23 de setembro de 2018

Capítulo 12

LUCIA
AURANOS

Desde que arrancara a verdade da boca mentirosa de lorde Gareth no dia anterior, Lucia sentia sua magia se esvaindo cada vez mais.
Ela quase não dormira pensando em como resolver esse enorme problema. Além de drenar mais da estranha magia de Jonas — o que possivelmente o mataria —, ela não tinha nenhuma resposta palpável.
Até a ama de Lyssa notou a preocupação no rosto de Lucia e lhe disse para sair e tomar um pouco de sol e ar fresco.
Em vez de ignorá-la, Lucia decidiu seguir a sugestão.
Ela havia gostado do pátio do palácio da última vez em que estivera ali, e tinha desfrutado de caminhadas em suas trilhas de mosaico por entre oliveiras e salgueiros, e pelos belos jardins de flores que recebiam cuidados diários de um rol de jardineiros talentosos. O som das abelhas, o canto dos pássaros e o calor do sol auraniano em seu rosto a acalmaram.
Não era seu lar, mas teria de servir por enquanto.
O rei dissera que o grupo ficaria no palácio até ele encontrar Kurtis, que, talvez, voltasse em busca do auxílio de seu pai.
Que assim fosse.
Do bolso do vestido, ela tirou a esfera de âmbar que tinha sido a prisão de Kyan. Depois de assumir uma forma corpórea, ele a mantivera consigo até a magia do anel de Lucia destruir aquele corpo.
A esfera tinha muito valor para o deus do fogo.
E era uma ameaça para ele. Mas apenas se Lucia conseguisse invocar toda a força de sua magia para aprisioná-lo de novo.
Sentada em um banco de pedra no centro do pátio, ela segurou a pequena esfera de cristal na palma da mão e tentou fazê-la levitar com magia do ar.
Lucia se concentrou, rangendo os dentes com o esforço, mas nada aconteceu. Ela tentou diversas vezes, mas não conseguiu mover o objeto nem um milímetro.
Ah, deusa!, ela pensou, sentindo o pânico crescer. Minha magia se esvaiu por completo.
— Lucia.
O som da voz de Cleo a sobressaltou, e ela rapidamente guardou a esfera de âmbar no bolso.
— Peço desculpas se a assustei — Cleo disse, apertando as mãos.
— Não me assustou — Lucia mentiu, abrindo um pequeno sorriso. — Bom dia.
Cleo não respondeu. Apenas ficou parada ali, analisando Lucia, nervosa.
Ela usava um adorável vestido azul, com flores laranja e amarelas bordadas na barra da saia. Lucia a teria invejado no passado. Era raro limerianos, até mesmo membros da realeza, usarem cores vivas. A mãe de Lucia sempre insistira em uma aparência adequada, refinada e elegante — e as cores que mais usavam eram cinza, preto ou verde-oliva.
Mas Lucia sempre gostou de cores vivas. Ela odiava lady Sabina Mallius, ex-amante de seu pai, mas invejava sua capacidade de usar vermelho. Embora fosse a cor oficial de Limeros, raramente era vista nas roupas das pessoas, à exceção dos guardas do palácio.
Talvez eu devesse ter confiscado o guarda-roupa de Sabina antes de matá-la, Lucia pensou.
Parecia fazer tanto tempo, sua primeira onda de magia incontrolável que tinha resultado em uma morte. Ela se sentira péssima na época.
Mas aquilo era passado, e Lucia estava vivendo no presente.
— Que vestido lindo — ela comentou.
Cleo olhou para si mesma como se tivesse acabado de notar o que estava vestindo.
— É obra de Lorenzo Tavera. Ele tem uma loja de vestidos em Pico do Falcão.
