3 de setembro de 2018

Capítulo 12


MAGNUS
LIMEROS

— Lucia... — Magnus foi na direção dela como se estivesse em um sonho. Era mesmo verdade? Aquilo estava de fato acontecendo? — Você está aqui. Está a salvo!
Ela usava um longo manto cinza com acabamento em pele de coelho branco. O cabelo pretíssimo estava solto, um contraste extremo com os arredores cobertos de neve, assim como o lábio vermelho e os olhos azul-celeste.
Caminhando ao lado dela estava um jovem que Magnus não reconheceu.
— Saudações, Magnus — disse Lucia. — Não tinha ideia de que tinha voltado para Limeros.
Ela falou com tanta calma que parecia que os dois haviam se visto um dia antes. Como se ele não a tivesse procurado por toda Mítica, tentando impedir que deixasse aquele Vigilante evasivo arruinar sua vida, encontrado apenas sangue e morte no templo.
Ele só queria estender o braço e pegar na mão da irmã, certificar-se de que era real. Houve um tempo, não muito distante, em que ela era sua única amiga no mundo, a única que o conhecia melhor do que qualquer um.
Cleo e seu dedicado lacaio continuavam parados perto da saída do labirinto de gelo, mas estavam próximos o bastante para escutar a conversa. Da última vez que as duas princesas se encontraram, Lucia tinha supostamente tentado matar Cleo. Depois de ouvir as palavras frias que Cleo tinha dito a Nic, Magnus estava mais convencido do que nunca de que Lucia tivera um grande motivo para ameaçar a vida da princesa auraniana. Ele não conseguiu se conter e olhou para trás para ver a reação dela diante da volta de sua irmã adotiva. Cleo estava ali parada, punhos cerrados, sem nenhum pingo de medo nos olhos. Não era surpresa.
Ele franziu a testa.
— Onde mais eu estaria, Lucia? O bilhete que deixou, sua fuga para se casar...
— Não lembro de ter mencionado que viria para Limeros.
— Eu conheço você, lembre-se. Talvez mais do que imagina. Ficou imediatamente claro aonde gostaria de ir com seu... amado. — E havia também o fato de que, em um ataque de raiva, Lucia tinha dito a Cleo que o cristal da água poderia ser invocado aqui. Para onde mais seu Vigilante pretendia levá-la?
— Tenho certeza de que está muito zangado comigo — Lucia disse depois de um momento de consideração.
— Eu estava zangado — ele admitiu. — Mas não com você. Culpo Ioannes por tudo o que aconteceu.
— Eu também.
Era uma confissão surpreendente, e talvez uma explicação para a curiosa ausência dele.
— Vocês estiveram lá no templo, não? Antes da tempestade de gelo? — Magnus perguntou.
Ela assentiu.
— Estivemos.
Ele estava conseguindo ignorar bem o frio, mas naquele momento um arrepio correu por sua espinha.
— Você causou a tempestade de gelo, não foi?
— Sim — ela respondeu apenas.
Magnus olhou de novo para o jovem que estava ao lado dela, observando-o com muita curiosidade. Era bem alto, tinha o queixo quadrado, olhos cor de âmbar e cabelo loiro-escuro quase na altura do ombro. O rapaz o observava com interesse, levantando uma sobrancelha.
— Quem é você? — Magnus perguntou de forma agressiva.
— Sou Kyan.
— O que está fazendo com minha irmã, Kyan?
Ele inclinou a cabeça.
— Muitas coisas.
A resposta curta e desrespeitosa enfureceu Magnus, mas ele conteve a raiva dentro do peito.
— Onde está seu marido, Lucia?
— Ioannes está morto.
O olhar de Magnus voltou para ela de imediato.
O quê?
— Está morto. Ele e Melenia.
Melenia. A poderosa Vigilante que tinha visitado os sonhos de seu pai, aconselhando-o a construir uma estrada que o levasse à Tétrade. Até então, Magnus presumia que o rei ainda estava esperando pacientemente que ela voltasse a entrar em contato.
Parecia que os dias de orientação imortal do rei Gaius haviam acabado.
— Foi você que os matou? — Cleo perguntou à distância. Magnus ficou tenso ao ouvir sua voz.
— Um deles — Lucia respondeu com calma.
Magnus sabia como os elementia de Lucia eram poderosos, mas também sabia que, com frequência, eram incontroláveis. Tanto que a própria Lucia tinha medo deles. Ela ficava preocupada que sua magia a tivesse tornado perversa, mas Magnus sempre garantia que ela nunca seria perversa.
