11 de setembro de 2018

8 - Invadindo a festa

— Ana! Ana! — chamei, tentando arrancá-la de seu pesadelo. — Acorde. É só um sonho!
Ela me empurrou com força, suas unhas arranhando meus braços. Eles logo cicatrizaram, mas a ardência permaneceu. Arfando, ela abriu os olhos. As lágrimas escorreram devagar dos cantos. Seu rosto estava afogueado e os lábios pareciam inchados e vermelhos, como se ela os tivesse mordido durante o sono. Anamika tremia em meus braços enquanto eu acariciava seus cabelos e tentava acalmá-la.
O fato de ela se agarrar a mim como se eu fosse a única coisa que a conectasse com a realidade foi uma surpresa. Eu queria me ligar a seus pensamentos, para descobrir o que a perturbava. Parecia muito pior do que um simples sonho ruim. Mas eu não conseguia me convencer a fazer isso. Queria que ela confiasse em mim. E, se eu forçasse dessa forma ou me impusesse, pressentia que haveria muito mais a enfrentar do que apenas o humor dela. Ana estava à beira de um abismo, frágil, e, se eu fizesse um movimento errado, ela se romperia como um melão atirado ao chão.
— O que foi? — murmurei enquanto tentava acalmá-la.
Ela se enrijeceu e se afastou de meus braços, recuando na cama.
— Não foi nada — disse, enxugando as lágrimas com as mãos.
— Você não precisa me contar, Ana — afirmei —, mas estou aqui para ouvir, se precisar de mim.
Assentindo, ela puxou os joelhos até o peito e entrelaçou os dedos em torno deles.
— Obrigada.
Meus braços me pareceram vazios e descobri que sentia falta de sua suavidade. Estranho ligar a deusa Durga, a guerreira ao lado da qual eu lutara, à imagem de alguém suave. Seu coração batia freneticamente quando eu a segurara, quase como um pássaro capturado em uma gaiola. Isso me fez lembrar que eu ainda tinha um passageiro no bolso.
— Quase esqueci — disse, e abri o quadrado de tecido para espiar a criaturinha. Ele inclinou a cabeça para me olhar. — Esta coisinha pertence a você. Kadam o mandou.
Reposicionando as longas pernas para que pudesse deslizar para mais perto, ela jogou o pesado cabelo por cima dos ombros e me observou tirar o passarinho. Ele ficou na palma de minha mão e, quando ela estendeu um dedo, deu um pio e saltou para ele. Imediatamente a avezinha gorjeou e voou para o ombro dela, onde se escondeu no meio dos cabelos.
Anamika riu. Era um som descontraído, delicioso, e percebi que nunca a tinha ouvido rir antes.
Sorrindo, esfreguei a mão na barba que crescia em meu rosto e disse:
— Kadam me falou que você o criou desde o ovo. Aparentemente, ainda não encontramos o ovo. Ele também me advertiu que a ave não ficará neste mundo por muito tempo.
A expressão no rosto dela murchou e ela pegou o pássaro em seu ombro e coçou o alto de sua cabecinha. Ele fechou os olhos, feliz, enquanto ela acariciava suas penas.
Não sei por que tive de arruinar seu momento de felicidade. Parecia que nada do que eu fazia em relação à deusa era a coisa certa. Suspirando, me levantei e despejei água no lavatório.
Enquanto lavava o rosto, contei-lhe onde passara a noite.
Ela ouviu com atenção e fez perguntas ponderadas. Quando terminei, Ana disse:
— Deve ter sido doloroso para você... deixar seu irmão de tal maneira que ele não tenha qualquer lembrança do que aconteceu entre vocês.
— Foi — confessei. Ainda doía. A angústia de deixá-lo lá era como um carrapicho preso no pelo perto de uma ferida já dolorida. Saber que minhas ações, minha decisão, iriam relegar Ren a tantos anos de cativeiro era algo com que eu não estava inteiramente certo de que poderia conviver. A ideia de que estava fazendo isso mais para que eu viesse a encontrar Kelsey do que por um nobre sentimento de responsabilidade de fazer minha parte para ajudar o universo deixava um travo de culpa em minha boca.
A mão de Anamika tocou meu ombro. Eu nem a tinha ouvido se levantar. Meus olhos estavam secos e fixos, e minha cabeça latejava por ficar tanto tempo sem dormir. Minha pele parecia prestes a se romper, mas o toque dela me acalmou. Sem pensar, puxei-a para perto e ela me permitiu abraçá-la. Foi estranho a princípio. Suas costas estavam retas como uma prancha, mas pouco a pouco ela foi relaxando.
