16 de setembro de 2018

Capítulo 11

JONAS
MAR PRATEADO

Devagar, a luz voltou a seu mundo, e Jonas abriu os olhos. Olivia o encarava com ternura e alívio.
— Fico feliz de ver que finalmente voltou para nós — ela disse.
Ele resmungou e estendeu os braços.
— Fiquei inconsciente por quanto tempo?
— Quatro dias.
Ele arregalou os olhos e sentou com um pulo.
— Quatro dias?
Ela fez uma careta.
— Você não ficou inconsciente o tempo todo, se isso melhora a situação. Acordou algumas vezes, delirante e agitado.
— Não, isso não melhora em nada, na verdade. — Jonas levantou do catre e cambaleou até o espelho. A estranha espiral ainda estava em seu corpo, agora muito mais intricada e com um desenho muito mais detalhado do que o símbolo simples da magia do ar. Ele tinha esperanças de que não tivesse passado de um pesadelo.
— Eu tenho a marca de um Vigilante — ele disse.
— Então você sabe o que é.
— Phaedra tinha uma. — A Vigilante que tinha sacrificado a vida imortal para salvar a dele tinha provado quem (e o que) era ao mostrar sua marca a Jonas. Mas a dela era diferente. Tinha a mesma forma, mas era uma marca dourada que se movimentava em círculos sobre a pele, como se quisesse provar suas origens mágicas. — E sei que você tem uma também.
— Tenho. — Olivia abriu um pouco o manto e mostrou um pequeno pedaço de uma marca dourada sobre a pele escura. Ele havia tido apenas alguns vislumbres da espiral, quando Olivia se transformava em falcão.
Jonas deu as costas para o espelho para encarar os olhos cor de esmeralda da Vigilante.
— Não vou implorar, Olivia. Vou simplesmente pedir para você, por favor, falar mais sobre isso, sobre a profecia que existe sobre mim. Tentei negar que fosse real, mas agora preciso saber. O que está acontecendo comigo? Eu estou… — Ele se esforçou para verbalizar os pensamentos. — Estou me transformando em um de vocês?
A ideia soava tão absurda que Jonas se arrependeu de suas palavras assim que as proferiu. Mas o que mais poderia pensar?
Ela torceu as mãos e, por um instante, Jonas achou que Olivia pudesse tentar escapar, assumir a forma de falcão e sair voando para evitar suas perguntas.
Mas, em vez disso, ela suspirou e sentou na beirada do catre enquanto ele esperava em pé, tenso, perto da escotilha.
— Não exatamente — ela respondeu. — Mas você é, de fato, um mortal raro, Jonas Agallon. Tocado por nossa magia em dois momentos muito vulneráveis de sua vida, ambos quando estava muito perto da morte. Tocado por mim, quando curei seu ombro, e por Phaedra, depois que foi atingido pelo soldado limeriano. Você não sabe como isso é atípico.
Eram dois momentos da vida que ele preferia esquecer.
— Talvez eu não saiba mesmo. Então me conte.
— Eu estava lá quando Phaedra deu a vida pela sua. Observei do alto de outra barraca na forma de falcão.
Ele respirou fundo.
— Estava?
Ela assentiu, séria.
— Observei horrorizada quando Xanthus tirou a vida dela, e a vi retornar para a magia de que todos nós fomos criados. E vi um pouco dessa magia entrar em seu corpo, apenas segundos depois do momento em que você poderia ter morrido sem a intervenção dela.
— Eu… eu não senti nada.
— Não, não era para sentir. Não deveria sentir. E não faria diferença nenhuma se não fosse pela magia do próprio deus do fogo surgindo por perto. Acabou fortalecendo a magia de Phaedra dentro de você. Mas não seria suficiente para isso acontecer. — Olivia apontou para a marca, que ele coçava sem perceber. — Eu usei magia da terra para curar seu ombro quando você estava à beira da morte mais uma vez, e vi que a absorveu como uma esponja. Aquela magia ficou dentro de você, somando-se à de Phaedra, assim como Timotheus previra.
Jonas tentou entender, tentou negar, tentou impedir que seu coração batesse como as asas de um pássaro preso em seu peito. Mas então, de repente, lhe ocorreu que não deveria tentar negar uma notícia tão incrível.
— Tenho elementia dentro de mim — ele disse com uma voz rouca. — Isso significa que posso usá-los para combater Kyan e expulsar Amara de Mítica. — Quanto mais ele considerava essa possibilidade, mais animado ficava. — Preciso subir e contar para os outros. Eles devem estar tão confusos com o que aconteceu, com o que fiz com Felix… Mas isso é incrível, Olivia! Vai fazer toda a diferença.
