3 de setembro de 2018

Capítulo 11

CLEO
LIMEROS

— Muito bem, princesa — exclamou lorde Kurtis. — Concentre toda sua energia no centro do alvo.
Cleo apontou a flecha com calma, a vinte passos do alvo. Fazia frio, mas o céu estava claro, e não havia neve para distraí-la dessa vez.
— Quando estiver pronta, solte a flecha.
Ela deixou a flecha voar, sentindo mais confiança do que em qualquer aula anterior.
Mas a flecha percorreu apenas a metade do caminho e mergulhou no chão congelado. Essa falha específica havia se tornado muito comum na última semana.
O arqueirismo como esporte parecia fácil visto de fora, de onde ela assistia às competições de sua irmã. Agora, olhando para os próprios dedos, sangrando e cheios de bolhas, ela se deu conta do quanto estava errada. Todo dia era a mesma coisa: puxar o fio do arco, mirar, soltar a flecha. Repetidas vezes. E falhar em todas.
Estava ainda mais constrangida pelo fato de vários guardas estarem perto do campo de arqueirismo, testemunhando sua falta de progresso, incluindo Enzo, o guarda amigável para quem Cleo fazia questão de dar bom-dia todas as manhãs.
— Muito bem — Kurtis disse, tentando animá-la. — Você está melhorando muito.
Ela tentou não rir.
— Mentiroso.
— De jeito nenhum! Você não vê seu progresso, mas eu vejo. Sua mira se tornou excelente, e sua força está melhorando a cada aula. Dominar uma habilidade como esta requer muita paciência e tempo.
Por que tudo o que era importante requeria tanta paciência e tempo, quando ela não tinha mais nenhum dos dois?
Quando conheceu Lysandra Barbas, Cleo tinha ficado impressionada pela garota rebelde, que tinha muita facilidade para acompanhar rapazes como Jonas e que era capaz de empunhar um arco e flecha como se tivesse nascido com ele nas mãos. Embora nunca fosse admitir a ninguém, em especial à beligerante Lysandra, ela tinha passado a admirá-la profundamente.
— Acho que chega por hoje — ela disse, soltando o arco e aquecendo as mãos nas dobras do manto azul-claro, forrado de pele.
— Muito bem. — Kurtis deu ordens para um guarda recolher o equipamento, e eles começaram a caminhar devagar na direção da entrada do palácio. — Vossa graça, posso lhe falar francamente?
— Sobre?
— O príncipe Magnus.
Cleo olhou para ele, surpresa.
— O que tem ele?
Ele hesitou.
— Perdoe-me se interpretei mal, mas sinto que nos tornamos amigos.
— Não interpretou mal. — Cleo tinha interesse em fazer o máximo de amizades que pudesse. — Por favor, fique à vontade para dizer o que está pensando.
— Obrigado, vossa graça. A verdade é que... ando um pouco preocupado com seu marido. Durante as reuniões do conselho que ele presidiu, não consegui deixar de notar como é óbvio que o príncipe duvidava das próprias habilidades como governante. Temo que seja apenas uma questão de tempo até que o resto do conselho perceba e comece a acreditar que ele não tem aptidão para o cargo. Se o conselho o considerar inadequado para governar no lugar de seu pai, tem o poder de retirá-lo do cargo.
— Todos os novos líderes cometem erros no início — Cleo afirmou depois de refletir. — E, na verdade, devo discordar de você. Quando estive na reunião, ele pareceu tão confiante quanto capaz.
Acabei de dizer isso em voz alta?, ela pensou, consternada.
Cleo sabia o quanto Magnus detestava fazer discursos públicos, então tinha ficado surpresa de fato com a maneira aparentemente relaxada como ele assumiu o comando da reunião do conselho. Quando ele falou, ela teve a impressão de que todas as outras pessoas desapareceram.
— Conheço o príncipe há muito mais tempo que você — Kurtis respondeu sem hesitar. — Ele nunca demonstrou nenhum sinal de liderança e nenhum interesse em aprender mais sobre o que faz um grande líder. Ainda assim, apareceu de repente, exigindo controle e disseminando frustração.
Cleo não sabia muito bem se estava gostando da direção que a conversa estava tomando, mas queria ver aonde Kurtis pretendia chegar.
— Ele é o herdeiro do trono.
— É. — Kurtis reconheceu. — Como você era a herdeira do trono auraniano, se não fosse pelo pai de Magnus. Não sou tolo. Sei que não está casada por livre e espontânea vontade. Perdoe-me se pareço um tanto rude, mas é quase como se você não fosse esposa, e sim prisioneira de guerra. Sabendo como ele era ameaçador quando éramos crianças, compadeço-me muito de sua situação.
