3 de setembro de 2018

Capítulo 13

JONAS
LIMEROS

Finalmente, depois de uma viagem de vários dias, lá estava ele ao longe: o palácio limeriano. Tão grande e feio quanto Jonas tinha escutado que era.
— O trabalho de vocês é encontrar comida e alojamento para passarmos a noite — Jonas anunciou a Lysandra e Olivia. Os três tinham acabado de chegar a um vilarejo a pouco menos de dois quilômetros das dependências do palácio.
— Está bem — Lys respondeu, enquanto Jonas lhe entregou a bolsa pra que ela a guardasse em segurança. — Você ainda insiste em me deixar aqui enquanto vai observar o palácio? Vá em frente, então, e perca sua cabeça sozinho.
— Não sei — Olivia disse. — Jonas tem uma fama. Depois de todos seus supostos crimes, acredito que o joguem no calabouço em vez de matá-lo de imediato.
— Bem pensado — Lys disse, sem rodeios. — Vão querer ter tempo para juntar uma multidão de espectadores antes de cortarem sua cabeça.
Jonas olhou feio para as duas, ajeitando o tapa-olho.
— Obrigado por confiarem tanto em minhas habilidades. Volto assim que puder. — Ele logo seguiu para o palácio sem dizer mais nada. Já tinha estado em Limeros, mas nunca no palácio. E não fazia ideia de quais tipos de obstáculos o esperavam na entrada.
Diferentemente do palácio auraniano, não havia nenhuma muralha cercando o castelo. Em vez disso, havia uma guarita a cerca de quatrocentos metros dos portões do castelo, junto com uma única estrada que levava à estrutura gigante de granito preto. Qualquer visitante ou entregador teria de parar ali primeiro, ser questionado pelos guardas armados, que registrariam seu nome e o motivo da visita antes de negar ou permitir que continuasse.
Jonas viu apenas uma parte disso tudo de seu esconderijo sob uma lona, entre dois grandes sacos de batata, na parte de trás de uma carroça.
A segurança ali era ridícula se comparada à da Cidade de Ouro. Mas, até aí, o reino de Limeros não travava guerra em seu próprio território fazia... Jonas ficou pensando. Seu conhecimento sobre a história de Mítica não era vasto, mas não conseguia lembrar de nenhuma batalha significativa em terras limerianas.
Sem muralha, poucos guardas e um castelo escuro, enorme e feio, que seria muito fácil de invadir.
A ideia o fez sorrir.
Depois de passar pelos guardas no portão, a carroça vacilante seguiu caminho. Assim que se aproximaram do palácio, Jonas saiu discretamente. Analisou a área e quando não viu sinais de guardas de uniforme vermelho escondidos, ele começou a explorar o terreno.
Os ventos que sopravam pelas planícies nevadas que cercavam o palácio eram os mais pungentes que já havia sentido, e ele vestiu o pesado manto cinza-claro que tinha roubado durante a viagem. A peça o camuflava bem na paisagem invernal monocromática. Jonas passou por um pequeno lago completamente coberto por uma camada de gelo marcada, com alguns buracos na superfície para pesca. Em seguida, ele se aproximou de uma estrutura gigantesca feita do que parecia gelo esculpido e, quando chegou mais perto, se deu conta de que se tratava de um labirinto em tamanho real. Parecia um detalhe um tanto quanto frívolo para um reino orgulhoso da própria austeridade.
Apenas mais uma prova de que o rei Gaius não passava de um hipócrita.
Jonas parou assim que ouviu o som de duas vozes não muito distantes.
Quando teve certeza de que os donos das vozes estavam se aproximando, ele se abaixou atrás do muro da extremidade oeste do labirinto.
— Você sempre pensou o pior de mim.
— Você nunca me deu motivos para pensar em você de outra maneira.
Jonas não reconheceu a primeira voz masculina, mas a segunda era uma que ele nunca esqueceria.
Príncipe Magnus Damora.
Jonas espiou de seu esconderijo para ver o desenrolar da discussão, impressionado com a sorte que estava tendo naquele dia.
Exatamente o príncipe que estava procurando.
— Vossa alteza, sou seu leal servo — o jovem esguio e alto disse em um tom hipócrita.
— Sério? É por isso que tentou virar o conselho contra mim?
— Eles têm a própria opinião. Por que me escutariam?
Magnus riu, irônico.
— Lorde Kurtis, você me lembra seu pai: um homem que tenta expandir seu poder por meio da manipulação, e não da habilidade nem da inteligência.
