23 de setembro de 2018

Capítulo 11

MAGNUS
PAELSIA

Quando voltaram ao complexo real pela Estrada Imperial, Magnus e Ashur encontraram tudo deserto.
Amara e metade de seus soldados tinham ido para Kraeshia.
O rei Gaius e alguns outros — incluindo Cleo — foram para o palácio auraniano.
— Acha que podemos confiar no que ele diz? — Ashur perguntou.
— Ah, não sei. — Magnus pressionou a lâmina roubada com mais força contra o pescoço do guarda kraeshiano. O guarda estava patrulhando a área externa dos portões quando Magnus e Ashur o agarraram e o arrastaram para trás de arbustos espinhosos, longe dos outros guardas. — Ele pareceu bem sincero.
Os olhos do guarda se alternavam desesperadamente entre eles.
— Eu não mentiria. Não para o senhor, vossa alteza. Não acredito nas acusações de sua irmã.
Magnus lançou um olhar para o companheiro.
— Acho que ele não está falando comigo.
— Amara me acusou de crimes terríveis contra minha família e contra o próprio império.
— E muitos se recusam a acreditar nela. Sua irmã não merece ascender à imperatriz. O senhor é o imperador legítimo de Kraeshia. Basta ordenar, e troco minha vida pela sua.
— Não — Ashur disse, e uma nuvem atravessou seus olhos azul-acinzentados. — Não quero que mais ninguém se sacrifique por mim. Não quero o cetro real que minha irmã deseja mais do que tudo. Nunca o quis.
— Fale mais sobre a princesa Cleiona — Magnus rosnou para o guarda. — Kurtis Cirillo voltou para cá? Ela está em segurança?
— Só a vi rapidamente quando saiu com a comitiva do rei. Há dias não se tem notícias do lorde Kurtis.
Magnus já sabia o que tinha acontecido durante o ritual. Depois da chocante constatação de que o deus do fogo residia no corpo de Nic Cassian, Ashur o atualizara sobre o que tinha acontecido com Cleo.
Ele precisava encontrá-la. Ver com os próprios olhos se a princesa estava sofrendo com aquela inesperada aflição.
Magnus sempre acreditara que ela era uma deusa, mas nunca pensara que poderia ser no sentido literal.
— Não temos mais nada para fazer aqui — Magnus resmungou, afastando a lâmina do pescoço do guarda. — Vamos embora.
— Vossa alteza? — o guarda arriscou dizer. — Poderia ficar? Poderia nos liderar contra sua irmã?
Ashur não respondeu. Apenas virou as costas e acompanhou Magnus, que saía do complexo.
Ninguém os seguiu.
— Tolo — Magnus murmurou.
Ashur olhou para ele.
— Está falando de mim?
— Você tem muito poder ao alcance das mãos e escolhe ignorá-lo conscientemente.
O príncipe kraeshiano rangeu os dentes por um instante antes de responder.
— Não quero ser imperador.
— Só porque não deseja uma maçã, não quer dizer que precisa derrubar uma carroça cheia delas por despeito. — Por que se dava ao trabalho de comentar? Amara e sua sede de poder não eram tão importantes naquele momento.
Ele só queria chegar ao palácio de Auranos.
Era o máximo de futuro em que conseguia pensar.
Os dois caminharam pela Estrada Imperial durante horas em silêncio. Ela os levaria para Auranos pelas Terras Selvagens, sem o risco de serem vistos nas docas do Porto do Comércio. Para cada guarda que alegasse lealdade ao príncipe Ashur, Magnus sabia que dezenas deles tinham recebido ordens de Amara para matá-lo sem hesitar.
Magnus limpou o resto que sobrara de terra no primeiro córrego de água que encontraram. Como estavam em Paelsia, era um rio escasso e lamacento.
Ele odiava aquele lugar.
Finalmente, Ashur voltou a falar.
— Tem alguma curiosidade de saber o que eu quero?
— Espero que diga que é um par de cavalos — Magnus respondeu. — Ou, melhor ainda, uma carruagem puxada por cavalos.
— Quero encontrar uma bruxa.
Magnus o encarou.
— Uma bruxa.
Ashur assentiu.
— Perguntei por aí se tem alguma por aqui com poder suficiente para nos ajudar. E tem. Os rumores dizem que é uma Vigilante exilada que conservou sua magia. Ela vive isolada, escondendo do mundo a extensão de seus poderes.
— Rumores e penas — Magnus murmurou.
— O quê?
— Ambos costumam ser muito leves. — Ele balançou a cabeça. — É um antigo ditado limeriano.
— Uma paelsiana que conheci quando estávamos em Basilia me contou que há uma taverna em Auranos onde posso encontrar mais informações e descobrir como entrar em contato com Valia. Vamos passar por essa taverna a caminho da cidade.
— Valia — Magnus repetiu. — Você sabe até o nome.
— Vou procurá-la sozinho se for preciso.
— E depois? O que espera se você a encontrar e ela não passar de uma bruxa comum que mal consegue acender uma vela com seus elementia fracos? Acha que ela pode ter mais efeito sobre Kyan do que Lucia?
— Lucia não vai ter efeito nenhum sobre Kyan. Sua irmã é tão útil para ajudar a salvar Nicolo quanto Amara seria.
Magnus parou de andar e virou para Ashur.
— Eu acredito em Lucia. Nunca vou deixar de acreditar que ela vai voltar para nós e fazer o que é certo.
Ashur inclinou a cabeça.
— Você prefere viver em um sonho quando se trata de sua irmã. Lucia mostrou a todos o que quer fazer, e o que ela quer é ajudar Kyan.
Em um instante, a fúria tomou conta de Magnus.
— Você está errado.
Ashur o observou, cheio de frustração nos olhos azul-acinzentados.
— Onde estava sua irmã ontem à noite, quando Kyan estava prestes a incendiá-lo? A transformá-lo em escravo? Ela apareceu magicamente para salvá-lo? Ela não dá mais a mínima para você, Magnus. Talvez nunca tenha dado.
Magnus não planejava acertar Ashur com tanta força.
Mas acertou mesmo assim.
Ashur cobriu o nariz, que jorrava sangue, com uma das mãos e empurrou Magnus com a outra.
— Acho que você quebrou meu nariz, seu basanuug.
— Ótimo. Seu rosto estava muito perfeitinho antes. Vai lhe dar um pouco de personalidade. — Magnus saiu andando. — Imagino que basanuug não quer dizer “bom amigo”.
— É a palavra em kraeshiano para bunda de porco.
Ele assentiu.
— Muito apropriado.
— Nunca mais ouse me bater — Ashur vociferou.
— Não fale mal da minha irmã e não vai ser preciso — ele respondeu. — Lucia vai voltar. Vai nos ajudar. Não vai se aliar a Kyan novamente, não depois que ela souber o que ele fez.
Quando se tratava da irmã, Magnus precisava acreditar naquilo mais do que em qualquer outra coisa.


