29 de setembro de 2018

Capítulo 12

PARTIMOS NA ALVORADA COM A JOELHO DE CAMELO, conforme combinado. Eu achava que conhecia o deserto, mas quando vi o sol nascer num céu azul perfeito sobre a longa faixa dourada, entendi que aquilo era diferente. O Mar de Areia era enorme e inquieto. A caravana o tratava como um misto de fera a ser domada e tirano a ser temido. Me senti em casa na mesma hora.
O cenário mudava de um instante para o outro, as areias em movimento me arrastando para baixo de uma duna em um momento e me prendendo no lugar em outro. Algumas dunas pareciam infinitas — não importava o quanto caminhássemos, era como se nunca fôssemos chegar ao topo. O vento percorria a região, espalhando areia como estilhaços nos meus olhos e na minha boca, apesar do sheema. Na metade do dia, a paisagem do deserto mudou quando surgiu uma enorme estrutura de madeira no meio da areia, a tinta vermelha e azul descascando com o vento.
— O que é aquilo? — eu perguntei a Jin, protegendo os olhos do sol.
— As ruínas de um naufrágio — ele me contou. E, com a mesma rapidez com que tinha surgido, a estrutura foi engolida pela areia.
Quando montamos acampamento na primeira noite, minha pele estava toda ressecada e meu corpo inteiro doía de tanto andar, mas eu estava feliz.
Havia umas sessenta pessoas na caravana, e mais duas dúzias de camelos carregados de suprimentos e produtos para comércio. A experiência de viagem deles era evidente: moviam-se como uma coisa só, em perfeita harmonia.
— O mar de verdade também é assim? — perguntei a Jin, pegando minha comida e sentando perto dele em uma duna mais afastada do fogo.
Jin tinha espalhado um rumor de que eu havia me queimado num incêndio quando criança, por isso tinha vergonha de mostrar o rosto. Soltei o sheema apenas o suficiente para comer.
— O mar não se atravessa a pé. — Ele mexia na comida com um pedaço de pão queimado.
— Então o que os marinheiros fazem o dia inteiro? Ficam de bobeira perdendo a forma física? — Dei um cutucão na barriga dele, que era puro músculo. Como uma idiota, fiquei contente quando ele riu.
Antes que pudesse responder, o velho Daud levantou a voz perto da fogueira.
— Sentem-se, crianças, vou contar uma história. — Ele tinha uma voz profunda como a noite do deserto, rápida como o fogo. Era uma boa voz para contar histórias.
— Quem sabe ele não te explica direito a história de Atiyah e Sakhr? — Jin sussurrou. Eu sabia que ele estava falando o nome errado só para me irritar.
— Talvez ele devesse contar a história do forasteiro que abusou da sorte — sussurrei de volta.
— Nos primórdios do mundo — começou o velho Daud —, Deus olhou para a terra e decidiu preenchê-la. De seu próprio corpo de fogo, criou os imortais. Primeiro os espertos djinnis, depois os rocs gigantes, que cruzavam os céus de um pico de montanha ao outro, e então os buraqis selvagens que atravessavam o deserto.
— Será que Deus pode me salvar de ter que ouvir essa história de novo? — uma garota disse, me surpreendendo ao desabar na areia entre mim e Jin. Eu já sabia quem ela era: Yasmin, filha de Parviz, a princesa da caravana.
Isra, sua avó, passou por mim e deu um tapa na nuca de Yasmin, fazendo a trança dela saltar sobre o ombro.
— Fica quieta e presta atenção, princesa Boca Suja. — Aquele nome também combinava com ela, suponho.
Yasmin mostrou a língua para as costas da avó antes de se inclinar na minha direção.
— O velho Daud está contando a história para vocês, sabiam? — Ela baixou o tom da voz. — É um aviso para os seguranças contratados sobre os perigos que rastejam na escuridão do deserto. — Ela balançou os dedos comicamente, quase derrubando o prato de latão que equilibrava nos joelhos. Segurou o prato antes que caísse, revirando os olhos enquanto enfiava comida na boca e continuava a falar. — Os perigos dos quais supostamente vocês devem nos proteger. Embora faça anos que não vemos um carniçal por aqui. — Como na Vila da Poeira, penseiEu tinha oito anos quando vira um pesadelo pela última vez. — São os homens mortais que dão trabalho hoje em dia.
Isra levantou a mão, ameaçando dar outro tapa, apesar de estar do outro lado da fogueira. A princesa da caravana fez uma careta, mas calou a boca, deixando o velho Daud voltar à história.
