16 de setembro de 2018

Capítulo 13

CLEO
PAELSIA

— Aonde está indo, princesa?
As palavras a fizeram parar na porta principal da Hospedaria Falcão e Lança. Cleo olhou para trás e viu Enzo parado nas sombras.
— Vou à taverna no fim da estrada — ela disse. — Não que seja da sua conta.
— Está tarde.
— E…?
Enzo endireitou os ombros.
— Acho que seria melhor ficar aqui em segurança, princesa.
— Aprecio sua opinião, mas discordo. Magnus está lá. Estou surpresa, e um pouco consternada, por você não ter ido junto. E se ele for reconhecido?
— O príncipe deixou bem claro que meu único dever é garantir sua segurança, princesa.
Ela piscou rápido, como se tentasse disfarçar a surpresa daquela revelação interessante.
— Sério? Bem, isso torna as coisas muito mais fáceis. Você virá comigo buscar o príncipe e garantir que nenhum de nós corra perigo.
Cleo não lhe deu tempo para argumentar ao virar as costas e sair da hospedaria, deixando a porta aberta para Enzo segui-la e puxando o capuz do manto para cobrir o cabelo e proteger o rosto.
Enzo a seguiu sem dizer mais nada enquanto Cleo prestava atenção nas pessoas na rua, nas carruagens que passavam, no ruído do casco dos cavalos batendo na estrada de cascalho. Ela seguiu o som das risadas embriagadas e da música para chegar à taverna que sem dúvida tinha sido o destino de Magnus.
Sobre as grandes portas de madeira havia uma escultura de bronze de alguns cachos de uva em uma videira.
Ela leu a placa:
— A Videira Púrpura. Que nome apropriado para uma taverna em Paelsia. E bastante óbvio.
O príncipe gostava tanto do sabor do vinho que não se importava com o que aconteceria se alguém o reconhecesse. Magnus adorava tanto beber que estava disposto a arriscar ser morto no meio de um bando de paelsianos. E que jeito idiota de morrer seria, Cleo pensou.
— Já ouvi falar desse lugar — Enzo disse, observando a entrada. — Nerissa já trabalhou aqui atendendo mesas.
Ela levantou uma sobrancelha.
— É mesmo?
Ele assentiu.
— Ela disse que foi uma experiência interessante.
— Eu não fazia ideia de que ela tinha morado em Paelsia.
— Nerissa morou em todos os lugares, ao que parece. Diferente de mim, que até agora nunca tinha me aventurado para fora de Limeros. Ela deve me achar tedioso.
— Posso garantir que ela não acha nada disso.
Ouvir Enzo falar de sua amiga fazia o coração de Cleo doer. Ela não tinha dúvidas de que Nerissa era capaz de se cuidar, melhor do que qualquer outra garota — e possivelmente garoto — que conhecia, mas… Cleo não conseguia deixar de se preocupar com a segurança dela. Odiava a ideia de que Nerissa pudesse correr perigo enquanto era forçada a trabalhar perto de Amara.
Cleo respirou fundo ao passar pelas portas com Enzo. Dentro da taverna havia pelo menos duzentos clientes fedorentos e sujos.
Ela observou os rostos, procurando Magnus na multidão.
Aquela taverna era diferente de todas que já havia visto em suas duas visitas anteriores a Paelsia. Seu conhecimento da região se limitava a dois mercados pobres, vilarejos decrépitos e uma vasta extensão de terras desertas.
E os galpões trancados de rebeldes raivosos e vingativos, ela lembrou a si mesma.
O lugar, apesar do interior rústico e decadente, parecia pertencer a Pico do Falcão, maior cidade de Auranos. Iluminando o espaço enorme havia dezenas e dezenas de velas e lampiões. No teto alto, várias rodas de madeira acomodavam mais velas. O chão era de terra batida; as mesas e cadeiras eram feitas de madeira mal esculpida.
