16 de setembro de 2018

Capítulo 10

LUCIA
SANTUÁRIO

Lucia descobriu que a torre em que Timotheus morava se chamava Palácio de Cristal. Houve um tempo em que todos os seis anciãos originais moravam lá.
Agora ele era o único que restava.
— Deve ser solitário — Lucia ponderou, falando mais para si mesma. — Ficar aqui sozinho com o fardo de todos esses segredos.
— É, sim — ele respondeu, mas quando Lucia tentou encará-lo nos olhos, ele já havia desviado o rosto.
— Quero ver os aposentos de Melenia.
— Por quê?
— Porque… — Ela pensou em como racionalizar a necessidade de ver onde sua inimiga, a mulher que havia tramado sua morte antes mesmo de Lucia nascer, tinha vivido. — Apenas preciso vê-los.
Lucia achou que ele argumentaria, mas, em vez disso, Timotheus concordou.
— Muito bem. Venha comigo.
Ele a conduziu por um longo corredor com portas que se abriam sozinhas quando se aproximavam e se fechavam com suavidade depois que passavam e seguiam em frente. Lucia passou a ponta dos dedos nas paredes brancas. Dava para sentir o olhar de Timotheus sobre ela enquanto caminhavam.
— Você tem perguntas, muitas perguntas — ele disse.
— Uma vida inteira delas — ela concordou.
— Não posso contar tudo, Lucia. Apesar de ter estendido uma mão amiga hoje…
— Você ainda não confia em mim — ela o interrompeu. — Eu sei.
— Não é isso. Não exatamente, pelo menos. Muitos segredos morreram com os outros anciãos, e, agora que sou o único, esses segredos são uma das poucas armas que tenho para me proteger.
— Eu compreendo — ela disse. — De verdade.
Timotheus franziu a testa.
— Como você conseguiu amadurecer tanto em tão pouco tempo?
Ela quase riu.
— Não fale como se fosse tão absurdo.
— A nova vida que cresce em seu ventre deve ter feito toda diferença para ajudar a mudar seu comportamento infantil e mimado e os acessos de raiva que estou acostumado a ver em você.
— Timotheus, todos esses elogios vão acabar me subindo à cabeça.
Ele deu uma leve gargalhada quando se aproximaram de portas douradas e brilhantes. Timotheus as abriu e revelou os aposentos de Melenia.
Lucia ficou boquiaberta ao ver o espaço enorme, do tamanho daquele em que tinha se encontrado com Timotheus. Mas o cômodo dele era austero e desprovido de qualquer toque pessoal. Esse era o extremo oposto. Era como entrar nos aposentos de uma rainha no mais luxuoso dos palácios.
Havia uma majestosa área de estar no centro, com sofás macios de veludo branco. No alto, um lustre de cristal reluzia, refletindo a luz que entrava pelas janelas que iam do chão ao teto e davam a volta no cômodo. Lucia olhou para baixo enquanto caminhava, observando o piso intricado de prata e joias incrustadas.
Havia flores de todas as cores imagináveis, frescas como se tivessem acabado de ser colhidas. Elas estavam em uma dúzia de vasos grandes deixados sobre mesas de vidro espalhadas pelo cômodo.
Lucia andou por todo aquele luxo e foi até a parede oposta. Estava recoberta por um padrão quadriculado de prata e vidro. Os símbolos elementares estavam gravados nos ladrilhos de prata — uma espiral simples para o ar, um triângulo para o fogo, um círculo dentro de outro círculo para a terra e duas linhas onduladas paralelas para a água.
— Um templo — Timotheus explicou. — Muitos imortais têm um em casa, para poderem rezar para os elementos.
— Ouvi dizer que algumas bruxas mais velhas também fazem isso — Lucia murmurou, passando os dedos pelo símbolo do fogo.
— Não exatamente assim — ele disse. — Mas parecido.
— Melenia rezava aqui para Kyan, desejando que voltasse para ela.
— Claro.
— E ele conseguia falar com ela, dentro de sua mente, contando mentiras. Fazendo promessas de que ficariam juntos quando fosse libertado, se ela o ajudasse. — Timotheus não respondeu. Nem precisava. — Odeio sentir um pouco de pena dela, agora que sei como Kyan a manipulava. Era tão mais fácil simplesmente odiá-la.