Lucia percebeu que, na verdade, não se importava mais com aquelas coisas. Não, agora que Cleo estava bem na sua frente, ela tinha questões muito mais importantes na cabeça. Lucia olhou para a mão esquerda de Cleo, para o símbolo da magia da água. Ela já tinha visto o mesmo símbolo milhares de vezes em estátuas da deusa Valoria. Vê-lo ao vivo, na palma da mão da princesa auraniana, parecia um tanto quanto surreal.
Havia outras marcas na pele de Cleo — finas linhas azuis que saíam do símbolo da água. À primeira vista, pareciam veias visíveis pela pele translúcida, mas eram muito mais sinistras.
— Preciso da sua ajuda — Cleo disse sem rodeios.
Algo se apertou no peito de Lucia, algo frio, duro e firme.
— Precisa? — ela respondeu.
Cleo mordeu o lábio e olhou para baixo.
— Sei que me odeia pelo que fiz. Eu a convenci de que éramos amigas, e você me deixou participar do ritual do despertar. Quando você me confrontou sobre ter dito a Jonas onde encontrar os cristais, eu neguei.
Lucia a observou com cuidado, surpresa com as palavras que saíam de sua boca.
Cleo piscou e cruzou os braços.
— Só fiz o que achei que tinha que fazer para sobreviver. Mas saiba de uma coisa: passei a considerá-la uma amiga, Lucia. Se estivéssemos em outro mundo, em outra vida, talvez pudéssemos ter sido, sem nenhuma dificuldade. Mas, em vez disso, traí sua confiança e pensei apenas em mim. Peço desculpas por ter magoado você.
Lucia ficou sem palavras por um instante.
— Está falando sério?
Cleo assentiu.
— De todo coração.
Lucia tinha ficado muito magoada com a traição. E tinha reagido da única forma que conhecia: com raiva e violência. Ela quase matou Cleo naquele dia, pouco antes de fugir com Ioannes. Cleo sempre pareceu tão perfeita, tão naturalmente bela e segura de si… Uma garota que chamava a atenção de todos e que todos apreciavam. Muito diferente de Lucia.
Uma parte dela quisera destruir aquela pequena figura de perfeição dourada. Principalmente quando tinha ficado claro que Magnus começara a se interessar por ela.
Seria ciúme o que Lucia sentira? Não ciúme romântico, sem dúvida. O amor de Lucia por Magnus sempre tinha sido apenas fraterno. Mas durante toda a vida ela detivera a atenção total e todo o espaço de seu coração. Magnus pertencera apenas a ela até Cleo entrar na vida dos dois.
Não a odiei à toa todo esse tempo, Lucia percebeu, perplexa.
Ela estendeu a mão para a outra princesa.
— Deixe-me ver sua marca.
Cleo hesitou por um instante antes de sentar ao lado da feiticeira e mostrar a mão esquerda. Lucia analisou o símbolo da magia da água e as linhas que saíam dele, franzindo as sobrancelhas ao se concentrar.
— A magia é imprevisível — Cleo disse com a voz abafada. — E muito poderosa. Ela pode controlar o clima. É capaz de criar camadas de gelo do nada. Pode matar um homem congelado…
Lucia rapidamente lançou um olhar para Cleo, buscando a verdade no rosto da outra princesa.
— Você matou alguém com essa magia da água — ela disse.
Cleo confirmou.
— Um guarda que ajudou a torturar Magnus.
Lucia segurou a mão de Cleo com mais força.
— Espero que o tenha feito sofrer.
— Essa é a questão… não tentei fazer nada. Apenas aconteceu. A magia se manifesta quando estou zangada, triste ou sofrendo. Posso senti-la fria e inesgotável dentro da pele. Mas não consigo controlá-la.
— Quando ela se manifesta, essas linhas são o único efeito colateral?
— Meu nariz sangrou da primeira vez, mas não aconteceu mais. Essas linhas apareceram. E também tenho pesadelos, mas não tenho certeza se estão relacionados a isso. Sonho que estou me afogando. E não só quando estou dormindo… Às vezes sinto que estou me afogando no meio do dia.