O progresso pela Estada Imperial estava lento demais e desafiando a paciência de Magnus, mas os dois finalmente entraram em Auranos.
As histórias de Ashur sobre aquela bruxa chamada Valia tinham atraído seu interesse, embora Magnus jamais fosse admitir.
Não muito longe do Templo de Cleiona e do fim da Estrada Imperial, eles encontraram o vilarejo e a taverna que Ashur procurava. Magnus não se importava com o nome, contanto que servisse vinho e boa comida, junto com as respostas que Ashur desejava.
Os dois entraram na taverna movimentada e se sentaram a uma mesa em um canto escuro. Pediram comida e bebida para uma atendente.
Ashur puxou a menina mais para perto.
— Estou procurando uma pessoa — ele disse.
A garota abriu um sorriso sedutor para ele e enrolou uma mecha de cabelo escuro no dedo.
— Então a encontrou.
— Não é exatamente o que quis dizer, querida garota. — Ele sussurrou algo em seu ouvido.
A atendente assentiu.
— Vou ver se ele está aqui, bonitão.
Quando ela se afastou, Magnus encarou Ashur, perplexo.
— O príncipe solteiro mais cobiçado do mundo, que pode ter quem quiser… só tem olhos para Nicolo Cassian.
Ashur encarou Magnus nos olhos sem recuar.
— Você não entenderia.
— Provavelmente, não — ele concordou.
Pouco depois, a garota trouxe frango assado e uma garrafa de vinho das Vinícolas Agallon. Por um instante, Magnus fez uma careta diante da marca gravada antes de tirar a rolha e tomar um bom gole, fechando bem os olhos e permitindo que o líquido doce passasse por sua língua e descesse pela garganta.
— Achei que limerianos não tomassem bebidas inebriantes — Ashur disse.
— E não tomam — Magnus respondeu. — Exceto aqueles que tomam.
Ele observou a taverna com impaciência e desconfiança, esperando que um dos clientes se aproximasse, pronto para brigar ou matar. Mas todos estavam apenas cuidando da própria vida, cheios de comida e bebida.
— É engraçado — Magnus disse com desdém.
— O quê? — Ashur perguntou.
— Os auranianos sobreviveram muito bem, considerando tudo o que aconteceu em Mítica no ano passado. Ainda são hedonistas em todos os sentidos.
— As pessoas têm formas diferentes de lidar com as adversidades. Não significa que estejam felizes.
— A ignorância é uma bênção.
— Então vamos brindar à ignorância. — Ashur levantou o cálice. Depois de um instante, Magnus levantou a garrafa. — E à minha irmã Amara — ele continuou —, que pode apodrecer no que os habitantes de Mítica chamam de terras sombrias, se é que esse lugar de fato existe. Com certeza ela já tem lugar reservado por deixar uma bagunça tão grande para resolvermos.
Magnus assentiu.
— Vou beber a isso.
Um homem atravessou a taverna movimentada e se aproximou da mesa deles. Tinha cabelo branco, rosto enrugado e um sorriso impossivelmente largo.
— Vocês pediram para falar comigo — o homem disse.
— Você é o Bruno? — Ashur perguntou.
Bruno assentiu, abrindo ainda mais o sorriso.
— Não apenas um, mas dois príncipes em minha taverna esta noite! Que maravilha. Queria que meu filho estivesse aqui para ver isso!
— Quieto, seu tolo — Magnus resmungou, passando os olhos pela taverna para checar se alguém tinha escutado.
— Por que eu deveria ficar quieto diante de tamanha honra?
— Por favor, abaixe a voz — Ashur pediu.
— Ah, seu sotaque é tão adorável quanto dizem, vossa graça. Minha deusa, sim! Adorável, simplesmente adorável!
