1 de setembro de 2018

Capítulo 11

MAGNUS
AURANOS

Magnus encontrou Lucia no pátio com uma expressão assustadoramente fria no rosto.
— Ora, mas que surpresa — ela disse. — Você se perdeu?
— Queria falar com você em particular.
— Você voltou há mais de uma semana. É a primeira vez que tenta falar comigo.
Era verdade. Ele a estava evitando. Ambos tinham mudado tanto que uma parede se formara entre eles, invisível, mas forte o suficiente para provocar danos duradouros.
— Bem — ele disse —, sei que andou ocupada com sua nova amiga. Eu não queria interromper, não é?
Magnus não olhou diretamente para ela, preferindo observar as flores de que a irmã cuidava. Algumas rosas — vermelhas, amarelas, cor-de-rosa, brancas — floresciam grandes e viçosas, enquanto outras estavam marrons e ressecadas, como se o toque mortal do inverno tivesse deixado sua marca naquela terra de verão eterno.
Ele não precisou perguntar se Lucia estava praticando os elementia. Os dois lados estavam ali bem à mostra — vida e morte.
— Minha nova amiga? — ela perguntou. — Não sei do que está falando.
Magnus não estava com paciência para joguinhos.
— Não seja evasiva. Sabe que estou falando de Cleo.
Ela deu de ombros.
— Está incomodado por eu ter descoberto que a garota com quem você foi obrigado a se casar não é uma fera terrível com garras e dentes afiados?
— Garras e dentes podem ser escondidos com facilidade. — Magnus finalmente olhou para a irmã. — Estranho, sempre achei que você fosse mais esperta.
Um sorriso tocou os lábios de Lucia.
— Depende do dia.
Ela estava achando graça. Magnus não estava tentando entretê-la.
— Então agora você é apenas um bom irmão cuidando da irmã mais nova e ingênua que pode estar sendo enganada por alguém que lhe quer mal? — ela perguntou. — É nisso que acredita? É por isso que está aqui? Para me alertar?
— Fiquei preocupado.
— Preocupado. — Ela repetiu como se a palavra tivesse um gosto podre. — Acredite, estou bem ciente de que Cleo deve ter muitos ressentimentos em relação a mim. Embora seja difícil que se ressinta mais de alguém do que de você.
Palavras como essas podiam fazê-lo recuar se já não soubesse da verdade contida nelas.
— Esta conversa não está sendo tão cordial quanto eu esperava. Por que está tão hostil hoje, Lucia?
A expressão dela era de um leve desconforto, mas Magnus não sabia ao certo se era só por causa dele.
— Você me evitou durante dias, como se eu tivesse alguma doença, e acha que eu estou sendo hostil?
— Peço desculpas, minha irmã — ele sussurrou a última palavra. — Mas tive a impressão de que queria me fazer esquecer… como foi mesmo que disse? Meus pensamentos indevidos?
Ela ficou tensa.
— Não era para você ter escutado aquilo.
O dia de seu casamento trazia mais lembranças ruins do que um ataque rebelde, um terremoto e adagas nupciais juntos. A data também confirmara a constante repulsa de Lucia por seus sentimentos nada fraternais.
Magnus tentou manter a calma. Seu confronto com Cleo o perturbara mais do que gostaria de admitir.
A rosa que Lucia segurava tinha ficado marrom e quebradiça em segundos. Era magia da terra? Ou o calor lento e seco do fogo, roubando a beleza da flor com tanta rapidez?
Talvez ele não fosse o único tentando se manter calmo.
Apenas um ano antes, Lucia correra até Magnus com os braços cheios de livros de história. Em geral, esse material de leitura com temática fantástica ou para o lazer não era permitido na biblioteca limeriana, que deveria conter apenas textos educativos, históricos e ensaios.
Os dois tinham passado a tarde debruçados sobre os livros e descoberto uma história sobre uma passagem mágica secreta, ao norte de Limeros, que permitia acesso a outros mundos, mas apenas se o viajante estivesse preparado para a possibilidade de nunca mais voltar.
“Você gostaria de atravessar a passagem?”, ela havia perguntado.