À esquerda de Cleo havia um pequeno palco, sobre o qual uma jovem de cabelo preto e com faixas douradas pintadas sobre a pele bronzeada rebolava de uma forma bastante provocativa. Em volta de seu pescoço carregava uma jiboia enorme, do tipo que Cleo só tinha visto em livros ilustrados.
— Enzo, por favor, apenas me ajude a procurar Magnus. Comece pelas áreas com mais vinho.
— Sim, vossa alteza.
Cleo se cobriu melhor com o capuz do manto para esconder o cabelo e tentou ignorar os olhares atravessados da maioria dos brutamontes que passavam por ela. Quando sentiu alguém apertar seu traseiro, virou para dar um soco no ofensor, mas acertou apenas o ar.
Furiosa, ela tentou ver quem a havia tocado no meio da multidão, mas ficou paralisada quando ouviu alguém gritar um nome que ela conhecia.
— Jonas! — Era a mulher-cobra, interrompendo a apresentação para correr na direção de um jovem que estava na plateia. — Jonas, é você mesmo?
Cleo, de olhos arregalados, se virou na direção do palco.
Jonas tinha voltado de Kraeshia. E, de todos os lugares de Mítica onde poderia estar, estava ali! Como era possível?
Ela se virou para Enzo, mas outro rosto chamou sua atenção. Um jovem caminhava pela multidão, movendo-se na direção oposta ao mar de rostos virados para o palco.
Cabelo cor de bronze, pele morena, alto, músculos definidos…
Ela só conseguiu observar, certa de que seus olhos a enganavam.
— Theon — ela sussurrou o nome antes preso na garganta.
Ela então se lembrou de um tempo em que tudo parecia claro — ela o amava, e nada mais importava. Nem o posto dele, nem a reprovação de seu pai, nem o modo austero como Theon tinha olhado para ela antes de beijá-la, marcado pelo medo de pensar que poderia perdê-la para sempre.
E depois o som do casco dos cavalos quando Magnus e seus soldados chegaram.
O orgulho em seu coração quando Theon enfrentou os homens de Magnus e venceu.
E o horror quando viu a vida se esvair dos olhos dele para sempre quando Magnus o acertou pelas costas.
“Se seu guarda tivesse se afastado quando ordenei, isso não teria acontecido”, o filho do Rei Sanguinário tinha dito.
“Ele não é só um guarda”, ela havia sussurrado em resposta. “Não para mim.”
Às vezes, parecia que tudo tinha acontecido mil anos antes. Outras, era como se tivesse sido no dia anterior.
Mas, lá estava ele.
— Princesa? — Enzo perguntou, franzindo a testa para a expressão de choque absoluto dela.
Cleo não respondeu. Suas pernas estavam dormentes quando começou a se mover sem pensar, abrindo caminho na multidão na direção dele.
Lágrimas quentes corriam por seu rosto, e ela as secava com violência.
A multidão diminuía quanto mais ela se afastava do palco, o que lhe permitiu manter o olhar no guarda assassinado. Em sua mão, ela viu o brilho de uma lâmina afiada.
E então ela viu Magnus.
O fantasma do jovem que havia amado — e perdido — aproximou-se de Magnus, que estava no bar, olhando para Theon com a mesma descrença de Cleo. Então, com uma rapidez que ela mal conseguiu acompanhar, Theon segurou Magnus com força e pressionou a lâmina contra sua garganta.
Ela gritou para dentro, seu corpo transformou-se em gelo em um instante.
Ela olhava para Magnus, com sua expressão resoluta, os dentes cerrados e os olhos escuros desprovidos de emoção.
— Cleo? — Alguém estava bloqueando seu caminho; um garoto com sardas e cabelo ruivo. — Ah, Cleo! Você está aqui! Você está viva!
— Nic? — Ela o encarou por um segundo antes de agarrar e fincar os dedos em seus ombros. Atrás dele, viu o sangue escorrendo pela garganta de Magnus, onde o fantasma do passado enfiara sua adaga. — O que está havendo? Por que isso está acontecendo?