Ele era um bruxo! Tinha negado a existência dos elementia e daqueles que os detinham durante toda sua vida, e agora tinha essa mesma magia na ponta dos dedos.
Olivia segurou seu braço quando ele foi na direção da porta.
— Não é tão fácil assim, Jonas. Timotheus não previu que você seria um praticante de magia, apenas um veículo para ela.
— Um veículo? Impossível. Você testemunhou o que fiz. Arremessei Felix pelo convés com… magia do ar, não foi?
— É verdade. Mas foi uma anomalia. Foi apenas um sinal de que a magia que existe dentro de você amadureceu. E aquele gasto de energia o deixou inconsciente durante quatro dias.
Jonas balançou a cabeça. A frustração tomou conta dele, acabando com sua empolgação.
— Não entendo.
Olivia afrouxou a mão que segurava seu braço.
— Eu sei, e peço desculpas pela confusão. Timotheus mantém seu conhecimento muito reservado, já que não confia em muitos imortais, nem mesmo em mim. Ele não compartilhou a extensão de sua profecia comigo por medo de que eu contasse para você e você tentasse evitá-la. — Ela fechou a boca. — Já falei demais.
Ele resmungou.
— Você revelou o suficiente para me deixar louco de curiosidade e apreensão.
— Você não pode contar isso a ninguém.
— Não posso? — Ele apontou para a porta. — Todos me viram fazer aquilo no convés. O que devo fazer? Negar?
— Na verdade, sim. — Ela ergueu o queixo. — Expliquei a eles que fui a responsável. Que vi, do alto, Felix acertar você e que estou aqui justamente para protegê-lo. É claro que acreditaram em mim.
Jonas a encarou.
— Eles acreditaram que você interferiu com sua própria magia?
— Sim.
— E não posso falar nada sobre isso?
— Não. Nem uma palavra. — Ela ficou séria. — É perigoso demais. Alguns o perseguiriam se soubessem que é um mortal repleto de magia imortal.
— Magia imortal que não posso usar. — Ele observou o próprio punho, lembrando como havia brilhado no convés.
— Se não acredita em mim, você precisa ver com seus próprios olhos. — Ela apontou para a porta. — Tente abrir essa porta com a magia do ar que canalizou com tanta facilidade com Felix.
Parecia um desafio. Jonas olhou para além de Olivia e franziu a testa, concentrando-se, enquanto levantava a mão na direção da porta. Ele se esforçou tanto para tentar invocar a magia que existia dentro de si que sua mão começou a tremer, seu braço começou a oscilar… mas nada aconteceu.
— Isso não significa nada — ele resmungou. — Só preciso praticar.
— Talvez — Olivia disse com delicadeza. — Só sei o pouco que me contaram.
Decepcionado, Jonas deixou o braço cair.
— Claro, ninguém ia querer que as coisas fossem fáceis para mim. Ser um bruxo, utilizar os elementia à vontade… Ninguém ia querer isso, não é?
— Na verdade, seria incrivelmente útil para você.
Jonas lançou um olhar feio para ela.
— Você não está ajudando.
— Sinto muito. — Olivia fez uma careta. — Os outros estão preocupados com você. Ficarão felizes em saber que finalmente acordou.
Jonas foi até a escotilha e observou a imensidão do mar.
— Quanto falta para chegarmos em Paelsia?
— Estamos quase chegando.
— Dormi quase o caminho todo. — Ele soltou um suspiro trêmulo ao tentar aceitar tudo o que havia aprendido. Negar seria perder um tempo que eles não tinham. — O que eu perdi?
— Não muito, na verdade. Taran continua afiando a espada na expectativa de matar o príncipe Magnus, Felix ainda está sofrendo com enjoos, Ashur passa a maior parte do tempo em seus aposentos meditando, e Nic fica espreitando por aí. Quando o príncipe aparece, ele o observa de uma maneira um tanto curiosa.
— Pedi para o Nic ficar de olho em nosso príncipe residente. É melhor não confiar nos kraeshianos, nem mesmo naquele que diz não ser nosso inimigo.
Jonas suspirou enquanto apertava as amarras da camisa.
— Certo, estamos quase em Paelsia. Ótimo.
— Ótimo? — ela repetiu.
Ele assentiu com firmeza.
— Se existe uma profecia que exige que eu seja um veículo dos elementia, quero saber sobre ela o quanto antes. E isso não vai acontecer enquanto estivermos em alto-mar, vai?
— Não, não vai — ela concordou. — Mas, de verdade, Jonas, não sei nada além disso. Sinto muito.
Ele assentiu.
— Seja o que for, eu aguento. Tenho certeza de que já enfrentei coisa muito pior no passado.
Para isso, Olivia não tinha resposta.
Jonas tentou ao máximo não se preocupar.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!