“Não sei.” Ele havia pensado com cuidado antes de responder. “Ir para um lugar longe daqui, onde tudo é novo e cheio de possibilidades. Até poderia ir. Contanto que você fosse comigo.”
“Eu nunca deixaria meu lar”, ela havia respondido com uma gargalhada. “Que ideia boba!”
Lucia não tinha percebido, mas aquelas palavras o feriram profundamente. Quando o dia terminou, ele pegou os livros, arrancou as páginas que continham a história sobre a passagem e queimou uma por uma, observando o pergaminho se enrolar e escurecer diante de seus olhos.
Rasgadas, queimadas e esquecidas — era o que deveria ser feito com fantasias inúteis desde sempre.
— Só queria dizer para… tomar cuidado com Cleo — Magnus disse. — Ela é muito falsa.
— Não somos todos quando precisamos ser? — Lucia comentou com um leve sorriso. — Se não tiver mais nada a dizer, Magnus, tenho outras coisas para fazer.
Uma voz chamou sua atenção antes que pudesse responder. Não que ele soubesse o que dizer.
— Vossa alteza — disse Cronus. — O rei solicita sua presença.
Estava claro que Lucia não tinha mais interesse em sua orientação — nem em sua companhia. Só desejava que ele a deixasse em paz.
Muito bem. Desejo concedido.
— Tenha um bom dia, Lucia. — Magnus deu meia-volta e acompanhou Cronus de volta ao palácio. No caminho, passou por Cleo, que seguia para o jardim.
— Minha irmã está esperando por você — Magnus disse.
— Fico feliz em saber — ela respondeu.
Parecia tão tranquila e despreocupada; era como se a discussão anterior não tivesse acontecido. Será que tinha tanta certeza de que ele não contaria ao pai tudo o que dissera? Tudo o que tinha ouvido?
— Tome cuidado, princesa.
— Sempre tomo.
— Sempre? Ou a partir de hoje?
Ela lançou um olhar tão feroz por sobre o ombro que quase o fez rir.
Magnus saiu do jardim ensolarado. Quando seus olhos se ajustaram ao interior mais escuro do palácio, notou que Cronus o observava atentamente, com certeza se perguntando por que Magnus havia deixado Cleo ir sem nada além de um alerta.
— Seu comentário é desnecessário — resmungou.
— Não ousaria dizer nada, alteza — Cronus respondeu.
— O que meu pai quer comigo hoje?
— O rei solicita sua presença enquanto interroga o rebelde.
Magnus não sabia que tipo de ajuda poderia oferecer, mas não se opôs. Faria o que o pai mandasse, ainda que estar na mesma sala que ele fizesse seu sangue ferver.
Voltou a pensar em Cleo. Mesmo sem ter admitido nada, ficou imaginando o que sua esposa diria se ele contasse toda a verdade sobre Aron, sobre sua mãe, sobre o rei.
Ela revelaria a alguém suas suspeitas de que Magnus havia matado Aron? E faria alguma diferença se o fizesse? Ela não tinha nenhum aliado entre aquelas paredes, à exceção do inútil e irrelevante Nic.
E, é claro, sua nova melhor amiga Lucia.
Antes que pudesse pensar com cuidado em tudo isso, os dois chegaram a seu destino — um lugar que o surpreendeu.
— Ele está interrogando o rebelde na sala do trono? — Magnus perguntou.
— Sim, vossa alteza.
Extravagante. Talvez o rei não quisesse sujar suas finas roupas ou encher as botas de terra descendo até o calabouço. Vários guardas estavam parados em frente às portas, e outros quatro aguardavam do lado de dentro. Gregor, o rebelde que havia atacado Magnus em Limeros, estava ajoelhado na base dos degraus que levavam ao grande trono dourado, onde o rei estava sentado com toda tranquilidade.
— Finalmente — o rei disse ao filho. Então se dirigiu aos guardas: — Estamos esperando mais uma pessoa. Enquanto isso, podem sair. Cronus, você fica.
Cronus fez uma reverência. Os outros guardas se viraram e saíram da sala, fechando as portas grandes e pesadas.
— Quem estamos esperando? — Magnus perguntou.
— Alguém essencial que sinto que estava faltando até agora. — O rei fixou o olhar em Gregor. — Acredito que vocês dois se conheçam.