Será que ainda acreditava nisso?
Lucia olhou com firmeza para a outra princesa.
— Estou surpresa por vê-la aqui, Cleo. Tinha certeza de que já estaria morta a esta altura.
— Estou viva e bem, muito obrigada — Cleo respondeu por entre os dentes.
— Magnus — Lucia disse, virando para o irmão —, você devia escolher melhor suas companhias. Aquela garota vai cravar uma adaga em você assim que virar as costas.
— Acredite, sei muito bem disso — ele concordou.
— E ainda assim a deixou viver.
— Acho que ela pode ser útil.
— Eu discordo.
Ele ignorou o resmungo de indignação de Cleo.
— Por que está aqui, Lucia?
Ela levantou uma sobrancelha escura.
— Achei que ficaria feliz em me ver.
Seu comportamento indiferente, junto com a confissão nada emotiva de que seu precioso Vigilante dourado estava morto, tinha deixado Magnus tenso. Não era exatamente o reencontro de irmãos que havia imaginado, assim como aquela não era a mesma Lucia de que se lembrava.
— Você acabou de dizer que não sabia que eu estava aqui, então está claro que voltou para casa por outro motivo. Qual é?
— Esta não é minha casa — Lucia respondeu, observando o palácio com desgosto. — Nunca foi, não de verdade.
— Está errada. Esta é sua casa, assim como é a minha. — Ele olhou para Kyan com cautela. — Por que você e seu amigo não entram, onde está mais quente?
Com o braço direito ainda apoiado em uma tipoia, ele estendeu a mão esquerda para a irmã, mas Lucia recuou e se aproximou de Kyan.
— Ainda não — ela disse.
Magnus deixou a mão cair ao lado do corpo.
— Disseram que, em algum lugar nessa região, há uma antiga roda de pedra — Kyan disse. — Quero vê-la.
Uma roda de pedra? Imediatamente, o presente de casamento que lorde Gareth tinha oferecido durante a turnê real veio à mente de Cleo. O lorde tinha se vangloriado de que a roda feia, esculpida em pedra aparentemente comum, era uma peça histórica valiosa com ligações com os Vigilantes.
— Devem estar mal informados — Cleo se intrometeu antes que Magnus pudesse responder.
Magnus virou e franziu a testa para ela, encarando seus olhos por um breve momento. Ele jurou ter visto um alerta silencioso em seu olhar celeste.
Não conte nada a eles.
Um vislumbre de memória passou por sua mente, uma relação que ele não tinha feito até aquele exato momento. A biblioteca auraniana abrigava uma coleção muito mais diversa de livros e assuntos do que a biblioteca limeriana. No decorrer dos séculos, desde o domínio de Valoria, os reis limerianos tinham ordenado que muitos volumes sobre lendas, deusas e a história dos elementia fossem destruídos. No entanto, vários grupos radicais tinham conseguido salvar um número impressionante de livros, enviando-os para a vasta coleção auraniana, onde estariam em segurança.
Nos últimos tempos, Magnus tinha começado a ler tudo o que pudesse encontrar sobre magia. Era o mínimo que podia fazer depois que o rei revelara a verdade chocante de que sua mãe não era a rainha Althea, e sim sua ex-amante, Sabina, uma bruxa ardilosa que Lucia havia matado.
Se fosse verdade, Magnus precisava saber o que aquilo poderia significar para ele, que efeitos esse sangue de bruxa poderia ter em sua vida e em seu futuro. Magnus tinha lido que houve um tempo em que os imortais eram capazes de ir e vir do Santuário quando quisessem, tanto na forma de falcão quanto na forma humana. Alguns imortais tinham casos com mortais, e alguns desses casos resultavam em filhos. Como esses filhos — e os filhos de seus filhos — eram resultado da união com um imortal, todos tinham o potencial de carregar uma pequena quantidade de elementia. Os que possuíam esses traços de magia eram bruxos, e a grande maioria era do sexo feminino.
Que pena. Uma parte de Magnus tinha ficado intrigada pela possibilidade de existirem traços de magia dentro dele.
Mas isso não tinha importância no momento. O que era importante era a lembrança de uma ilustração que ele tinha visto em um livro antigo, retratando o portal que os imortais usavam para entrar em Mítica quando vinham do Santuário sobrenatural.
Um portal que se parecia muito com uma roda de pedra.
Ele lançou outro olhar desconfiado para a princesa Cleo.
