16 de setembro de 2018

Capítulo 12


MAGNUS
PAELSIA

Como a viagem dos Glaciares a Basilia levaria pelo menos três dias a cavalo, não havia tempo a perder com as paradas constantes de um rei moribundo e uma mulher velha. Selia arrumou uma carruagem fechada para levá-la junto com seu filho.
Quando Magnus sugeriu que Cleo fosse com eles e não montada num cavalo para não enfrentar o terrível frio, foi reprimido com um olhar cortante.
Aquilo queria dizer “não”.
Gaius os orientou por um caminho que permitia que passassem toda noite em uma hospedaria de alguma cidadezinha, onde descansavam, comiam e dormiam em quartos separados e trancados.
Sete longas noites se passaram sem Magnus poder dormir com Cleo em seus braços, mas todas as noites sonhava com ela e com o chalé na floresta. Nos momentos em que estavam acordados, ele preferia não compartilhar essa informação com ela. Não queria que ficasse convencida demais por provocar tal efeito nele, então guardava para si o desejo constante de tocá-la e beijá-la.
No último vilarejo onde ficaram, Enzo e Milo foram encarregados de buscar roupas adequadas para todos se passarem por viajantes inofensivos de passagem por Paelsia. Conseguiram encontrar vestidos de algodão para Selia e Cleo e calças de couro simples e túnicas de lona para si mesmos, Magnus e Gaius.
Magnus olhou a própria túnica creme com repulsa.
— Não tinha nada preto?
— Não, vossa alteza — Enzo disse.
— Cinza-escuro?
— Não. Só essa cor e azul-claro. Achei que não ia gostar muito do azul. — Enzo limpou a garganta. — Mas posso voltar à loja.
Ele suspirou.
— Não, tudo bem. Fico com essa mesmo.
Pelo menos o manto e as calças eram pretos.
Ele saiu, pronto para dar início à última parte da viagem rumo à cidade da costa oeste, e encontrou Cleo, parecendo uma linda camponesa com seu vestido simples, sorrindo para ele ao lado de seu cavalo.
— Você parece um paelsiano — ela comentou.
— Não precisa me insultar, princesa — ele resmungou, contendo um sorriso quando montaram os cavalos e começaram a andar.
Praticamente uma pequena eternidade depois — que na verdade não passou de meio dia — finalmente e felizmente chegaram ao seu destino.
Magnus já tinha ouvido muitas histórias sobre Basilia, a cidade mais próxima de uma capital que Paelsia tinha. A cidade atendia aos navios que visitavam o Porto do Comércio e os membros da tripulação ávidos por desembarcar em busca de comida, bebida e mulheres.
As histórias eram verdadeiras.
À primeira vista — e ao primeiro cheiro — Basilia era superpovoada e fedia a dejetos humanos e putrefação. Havia dezenas de navios atracados no porto, com as tripulações inundando a costa e se misturando nas ruas, tavernas, hospedarias, nos mercados e bordéis da cidade litorânea. E, ao que parecia, tão quente quanto Auranos no ápice do verão.
— Repulsivo.
Magnus viu que o rei Gaius tinha aberto a janela da carruagem para espiar o centro da cidade com aversão. Seus olhos estavam vermelhos, e os círculos escuros sob eles pareciam hematomas recentes em contraste com a palidez da pele.
— Desprezo este lugar — ele comentou.
— Sério? — Magnus perguntou, conduzindo o cavalo ao lado da carruagem. — Acho encantador.
— Não acha, não.
— Acho. Eu gosto dessa… cor local.
— Você não mente tão bem quanto pensa.
— Acho que posso apenas aspirar chegar aos seus pés no quesito falsidade.
O rei olhou feio para ele, depois alternou o olhar para Cleo, que cavalgava em frente a Magnus e atrás dos guardas.
— Princesa, se lembro corretamente, foi em um mercado não muito longe desta cidade em que você esteve com lorde Aron e o filho do vendedor de vinhos que ele matou, não foi?