— Caso tenha esquecido, ainda sou grão-vassalo do rei aqui. O título vem com poder, concedido a mim pelo rei em pessoa. Não pode mudar isso, nem se tentar cortar minha garganta de novo.
— Que excelente sugestão.
— Acho que sua esposa não gostaria muito disso. — Lorde Kurtis fez uma pausa, cerrando os olhos. — Sabe, a princesa Cleo e eu nos tornamos bons amigos.
O coração de Jonas deu um salto ao ouvir aquele nome.
A expressão de Magnus se manteve fria.
— Deixe-me adivinhar... Está tentando fazê-la se voltar contra mim também? Não será necessário se esforçar tanto.
— Sei que ela o odeia. Mas não sei ao certo se o sentimento é mútuo.
Aquela afirmação provocou uma careta no príncipe.
— É, sim. Acredite.
Um sorriso frio surgiu no rosto de Kurtis.
— Uma criatura tão encantadora e frágil... Já disse o quanto ela me faz lembrar uma borboleta de verão? Tão bela e rara e, ainda assim, tão fácil de esmagar se pousar na mão errada.
Em um instante, Magnus agarrou o jovem pelo pescoço e o jogou contra o muro de gelo.
— Guarde minhas palavras... — ele rosnou enquanto sufocava Kurtis, o rosto ficando rapidamente vermelho. — ... se voltar a me desafiar, vou enterrá-lo tão fundo no solo congelado que nunca será encontrado. Entendeu?
Kurtis só parou de ofegar e engasgar quando Magnus o soltou. Seus olhos ardiam de ódio, mas ele assentiu.
— Agora, saia da minha frente.
Não houve mais conversa, apenas o som das botas sobre a neve enquanto lorde Kurtis se retirava.
Quando teve certeza de que Magnus estava sozinho, Jonas não hesitou mais nenhum instante. Deu a volta, desembainhou a espada e a colocou contra o pescoço do príncipe Magnus, que o encarou com uma gratificante expressão de choque.
— Onde estávamos? — Jonas perguntou. — Acredito que a última vez em que nos vimos, eu estava prestes a matá-lo quando fomos grosseiramente interrompidos.
— Eu me lembro. Vigilantes, magia e fogo elementar descontrolado.
— De fato.
Magnus levantou uma sobrancelha.
— Belo tapa-olho, Agallon. E o cabelo... é um visual bastante inovador para um paelsiano. Suponho que deva ser seu grandioso disfarce?
— De joelhos. — Jonas pressionou mais a lâmina sobre a pele do príncipe. — Agora.
Devagar, Magnus se abaixou até o chão.
— Vai me matar? — Magnus perguntou.
— Aprendi a lição. Por que hesitar quando se pode acabar com as coisas de uma vez? — Jonas não se conteve e revelou diante daquela vitória incrível. — Mas, primeiro, me diga onde está Cleo?
— Cleo — Magnus repetiu. — Sim, é claro, você é um dos poucos privilegiados que não se refere a ela por seu título real, já que são aliados. Ela espera sua chegada? — Quando Jonas não respondeu. Magnus arriscou levantar os olhos, com uma sobrancelha erguida. — Ah, por favor. Ela confessou tudo. Sei que ela ajudou você e seus pequenos rebeldes a planejar o ataque no dia do casamento. Que pena que as coisas não saíram como o esperado. — O príncipe sorriu de maneira sinistra quando Jonas, estupefato, ficou em silêncio. — Tudo bem, Agallon. Ela é muito convincente quando quer. É capaz de manipular um garoto estúpido como você com a mesma facilidade com que balança o cabelo dourado.
— Você não sabe metade da verdade.
— Está apaixonado por ela? — O sorriso desagradável de Magnus aumentou. — É por isso que está arriscando seu pescoço de novo por aquela garota? O tipo de garota que normalmente não olharia duas vezes para você?
Jonas não se deixaria insultar nem intimidar por aquela cobra cruel e assassina.
— Onde ela está?
— No palácio, imagino. Fazendo coisas de princesa.
— Se você a feriu de alguma forma, juro que...
— O quê? Que vai me matar duas vezes?
— Vou fazer o possível para você ter essa sensação.
— Sei que nunca chegamos a ver as coisas da mesma forma, Agallon. Mas, antes de cortar minha garganta, tenho um conselho valioso para você.
— E qual é?