O que sabe sobre isso, princesa?
— A princesa Cleo tem razão — Magnus disse depois de um instante de silêncio. — Essa informação não está correta. Não acha que se lembraria de um objeto como este se ele realmente existisse aqui, Lucia? Você passou dezesseis anos perambulando por essas terras a meu lado, lembra?
Lucia e Kyan trocaram olhares severos e repletos de cumplicidade silenciosa. Quando ela voltou a atenção ao irmão, sua expressão estava mais suave. Os lábios se curvaram, formando aquele sorriso doce de que Magnus se lembrava tão bem.
— É claro que lembro — ela disse. — Tivemos uma infância tão maravilhosa, não foi?
— As partes que incluem você foram maravilhosas. — Ele hesitou. — Sei que não pode me perdoar por... muitas coisas que fiz. Mas meu único desejo é que encontremos um modo de passar por cima desses erros. Um dia, espero que possa me ver de novo como antes... como irmão e amigo.
— É um pensamento excepcionalmente sentimental vindo de você, Magnus. — Ela levantou uma sobrancelha. — Mas está certo de que isso é tudo o que quer de mim agora? Uma amizade casta entre irmãos e nada mais?
Seu coração tinha começado a acelerar.
— Lucia...
Ela se aproximou e segurou o rosto de Magnus entre as mãos quentes.
— Saber que você me amava tão profundamente foi a única verdade a que me apeguei nas últimas semanas. Fui tola em negar meus sentimentos por você esse tempo todo. Agora enxergo tudo.
— O que está dizendo?
— Apenas isso. — Lucia puxou o rosto dele e o beijou, fazendo-o ficar sem fôlego de tanta surpresa.
Ele a havia beijado apenas uma vez antes, quando tinha resolvido, de maneira imprudente, expor sua alma e seu coração e contar que cultivava sentimentos profundos em segredo pela irmã. Os dois podiam ter sido criados juntos, mas não tinham o mesmo sangue. Aquela revelação tinha tornado aceitável para Magnus desejá-la como mais do que uma irmã, mas não para Lucia.
Quando se beijaram daquela vez, ela se afastou com repulsa. Mas agora era Lucia que, inesperadamente, o beijava, e tinha acabado de puxá-lo para mais perto, encostando seus lábios mornos e macios nos dele.
As coisas teriam sido muito diferentes se ela tivesse correspondido ao beijo dessa forma meses atrás.
— Magnus — Cleo agarrou seu braço, interrompendo o momento.
Sua cabeça girava, e ele se sentia instável.
— Tire a mão de mim.
Cleo fez o que Magnus pediu, mas o encarou fixamente. Nic continuava ao lado de sua princesa, os braços cruzados.
— Magnus, ouça o que estou dizendo. Ela está tentando manipular você. É tão estúpido para não perceber?
— Acho que conhece tudo sobre manipulação, não é, princesa? — ele rebateu.
Lucia abriu um sorriso.
— Por que tolera essa princesa derrotada, Magnus? Eu devia tê-la matado quando tive a oportunidade.
— Mas não matou — Cleo disse. — Você se conteve porque sabia que era errado. Aquela sua parte sã e virtuosa foi eliminada de alguma forma?
Lucia resmungou.
— Estou tão cansada do som de sua voz. — Ela apontou para Cleo, e uma onda de magia do ar soprou a princesa para trás, derrubando-a sobre uma pilha de neve.
Nic correu imediatamente até ela, para ver se não estava ferida e a ajudar a levantar.
Lucia olhou para a tipoia de Magnus.
— Pobre irmão. Isso parece dolorido. Desde que ela apareceu, sua vida foi tomada por tanta dor... Isso só prova que você ainda precisa de mim.
— É claro que preciso de você — ele concordou.
Shhh. Preciso me concentrar. — Ela apoiou a mão sobre seu braço machucado e o apertou com cuidado, vertendo magia da terra para dentro dele.
Os joelhos de Magnus cederam em resposta a uma onda repentina de dor, similar à sensação que tomou conta dele quando esteve à beira da morte na batalha auraniana, e ele caiu no chão, rangendo os dentes e tentando não gritar. Quando a dor finalmente arrefeceu, ele apertou a própria mão e dobrou o cotovelo, quase sem conseguir acreditar que a fratura tinha sido curada. Seu braço parecia forte como sempre. Ele olhou para a irmã admirado.
— Obrigado, Lucia.
Ela passou os dedos pelo cabelo dele, colocando-o atrás das orelhas, enquanto Magnus se levantava.