Ele era muito mais perceptivo do que Cleo imaginava.
— Não sei bem como responder a isso, Kurtis.
— Não precisa dizer nada. Mas, saiba de uma coisa: em meu coração, sei que Magnus não foi feito para aquele trono. Ele pertence a outra pessoa. Alguém que tenha feito por merecer e seja muito mais digno.
Ela notou que não estava conseguindo respirar. Kurtis estava se oferecendo como aliado?
— Kurtis...
— Aquele trono é meu — ele continuou. — Com o rei e meu pai em Auranos, eu deveria estar no poder aqui.
Ela se esforçou para esconder a surpresa.
— É uma pena, então, que o príncipe de Limeros discorde de você.
— Você precisa saber que o príncipe conseguiu fazer muito mais inimigos que amigos desde sua chegada — Kurtis disse, baixando a voz conforme se aproximavam do palácio. — Estou preocupado com a segurança dele.
— Acredita que a vida de Magnus corre risco?
— Rezo para a deusa para que não seja verdade, claro. — Ele fez uma pausa, cerrando os lábios até quase formar uma careta. — Mas o que posso dizer com certeza é que poucos em Limeros lamentariam a morte dele, ou a de seu pai.
— Por que está me dizendo isso?
— Espero que encoraje seu marido a renunciar.
— Acha que tenho tanto controle sobre ele?
— Pareceu ter certa influência sobre ele na reunião do conselho quando discutíamos a crise de Limeros. Ficou claro para mim que ele valorizou sua opinião.
— Acho que não compartilhamos da mesma certeza.
— Ainda assim, vai considerar o meu pedido, princesa?
Ela se obrigou a sorrir e apertou o braço de Kurtis.
— Aprecio sua franqueza, Kurtis. E, sim, vou considerar.
— Excelente. Então prometo não tomar mais seu tempo.
Ele se despediu e a deixou ali, na entrada do palácio, imersa nos próprios pensamentos.
O que acabou de acontecer?
O desejo de Cleo de retomar o que era seu por direito não havia desaparecido, e Kurtis Cirillo seria um aliado interessante. Se ao menos sua abordagem, seu desejo explícito pelo trono, não tivesse deixado um sabor tão rançoso na boca dela...
Então, o conselho odiava Magnus. E, se tivessem a chance, ficariam do lado de Kurtis. Se Magnus se opusesse, sua vida estaria em perigo.
Um dia aquele já tinha sido o objetivo dela — ver o príncipe morto ao lado de seu pai.
A julgar pela sensação de tensão e mal-estar que se agitava em seu estômago, os termos com certeza haviam mudado.


Ela voltou para os jardins gelados um pouco mais tarde, protegendo-se com o manto enquanto explorava a área, tentando esvaziar a cabeça. Tudo à sua volta estava coberto por uma camada de branco puro. Até o palácio, uma estrutura negra e ameaçadora como uma fera, parecia sossegado e cinza, com quase todos os centímetros de sua superfície cobertos de gelo. Ela andou pelos longos caminhos gelados que atravessaram os jardins, imaginando que estavam delimitados com cercas-vivas podadas e roseiras cheias de flores. Talvez um arco coberto de hera. Cheio de cores e calor, como em seu lar.
Cleo amava Auranos, é claro. Mas Limeros também tinha sua beleza — uma beleza fria e intocável, mais fácil de admirar de longe.
Assim como o príncipe.
Mas o príncipe nem sempre é frio e intocável, é?, ela se perguntou.
De repente, alguma coisa — uma sensação, um som fraco... ela não sabia ao certo o quê — a fez parar e virar.
Alguém percorria o caminho atrás dela, a uns cem passos de distância. Ela ficou ali, paralisada, enquanto a figura se aproximava.
Até finalmente conseguir ver quem era.
— Não é possível — ela sussurrou.
Quando ele estava a cerca de trinta passos de distância, ela começou a caminhar, as pernas se movimentando por iniciativa própria, levando-a para mais perto dele.
Theon.
Theon Ranus usava calça de lã marrom e um manto preto e grosso, com o capuz abaixado, revelando seu belo rosto. Era um rosto que ela havia memorizado um milhão de vezes. Um rosto que a assombrava. Um rosto que amava.
— Co-como? Como você está aqui? — ela conseguiu perguntar quando soube que estava perto o bastante para ele ouvir.
Ele parou ao alcance de suas mãos.