— Não sinta pena de Melenia. Ela poderia ter lutado com mais afinco contra ele.
— Como sabe disso? Talvez ela tenha tentado e fracassado.
— Talvez — ele reconheceu.
Lucia tocou os outros símbolos elementares.
— Os outros três deuses da Tétrade já foram libertados alguma vez?
— Não que eu saiba. Não na forma física, pelo menos.
Será que Ioannes sabia disso?, ela se perguntou. Ele devia se encontrar com Melenia ali. Era ali que a bela anciã tinha dito a ele o que fazer. Ele tinha sido corrompido pelas palavras e pela magia dela naquele lugar. Ainda assim, Ioannes lutou no final.
Lucia queria acreditar que ele tinha lutado desde o início.
— Você me disse que Ioannes era seu amigo — ela comentou.
— Era como um familiar para mim.
— Eu não disse antes, mas sinto muito por sua perda.
— E sinto muito pela sua.
Ela engoliu o nó que se formava em sua garganta, tentando se concentrar em outra coisa. E apoiou a mão sobre a barriga.
— Estive pensando em como chamar o bebê e estou com dificuldade para encontrar algum nome que combine com ele. Quero escolher um forte, digno. Um nome que meu filho ou filha aprecie quando crescer.
— Você tem muito tempo para decidir.
— É, acho que sim. — Lucia pegou distraidamente um pequeno baú dourado que estava sobre uma mesa de vidro. Era mais ou menos do tamanho de um porta-joias que tinha encontrado nos aposentos da princesa Cleo no palácio auraniano. Ela abriu a tampa e encontrou uma adaga de ouro brilhante. Pegou a lâmina e a observou.
— Foi isso que Melenia usou para entalhar o feitiço de obediência nele? — ela perguntou, sem fôlego.
Com um movimento suave, Timotheus tirou a adaga da mão dela, colocou-a de volta na caixa e fechou a tampa.
— Foi — ele respondeu, olhando para a caixa com a testa franzida. — Se eu a destruir, temo que liberte a magia negra presa dentro dela. É melhor guardá-la em outro lugar, onde ninguém consiga encontrá-la de novo. Os mundos ficarão mais seguros dessa forma. — Ele fez uma pausa. — Já terminou de olhar o espaço? Garanto que não vai encontrar nada aqui além de lembranças desagradáveis e arrependimentos. Sei disso melhor do que qualquer um.
Lucia soltou um suspiro trêmulo e assentiu.
— Terminei.
— Então vou pedir para Mia lhe mostrar a cidade. Depois de meu inesperado anúncio, meus companheiros imortais vão querer vê-la mais uma vez antes de você voltar para casa.
Como em um passe de mágica — e Lucia não tinha por que acreditar que era outra coisa — Mia a estava esperando na base da torre. Ela já sabia o que Timotheus havia sugerido. E parecia nervosa. Apesar de seus vários séculos — ou milênios — de idade, parecia mais jovem que Lucia, que sorriu para ela.
Mia retribuiu o sorriso e, segurando o braço de Lucia, acompanhou-a até o lado de fora.
Embora a pressão de encontrar Kyan quando retornasse pesasse bastante em sua mente, Lucia estava curiosa para saber mais sobre aquela cidade e seus ocupantes — incluindo o que os imortais faziam para passar o tempo.
Ela observou a paisagem enquanto caminhavam. Algumas dezenas de Vigilantes estavam agachados, trabalhavam com cuidado para criar uma extensa obra de arte diretamente na praça espelhada, posicionando minúsculos fragmentos de cristais em padrões intricados.
— Essa obra representa o ar, e eles finalmente a terminaram — Mia explicou, levando Lucia até o alto de uma construção para que pudessem observar a obra de arte de cima. — Não é lindo?
— Muito — Lucia concordou. Eram espirais detalhadas em muitos tons diferentes de azul e branco, e remeteu Lucia a um belo mosaico que vira na parede da biblioteca do palácio auraniano. Só que essa obra era dez vezes maior, e os responsáveis deviam ter demorado meses para produzi-la.
Os artistas se afastaram do trabalho, sorrindo uns para os outros e secando o suor da testa. Então, para a surpresa de Lucia, cada um pegou uma vassoura de cabo dourado e começou a varrer os pedacinhos de cristal, destruindo aquela obra impressionante.