Gregor não levantou os olhos, e Magnus o observou com desdém. Aquele rapaz o fizera sangrar. E o teria matado se Magnus não estivesse tão alerta.
Magnus caminhou devagar desenhando um círculo ao redor de Gregor, que estava muito mais magro do que um mês antes. Seus cabelos escuros estavam emaranhados e sujos; a mão esquerda estava envolta em trapos sujos com uma crosta de sangue ressecado. O rosto mostrava sinais de hematomas. O lábio estava cortado.
E ele tinha um cheiro rançoso.
— Gregor tem as respostas de que preciso. — O tom de voz do rei estava surpreendentemente calmo, quase amigável. — E vai nos contar tudo.
— Eu já disse tudo o que sei — Gregor disse, por fim, com a voz áspera.
— Quero que fale mais sobre Phaedra, a vigilante que visitou seus sonhos.
O nome pegou Magnus de surpresa.
— Phaedra — repetiu em voz alta. — O nome dela é Phaedra?
— Talvez — Gregor respondeu, dando de ombros.
Magnus se virou e agarrou o garoto pela garganta.
— A resposta adequada é sim ou não, escória rebelde.
— Sim — Gregor sussurrou. Magnus o soltou. — O nome dela é Phaedra.
Era o nome da vigilante que Magnus tinha visto, aquela que salvara a vida de Jonas antes de Xanthus eliminá-la.
Não podia ser coincidência.
— Você não tem sonhado com ela nos últimos tempos, tem? — Magnus perguntou.
— Não.
— Acho difícil acreditar nisso — disse o rei. — Gregor, conte o que Phaedra disse sobre a Tétrade. Quero saber se ela deu instruções de como encontrá-la.
O rosto de Gregor se contraiu.
— Não sei nada sobre a Tétrade.
O rei abriu um sorriso sarcástico.
— Sabe, também fui contatado por uma vigilante. Mas não foi essa Phaedra; nunca ouvi falar dela. Talvez camponeses simplórios sonhem com vigilantes simplórios. Ainda assim, ela escolheu você… Isso me faz pensar.
O rei gostava do som da própria voz. Magnus desejava muito que ele agilizasse as coisas. Precisava de respostas, e discursos prolixos não ajudavam em nada.
— O que eu sei — o rei continuou — é que a Tétrade existe. E, depois de muitos anos, poderá finalmente ser encontrada. Só preciso saber como.
— Talvez seja melhor perguntar à sua própria vigilante, porque não posso ajudar — Gregor disse com um desdém evidente.
Magnus olhou para o rei e viu um sorriso frio curvar seus lábios.
— Então você não sabe — o rei disse.
— Não. E quer saber? — Com uma simples elevação do queixo, Magnus percebeu que Gregor havia tomado a decisão fatídica de escolher a resistência em vez da obediência. — Mesmo se soubesse, não diria nem em um milhão de anos.
O rei meneou a cabeça, sem alterar a expressão de neutralidade.
— Foi o que imaginei.
Nesse momento, as portas da sala do trono se abriram.
— Ah! — o rei exclamou. — Muito bem. Isso deve ajudar.
Magnus viu o rosto de Gregor ficar pálido quando uma garota entrou, com um guarda de cada lado e as mãos amarradas nas costas. Ela tinha cabelos longos e cacheados e olhos castanho-claros. Vestia uma túnica suja de lona sobre calças marrons — trajes de rapaz.
Parecia pronta para matar.
— Acredito que essa menina seja sua irmã — o rei disse. — Não é?
Gregor não tirou os olhos da garota nem por um segundo.
— Soltem ela.
— Não tão rápido. Eis o que vamos fazer. Você vai me dizer o que preciso saber. Vamos discutir a questão de homem para homem, sem necessidade de violência. Depois disso, você e sua irmã… Lysandra, certo? Você e Lysandra serão preparados para execução pública. Com exceção de terem que suportar a presença da multidão, a morte de vocês será rápida e quase indolor. No entanto, se você se recusar a contar o que preciso saber, sua irmã será torturada até a morte diante de uma audiência muito menor, que incluirá você. Preciso entrar em detalhes sobre o que será feito com ela?