Lucia refletiu por um instante. No início, sua magia era opressora, manifestando-se quando suas emoções estavam instáveis.
— Então você quer minha ajuda — ela começou a falar — para se livrar dessa aflição.
— Não — Cleo respondeu sem hesitar. — Quero sua ajuda para aprender a controlá-la.
Lucia assentiu.
— Cleo, você compreende o que é isso? Não se trata de um pouco de magia da água, simples e acessível, que poderia ser contida por uma bruxa comum ou mesmo por mim. — Ou, pelo menos, pela Lucia de antes da gravidez. — Você tem a deusa da água dentro de si, uma entidade que pensa, sente e quer controlar totalmente o seu corpo, como Kyan controla o de Nic. A deusa da água quer viver, existir, ter experiências… E você é a única pessoa em seu caminho no momento.
Cleo assumiu uma expressão de teimosia.
— Andei lendo mais sobre Valoria em um livro que encontrei na biblioteca do palácio. Ela também tinha as deusas da água e da terra em seu corpo, mas era capaz de controlar sua magia.
— Valoria era uma imortal, criada a partir da própria magia — Lucia explicou. — Você é mortal, de carne e osso, e vulnerável a dor e lesões.
Os olhos de Cleo marejaram, e ela apertou a mão de Lucia com mais força.
— Você não entende. — Ela olhou para o símbolo da água. — Preciso descobrir como usar isso. Preciso salvar Nic e meu reino. Minha irmã, meu pai… eles me pediram para ser forte, mas eu… — Ela respirou com dificuldade. — Não sei se consigo ser forte por muito mais tempo. O que sempre acreditei sobre minha família, sobre minha mãe e meu pai e o amor de um pelo outro… — A voz dela falhou. — Tudo está desmoronando, e estou perdida. Sem essa magia, não tenho nada. Sem essa magia… não sou nada.
Fazia tanto tempo que Lucia odiava Cleo, por motivos que não tinham sido esquecidos, mas o sofrimento da princesa tocou um coração que ela acreditava ter endurecido e obscurecido meses atrás.
— Você está longe de não ser nada — ela disse com firmeza. — Você é Cleiona Aurora Bellos. E vai sobreviver a isso. Vai sobreviver porque sei que meu irmão desejaria isso.
Lágrimas correram pelo rosto de Cleo, e ela encarou os olhos de Lucia por um bom tempo antes de finalmente assentir.
— Vou tentar — ela disse.
— Faça mais do que tentar.
Cleo ficou em silêncio por um instante, as sobrancelhas franzidas.
— Taran quer se livrar da magia do ar. Ele deve ter ainda menos controle sobre as próprias emoções do que eu, porque as linhas já avançaram mais por seu braço do que as minhas. — A princesa olhou para as linhas azuis, tocando-as cuidadosamente com a outra mão. — Ele… ele disse que prefere morrer a virar apenas um veículo para o deus do ar.
Lucia não culpava Taran. Ter o corpo e a vida roubados por um deus ganancioso… A morte seria mais agradável.
— Juro que vou dar um jeito de aprisionar Kyan de novo e acabar com isso. Com tudo isso. Não vou deixá-lo vencer. — Lucia levantou do banco. — Agora preciso ver como minha filha está.
— Claro — Cleo sussurrou.
Enquanto caminhava pela trilha de pedra até o palácio, a mente de Lucia girava com milhares de possibilidades diferentes para deter Kyan e ajudar Cleo. Pouco tempo antes, ela não teria se preocupado com o destino da princesa.
A ama a encontrou no meio do caminho até o quarto que tinha sido designado para Lyssa.
— Deixou minha filha sozinha? — Lucia perguntou, alarmada.
— Ela está bem — a ama garantiu. — Está dormindo profundamente. Nicolo passou no quarto e disse que ficaria com ela enquanto eu almoçava.
Lucia ficou paralisada.
— Nicolo Cassian?