Todo mundo conhecia a história do primeiro mortal. Mas Yasmin não estava errada: o velho Daud parecia mesmo olhar com frequência para mim e Jin enquanto a contava. Então prestei atenção enquanto ele falava de uma era de ouro, quando apenas os seres primordiais andavam pela terra. Depois de um tempo imensurável ter se passado, a Destruidora de Mundos veio das profundezas da terra. Trouxe consigo uma enorme serpente negra, que engoliu o sol e transformou o céu em noite eterna, além de mil novas criaturas — os monstros que chamava de filhos, mas que os seres primordiais chamavam de carniçais. Quando ela matou o primeiro ser primordial, ele explodiu e se tornou a primeira estrela no novo céu escuro. Deus havia criado os seres primordiais com vida eterna, então, quando eles descobriram a morte, tiveram medo. Foi a alvorada da primeira guerra, e conforme os seres primordiais caíam, o céu noturno foi preenchido. Os djinnis, os mais inteligentes dos seres primordiais, temiam tanto a morte que se reuniram e coletaram terra e água, usando então o vento para moldar uma criatura, à qual deram vida com uma faísca de fogo. Fizeram assim o primeiro mortal. Ele faria o que os djinnis mais temiam, mas era inevitável em qualquer guerra: morrer.
Então o primeiro mortal criou uma arma de ferro e com ela decepou a enorme serpente que tinha engolido Deus em sua forma de sol. O sol foi liberado da garganta do monstro e a noite eterna terminou.
Os seres primordiais olharam para essa coisa mortal que tinham feito e viram com espanto que ela não tinha medo da morte. Ousava lutar porque seu destino era morrer. O primeiro mortal teve coragem de enfrentar o medo que a Destruidora de Mundos havia criado. Os imortais nunca precisaram de coragem. Mas os mortais, sim.
Então os seres primordiais fizeram outro mortal, e mais outro. Moldaram cada um como a imagem opaca de uma criatura imortal — homens como djinnis, cavalos como buraqis, pássaros como rocs. Trabalharam até terem um exército. E, contra a força da mortalidade, a Destruidora de Mundos finalmente caiu. Seu domínio sobre a terra chegou ao fim e suas criaturas foram abandonadas, sendo obrigadas a caçar na noite do deserto.
O velho Daud terminou de contar a história, e o ar ficou permeado do encantamento silencioso tecido por suas palavras. Então o mundo voltou ao normal, o mesmo mundo pelo qual o primeiro mortal tinha lutado e morrido, agora preenchido pelo burburinho do acampamento e pela fumaça de cachimbo e por Isra chamando Yasmin para lhe dar uma bronca por causa do khalat de cores vibrantes que tinha acabado de encontrar no meio das outras roupas.
— Eu fico de vigília no seu turno — ofereci a Jin enquanto Yasmin se juntava à avó a contragosto e o acampamento se acomodava ao nosso redor. Eu me sentia viva. Preenchida pelo deserto. Acesa. — Não acho que conseguiria dormir agora.
— Prefiro ficar acordado depois disso. — Jin me ofereceu uma bebida. — O velho Daud me deixou com um pouco de medo de ser devorado por um carniçal enquanto estiver dormindo.
— Na Vila da Poeira dizem que isso só acontece com pecadores. — Tomei um gole do cantil e devolvi.
— E ateus — Jin disse. — Como eu.
— Você não acredita em Deus?
— Estive em muitos lugares — Jin disse. — E as pessoas creem em verdades diferentes. Quando todo mundo parece ter tanta certeza, é difícil acreditar que alguém esteja certo.
Eu nunca tinha parado para pensar se acreditava em Deus. Acreditava nas histórias dos Livros Sagrados da mesma forma que acreditava nas histórias do primeiro mortal ou do príncipe rebelde Ahmed. Para mim, nunca tinha importado se eram reais ou não. Traziam verdade suficiente sobre grandes ideais, heróis, sacrifícios e coisas que todo mundo queria ser.
— Em Miraji vocês dizem que Deus criou os imortais, seus djinnis, do fogo, e eles criaram os primeiros mortais. Na península ioniana, dizem que os próprios imortais são deuses e que criaram os humanos para seu divertimento. Os albish dizem que tudo surgiu diretamente do rio e das árvores, criadas pelo coração do mundo, tanto seres mortais quanto imortais. Os gallans acreditam que os imortais e andarilhos são todos ferramentas da Destruidora de Mundos, e que algum deus diferente do seu criou a humanidade para destruí-los e purificar a terra.
