1 de setembro de 2018

Capítulo 12


JONAS
AURANOS

O estado de espírito de Jonas estava tão obscuro quanto o céu noturno. Ele ia passar aquela noite em uma vila chamada Viridy, a meio dia de viagem a nordeste da Cidade de Ouro. Não era sua primeira visita; uma taverna da região estava sendo usada como ponto de encontro central. Enviou Felix na frente para encontrá-lo lá à noite e passou o último dia e meio investigando um rumor sobre alguns rebeldes e um grupo de escravos paelsianos que teriam escapado do campo de trabalho da estrada vivos. Mas o rumor provou-se falso.
Por mais que o reinado de Gaius tivesse criado um desconforto palpável entre as pessoas, a abundância ainda brilhava em Viridy como ouro, igual a todas as outras cidades auranianas que Jonas havia visitado. As ruas não eram pavimentadas com terra e rochas, mas com pedras arredondadas e cintilantes. A fachada dos estabelecimentos comerciais não era feita de barro, mas de pedras e madeira robusta.
Esse era o lar de milhares de cidadãos que pagavam impostos altos a qualquer rei que colocasse o traseiro real sobre o trono, mas pelo menos viviam bem. Ninguém passava fome nem perambulava pelas ruas vestindo trapos e procurando a próxima refeição. Ninguém congelava na rua por não ter acesso a calor e abrigo durante uma noite fria de inverno, como acontecia em Paelsia.
Mas, diferente de alguém que de fato tivera contato com a dor e com a miséria, o povo dali não dava valor ao que tinha. O fato de não se darem conta de seus privilégios incomodava Jonas. Ele não tinha dúvida de que os auranianos padeceriam coletivamente se algum dia fossem privados de um estilo de vida tão fácil.
Em geral, os paelsianos — apesar de todas as dificuldades e de crenças ingênuas em um destino inevitável — eram mais resistentes que eles. Eram sobreviventes. Era isso que Jonas mais amava em seu povo.
Caminhando sozinho pela lateral da rua, sentiu uma mão puxar a manga de seu manto, fazendo-o parar em frente a uma hospedaria.
— Você… — Um rosto feio se inclinou para o lado enquanto olhava para Jonas por entre as sombras. — Eu conheço você.
Jonas observou o homem com cautela.
— Duvido muito. Me solte.
— Conheço, sim. — Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto. — Você é aquele rebelde dos cartazes.
O estômago de Jonas se revirou. Ele preferia não ser reconhecido naquela noite, se pudesse evitar.
— Não tenho ideia do que está falando.
— Não se preocupe, garoto. Estou impressionado. — As palavras arrastadas foram o suficiente para provar que o homem tinha bebido muito. Era um dia especial em Auranos, o Dia das Chamas, em homenagem à magia de fogo lendária da deusa Cleiona. O feriado dava aos cidadãos um motivo para beber mais vinho do que de costume e se vestir de laranja e amarelo para representar o fogo eterno da divindade. — Andei pensando e acho que eu seria um ótimo rebelde. Queria chutar o traseiro do Rei Sanguinário para fora do mundo dos vivos.
— Acho que está me confundindo com outra pessoa — Jonas disse, calmo.
Ele não estava disposto a recrutar cidadãos comuns. Sua reunião naquela noite era com representantes de um grupo de rebeldes auranianos que talvez pudessem ajudá-lo a libertar Lysandra e os outros.
De repente, um estalo alto o fez saltar e virar na direção de uma explosão de luz amarela faiscante. Alguém gritou, e um garoto loiro de cerca de dezesseis anos desceu a rua correndo, com a túnica em chamas. Ele se jogou de cabeça em um barril de água.
— De novo, não — o bêbado resmungou. — Petros, você é um idiota! — gritou. — Vai acabar se matando se não parar de brincar com fogo desse jeito!
O garoto saiu do barril e olhou feio para o bêbado.
— Cuide da própria vida, velho.
— Você queimou nossa casa, e isso me diz respeito. Vou afogar você nesse barril se não fizer o que estou mandando!
O garoto não fez nada além de oferecer um gesto grosseiro ao bêbado e um olhar severo a Jonas, depois saiu correndo.
— O que foi aquilo? — Jonas perguntou.
— Meu filho idiota e obcecado por fogo — o homem respondeu. — Ele gosta de fazer experiências com poções ridículas que só servem para queimar suas sobrancelhas. Hoje deu a desculpa de estar homenageando a deusa do fogo ao causar confusão pela vila com essas aventuras incendiárias. Garoto tonto.