Após um longo momento, pouco à vontade, ela deu tapinhas em meu ombro e perguntou:
— Já está suficientemente confortado, Kishan?
Eu ri e recuei um passo.
— Sim. Obrigado.
A deusa gelada havia retornado e estava pronta a voltar ao trabalho. Eu estava acostumado a essa versão dela. A outra, a garota machucada, era estranha. Eu estava curioso, mas sabia que era melhor não perguntar por que ela se escondia atrás da máscara.
Não era só por perder o irmão e assumir o papel de deusa. Já era assim antes, quando a conheci. Havia se mostrado igualmente inacessível então. Anamika veio a ser uma garota muito diferente daquela que eu vira interagindo com o irmão pouco antes de ele partir. Afora os poucos e breves olhares que havia me lançado, a deusa era muito semelhante às estátuas nos templos que tínhamos visitado. Fria, dura como granito e rígida em suas relações com homens.
Usamos o amuleto para voltar ao beco e o lenço para nos disfarçar. Assumi o papel do homem que havia desaparecido, ao passo que Anamika se tornou Kadam. Ela se vestiu como um homem rico daquele tempo o faria e, em uma hora, a transação estava concluída. Nós dois éramos agora os felizes proprietários de um tigre branco.
Os caçadores ficaram surpresos quando Anamika, como Kadam, mostrou-se disposta a comprar o animal às escuras, mas não podíamos nos arriscar à reação de Ren ao ver Kadam ou a sua confusão diante de Kadam com cheiro de jasmim e rosas. Ana havia extraído do solo moedas e pedras preciosas em quantidade bastante para satisfazer os caçadores, e eles eram suficientemente gananciosos para pegar o dinheiro e fugir.
Em seguida, tomamos as providências para que Ren permanecesse onde estava, contratando um rapaz de confiança para lhe dar água e comida. Até instalamos o garoto numa hospedaria próxima enquanto procurávamos o amigo de Kadam. Ficamos o tempo suficiente para observá-lo e nos certificarmos de que ele fazia um bom trabalho cuidando do tigre.
Levamos a maior parte do dia para, de fato, encontrar o mercador amigo de Kadam. Em seguida, foi preciso usar de certa habilidade de persuasão para convencê-lo a alterar seu curso e ir até a cidade onde Ren era mantido. Anamika lhe deu o restante de suas moedas e pedras preciosas e, quando ele chegou à hospedaria, ofereceu-lhe mais uma sacola cheia delas se ele transportasse Ren e o vendesse a um colecionador de bom coração.
Assim que o acordo foi fechado, Ana e eu retornamos ao nosso tempo. Ela desapareceu em seu quarto e vasculhou tudo, reunindo uma sacola de pedras preciosas de valor inestimável, e, em um piscar de olhos, voltou e foi ao encontro do mercador na hospedaria para lhe dar seu pagamento final.
Ela ficou ausente por menos de trinta segundos e, quando me disse que Ren estava em segurança a caminho de seu destino, imediatamente me transformei em tigre e caí em um sono profundo na grama. Quando acordei, encontrei Ana sentada perto da fonte, embalando seu passarinho. Ele ainda estava vivo, mas era evidente que não seria por muito tempo.
— Pensei que ele gostaria de ficar ao ar livre — disse ela.
Voltei a me deitar, me acomodando confortavelmente a seus pés, a cabeça descansando sobre as patas, e lhe fiz companhia. Antes que uma hora se passasse, o passarinho se foi. Delicadamente, ela o colocou em uma caixa dourada com que um devoto a havia presenteado. Sua plumagem vermelho-vivo logo foi oculta sob a tampa. Usando o poder do amuleto, ela abriu uma pequena cova no jardim e colocou a caixa ali. Ficou parada diante dela por um momento, em silêncio, e então ouvi o sussurro da terra cobrindo a caixa dourada.
Ao terminar, ela se aproximou de mim e sentou-se na grama, entrelaçando as mãos em meu pelo e acariciando minhas costas. Virei-me de lado, de modo que minha cabeça ficasse em seu colo. Ela puxou minha orelha com carinho e passou um dos braços em volta de meu pescoço.