— O que estão fazendo? — ela exclamou.
Mia simplesmente olhou para ela, franzindo a testa.
— Limpando o espaço para poderem começar de novo, é claro.
— É um desperdício de uma bela obra de arte!
— Não, não. É assim que deve ser. Isso mostra que tudo o que existe deve mudar um dia, mas o que é destruído pode ser recriado com paciência e dedicação.
Enquanto refletia sobre aquilo, ainda perturbada que uma incrível e bela obra não fosse feita para durar, Mia levou Lucia até o grupo de imortais. Os olhos se encheram de esperança ao vê-la, e eles perguntaram se Lucia gostaria de ter a honra de iniciar o próximo mosaico. Ela escolheu um punhado de cristais vermelhos finos como areia em uma bandeja dourada e comprida.
Espalhou alguns no centro da área, olhando para Mia para ver se estava fazendo a coisa corretamente.
Mia sorriu e aplaudiu.
— Excelente. Tenho certeza de que agora você os inspirou a fazer uma incrível homenagem ao símbolo do fogo.
Lucia sentiu um golpe no estômago ao pensar que, inconscientemente, tinha escolhido o vermelho entre as cores.
Bem, é claro que escolhi, ela pensou. Não tem nada a ver com Kyan. É a cor de Limeros.
— Você deve estar com fome — Mia disse, levando Lucia para um pátio externo onde frutas pendiam das árvores. Lucia observou o entorno.
Percebendo que estava com muita fome, levantou o braço e tirou uma maçã vermelho-escura de um galho. Mia fez o mesmo, dando uma grande mordida na fruta e incentivando Lucia a fazer o mesmo.
Quando cravou os dentes na casca crocante, o sabor da maçã a fez arregalar os olhos, chocada. Ela nunca havia experimentado algo tão doce, puro e delicioso.
— É a melhor coisa que já provei! — Lucia disse em voz alta, quase eufórica.
Ela devorou a fruta com rapidez, tendo que se conter para não comer também as sementes. Quando estava prestes a pegar outra, sentiu uma pontada aguda e inesperada na barriga. Lucia levou a mão ao ventre e olhou para baixo, franzindo a testa.
— O que foi isso? — murmurou.
— Você está bem? — Mia perguntou, preocupada.
A dor foi apenas momentânea, e Lucia a ignorou.
— Estou bem. Meu estômago deve apenas estar expressando gratidão por receber alimento depois de tanto tempo.
Lucia decidiu tirar forças daquela maçã, dos imortais que a olhavam com esperança — e não com medo — e da amizade de Timotheus e de Mia, enquanto esperava impacientemente para voltar para casa.
Era impossível avaliar a passagem dos dias em um lugar que estava sempre iluminado, mas Lucia desfrutou duas vezes de um sono profundo enquanto estava na Cidade de Cristal.
Depois Timotheus instruiu Mia a levá-la de volta para a torre. Lucia segurou a mão da nova amiga.
— Obrigada por me ajudar.
— Não. — Mia balançou a cabeça, encarando Lucia com tanta sinceridade que quase tirou seu fôlego. — Eu é que agradeço por ter vindo até aqui. Obrigada por ser alguém em quem podemos acreditar. Sei que vamos nos reencontrar um dia.
— Espero que esteja certa. — Com relutância, Lucia soltou Mia e acompanhou Timotheus até a torre de cristal.
Dessa vez, as portas para onde ele a conduziu abriram para um lugar escuro e cavernoso.
— Estamos no subterrâneo — Lucia arriscou.
— Estamos.
Ela estava prestes a fazer outra pergunta quando viu, a uns quinze passos de distância, um objeto que brilhava com uma luz violeta. Quando se aproximaram, Lucia entendeu o que era.
— Um monólito — ela disse, boquiaberta. — Como o que havia nas montanhas.
Timotheus assentiu, os traços sombreados pela luz irregular.
— Existe um em cada um dos sete mundos. O meu e o seu são apenas dois deles.
— Sete? — Lucia o encarou. — Está dizendo que existem mais cinco mundos além dos nossos?