De repente, uma terceira pessoa aproximou-se do confronto silencioso entre Magnus e Theon, que até então tinha passado despercebido pelo resto dos clientes, cujos olhos estavam fixos no palco. Era um jovem de cabelo escuro, ombros largos e muitos músculos, com um tapa-olho preto. Ele segurava um pedaço de pau e, com ele, atingiu o fantasma de Theon com força atrás da cabeça. A adaga caiu no chão, e o corpo da vítima desabou, inconsciente, ao lado dela.
— Magnus! — Cleo gritou.
Finalmente, Magnus tirou o olhar do jovem caído e virou para Cleo.
Ele semicerrou os olhos.
— Você não devia estar aqui.
Ela ficou chocada. Era isso que Magnus tinha a dizer em um momento como aquele?
O brutamontes apontou para o corpo.
— Ele não vai ficar feliz comigo quando acordar.
Cleo correu para o lado de Magnus, certificando-se rapidamente de que o ferimento no pescoço era superficial. Ela virou para o jovem de tapa-olho.
— Quem é você? — ela questionou.
Ele se curvou.
— Felix Gaebras, minha encantadora jovem. A seu dispor. E quem é você?
— Esta — Magnus disse, tocando o pescoço com cuidado — é a princesa Cleiona.
Felix arregalou os olhos.
— Ah, então esta é a princesa dourada. Tudo faz sentido agora.
— E quem é esse? — Ela apontou para o chão com o dedo trêmulo.
— Aquele — Felix respondeu — é Taran Ranus, irmão gêmeo de Theon.
Cleo sentiu seu corpo gelar.
— Irmão gêmeo?
Magnus estava tenso.
— Foi muito gentil da parte de Nic nos apresentar hoje à noite, não acha?
Ao lado dela, Nic olhou para o jovem inconsciente, depois para Cleo, que parecia chocada.
— Acho que todos nós precisamos conversar — ele disse.
— Com certeza!
— Concordo — Magnus disse com rigor. — Conheço um lugar muito mais discreto do que esse. Encontrem Jonas e venham comigo, todos vocês.
Felix se abaixou, pegou o companheiro inconsciente e o jogou sobre o ombro.
— Onde Jonas e os outros estão? A dançarina o amarrou com a cobra e o levou embora? Vou procurá-lo.
Cleo não esperou — ela precisava de ar fresco. Precisava respirar normalmente e deixar o coração bater em um ritmo natural.
Irmão gêmeo, ela pensou, estupefata. O irmão gêmeo de Theon.
E Theon nunca, em nenhum momento, tinha mencionado que tinha um irmão gêmeo.
Nic estava ao lado dela, cambaleando de leve a cada passo que dava enquanto Enzo a escoltava para fora da taverna. Ela olhou para trás para garantir que Magnus estava perto.
— Você está bêbado — disse Cleo, virando-se para Nic e percebendo que estava muito zangada com ele e com todos os presentes.
— Muito. E também muito feliz por saber que está aqui. — Ele deu um grande beijo desajeitado no rosto dela, fazendo-a lembrar do cachorrinho babão que seu pai trouxera para ela e para Emilia depois de um longo período de viagens.
Quando seus batimentos cardíacos voltaram ao normal, ela se permitiu ceder à avassaladora sensação de alívio por Nic ter voltado de Kraeshia são e salvo — e por estar ao lado dela novamente.
Felix saiu da taverna carregando Taran Ranus.
Atrás dele veio Jonas, que observava a área até seus olhos recaírem sobre Cleo.
Ela o observava também quando um sorriso se abriu no belo rosto dele.
— Eu sabia que você estava viva. — Jonas apertou o passo para chegar até ela. Segurou-a pela cintura e a tirou do chão, girando-a no ar. — É tão bom ver você!
Em qualquer outro dia, ela estaria sorrindo tanto quanto o rebelde.
