3 de setembro de 2018

Capítulo 10

FELIX
KRAESHIA

Felix se debruçou na lateral do navio, fazendo o possível para não cair nas águas agitadas. Olhou para cima e viu pássaros voando em círculos. Entre eles, havia um falcão dourado. Talvez um Vigilante estivesse supervisionando seu sofrimento. Ele sentiu um tapa nas costas e virou para o agressor com um olhar hostil.
Era Milo Iagaris, ex-guarda do palácio que tinha sido acusado de auxiliar os rebeldes, crime pelo qual foi mandado para o calabouço auraniano, onde permaneceu até pouco tempo atrás. Ao ser solto, Milo não ficou sabendo que a culpa era de Felix, por roubar seu uniforme.
Seria melhor que Milo nunca ficasse sabendo daquele pequeno detalhe. Felix achava que ele não seria tão complacente quanto o rei.
Ele tinha sido designado parceiro de Felix na segurança do rei durante a viagem. Felix precisava admitir que Milo, um amontoado de músculos, realmente tinha o físico adequado para o trabalho. Além disso, pelas conversas que tinham tido durante aqueles dias no mar, Milo parecia mais do que preparado para infligir dor sem nenhum remorso sempre que necessário. E mesmo quando não fosse.
— Ainda mareado? — Milo perguntou.
— O que você acha?
Milo riu.
— Vou considerar como um “sim”. Não acredito que nunca esteve no mar antes.
— Pode acreditar. Agora vá embora e me deixe morrer.
— Não se preocupe, não falta muito para chegar. Dá para ver a terra daqui.
Felix conseguiu levantar os olhos vermelhos para ver que, bem ao longe, depois de vários quilômetros de mar aberto e agitado...
Seu estômago se revirava e reclamava.
... havia uma margem de terra.
— Graças às deusas — Felix gemeu. — Acho que posso ficar em Kraeshia para sempre.
— Imagino que logo saberemos exatamente por que o rei decidiu vir para cá — Milo disse.
— Não acha que foi só pela areia e pelo sol?
Os dois trocaram um olhar jocoso ao pensar no Rei Sanguinário se preocupando com algo tão mundano. Mas Felix estava incomodado por não ter ideia do motivo pelo qual o rei desejava adentrar a capital de um império que tinha derrubado mais de um terço dos reinos conhecidos do mundo.
Finalmente, o navio chegou a um porto e atracou. Felix acompanhou o rei de perto pela prancha de desembarque, se controlando para não ceder à vontade de se jogar sobre o cais de madeira e beijá-lo.
Lá estava ele, o Império Kraeshiano. Ou, para ser mais exato, a capital de Kraeshia, conhecida como Joia do Império, uma cidade construída no meio das maravilhas naturais e exóticas que formavam esta grande ilha, mais ou menos do mesmo tamanho de Auranos. Felix tinha escutado histórias sobre a beleza de Kraeshia, mas, depois de passar quase a vida toda na fria e austera Limeros, nenhuma descrição poderia tê-lo preparado para ver tudo isso com os próprios olhos.
As árvores altas estavam repletas de folhas verdes espessas e brilhosas, cada uma do tamanho de um homem, e a areia cintilava como joias ao longo da costa. Ao longe, junto à praia, Felix tinha certeza de que tinha visto um grupo de mulheres tomando banho de sol, nuas como lagartos do gelo.
O rei tinha decidido que, durante a viagem, Milo e Felix não usariam o uniforme oficial da guarda limeriana, o que os teria feito se destacar como duas ervas daninhas em um jardim de belas flores. Então vestiam roupas impecáveis semelhantes às dos lordes: calça de couro, túnica de linho branca e o melhor manto sobre o qual Felix já havia posto os olhos, feito de lã de carneiro — e talvez tão leve quanto o ar.
Agora que estava em terra firme, Felix descobriu que se sentia mais parte do Clã da Naja do que nunca, preparado e ávido para proteger o rei em território desconhecido.
O Rei Sanguinário. Aquele que faz mal aos inocentes, escraviza os pobres, tortura os fracos.
Seu rosto teve um espasmo.
Saia de minha cabeça, Jonas, Felix pensou.
Ele viu uma figura esperando no fim das docas, e de repente seus passos vacilaram. Ele endireitou os ombros e levantou a cabeça ao se aproximar de uma beldade de cabelo escuro.
Felix não acreditava em amor à primeira vista — mas e quanto a desejo à primeira vista? Era um conceito incrivelmente real, recém-comprovado pela bela criatura diante dele.
— Ora, será que ouso acreditar em meus olhos? — perguntou o rei Gaius, parando diante da linda garota. — Princesa Amara Cortas veio me receber oficialmente? Admito que estou surpreso em vê-la.
Princesa Amara.