— Suas habilidades matemáticas são realmente impressionantes. — Ele arqueou a sobrancelha. — Sim, sete mundos, Lucia. Minha espécie foi criada para zelar por esses mundos antes de Damen destruir tudo o que estimávamos. Agora apenas zelamos pelo seu mundo. — A expressão dele obscureceu ao citar o imortal perverso. — Esses monólitos foram criados para permitir a viagem entre os mundos. Damen drenou a magia deles para poder transitar com facilidade entre os mundos quando quisesse. Essa destruição foi o que deixou as montanhas sem vida, e é a causa da transformação de Limeros em gelo e de Paelsia em pedra.
Lucia o encarou enquanto ele revelava a enorme peça do misterioso quebra-cabeça de Mítica.
— Por que, então, Auranos ainda é uma região bela?
— Por causa da deusa que eles adoravam, que alguns ainda adoram. A deusa que já foi uma imortal anciã, como eu.
— Cleiona.
Ele assentiu.
— Ela conseguiu proteger o reino que tinha reivindicado, enquanto Valoria não tinha conseguido fazer o mesmo. Às vezes parece que foi ontem que vi as duas pela última vez. Todos perdemos muito, e nunca vamos recuperar… — Timotheus fez uma careta ao falar das deusas. Depois piscou várias vezes, como se precisasse clarear a mente. — Você está aqui há tempo suficiente, Lucia. Agora deve ir tentar deter Kyan.
Lucia quase riu de seu tom severo de sempre.
— Acho que vou sentir falta de sua franqueza. E não vou tentar detê-lo, vou detê-lo.
— Espero, pelo bem de todos, que esteja certa.
Ela olhou para o monólito brilhante.
— Como posso usar isso para voltar?
— Pressione as mãos sobre a superfície e a magia de passagem fará o resto. — Quando Lucia hesitou, ele levantou uma sobrancelha. — Não diga que está duvidando da minha palavra.
— Se eu achasse que está mentindo para mim, você já estaria morto. — Um pequeno sorriso se formou no rosto dela quando ele arregalou os olhos. — Também sei ser sincera, Timotheus.
— De fato.
— Adeus — ela disse, pronta para partir. Pronta para voltar para casa, encontrar sua família e garantir que Kyan nunca mais prejudicasse nenhuma alma.
A expressão de surpresa de Timotheus desapareceu, substituída por uma que Lucia só conseguia descrever como de tristeza.
— Adeus, Lucia.
Ela pressionou a palma das mãos contra o monólito de cristal frio e brilhante. A luz que emanava dele logo se intensificou, transformando-se num brilho branco e puro. Lucia se esforçou para continuar pressionando enquanto fechava bem os olhos.
No instante seguinte, estava caída no chão, sem fôlego. Tentando respirar e um tanto confusa, ela rapidamente levantou da terra seca e quebradiça e se virou para procurar Timotheus.
Mas ela não estava mais no Santuário. Uma rápida olhada ao redor deixou claro que tinha voltado ao lugar nas montanhas onde tinha lutado contra Kyan.
Embora fosse dia, ela ainda reconhecia o local, e o ar estava tão frio quanto da última vez em que estivera ali. Frio e carregado com uma sensação inquietante que ela sabia por instinto se tratar da morte iminente.
Damen, um imortal, tinha causado isso ao drenar a magia do monólito. Seu toque devia ter sido o suficiente para cobrir o monólito de pedras, ocultando sua magia por todos esses anos, até Kyan queimar a pedra. Não havia nada ali — nenhum pássaro, nenhum mamífero, nem mesmo um único inseto rastejando sobre a terra. Não havia árvores nem arbustos de nenhum tipo, à exceção de um pequeno oásis onde ficava o monólito.
Por um instante, ela sentiu tanto temor no coração que parecia ter certeza de que Kyan estivera ali o tempo todo, esperando seu retorno. Ela ficou paralisada, observando ao redor, os punhos cerrados e prontos para lutar.
Mas não havia nada ali. Nem ninguém. Apenas Lucia.
E já tinha passado da hora de ela partir.
Ao caminhar pelo solo queimado repleto de rochas, ela encontrou, com um vislumbre de felicidade: a bolsa que pensara ter perdido. Nela, ainda havia moedas suficientes para pagar várias noites em uma hospedaria.
Continuando a caminhada, deparou com o buraco no chão onde Kyan havia explodido. No fundo da profunda depressão na rocha, alguma coisa brilhava, mesmo com a pouca luz que alcançava aquele ponto nas montanhas.
