23 de setembro de 2018

Capítulo 13

MAGNUS
AURANOS

— Acho que você não entendeu — Magnus disse ao guarda kraeshiano de uniforme verde nos portões do palácio. — Sou o príncipe Magnus Damora.
O guarda franziu os lábios, analisando-o de cima a baixo.
— Preciso admitir, a semelhança com os retratos que vi dele é impressionante — respondeu o homem. — Mas o verdadeiro príncipe Magnus está morto.
— Você sem dúvida é novo por aqui — Magnus lançou um olhar para Ashur, que usava o capuz do manto cinza para cobrir o rosto.
Ashur apenas deu de ombros.
Nenhuma ajuda viria dele.
— Exijo uma audiência com o rei Gaius — Magnus declarou com o que lhe restava da dignidade real. — Que é meu pai. Deixaremos a determinação do status da minha existência para ele, que tal?
O guarda suspirou e deixou a dupla entrar.
— É provável que ele não se importe de ter deixado um possível assassino entrar nas dependências do palácio — Ashur murmurou para Magnus.
Provavelmente não.
Depois de entrarem no palácio, os dois foram parar em um vasto corredor que parecia infinito. Cada coluna ao longo de sua extensão era esculpida com perfeição.
Alguns diziam que o palácio já existia naquele mesmo lugar quando a deusa Cleiona dominava a região. Alguém tinha que levar a culpa por importar todo aquele mármore irritantemente branco para Mítica.
— Para ser sincero, estou surpreso por sua irmã não ter tirado a vida do meu pai quando teve a chance — Magnus comentou. Sua voz ecoava nas paredes de mármore.
— Também fiquei surpreso — Ashur respondeu. — Não é do feitio dela.
Os dois encontraram um guarda de vermelho pelo caminho.
— Onde está o rei? — Magnus perguntou.
O guarda arregalou os olhos.
— Vossa alteza! Ouvi dizer que estava…
— Morto? — Magnus terminou a frase por ele. — Sim, parece o consenso geral. Onde está meu pai?
O guarda fez uma reverência.
— Na sala do trono, vossa alteza.
Ele sentiu o olhar surpreso do guarda enquanto seguiu pelo corredor ao lado de Ashur.
— Limerianos e kraeshianos trabalhando lado a lado — ele comentou em voz baixa. — Que amigável.
— Amara não tem mais nenhum interesse em Mítica — Ashur disse. — Eu ficaria surpreso se essa ocupação durar mais um mês antes que ela exija que toda a força do exército se dirija ao próximo local que planeja conquistar.
— Não vamos contar com a vitória antes da hora.
— Não, com certeza não.
Ashur achou que seria melhor Magnus falar com seu pai sozinho.
Magnus concordou. Os dois se separaram quando o corredor se bifurcou.
As portas altas da sala do trono apareceram diante de Magnus, que parou e respirou fundo. Nervoso, ele girou o pesado anel dourado na mão esquerda enquanto criava a coragem que não achou que precisaria para fazer aquilo.
Finalmente, deu um passo à frente e abriu as portas.
O rei estava no trono, onde Magnus já o havia visto — ali e em Limeros — milhares de vezes. Havia seis homens na base dos degraus que levavam à plataforma do trono, cada um com um pedaço de pergaminho.
Os negócios do reino devem continuar, ele pensou. Nos bons e nos maus tempos.
O rei levantou os olhos e viu Magnus. Ele se levantou tão rápido que o cálice de prata que segurava caiu no chão.
Depois virou para os homens.
— Saiam — ele ordenou. — Agora.
Eles não discutiram. Passaram por Magnus em fila e saíram da sala.
— Não quero interromper — Magnus disse com o coração acelerado.
— Você está aqui — o rei disse com a voz abafada. — Está aqui de verdade.
— Estou.
— Então funcionou.
Magnus sabia exatamente do que o pai estava falando. Tocou o anel e em seguida o tirou do dedo.
— Funcionou.
O pai se aproximou com o rosto pálido enquanto inspecionava Magnus, andando ao redor dele.
— Por muito tempo, tive esperança de que a magia da pedra sanguínea pudesse salvá-lo, mas a esperança já tinha desaparecido por completo.
— Parece que todos acreditam que estou morto — Magnus comentou.
— Sim. — O rei soltou um suspiro trêmulo. — Sabemos que Kurtis o enterrou vivo. E que o torturou antes. Mas você está bem aqui na minha frente. Não é um espírito nem um sonho. Está aqui, e está vivo.
A garganta de Magnus ficou apertada, e o príncipe não soube o que dizer nem o que pensar. Ele não tinha se dado conta de que seria tão difícil.
— Estou surpreso que você se importe. Afinal, já tentou me mandar para o túmulo bem antes de Kurtis.
— Eu mereço sua desconfiança.
Magnus estendeu a mão com o anel.
— Isso pertence a você.
O rei não pegou o anel. Em vez disso, abraçou o filho com tanta força que Magnus teve dificuldade para respirar.
— Inesperado — Magnus disse. — Um tanto quanto inesperado.
— Falhei como pai com você tantas vezes que perdi a conta. — Gaius segurou o rosto dele com as duas mãos. — Mas você está aqui. Vivo. E agora tenho a oportunidade de tentar me redimir.
— Isso com certeza ajudou. — Magnus apontou de novo para o anel. — Pegue-o de volta. Pertence a você.
O rei Gaius se recusou.
— Não. Ele agora é seu.
Magnus franziu a testa.
— Não precisa dele?