Instintivamente, eu sabia que ela precisava de mim, precisava do meu lado tigre. Ela relaxava comigo mais facilmente quando eu estava na forma de tigre. Seu cheiro de rosas e jasmim pairava sobre mim e fechei os olhos.
Eu também me sentia confortado por sua proximidade. Ficar com ela assim me lembrava a sensação de estar com minha mãe. Certo, havia um aspecto nessa relação que era bem diferente. Eu estava ciente, claro, de que Anamika era uma jovem linda e não havia nada de maternal em estar perto dela, mas, ao mesmo tempo, havia certa sensação de conforto. Eu me sentia completamente à vontade. Ela não estava, naquele momento, me julgando ou me hostilizando. Estava simplesmente... ali.
Ficamos assim por um tempo até eu me dar conta de que ela caíra no sono recostada na fonte. Depois de me afastar com cuidado, mudei para a forma humana e a peguei no colo. Quando não estava com os trajes de batalha, carregando todas as armas de Durga, quando era apenas Ana, ela parecia muito pequena. Eu sabia que não era. Tinha quase a minha altura. Mas quase tudo eram pernas. Pernas longas, bem longas.
Coloquei-a na cama, deixando intencionalmente o kamandal e todas as suas armas ali perto, então peguei o lenço e me dirigi ao quarto de banho. Depois de tomar um banho rápido, usei o lenço para me disfarçar de um velho de terno. Pensando que era melhor deixar o lenço com Ana, junto com um bilhete, voltei para seu quarto.
Ela havia virado de lado, a mão sob a bochecha. Os lábios rosados estavam entreabertos e o cabelo caía sobre o rosto. Ajeitei o cobertor em torno de seus ombros e então me olhei no espelho.
Ajustando a gravata, alisei os cabelos grisalhos e grunhi. Com o terno cinza, eu parecia pronto mais para um funeral do que para uma festa, mas concluí que serviria. Rapidamente, rabisquei um bilhete e deixei o lenço ao lado dele. Então peguei o amuleto e desapareci.
O quarto se dobrou à minha volta e tudo ficou branco enquanto eu corria através do tempo em uma corrente de vento. Materializei-me em uma cobertura e me fiz invisível, o que foi inteligente de minha parte, visto que havia gente em todos os lugares. Estavam usando trajes de corte impecável e todos sorriam e gargalhavam. Dobrei em uma esquina escura e, me vendo sozinho, tornei-me visível.
Eu me encontrava em uma longa varanda que circundava a cobertura. Todo o andar superior do edifício era feito de vidro e as luzes dos arranha-céus que me cercavam piscavam como estrelas de diamantes, banhando tudo em uma luz suave. A princípio, pensei que havia levado os aromas de rosa e jasmim do quarto de Anamika comigo, mas, quando dobrei outra esquina, vi que todo o andar estava coberto com flores de todos os tipos.
Passei o dedo em uma flor familiar, um lírio-tigre, e franzi a testa. Isso ia ser doloroso.
Seguindo os outros convidados, caminhei na direção da música animada e dos murmúrios abafados de um grande número de pessoas reunidas. Passando por um elevador que trazia mais convidados para a festa, avistei recepcionistas coletando cartões e verificando listas. Por sorte, eu evitara isso. O que teria dito? Que meu convite devia ter se perdido no correio cósmico?
Cada passo que eu dava era penoso, como se estivesse tentando me manter ereto enquanto adentrava cada vez mais o oceano. Quanto mais longe ia, maior o risco de me afogar. Embora eu estivesse disfarçado, sentia-me reconhecível, deslocado, como uma flor em um cesto de frutas.
Cumprimentando as pessoas com um gesto de cabeça quando necessário, segui a passos lentos até o bar. Quando o homem perguntou o que poderia me servir, olhei para ele calado por um momento e então disse:
— Só uma água, por favor.
Ele deslizou em minha direção um copo de água com gás e eu me sentei, bebericando a água enquanto examinava o salão. Nilima foi a primeira pessoa que reconheci. Ela entrou na festa em um lindo vestido. Seu sorriso estava radiante ao tomar o braço de um homem alto que me pareceu vagamente familiar. Arquejei ao me dar conta de quem era — o irmão de Anamika, Sunil. Ele parecia tão alegre quanto ela e muito mais à vontade do que eu esperaria, considerando-se que era de outra época.