— Agora, meu querido Magnus, olhe para mim.
Ele sorriu e fez o que a irmã pediu, mas logo — sem nenhum aviso, nenhum movimento de sua parte — foi tomado por uma espécie de tontura que levou sua mente para o que parecia um abismo escuro e infinito. De repente, era como se Magnus não pudesse desviar o olhar dos olhos azuis de Lucia, mesmo se quisesse.
— Onde está a roda de pedra? — Lucia perguntou.
Imediatamente, a resposta subiu a duras penas por sua garganta, invocada por uma necessidade extrema de dizer a verdade, mas ele conseguiu engolir as palavras, cada uma delas afiada como uma lâmina.
— Não resista — ela disse. — Por favor, Magnus, pelo seu próprio bem, não resista.
A pressão implacável de mil tornilhos comprimia as laterais de seu crânio.
— O que está fazendo comigo?
— Diga onde está a roda — ela repetiu.
Quando resistiu, um sabor cúprico e denso inundou sua boca, e Magnus engasgou.
— Lucia... — ele bradou, e o sangue escorreu por seu lábio inferior.
— O que está fazendo com ele? — Cleo gritou ao se aproximar de novo.
Lucia não tirou os olhos de Magnus.
— Quieta.
— Você o está machucando!
— E se estiver? Por que se importaria? Magnus, por favor, pare de resistir à minha magia e me diga a verdade. Assim tudo isso vai acabar em um instante. Onde está?
Ele não conseguiu segurar por mais tempo. A pressão e a dor eram fortes demais. As palavras saíram apressadas.
— Na outra... extremidade... do labirinto. Perto da borda do penhasco.
Ela assentiu com os olhos destituídos de prazer.
— Muito bem. — Ela se virou para Kyan. — Fica a apenas cem passos daqui.
— Mostre o caminho, pequena feiticeira.
Resistir ao ímpeto incontrolável de falar tinha sido uma tortura maior do que qualquer coisa que Magnus já tinha sentido. Ele caiu de joelhos e abraçou o próprio corpo no chão, ofegante, enquanto gotas de sangue manchavam a neve branca.
— Vamos voltar em breve — Lucia prometeu, antes de partir com Kyan na direção da roda.
Cleo segurou o braço de Magnus.
— Levante.
— Não consigo — Magnus tinha a respiração pesada e ofegante.
— Você precisa. Precisamos ir atrás deles. Se isso tiver alguma coisa a ver com a Tétrade, precisamos saber.
— Deixe-o aí — Nic disse. — Podemos ir sem ele.
— O que sabia a respeito da roda até hoje? — Magnus murmurou para Cleo, com um tom de voz agudo e fraco.
— Quase nada — Cleo respondeu. — Mas se uma feiticeira e seu amigo estranho querem tanto encontrá-la a ponto de recorrer à magia torturante para arrancar a verdade de você, deve ser importante. — Ela se ajoelhou e limpou um pouco do sangue no queixo do príncipe com as bandagens retiradas do braço. — Não somos aliados e nunca vamos ser, mas agora Lucia demonstrou ser uma inimiga em comum. Meu anel, o anel que está no dedo de sua irmã, teve uma reação estranha àquela roda da última vez que estivemos aqui. Tenho medo do que ele pode fazer hoje. Agora, levante. Se Nic e eu nos aproximarmos dela sem você, tenho certeza de que vai nos matar.
— Cleo... — Nic protestou.
Ela lançou um olhar sério para o amigo, que se calou.
A última coisa que Magnus queria era admitir que Cleo estava certa, mas era verdade: a irmã que ele conhecia nunca lhe causaria tanta dor, independentemente da informação que estivesse procurando. Que nova magia era essa? Ela tinha se tornado muito mais poderosa desde a última vez em que a viu.
A Tétrade precisava ser dele; era a única forma de garantir seu futuro, e três dos cristais ainda estavam desaparecidos. Ele sabia, agora mais do que nunca, que Lucia era a chave para encontrá-los.
E não duvidava que seu novo amigo Kyan também soubesse.
Magnus levantou e reuniu toda a energia e força de vontade que conseguiu para se arrastar pela lateral do labirinto, com Cleo e Nic atrás dele. Dava para ver os dois. Eles tinham chegado à roda de pedra ancestral, meio enterrada na neve e mais alta do que qualquer homem que conhecesse. Ele os observou inspecionando-a juntos, e a raiva em seu coração serviu de estímulo para endireitar o corpo e andar mais rápido.