Magnus logo ficou tenso e observou a princesa esperando a resposta. Cleo demorou alguns segundos para responder, mas o príncipe podia ver a tensão em seus ombros pelo fino material do vestido.
— Isso faz muito tempo — ela disse finalmente.
— Imagine como as coisas teriam sido diferentes se você não tivesse ido atrás de vinho aquele dia — o rei continuou. — Nada seria como é agora, não é?
— Não — ela disse, olhando para trás. — Por exemplo, você não teria caído e quase morrido depois de perder seu reino para uma mulher. E eu não estaria vendo seu fracasso com tanta alegria no coração.
Magnus conteve um sorriso e olhou para o pai, aguardando a contestação. A única resposta foi uma janela fechada, bloqueando a visão do rosto do rei.
A carruagem parou em uma hospedaria chamada Falcão e Lança que, apesar de um leve cheiro de suor misturado a almíscar, Magnus considerou o estabelecimento mais aceitável da cidade. O rei Gaius desceu da carruagem com a ajuda de Milo e Enzo e entrou na hospedaria, seguido por Selia, e logo subornou o dono para expulsar todos os hóspedes para que o grupo real tivesse privacidade total.
Enquanto os hóspedes saíam com um desfile de resmungos, Magnus assistia à Cleo observar a sala de convivência da hospedaria paelsiana com reprovação. Era um cômodo grande, com teto baixo, com cadeiras de madeira desgastadas e mesas lascadas, onde os hóspedes podiam comer e passar o tempo.
— Não se enquadra no seu padrão de qualidade? — Magnus perguntou.
— Até que está bom — ela respondeu.
— Não é uma hospedaria auraniana com camas de pluma, lençóis importados e urinol dourado. Mas me parece aceitavelmente limpa e confortável.
Cleo virou as costas para uma mesa na qual alguém havia entalhado as próprias iniciais. Um sorriso brilhante passou por seus lábios.
— Sim, para um limeriano, acho que sim.
— De fato. — Os lábios da princesa eram uma distração grande demais, então Magnus virou e se juntou a seu pai e sua avó, que estavam parados perto das grandes janelas, olhando para os estábulos onde os cavalos estavam sendo acomodados.
— E agora? O que vamos fazer? — Magnus perguntou à avó.
— Pedi para a esposa do dono da hospedaria ir até a taverna no fim da estrada e entregar uma mensagem pedindo para uma velha amiga minha nos encontrar aqui — Selia disse.
— A senhora não poderia ter ido?
— Ela talvez não me reconhecesse. Além disso, não é uma conversa que ouvidos curiosos podem escutar. A magia que procuro deve ser protegida a qualquer custo. — Ela encostou a mão sobre o braço de Gaius. Havia um brilho de suor na testa do rei, que estava apoiado na parede como se fosse a única coisa que o mantivesse de pé.
— E o que devemos fazer até ela chegar? — Gaius perguntou com uma voz enfraquecida substancialmente desde a chegada.
— Você vai descansar — Selia respondeu.
— Não há tempo para descanso — ele disse com raiva. — Talvez eu saia para procurar algum carpinteiro por perto para fazer um caixão para me transportar de volta para Limeros.
— Por favor, pai — Magnus disse, permitindo um pequeno sorriso. — Fico feliz em fazer isso por você. Deve fazer o que minha avó pediu e descansar.
O rei olhou feio para ele, mas não falou nada.
— Vou levá-lo ao seu quarto. — Selia envolveu o braço no filho, conduzindo-o pelo corredor na direção da escadaria, e subindo para os quartos no segundo andar.
— Excelente ideia — Cleo disse, bocejando. — Também vou subir para o meu quarto. Por favor, avise quando a amiga da sua avó chegar.
Magnus esperou que ela saísse, depois fez um sinal para Enzo segui-la. Ele pedira para o guarda tomar cuidado extra com a proteção da princesa. Enzo era um dos poucos em quem Magnus confiava para a tarefa.
— O que devo fazer? — Milo perguntou ao príncipe.