Ela assentiu.
— É tão bom vê-lo de novo. Praticamente criei esse garoto e a irmã dele, assim como as princesas. É um rapaz tão doce…
Lucia não ouviu mais nada. Só tirou a velha senhora do caminho, correu para seus aposentos e escancarou a porta.
Ele estava diante do berço, de costas para Lucia. A luz da varanda desenhava a silhueta do cabelo ruivo e do corpo magro.
— Fique longe dela — Lucia alertou, tentando desesperadamente invocar magia, qualquer magia.
— Ela é tão adorável quanto a mãe — ele murmurou, virando para mostrar que tinha Lyssa nos braços. O olhar da bebê estava fixo em seu cabelo ruivo, como se estivesse fascinada pela cor viva.
O coração de Lucia parou ao ver sua filha nas mãos do monstro.
— Solte-a, Kyan.
Kyan virou e arqueou uma sobrancelha, finalmente fixando os olhos castanhos em Lucia. Por mais que tivesse a aparência de Nic, inclusive com as sardas no rosto pálido, ela podia ver o deus ancestral do fogo que agora estava atrás daquele olhar.
— Então ficou sabendo que encontrei uma casa nova — ele disse.
— Juro que vou acabar com você aqui e agora. — Lucia tirou a esfera de âmbar do bolso, sabendo que não tinha magia para cumprir a ameaça, não naquele momento, mas rezou para que ele não percebesse.
— Só vim aqui para conversar — Kyan disse. — Esse encontro não precisa ser desagradável.
— Solte minha filha.
— Eu me sinto como o tio dessa pequenina. É como se Lyssa fosse da minha família. — Ele observou o rosto da bebê. — Não é? Pode me chamar de tio Kyan. Ah, vamos nos divertir muito juntos se sua mãe algum dia me perdoar pelo meu péssimo comportamento.
Lucia ficou boquiaberta e depois começou a rir. Pareceu mais um soluço.
— Quer que eu o perdoe?
— Esse corpo jovem e saudável me deu uma nova perspectiva sobre a vida. — Ele deu um beijo na testa de Lyssa e a deixou no berço com cuidado. — Sua gravidez foi incrivelmente rápida, não foi? Mágica, eu diria.
Quando virou para Lucia mais uma vez, ela acertou um golpe em seu rosto. Tão forte que a mão dela doeu.
Os olhos castanhos de Kyan piscaram com uma luz azul, e ele limpou o filete de sangue no canto da boca com o polegar.
— Nunca mais faça isso — ele murmurou.
Lucia cerrou o punho, chocada com a própria falta de controle. Mas ela precisava atacá-lo, precisava tentar machucá-lo.
E o fez sangrar.
Ele não sangrava. Em seu corpo anterior — o que a imortal Melenia tinha escolhido para ser sua carapaça original uma pequena eternidade antes —, ela tinha visto a mão de Kyan ser atravessada por uma adaga. O ferimento não sangrou e foi curado em instantes.
Se estava sangrando, estava vulnerável.
Kyan semicerrou os olhos e se concentrou na esfera de âmbar que ela ainda tinha na mão.
— Você sabe do que sou capaz — Lucia disse, com o máximo de calma que conseguiu. — Sabe que minha magia pode aprisioná-lo, assim como a de Timotheus.
Era o maior blefe de sua vida, e ela torceu para que Kyan não conseguisse sentir seus elementia esvaindo.
— Não vim aqui em busca de confronto — ele disse apenas.
— Engraçado… ver você com minha filha nos braços depois de entrar escondido no palácio me parece um confronto.
Kyan balançou a cabeça.
— É uma pena que tenhamos chegado a isso, pequena feiticeira. Nos demos muito bem por um tempo. Você me ajudou, e eu a ajudei de volta, até nosso infeliz desentendimento.
— Você se transformou em um monstro feito de fogo e tentou me matar.