O olhar âmbar de Kyan se fechou em Magnus quando ele se aproximou.
— Quem visitou esta roda antes de nós? — perguntou o jovem zangado.
— Não tenho ideia do que está falando. — Magnus parou de repente, junto com Cleo, a poucos centímetros dele.
— A magia... — Kyan apoiou as mãos sobre a superfície áspera e pressionou. — Não sinto nada, nem ao chegar tão perto.
— Que estranho. Eu, por outro lado, sinto algo. Sinto uma forte necessidade de jogá-lo em meu calabouço por raptar e corromper minha irmã.
Kyan riu.
— A irmã de que se lembra mostrou apenas um reflexo do que está destinada a se tornar. A grandeza dela o cega?
— Kyan — Lucia o interrompeu, ficando entre os dois. — Ignore Magnus, ele não pode fazer nada contra nós. Encontramos uma roda, bem aqui em Limeros, exatamente como prometeu aquela velha bruxa. Qual é o problema?
— Consegue sentir a magia? Pode invocá-la de volta?
Lucia franziu a testa, depois apoiou a mão sobre a superfície congelada. Magnus notou o anel de ametista que pertencia a Cleo em seu dedo indicador.
— Não sinto nada.
— Qualquer magia que tenha existido previamente nesta pedra foi removida. — A expressão de Kyan ficou obscura. — Isso é obra de Timotheus. Ele está tentando me manter longe do Santuário, longe de seu paraíso seguro. — Ele parecia inconformado. — Ele acredita de verdade que pode vencer esse jogo.
— Um jogo? Isso é um jogo para você? — Magnus disse por entre os dentes. — Deixe-me adivinhar. Acha que Lucia é a arma secreta que vai ajudar na vitória?
— Magnus, tome cuidado. — Cleo se aproximou e sussurrou.
Magnus olhou feio para ela.
— Fique fora disso, princesa.
Cleo o encarou, resoluta.
— Acho que é tarde demais para isso.
Kyan sorriu para Magnus, um sorriso mais sinistro do que os que o próprio Rei Sanguinário sorria.
— Acha que estou usando Lucia — Kyan ponderou. — Mas você e toda sua gananciosa família a usaram por dezesseis anos. Só agora que finalmente está livre de vocês ela é capaz de fazer as próprias escolhas.
— Eu nunca a usei para nada. — Aquela ideia era um insulto. — Nenhuma vez.
— Ah, Magnus. — Lucia balançou a cabeça. — Acho que você acredita nisso mesmo. Acho que você acredita tanto nessa mentira que se eu utilizasse magia para extrair a verdade, você diria exatamente a mesma coisa.
— Quem é essa criatura que você se tornou? — Magnus perguntou, os olhos semicerrados e carregados de preocupação. — E o que fez com minha linda e carinhosa irmã?
Lucia revirou os olhos.
— Sua linda e carinhosa irmã morreu quando seu amante tirou a própria vida no chão de um templo, bem diante de seus olhos. A Lucia que você conheceu era fraca e deprimente. Acredite, Magnus, estou muito melhor agora. Vou atrás das coisas que quero, e as consigo. E ninguém nunca mais vai me usar ou manipular. — Ela deu o braço para Kyan. — Se esta roda é inútil para nós, Kyan, vamos encontrar outra.
— O que quer que esteja tentando fazer, vai fracassar — Cleo disse.
— Vou mesmo? — Um sorriso frio se abriu no rosto de Lucia. — Muito obrigada por sua opinião. Ela tem muito valor para mim.
Cleo deu um passo na direção da feiticeira.
— Você perdeu alguém que amava. Eu sei como é isso. Mas não pode deixar o luto, a dor indescritível, transformá-la em algo que não é.
— Está mesmo tentando se compadecer de mim? Não é necessário, criaturinha. Tudo o que senti, todas as provações e dores que vivenciei foram necessárias para eu chegar até aqui. Minha profecia foi concluída, e agora meu futuro me pertence. — Ela deu um sorriso doce. — Cleo, vamos falar sobre o cristal da água. Sei que foi invocado no templo aquela noite, depois que saí. Onde está?
Magnus viu Cleo começar a tremer, mas sem deixar de olhar direto nos olhos de Lucia.
— Eu... não... sei.
— Sabe, sim. E, só para sua informação, enquanto não tive prazer nenhum em causar dor a Magnus, terei muito prazer em fazê-lo com você.