— Explique o que está acontecendo.
— Sim — Magnus disse, os olhos escuros fixos em Jonas. — Uma explicação para sua chegada nesta cidade, coincidindo com a nossa chegada, seria apreciável.
— Fico chocado em dizer, mas é quase bom ver você também, vossa alteza. — Jonas deu um meio sorriso para o príncipe.
Não foi correspondido.
— Nosso amigo aqui está ficando um pouco pesado — Felix comentou.
Magnus lançou um olhar azedo para o corpo que Felix carregava.
— Venham comigo.
Outra garota se juntou ao grupo, e Cleo a reconheceu de imediato — estava acompanhando Jonas e Lysandra da última vez em que estiveram no palácio limeriano.
Cleo se lembrava do nome dela: Olivia. Mas um cumprimento adequado poderia esperar.
Ela deu o braço para Nic enquanto o grupo acompanhava Magnus até a hospedaria.
— Por que está tão bêbado hoje?
— Ah… são muitas razões. Entre elas, recentemente passei a acreditar que estivesse morta. Por isso ia me afundar em cerveja para sufocar meu sofrimento.
— Estou bem viva.
— E fico muito feliz em saber.
Cleo sorriu para ele.
— Existem outros motivos para sua sede de álcool?
— Nenhum que esteja com a gente hoje, mas estou hesitante em mencioná-los. Você já teve choques demais por um dia. Tenho certeza de que ele vai acabar aparecendo. Ele faz dessas.
— Você não está falando coisa com coisa.
— Não, com certeza não estou.
Seu pequeno sorriso desapareceu quando ela olhou para Felix e seu fardo.
— Theon… — Ainda doía dizer o nome dele, mesmo depois de tanto tempo. — Alguma vez ele falou alguma coisa sobre ter um irmão gêmeo?
Nic negou.
— Nada. Quando vi Taran nas docas de Kraeshia, quase caí duro de choque. Taran não fala sobre isso, mas imagino que eles não tivessem contato. Ainda assim, não lidou bem com a notícia da morte do irmão.
— É, percebi. — Ela soltou um suspiro trêmulo. — Como ele ficou sabendo que foi Magnus que matou Theon?
Nic deu de ombros.
— Eu contei a ele, claro.
Ela sentiu uma pontada no estômago no exato momento em que a raiva começou a subir.
— Claro.
— Eu devia ter ficado a seu lado. — Ele pegou a mão dela e ficou sério, apesar da bebedeira. — Sinto muito por ter deixado você sozinha com ele todo esse tempo.
Nic não sabia sobre os sentimentos dela por Magnus. É claro que não sabia — Cleo tinha feito questão de negar os sentimentos que cresciam em seu peito por um ano.
— Não tem problema. Eu… dei um jeito.
— Onde devo deixá-lo? — Felix indicou o fardo que carregava quando chegaram à hospedaria.
— Tenho certeza de que vamos encontrar um buraco bem fundo — Magnus respondeu.
Cleo olhou feio para ele, depois virou para Felix.
— Tem alguns quartos vazios no segundo andar — ela disse.
Felix desapareceu e retornou rapidamente sem Taran.
Eles sentaram na sala de convivência e, quando Cleo olhou para o grupo, não sabia dizer se estava feliz ou horrorizada pelo modo como a noite havia se desenrolado.
Nic sentou ao lado dela, de frente para Jonas e Olivia. Felix e Magnus sentaram próximos à lareira, do outro lado da sala, perto da estante, enquanto Enzo ficou em pé ao lado de Cleo.
— Quando vocês chegaram? — Magnus perguntou.
— Hoje — Jonas respondeu. — Ainda estamos no escuro sobre o que está acontecendo aqui. A única informação que temos vem de um único soldado kraeshiano que se dispôs a falar.
— E?