— Se quer chegar a algum lugar neste reino, em especial com Cleo, me matar é simplesmente a última coisa que deveria fazer.
Jonas riu alto.
— É mesmo?
— Sei que quer meu pai morto mais do que qualquer coisa. E vou contar um segredo... Eu também.
Jonas se esforçou para manter a mão firme.
— Mentiroso.
— Meu pai queria a princesa morta, mas decidi mantê-la viva. Isso é traição, Agallon. E um dia, em breve, ele vai chegar aqui e pedir minha cabeça por tê-lo desafiado. Gaius Damora ainda é um homem relativamente jovem. Tem tempo de sobra para semear um novo herdeiro para tomar meu lugar.
As declarações do príncipe pareciam absolutamente ridículas. Ele esperava mesmo que Jonas acreditasse que Magnus tinha desafiado o pai e salvado Cleo da morte?
— Se tudo isso é verdade, por que está aqui, no palácio limeriano, brincando de rei no trono de seu papai?
— Estou no comando, o que está entre meus direitos enquanto meu pai está fora. Imaginei que passaria uma impressão melhor do que se apenas desaparecesse e me escondesse. Então, aqui estou, aguardando o Rei Sanguinário voltar para finalmente nos enfrentarmos, pai cruel contra filho decepcionante. A espera me deu muito tempo para pensar. E me dei conta de que meu pai fez muitas coisas ruins, para você, para mim, para quase todos os que cruzaram seu caminho, que nunca poderão ser perdoadas. Ele merece morrer, não merece um trono dourado e um futuro brilhante.
Jonas se esforçava para manter ao mesmo tempo a concentração e a firmeza na mão com a espada.
— Mesmo que acreditasse em você, o que não é o caso, que diferença isso faz para mim? Por que deveria me importar com seus problemas de realeza?
— Porque ambos odiamos o rei. E porque eu e você não deveríamos mais ser inimigos. — Magnus encarou Jonas nos olhos. — Deveríamos ser aliados.
Dessa vez Jonas teve que rir, de tão ridícula a situação.
— Que conveniente para você fazer tal sugestão quando estou com uma espada em sua garganta.
— Você e eu não tivemos muitas oportunidades de conversar — Magnus respondeu. — Agora, abaixe a espada e me acompanhe até o palácio, onde poderemos discutir nossos planos.
Jonas estava na posição perfeita. Tinha a oportunidade de matar o Príncipe Sanguinário, de desferir um grande golpe no rei Gaius, que o prejudicaria profundamente. Mas se Magnus estivesse falando a verdade, se tinha cometido traição contra seu pai e estava pacientemente aguardando sua vingança, se Jonas o matasse, ficaria em uma situação pior do que antes. O rei teria facilidade em condenar Jonas como assassino do príncipe Magnus e da rainha Althea. A recompensa por sua cabeça quadruplicaria.
— Tenho amigos de vigia — Jonas disse devagar, se odiando por dentro por ter deixado Lysandra e Olivia no vilarejo. — Se tentar qualquer coisa, qualquer coisa, eles o acertarão com uma flecha.
— Entendido. — Magnus levantou os braços, mostrando que não pretendia pegar nenhuma arma. — Então, o que me diz? Trégua?
— Fico me perguntando se você demonstraria alguma misericórdia se as posições fossem ao contrário.
— Se achasse que você poderia me ajudar, com certeza sim.
— Se descobrir que Cleo foi submetida a qualquer tipo de maus-tratos, mato você.
— Garanto que ela está bem. — Então Magnus assentiu com prudência. — Estou vendo que o que a princesa diz sobre você é verdade, Agallon. É um grande líder, que se preocupa mais com os outros do que consigo mesmo. Você mudou muito nesses últimos meses, não foi?
Cleo tinha mesmo dito aquilo sobre ele?
— Ela mudou também — Jonas disse, tentando não deixar transparecer o quanto estava lisonjeado. — Cleo passou por uma dor imensurável e só se fortaleceu com isso.
— Sim. Ela é um grande exemplo para todos nós — Magnus olhou para a lâmina que ainda estava em sua garganta. — Então vamos entrar e conversar, só nós três.
Jonas tinha duas opções. Podia presumir que Magnus era um manipulador mentiroso, assim como seu pai, e manter o plano inicial de acabar com a vida dele ali mesmo. Ou podia correr o risco — um risco enorme — e confiar nas alegações de seu arqui-inimigo na esperança de se beneficiar de um bem maior.