Jonas não tinha tempo para ficar de conversa fiada com bêbados locais sobre filhos problemáticos. Precisava encontrar Felix na taverna a tempo da reunião. Resmungando uma despedida e desejando boa sorte, ele conseguiu escapar do homem. Antes de chegar à taverna, sentiu que alguém o seguia.
Dois “alguéns”, para ser mais exato, sendo que um deles saiu das sombras e bloqueou seu caminho.
— Você parece o rebelde que o rei está procurando. — O homem era quinze centímetros mais alto que Jonas e tinha um nariz comprido e torto.
— Posso ser parecido, mas não sou ele — respondeu.
O segundo homem tinha cabelos loiros e ensebados e rosto fino, como o de um roedor. Ele arrancou o capuz da cabeça de Jonas para ver melhor.
— Sim, foi você que enfiou a adaga naquela rainha vadia. Não seja tímido. Está de parabéns pelo trabalho bem-feito.
Mais um motivo para evitá-los, já que eram do tipo que comemora a morte de uma mulher.
— Me deixem passar — Jonas insistiu.
— Ora. É uma noite de celebração. Tente ser amigável.
— Me deixem passar — ele repetiu — ou teremos problemas.
O careca riu e cutucou o amigo com o cotovelo.
— Ele não é muito amigável, é? E eu que pensei que pudesse nos ajudar…
Jonas olhou feio para eles.
— É mesmo? E como acham que eu poderia ajudar vocês?
— A recompensa nos cartazes… é bem generosa. Mesmo a favor de qualquer um que esteja lutando para mandar o rei de volta para sua terra gelada, para ser enterrado nela, de preferência, eu poderia fazer bom uso daquele ouro.
Apenas mais uma prova de que a grande maioria dos auranianos era gananciosa e egoísta.
Jonas não hesitou em lutar para sair da situação. Acertou o punho no queixo do careca, fazendo-o cambalear e cair de costas, gemendo. O loiro o agarrou por trás, e Jonas sentiu imediatamente a lâmina de aço fria em sua garganta. Ele parou de se debater. O careca limpou o sangue do lábio inferior com as costas da mão e se levantou.
Eles estavam sozinhos na rua. Estava escuro, e a taverna ainda ficava a algumas ruas de distância.
O careca cruzou os braços e sorriu para Jonas em meio à escuridão. O outro nem se mexeu, só manteve a adaga rente à garganta de Jonas.
— Sim, o rei vai pagar um bom dinheiro para quem capturá-lo. Agora a escolha é sua: morto ou vivo. Para mim, não faz a menor diferença.
Antes que o careca fizesse sinal para o amigo cortar o pescoço de Jonas, a voz de Felix atravessou a noite, interrompendo-os.
— De novo? Deixo você sozinho alguns instantes e já se mete em outra enrascada?
— Receio que sim. Pode me dar uma mão?
O careca virou e, alarmado, se deu conta do tamanho considerável do amigo de Jonas.
— A recompensa é grande o bastante para dividir por três — ele disse.
Felix cruzou os braços.
— Recompensa, é? Quanto?
Jonas parou de respirar. No fim das contas, só fazia algumas semanas que conhecia Felix. Que garantia tinha de que ele não trocaria de lado quando lhe conviesse?
— Dez mil cêntimos auranianos.
— É bastante. Um terço disso poderia me garantir uma bela quinta para passar os próximos anos. O problema é que nunca gostei de dividir. Sinto muito.
Felix agarrou o careca e pressionou a faca contra sua garganta, lançando um olhar detestável para o loiro.
— Solte meu amigo. Agora.
O alívio tomou conta de Jonas. Por que tinha duvidado dele?
— Não queremos confusão — disse o loiro.
Felix deu de ombros.
— Pois quase me enganaram.
— Ele é um criminoso procurado — esbravejou o careca.
— O vinho está correndo como água hoje à noite, e, pelo cheiro, vocês dois estavam nadando em bebida. Esse rapaz não é quem vocês estão pensando. Nem de longe. Somos apenas dois filhos de fazendeiros que saíram para uma noitada e uma bebedeira em nome da deusa. Nada especial. Deviam me agradecer por impedi-los antes que perdessem a própria vida por incomodar os guardas do rei.
Finalmente, um quê de dúvida surgiu no rosto deles.
— Solte ele — resmungou o careca. — Vamos.
Com relutância, o loiro soltou Jonas.
Felix empurrou o careca, mas não chegou a guardar a faca.
— Ainda temos algum problema aqui?
— Problema nenhum.
— Ótimo. Agora deem o fora.
Sem dizer mais nenhuma palavra, eles saíram correndo.