A calma com que o rei dava as notícias fez um arrepio percorrer o corpo de Magnus.
Ele não estava blefando.
Por que a ameaça de tortura fazia o estômago de Magnus revirar? Odiava o pai, mas era um Damora. Tal ameaça não deveria deixá-lo nauseado; deveria lhe dar energia.
Lysandra tinha ficado quieta, parado de se debater, mas o ódio ainda ardia em seus olhos.
— Não diga nada, Gregor. Ele vai nos matar de qualquer jeito.
Gregor agora tremia.
— Lysandra, me perdoe — Gregor disse, fazendo o rei abrir um leve sorriso. O rosto de Lysandra logo foi tomado pela preocupação, sem dúvida por medo do que o irmão diria em seguida. — Morte é uma coisa. Mas tortura… não. Não posso deixar isso acontecer a você. — Ele se virou para o rei; seu rosto era uma máscara de ódio quando começou a falar: — Phaedra me disse que a Tétrade estava pronta para ser despertada. Foi essa a palavra que usou. Interprete como quiser. Mas ela me alertou que os cristais não deveriam ser encontrados, mesmo que isso significasse o desaparecimento tanto do mundo dela quanto do nosso.
— Bobagem. Como pode ser? — o rei provocou.
— Porque mortais não podem controlar um poder desses — Gregor disse rispidamente. — E qualquer um que acredite ser capaz de controlá-lo é um idiota.
Esse garoto tem coragem, Magnus pensou, um tanto quanto impressionado.
— O que mais? — resmungou o rei Gaius, ignorando o insulto de Gregor.
— Ela acredita que, quando a Tétrade finalmente despertar, o mundo queimará.
— Queimará? — o rei repetiu. — O que ela quis dizer com isso? Com certeza não significa que o mundo vai, literalmente, queimar?
— Não sei. Estava certo de que ela voltaria para me contar mais, para me dizer como ajudá-la, mas já se passaram semanas desde o último sonho. Juro pela alma de meus pais que estou dizendo a verdade. Não dou a mínima para a Tétrade. Por mim, pode ficar com ela!
O rei juntou a ponta dos dedos e analisou Gregor.
— O que sabe sobre um jovem em Paelsia capaz de canalizar o poder do fogo?
As costas de Magnus enrijeceram. Ashur tinha compartilhado esse rumor com ele, mas era a primeira vez que ouvia seu pai mencioná-lo.
— Nunca ouvi falar desse homem — Gregor disse, balançando a cabeça.
— Não importa, imagino. — O rei se inclinou para a frente. — Como encontro a Tétrade, Gregor?
De repente Magnus sentiu um alívio. Se o rei ignorou uma ideia tão fantástica com tanta facilidade, provavelmente não achava que fosse verdade.
— Você tem certeza de que sei, mas está enganado. — O tom áspero de Gregor se tornou melancólico. — Estou certo de que Phaedra pretende entrar em contato comigo de novo; ela não me abandonaria assim. Era boa e gentil, e queria o melhor para o mundo… mas tinha inimigos. Temia algo… ou… ou alguém.
— Talvez ela esteja morta — Magnus murmurou.
— Sim — o rei Gaius concordou. — Talvez essa sua vigilante esteja morta e, sendo assim, não terá utilidade para ninguém, não é?
— Mas vigilantes são imortais. — Gregor alternou o olhar de maneira incerta entre pai e filho. Seu peito oscilava com a respiração pesada. Então pareceu recobrar a coragem. — Vossa majestade precisa de mim. Eu tive contato direto com uma vigilante que me escolheu em vez de qualquer outro mortal. Sou seu representante neste mundo. Isso me torna especial, valioso. Prometo trabalhar para vossa majestade. Só peço que poupe minha vida e a de minha irmã.
— Gregor, não! — Lysandra gritou com horror e repulsa na voz.
— Fique quieta, Lys — ele resmungou. — Você quer morrer?
— Prefiro morrer rebelde do que me ajoelhar diante desse saco de merda real.
Um guarda deu um tapa tão forte no rosto de Lysandra que ela soltou um grito.
Gregor se levantou, mas Cronus o forçou a se abaixar de novo.