Cleo gritou, pressionando a palma das mãos no rosto quando começou a escorrer sangue de seu nariz. Magnus assistiu àquilo horrorizado.
— Pare com isso! — Nic correu até a feiticeira, mas um movimento com o dedo o jogou para trás, e ele atingiu a parede do labirinto com tanta força que perdeu a consciência.
— Diga — Lucia exigiu, rangendo os dentes.
Uma lágrima de sangue escorreu pelo rosto de Cléo, que continuava a resistir àquela magia nova e apavorante.
— A princesa Amara — ela finalmente revelou. — Ela roubou. Tenho certeza de que já voltou para Kraeshia com o cristal. Sua vadia!
Lucia não desfez o sorriso.
— Viu? Não foi tão ruim, foi?
Ela virou para Kyan, e Cleo desabou no chão. Magnus correu para o lado dela, ajudando-a a levantar, e tirou o cabelo dourado de seu rosto.
Ela passou a mão sob o nariz cheio de sangue.
— Vou ficar bem.
Magnus assentiu, com firmeza, e lançou um olhar sombrio a Lucia e Kyan.
— Quando saírem daqui, não voltem nunca mais. Nenhum dos dois.
Lucia se dirigiu ao irmão, ainda calma, mas visivelmente surpresa.
— E se nos recusarmos a seguir suas ordens? — Kyan perguntou com tranquilidade, como se as palavras de Magnus fossem as de um bobo da corte que existia apenas para entretê-los.
Magnus deu mais um passo para a frente e o mediu de cima a baixo com desdém, assim como tinha feito com o insignificante pretendente anterior de Lucia. Tentou empurrar Kyan, mas o jovem não se moveu nem um centímetro. Magnus então girou o punho direito, acertando Kyan no queixo. Mais uma vez, o rapaz nem se abalou, mas a expressão de entretenimento desapareceu.
— Está testando minha paciência, garoto.
— Sério? Que bom. — Magnus o golpeou de novo, dessa vez com o punho esquerdo. Seus dedos estavam ansiosos para pegar o cabo de uma espada, afundá-la no peito de Kyan e ver a vida se esvair de seus olhos.
Então, em um instante, os mesmos olhos que Magnus desejou apagar passaram de âmbar a um azul vivo e brilhante.
Magnus deu um passo para trás, esbarrando em Cleo, que estava a apenas trinta centímetros atrás dele.
— O que é você? — ele perguntou.
Seus pés ficaram quentes. Magnus olhou para baixo e ficou impressionado ao ver que um círculo de fogo âmbar havia se formado a seu redor. Cleo estremeceu e saltou para longe das chamas.
O que eu sou? — Kyan repetiu, inclinando a cabeça. — Está dizendo que realmente não sabe?
— Não! — Lucia agarrou o braço do jovem. — Kyan, não faça isso. Não com ele.
— Peço desculpas, pequena feiticeira, mas já está feito.
As chamas ficaram mais altas, envolvendo as pernas de Magnus como serpentes de fogo. Ele não conseguia se mexer, não conseguia pensar; só conseguia observar as chamas deslizando por seu corpo. Mas, apesar de conseguir sentir o calor pelo couro da calça, elas ainda não o tinham tocado, não o tinham queimado — ainda.
Mas queimariam. Magnus não tinha nenhuma dúvida sobre isso.
— Acho que não me ouviu direito, Kyan. — Lucia levantou a voz. — Eu disse não.
Um golpe violento de magia do ar atingiu Magnus. Ele voou para trás, indo parar a uns vinte passos de distância, ao lado do corpo inconsciente de Nic. Ele olhou em volta, perplexo. Suas pernas tinham sido libertadas das chamas, que continuavam ardendo no ponto onde estava antes.
Magnus levantou rápido, trocando um olhar breve e sofrido com Cleo, antes de seus olhos irem parar na irmã.
— Lucia!
Ela pegou o braço de Kyan e o arrastou na direção contrária. Trêmulo, Magnus começou a correr atrás deles.
— Lucia! Pare! — ele gritou. — Posso ajudá-la!
Me ajudar? — Ela o olhou com frieza. — Meu querido irmão, você não parece capaz de ajudar nem a si mesmo.
Uma parede de chamas se levantou para bloquear seu caminho e sua visão.

4 comentários:

  1. Antes era só pena agora eu tô com um ódio dessa Lúcia

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  2. Ela está perturbada com a morte do vigilante.
    Quem vai deter esta peste agora? Só ela tem poder.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!