Felix tinha ouvido que a filha e o filho do imperador Cortas tinham estado recentemente em Auranos, como convidados do rei, mas nunca tinha visto a princesa pessoalmente. Ela tinha uma beleza exótica como sua terra, com cabelo longo e preto como azeviche caindo em ondas soltas pelas costas. Os lábios eram vermelhos como rubis, e os olhos, da cor da prata tocada por uma gota de azul. A pele impecável era de um tom mais escuro, bronzeado. Usava um vestido verde-azulado sem manga, para mostrar os belos braços, e com uma longa fenda que ia até o meio da coxa. O abdome firme estava coberto apenas por uma camada de tecido transparente que se movimentava com suavidade com o sopro da brisa quente.
Ela tinha perfume de jasmim, apenas um toque, mas combinado com o doce aroma do clima tropical, Felix achou tão inebriante quanto um gole de vinho paelsiano.
— Rei Gaius, que prazer vê-lo aqui. — Ela ignorou a demonstração sarcástica de surpresa meneando rapidamente a cabeça e estendendo a mão. — Bem-vindo a Kraeshia.
— Está ainda mais bela do que da última vez em que nos encontramos. — Ele pegou sua mão e roçou os lábios sobre ela. — Como é possível? Só se passaram algumas semanas.
O sorriso dela diminuiu.
— Sinto-me honrada com palavras tão gentis.
— O imperador também está aqui?
— Não. Ele está no palácio. Meu irmão mais velho, o príncipe Dastan, voltou esta manhã do reino de Castoria, nossa mais nova aquisição.
— Uma grande vitória para ele. — O rei franziu a testa. — Espero que ele possa dispor de um tempo para se reunir comigo hoje. Viemos de muito longe.
A princesa Amara assentiu.
— É claro, sem dúvida ele está ansioso para recebê-lo. Meu pai está honrado por sua visita, e estou igualmente honrada em acompanhá-lo até a residência real. Assim que chegar à Lança de Esmeralda, poderá comer, descansar e se recuperar da viagem. Considera aceitável?
O rei abriu um sorriso tênue.
— É claro. Muito obrigado, princesa.
Ela sorriu e olhou para Felix e Milo. Felix fixou um meio sorriso no rosto, esperando ser tão charmoso quanto consideravam as garotas de Mítica.
Sim, princesa, ele pensou. Você poderia me fazer esquecer Lysandra.
— Princesa — disse o rei. — Permita-me apresentar dois de meus conselheiros de maior confiança, Milo Iagaris e Felix Graebas.
Felix e Milo se curvaram diante dela.
— Muito prazer — ela disse, fazendo uma pequena mesura. — Considerando a aparência deles, vossa graça, acho que posso dizer que, em Mítica, “conselheiro” é sinônimo de “guarda pessoal”?
O rei riu.
— Você é muito perspicaz. Como pude esquecer dessa sua qualidade, princesa?
— Não esqueci nada sobre você. — O sorriso de Amara se manteve intacto naquele rosto encantador. — Podemos ir?
Em Mítica, as carruagens eram fechadas, com pequenas janelas, portas firmes e grandes rodas de madeira feitas para longas viagens por estradas cobertas de gelo e pedra. Em Kraeshia, as carruagens tinham forma abobadada, sombreada e, ao mesmo tempo, aberta para o sol. As rodas eram extremamente delicadas e finas, e a estrutura, entalhada em madeira clara de álamo e adornada com metais preciosos.
Felix recostou no assento e fechou os olhos, saboreando os raios quentes no rosto. Vários cavalos brancos com flores perfumadas entrelaçadas à crina e cauda puxaram a carruagem para longe das docas, e o cocheiro começou a conduzir pelas estradas planas e sinuosas de Joia. Kraeshia era tão colorida, e as construções, comércios e tavernas eram muito diferentes do que Felix estava acostumado.
Logo, Felix se deu conta de que Joia ostentava muito mais do que riquezas. Era a perfeição em si. Cada detalhe, cada canto, cada centímetro bem cuidado da cidade era impecável, como um detalhe em uma pintura ou escultura. As janelas cintilavam. As ruas brilhavam. No céu, não havia uma única nuvem.
— É lindo — Felix murmurou.
— É mesmo, não é? — comentou Amara, e Felix ficou surpreso por ter acidentalmente chamado sua atenção. — Meu pai fez da beleza uma prioridade em Kraeshia, principalmente aqui em Joia. Ele acredita que beleza é poder.
— O que acontece quando aparece algo feio? — Felix perguntou.
A princesa ficou pensativa.
— Não consigo pensar em nada aqui que possa ser descrito dessa forma.
— Bem, agora que Milo está aqui, acho que não se pode mais dizer isso.
Felix conseguiu provocar o esboço de um sorriso genuíno na princesa, mas com o rei e Milo perto o bastante para escutar, ele sabia que estava na hora de ficar quieto.
A carruagem passou e refletiu em uma gigantesca construção abobadada prateada, que Amara descreveu como o principal templo de Joia. Felix não sabia muita coisa sobre a religião kraeshiana, mas estava certo de que não rezavam para Valoria nem Cleiona.