Nada nunca brilhava ali.
Lucia foi na direção da luz, hesitante, inclinando-se para pegar a fonte do estranho brilho: uma pedra lisa.
Lucia tirou uma camada densa de cinzas da superfície. Cambaleou para trás, levando a mão à boca quando viu o que havia embaixo.
Uma esfera de âmbar.
A prisão de Kyan não era maior do que a maçã que ela havia comido no santuário.
— Oh! — Ela ficou surpresa, virando a cabeça para todas as direções para, mais uma vez, ter certeza de que estava mesmo sozinha.
Ela levantou a esfera, semicerrando os olhos para tentar enxergá-la com a pouca luz do dia que conseguia passar por uma cortina de nuvens sobre as montanhas. O cristal de âmbar era todo transparente: não tinha rachaduras, anormalidades nem imperfeições.
Antes, Lucia consideraria tal tesouro algo belo. Agora, não. Esse tesouro, não. Mas era um sinal de que estava saindo na frente, e sentia-se grata.
Se estivesse com o cristal, teria os meios para deter Kyan antes que ele colocasse os planos para destruir o mundo em ação.
Depois de se permitir um pequeno sorriso para comemorar a pequena vitória, Lucia seguiu seu caminho para sair das montanhas e iniciar uma viagem de muitas horas a oeste, rumo a um pequeno vilarejo que conhecia, onde ela e Kyan tinham feito planos para adentrar as montanhas. Lá saberia se alguém tinha visto ou ouvido falar de Kyan desde a última vez em que estiveram no local.
Ela se redimiria dos erros do passado. Ter se aliado ao deus do fogo, de longe, havia sido o maior erro de todos.


Perto de anoitecer, Lucia finalmente entrou na hospedaria familiar e observou com cautela a taverna lotada, quase esperando encontrar Kyan tomando uma tigela de sopa. Exausta da caminhada, ela ocupou a mesma mesa que tinha compartilhado com Kyan na manhã seguinte à que ela descobriu que estava grávida.
— Lembro de você — disse uma voz feminina. — Bem-vinda de volta.
Lucia olhou para a atendente que se aproximava da mesa.
— E lembro de você. Sera, não é?
A atendente tinha visto Lucia e Kyan juntos. Foi ela que contou a eles que as respostas que procuravam poderiam ser encontradas nas montanhas — e estava certa.
— Sim, esse é o meu nome — Sera disse com um sorriso. — Onde está seu belo amigo?
— Nos separamos durantes nossas viagens. Ele voltou desde que saímos daqui?
— Receio que não.
— Tem certeza?
— Pode acreditar, eu me lembraria dele. — A garota piscou. — Gostaria de uma bebida?
— Sim — ela disse, dando-se conta de repente de que estava com muita sede. — Vou querer… suco de pêssego.
— Só temos suco de uva.
— Pode ser.
— Mais alguma coisa? Algo para comer, talvez?
Lucia sentiu uma pontada na barriga ao ouvir a sugestão.
— Sim, seria ótimo.
Sera olhou para uma mesa cheia de homens barulhentos, que, Lucia agora via, vestiam uniformes verdes idênticos.
— Peço desculpas se demorar um pouco para servi-la hoje à noite — ela disse. — Sou a única por aqui, e preciso garantir que nossos outros clientes sejam bem atendidos. Talvez seja uma boa ideia mantê-los bêbados e felizes, não acha?
— Acho que sim. — Lucia olhou para os homens com curiosidade. — Quem são eles?
Sera virou para ela, surpresa.
— Você saiu daqui há poucos dias. Com certeza deve saber sobre os kraeshianos.
Lucia lançou um olhar rápido para Sera.
— Kraeshianos?
Sera assentiu.
— Estamos sob ocupação kraeshiana, com milhares de homens enviados para cá para impor suas leis sobre toda Mítica, incluindo este pequeno vilarejo sem importância. Esses homens chegaram aqui ontem.
— Enviados pelo imperador Cortas? — O peito de Lucia ficava mais apertado a cada instante, até começar a sentir dificuldade para respirar.
Sera arqueou as sobrancelhas.
