1 de setembro de 2018

Capítulo 14

LYSANDRA
AURANOS

Lysandra lembrava como os garotos da vila a azucrinavam quando tinha seis, talvez sete anos. Uma vez, um menino bastante maldoso a fez tropeçar quando voltava da floresta, com os braços cheios de madeira que a mandaram juntar. Não tinha visto o pé dele. Nem notado a poça de lama até cair de cara nela, deixando os gravetos todos escaparem e caírem na água lamacenta. Arruinados.
— Lysandra é um bebê chorão — outro garoto a provocou quando as lágrimas começaram a escorrer. Os amigos dele riram também. — Buá! Chore, Lysandra! Chore mais!
Os meninos correram quando Gregor se aproximou, mas ela mal podia vê-lo por entre as lágrimas. A madeira estava estragada; Lysandra tinha demorado uma eternidade para coletar galhos e gravetos secos em quantidade suficiente. Sem aquilo, não haveria jantar. Não haveria aquecimento.
Ela não tentou se levantar. Ficou ali sentada, a saia imunda, chorando.
— Pare com isso — Gregor disse.
Mas ela não conseguia. Não conseguia parar de chorar, não importava o quanto quisesse.
— Pare — ele disse mais uma vez, segurando os pulsos dela e a colocando de pé. — Pare de chorar!
— Aquele menino… ele me empurrou. Ele é tão malvado!
— E você está surpresa? Ele é malvado com todo mundo que deixa. Vamos, pequena Lys. Achei que fosse melhor do que isso.
Aquelas palavras a surpreenderam.
— Melhor?
— Talvez você seja um bebê chorão.
— Não sou, não!
Ele a empurrou até Lysandra cambalear para trás e cair na poça de novo. Ela ficou olhando para Gregor, em choque.
— Vai me deixar fazer isso? — perguntou.
— O-o quê?
— Levante!
O choque deu lugar à raiva quando ela se levantou. Lysandra olhou feio para o irmão, com os pequenos punhos fechados, esquecendo as lágrimas.
— Assim é melhor — ele disse. — Você não chora quando alguém a derruba. Você levanta. Levanta e revida. E logo ninguém mais vai empurrar você, porque vão ver que não vale a pena. Não deixe ninguém empurrá-la, nem fazer você chorar. Entendeu?
Na época, Lysandra não tinha entendido o que ele estava tentando ensinar. Só sabia que sua saia estava cheia de lama, e sua mãe ficaria zangada por ter demorado tanto para pegar nada além de terra.
Levante. Repetidas vezes. Tem gente que quer empurrar você na lama e rir. Eles queriam ver lágrimas. Queriam ver derrota, porque isso fazia com que se sentissem melhor a respeito de sua própria vida triste.
Mas às vezes era difícil levantar. Às vezes a lama endurecia e ficava tão grossa que não havia saída. E as provocações e risadas nunca paravam.
De repente, a dor de um tapa fez Lysandra perder o ar e ser arrancada de suas lembranças para encarar o rosto sardento de Tarus.
— Vamos, Lys! — Ele a pegou pelos ombros, apertando sua pele com a ponta dos dedos. — Os guardas estão vindo. Preciso de você.
— Ótimo — ela sussurrou. — Finalmente chegou a hora de acabar com isso.
Ele a sacudiu.
— Não! Você não pode desistir. Sobramos apenas nós, sabia? Cato e Fabius estão mortos, foram assassinados quando tentaram fugir. Só restamos nós!
A notícia foi mais um golpe, mas Lysandra não estava surpresa. Cato e Fabius preferiam morrer lutando, e não num espetáculo diante de uma multidão. Cheguem em segurança ao além, meus amigos, ela pensou com o coração pesado.
Olhou para o canto onde seu irmão costumava dormir. Onde procurava em sonhos sua vigilante, esperando que ela tivesse as respostas de que precisava desesperadamente para sobreviver.
Uma dor aguda apertava seu peito. A memória da morte de Gregor já havia assentado em sua mente como as raízes de uma árvore obscura e maligna, retorcendo-se e sufocando toda a vida, toda a esperança, até não sobrar nada além de escuridão.
Tinham matado Gregor na frente dela, e o máximo que pôde fazer foi gritar.
— Lys, por favor. — Tarus segurou seu rosto, e ela começou a tremer. — Você sempre foi tão forte. Por favor, seja forte hoje.