Magnus passou os olhos pelo salão, que também continha uma pequena estante com livros velhos, nada parecida com a vasta seleção que passou a valorizar na biblioteca do palácio auraniano.
— Patrulhe os arredores — Magnus disse, pegando um livro aleatório da estante. — Certifique-se de que ninguém tenha percebido que o antigo rei de Mítica está temporariamente por aqui.
Milo deixou a hospedaria e Magnus tentou se concentrar na leitura de um volume sobre a história da produção de vinho em Paelsia, que não mencionava nada sobre a magia da terra que com certeza era responsável pelo sabor da bebida, ou sobre as leis que proibiam sua exportação para outros lugares, à exceção de Auranos.
Depois de trinta páginas inúteis, a esposa do dono da hospedaria, uma mulher pequena que parecia ter um constante sorriso nervoso estampado no rosto, voltou com outra mulher mais velha, com rugas em volta dos olhos e da boca, de aparência extremamente comum, usando um vestido antiquado e desmazelado.
Magnus pensou que devia ser a mulher que Selia tinha mandado chamar. Quando a esposa do dono da hospedaria desapareceu na cozinha, a mulher mais velha observou o local que parecia vazio, até seu olhar recair sobre Magnus.
— Então a senhora é a resposta para todos os nossos problemas, não é? — ele perguntou.
— Depende de quais são seus problemas, meu jovem — ela respondeu sem rodeios. — Gostaria de saber por que me chamou aqui.
— Não foi ele, fui eu — Selia disse, descendo a escadaria de madeira do outro lado do corredor que levava aos quartos, no segundo andar. — E é porque estou em busca de uma velha amiga. Você me reconhece depois de todos esses anos?
Por um momento profundamente silencioso e agonizantemente longo, a mulher encarou Selia com uma mistura estranha de fogo e gelo no olhar. Justo quando Magnus começou a temer que tivessem cometido um erro ao confiar em sua avó, a mulher abriu um grande sorriso, com rugas de alegria aparecendo no canto dos olhos.
— Selia Damora — ela arrulhou com um tom de voz muito mais gentil do que ao entrar na hospedaria. — Pela deusa, como senti sua falta!
As duas mulheres correram uma na direção da outra e se abraçaram.
— Devo chamar os outros? — Magnus perguntou. Quanto antes sua avó conseguisse o que precisava da mulher, mais rápido poderiam sair daquele lugar.
— Não, isso não precisa ser discutido em grupo — Selia respondeu sem tirar os olhos da amiga. — Também senti sua falta, Dariah.
— Onde esteve durante todo esse tempo? Já perdi a conta de quantos anos se passaram!
— O que importa é que estou aqui agora. Para ser franca, estou um pouco surpresa por você ainda estar em Basilia.
— Nunca poderia abrir mão do lucro da minha taverna, cada ano é melhor do que o anterior. Tantos marinheiros com dinheiro para gastar e sede para matar…
— Muitos tipos de sede, sem dúvida.
Dariah piscou.
— Exatamente. — Ela se virou para Magnus. — E quem é esse jovem?
— É meu neto, Magnus. Magnus, esta é minha amiga Dariah Gallo.
— Muito prazer. — Magnus forçou o melhor sorriso que conseguiu, mas sabia que pareceria mais uma careta.
— Minha nossa! Seu neto ficou tão alto e bonito!
Selia sorriu.
— Sim, os netos às vezes fazem isso quando chegam aos dezoito anos.
Dariah passou os olhos enrugados por Magnus de alto a baixo.
— Se eu fosse mais nova…
— Se fosse mais nova, teria que lutar com a jovem esposa dele por sua atenção.
Dariah riu.
— E talvez eu vencesse.
Magnus teve uma vontade repentina de voltar à leitura do livro sobre vinho paelsiano.
Selia juntou-se à amiga nas risadas e depois voltou a adotar um tom sério, porém amigável.
— Não vim a Basilia apenas para reencontrar uma velha amiga. Preciso de informações sobre como conseguir a pedra sanguínea.
Dariah arregalou os olhos.