— Olhe para mim — o rei pediu. — Já me recuperei de minhas aflições. Não preciso mais da magia da pedra sanguínea. Me sinto forte, mais forte do que em muitos anos, e pronto para voltar a reinar… com sua assistência, se você concordar.
Magnus engoliu em seco.
— É claro que sim.
— Fico muito feliz em ouvir isso.
— Fiquei sabendo o que aconteceu com o ritual — Magnus comentou quando reencontrou a própria voz. — Cleo está bem? Ela está sofrendo?
O rei Gaius franziu os lábios em uma expressão azeda.
— Ela parece bem na medida do possível, tendo em vista a situação. Já ficou sabendo de tudo? Soube o que aconteceu com sua avó?
Ele assentiu de novo.
— Ashur me encontrou e me contou o que aconteceu. Onde está Cleo?
— Provavelmente metendo o nariz importuno nos assuntos particulares de alguém — o rei murmurou.
Depois de passar dias preocupado com a segurança dela, era um alívio.
— E Kurtis?
— Mandei uma expedição de busca atrás dele — o rei afirmou. — Ele não é visto há dias, mas sinto que vai voltar ao palácio para ver o pai.
— Lorde Gareth está aqui?
— Estava. — Gaius fez uma pausa. — Lucia voltou para nós. Se não tivesse voltado, duvido que Amara nos teria deixado sair com tanta facilidade.
A mente de Magnus se esvaziou por um instante.
— Lucia… está aqui?
— Sim. — Gaius olhou para além de Magnus. — Na verdade, está parada bem atrás de você.
Sem fôlego, Magnus se virou devagar.
Lucia estava emoldurada pelas portas da sala do trono, os olhos bem arregalados.
— Magnus? — ela sussurrou. — Eu… eu vi você morto. Eu senti no fundo da alma. Mas você está aqui. Vivo.
Da última vez em que a vira, ela estava aliada ao deus do fogo, procurando rodas de pedra mágicas nas dependências do palácio limeriano. Lucia tinha sido cruel e violenta, e usado o amor do irmão por ela como arma para manipulá-lo e feri-lo.
Mas quando Kyan tentara matá-lo, Lucia tinha salvado sua vida.
Apesar de jurar que a irmã voltaria, que não continuaria a ajudar Kyan, no fundo Magnus achava que nunca mais a veria.
Mas lá estava ela.
Hesitante, Magnus se aproximou de Lucia, preparado para algo horrível. Mas nada aconteceu.
Os olhos dela estavam cheios de lágrimas quando o encararam.
— Estou vivo — ele confirmou.
— Eu… sinto muito — ela disse, lágrimas escorrendo pelo rosto. — Sinto muito por tudo o que fiz!
Ele quase gargalhou diante daquela explosão surpreendente e pouco característica.
— Não… Sem desculpas, por favor. Hoje, não, minha bela irmã. O fato de você estar aqui conosco de novo depois de tudo o que… — Ele parou de falar de repente quando percebeu que havia um volume estranho nos braços dela.
Um bebê.
— Quem é? — ele perguntou, perplexo.
Lucia olhou para a criança e esboçou um sorriso.
— É minha filha — ela disse, tirando o cobertor do rosto da bebê. — Sua sobrinha.
Sobrinha.
Lucia teve um bebê.
Uma menininha.
Quanto tempo ele tinha ficado preso naquele túmulo?
— Como? — Foi tudo o que conseguiu perguntar.
— Como? — Ela fez uma careta. — Espero que eu não precise explicar essas coisas a você.
— Ioannes.
Ela confirmou.
Magnus fechou bem os olhos, tentando conter a onda quente de raiva que ameaçava tomar conta dele.
— Eu o mataria se já não estivesse morto — ele vociferou.
— Eu sei.
Magnus olhou para o pai.
— Lyssa vai ser uma jovem muito especial um dia — Gaius disse.
Estava claro que o rei tinha tido muito mais tempo para aceitar aquela revelação surpreendente.
— Ela se chama Lyssa? — Magnus tocou o cobertor macio e encarou os olhos azuis da bebê. Azuis como os olhos de Lucia. — Bem, ela é linda, mas como poderia ser diferente?
Lucia tocou a mão dele.
— Magnus, como você sobreviveu?
Antes que ele pudesse responder, notou que ela estava olhando para o anel.
— Que magia é essa? — ela perguntou, ofegante. — Nunca senti nada assim antes.
— É a pedra sanguínea — o rei disse.
— Essa é a pedra sanguínea? É magia negra, a mais obscura que já senti.
— Sim, sem dúvida é. E foi a única coisa capaz de salvar a vida do seu irmão e a minha. Por isso, e apenas por isso, podemos agradecer à sua avó.
— Deve ter sido o que senti — Lucia sussurrou. — Essa escuridão, a sensação de morte que cerca esse anel… Não gosto disso.
— Talvez não, mas sem esse artefato de magia negra, seu irmão e eu estaríamos mortos — o rei disse com seriedade. — Magnus, estou muito feliz que você tenha chegado hoje. Pretendo fazer um discurso amanhã ao meio-dia para mostrar que estou de volta ao poder aqui e que Amara abandonou seu novo reino. Preciso que os cidadãos acreditem em mim.
— Existe uma primeira vez para tudo — Magnus comentou.
— Quero você ao meu lado. Lucia também.
— É claro — Magnus disse sem hesitar. Ele se virou para a irmã. — Vamos conversar mais em breve.
— Por que não agora? — ela perguntou.
— Preciso encontrar Cleo. Onde ela está?
— Agora? Não faço ideia. Mas não pode estar muito longe. — Lucia pareceu querer protestar, mas apenas fechou a boca e assentiu. — Vá encontrá-la.
Magnus já estava quase na porta.

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