— E de que servirá ter força agora? Vamos morrer.
Agora que aceitara seu destino, uma sensação de calma se espalhava por seu corpo, entorpecendo os sentidos. Seu coração não refletia o pânico que havia no rosto de Tarus.
Logo tudo chegaria ao fim. Toda a dor. Todo o sofrimento. Toda a esperança sem sentido.
Logo haveria apenas silêncio.
Tarus deu mais um tapa nela.
— Lys! Fique comigo!
Como desejava poder compartilhar essa serenidade recém-descoberta com ele e acabar com seu medo.
Os guardas entraram na cela. Amarraram as mãos dos dois nas costas com cordas fortes e os levaram para fora do calabouço. Mais cedo, os prisioneiros puderam lavar a sujeira do corpo e do rosto e receberam roupas limpas para se apresentar diante da multidão. Em seu atordoamento, Lysandra ouviu vagamente as provocações e os insultos dos prisioneiros pelos quais passavam, junto com algumas bênçãos daqueles que ainda não haviam perdido a alma naquela fossa.
Os bons e os maus — era fácil ignorar todos eles.
— Ela nem está resistindo — um guarda disse para o colega. — Essa aqui tinha fogo nos olhos poucos dias atrás, mas agora se apagou.
— Não ia ajudar em nada mesmo — disse o outro.
Os dois estavam certos. Antes, ela era feita de puro fogo e fúria. Era uma garota que ninguém ousava empurrar em poças de lama. Pelo jeito, o Rei Sanguinário tinha matado a garota antes mesmo da execução.
Eles passaram pela cela que abrigava a garota sem nome com quem Lysandra tinha sido obrigada a lutar. Suas mãos encardidas estavam segurando as barras de ferro, e sua expressão era vaga. Lysandra ficou imaginando se um dia também tinha existido fogo naquela garota, cujo espírito tinha claramente sido extinto para sempre.
Eles saíram do calabouço e caminharam em linha reta a céu aberto. Depois de duas semanas aprisionada na escuridão quase total, a claridade do dia a cegou.
Por um instante, Lys só conseguiu ver a luz branca que a obrigava a apertar os olhos. Ouviu a multidão vibrar, o coro de “Morte aos rebeldes!” tirando-a do atordoamento e a fazendo gelar.
Conforme seus olhos se acostumavam à luz do sol, ela viu quantas pessoas estavam reunidas na praça do palácio. Havia um número incontável de rostos e corpos andando de um lado para o outro. As conversas eram como zunidos de insetos, sussurros e murmúrios preenchendo o ar quente. Olhares curiosos acompanhavam Lysandra e Tarus, que eram levados para o local da morte. Um grande grupo de pessoas cercava o local de execução, vibrando muito mais do que o resto do público. Atrás deles, Lysandra sentia que a multidão maior estava começando a perder o entusiasmo, observando com mais calma e solenidade do que os que estavam mais perto do palco.
Pelo menos era algo a que se apegar. Talvez ainda houvesse alguma esperança, afinal; uma pequena fração que mostrava a Lysandra que nem todas as pessoas estavam perdidas como imaginava.
Guardas limerianos de uniforme vermelho patrulhavam a multidão, reunindo e detendo manifestantes assim que levantavam a voz contra o rei, arrastando-os para longe do espetáculo antes que pudessem incitar outros a fazer o mesmo.
A visão de Lysandra se estreitou, e ela tropeçou, fazendo o guarda segurá-la mais firme.
— Um pé na frente do outro, menina — ele resmungou. — Faça um bom espetáculo para o povo e para o rei.
O rei.
Todos ficaram em silêncio quando o rei e seu herdeiro se aproximaram de uma plataforma elevada perto do palco de execução para testemunhar os acontecimentos de perto.
Algo mexeu com ela, bem abaixo de camadas e mais camadas de luto e derrota. Ela percebeu que não conseguia tirar os olhos do monstro que ordenara a morte de seu irmão, ou do príncipe que simplesmente ficou ali parado, analisando suas reações enquanto Gregor era decapitado.
Logo atrás do rei Gaius e do príncipe Magnus estavam as duas princesas. Uma tinha cabelo escuro e expressão serena, e Lys soube na hora que se tratava da princesa Lucia Damora, filha do rei.
A outra era loira e familiar.