— Minha nossa, Selia, você não perde tempo.
— Não tenho tempo a perder. Meu poder foi diminuindo no decorrer dos anos e meu filho está morrendo.
No instante silencioso que se seguiu, Magnus ficou quieto. Essa pedra, se fosse real, parecia algo que poderia ajudá-lo a aumentar seu poder, como a Tétrade.
Selia levou Dariah na direção da estante. Fez sinal para que ela se sentasse em um banco de madeira ao seu lado, depois segurou as mãos da outra bruxa.
— Não tenho escolha. Preciso dela.
— Você sabe que não está comigo.
— Não está. Mas você sabe com quem está.
Dariah balançou a cabeça.
— Não posso fazer isso.
— Estou pedindo para você entrar em contato com ele. Sei que pode encontrá-lo. Ele precisa vir o mais rápido possível.
Mil perguntas surgiram na cabeça de Magnus, mas ele permaneceu em silêncio, escutando. Um poder como esse entregue diretamente em suas mãos. Parecia muito mais simples do que o processo complicado de encontrar a Tétrade.
A expressão da bruxa se tornou sombria.
— Ele nunca vai permitir que você fique com ela, nem mesmo por um instante.
Selia apertou ainda mais a mão da amiga.
— Deixe que eu lide com ele quando chegar aqui.
— Eu não sei…
Selia semicerrou os olhos.
— Sei que já faz muito tempo, mas sinto que terei que mencionar o favor que você me deve. Favor que prometeu retribuir por completo.
Dariah ficou encarando o chão.
Magnus observava, quase sem respirar. Aos poucos, a bruxa levantou os olhos, o rosto pálido. Ela concordou com um pequeno aceno de cabeça.
— Vou levar um tempo para atraí-lo para cá.
— Ele tem três dias. Será um problema?
A bruxa ficou tensa ao levantar.
— Não.
— Obrigada. — Selia levantou e deu dois beijos no rosto de Dariah. — Eu sabia que você ia me ajudar.
O sorriso de quando se cumprimentaram agora já não passava de uma lembrança.
— Aviso assim que ele chegar.
Dariah não demorou — lançou um último olhar para Selia e Magnus e deixou a hospedaria.
— Bem… — Magnus disse depois que tudo voltou a ficar em silêncio. — A senhora deve ter feito um belo favor para sua amiga.
— De fato foi. — Selia olhou para Magnus com um pequeno sorriso no rosto. — Agora vou ver como seu pai está. A saúde dele é minha única preocupação no momento. Quando minha magia estiver restaurada e ele estiver bem novamente, podemos enfrentar os outros obstáculos que estão em nosso caminho.
— Vou me esforçar para ser paciente — Magnus disse, sabendo que com certeza fracassaria.
Àquela altura a noite já tinha caído, e Magnus se retirou para seu pequeno quarto. Havia uma cama de tamanho normal, e não os catres inaceitáveis do quarto comunitário no fim do corredor. A janela tinha vista para a rua iluminada com lampiões e ainda movimentada, com cidadãos e visitantes mesmo depois de anoitecer.
Ele ouviu uma batida fraca na porta.
— Entre — Magnus disse, sabendo que podia ser apenas uma das quatro pessoas com quem havia chegado a Paelsia.
A porta se abriu devagar e, quando o visitante se revelou, o coração de Magnus começou a bater mais rápido. Cleo o encarava.
Ele levantou e a encontrou na porta.
— A amiga da minha avó esteve aqui.
— Já? — Ela arqueou as sobrancelhas. — E?
— E… — Ele balançou a cabeça. — Parece que seremos obrigados a esperar mais três dias por aqui.
— Mas ela vai conseguir a pedra sanguínea?
— Sim — Magnus respondeu. — Reencontrei minha avó há pouco tempo, mas ela me parece o tipo de mulher que consegue praticamente tudo o que quer.
— E tudo para essa pedra mágica salvar a vida de seu pai — Cleo disse sem nenhuma emoção, mas com uma dureza no fundo dos olhos azuis.