Imortais podiam ser mortos pelo ferro. Assim como carniçais. Mas a ideia de assassinar um djinni ia contra tudo dentro de mim. O relacionamento entre humanos e imortais era complicado. Havia mil histórias de mortais enganando djinnis, descobrindo seu nome verdadeiro e usando-o para capturá-lo. Imortais eram forças da natureza. Criaturas de Deus. Tão antigos quanto o próprio mundo. E nossa vida curta não era nada em comparação à deles, infinita. Destruir imortais era o que a Destruidora de Mundos fazia. A humanidade tinha sido criada para salvá-los.
— É para isso que os gallans estão usando nossas armas?
— Hoje eles as usam principalmente contra outros humanos — Jin disse. — Já eliminaram os seres primordiais do país deles faz tempo. Agora estão cuidando de outros locais.
— Como Xicha. — Meu olhar flutuou para seu colarinho aberto, onde ficava a tatuagem. Não tinha percebido até então que uma parte de mim ainda estava com raiva dele por ter explodido a fábrica na Vila da Poeira. Mesmo que prejudicasse Gallan, o fato é que acabava com o Último Condado. Claro, havia muita gente ali que não merecia nada além de morrer de fome. Mas também havia pessoas, como Tamid, que só não tinham aprendido a odiar aquele lugar como deveriam. E minha prima Olia, que de vez em quando trocava olhares comigo pelas costas de Farrah e revirava os olhos também. E minha priminha Nasima, que ainda não entendia que devia sentir vergonha por ter nascido menina. Essas pessoas não mereciam passar fome.
Por outro lado, o país de Jin não merecia ser invadido como Miraji tinha sido.
Ele puxou o colarinho para cima.
— Os gallans foram mantidos à distância por seus vizinhos durante mil anos. Quando era magia contra espada, tratava-se de uma luta justa. Mas os gallans têm armas de fogo agora, e a magia está se esvaindo em tudo quanto é lugar.
— Então no que você acredita? — perguntei.
— Acredito que hoje dinheiro e armas de fogo são bem mais úteis na guerra do que a magia.
— Se isso fosse verdade você estaria rico, morando em alguma cidade com uma cama macia e cinco esposas. Não explodindo fábricas no fim do mundo, meu caro xichan.
— Cinco esposas? — Ele deu um riso de escárnio. — Não sei se conseguiria dar conta de tantas. — Não falei nada. Eu já tinha entendido que, dando tempo suficiente a Jin, ele me diria a verdade. — Sempre imaginei que a terra cria os seres primordiais do mesmo jeito que cria os mortais. Nas florestas e nos campos do ocidente, a magia é cultivada no solo profundo. No norte congelado, ela se arrasta e abre caminho pelo gelo com suas garras. Aqui, ela queima na areia. O mundo cria seres para cada lugar. Peixes no mar, rocs nos céus das montanhas, garotas morenas com pontaria perfeita em um deserto onde os fracos não sobrevivem. — Eu nunca tinha sido descrita daquele jeito antes. Jin desviou o olhar rápido demais, sem me dar tempo de encontrá-lo. — É claro que meu irmão diria que os seres primordiais são manifestações na terra do único Deus Criador. É isso que os novos filósofos estão dizendo.
— Você tem um irmão? — Assim que disse isso, percebi pela expressão dele que havia sido um deslize. Jin não tivera intenção de me contar aquilo. Mas agora não dava para voltar atrás. — Onde ele está?
Jin levantou, limpando a areia das mãos.
— Acho que vou aceitar aquela sua oferta de cobrir meu turno, afinal.

6 comentários:

  1. histórias dentro de histórias, bacana, sempre curti isso. kkkkk

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  2. nossa Ele tem um irmão será que vai encobtra-lo? Onde Ele está?

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  3. Ele e um dos príncipes!!

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  4. Eu acho que o Jin é o principe rebelde e o irmão que ele está falando é aquele jovem capitão do exército, isso explicaria o pq de n te-lo o matado quando teve chance.

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  5. Desde o primeiro capitulo que to achando que ele é aquele principe rebelde

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Boa leitura, E SEM SPOILER!