Lysandra já havia encontrado a princesa Cleo antes, quando Jonas insistira na besteira de sequestrá-la, acreditando que seria um trunfo que renderia um acordo com o rei. Mas os planos — principalmente os feitos por Jonas — nunca pareciam sair como o esperado.
Jonas tinha se encantado com aquela princesa superficial e insípida, e perdido a cabeça por sua beleza dourada.
Lysandra estava enojada em ter a princesa entre os rebeldes. E, precisava admitir, a maneira como Jonas olhara para Cleo durante aquela semana havia lhe despertado um ciúme diferente de tudo o que já havia sentido antes. Mas esses detalhes não importavam mais.
Lysandra olhou para cima e viu o rei Gaius olhando para a praça. À sua direita estava o príncipe Magnus.
Foi obrigada a subir cinco degraus, sentindo as tábuas de madeira rangendo sob seus pés, até onde o carrasco encapuzado os aguardava. Tarus estava ao seu lado, tremendo.
Lysandra não se importava mais com o que aconteceria com ela. Mas Tarus… Ele tinha apenas catorze anos.
Ficou com a garganta apertada ao pensar em Tarus morrendo ao seu lado, sem a mínima chance de viver uma vida plena.
Olhou para as pessoas que entoavam com tanto entusiasmo um coro pedindo sua morte. Talvez fossem centenas em meio aos milhares que estavam ali. Ela avaliou um rosto fanático depois do outro, descobrindo que eram pessoas como quaisquer outras. Ainda assim, aquela gente tinha escolhido comemorar em vez de observar com melancolia aquele acontecimento. Será que acreditavam de verdade que a execução era uma punição justa por seus crimes? Será que achavam mesmo que Gaius Damora era um rei bom e honesto, incapaz de fazer algo errado?
Ou eram apenas covardes, com medo de que o mesmo destino recaísse sobre eles se parassem de vibrar e gritar em apoio às decisões reais?
Algo pesado e úmido atingiu o peito de Lysandra, e ela cambaleou um degrau para trás. Um tomate maduro. Ela olhou para a sujeira com surpresa e consternação.
— Morra, rebelde! — gritou o homem que jogou o tomate.
Ela o encarou sem expressão. Que desperdício de um tomate em perfeitas condições.
O rei começou a falar para a multidão. O som de sua voz atingia a pele de Lysandra; cada palavra era como uma pequena adaga mergulhada em veneno.
— Os dois rebeldes que estão aqui diante de nós são responsáveis pela morte de muitos auranianos e limerianos. Não sintam pena ao olhar para esses rostos jovens. Ambos são insurgentes perigosos. São selvagens dos pés à cabeça. Devem ser responsabilizados por suas ações. Que sua morte sirva de lembrete de que as leis da terra existem para a paz. Para a prosperidade. Para um futuro brilhante, de mãos dadas aos nossos vizinhos.
Lysandra sentia falta da doce tranquilidade vazia que experimentara o dia todo, mas as palavras do rei a haviam afetado. Seus músculos estavam tensos devido ao ódio e ao desejo de botar as mãos em volta do pescoço dele e apertar até a vida se esvair de seus olhos. Desejava matá-lo desde que incendiara sua vila e matara seus pais, desde que escravizara os sobreviventes e os forçara a construir sua preciosa estrada.
Ele falava muitas mentiras. Mas, olhando além dos fanáticos na frente, uma varredura dos rostos na multidão revelava apatia e desgosto. Talvez essas pessoas não estivessem mais dispostas a engolir as palavras do rei como um vinho que as tranquilizaria e daria uma falsa sensação de segurança.
Ela voltou a olhar para o rei. Era risível que aquele monstro estivesse mais uma vez fazendo-a sentir uma fagulha de vida poucos momentos antes de ordenar seu fim.
Lysandra desviou o olhar do rei e de sua odiosa família e virou para Tarus, cujos olhos chorosos encararam seu olhar firme.
— Não estou com medo — ele disse.
— Claro que não — ela sussurrou em resposta. — Você é o garoto mais corajoso que conheço.
Ele sorriu no mesmo instante em que uma lágrima escorreu pelo seu rosto.
Mas o sorriso desapareceu assim que o guarda envolveu o braço de Lysandra com a mão enluvada e a puxou para o lado.
Ele a arrastou quatro degraus acima até o palco e a obrigou a se ajoelhar, pressionando seu rosto contra um bloco maciço de madeira.
