29 de setembro de 2018

Capítulo 10

POR UMA FRAÇÃO DE SEGUNDO, EU ESTAVA VOANDO.
E então trilhos reluziram na minha visão periférica, perdendo por pouco a oportunidade de conhecer meu crânio mais de perto. Já minhas costelas e o chão não foram tão tímidos.
Atingimos a areia com força. Perdi o ar. Rolamos um por cima do outro, Jin me segurando forte, o trem gritando nos meus ouvidos, abafando tudo o que eu queria gritar de volta. Finalmente paramos em um banco de areia.
Empurrei Jin para longe, uma dor irradiando do meu ombro até a cintura. Ele praguejou, segurando o próprio torso, mas eu estava pronta para correr tão rápido quanto o trem até alcançá-lo.
Levantei a tempo de ver a noite e a fumaça negra engolirem o último dos vagões de metal reluzente.
Por um instante insano pensei em correr atrás do trem. Viajar por dias presa às costas dele.
Mas o trem havia partido. Carregando centenas de pessoas em direção a Izman. Sem mim. Senti alguma coisa dentro de mim se quebrar. Abracei meu próprio corpo para me manter inteira.
— Você está bem? — Jin estava me observando, ainda segurando o torso. — Amani?
O modo como ele disse meu nome em um longo suspiro foi a faísca que faltava para detonar o barril de pólvora. Tentei dar um soco na cara dele.
Jin segurou meu punho antes que pudesse atingir seu nariz. Ele me puxou em sua direção, tirando meu equilíbrio.
— Uma dica. — Ele estava próximo de mim agora, tão próximo quanto quando me beijou, ou quando eu o beijei. — Não tente acertar um homem no rosto quando ele está olhando diretamente nos seus olhos. Seus olhos te traem, Bandida.
Usei a outra mão para dar um soco tão forte no estômago dele que minhas articulações doeram.
Jin se contorceu, tossindo.
— Obrigada pela dica.
Queria que a vitória não tivesse a mesma sensação de uma mão luxada.
— Disponha. — Ele apertou a barriga onde eu havia acertado, mas parecia rir. Senti uma vontade louca de acertá-lo de novo, aproveitando que estava vulnerável. Em vez disso, levantei a camisa e peguei a arma da cintura.
— Devíamos começar a andar — Jin disse. — Provavelmente estamos a menos de um dia de distância de Massil. Vamos ter que seguir os trilhos. Podemos chegar lá antes que o sol esteja muito forte se sairmos agora.
— O que faz você pensar que eu iria a qualquer lugar com você? — Se o Exército não estivesse atrás de Jin, eu ainda estaria a caminho de Izman. É claro que, se não fosse por ele, eu ainda estaria na Vila da Poeira. Mas não ia parar pra refletir sobre isso. Guardei a arma no cinto. Não havia necessidade de escondê-la: era melhor que as pessoas soubessem que eu estava armada.
— Você tem um plano melhor? — Jin acenou para o deserto vazio, como se estivesse me oferecendo um banquete de ilusões. — Prefere vagar pelo deserto e acabar virando comida de abutre do que caminhar mais um dia comigo?
Ele não estava errado. Era um imenso nada até onde a vista alcançava. Exceto pelos trilhos, que percorriam a areia como uma cicatriz de ferro. Só havia dois caminhos se eu quisesse continuar viva.
Para a frente com ele. Ou de volta para Juniper.
Eu não ia voltar.
— Não se iluda. — Passei os dedos pelo cabelo, soltando-o onde estava preso sob o sheema, enquanto começava a caminhar. — Não vale a pena morrer por sua causa.