Olhando à minha volta, reconheci os pais adotivos de Kelsey e alguns funcionários das Indústrias Rajaram. Continuando a bebericar minha água, fiquei estudando Nilima e Sunil. Habilmente, ele mantinha à distância todos os homens que queriam dançar com Nilima. Sua expressão dura quando alguém se aproximava era bem eficaz. Vê-la fazer cara feia para ele e se inclinar para lhe passar um sermão era gratificante. Sorri, feliz por Nilima, ao que tudo indicava, ter encontrado alguém e torci para que, quando contasse a Ana, ela também ficasse contente.
A despeito de meu interesse por eles, eu não estava ali para vê-los. Uma espécie de expectativa sufocante, um nó no estômago, tomava conta de mim. Quando o barman perguntou se eu queria mais água, fiz um breve sinal afirmativo com a cabeça. Um fio de suor desceu pela minha nuca e puxei o colarinho, me sentindo abafado.
Então, de repente, a música parou e uma nova canção começou — uma linda canção que eu lembrava que Ren havia escrito para Kelsey. Meu coração se partiu. Quase como se fosse uma só criatura, a multidão à espera virou-se para a porta de entrada. Antes que eu pudesse me preparar, lá estavam eles. Os convidados do casamento aplaudiram quando o casal entrou no salão. Ren estava radiante e acenou enquanto guiava, orgulhoso, sua agora esposa. Ele estava muito elegante em sua túnica sherwani, o cabelo escuro penteado para trás, mas Kelsey era uma visão de tirar o fôlego.
Assim que meus olhos a encontraram, não consegui mais desviá-los. Toda a luz no salão parecia voltar-se para ela, emoldurando seu rosto lindo. Minha boca ficou seca e tive de lutar para respirar. Juntos, os dois começaram a percorrer o salão, recebendo os cumprimentos dos convidados.
Por dentro, eu era um homem atormentado — os dentes e as garras do tigre arranhavam e mordiam, ávidos por se libertar e atacar meu rival. Por fora, estava frio e anestesiado, derretendo lentamente como a neve ao sol. A melodia alegre e vivaz passou por mim, sem encontrar nada em que se agarrar. E eu me mantive ali sentado, imóvel, como um homem que tivesse acabado de perder tudo.
Meus olhos grudaram-se neles. Nas costas de Ren, onde a túnica sob medida colava-se a seu corpo de guerreiro. Em seu rosto, que parecia confiante, feliz, cheio de vida. E então meus olhos de tigre amarelo-dourados, ocultos atrás de um par de óculos de lentes escuras, buscaram aquela que eu ainda amava. Ela era uma chama brilhante em seu vestido branco e a ternura de vê-la de noiva atravessou meu peito e derreteu meus ossos.
Eles vinham em minha direção e fiquei ali sentado, imóvel e mudo como uma estátua, simplesmente fitando-os à medida que iam se aproximando, até pararem diante de mim. Minha boca ficou seca e parei de respirar.
Ren estendeu a mão e disse:
— Obrigado por ter vindo.
Abri os lábios para responder, mas descobri que não era capaz. O máximo que consegui fazer foi um breve aceno de cabeça. Ele inclinou a cabeça, como se fosse dizer alguma coisa, e pensei, por um segundo de pânico, que talvez ele tivesse descoberto meu disfarce. Quem sabe, reconhecido meu cheiro. Mas não, ele não tinha mais essa habilidade. Era triste pensar em Ren como um simples humano. Mas fora o que ele quisera. Ele nunca aceitara o tigre como eu.
Alguém chamou sua atenção e os olhos de Ren desviaram-se de mim. Por fim, deixei escapar o ar que estava contendo. Então inspirei fundo. Pêssegos e creme. Ela estava diante de mim. Perto o bastante para eu abraçá-la. Perto o bastante para eu beijá-la. Seus suaves olhos castanhos piscaram e os lábios abriram-se em um sorriso doce e acolhedor.
Tê-la tão perto, seu cheiro me envolvendo, era como a chuva na terra ressequida. Absorvi cada segundo. Quando ela me estendeu a mão, eu a segurei delicadamente e apenas a retive. Ela apertou minha mão e então escorregou a dela, desprendendo-se. Era como se alguém houvesse roubado o sol. Kelsey e seu calor tinham me deixado. Cada passo que ela dava, aumentando a distância entre nós, era como uma gota de veneno que ia lentamente penetrando em minhas veias.
A voz de Nilima ecoou quando ela falou em um microfone:
— Os noivos agora terão sua primeira dança!