— Não olhe — Lysandra disse a Tarus, com a voz rouca enquanto o guarda puxava seu cabelo para revelar o pescoço. — Por favor, olhe para o outro lado.
Mas ele não obedeceu. Continuou olhando em seus olhos para mostrar que estava tentando ser forte. Por ela.
Ela se esforçou para se concentrar na plataforma onde o rei assistia aos procedimentos, parecendo orgulhoso e satisfeito. Viu a cicatriz no rosto do príncipe Magnus se contrair, mas, fora isso, ele parecia impassível. A princesa Lucia estava imóvel atrás dele, com o belo rosto calmo e frio.
A princesa Cleo, por outro lado, parecia agitada, alternando o olhar entre Lysandra, Tarus e a plateia como se fosse um beija-flor nervoso procurando abrigo.
Quando o carrasco suspendeu o pesado machado acima de sua cabeça, Lysandra finalmente fechou os olhos para não ver os seguidores do rei, que continuavam vibrando por sua morte iminente, alto o bastante para abafar qualquer protesto no fundo. Mas uma coisa que o rei dissera era verdade: não seria uma morte torturante. O fim chegaria rápido.
Ela não tinha nenhuma divindade para a qual rezar e não acreditava nas deusas das outras terras, de modo que pensou em seus pais, em Gregor e, por fim, em Jonas.
Amo todos vocês.
Quando soltou um suspiro longo e final, uma explosão sacudiu o palco.
Lysandra abriu os olhos rápido e viu uma nuvem de combustão laranja surgir à sua frente. Uma adaga voou pelo ar e acertou o pescoço do carrasco, fazendo-o recuar e cair duro no chão. Sob a máscara, Lysandra viu que os olhos mortos ainda estavam abertos e tomados pelo choque.
Outra explosão eclodiu à esquerda, atingindo o centro dos apoiadores do rei Gaius. Corpos e escombros voaram pelo ar, em chamas, estendendo a carnificina para o resto do público, que começou a se dispersar em todas as direções. Eles agora gritavam pela própria vida, não pela cabeça de Lysandra.
Atordoado, o alerta de Gregor ecoava nos ouvidos de Lysandra: Quando o sangue da feiticeira for derramado, eles finalmente serão libertados. E o mundo queimará.
A menos que Lysandra estivesse enganada, o mundo estava queimando naquele exato momento.
— Lys! Socorro! — Tarus gritou. Um guarda puxava o garoto de volta para o calabouço, para longe do caos repentino.
Ela não hesitou. Correu até o carrasco caído e virou para cortar as amarras com o machado que ele havia largado. De canto de olho, viu a realeza sendo conduzida para a segurança do palácio por um flanco de guardas de uniforme vermelho que pisavam sobre os corpos espalhados no solo, embaixo da plataforma.
Lysandra pulou do palco, empurrando e socando todos no caminho enquanto tentava chegar até Tarus.
Um braço forte como uma barra de ferro agarrou seu pescoço por trás. Ela o arranhou, lutando e chutando. Um homem caíra perto dela, gritando, com o corpo em chamas.
— Me solte! — ela gritou.
— Por quê? Tem algum compromisso?
Ela ficou paralisada. O braço firme vestia o odioso uniforme vermelho, mas assim que ouviu sua voz, parou de se debater.
Seu captor diminuiu a força apenas o suficiente para ela se virar e confirmar sua identidade.
— Jonas! — O nome não passou de um som rouco.
Ele não a saudou com um sorriso, nem mesmo um que fosse presunçoso e satisfeito. Tampouco olhou para ela; seu olhar estava fixo no grupo de pessoas, e ele estava extremamente sério.
— Aquela explosão caiu mais perto de você do que eu esperava — Jonas resmungou. — O idiota não sabe seguir ordens. Matou gente demais hoje. E quase matou você também.
Jonas não foi nem um pouco gentil quando começou a arrastá-la, seguindo Tarus e o outro guarda no meio da confusão. Milhares de espectadores fugiram da explosão, e as detonações continuaram. Uma depois da outra.
Dois guardas passaram correndo por eles sem olhar duas vezes. Um terceiro diminuiu o passo e olhou feio para Lysandra.
— Para onde estão levando os prisioneiros? — ele perguntou a Jonas e ao outro guarda que segurava Tarus pela camisa: outro rebelde disfarçado, pelo que Lysandra imaginava.
— Me pediram para levar os dois de volta para o calabouço até a área ficar segura — Jonas disse. — A menos que queira levá-los.
