29 de setembro de 2018

Capítulo 13

O DESERTO ERA CONSTANTE. Por seis semanas só havia areia e céu azul. As bolhas no meu pé começaram a sangrar e novas se formaram no lugar delas. A inquietude que eu havia enterrado fundo durante a vida inteira já não se deixava reprimir tão fácil. Eu estava a caminho de Izman e nunca havia me sentido tão desperta.
À noite, quando o resto do acampamento dormia, eu tirava meu sheema para respirar e fazer companhia a Jin no seu turno de vigília até ficar cansada o suficiente para adormecer antes do meu. Ele me ensinou palavras de outros idiomas que tinha aprendido navegando. Depois do primeiro mês, eu já era capaz de ameaçar alguém e xingar sua mãe em xichan, albish e gallan. Jin me mostrou como tinha quebrado o pulso de Dahmad na arena de tiro, uma manobra que aprendera de um marujo de Jarpoor em um porto albish. Uma vez perguntei a ele sobre seu nariz quebrado. Ele contou que uma garota mirajin o havia golpeado, e que o irmão dele o recolocara no lugar. Jin fazia isso às vezes, mencionava o irmão, como se estivesse esquecendo de manter o segredo de mim. Mas falava livremente sobre quase todo o resto. Ele me contou sobre os lugares que havia conhecido. As costas estrangeiras onde tinha velejado, histórias de todas as coisas que tinha feito. Eu morria de vontade de ver os Palácios Dourados de Amonpour e sentir a força de um navio sob meus pés. As histórias de Izman pertenciam à minha mãe. Mas o mundo era bem maior do que ela havia me contado. E me ocorreu uma ou duas vezes que eu poderia ir a qualquer lugar.
Soube que estávamos nos aproximando do fim do deserto quando vi algo além de dunas no horizonte.
— Aqui é o vale de Dev — Jin me contou, enquanto a caravana acampava. — É uma confusão de montanhas e desfiladeiros que desce até a fronteira oeste de Miraji. Dizem que foi esculpido durante a guerra contra a Destruidora de Mundos. Antes da humanidade.
— Deve ter sido uma batalha e tanto. — Provavelmente estávamos a dois dias de caminhada do lugar. Não era muito. Levantei a cabeça para observar a noite. A areia rolava em uma ondulação sem fim, azul devido à luz das estrelas, então seria difícil dizer onde ela encontrava o céu não fosse pela constelação acima de nós. — Estamos caminhando há quase dois meses. As estrelas se moveram.
— O capitão de um dos navios onde trabalhei navegava se guiando só pelas estrelas.
— Mas você precisa de uma bússola quebrada. — Como sempre acontecia quando eu mencionava a bússola, não conseguia arrancar nenhuma reação de Jin, exceto um mínimo movimento do lábio.
— Quer que eu assuma seu turno? — perguntei. Era um padrão que tínhamos repetido desde a primeira noite.
— Você não é normal. — Jin passou as mãos pelo rosto. — Esse deserto é capaz de drenar as forças de qualquer homem.
— Bem, eu não sou um homem — falei. — E estava só tentando ser gentil, então…
— Não, espera. — Jin entrelaçou os dedos nos meus rápido demais para eu reagir, me puxando para sentar com ele. Isso provocou um maldito arrepio pelo meu corpo, antes de ele me soltar igualmente rápido. — Desculpa. Acho que essa areia onipresente está me deixando cansado.
— Estou acostumada com a sensação. — Olhei para um ponto fixo além das dunas. Era como se o deserto se estendesse para sempre, mas o horizonte parecia mais próximo por causa das montanhas. — A areia entra fundo na alma depois de um tempo.
— E na pele também.
Jin estendeu a mão. Antes que eu pudesse pensar, ela estava na minha bochecha, quente e um pouco áspera. Seu polegar percorreu a maçã do meu rosto. Uma cascata de areia desceu no seu rastro, caindo da pele onde estava grudada e deixando um estranho calafrio ardente no lugar.
— Amani. — Ele não tirou a mão do meu rosto. — Você vai precisar ser cautelosa quando chegarmos a Dassama. A cidade é usada há anos como ponto de parada dos soldados gallans. Existem quase tantos deles quanto mirajins ali.
— Quando eu não sou cautelosa? — Tentei adotar um tom leve, mas na verdade estava absorvida pela mão dele no meu rosto.