— Ele sabia muito pouco. Ou, pelo menos, pouco que pudesse nos ajudar. No entanto, parece que você está fugindo, vossa alteza. E seu pai não está nada feliz com o modo como cuidou das coisas enquanto ele esteve fora.
— É o mínimo que se poderia dizer.
Cleo observava Magnus levemente surpresa. Apesar do tanto que devia ter bebido, parecia sóbrio como um sacerdote limeriano.
— O soldado — disse Jonas, apontando para Cleo com tristeza. — Ele nos disse que você tinha morrido. Que isso aconteceu depois que fugiu de Amara. Que morreu congelada.
— Isso poderia muito bem ter acontecido se eu não tivesse encontrado abrigo no momento certo. — Ela desviou os olhos, tentando não fazer contato visual com Magnus, apesar de ainda sentir o olhar dele ardendo em seu rosto.
— Você sempre foi uma sobrevivente — Jonas disse. — Nic se desesperou, mas eu tinha esperança. E aqui está você.
Nic deu de ombros.
— Eu me desespero. Sou desesperado.
— Temos muita coisa para contar a vocês — Jonas afirmou. — E com certeza vocês têm muita coisa para nos contar.
— Muito menos do que você pode imaginar — Magnus disse. — Amara acha que está governando o reino agora. Mas está errada. E será derrotada.
— E como você acha que vai derrotá-la? — Jonas perguntou.
— Acho que podemos começar com o cristal da terra que você deu à princesa — Magnus disse, e Jonas ficou tenso. — Você ainda tem aquele pedaço brilhante de obsidiana escondido em algum lugar, princesa?
Ah, sim, ela pensou enquanto se contraía. Esse era o Magnus que um dia ela desprezara — capaz de anunciar para todos, aparentemente por despeito, que ela estava em poder de um cristal da Tétrade. Ela precisaria se lembrar de agradecer pela lembrança.
Nic soltou um rosnado de repulsa.
— Cleo, não enlouqueceu ficando ao lado dele por tanto tempo? O fato de ter mantido essa aliança artificial… deve haver algum motivo por trás disso que não me contou.
— Por favor, Nic — Magnus disse. — Somos todos amigos aqui. Sinta-se à vontade para falar o que quiser.
— Acabei de fazer isso.
Magnus revirou os olhos.
— Não preocupe essa sua cabeça de cenoura, Nicolo. A princesa continua a me tolerar, ou quase, concentrando-se apenas em recuperar seu trono assim que Amara for derrotada e mandada para longe. Recentemente, sugeri que sua princesa dourada retornasse a Auranos, mas ela recusou. Nem pense em dizer que foi ideia minha.
Cleo virou para ele e enxergou uma expressão de desafio em seus olhos. Então percebeu o que Magnus estava fazendo.
Nic o odiava. Jonas tinha uma aliança fraca com ele. E o irmão gêmeo de Theon tinha acabado de tentar matá-lo.
Revelar que os dois eram mais do que aliados relutantes poderia causar um estresse desnecessário, principalmente agora que estavam todos juntos.
— Acredite em mim, Nic — ela disse finalmente. — E estou ansiosa pelo dia em que retornarei ao meu trono. Mas esse dia não é hoje.
— Bem, agora que isso está resolvido — Magnus disse —, vamos discutir como proceder. Pode ser?
Felix levantou a mão.
— Eu me voluntario com entusiasmo para matar a imperatriz.
Magnus o encarou com interesse.
— Como pretende fazer isso?
— Sei que alguns de vocês vão sugerir que eu use uma flecha apontada de longe — Felix disse com avidez. — Mas realmente preferiria uma abordagem mais pessoal. Com minhas próprias mãos, se possível. Só quero ver o olhar dela naquele rostinho lindo.
Magnus piscou.
— Acabei de lembrar que foi você que me enviou um pedaço de sua pele para provar sua lealdade.
— Fui eu mesmo, vossa majestade.
Cleo analisava aquele jovem com atenção, chocada com as palavras. Será que ele era louco?