— Não. Vão em frente. E se apressem. — O guarda continuou seu caminho.
— Ah, vou me apressar — Jonas respondeu por entre os dentes.
— Está querendo morrer? — Lysandra resmungou. — Porque está fazendo um ótimo trabalho até agora.
— É bom ver você também. Agora cale a boca.
Jonas se movimentava tão rápido que Lysandra quase tropeçou no próprio pé. Estava fraca pela desidratação, pela fome, pelo luto e pelo medo. O que ele achava que estava fazendo? Ele e aquele outro garoto tinham acabado de arriscar o próprio pescoço para resgatar os dois. Idiotas!
— Acha que ninguém vai reconhecer você vestido assim? — ela sussurrou. — O uniforme não cobre seu rosto.
— Que parte de cale a boca você não entendeu?
— Quem é esse que está com Tarus? — Ela olhou para o garoto, agora dez passos à frente deles.
— Um amigo. Agora me faça um grande favor e aja como prisioneira para não chamarmos mais atenção.
Lysandra ficou quieta.
Os quatro chegaram à abertura protegida na parte mais a leste da muralha, que permitia que o rio corresse pelo centro da cidade, fornecendo seu principal suprimento de água. A multidão assustada estava tentando passar pela saída o mais rápido possível.
Um guarda surgiu diante deles.
— Aonde pensam que vão?
— Estamos saindo — Jonas respondeu.
— Estão saindo da cidade com os prisioneiros?
— Sim, esse era o plano.
O guarda olhou atentamente para o rosto de Jonas, e o coração de Lysandra ficou apertado.
— Você… eu conheço você. Você é Jon…
De repente, o cabo de uma espada acertou o guarda na cabeça. Ele caiu e revelou outro guarda logo atrás, cujos cabelos cor de cenoura arrepiados em todas as direções contrastavam com o tom carmim do uniforme.
Jonas sorriu para ele.
— Que bom ver você, Nic.
O guarda ruivo retribuiu o sorriso.
— É bom ser visto.
— Quando seus amigos acordarem, por favor, agradeça por nos emprestarem os uniformes. Foram muito úteis.
— Se acordarem, levarão a culpa por terem deixado alguns rebeldes escapar. Belo show, aliás. Quase fiquei impressionado. — Nic deu um tapinha nas costas de Jonas. — Agora deem o fora daqui e não olhem para trás.
Sem mais delongas, os quatro fugiram da cidade. Jonas e o amigo se livraram dos uniformes roubados em uma floresta próxima, onde tinham escondido as próprias roupas, assim como água e comida para Lysandra e Tarus. Deram de beber e comer aos dois enquanto andavam, afastando-se o máximo possível da cidade.
Finalmente, quando estavam a muitos quilômetros de distância, Jonas parou quando Lysandra deu um passo em falso. Suas pernas estavam fracas.
Ele a olhou, surpreso.
— Estou indo rápido demais?
— Não. Tudo bem. Sou desajeitada. — E estou exausta, ela pensou. E em choque.
— Você não me pareceu ferida na cidade… — Jonas examinou a pele dela, afastando os cabelos dos ombros.
Lysandra empurrou a mão dele.
— Não estou.
Ele não pareceu convencido e ficou preocupado.
— Aqueles cretinos machucaram você?
Ela ainda estava atordoada, sem saber ao certo se aquilo era real ou um sonho.
— Estavam prestes a cortar minha cabeça.
— Deixaram a gente numa cela escura, quase sem comida — Tarus disse com a voz trêmula. — Mas não bateram na gente. Bateram em Gregor, e muito, quando ele não quis falar.
— Gregor — Jonas repetiu, olhando imediatamente para Lys. — Seu irmão também está no calabouço?
Ela só foi capaz de acenar com a cabeça até reencontrar a voz.
— Estava. O rei o matou. E me obrigou a assistir.
Jonas cerrou os dentes e praguejou em voz baixa.
— Lys… Eu sinto muito.
— Eu também. — Ela soltou um suspiro trêmulo, esgotado de tanto sofrimento. Desejava muito que Gregor também estivesse ali. Então se lembrou do novo companheiro. O garoto mais velho, de cabelos escuros, olhava para ela com uma curiosidade silenciosa e os braços cruzados. — Quem é você? — ela perguntou.