— Esses soldados me disseram que o imperador e dois de seus filhos foram mortos por um rebelde que foi capturado e punido. Apenas sua filha, Amara, sobreviveu. Ela é a imperatriz de Kraeshia… e de Mítica. Pelo menos até seu irmão Ashur retornar de suas viagens, dizem.
O coração de Lucia quase parou. Ela agarrou a lateral da mesa com tanta força que achou que fosse parti-la ao meio.
Lucia se esforçou para controlar as emoções que irrompiam dentro de si. A pior coisa que poderia fazer no momento seria estragar seu disfarce perdendo o controle de sua magia e causando danos pelos quais teria que pagar depois.
— E onde está o rei? — Lucia perguntou.
— Não sei.
Lucia se lembrou de ter ousado revelar sua magia na frente da princesa kraeshiana, mas Amara tinha agido com muita calma em relação àquilo. Até mesmo a encorajado. Lucia tinha decidido que lidaria com quaisquer ramificações da confirmação dos rumores a respeito de sua magia da próxima vez que visse a garota, mas nunca mais aconteceu.
E agora Amara era imperatriz.
Havia algo extremamente errado, e ela precisava saber o que tinha acontecido com sua família.
— Sera — Lucia chamou, dissipando a névoa do choque em sua busca por respostas. — Você ouviu alguma coisa sobre o príncipe? O príncipe Magnus?
— Receio que as notícias sejam escassas por aqui, mas com todo esse sangue novo na região — Sera sorriu para a mesa de soldados kraeshianos —, estamos conseguindo algumas informações. Aparentemente, o príncipe tentou roubar o trono do pai enquanto o rei estava fora, em Kraeshia. Ouvi dizer que ele foi executado por traição, junto com sua esposa.
Por um longo momento, Lucia só conseguiu encarar a garota.
— Não — ela finalmente disse, com voz falha.
Sera franziu a testa.
— O quê?
— Ele não pode estar… — ela disse, ofegante. — Ele não pode estar morto. — Lucia levantou, arrastando a cadeira. — Preciso encontrá-los… Meu pai. Meu irmão. Isso não está certo, nada disso. E ninguém sabe o perigo real que está por vir. Ninguém sabe o tamanho do problema em que está metido.
Enquanto murmurava freneticamente, a mesa de soldados começou a olhar, um por um. Logo ela ganhou a atenção completa deles, e alguns se levantaram da mesa e se aproximaram.
— Está tudo bem, senhorita? — um dos soldados perguntou. Ele era o maior homem do grupo, com olhos acinzentados e cabelo castanho-escuro.
— Está tudo ótimo — Sera respondeu rapidamente, acenando e sorrido. — Não se incomodem com a moça. Ela só está muito cansada depois de uma viagem longa.
O soldado a ignorou, concentrando-se apenas em Lucia.
— Não veio aqui com planos de causar algum problema para a imperatriz, veio?
A imperatriz. A ideia de Amara ter tanto Kraeshia quanto Mítica sobre seu poder deixava Lucia com náuseas.
— Problema? — ela disse por entre dentes cerrados. — Espero que não. Mas vai depender da rapidez com que vocês e sua imperatriz decidirem sair de Mítica e nunca mais voltar.
O guarda riu e olhou para os compatriotas.
— E com certeza você, sozinha, vai nos obrigar a sair, não é?
Com cuidado, como se estivesse com medo de assustar uma fera, Sera tocou o braço de Lucia.
— Por favor, sente — ela sussurrou em seu ouvido. — Vou buscar sua comida. Esses soldados foram gentis conosco até agora e prometeram que a imperatriz Amara vai garantir um futuro brilhante para os paelsianos. A imperatriz aprecia nosso vinho e tem um plano para começar a exportá-lo para o exterior. Logo vamos nos tornar tão prósperos quanto os auranianos!
— Promessas… — Lucia disse, tensa. — Promessas tolas, nada além de palavras. Sabe o que mais se faz com palavras? Mentiras.
— Garotinha — o soldado disse —, faça o que sua amiga está sugerindo e volte a sentar. Temos ordens de deter qualquer um com tendências rebeldes. Acho que não vai querer isso, não é?
Uma risada sombria saiu do fundo da garganta de Lucia.
— Garotinha — ela repetiu com desprezo. — Você não sabe com quem está falando.
O soldado riu também, abaixando-se para observar bem o rosto dela.