— Perdoe minha irmã — ele conseguiu dizer. — Ela sempre foi irascível, mas eu não. Eu enxergo uma oportunidade quando ela se apresenta. Vossa majestade precisa de mim. Quando Phaedra voltar a entrar em contato, contarei tudo sem hesitar. Não estou mentindo!
— Não, você não está mentindo. — O rei recostou no trono com as mãos apoiadas nos braços dourados. — Você faria isso, posso ver. Você ama sua irmã. Esse tipo de lealdade é muito importante para mim. Família é a coisa mais preciosa do mundo. É a única maneira que nós, mortais, temos de garantir nossa imortalidade. Respeito o amor que tem por sua família.
Gregor soltou um longo suspiro trêmulo.
— Que bom.
Meu pai pode realmente ter complacência com esse rapaz, Magnus pensou. Apesar da resistência inicial, Gregor estava pronto para virar as costas para suas inclinações rebeldes e se aliar ao rei Gaius para salvar a vida de sua irmã.
O rei observou Gregor em silêncio.
— O problema é que acho que sua vigilante encerrou a conversa com você ou está morta. E ela não revelou quase nada, para começo de conversa. Parece inútil para mim, diferente de Melenia, que fez grandes promessas que sei que cumprirá. E, para mim, isso torna você tão inútil quanto ela.
— Não, vossa majestade. Não é verdade!
Lysandra tentou se libertar do guarda que a segurava, olhando para todos os lados como se procurasse um meio de escapar.
O rei Gaius não fez nada além de lançar um olhar em sua direção.
— Fico muito agradecido, Gregor, por ter me ensinado uma lição muito importante hoje — ele disse. — Às vezes, me deixo levar pela impaciência e pela raiva. Mas esperei a vida toda pela Tétrade e posso continuar esperando até chegar a hora certa. Afinal, já tenho a chave para desvendar o mistério. Só preciso descobrir a maneira certa de usá-la.
O pânico despontou nos olhos de Gregor.
— Eu posso ajudar. Posso ser inestimável!
O rei sorriu, mostrando os dentes brancos e perfeitos.
— Não se preocupe. Você provou que não estava mentindo. É uma coisa boa. Significa que pode continuar com sua língua. E sua irmã vai escapar de qualquer sofrimento público. Não sou um monstro capaz de torturar uma jovem apenas para o próprio entretenimento.
— Então ainda seremos executados juntos? — Gregor perguntou, com a voz entorpecida pela derrota.
— Não exatamente. — O rei olhou para Lysandra. — Limpem-na e a deixem bonita, ou o mais próximo disso que uma paelsiana consegue ficar. Ainda não fui capaz de apresentar uma rebelde do sexo feminino ao povo como exemplo de que não abro exceções ao punir aqueles que se opõem a mim.
— E meu irmão? — Lysandra perguntou. Um filete de sangue escorria pelo canto de sua boca, onde recebera o golpe.
— Não se preocupe. Seu irmão estará presente para ver você morrer — o rei disse. — Cronus, me traga a cabeça do rapaz. Vou garantir que seja colocada na ponta de uma estaca com a melhor visão da praça do palácio.
Um grito agudo e cheio de dor escapou da garganta de Lysandra.
— Não!
Cronus não hesitou. Desembainhou a espada enquanto dois guardas seguravam Gregor pelos braços.
Palavras de protesto morreram na garganta de Magnus. Isso só podia acabar de uma forma; Magnus sabia que sua opinião não valeria de nada depois que o rei tomara sua decisão. Manifestar-se só pioraria as coisas.
Lysandra gritou, e Magnus se virou para a garota, que lutava e se debatia para se libertar dos guardas.
Mas nada podia impedir aquilo.
— Sinto muito por ter falhado com você. Lute, pequena Lys. Lute até o fim! — Então a espada desceu em um único golpe pesado e certeiro.
Os gritos horrorizados de Lysandra tiveram um impacto profundo no peito de Magnus, e ele soube que os ecos o assombrariam daquele momento em diante. Não restavam mais forças em Lysandra depois daquilo. Os guardas a arrastaram sem esforço da sala do trono de volta para o calabouço.
O corpo de Gregor também foi removido, e a cabeça colocada em uma bandeja de prata.