— Desculpe, eu devia ter feito as apresentações — Jonas disse. — Lysandra, Tarus, esse é Felix Gaebras. Não são só vocês que devem a vida a ele; eu também. Sem ele, nada disso teria acontecido.
— É um prazer — Felix disse.
Seu primeiro instinto foi exigir mais respostas, mas as palavras desapareceram antes que pudessem ser pronunciadas.
Jonas estava certo. Se não fosse por Felix, e pelo próprio Jonas, ela estaria morta. Decidiu não julgar o rapaz até conhecê-lo melhor.
Lysandra apontou com a cabeça para Felix.
— Você foi o responsável pelas explosões?
— Não — Felix disse. — Isso foi obra de outro novo amigo do Jonas.
— Amigo é exagero depois do que aconteceu — Jonas resmungou. — Petros gosta muito de ver as coisas queimarem. Ele não tem controle. Podia ter matado Lys e Tarus.
Felix deu de ombros.
— Eles estão bem. E qualquer um que estivesse lá no meio pronto para ver seus amigos serem decapitados, mereceu o que houve. Não precisa se sentir culpado por nada.
Jonas soltou um longo suspiro.
— Acho que você tem razão.
Lysandra ainda estava estupefata.
— Por quê? — ela perguntou.
— Por que o quê? — Jonas disse.
— Você arriscou a sua vida e a dele para nos salvar? — Ela pegou a mão de Tarus e a apertou.
— E?
— E… — Ela sacudiu a cabeça. — Não faz sentido. Vocês deviam estar fazendo coisas mais importantes no momento.
— Sério, Lys? — Jonas olhou para ela, impaciente. — E se fosse eu naquele calabouço? Você ia me deixar apodrecer ali até me cortarem em pedacinhos enquanto fazia coisas mais importantes? Ou arriscaria o pescoço tentando me salvar? — Ele soltou uma gargalhada. — Esqueça a pergunta. Com certeza você seria muito mais prática do que isso. A vida de um rebelde não vale o risco, não é?
Não havia dúvidas do que ela teria feito se a situação estivesse invertida. Teria arriscado tudo para salvar Jonas.
— Fiz isso porque era o que Brion iria querer que eu fizesse. Esse é o motivo — Jonas disse, virando as costas. — Fim da história.
Brion. Outro garoto levado antes do tempo porque enfrentara aqueles que o oprimiam. Brion, que a amava apesar — ou justamente por causa — de sua natureza feroz e contestadora.
— Entendi — ela disse em voz baixa.
— Agora vamos. Precisamos continuar. Irão atrás dos dois assim que notarem sua ausência.
— Aonde estamos indo? — Tarus perguntou.
— Paelsia. Vou levar você de volta para sua família, garoto.
— Mas, Jonas…
— Sem “mas”. Você é jovem demais para isso tudo. Espere mais um ano para ficar mais forte, então poderá se juntar a mim de novo, se quiser.
— Mas eu… — Qualquer outro protesto morreu na língua de Tarus, e Lysandra viu uma pontada de alívio nos olhos dele. — Está bem. Se essa é sua ordem oficial, vou fazer o que está mandando.
— É, sim.
A mente de Lysandra relaxou pela primeira vez depois do que pareciam séculos. A ideia de Tarus poder ficar em relativa segurança era um grande alívio.
— E quanto a mim? — Lysandra perguntou. — Não tenho mais casa nem família.
— É… você. Você é um problema maior. — Jonas trocou olhares com Felix. — Então acho que o que vai fazer agora é escolha sua, Lys.
Poucas horas antes, ela estava praticamente morta. Agora tinha todo um futuro pela frente.
— Qual é o plano? — ela perguntou. — Se ainda é matar o rei, ele estava do lado de fora hoje. Você podia ter tentado.
— Ele não era minha prioridade hoje. Eu não podia perder o foco por nada. Mas agora que vocês estão livres, o antigo plano volta a valer. Não vou descansar até o rei perder o trono e o poder pra sempre. Até que dê o último suspiro. Até que todos os paelsianos estejam livres para controlar seu próprio destino.
Lysandra e Jonas olharam um para o outro.
— Então temos o mesmo objetivo.
Ele assentiu.
— Então acho que vai ficar com a gente.
— Acho que sim.
Quando ela estava pronta para aceitar a morte, seu fogo retornara. Estava fraco, mas nunca chegou a se extinguir de vez.
Lysandra estava viva. Seu espírito se renovara.
E estava pronta para lutar de novo.

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