— Sei exatamente com quem estou falando. Apenas uma criança que, claramente, tomou vinho demais. Vou avisar uma vez só. Sente e não teremos problemas.
Lucia cerrou o punho direito, pronta para invocar o fogo. Ela transformaria aqueles homens insolentes em cinzas, sem se preocupar em avisar antes.
Esse reino pertencia aos Damora. Não a Amara Cortas.
Sera segurou as mãos dela.
— Por favor, faça o que ele está dizendo. Sente e não cause mais problemas.
— Você acha que isso é problema? Eu ainda nem comecei a causar…
E, em uma onda rápida e violenta, uma dor aguda explodiu no centro do corpo de Lucia. Ela gritou, achando, a princípio, que tinha sido perfurada por alguma coisa, e seu profundo lamento queimou sua garganta quando ela segurou a própria barriga e caiu no chão.
— O que foi? — Sera perguntou, assustada.
— Meu… Ah, não. Não! — Lucia berrou, a agonia repentina era algo que não conseguia suportar.
E então o mundo à sua volta se transformou em escuridão.


Quando Lucia acordou, estava em uma sala escura, deitada sobre um catre duro. Sentada em uma cadeira a seu lado, estava Sera, segurando um pano frio sobre sua testa.
Lucia tentou levantar, mas não conseguiu. Seu corpo estava fraco, os músculos estavam doloridos como se tivesse tentado atravessar três reinos em um único dia.
Sera a observava preocupada.
— Achei que você fosse morrer.
Lucia a encarou, e as coisas terríveis que tinha descoberto na taverna começaram a voltar à sua mente em fragmentos irregulares e cortantes.
— Ainda estou viva. Acho.
— Ah, você está bem viva. E também tem muita sorte. Quando os kraeshianos chegaram ontem, havia um homem, um paelsiano que frequentava a taverna quase todas as noites, que enfrentou os soldados, contra a ocupação. Adivinha o que fizeram para recompensar a coragem dele? Eles o afogaram em um balde de água. Depois disso ninguém mais ousou dizer nenhuma tolice.
Lucia lançou um olhar horrorizado para ela.
— Isso está errado. Aqueles soldados… Amara… não deviam estar aqui. Eles não podem estar aqui. Preciso detê-los.
— Acho que você tem coisas mais importantes para pensar como encontrar seu amigo, não é?
Ela observou a garota com atenção.
— Como sabe que encontrá-lo é tão importante para mim?
Sera suspirou, depois removeu o pano úmido. Ela o deixou ao lado de uma bacia, depois pegou um copo de água, que levou aos lábios de Lucia.
Esquecendo momentaneamente a desconfiança em relação à preocupação de Sera com Kyan, Lucia bebeu com avidez, grata por sorver o líquido frio, que tinha sabor de vida em sua garganta seca.
— Entendo por que pode estar zangada com ele — Sera disse. — Homens são idiotas e egoístas. Não são eles que precisam ser responsáveis. Eles podem se divertir com quem quiserem e depois ir atrás da próxima garota que olhar por mais de um minuto.
— Acredite — Lucia disse em um tom contido de zombaria —, minha relação com Kyan não era desse tipo.
Sera pegou o copo de água vazio e colocou um pano limpo na testa de Lucia.
— Então você engravidou magicamente?
Lucia a encarou, boquiaberta.
— Como você…?
— Como eu sei? — Sera riu com nervosismo. — Eu ajudei você a se deitar. Tirei suas roupas para que não ficasse quente demais. A condição em que se encontra seria óbvia até mesmo aos olhos de um cego.
Lucia ficou encarando a garota por mais um tempo, enquanto Sera colocava a mão direita em sua barriga. Ela observou a mão de Sera e, quando viu a silhueta do próprio corpo coberto com o lençol, arregalou os olhos.
Da última vez que tinha examinado sua barriga, ela estava reta, e a diminuição gradual de sua magia e os enjoos matinais eram os únicos indicativos da gravidez.
Mas algo havia mudado entre o instante em que encontrara o cristal de Kyan e entrara na taverna. Porque, no momento, Lucia olhava horrorizada para a mesma barriga, mas que não estava mais reta como quando deixou o Santuário.
O que via era um grande inchaço no meio de seu corpo, uma barriga gigantesca. E pertencia a ela.

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