— Eu disse que a encontraria. Eu estava falando sério, princesa. Sempre vou encontrá-la. Tinha alguma dúvida?
Ela estendeu o braço para tocá-lo, com a mão trêmula, e sentiu que era firme, quente e real.
— Mas... eu vi você morrer! Com aquela... aquela espada enfiada no coração. Você estava morto!
Ele pegou a mão dela.
— Uma vigilante exilada me encontrou bem a tempo. Ela me curou com um preparado de sementes de uva com magia da terra, mas demorei meses para ficar forte o bastante para partir. Procuro você desde então, princesa. Procurei por todo lado e, graças à deusa, finalmente a encontrei.
Foi por isso que ela tinha estado em Paelsia um tempo atrás, para procurar as míticas sementes de uva que, segundo rumores, eram capazes de trazer alguém da beira da morte.
Ele estava vivo. Theon estava vivo! Isso mudava tudo.
— Senti tanto sua falta!
Theon olhou para ela com carinho e seriedade.
— Você passou por muitos horrores nos últimos meses. Foi obrigada a fazer coisas terríveis para sobreviver. Mas agora acabou. Estou aqui e prometo mantê-la em segurança. — Ele olhou para a fachada do castelo negro. — Precisamos ir embora imediatamente.
— Ir embora? Mas, espere... preciso contar ao Nic... — Ela estava cheia de esperança mais uma vez, mas tudo parecia mudar tão rápido que ela mal tinha tido tempo de processar as informações.
— Depois mandamos um recado para que ele saiba onde nos encontrar.
— Meu reino... Theon, preciso retomá-lo.
— E vai, mas não aqui. Não com ele. — A expressão de Theon ficou tensa. — Sinto muito por não ter conseguido protegê-la daquele monstro, meu amor. Mas o farei agora. Nunca mais precisará vê-lo.
Theon a abraçou forte, mas ela ficou tensa.
— Não posso partir — ela disse tão baixo que mal pôde escutar a si mesma. — Há muita coisa que preciso fazer aqui. Sinto muito.
Theon se afastou dela e pareceu inconformado.
— Como pode me dizer isso?
— Por favor, tente entender...
— Por que ficar com ele um instante a mais do que o necessário? Não se lembra do que ele fez comigo?
Devagar, sangue começou a correr do canto de sua boca.
Ela ficou horrorizada.
— Theon!
— Ele me matou, princesa. Aquele covarde maldito enfiou uma espada em minhas costas e não merece nada além de dor em troca disso. Você sabe!
Ela balançou a cabeça, os olhos cheios de lágrimas.
Theon cambaleou para trás e caiu de joelhos. Abriu a parte da frente do manto para mostrar a mancha vermelho vivo no centro da túnica.
— Ele me roubou de você. Ele roubou seu reino e sua família e seu futuro. Esqueceu disso?
Lágrimas quentes escorriam pelo rosto dela.
— Não. Você... você não entende...
— Eu amo você, princesa. Podíamos ter sido tão felizes juntos se não fosse por ele. Por que me trairia dessa forma?
Ele caiu no chão, os olhos acusatórios vidrados, fixos nela.
Cleo acordou do sonho gritando.


A princesa procurou Nic, mas encontrou Magnus no corredor. Tentou evitá-lo, mas ele se colocou em seu caminho.
— Princesa — ele disse, notando o manto e as luvas. — Está com pressa para ir a algum lugar?
Cleo estava com dificuldades para encará-lo nos olhos, então voltou a atenção ao chão escuro.
— Nenhum lugar em particular.
— Estou curioso para saber como estão suas aulas de arqueirismo.
É claro que, justo hoje, ele queria parar para uma conversa amigável. Que encantador.
— Não poderiam estar melhores.
— Lorde Kurtis é um bom instrutor?
— Muito bom. Eu... na verdade estou procurando Nic. Você o viu?
— Não recentemente. — Magnus piscou e endireitou os ombros. — O último lugar onde o vi foi em uma taverna da região. Parece que ele estava por lá para tentar esquecer um certo príncipe kraeshiano. Curioso, não é? E eu pensei que ele era loucamente apaixonado por você... Algumas pessoas são cheias de segredos, não são?
— De fato. Agora, se me der licença.
Ele segurou seu braço quando Cleo passou.
— Está tudo bem, princesa?
— Está tudo ótimo.
— Olhe para mim.
Cleo rangeu os dentes e se obrigou a encarar aqueles olhos escuros. Assim que o fez, mil emoções diferentes a atingiram de uma só vez, e seus olhos começaram a arder.