— Ele não merece viver — Magnus afirmou, concordando com o que não tinha sido dito. — Mas essa pode ser uma medida necessária para alcançarmos nosso objetivo maior.
— Encontrar Lucia.
— Sim. E acabar com a sua maldição.
Cleo assentiu.
— Suponho que não haja outra forma.
Ele a observou cauteloso.
— Você veio ao meu quarto apenas em busca de informações ou tem mais alguma coisa que deseja esta noite?
Cleo levantou o queixo para encarar diretamente em seus olhos.
— Na verdade, preciso de sua ajuda.
— Com o quê?
— Todas essas andanças a cavalo acabaram com meu cabelo.
Magnus levantou uma sobrancelha.
— E você veio aqui para pedir minha ajuda para cortá-lo e, assim, ele deixar de ser um problema?
— Como se você fosse permitir. — Ela riu. — Você é obcecado pelo meu cabelo.
— Eu não chamaria de obsessão. — Ele enrolou um cacho daquela seda dourada no dedo. — É mais uma distração, muitas vezes dolorosa.
— Peço desculpas por seu sofrimento. Mas você não vai cortar meu cabelo, nem hoje, nem nunca. A esposa do dono da hospedaria foi gentil e me deu isso. — Ela mostrou uma escova de cabelo com cabo prateado.
Magnus pegou o objeto da mão dela, observando-o com um olhar examinador.
— Você quer que eu…?
Cleo assentiu.
— Escove meu cabelo.
A ideia era ridícula.
— Agora que fui obrigado a me vestir como um paelsiano comum você está me confundindo com um criado?
Ela lançou um olhar determinado para Magnus.
— Eu não poderia pedir para Milo ou Enzo… ou, pelo amor da deusa, para seu pai ou sua avó me ajudarem.
— E quanto à esposa do dono da hospedaria?
— Está bem. — Cleo arrancou a escova da mão dele, fazendo careta. — Vou pedir a ela.
— Não, não. — Ele soltou um suspiro, achando graça. — Eu ajudo.
Sem hesitar, ela devolveu a escova a Magnus.
— Fico feliz.
Ele abriu caminho para deixá-la passar. Cleo entrou, sentou na beirada da cama e olhou para ele cheia de expectativa.
— Feche a porta — ela disse.
— Não é uma boa ideia. — Magnus deixou a porta entreaberta e lentamente sentou ao lado dela. Meio sem jeito e receoso, como se estivesse prestes a limpar um animal pela primeira vez, ele levou a delicada escova aos cabelos dela.
— Nunca fiz isso antes.
— Para tudo existe uma primeira vez.
Que cena ridícula deve ter sido: Magnus Damora, filho do Rei Sanguinário, escovando o cabelo de uma jovem a seu pedido.
E ainda assim…
Sempre que Magnus assumia uma tarefa, preferia ser dedicado, usando suas habilidades da melhor maneira possível. Ele se empenhava da mesma forma naquele momento, ao pegar uma mecha do longo e sedoso cabelo de Cleo e deslizar a escova por ela. O calor das madeixas passava entre seus dedos, causando um arrepio prazeroso em suas costas.
— Você tem razão — ele disse em voz baixa. — Está terrivelmente embaraçado. Acho que de modo irreparável.
Magnus estava apenas provocando Cleo — seu cabelo estava perfeito, como sempre foi —, mas então ele chegou ao primeiro nó.
Ela se encolheu.
— Ai.
— Desculpe. — Ele ficou paralisado, mas depois franziu a testa. — Mas você me pediu para fazer isso.
— Sim, eu sei! — Ela suspirou. — Por favor, continue. Estou acostumada a ser torturada por minhas criadas, e elas estão acostumadas a ignorar meus gritos de dor. Você não vai conseguir me machucar mais. Só Nerissa tem capacidade de fazer isso sem causar dor.
— Sim, ouvi falar das habilidades de Nerissa — Magnus comentou, sem conseguir conter um sorriso.