Ele ainda era assombrado pela expressão de dor e decepção de Felix quando ficou sabendo que Jonas acreditou em coisas horríveis sobre ele apesar de meses de amizade leal. É claro que Felix tinha mentido sobre seu passado. E o fez porque queria um recomeço, queria se livrar dos erros já cometidos. Jonas desejava poder voltar àquela noite e agir de outra forma.
Obrigando-se a tirar Felix da mente, ele guardou a espada e ofereceu a mão a Magnus, que segurou seu punho e levantou.
Os dois ficaram se encarando em silêncio por um momento.
— Isso é muito estranho — Jonas admitiu.
— Para nós dois.
Magnus o levou até uma das entradas do palácio, onde dois guardas abriam as portas para o príncipe.
— Guardas — Magnus apontou para Jonas —, este rapaz é um rebelde declarado. Retirem suas armas e o acorrentem. Depois levem-no à sala do trono.
Jonas tentou pegar a espada, mas os guardas o derrubaram antes que conseguisse tocar nela.
— E mandem chamar a princesa — Magnus disse. — É hora de todos termos uma conversinha.


Jonas não sabia o que era pior: ter perdido suas armas ou ter perdido a cabeça.
A segunda, ele pensou. Com certeza a segunda.
Jonas não podia culpar ninguém além de si mesmo por ter acreditado nas mentiras do príncipe. O único alívio que sentia vinha do fato de Lys e Olivia ainda estarem em segurança na vila. Mas aquele consolo logo foi sufocado quando ele foi levado à sala do trono, acorrentado de acordo com as ordens do príncipe, e viu Olivia e Lysandra, impotentes, com as mãos amarradas atrás das costas.
— O que estão fazendo aqui? — ele sussurrou.
Olivia deu de ombros.
— Nós te seguimos.
— Eu disse que era melhor não fazer isso — Lysandra disse. — Mas ela me convenceu.
— E agora? — Jonas questionou a bruxa, esperando que ela lançasse mão de seus elementia e os libertasse de alguma forma. — Pode fazer alguma coisa?
— Prefiro ver o que vai acontecer antes.
— “Ver o que vai acontecer”? — ele repetiu, perplexo.
O cristal da terra estava no fundo da bolsa que ele havia entregado para Lysandra antes de invadir as dependências do palácio. Onde estaria agora?
— Por favor, me avisem quando terminarem a conversa de vocês. — A voz de Magnus chamou a atenção de Jonas para a passarela, onde o príncipe estava sentado no trono de seu pai.
— Já terminamos — Jonas resmungou.
— Ótimo. — Ele fez um sinal para o guarda. — Traga-a.
O guarda abriu as portas e a princesa Cleo entrou na sala do trono. Por um instante, Jonas só conseguiu contemplá-la, grato por continuar tão bela — e viva — quanto da última vez que a viu. Pelo menos o príncipe não estava mentindo sobre isso.
Ela deu três passos graciosos antes de perder o equilíbrio. Seus olhos arregalados alternavam entre Jonas e Magnus.
— O que está acontecendo? — ela questionou.
— Alguém apareceu para uma visita — Magnus respondeu, apontando para Jonas. — Achei que deixá-lo ficar por um tempo seria a coisa mais hospitaleira a fazer.
— Este... é Jonas Agallon — ela disse.
— Sim — Magnus confirmou. — Estou impressionado por ter reconhecido o grande líder rebelde mesmo com seu engenhoso disfarce.
O rosto dela ficou pálido.
— Por que o trouxe aqui? Para pagar por seus crimes?
Não, Jonas pensou. Ah, não. O que foi que eu fiz?
Mais provas das mentiras do príncipe. A princesa nunca tinha confessado a ele seu papel no levante, e Jonas acabou confirmando que eram aliados. Agora, graças a sua persistente ingenuidade, Jonas tinha condenado não apenas a si próprio, mas Cleo também.
— Encontrei este estimado líder lá fora, onde ele tentou me assassinar — Magnus explicou. — Obviamente, fracassou. Mas é isso que dizem sobre o líder rebelde: ele fracassa. Várias vezes.
— Você sabe o que dizem sobre você, Magnus? — Jonas perguntou, pensando que não tinha mais nada a perder. — Que você devia lamber a bunda de um cavalo!
— Ah, o tipo de declaração charmosa que eu esperaria de um camponês paelsiano!
— Vou ver você sangrar, seu filho da puta — Lysandra bradou.