Os convidados aplaudiram e um bochicho se seguiu, com comentários sobre o casal, a comida e a decoração requintadas, a beleza da noiva. Meu corpo ardeu em chamas como uma árvore seca em um incêndio quando ouvi algumas jovens invejosas dizerem que Ren não havia se casado com alguém à sua altura. Mordi o lábio até sentir gosto de sangue e de sal.
Nesse momento, porém, eles começaram a dançar.
Quase involuntariamente, meus olhos os seguiram enquanto eles evoluíam pelo salão. Os dois se moviam em absoluta harmonia — Ren, charmoso e confiante, com a mão pousada nas costas de Kelsey. Sua noiva encantadora só tinha olhos para ele. Seus dedos enroscaram-se nos cabelos da nuca dele e Ren inclinou-se para encostar os lábios em seu ouvido e sussurrar algo. A multidão se imobilizou, tão hipnotizada pelo amor evidente entre o casal quanto eu.
Eles estão felizes.
O pensamento me veio, espontâneo e indesejável. Eu o afastei, como se fosse tóxico. Eu sabia que eles estavam, mas precisava ver. Eu havia esperado que pôr os olhos nos dois no auge de sua felicidade conjugal exerceria uma espécie de magia. Reforçaria minha determinação. Me ajudaria a superar isso. A superá-la. Mas foi justamente o contrário. Ren estava ficando com meu “felizes para sempre”. Eu não o culpava por querer isso. Mas eu merecia tanto quanto ele.
O tempo passou enquanto eu curtia meu ressentimento. Então Ren e Kelsey se separaram. Ele tirou Nilima para dançar, enquanto Kelsey dançava com Sunil. Os garçons, carregando bandejas com deliciosos hors-d’oeuvre, paravam e ofereciam, mas eu os dispensava com um gesto irritado.
Outra música tocou e Kelsey passou de um parceiro a outro. Quase sem pensar, levantei-me e endireitei o paletó. Determinado, avancei e esperei minha chance. Quando a música mudou novamente, parei diante dela, pegando sua mão e fazendo uma reverência.
— Pode me conceder a próxima dança, jovem? — perguntei.
— Sim — ela respondeu, simpática. — Obrigada pela honra.
— A honra é minha.
A música começou e, embora eu tentasse me lembrar de que estava representando um papel, me vi totalmente perturbado com a proximidade dela. Deixei minha imaginação soltar-se e sonhei que era o dia do nosso casamento, que eu era o noivo. Que ela havia jurado ser minha, não de meu irmão. Fechei os olhos e revivi um beijo doce que tínhamos partilhado tantos meses antes.
Como era possível que ela estivesse tão perto e ao mesmo tempo tão longe de mim? Ela não pressentia que era eu? Será que pensava em mim? Que sentia minha falta? Que se arrependia de ter me deixado para trás?
Olhando dentro de seus olhos, não vi ali qualquer dúvida. A música já estava na metade e eu nem mesmo havia falado com ela. Meus dedos pressionaram sua cintura e eu disse:
— Senti muito quando soube do falecimento do irmão e do avô de seu noivo.
Seus olhos baixaram e então retornaram a meu rosto.
— Obrigada. Foi uma perda imensa. Nós gostaríamos muito que eles estivessem aqui conosco hoje.
— Talvez estejam — retorqui baixinho.
Ela não respondeu, apenas me dirigiu um sorriso agradecido e um aceno de cabeça.
— Há quanto tempo o senhor trabalha para a empresa? — perguntou Kelsey, educadamente mudando de assunto.
— Não muito — respondi. — Foi gentileza do seu noivo me convidar. — Procurando desesperadamente algo para falar antes que ela me pedisse mais detalhes sobre meu suposto trabalho, eu disse: — As flores são lindas.
— Sim. Nilima cuidou de todos os detalhes.
— Ela até incluiu as suas favoritas — mencionei. Quando ela franziu a testa e inclinou a cabeça, apressei-me a acrescentar: — Fui incumbido de lhe enviar flores uma vez, muitos meses atrás.
— Ah — disse ela, aceitando minha tentativa pouco convincente de corrigir o deslize.
Kelsey olhou por sobre meu ombro e sorriu. Era a expressão mais deslumbrante que eu já vira. Minhas narinas se dilataram. Ren estava perto. Ela jogou um cacho do cabelo para trás e um brilho em seu pescoço capturou meu olhar. Reconheci a forma do Mangalsutra e soube o que era — um presente que o noivo tradicionalmente oferece à noiva no dia do casamento. Mas não foi isso que chamou minha atenção.