— Muito bem, Cronus. — O rei meneou a cabeça e acenou com a mão. — Agora tire isso daqui.
— Sim, majestade. — A expressão de Cronus era fria e sem emoção, como sempre ficava depois de execuções. Era o rosto de um homem de pedra, e não de carne e osso.
Cronus deixou pai e filho a sós, apenas uma mancha de sangue onde Gregor estava ajoelhado como evidência do que havia acontecido apenas alguns minutos antes.
Magnus estava em silêncio. Sua mente tinha escurecido, sem pensamentos, apenas uma nuvem negra e densa.
— Tinha que ser feito — o rei disse.
— Tinha mesmo? — A resposta saiu mais afiada do que o pretendido. — A execução privada de um rebelde considerado útil? Não, não acho que era algo que tinha que ser feito.
O rei lançou a Magnus um olhar de surpresa.
— Você fez isso porque queria saborear a expressão no rosto daquela menina ao matar o irmão bem na frente dela. — Magnus prosseguiu. — Você gostou. Queria abalar a coragem que enxergou nela para que aceitasse o próprio destino sem lutar. Para que seu espírito exaltado, que resiste apesar de ela ter sido trancafiada no calabouço, não perturbe a plateia no momento da execução, que sei que estará cheia de seus seguidores mais fiéis. Bem, deixe-me ser o primeiro a parabenizá-lo, pai, você conseguiu.
O rei estreitou os olhos.
— O que há de errado com você, rapaz? Por que sempre tem que se opor a tudo o que faço?
Magnus sentiu dificuldade de respirar, pois todos os fragmentos de frustração, dúvida e raiva em relação ao pai, sentimentos que havia tentado tanto reprimir, vieram à tona.
— Porque nem tudo o que você faz é certo!
— Só faço o necessário para manter meu poder durante esse período de transição, para que um dia você não precise lutar tanto. É um momento perigoso para nós, filho. Não há espaço para discórdia.
— Foi por isso que mandou aquele merdinha do Aron Lagaris matar minha mãe? Para diminuir minha resistência?
As palavras saíram antes que pudesse contê-las, e renderam um olhar satisfatório de choque por parte do rei. Por que parar agora?
— Engraçado, pensei que soubesse de tudo o que acontecia em seu reino, graças a todos os seus espiões e informantes — Magnus continuou. — Mas não sabia dessa parte. E não sabia que Aron confessou para mim. Confessou que você o obrigou a cravar uma faca em minha mãe na calada da noite, acabando com a vida dela para que você pudesse culpar Jonas Agallon.
A expressão de choque do rei voltou ao estado neutro.
— Foi você quem matou Aron.
Seu segredo havia sido revelado. Agora ele não tinha nada a perder.
— Eu pretendia trazê-lo de volta para responder pelo crime aqui, mas ele tentou me matar. Obviamente, fracassou. Ver a vida se esvair daqueles olhos não foi tão gratificante quanto eu esperava. Mas ele não era o verdadeiro criminoso. Era apenas a arma. Você matou minha mãe e…
— E agora imagino que me queira morto também. — O rei o interrompeu e se levantou do trono, descendo os degraus para ficar frente a frente com Magnus. — É claro que quer. Aqui está. — Ele colocou uma adaga de prata na mão do filho. — Vou dar a você essa única chance de acabar com a minha vida, se é isso que deseja de verdade. Aqui e agora. Vamos!
A mão de Magnus tremia.
— É um truque.
O rei manteve o olhar fixo no filho.
— Althea estava conspirando contra mim. Ela se opunha à minha jornada em busca da Tétrade; sempre se opôs. Ela me odiava e queria me afastar de qualquer poder que pudesse fortalecer meu reinado. Queria Lucia morta e acredito que pretendia matar você também, para evitar que eu tivesse um herdeiro de fato. Ela tinha que morrer, Magnus.
Todos os ossos de Magnus tremeram. O cabo da adaga era como gelo em sua pele.
— Não era sua única opção.
— Era, sim. Sei que algumas de minhas decisões foram duras, mas todas foram necessárias.