— Um monstro, não, pequena feiticeira. Um deus. E você deveria saber que a magia de sua avó era mínima se comparada à sua. Ela não conseguiu fazer o que eu precisava que fizesse.
Lucia respirou fundo, tentou manter o controle sobre suas emoções instáveis.
— Fiquei sabendo.
Kyan olhou mais uma vez para a esfera.
— Olivia está por perto. Se alguma coisa acontecer comigo, qualquer coisa, ela vai invocar um terremoto grande o bastante para mandar este reino e todos que estão nele para dentro do mar, como se não passasse de um pedregulho jogado em um lago profundo.
Lucia se perguntou se ele também não estava blefando. Se estava fraco e vulnerável, a deusa da terra também podia estar, apesar de viver no corpo de uma Vigilante imortal.
Por fim, ela guardou a esfera no bolso.
— Diga logo o que veio dizer.
Ele assentiu, depois passou a mão pelo cabelo ruivo desgrenhado.
— Preciso me desculpar pela maneira como a tratei, pequena feiticeira. E depois preciso pedir sua ajuda.
Lucia quase gargalhou.
Primeiro Cleo, e agora Kyan. O dia estava bem agitado.
— Prossiga — ela disse.
Kyan franziu a testa e virou para a varanda.
— Eu só queria me reunir com meus irmãos em carne e osso, como nunca existimos antes. Livres de nossas prisões para vivenciar o que é existir de verdade. E, sim, ainda acredito que este mundo é falho. E ainda incendiaria tudo até virar cinzas e o começaria de novo. — Ele lançou um olhar para ela. — Mas ficaria satisfeito em reinar neste mundo com problemas. E você poderia ser minha conselheira de confiança.
Ah, então ele tinha resolvido ser o Kyan “charmoso” de novo. O mesmo que a fizera pensar que podia ser amiga de um deus.
— Só isso? — ela respondeu sem rodeios. — Você apenas quer dominar o mundo.
— Sim.
— E, para isso, precisa da minha magia.
— Mesmo que sua avó não estivesse morta, o ritual que ela executou parcialmente ainda não estava certo. — Ele olhou para as próprias mãos. O símbolo triangular da magia do fogo estava visível na palma, mas pálido como uma cicatriz antiga.
Ela franziu a testa.
— O que não estava certo?
— Nada está certo desde que despertei. Melenia interferiu, como sempre fez. Ela me ajudou a ganhar forma mais de um milênio atrás, e acho que se sentiu versada o suficiente para fazer de novo quando chegou a hora. Acordei em meu antigo corpo sem sua intervenção direta. Tenho certeza de que ela mandou um de seus escravos para me despertar com sangue, fortalecido pelo massacre da batalha em que acordei, muito mais fraco do que deveria. Muito mais fraco do que se você tivesse feito, como era para ser.
Lucia ficou em silêncio e o deixou falar. Era algo que ela desejava saber desde o princípio, por que tinha sido capaz de enxergar onde Kyan estava no mapa brilhante de Mítica durante o feitiço de localização que fez com Ioannes, mas sentindo que ele já tinha despertado.
Melenia idiota, que permitiu a própria impaciência de reuni-la com seu amante e corromper suas decisões.
Mas talvez Lucia devesse agradecer pela impaciência da imortal. Isso tinha impedido que o deus do fogo acordasse tão poderoso quanto poderia ter acontecido.
— Diga, como estão Cleiona e Taran? — Kyan perguntou depois de um momento de silêncio, em que pareceu perdido nos próprios pensamentos.
— Bem — ela mentiu.
Kyan olhou para ela, achando graça.
— Acho difícil de acreditar.
— Eles me parecem bem. Com controle total de si mesmos, dos corpos… ao contrário de Nic e Olivia. Mais um sinal de que minha avó fracassou com vocês.
— Com certeza — ele concordou.
— Talvez aprendam a canalizar a magia que existe dentro deles tão bem quanto eu.
