29 de setembro de 2018

Capítulo 11

JIN ESTAVA IMÓVEL NO CENTRO DA ARENA, os músculos das costas brilhando de suor enquanto subiam e desciam. Ele deixou o oponente contorná-lo. O homem se atirou em direção a ele, que o agarrou e o arremessou ao chão. Ouvi o som do nariz do desconhecido quebrando antes de as comemorações do público abafarem o resto.
— Tenho que admitir que ele é tão bom em atacar quanto em suportar os golpes. — Parviz, da caravana Joelho de Camelo, coçou o queixo com as articulações dos dedos enquanto observava o oponente de Jin limpar o nariz ensanguentado.
Dei risada, mantendo a voz grave, compatível com o disfarce. Naquela noite, eu era um garoto novamente. Não importava quantos narizes Jin quebrasse, ninguém nos aceitaria como seguranças se eu fosse garota. E precisávamos de uma caravana para atravessar o Mar de Areia sem morrer de sede.
Foi necessário gastar um dia andando e todos os nossos suprimentos para chegar a Massil. O que sobrara do dinheiro gastamos para entrar na cidade. Custava cinco fouzas para cada camelo atravessar as antigas muralhas, e três fouzas para cada pessoa. O custo de uma vida dizia tudo o que era preciso saber sobre um lugar, especialmente na cidade do comércio, onde tudo era tratado como produto.
Ali, a vida humana era o item mais barato. Essas tinham sido as palavras de Jin enquanto atravessávamos um enorme arco de pedra e entrávamos na cidade que já tivera seus dias de glória.
Até eu conhecia a história de Massil. Um djinni sábio e poderoso a governara muito tempo antes, quando era a maior cidade à beira do Pequeno Mar. Até que se apaixonou pela filha de um comerciante e ofereceu a ele toda a cidade em troca dela. A garota já estava prometida a um mercador do outro lado do Pequeno Mar, mas o pai ganancioso queria a cidade. Então construiu uma boneca de cera e magia para enganar o djinni ao mesmo tempo que casava sua filha com o mercador. Quando o djinni descobriu o truque, já tinha dado a cidade ao homem. Djinnis só podiam dizer a verdade, então ele ficou preso à sua promessa. Incapaz de tomar a cidade de volta, ergueu uma tempestade de areia tão grande que o mar foi preenchido por mais e mais areia até que a água foi engolida e não havia nada além de deserto até onde a vista alcançava. E então ele desapareceu, deixando a cidade inútil à beira do deserto para o comerciante ganancioso.
Massil era o último bastião da civilização antes do Mar de Areia.
A multidão rugiu quando Jin esmagou a cara do oponente com um soco, derrubando-o novamente no chão. Pelo visto Massil era tão civilizada quanto qualquer outro lugar que eu conhecia.
— Você devia ver quando Jin está encurralado de verdade — eu disse a Parviz. — Já o vi quebrar a mão de um homem assim. — Estalei os dedos, pensando no som que o pulso de Dahmad fez ao quebrar. Justamente naquele momento o oponente de Jin investiu contra ele. Jin deu um passo para o lado, esticando a perna, e acertou o joelho do homem, fazendo com que caísse de cara na areia.
Parviz tinha o rosto de um mercador, ainda mais impassível do que o de um apostador. Mas parecia impressionado.
— Ele tem que saber lutar se vai precisar cuidar de irmãozinhos esquálidos — alguém disse ali perto. Eu sabia antes de cometer o erro de levantar a cabeça que o comentário era direcionado a mim. Um garoto com os dentes da frente tortos estava tentando me provocar a noite inteira. Imaginei que quisesse que eu partisse para cima dele para que pudesse me espancar e impressionar um líder de caravana sem ter que entrar na arena e lutar com alguém do seu tamanho. Jin talvez conseguisse acertá-lo com força suficiente para endireitar seus dentes, mas eu não estava a fim de machucar o braço.
Parviz virou para mim e me comparou com Jin.
— Ele é seu irmão?
— Por parte de pai. — Nossa farsa era tão frágil quanto um galinheiro velho, mas era o único jeito de termos uma chance de conseguir trabalho e atravessar o deserto sem acabarmos despedaçados por abutres em dois dias. — Podemos trabalhar por metade do que os outros estão pedindo.
Já tínhamos sido rejeitados duas vezes naquela noite, não sei se por causa das feições estrangeiras de Jin ou do meu tamanho. Mas o clã Joelho de Camelo tinha a reputação de ser mão de vaca.
— Trabalho como mercador desde que tinha a altura do joelho de um camelo. — Parviz riu da própria piada. — Sei fazer conta e vejo que vocês dois valem um único homem, só que com uma boca extra para alimentar. Não preciso de peso morto, Alidad. — Ele me chamou pelo nome falso que eu tinha dado. — Apesar de você não pesar quase nada.
Parviz virou para ir embora, e o garoto que tinha me provocado avançou para falar com ele.
— Você tem um bom faro para negócios, meu amigo. E eu posso ganhar de qualquer um desses rapazes facilmente. — Ele fez um gesto amplo com um copo de bebida na mão.
Em um piscar de olhos, minha arma estava na minha mão, pronta para executar um plano improvisado.
Apertei o gatilho.
O copo na mão do garoto se estilhaçou, e a bala afundou na parede atrás dele.
A arena se calou. Ele olhou fixamente para o punhado de vidro, sangue e bebida, com uma expressão vazia. Alguém na multidão caiu na gargalhada, e então o ruído de conversas voltou.
— Seu filho da puta! — O garoto tinha um pedaço de vidro cravado no dedão. — Você atirou em mim!
— Não, atirei no copo. Não se preocupe, a bebida vai lavar o sangue. — Guardei a arma de volta no coldre, torcendo para não levar um tiro em troca. — Como eu estava prestes a dizer antes de ser interrompido, os tempos são outros. Não preciso de muitos músculos para apertar o gatilho.
Parviz analisou o garoto, então me olhou de cima a baixo. Comerciantes sabiam o valor das coisas.
E sabiam quando estavam diante de um bom negócio.
— Partimos do portão oeste ao nascer do sol. Não se atrasem.
Parviz desapareceu, e de repente Jin estava do meu lado, vestindo a camisa.
— Você acabou de atirar em alguém ou foi impressão minha?
— Acabei de conseguir um emprego para a gente, isso sim. — Cocei a nuca e tentei parecer constrangida. Certamente não estava tendo sucesso, a julgar pelo jeito que Jin me olhava. — E só atirei no copo.
Ele passou o braço em torno do meu ombro, se apoiando em mim.
— É por isso que gosto de você, Bandida.
E então veio aquele sorriso. Talvez eu tivesse olhos que me traíam, mas Jin com certeza tinha o tipo de sorriso capaz de converter impérios inteiros. O tipo de sorriso que me fazia sentir que o entendia direitinho, embora não soubesse nada sobre ele. O tipo de sorriso que me fazia sentir que éramos capazes de qualquer coisa juntos.
Eu tinha as próximas seis semanas para descobrir se isso era verdade.

2 comentários:

  1. putyz, putyz, ela ta apaixonada pelo Jin ..... ai que fofo!!

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  2. esse djinni é idiota. ele prometeu a cidade em troca da filha do comerciante, porém o comerciante o entregou uma boneca, o que desvalida o acordo e o permitiria recuperar a cidade sem causar um desastre natural gigante.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!