Agora, tendo uma imagem mais completa do histórico de penteados de Cleo, ele encarou a tarefa com mais determinação.
— Tanto cabelo, tantas oportunidades para formar nós… Por que as mulheres se dão ao trabalho?
— Talvez eu devesse fazer tranças, como uma líder paelsiana?
— Sim, imagino que seria um estilo adequado a uma princesa auraniana, mesmo quando forçada a usar um horroroso vestido de algodão — ele respondeu com ironia, sem deixar transparecer como estava se divertindo com aquela imagem. — Todas as garotas de Mítica iam querer copiar. — Com o maior cuidado possível, ele foi passando a escova por outra parte do cabelo que parecia um ninho de passarinho amarelo-claro. — Você precisa saber que pretendo reivindicar a pedra sanguínea para mim.
— Eu já imaginava — ela respondeu.
Aquilo o surpreendeu.
— Imaginava?
Cleo assentiu, e os cabelos escaparam das mãos de Magnus, cobrindo a tentadora nuca dela.
— Vi em seus olhos quando Selia mencionou a pedra. Foi o mesmo olhar que vi em seu pai.
— E que olhar é esse?
— Não importa.
Magnus largou a escova. Com gentileza, tocou Cleo pelos ombros até praticamente fazê-la virar de frente para ele, depois segurou seu queixo com cuidado.
— Importa, sim. Que olhar eu e meu pai compartilhamos?
Ela o encarou nos olhos, cautelosa.
— Um olhar frio de ganância, como se fossem capazes de matar pela pedra.
— Entendo.
Cleo analisou o rosto dele, como se procurasse respostas.
— Naquele momento, você parecia tão frio quanto seu pai. E eu… eu não gostei.
A vida toda, disseram que ele se parecia muito com seu pai — tanto fisicamente quanto em temperamento. Com o tempo, ele aprendeu a não refutar as comparações, embora nunca tivessem deixado de incomodá-lo.
— Devo admitir, descobri há pouco tempo que preciso ser como meu pai. Há certas situações que praticamente exigem que eu seja o mais frio e brutal possível. Se eu fosse derramar lágrimas por cada vida que tirei no último ano, já estaria seco como uma casca de árvore. Então, sim, acho que sou como meu pai em muitos sentidos.
— Não — Cleo sacudiu a cabeça. — Não é possível.
— Por que está dizendo isso?
— Sinceramente? — Ela chegou mais perto, segurando seu rosto entre as mãos. — Porque eu nunca quis fazer isso com seu pai.
Ela roçou os lábios de leve nos dele. Um pequeno gemido de tortura emergiu do fundo da garganta de Magnus enquanto ele se forçava a cerrar os punhos para não a agarrar no mesmo instante.
— Princesa…
Cleiona… — ela o corrigiu, os lábios ainda a uma distância perigosa. — Embora eu precise admitir que já não gosto tanto de ter recebido o nome de uma imortal que roubou e matou em nome do poder.
— Verdadeiros líderes costumam ser implacáveis o suficiente para roubar e matar. Se não o fizerem, outra pessoa o fará.
— Uma filosofia encantadora e, receio, muito verdadeira. Mas talvez possamos pensar em outro nome para você se referir a mim quando estivermos juntos.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Vou pensar nisso.
— Ótimo. — Ela mordeu o lábio, chamando atenção de novo para sua boca. — Agora, feche a porta. Com chave.
— Essa é uma sugestão muito, muito perigosa.
— Ou deixe aberta. Talvez eu não me importe. — Cleo o beijou mais uma vez, abrindo os lábios. Ele sentiu sua compostura e seu comedimento se esvaindo em uma velocidade perigosa quando a língua dela encostou na sua.
— Realmente não quero dizer não — ele sussurrou junto aos lábios dela.
— Então não diga.
Magnus gemeu de novo quando as mãos dela desceram por seu peito e por baixo de sua túnica, deslizando sobre seu abdome e tórax sem nenhuma barreira. Ele a agarrou pela cintura e a pressionou na cama, cobrindo-a por completo com o próprio corpo. Cleo era tão pequena, mas, ainda assim, tão forte e apaixonada.
