temos chance, senão vamos ficar presos aqui.
Hesitei. Eu não poderia deixar para trás outro garoto idiota do deserto, fraco demais para sobreviver. Não se ainda tinha como salvá-lo.
— Amani — Jin repetiu. — Você é muito boa em sobreviver. Não jogue isso fora agora. — Ele estava certo. Noorsham não era Tamid. Era tarde demais.
Corri.
As ruas rapidamente se enchiam de homens e mulheres da caravana brigando por espaço, camelos gemendo, moradores de Fahali gritando e correndo em busca de abrigo. Mergulhamos na multidão. Num instante dei de cara com alguém aterrorizado, no seguinte fui empurrada contra uma parede. Num instante Jin estava lá, em seguida sua mão foi arrancada da minha. E então eu estava sozinha, correndo no meio de uma confusão de desconhecidos. Arranquei  meu khalat enquanto corria, me transformando de volta em garoto.
Os sons de tiros ecoaram bem atrás de nós. Virei desajeitada numa esquina, as mãos ocupadas tentando amarrar meu sheema. Tropecei e caí. Alguém me puxou pelo ombro, me botando de pé. Olhei para trás e vi um homem que não conhecia. Ele tinha me salvado de ser pisoteada.
Não tive nem tempo de agradecer antes de a multidão engoli-lo e me forçar a seguir pelas ruas.
Os portões estavam abertos. Era uma visão que fazia meu coração disparar mais rápido do que os buraqis. Comecei a acelerar, minhas pernas correndo com o dobro da força, me impulsionando como se eu estivesse correndo no vento e na areia também. Avante. Avante. Para fora dos muros. Longe dessa armadilha. Um grito de puro alívio, alegria e vida na minha garganta.
E então tudo o que eu podia enxergar era areia, e esqueci de todo o resto. Medo. Bombas. Jin. O deserto nos recebia com enormes braços abertos. A massa confusa que era puro caos nas ruas se tornou ordem na areia, um retorno ao lar.

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