Todos ficaram em silêncio por vários minutos, até Amara finalmente dizer:
— Perdoe-me, rei Gaius, mas preciso perguntar, pois estou profundamente curiosa desde que soube de sua visita. Sobre o que quer conversar com meu pai? Que assunto urgente o trouxe de tão longe?
— Admiro sua sinceridade tanto quanto sua curiosidade, princesa. Mas receio que o assunto seja entre mim e o imperador. Tenho certeza de que você compreende.
— Ah, por favor! Com certeza pode dar pelo menos uma pista.
O sorriso cordial permaneceu nos lábios do rei.
— Você gostou da visita ao meu reino, princesa?
Amara hesitou antes de responder à abrupta mudança de assunto.
— Gostei muito.
— Lamentei ao saber que embarcou antes que eu tivesse a chance de me despedir.
— Sim, também fui muito desafortunada por perder o grupo de guardas que enviou à quinta para escoltar a mim e a meu irmão de volta a seu palácio. Peço desculpas pela partida repentina, mas era hora de ir. Preferi não abusar da hospitalidade ficando tempo demais em seu reino.
Por fora, não passava de uma conversa educada entre dois membros da realeza, mas Felix podia jurar que percebeu um tom obscuro, exatamente o oposto de amigável.
— É uma pena — disse o rei. — Mandei os guardas porque tinha conseguido providenciar excelentes acomodações para vocês, bem no palácio. — Uma atitude extremamente atenciosa.
O rei a observava, o sorriso ficava cada vez mais aberto, e os olhos escuros brilhando com interesse.
— Você me decepcionou, princesa. Em geral não é tão difícil despertar a conhecida franqueza dos kraeshianos. Vai mesmo fazer esse jogo?
— Só entro em jogos quando sei que vou ganhar.
— E seu irmão, o príncipe Ashur? Ele joga tão bem quanto você?
— Infelizmente não chega a meus pés.
— Ele também deixou Mítica e voltou para casa?
Felix analisava Amara, mas sua expressão era indecifrável.
— Ainda não — ela respondeu simplesmente.
O rei ficou em silêncio por um longo momento, enquanto a carruagem prosseguia na direção do palácio.
— Talvez um dia você queira me revelar seus verdadeiros pensamentos em vez de ocultá-los.
— Não sei se você apreciaria muito esse dia, rei Gaius.
— Não tenha tanta certeza.
Felix teve a impressão de que ele e Milo tinham se tornado completamente invisíveis, e apenas a realeza se confrontava na carruagem.
— Como está o príncipe Magnus? — Amara perguntou.
— Muito bem.
— Verdade? Encontrou-o recentemente?
O rei cerrou os olhos.
— Meu filho está viajando no momento, mas sempre mantemos contato. Acabei de receber uma mensagem dele, informando que se encontra em Limeros no momento.
— Ah, sim, eu já sabia. — Ela suspirou. — Seu querido herdeiro, tão determinado a fazer as coisas a seu próprio modo, não é? Tão teimoso...
— Suponho que a teimosia seja outra característica que compartilhamos como pai e filho.
— Sim. E ele é fascinado pela esposa, não é? Quando os vi pela última vez em Limeros, não conseguiam tirar os olhos um do outro. O amor é assim. É uma das poucas coisas na vida pelo que vale a pena matar, não é verdade? O príncipe seria capaz de fazer qualquer coisa por ela, não seria? Que romântico, considerando que ela continua sendo a maior ameaça a seu trono.
A expressão do rei estava resoluta e impassível, mas seu rosto tinha ficado um pouco mais vermelho.
— Peço desculpas. — A princesa Amara franziu a testa. — Eu disse alguma coisa que o chateou?
— De jeito nenhum — o rei respondeu, e Felix o viu se inquietar no assento. — Mas, me diga, durante sua viagem de última hora a Limeros, onde alega ter visto meu filho e sua esposa...
— Não alego. Eu os vi. No Templo de Valoria, na verdade.
— Você por acaso também viu minha filha Lucia?
— Não posso afirmar. Por quê? Ela também fugiu do ninho? Céus, vossa graça! Parece que ambos os seus filhos o abandonaram em um período muito delicado para seu governo. Deve ter sido um tanto quanto decepcionante.
Felix e Milo se entreolharam, confusos. O que, exatamente, estavam testemunhando ali?
O rei riu, surpreendendo sua pequena plateia.
— Princesa, é de fato uma jovem muito especial. Prometo nunca mais subestimá-la.
— Seria sábio de sua parte — ela respondeu, virando para a frente. — Ah, vejam. Estamos quase chegando à Lança de Esmeralda. Foi desse lugar que mais senti falta quando estive fora.
Felix virou e viu o gigantesco palácio verde erguendo-se na direção do céu.
— Rei Gaius, Felix, Milo... — Amara abriu um grande sorriso. — Bem-vindos à minha casa.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!