Andamos em silêncio enquanto a noite se arrastava pelo céu. Minha raiva me mantinha três passos à frente de Jin. Mas mesmo aquele fogo começou a diminuir ao longo da noite. Eu disse a mim mesma várias vezes que deveria haver outro jeito. Poderíamos ter ficado no trem. Achado um lugar para nos esconder. Alguma coisa.
Depois de algumas horas refletindo sem parar sobre a situação, a verdade é que não conseguia pensar em nada que pudéssemos ter feito a não ser pular.
Era difícil continuar com raiva de alguém que tinha salvado minha vida.
Tínhamos caminhado quase a noite toda quando notei uma silhueta.
Achei que fosse alguma ilusão produzida pela luz cinza borrada que antecede a alvorada. Aquele momento incerto entre o dia e a noite, quando nem Deus nem a Destruidora de Mundos estavam no domínio, era o mais perigoso. Mas não: mais adiante nos trilhos, alguém caminhava na nossa direção.
Me joguei na areia por instinto, tentando me camuflar no horizonte. Jin não hesitou em se juntar a mim no chão.
— O que foi? — Ele teve o bom senso de manter a voz baixa, arrastando-se até mim pelos cotovelos.
— Alguém está vindo. — Fiz um movimento com a cabeça apontando para a frente. Tudo o que conseguia distinguir era uma silhueta andando na nossa direção. Talvez fosse um nômade solitário do deserto, partindo de Massil. Talvez alguém da terceira classe tivesse contado aos soldados que vira uma garota vestida de garoto e um forasteiro saltar do trem.
Claramente, o mesmo pensamento ocorreu a Jin.
— Venha. — Ele começou a rastejar para a frente, afastando-se dos trilhos. Tínhamos andado entre uma ripa de madeira e outra, para evitar deixar rastros. Eu me arrastei atrás dele, desfazendo as marcas deixadas pelo nosso corpo com a bota. Escalamos uma duna. Rolei para o outro lado, permanecendo deitada.
Peguei a arma, por via das dúvidas. Jin já tinha uma faca na mão.
Permanecemos na areia em silêncio, lado a lado. Eu podia sentir o deserto se mexendo embaixo da minha barriga a cada respiração. Prestei atenção, tentando escutar o som de passos. Este era o problema da areia: ela abafava a maioria dos sons. Não conseguiríamos escutar a pessoa subindo a duna até que estivesse à nossa frente. Estávamos em vantagem numérica, mas o fator surpresa tornava o estranho perigoso.
Provavelmente não era um soldado, refleti. Soldados não costumavam viajar sozinhos. Mas ainda restava uma centena de possibilidades perigosas. Um andarilho faminto. Um bandido ganancioso do deserto. Um djinni.
Não. Era ridículo. Não poderia ser um carniçal. O ferro dos trilhos deveria ser suficiente para mantê-los afastados. E ninguém via um djinni havia décadas. Eles não viviam mais entre nós.
Mas eram imortais. E estávamos em pleno deserto. As lendas diziam que havia coisas ali que não eram vistas na civilização havia décadas.
A curiosidade me deixou com vontade de subir a duna e dar uma olhada. Comecei a me mover bem devagar, escalando-a aos poucos. Jin sussurrou um aviso. Pressionei a arma contra os lábios, para silenciá-lo. E para lembrá-lo de que eu estava armada e provavelmente seria melhor de tiro do que quem estivesse nos trilhos. Ele não tentou me impedir quando continuei a rastejar para cima.
Os trilhos estavam tão vazios quanto a garrafa de um bêbado.
— Não tem ninguém lá. Ele já passou por nós. — Ou desapareceu numa coluna de fogo sem fumaça, como os djinnis das histórias.
— Você tem algum instinto suicida? — Jin soava quase impressionado, sua voz retornando ao volume normal enquanto sentava.
— Se eu tivesse, seria um instinto bem incompetente, já que ainda estou viva — eu disse, colocando a arma de volta no coldre.
— Só Deus sabe como. — Ele esfregou as mãos no rosto, cansado. Eu estava exausta também. Como se todo o peso dos últimos dias tivesse caído de repente em cima de mim. — Ninguém nunca te contou a história da Atiyah Impulsiva e do djinni Sakhr quando você era criança?
— Você quer dizer do djinni Ziyah — eu o corrigi.
— O quê?
— É Atiyah e Ziyah, para rimar. De onde você tirou “Sakhr”? — perguntei. Todo mundo conhecia a história de Atiyah, a garota impulsiva que sempre se metia em confusão, e de seu amante, o djinni Ziyah, que temia tanto pela vida dela que revelou seu nome verdadeiro. O nome que ela poderia usar para conjurá-lo quando precisasse ser salva. O nome que ela poderia usar para controlá-lo. O nome que ela poderia sussurrar na fechadura de qualquer porta, e ela se abriria para o seu reino secreto.
— Você acha que o nome do djinni é a parte importante da história?
— Não, mas não custa saber o nome certo. Na história, ela morreu porque disse o nome dele errado, não porque era impulsiva. E por que estamos discutindo isso? — eu falei, com raiva.
Ficamos em silêncio.
— Vale a pena morrer pela sua tia em Izman? — ele perguntou, finalmente.
— Não sei, não nos conhecemos.
Jin passava a mão no cabelo e parou no meio do gesto. Ele tinha arregaçado as mangas e vi a tensão nos músculos de seus braços enquanto me analisava.
— Você está indo para Izman encontrar alguém que nem conhece?
— Estou indo para Izman porque a vida lá deve ser melhor do que aqui.