Magnus virou seu olhar sinistro para ela.
— Saudações, Lysandra. Eu lembro de você, é claro.
— E eu lembro de você.
— Sem dúvida não vai acreditar em mim, mas acho que deveria saber que acho que o rei cometeu um erro imperdoável executando seu irmão. Ele nos seria muito mais útil vivo.
Lysandra respirou fundo, trêmula, os olhos repletos de dor e ódio.
Cleo retorceu as mãos.
— Magnus, por que trouxe esses rebeldes para a sala do trono? Por que não os mandou direto para o calabouço?
— Por que pergunta, princesa? Talvez porque seria mais fácil para você ajudá-los a escapar?
— Como é? — O rosto dela ficou ainda mais pálido. — O que está insinuando?
— Chega. Já sei a verdade, que você é livre para negar até seu último suspiro. Meu pai estava certo a seu respeito e sua aliança com o rebelde. — Ela se esforçou para encontrar palavras, gaguejando, mas Magnus ergueu a mão para silenciá-la. — Não se dê ao trabalho. Agallon já confirmou tudo.
Jonas esperou pelo massacre de vergonha e fracasso, mas só sentiu raiva. A confusão no olhar de Cleo foi substituída por uma onda repentina de rebeldia.
— É mesmo? E você acredita em alguém que me sequestrou duas vezes em benefício próprio?
Magnus riu.
— Agora você só está desperdiçando fôlego. Qualquer mentira nova é irrelevante para mim. Vou mandar executá-lo ao pôr do sol.
Cleo ficou boquiaberta.
— Não! Você não pode fazer isso!
— Não posso? — Magnus ficou olhando para ela. — Muito bem. Admita para mim que você e Jonas estavam trabalhando juntos há meses, que você chegou a ponto de conspirar para o ataque que aconteceu em nosso próprio casamento, e eu o deixo viver. Uma palavra sela o destino dele. Sim? Ou não?
Um turbilhão de raiva, dúvida e medo passou pelo rosto da princesa, até seus traços refletirem pura e profunda fúria.
— Fale, ou vou tomar a decisão por você. Sim ou não?
— Sim — ela finalmente murmurou.
— Muito bem, princesa — Magnus afirmou, mas havia pouco prazer em sua expressão. Jonas viu um músculo se contorcer em sua face marcada pela cicatriz.
Ela olhou feio para o príncipe, os punhos cerrados.
— E agora você vai matá-lo assim mesmo, não vai? E talvez a mim também? Ou prefere que eu me rebaixe ainda mais?
— Se é isso que você chama de “se rebaixar”, estou muito decepcionado. — Magnus fez sinal para os guardas. — Desacorrente o rebelde e suas amigas. Leve as moças para esperar em um lugar confortável enquanto terminamos a conversa em particular. Se falarem com alguém sobre o que presenciaram aqui, terão a língua cortada.
Jonas ficou olhando para o príncipe, consternado, enquanto os guardas soltavam as pesadas correntes. Depois fizeram o mesmo com Lysandra e Olivia antes de as escoltarem para fora da sala do trono.
Magnus levantou e desceu as escadas, depois assumiu seu assento na cabeceira da longa mesa preta.
— Vamos conversar — ele disse, gesticulando para Cleo e Jonas se juntarem a ele.
Jonas sentou em uma cadeira de mogno e esfregou os punhos doloridos.
— Se você só queria conversar, para que as correntes? Os guardas?
— Você me fez ficar de joelhos, colocou sua espada em minha garganta, me fazendo acreditar que estava a minutos da morte. Isso era o mínimo que eu podia fazer para ficarmos quites.
Inacreditável, Jonas pensou, descrente. Isso tudo tinha sido um espetáculo para aplacar o orgulho ferido do príncipe.
— Agora, voltando ao assunto... — Magnus continuou. — Minha oferta continua valendo, Agallon.
— Que oferta? — Cleo perguntou. Seu rosto estava corado, e os dedos agarravam a beirada da mesa.
Magnus ficou tenso.
— Propus uma trégua entre mim e Jonas.
Cleo expressou seu choque.
— Uma trégua? Eu... eu acho muito difícil acreditar. — Ela encarou Jonas. — Você concordou com isso?
Ele assentiu com relutância.
— Concordei em discutir a questão.
— Não compreendo.