No entanto, o sujeito tinha salvado a vida de Magnus na taverna, e ela devia muito a ele por isso, então imaginou que teria que passar um pouco mais de tempo perto dele, observando-o, para ver como ele realmente era.
Houve um tempo em que tinha desejado que Magnus morresse pelo que fizera com Theon, em que tinha desejado matá-lo com as próprias mãos.
Mas no momento em que a vida de Magnus correra perigo, não conseguira se concentrar em nada além do príncipe. Qualquer necessidade de vingança tinha desaparecido meses atrás, como se ela tivesse trocado de pele.
O sentimento era de perdão. Ela ainda odiava o garoto que Magnus tinha sido aquele dia.
Mas tinha passado a entendê-lo nos meses que se seguiram, talvez ainda melhor do que entendia a si mesma.
— Há uma ameaça muito maior do que Amara em Mítica nesse momento, sinto informar — Jonas revelou, interrompendo o devaneio de Cleo. Ele estava limpando as marcas de beijo da dançarina do rosto com um lenço que Olivia havia lhe dado, e Cleo não conseguiu deixar de achar engraçado o contraste entre os movimentos ridículos e o tom solene daquela declaração.
— Me deixe adivinhar — Magnus disse. — Você está falando da minha irmã? Sei que deve estar de luto por sua amiga, Jonas, mas não faz sentido gastar suas energias vingativas com Lucia nem com seu companheiro, Kyan.
Jonas encarou os olhos de Magnus.
— Vocês não sabem, não é?
— Não sabemos o quê?
— Vocês procuraram pela Tétrade. Pessoas morreram por esses cristais. Você já revelou diante de todos que Cleo está em poder de um deles, e sabemos que Amara está com o da água, e seu pai, com o do ar.
— Sim, sei disso tudo, rebelde. E já sabemos que Kyan está com o cristal do fogo.
— Errado — Jonas ficou tenso. — Kyan é a magia do fogo.
Cleo ficou encarando-o, certa de que tinha escutado errado.
— O que quer dizer com isso?
— A magia que vocês estão procurando, que todos estamos procurando, pode pensar. Pode falar. E pode matar sem remorso. E mais três iguais a Kyan estão aguardando para escapar de suas prisões. Os cristais não são pedras mágicas, princesa, mas deuses elementares.
A sala toda ficou em silêncio, e Cleo observou freneticamente o rosto dos outros, esperando encontrar alguém revirando os olhos. Esperando que aquilo não passasse de uma mentira engraçada para quebrar a tensão.
Não podia ser verdade.
Mas até Nic assentia pesaroso.
E naquele exato momento, dentro de seu bolso, estava uma daquelas prisões.
Ela olhou para Magnus, cuja testa franzida era o único sinal de surpresa.
— Lucia deve tê-lo ajudado a escapar da esfera de âmbar — Magnus disse.
— Acho que isso é óbvio — Jonas respondeu curto e grosso, o que lhe rendeu um olhar sombrio do príncipe.
Cleo juntou as mãos para impedi-las de tremer.
— Temos certeza de que os objetivos de Kyan, sejam quais forem, são perversos? A Tétrade ainda pode nos ajudar a derrotar Amara.
— Eu o vi queimar Lys até fazê-la desaparecer — Jonas grunhiu. — Nem uma única cinza restou quando ele acabou. — O rebelde virou para Magnus. — Kyan é perverso. Assim como a vadia da sua irmã.
Magnus levantou com os punhos cerrados.
— Não me importo com o que aconteceu, você não vai falar assim de Lucia na minha presença. Não vou permitir.
— Não? E você acha que pode me impedir? — Agora Jonas também estava com os punhos cerrados, e os dois se aproximavam.
— Talvez ele não o impeça — disse uma nova voz, interrompendo a conversa e paralisando o rebelde e o príncipe. — Mas eu com certeza estou disposto a tentar.
Com aquela promessa, o Rei Sanguinário entrou na sala.

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