Não, não aqui. Não vou chorar na frente dele.
Magnus franziu as sobrancelhas.
— Diga por que está tão chateada.
— Como se você se importasse. — Ela olhou para a mão grande dele apertando seu braço. — Está me machucando.
Ele a soltou de imediato, e Cleo sentiu o olhar em suas costas enquanto se afastava tentando fingir não estar com pressa.
Ela tentou respirar normalmente, tentou achar um jeito de recuperar sua força, mas tudo lhe escapava a cada passo que dava.
Finalmente, encontrou Nic saindo do quarto, na ala dos empregados. Tinha círculos escuros sob os olhos, e o cabelo ruivo estava desgrenhado.
— Não me deixe esquecer de uma coisa no futuro, Cleo — ele disse. — É melhor ficar com o vinho paelsiano. Qualquer outra bebida em excesso não leva a nada além de muita dor e arrependimento na manhã seguinte.
Se fosse qualquer outro dia, ela poderia até achar graça.
— A dor que está sentindo deve servir como lembrete — ela afirmou, depois olhou para os dois lados do corredor. — Preciso falar com você em particular.
Ele esfregou a testa.
— Agora?
Ela assentiu, com um nó na garganta.
— Tudo bem. — Ele apontou na direção de seu quarto. — Entre e vivencie os luxos que me concedeu sua majestade.
Ela mordeu o lábio.
— Não, vamos lá fora. Preciso de um pouco de ar fresco e... vai fazer bem a você.
— Excelente ideia. E se eu morrer congelado, não vou mais ser um fardo para você.
— Pare com isso, Nic. Você não é um fardo. Para ser sincera, não sei o que faria sem você. — Ela o puxou e lhe deu um abraço apertado.
Ele ficou tenso com a surpresa, mas logo retribuiu o abraço.
— Você está bem?
— É uma ótima pergunta. Não tenho mais tanta certeza.
Nic assentiu.
— Então vamos conversar.
Nic pegou um manto quente, e Cleo saiu com ele na direção dos jardins gelados.
— Viu o labirinto? — ela perguntou, cobrindo a cabeça com o capuz de seu manto para ajudar a bloquear o frio.
— Só de longe.
Ela viu os guardas de vermelho pontuando a paisagem branca.
— Já andei por ele várias vezes e conheço o caminho. Vai nos dar um pouco de privacidade.
Quando entraram no labirinto, Cleo passou o braço pelo de Nic para se aquecer um pouco mais.
— Certo — ele disse. — O que é tão urgente e pessoal para precisarmos entrar em um labirinto de gelo no dia mais frio da minha vida?
— Bem, primeiro quero me desculpar. Sinto que fui negligente com você quando... — Cleo pegou a mão fria dele. — Quando você está precisando muito de uma amiga.
Seus passos vacilaram, e ele ficou sério.
— Do que está falando? Sei que é minha amiga. É mais do que isso. Você é minha família agora. A única família que tenho.
— Sim, é claro. Mas sei que anda chateado desde o templo... desde que o príncipe Ashur morreu.
Ele ficou pálido.
— É disso que se trata essa conversa? Não me pergunte sobre ele, Cleo. Por favor.
— Sei que está sofrendo, Nic. Quero ajudar.
— Estou resolvendo sozinho.
— Ficando bêbado toda noite?
— Talvez não seja a melhor estratégia para esclarecer uma mente confusa, mas é uma das poucas que tenho disponíveis.
— Posso ver que está confuso. Converse comigo, Nic... sobre ele. Estou à sua disposição. É sério.
O nariz do rapaz já tinha ficado vermelho devido ao frio, e as sardas se destacavam no rosto pálido.
— Só sei que nunca tinha me sentido assim, nunca, por... — Ele rangeu os dentes. — Não sei, Cleo. Não consigo explicar, nem para mim mesmo. Gostei de meninas a vida toda, e sei que não estava apenas me enganando. Meninas são bonitas, suaves e... incríveis. O que senti por você, principalmente por você... não era falso nem uma mentira. Mas com o príncipe... não sei o que pensar. Não passei por nenhuma enorme mudança e agora quero beijar todo garoto que passa na minha frente.
— Mas você gostava dele. Talvez mais do que isso.
Ele passou a mão nos cabelos curtos.
— Eu mal o conhecia, Cleo. Mas... o que comecei a sentir... não parecia errado.
Cleo assentiu.
— Entendo completamente. O que nosso coração quer pode passar por cima do que nossa mente nos diz ser proibido. Não podemos controlar esses sentimentos, mesmo quando desejamos muito.