— Ao mesmo tempo que o rebelde tem sido um espinho dolorido, acredito que pode ser útil — Magnus explicou. — Ele concordou em matar meu pai para que ele não seja mais uma ameaça a mim e a nenhum de nós. Embora Agallon já tenha tentado antes e fracassado, terá muito mais sucesso aliando-se a mim.
Cleo franziu a testa.
— Com seu pai morto, você seria o rei de Mítica inteira.
— Sim, seria.
— Bem, e isso é muito conveniente para você, não é? Jonas faz todo o trabalho, e você fica com toda a recompensa.
— Sei que você tem um argumento, princesa.
— Meu argumento é: o que acontece depois? Se o rei estiver morto, e você tiver todo o poder? Não vai mais precisar do Jonas... nem de mim.
— Eu, na verdade, não preciso de você. Mas, se teme por sua vida, não é necessário. Não ganharia nada com sua morte depois que conseguir o que quero.
O rosto dela ficou vermelho.
— Você confirmou hoje que sou uma mentirosa e que já auxiliei os rebeldes. Por que me perdoaria por isso?
Magnus a observou em silêncio por um momento, com as mãos apoiadas sobre a mesa.
— Por que não mentiria? Por que não se aliaria a alguém que pudesse ajudá-la a se libertar de seus inimigos? Eu teria feito exatamente a mesma coisa se estivesse em sua posição.
Ela franziu ainda mais a testa.
— Às vezes acho que sua tarefa diária é me deixar confusa.
— O sentimento é mútuo, princesa.
Os dois continuaram a se encarar em silêncio enquanto a tensão na sala aumentava cada vez mais.
Jonas limpou a garganta.
— A princesa tem razão. Parece que você está me pedindo para fazer o trabalho sujo enquanto fica tranquilo e recebe a maior parte da recompensa. O que nós ganhamos?
— Nós? — Magnus repetiu, desgostoso. — Está falando de você e da princesa?
— É claro. E de Lys e Olivia. E de Paelsia como um todo. É parte do reino de seu pai agora. De seu reino, se eu tiver sucesso.
— O objetivo de meu pai era unir Mítica porque achou que era a chave para encontrar a Tétrade — Magnus explicou. — O chefe Basilius foi tolo o bastante para ajudá-lo a levar Paelsia para a ruína. E agora ele está morto. Quando meu pai finalmente se juntar a ele nas terras sombrias, quero devolver uma época mais simples a este país. Limeros é meu único interesse, tanto agora quanto no futuro. Paelsia é sua, Agallon. E Auranos será devolvida a você, princesa.
Jonas tinha certeza de que não podia ter escutado direito. A ideia de que aquilo pudesse ser verdade fez o mundo girar à sua volta.
— E você espera que acreditemos nisso?
— Não pode ser verdade — Cleo disse em tom de descrença, balançando a cabeça. Seu rosto tinha ficado muito pálido.
— É verdade e está em meus planos. Cabe somente a vocês decidir se desejam fazer parte deles. Se discordarem ou preferirem continuar duvidando, podem deixar o palácio e nunca mais voltar.
Da primeira vez que Jonas tinha resolvido confiar na palavra de Magnus, foi acorrentado de imediato e ameaçado de morte. E tinha sido poucos minutos atrás.
Seria uma aposta fatal confiar nele de novo.
Ainda assim, tinha muito a perder se fosse embora, e muito mais a ganhar se aquilo fosse verdade.
— Está bem — Jonas disse, rangendo os dentes. — Eu concordo.
— Ótimo. E você, princesa? — Magnus perguntou, virando para Cleo. — Quando o rei estiver morto, seu reino será devolvido a você, e prometo que nunca mais terá que me ver.
Ela ficou em silêncio por tanto tempo que Jonas ficou se perguntando se tinha perdido a voz.
Finalmente, ela assentiu.
— Eu concordo.

Um comentário:

  1. — Encontrei este estimado líder lá fora, onde ele tentou me assassinar — Magnus explicou. — Obviamente, fracassou. Mas é isso que dizem sobre o líder rebelde: ele fracassa. Várias vezes.
    — Você sabe o que dizem sobre você, Magnus? — Jonas perguntou, pensando que não tinha mais nada a perder. — Que você devia lamber a bunda de um cavalo!
    — Ah, o tipo de declaração charmosa que eu esperaria de um camponês paelsiano!
    — Vou ver você sangrar, seu filho da puta — Lysandra bradou.





    NOSSA... ás vezes eu tenho a impressão que esse livro devia estar no blog dois

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Boa leitura, E SEM SPOILER!