Magnus encostou a lateral da lâmina junto ao punho do homem.
— Eu disse para ficar quieto.
Bruno baixou os olhos, arqueando as sobrancelhas brancas.
— É claro, vossa alteza.
— Ouvi dizer que você poderia ter informações — Ashur disse — sobre como entrar em contato com uma mulher chamada Valia.
— Valia — Bruno disse, assentindo. — Sim, eu a conheço.
— Preciso falar com ela.
— Valia não fala com ninguém. Ela gosta de privacidade.
— Ela é uma Vigilante exilada? Que conservou sua magia? — Magnus perguntou em voz baixa, ainda resistente àquela possibilidade.
A expressão agradável de Bruno se tornou cautelosa.
— Que interesse vocês têm em falar com Valia?
— Preciso saber se a magia dela pode ajudar a salvar um amigo meu — Ashur respondeu.
— Salvar de quê?
— Do deus do fogo.
Bruno torceu as mãos, empalidecendo.
— Não se deve falar dessas lendas em voz alta. Os falcões podem nos ouvir. — Ele espiou pela janela ao lado, para o sol do meio-dia. — Valia detesta os falcões. São seu prato preferido, assados com frutinhas azedas. Acho que é por causa do que aconteceu com sua mão, mas ela jamais admitiria.
Ashur soltou um pequeno resmungo de frustração.
— Como entro em contato com ela? Por você?
— Se está procurando Valia, ela vai saber. — Bruno deu de ombros. — Mas ela também responde a um sacrifício de sangue junto com uma invocação recitada.
Magnus afastou a garrafa de vinho vazia.
— Acho que não temos mais nada para fazer aqui.
— Que tipo de invocação? — Ashur insistiu. — Ela mora neste vilarejo? Pode avisá-la que preciso da ajuda dela?
— Não a vejo há anos. Sinceramente, não tenho ideia de onde Valia está agora. Mas se fizerem o ritual de sangue e a invocação da maneira correta e ela ficar curiosa, vai se apresentar. — Bruno virou para Magnus, retomando o sorriso, especialmente quando Magnus guardou a lâmina. — Eu o vi em sua excursão de casamento. Você e a princesa formam um belo par, um retrato de luz e escuridão, noite e dia. O Príncipe Sanguinário e a bela Princesa Dourada. Um casal impressionante, de verdade. — Ele balançou a cabeça. — É uma lembrança que aprecio até hoje, apesar do desprezo que sinto por seu terrível pai.
— Ashur — Magnus chamou com um suspiro impaciente —, estou indo para o palácio. Você vai comigo ou deseja invocar nomes enquanto sacrifica criaturas na floresta?
— Você não acredita — Ashur disse.
— Se acredito ou não, é irrelevante. Mas preciso encontrar Cleo.
— Ouvi rumores recentes sobre você, príncipe Magnus — Bruno disse. — Estou muito contente em ver que não são verdade.
— Ah? O quê?
— Que está morto. — Bruno inclinou a cabeça. — Você me parece muito bem para um homem morto.
Magnus passou os dedos sobre o anel na mão esquerda.
— Ashur?
Ashur levantou com uma expressão cheia de dúvida.
— Sim, vou com você. Não posso perder tempo correndo atrás de histórias inúteis, e é isso que está me parecendo.
Magnus sentiu a decepção dolorosa na voz do príncipe.
E foi impossível não sentir o mesmo.
Não haveria solução simples para aquele quebra-cabeça, que tinha se tornado um labirinto de gelo gigantesco e complicado onde era possível morrer congelado antes de encontrar a saída.
Mas Magnus ainda acreditava em Lucia.
E acreditava em Cleo.
Tinha que bastar.

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