— Acha mesmo?
— É claro. — Era o que Cleo disse que queria: controlar a magia.
Kyan balançou a cabeça.
— Cleiona e Taran não podem controlar o que não lhes pertence. E se tentarem, vão fracassar e morrer. — Ele encarou a feiticeira bem nos olhos. — Mas acho que você já sabe disso.
Lucia tentou ao máximo não reagir, mas sentiu a verdade do que Kyan tinha dito em seu âmago.
— Como posso salvá-los?
— Você não pode. A vida deles está perdida. Seus corpos já foram reivindicados por meus irmãos.
— Então encontre outros corpos, se for preciso. — O coração dela batia forte enquanto resistia ao que tinha sido dito. — É possível?
A impaciência brilhou nos olhos castanhos dele.
— Você não está me ouvindo, pequena feiticeira. Estou lhe oferecendo a chance de salvar o que resta do seu mundo, de se juntar a mim e aos meus irmãos quando nos tornarmos onipotentes.
— Com minha ajuda — ela o lembrou. — Com minha magia.
Magia de que ela não possuía nem uma fração da força necessária.
Ela não poderia ajudá-lo nem se quisesse.
— Tudo estava perfeitamente alinhado naquela noite — ele disse irritado. — Os sacrifícios, a tempestade, a localização… Devia ter funcionado. Mas as coisas que importam não vêm fácil, não é? Preciso que você execute o ritual de novo, pequena feiticeira, com seu sangue e sua magia. Conserte o que sua avó começou.
É claro que era por isso que Kyan precisava dela. Não para se desculpar e tentar consertar as coisas, mas para conquistar o poder supremo.
— Quando? — ela sussurrou. — Quer que eu execute o ritual agora? Vai ameaçar matar todos no palácio se eu me recusar?
— Você me despreza, não é? — Ele cerrou os dentes. — Não, não vou fazer mais nenhuma ameaça hoje. Não quero mais que as coisas sejam assim entre nós. No momento, só preciso de uma promessa de que vai nos ajudar.
— E se eu recusar?
Ele lançou um olhar sombrio para ela.
— Se recusar, Cleiona e Taran vão sofrer muito antes de finalmente perderem a briga contra meus irmãos. Os deuses da água e do ar vão assumir o controle de suas novas carapaças. É uma questão de dias. Então, mesmo que em um grau um pouco menor do que planejei, a Tétrade será reunida. E vamos causar muita dor e muitos estragos neste mundo que você tanto valoriza, pequena feiticeira. Você viu do que sou capaz, mesmo com apenas uma fração de minha verdadeira força, não viu?
De repente, Lucia mal podia respirar, lembrando os diversos vilarejos que ele tinha incendiado. O grito das vítimas dele.
Os gritos das vítimas dela.
— Quando? — a princesa perguntou mais uma vez em um tom de voz quase inaudível.
Um sorriso apareceu nos lábios dele, apagando o olhar sério de um segundo antes.
— Me perdoe por ser vago, pequena feiticeira, mas vai saber quando chegar a hora. Você faz parte disso… sua magia, a magia de Eva. É parte disso desde o começo.
Lucia fechou bem os olhos, desejando bloqueá-lo de qualquer forma possível.
— Já disse o que veio dizer — ela sussurrou. — Agora, por favor, saia.
— Muito bem. Ah, e não culpe a ama por sair do quarto. Ela confia nesse rosto. Muitos confiam. É um bom rosto, não acha? Nicolo não é tão alto e nem tem a beleza convencional da minha forma anterior, mas gosto muito das sardas. — Houve uma pausa, como se esperasse uma resposta. Como Lucia não disse nada, ele continuou: — Vejo você em breve, pequena feiticeira.
Kyan deixou o quarto sem dizer mais nada, e ela só conseguiu observá-lo sair. Quando desapareceu de seu campo de visão, Lucia correu para o berço.
Lyssa dormia profundamente.

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