Como um mundo insensível pôde criar uma criatura tão linda? Se a beleza dela não fosse um presente da deusa, sem dúvida tinha sido um presente da mãe…
De repente, Magnus levantou em um pulo, cobrindo a boca com o dorso da mão.
— O que foi? — Cleo perguntou assustada, o rosto corado.
Ele ficou em pé e pegou seu manto.
— Preciso de uma bebida. Vou dar uma olhada na taverna no fim da estrada.
Cleo ficou deitada, observando-o, com os cachos dourados embaraçados caídos sobre os ombros até a cintura.
Profunda e dolorosamente tentadora.
— Eu entendo — ela disse em voz baixa.
Ele estava prestes a sair sem mais nenhuma palavra, mas virou-se para ela e disse:
— Antes de sair, quero que saiba de uma coisa. No dia em que essa maldição for quebrada, prometo que a porta de qualquer quarto em que estivermos será trancada, e não vou deixar nada nos interromper.
Com isso, Magnus virou as costas e a deixou lá, olhando para ele.
Sim, ele precisava desesperadamente de uma bebida.


— Vinho — Magnus resmungou para o atendente quando entrou na taverna pobre, porém animada, conhecida como A Videira Púrpura. Ele colocou várias moedas sobre o balcão. — Fique atento e complete meu copo sempre que notar que está vazio — ele instruiu. — E nada de conversa.
O atendente abriu um sorriso forçado, depois recolheu as moedas do balcão com ganância, guardando-as em uma bolsa velha, caindo aos pedaços.
— Muito bem.
Ele fez o que Magnus pediu e prestou muita atenção ao nível de líquido da taça. Quando Magnus começou a beber gole após gole do doce vinho paelsiano, a noite começou a ficar muito mais clara. Da última vez que bebera vinho, tinha voltado para o palácio limeriano e encontrado sua esposa fazendo um discurso. Ela logo foi interrompida por inimigos que quase não o deixaram escapar com vida. Depois daquela experiência, ele tinha considerado renunciar completamente à bebida.
A visita de Cleo a seu quarto naquela noite com certeza o obrigava a revogar aquela promessa.
— Nossa atração de hoje vai deixá-lo mais animado, amigo — disse o atendente, apesar de Magnus ter pedido silêncio. Magnus estava prestes a repreendê-lo quando o homem indicou com a cabeça o meio da taverna. — Prometo que a Deusa das Serpentes será uma imagem espetacular para os olhos.
Deusa das Serpentes? Magnus revirou os olhos e apontou para a própria taça.
— Mais.
Alguém do outro lado da enorme taverna pediu silêncio para a multidão vociferante enquanto o atendente servia mais vinho para Magnus.
— Todos venerem nossa bela residente! — o homem berrou do outro lado do estabelecimento. — Curvem-se diante de seu incrível poder! E saúdem a Deusa das Serpentes!
A multidão reagiu com gritos e assovios quando uma jovem de cabelo escuro, pouca roupa e uma cobra pendurada no pescoço apareceu sobre o pequeno palco. Ao lado do palco havia um trio de músicos que começou a tocar uma canção exótica que, para Magnus, soava mais selvagem do que encantadora.
Quando a música começou a crescer, a jovem passou a se contorcer no que poderia ser considerado um tipo de dança, mas para Magnus parecia mais a oferta de uma cortesã.
Ele esvaziou o copo sem saber ao certo quantas vezes tinha repetido o movimento desde que chegara, mas não importava. Não agora que as coisas pareciam tão melhores do que antes, quando o desejo por Cleo quase o cegou diante do perigo.
Talvez eles pudessem dividir um quarto, ele pensava enquanto assistia àquela mulher estranha se sacudir pelo palco. Talvez um elixir para evitar a gravidez fosse proteção suficiente.