— Não é — Jin disse. — É tão ruim quanto, se não for pior. Não é como na Vila da Poeira, onde todo mundo sabe seu nome e só te matam por um bom motivo. Lá eles te matam sem motivo nenhum. E isso seria um enorme desperdício. Você é especial demais para apodrecer numa sarjeta. — Ele levantou e ofereceu a mão. Eu a ignorei. Ignorei o que tinha dito sobre eu ser especial também.
— Você está parecendo meu pai — falei, levantando sem sua ajuda.
— Seu pai? — Jin deixou a mão cair.
— Ele costumava dizer que a cidade era para ladrões, prostitutas e políticos — eu disse, imitando a fala enrolada do meu pai, acenando com uma bebida imaginária. — Era melhor ficar onde minha família pudesse me proteger. Não que ele me protegesse.
— O que aconteceu com ele? — Jin perguntou, com uma tensão na voz cujo motivo eu não conseguia identificar.
— Minha mãe o matou. — Ele ficou de boca aberta. — E não se dê ao trabalho de dizer que sente muito. Ele era horrível, e nem era meu pai de verdade. — Lembrei do soldado de olhos azuis trabalhando para o comandante Naguib e me perguntei quantas crianças meio gallans existiam no deserto. Nenhuma outra que eu conhecesse, mas não era como se eu tivesse viajado muito. Até então.
— Eu ia dizer que aparentemente ele teve o que mereceu — Jin falou. — E sua mãe? — Sua voz indicava que ele já sabia.
— O que normalmente acontece com assassinos? — Às vezes eu ainda tinha pesadelos com ela balançando numa corda. Assumi uma postura defensiva. Esperei ele dizer que minha mãe merecia, como todo mundo sempre falava.
— Sinto muito — ele disse. — É uma perda difícil. — Tive a sensação de que talvez ele soubesse como era perder a mãe.
— Não tenho nenhum motivo para voltar — admiti. — Minha tia Safiyah em Izman é tudo o que tenho. Então por que não?
Ele demorou para responder. Travava alguma guerra dentro da sua cabeça.
— Está bem — ele disse, com um suspiro longo e resignado. — Vamos fazer o seguinte. — Ele ajoelhou e começou a desenhar um triângulo de cabeça para baixo na areia, que devia representar Miraji. — Andamos até Massil. Aqui. — Ele apontou para um lugar na área inferior do triângulo. — Trens são a única forma de atravessar as montanhas nesta época do ano. E eu imagino que você não tenha dinheiro suficiente para esperar pelo próximo. — Ele olhou para mim, esperando uma confirmação enquanto desenhava uma linha tracejada por Massil, nos isolando de Izman.
— Bilhetes de primeira classe são caros — admiti.
— Haverá caravanas se preparando para a travessia do Mar de Areia. Em direção às cidades portuárias da costa noroeste — ele completou.
— Era para lá que sua bússola estava apontando.
O chapéu inclinado sobre seu rosto escondeu qualquer resposta de mim.
— E eles vão estar contratando.
— Contratando o quê? — perguntei.
— Força bruta. — Jin deu de ombros. — Segurança armada. Seu deserto não é lá muito seguro, sabia? A travessia é só areia de Massil até Dassama. — Ele indicou o outro ponto à esquerda do triângulo. Norte e oeste. — É um mês andando.
— É a direção errada para quem está indo para Izman. — Fiz uma marca com o dedão no canto superior direito, mais ou menos onde sabia que a capital ficava.
Ele me olhou irritado, uma expressão que dizia “Cala a boca e me deixa terminar de falar”.
— De Dassama são outros dez dias de caminhada pelas planícies. As caravanas aproveitam para fazer comércio ao longo do caminho, então pode demorar mais. Aí chegamos no mar. São dois dias velejando até Izman. Você pode comprar sua passagem com o dinheiro que ganhar na caravana. O que acha, Bandida?
— Acho que você não devia largar tudo para ser cartógrafo. — Olhei para as linhas bagunçadas na areia onde ele tinha desenhado o trajeto. Assim parecia fácil. Mas eu sabia que não era bom subestimar o deserto. — Isso é bem mais difícil do que pegar um trem — falei em um tom de acusação.
— É, mas com menos soldados tentando te matar. — Jin levantou, limpando a areia das mãos na roupa. Era típico de um forasteiro. O gesto de alguém que não estava acostumado com a areia impregnada em tudo. Alguém que ainda tentava lutar contra ela.
— Eles estão atrás de você. Eu só estava tentando chegar a Izman intacta.
Apesar de tudo, aquele era o melhor plano à mão. Ele parecia conhecer Miraji melhor do que eu. E eu estaria mentindo se dissesse que não queria continuar perto dele. E mentir era pecado.
Mas ainda assim alguma coisa me incomodava.
— Você quer que eu acredite que é coincidência que a melhor forma de atravessar o deserto seja indo na direção para onde sua bússola aponta?
— Quero várias coisas, Bandida. Sair deste maldito país, tomar um banho gelado, comer uma refeição decente… — Jin deixou a frase solta, e por um momento podia jurar que seu olhar flutuou até mim. — Mas o que precisamos fazer é começar a andar, para chegar a Massil antes de morrer de sede. Então, o que me diz? — Ele estendeu a mão. — Estamos juntos nessa?
Minha mão se encaixou bem na dele.

2 comentários:

  1. E q comece a aventura pelo deserto....só eu q tô esperando aparecer algum carniçal pra lutar com eles? Ou até um dijinni....qualquer coisa sobrenatural

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