Jonas sabia que estava meio descuidado naquela noite. Em um dia normal, teria dado conta dos dois sozinho, sem ajuda.
Era constrangedor, na verdade.
— Pode me fazer um favor? — Felix disse, enfim guardando a arma.
— Claro.
— Cubra essa sua cabeça famosa com o capuz. As coisas vão ser muito mais fáceis para nós se você não for reconhecido de novo. Entendeu?
Jonas concordou com um meneio de cabeça.
— Entendi.
A Sapo de Prata era de propriedade de um simpatizante dos rebeldes que, sem titubear, havia concordado em deixar Jonas utilizar a taverna e hospedaria quando precisasse. Naquela noite a taverna estava completamente lotada de pessoas comemorando o Dia das Chamas, gastando tudo o que tinham em vinho, deixando moedas reluzirem sob as lamparinas penduradas nas vigas. Antes de entrar na taverna, Jonas viu Petros de novo, de relance.
O garoto continuava a celebrar a deusa com suas perigosas atividades incendiárias do lado de fora, fazendo os clientes pularem de susto com as explosões esporádicas.
Jonas tentou ignorar a distração e se concentrar no que precisava fazer enquanto esperava os rebeldes auranianos chegarem.
— Quanto tempo vamos esperar? — Felix perguntou.
— O tempo que for preciso.
— Eles não virão. Essa é a resposta deles, Jonas. Não vão ajudar.
— Eles prometeram que estariam aqui.
— Você mandou uma mensagem pedindo que arriscassem o pescoço para salvar alguns de seus amigos…
— Não coloquei nesses termos.
A união faria a força, e Jonas sabia que havia outros que compartilhavam de seu objetivo de acabar com o reinado de Gaius e ajudar a libertar os paelsianos que tinham sido escravizados e obrigados a trabalhar na Estrada de Sangue.
Apesar da aversão que sentia por aqueles que chamavam Auranos de lar, eram seus aliados. Auranianos ou paelsianos, estavam unidos pelo ódio ao rei.
— Eles têm seu próprio plano — Felix disse. — Não vão nos ajudar com o nosso.
Jonas fechou os olhos, sabendo que Felix falava a verdade. Ninguém viria. Ele era uma piada — o líder rebelde que guiou seu povo para a morte repetidas vezes.
— Por que você ainda está aqui se sou tão patético? Por que ainda não deu o fora? Se ficar ao meu lado, vai acabar morto.
— Promessas, promessas. — Felix olhou para ele com paciência, os braços cruzados diante do peito. Depois foi até o bar e voltou rápido para a mesa de Jonas com duas grandes canecas de cerveja escura, respingando na superfície de madeira.
— Beba — Felix disse.
Jonas olhou para a bebida. À esquerda, uma banda tinha começado a tocar uma canção sobre a beleza da deusa. As pessoas estavam cantando e batendo o pé no chão, em uma dança embriagada.
— Cerveja não vai resolver meus problemas — Jonas disse.
— Mas duvido que os faça piorar.
Jonas deu um grande gole na bebida forte, e o líquido desceu queimando sua garganta.
— Preciso salvá-la.
— Se o que me contou sobre Lysandra é verdade, ela sabe o risco que você estaria correndo. E não gostaria que morresse por causa dela.
Lysandra não era do tipo que sonhava ser resgatada por um garoto. Provavelmente ficaria furiosa por Jonas estar obcecado por ela em vez de se concentrar em derrubar o rei.
Ela sabia que, mais do que qualquer coisa, Jonas queria ser o responsável pelo golpe fatal.
— Ora, o que temos aqui? — Felix disse. — Tem uma coisinha linda olhando para você, meu amigo. Por favor, me diga que está disposto a dividir.
Jonas franziu a testa e olhou para trás, para uma garota a alguns metros de distância, observando-o em meio à multidão. Ela abaixou o capuz do manto escuro que a protegia e revelou cabelos curtos e olhos castanho-escuros. Olhou nos olhos de Jonas e sentou à mesa.
— Nerissa — disse, com o ânimo imediatamente renovado. — Que bom ver você.
Ela sorriu para Jonas.
— É bom ver você também.
Ao perceber que Felix observava a bela garota com interesse, Jonas lançou um olhar a ele.
— Nerissa Florens, este é Felix Gaebras.
Ela avaliou Felix com um interesse comedido.
— Onde o conheceu, Jonas?
— Viajando.
— Confia nele?
— Confio. — E tinha recebido mais uma prova de que Felix era digno de confiança naquela noite: dinheiro não era tão importante quanto lealdade para ele.
Ela franziu o rosto.