Ou talvez ele devesse se concentrar no fato de seu reino ter sido roubado, seu pai estar à beira da morte enquanto sua avó tenta salvá-lo com uma pedra mágica, sua irmã estar aliada com um homem que pretendia conquistar Mítica à base do fogo, e Cleo carregar uma maldição. O fato de ele estar enlouquecendo de desejo por sua esposa de fato era a menor de suas preocupações.
De repente, alguma coisa chamou sua atenção: um lampejo de cabelo ruivo.
Aquela cor de cabelo era mais rara em Paelsia do que a do cabelo de Cleo. Ele não conseguiu deixar de se lembrar de Nicolo Cassian, a única pessoa que ele conhecia com aquela cor infeliz de cabelo.
Magnus riu ao pensar naquilo. Não, Nic devia estava em segurança em Kraeshia — ou nem tão seguro assim, na verdade, mas Magnus não se importava. O idiota tinha se voluntariado para se juntar a Jonas em sua missão fracassada de matar o rei.
Ele voltou sua atenção para a Deusa das Serpentes. Quando pensou que estava começando a entender o ritmo de seus movimentos, ela parou, fazendo um sinal para os músicos pararem de tocar.
— É você? — ela perguntou. O salão agora estava em silêncio. A Deusa das Serpentes estava claramente se dirigindo a alguém específico, mas Magnus não conseguia ver de onde estava. Ele só conseguia ver a crescente empolgação no rosto pintado da dançarina enquanto sua expressão transparecia cada vez mais certeza. — Jonas! — ela gritava agora com mais confiança. — Jonas, é você mesmo? Meu querido, achei que estivesse morto!
Jonas?
Devia ser mais uma estranha coincidência.
A dançarina desceu do palco e se embrenhou no meio da multidão, de onde puxou um jovem de cabelo escuro.
Magnus ficou paralisado. Ele esticou o pescoço, tentando ver por entre as cabeças dos outros clientes. A dançarina jogou os braços em volta do jovem, rodopiando abraçada a seu visitante, até que ele se virou na direção de Magnus.
Chocado e boquiaberto, Magnus ficou observando fixamente aquela cena.
Era Jonas Agallon. Ali, na mesma taverna.
— Quem diria? — disse uma voz familiar ao lado dele, verbalizando seus próprios pensamentos. Uma onda de desgosto tomou conta de Magnus antes mesmo de se virar e descobrir o que já sabia: aquele ruivo, Nicolo Cassian, estava bem ao lado dele. — Você!
Nic cutucou o ombro dele, deixando escapar uma gargalhada quando derramou um pouco de cerveja de sua enorme caneca.
— Parece que o destino está finalmente lhe dando o troco, não acha, vossa alteza? E fico mais do que feliz de testemunhar isso.
— Estou vendo que sua visita a Kraeshia não ajudou a diminuir seu charme — Magnus disse, espantado por ter bebido a ponto de arrastar as palavras tanto quanto Nic.
Nic sorriu, mas seus olhos desfocados não demonstravam nenhum humor.
— Príncipe Magnus Damora, gostaria que conhecesse um amigo meu.
Irritado pelo uso de seu nome em um estabelecimento público, Magnus virou, esperando encontrar algum rebelde qualquer. Mas, em vez disso, encontrou um rosto que só via em pesadelos.
— Theon Ranus — ele exclamou. O calor agradável e o formigamento proporcionado pelo vinho desapareceram em um instante, deixando-o profunda e desoladamente frio ao encarar aquela aparição.
— Está enganado — disse o jovem, um lembrete fatal da primeira pessoa que Magnus havia matado na vida. Com um olhar frio repleto apenas de obstinação e ódio, ele puxou uma faca e a colocou junto à garganta de Magnus.
— Sou o irmão dele, seu filho da puta.

4 comentários:

  1. Não é por nada não, mais bem que ele podia matar o Magnus bem aí agora sem show 😡

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Mana, já ficou claro que o Magnus não vai morrer, se ele te encomoda tanto para de ler

      Excluir
  2. C tá louca miga! Se o Magnus morrer eu morro junto! Quem merece morrer é a vaca da Lucia

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!