— Sempre — Jin disse, irônico, seu polegar percorrendo linhas ásperas na minha bochecha, seus olhos acompanhando o movimento. Como se estivesse me memorizando. — Aliás, se alguém da caravana olhasse agora, seu disfarce iria pelos ares. — Ele deslizou a mão pelo meu queixo. Conforme sentia seu toque no meu rosto, minha respiração ia ficando irregular.
— Eu diria que é você que não está sendo cauteloso agora. — De repente, Jin pareceu se dar conta daquilo. Baixou a mão depressa, deixando para trás uma sensação fria na minha pele. — Além disso, você vai estar comigo. Como Atiyah pode se meter em apuros se tem Sakhr por perto? — Atiyah e Ziyah era uma bela história de amor. Atiyah e Sakhr era nossa piada interna.
Ele não achou graça. Eu sabia o que o silêncio de Jin significava. Que ele estava escondendo alguma coisa de mim. De repente, me dei conta de que logo partiríamos em direções diferentes.
Minha tia Safiyah podia ser sangue do meu sangue, mas eu conhecia Jin. E não queria deixá-lo. Ele tornava o mundo maior. Eu queria visitar os países onde Jin estivera. E mais do que tudo queria que me pedisse para ir com ele. Mas nosso tempo juntos estava se esgotando.
Na primeira luz da manhã, as montanhas pareciam ainda mais próximas. Senti um frio na barriga de antecipação. A noção de que o deserto estava chegando ao fim e logo chegaríamos a Dassama, o primeiro sinal de civilização em semanas, começou a se espalhar pela caravana ao longo do dia. A caminhada normalmente estoica pelas areias se tornou inquieta. As crianças mais novas corriam para cima e para baixo ao longo da cáfila, tentando convencer qualquer um que encontrassem a dar alguns louzis para comprarem guloseimas quando chegássemos a Dassama. Homens e mulheres começavam a declarar seu desejo por um copo de qualquer coisa gelada. Isra dava broncas em Parviz, dizendo que as provisões quase não tinham sido suficientes dessa vez e por isso teríamos que reabastecer assim que chegássemos à cidade. Yasmin entretinha seus primos menores com um jogo que chamava “Quando eu chegar à cidade”.
— Quando eu chegar à cidade, vou arrancar meus pés e trocá-los por outros que não estejam tão doloridos — disse o pequeno Fahim, curvando-se dramaticamente e deixando os braços balançarem como um boneco de pano.
— Quando eu chegar lá vou comer cem bolos de yazdi — disse sua irmã, erguendo-o pelo colarinho da camisa.
— Cem! — Yasmin fingiu arregalar os olhos de surpresa. — Como vai ter espaço para isso tudo depois de comer cem tâmaras e cem galinhas?
Tentei impedir que meu estômago roncasse diante da lista de tudo o que a garotinha já tinha prometido comer.
— E você, Alidad? — Yasmin perguntou, tentando me incluir no jogo. — O que vai fazer quando chegar a Dassama?
Tudo o que eu queria era me lavar até a poeira que estava na minha pele transformar a casa de banho numa versão em miniatura do Mar de Areia. Só que eu não poderia fazer aquilo sem revelar meu segredo.
E, mais do que em Dassama, era em Izman que eu pensava conforme nos aproximávamos do fim do deserto.
Quando meu pai não estava em casa, minha mãe falava sobre encontrar a irmã em Izman com tanta frequência que era quase uma prece. Mas eu nem sabia se ainda queria ir. Não sabia se minha vontade tinha sido real, ou se minha mãe desejara aquilo o suficiente para nós duas seguirmos em frente durante todos aqueles anos.
Minha tia poderia ser tão ruim quanto tia Farrah. E, mesmo que não fosse, eu não tinha tanta certeza de que queria ficar com alguém que poderia reivindicar qualquer direito sobre a minha vida.
E eu nunca mais veria Jin.
Meus olhos estavam fixos nas costas dele, bem à frente, quando percebi que a caravana estava parando.
— O que está acontecendo? — Yasmin colocou a mão na cabeça de Fahim, impedindo que ele saísse correndo para ver.
Um burburinho percorreu a caravana conforme as pessoas levantavam a cabeça, tentando enxergar adiante, protegendo os olhos contra os últimos raios de sol. Todos estavam curiosos, porém a caravana devia esperar as ordens. Mas eu não.
Corri até a frente. Tínhamos chegado ao topo de uma duna. Parviz estava de pé, Jin ao lado dele, com o sheema puxado para baixo. Os camelos tinham ajoelhado para descansar, sem entender por que tínhamos parado.