Lucia havia dito a Magnus que a mãe deles a queria morta porque temia sua magia, que lhe dera uma poção que a manteve dormindo por muito tempo… mas Magnus não achava que fosse motivo suficiente para assassiná-la. Castigá-la, sim. Bani-la, talvez. Mas a morte? Não fazia sentido para ele, e nunca faria.
— Mas minha mãe… — ele tentou dizer.
— Althea não era sua verdadeira mãe.
A afirmação brusca atingiu Magnus como um soco no estômago.
— O quê?
O rei olhou para ele com firmeza.
— Ela perdeu o bebê que acreditava ser você e ficou louca com o sofrimento. Logo depois disso, nasceu outra criança com minha semente, e entreguei aquela criança, você, a ela. Você a trouxe de volta do limite da insanidade. Ela acreditou ser sua mãe até o último suspiro, mas vocês nunca compartilharam o mesmo sangue.
Magnus o encarou com a mente em um turbilhão.
— É mentira.
— Sua mãe verdadeira era Sabina.
Ele sentiu outro soco no estômago e se afastou do rei cambaleando, horrorizado. Sabina, a amante de seu pai, uma bruxa cruel, ávida por poder. Agora morta, assassinada pela magia de Lucia.
— Outra mentira! Sabina tentou me matar. Ela tentou me matar depois de tentar me seduzir.
O rei franziu o cenho.
— Era uma mulher complicada, tenho que admitir. Suas paixões às vezes iam além do que até mesmo eu era capaz de entender. Mas isso não muda a verdade. Você é meu filho único com Sabina. Ela escondeu a gravidez de todos. Somente eu e a parteira que trouxe você ao mundo sabemos o que aconteceu de fato.
— Não. — A bile subiu pela garganta de Magnus. O mundo tinha saído do eixo; o solo agora parecia instável sob seus pés.
O rei segurou os ombros do filho com tanta força que ele recuou.
— Você tem o sangue de uma bruxa e de um rei nas veias. Toda bruxa tem laços ancestrais com os vigilantes. Você tem isso. É por isso que sempre vi algo especial em você, algo superior.
Magnus não podia aceitar isso. Durante toda a vida, viu Sabina como amante e conselheira do pai, mas, para ele, ela nunca tinha passado de mais uma presença irrelevante que era obrigado a tolerar. Não havia sofrido nem um segundo por sua morte. Ele a odiava.
Ela nunca seria sua mãe.
O estômago de Magnus estava se revirando, seu coração era um peso escuro e pesado no peito.
Ele queria beber. Permitir que aquela névoa agradável se espalhasse por sua mente até apagar todos os pensamentos.
— Por que não me contou isso antes?
Uma sombra de devaneio tomou conta do rosto do rei, fazendo-o parecer mais velho.
— Devia ter contado. Sinto muito por não ter feito isso. Mas agora você sabe que Althea não tinha nenhum direito de verdade sobre você. Está livre de qualquer laço de lealdade em relação a ela. Althea era uma mulher cruel e sem coração. Sempre foi.
Não era, não, Magnus pensou. Nem sempre.
— Vi tantas vezes você ser privado do amor de uma mãe que não demonstrava carinho. A mente dela era defeituosa, a sanidade estava abalada, principalmente nos últimos dezoito anos. Tudo isso a levou a cometer os erros que selaram seu destino. Ela estava no meu caminho. No seu caminho. Você precisa aceitar essas verdades se tivermos alguma chance de seguir em frente. Você é meu filho. Meu herdeiro. Somos um.
Ser como o rei — forte, brutal, dominador, implacável na busca de seus objetivos. Era tudo o que Magnus sempre quisera.
E Sabina era igual em muitos aspectos.
— Tudo o que faço é por você, Magnus. Tudo. Por favor, me perdoe por ter ocultado essa verdade e por qualquer coisa que eu tenha feito no passado que o magoou. Meu único objetivo é tornar você mais forte. Eu amo você, meu filho.
O rei puxou Magnus e o abraçou forte. Magnus ficou parado como uma estátua, imóvel e em silêncio, com a mente atordoada.
Ele soltou a adaga e a deixou cair no chão.
O pai nunca o havia abraçado assim antes.
E, apenas por um instante antes de se afastar e sair da sala do trono, Magnus aceitou o abraço.

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