Nic começou a olhar para ela com desconfiança.
— Você entende, não é? Por quê? Seu coração também está confuso? Viemos aqui falar sobre mim? Ou estamos falando sobre você?
Nic sempre a enxergou com clareza — mais do que qualquer outra pessoa. Seria sensato que ela se lembrasse disso agora.
Cleo fechou os olhos e tentou bloquear toda a confusão, mas só conseguia ver a imagem de Theon em seu pesadelo, encarando-a com dor e dúvida. Por que me trairia dessa forma?
— Cleo, olhe para mim — Nic pediu.
Com relutância, ela abriu os olhos.
— Não — ele disse com severidade. — Simplesmente.
— Nem sei do que você está falando.
— É claro que sabe — Nic disse, resmungando. — Só lembre de uma coisa: tudo o que o príncipe fez nos últimos tempos, ele fez apenas por uma pessoa... e não é você. É ele. Magnus é tão calculista, ardiloso e egocêntrico quanto o pai. Você é inteligente demais para isso, Cleo. Sei que é. Precisa enxergar através das motivações por trás de tudo o que ele faz.
Seu tom estava desprovido de acusação ou repulsa. Em vez disso, falava com paciência e compreensão... e talvez com certa frustração.
— Não sei mais em que acreditar, Nic.
— Dá para ver. — Ele afastou o cabelo dela do rosto. — Sei que não me procurou hoje para falar de amor, Cleo. Você me procurou porque sabe que, sempre que as coisas ficam um pouco confusas, posso ajudá-la a voltar a enxergar tudo de maneira racional. O príncipe Magnus é seu inimigo mortal, não um herói obscuro que vai se redimir em nome do amor verdadeiro. E isso nunca vai mudar.
Ela não achou graça, mas não conseguiu deixar de rir.
— Você me faz parecer uma completa idiota.
— Não, você não é idiota. É a garota mais inteligente que conheço. — Ele riu. — E a mais bonita de todas, com certeza. Sei que vai fazer a coisa certa. Mas precisa lembrar quem é seu inimigo. Lembrar o motivo por que voltamos para este palácio, que é conseguir mais informações sobre a Tétrade. Se pudermos encontrar pelo menos um dos cristais, você terá seu trono de volta.
O que era mais importante para ela? Vingar a morte de sua família, recuperar o trono que lhe fora tomado e garantir um futuro livre do Rei Sanguinário para o seu povo? Ou um príncipe, a quem sabia que nunca poderia confiar totalmente seu coração ou sua vida?
Tudo parecia muito claro de novo. Graças à deusa ela havia sonhado com Theon para se lembrar do que nunca poderia esquecer — e também tinha Nic como voz da razão.
— Você está absolutamente certo — Cleo disse depois de um pesado silêncio. Por fim, ela os guiou até a saída do labirinto. — Magnus é meu inimigo. Eu o odeio por tudo o que tirou de mim... de nós... e sempre odiarei.
Nic soltou o que pareceu um suspiro de alívio.
— É bom ouvir isso.
Finalmente saíram do labirinto, mas foram recebidos por uma voz seca e séria.
— Sim, é bom ouvir isso, não é? Para todos nós.
Magnus estava apoiado no muro do labirinto congelado como se estivesse esperando os dois. O sangue de Cleo virou gelo ao se deparar com ele.
— Nossa, a conversa deve ter sido fascinante. É uma pena só ter escutado o final. Fiquei imaginando por que estava tão chateada no palácio, princesa, então tomei a liberdade de seguir você e seu melhor amigo para ouvir o motivo. Afinal, como seu inimigo eterno e mortal, desconfio muito de suas intenções.
Pensar que ele só tinha escutado o fim da conversa, e não qualquer indício de seu conflito interno em relação a ele, era o único alívio que ela conseguia encontrar.
— Você não está usando seu manto — ela disse quando finalmente encontrou voz. — Vai morrer congelado aqui fora.
— Você gostaria disso? — Ele não estava tremendo, mas estava com os braços cruzados. — Sinto decepcioná-la, mas vou ficar bem. Talvez meu coração negro e frio seja a diferença. — Ele voltou seu olhar gelado para Nic. — E eu que pensei que tínhamos nos aproximado na taverna ontem à noite. Que decepção. — Ele hesitou, franzindo a testa. — Está me ouvindo, Cassian?
— Hum — Nic começou a falar. — Parece que está prestes a receber uma companhia inesperada hoje.
Cleo virou e acompanhou a linha de visão de Nic, boquiaberta.
Vindo direto na direção deles estava a princesa Lucia Damora.

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