Cheguei ao topo de uma duna alta perto deles. De início, tampouco entendi o que se passava.
Onde Dassama deveria estar, só havia ruínas. Paredes velhas e semidestruídas refletiam o sol poente, os últimos raios criando sombras entre elas, estendendo-se pela areia. Então percebi que não eram sombras.
Minha boca secou.
— Como a areia pode queimar? — Jin perguntou bem devagar quando me aproximei.
Quanto mais próximo chegávamos, pior a situação parecia. Onde as pedras não estavam pretas, haviam se desintegrado em cinzas. Em alguns lugares a própria areia estava preta ou queimada até ficar dura. Não falamos enquanto caminhávamos com cautela pelo que sobrara das ruas estreitas e casas carbonizadas. Não era um incêndio. Algumas pessoas sobreviveriam a um incêndio, correndo dele e extinguindo o fogo, abafando-o com areia.
Jin foi o primeiro a dizer o que ambos estávamos pensando, baixo demais para o resto da caravana ouvir.
— Não há corpos.
— Corpos queimam mais fácil do que pedra. — Chutei uma pedrinha, e o que tinha restado dela se desintegrou. — Nenhum fogo se espalharia desse jeito a menos que o lugar inteiro estivesse ensopado em óleo.
— Uma bomba — Jin disse. Não era uma pergunta, mas isso não significava que ele estava certo.
— Não parece — eu disse.
Jin olhou de soslaio para mim.
— Por quê?
— Ora, meu caro xichan. — Tentei forçar um tom mais leve. O vento puxando meu sheema tinha sabor de cinzas, o que me dava ânsia de vômito. — Você está me dizendo que nunca acendeu pólvora quando era criança só para explodir alguma coisa?
Jin soltou uma risada de escárnio.
— Nem todo mundo cresceu perto de uma fábrica de armas.
Dei de ombros.
— Uma explosão sempre tem um centro. Aqui as construções estão queimadas por todos os lados. — Como se alguma coisa tivesse vindo por cima e inundado a cidade com fogo. Aquilo soava familiar, mas eu não sabia por quê. Contornei uma esquina destruída e parei de repente.
— E uma bomba não pouparia uma casa de oração.
Em meio aos destroços, uma enorme construção com um domo no topo era a única coisa intacta na cidade. Suas paredes continuavam brancas, novas e reluzentes, e as marcas de queimadura cessavam ligeiramente antes delas.
— O que fez isso? — sussurrei.
Jin só balançou a cabeça.
— Alguma coisa sobrenatural.
— Temos outro problema. — Havíamos perambulado até o centro da cidade, e indiquei com a cabeça o amontoado de metal derretido e pedra no meio da praça. — Acho que aquilo devia ser o poço.
O medo que percorreu a caravana quando viram a mesma cena foi evidente. Ninguém sabia o valor da água tanto quanto as pessoas do deserto.
— Quanta água ainda temos? — Jin disse, levantando a voz para falar com Parviz.
— Suficiente para um dia. — Ele tinha uma expressão sombria no rosto. — Dois, se racionarmos. É uma caminhada de seis dias até Saramotai.
Reconheci o nome da próxima cidade oásis no nosso roteiro, onde deveríamos parar depois de reabastecer em Dassama.
— São apenas dois dias até Fahali — Jin disse. — Se seguirmos para o oeste, não para o norte.
— Fica fora do nosso caminho — Parviz respondeu rápido demais.
— Acha melhor morrer de sede do que desviar? — Jin estava de braços cruzados. Olhava para os próprios pés, mas também para algo distante. Como se tivesse coisas mais importantes na cabeça do que nossa morte iminente de sede. — E não estou ouvindo nenhuma outra ideia.
Parviz olhou de relance para o irmão, um homem chamado de Oman, o alto, para que se diferenciasse dos três outros Omans na caravana. Alguma comunicação silenciosa ocorreu entre os dois. Oman, o alto, balançou a cabeça discretamente. Olhei para Jin para ver se tinha percebido também, mas ele estava perdido em pensamentos.
— Existe algo que devemos saber? — perguntei. — Sobre Fahali?
— É uma cidade perigosa — Parviz disse apenas.
— O deserto também é perigoso — eu disse. Ele estava escondendo algo, mas eu não conseguia entender o quê. — Não é por isso que está nos pagando?
Houve um momento de silêncio tenso, então Parviz assentiu com a cabeça, a expressão fechada.
— Fahali, então. E vamos rezar para que sua mira seja realmente boa, jovem Alidad.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!