— Tenho certeza de que vai me perdoar por conter meu entusiasmo. Ele parece um bandido de aluguel.
— Que palavras charmosas. — Felix ocupou o assento ao lado dela, abrindo um sorriso. — E vindas de uma boca tão charmosa. Ela sabe fazer outra coisa além de falar?
Nerissa o encarou com audácia.
— Sabe morder.
— Bom saber. — O alerta apenas pareceu intrigar mais ainda Felix.
É melhor ele ter cuidado, Jonas pensou, achando graça. Nerissa não estava brincando.
— Tenho notícias — Nerissa disse. — E uma mensagem. Qual quer primeiro?
Seu ânimo esmoreceu com a mesma velocidade que havia surgido.
— As notícias — Jonas respondeu.
— As execuções estão marcadas para depois de amanhã. Ao meio-dia, na praça do palácio. O rei preparou tudo para que um grande grupo de seus defensores mais fervorosos cerquem o palco da execução, para garantir que a aclamação seja bem alta.
O mundo ficou mais lento e mais escuro ao redor de Jonas.
— Está muito perto. Não consigo… não tenho tempo suficiente para fazer nada. — Ele praguejou em voz baixa, condenando os rebeldes auranianos por nem ao menos ouvirem o que tinha a dizer. — Como vou impedir a execução de quatro rebeldes?
Dois rebeldes, infelizmente. — A expressão de Nerissa era amarga. — Dois morreram no calabouço.
Ele sentiu um golpe no peito, e o coração ficou apertado.
— Quem ainda vive?
— Tarus e Lysandra. Cato e Fabius foram mortos tentando escapar.
Ele terminou a cerveja. A ideia de perder qualquer um deles era dolorosa, mas não dava para evitar o alívio de saber que Lys e Tarus estavam vivos.
Para morrer sob o machado do carrasco em menos de dois dias.
Felix apertou o ombro dele.
— Sinto muito.
Havia falhado com Tomas. Havia falhado com Brion. Havia falhado com seus rebeldes ao levá-los à ruína.
Tudo o que tocava se transformava em cinzas.
— Qual é a mensagem? — Jonas perguntou com a garganta apertada.
Nerissa passou um pedaço de pergaminho dobrado sobre a mesa. Ele rompeu o lacre e o desdobrou, segurando perto da luz da vela.

J.
O rei procura a Tétrade. Ele acredita que os cristais existem, mas ainda não sabe onde ou como recuperá-los.
Precisamos encontrá-los primeiro. Não podem cair nas mãos dele, ou se tornará invencível.
Mandarei outra mensagem quando souber mais. Não conte a ninguém.
C.

O coração de Jonas batia mais forte e mais rápido a cada palavra. Ele leu o recado de Cleo duas vezes e depois o segurou sobre a vela, queimando-o.
A Tétrade. Antes ele teria zombado da crença na magia, mas não mais. Não duvidava da veracidade da mensagem da princesa nem por um instante.
— O que dizia? — Felix perguntou.
Ele honraria o pedido de Cleo de não contar a ninguém, sobretudo por não haver nada na mensagem que pudesse ajudá-los — apenas um indicador de que mais informações estavam por vir.
— O rei se recusa a sair do palácio, por medo de um ataque rebelde.
Felix bufou.
— Que covarde.
Bum!
Jonas se assustou, e Nerissa tremeu, agarrando as bordas da mesa. A taverna ficou em silêncio e os clientes se viraram, alarmados, na direção do barulho, do lado de fora.
— O jovem Petros, sempre arrumando confusão — uma mulher resmungou. — Ele vai matar a vila toda se não tomar cuidado.
Todos gargalharam, depois voltaram a conversar.
Jonas ficou quieto, imerso nos pensamentos que agora giravam em sua cabeça como um furacão.
— Posso salvá-los.
— O quê? — Felix o encarou.
— Lys e Tarus. Posso salvá-los.
— Tem certeza disso?
— Antes eu não tinha, mas… — Jonas levantou, seu estado de ânimo obscuro se desfazendo conforme um plano se solidificava em sua cabeça. — Preciso de ajuda… e acho que sei quem pode me ajudar.
— Quem pode nos ajudar, você quer dizer. — Felix se levantou, fazendo a cadeira ranger contra o chão de madeira. — O que tem em mente?
— Jonas — Nerissa protestou. — Odeio turvar as águas de sua convicção, mas é perigoso demais. Tentar impedir essas execuções com menos de dois dias de planejamento vai acabar levando você à morte também.
— Talvez. — Um sorriso se formou devagar no rosto dele, de orelha a orelha. — Mas consigo pensar em formas muito piores de morrer.

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