Dois cordões, um dourado e outro azul, enroscados um no outro. Diamantes e flores de safira desciam pela extensão das correntes, mas no centro havia um diamante em formato de gota cercado por pétalas de flores de lótus feitas de rubi. Era o anel que eu dera a ela. A lágrima era de Kelsey. Durga a tinha transformado em diamante e os rubis haviam sido lapidados da pedra grande que eu ganhara na casa de cabaças, quando estivemos juntos em Shangri-lá.
Passei a língua pelos lábios.
— Seu... seu Mangalsutra. Conheço um pouco da tradição, mas nunca vi um tão original quanto este. Me diga, o que ele simboliza?
Sua mão foi até o pescoço para tocar a flor de lótus.
— Este foi um presente do irmão de Ren. Eu o uso para me lembrar dele.
— Ah, entendi — eu disse. — Esqueci o nome dele.
— Kishan. O nome dele era Kishan.
Procurei alguma coisa em seu rosto, qualquer coisa. Arrependimento. Dor. Saudade. Mas tudo que vi foi um abrandamento. Uma paz.
— Não é, hã, tradicional que a noiva use alguma coisa para ajudá-la a se lembrar do noivo? — Ri, tentando fazer minha pergunta parecer casual, mas ela soou forçada, até mesmo para mim.
— É — ela reconheceu. — Mas foi ideia de Ren. Nós dois queríamos homenageá-lo. Se ele não tivesse sido tão altruísta, não estaríamos juntos hoje.
Um nó grande o suficiente para me asfixiar cresceu em minha garganta. Eu temia que minhas emoções estivessem estampadas em meu rosto. Olhei para a sombra que lançávamos ao dançar e tive a súbita noção de que minha presença era uma mortalha estendida sobre os alegres festejos.
— É visível que você sente a falta dele — comentei.
— Nós sentimos — acrescentou ela, os olhos marejados.
Como posso fazer isso com ela? Nada menos que no dia de seu casamento! Ela se lembrava de mim como uma pessoa altruísta, abnegada. No entanto, ali estava eu tentando arruinar aquele que devia ser o momento mais feliz de sua vida. Da vida de ambos. Meus ombros se curvaram e tive a sensação de que minha vergonha era uma gravata apertada demais.
Fiquei em silêncio pelo restante da música, apenas deslizando pelo salão, memorizando a sensação de tê-la nos braços. Ren nos encontrou ao final e, no momento em que eu a entregava a ele, meus olhos se encontraram com os de outra mulher. Estava disfarçada, mas não fizera um trabalho muito bom. Ela se destacava na multidão como um pavão em meio a pombos.
Com um cumprimento de cabeça para Ren e um rápido obrigado a Kelsey, atravessei a multidão e peguei Anamika pelo braço.
— O que é que você está fazendo aqui? — sibilei enquanto a puxava para um corredor na penumbra. Era apenas a presença de outras pessoas que a impedia de afastar o braço bruscamente de mim.
— Kishan? — Ela franziu a testa e examinou meu rosto, esfregando o braço como se eu a tivesse contaminado com germes.
Eu havia aprendido sobre germes com Nilima, que sempre levava consigo um frasco com uma espécie de líquido para evitar doenças. Germes não me preocupavam, é claro, e eu duvidava que a deusa tivesse ideia do que fossem germes, posto que eu nunca tinha me dado o trabalho de lhe explicar.
— Quem mais seria? — perguntei, irritado e um tanto ofendido que ela quisesse limpar vestígios de meu contato.
— Você está tão... velho — disse ela, seu rosto bonito se transformando em uma careta.
— É mesmo? E você está tão... loura — concluí, puxando um longo cacho de cabelos louro-avermelhados. — Ren pode não ter mais o mesmo olfato, mas posso lhe garantir que os olhos dele ainda funcionam. Mesmo loura, eles a reconheceriam a quilômetros de distância. O que você está fazendo aqui? E por que está vestida... assim?
— Eu ia fazer a mesma pergunta a você! — replicou ela com rispidez.
Seus olhos pareciam espadas enferrujadas, suficientemente afiadas para causar danos e, ao mesmo tempo, cegas o bastante para causar mais dor do que o necessário.
Ignorei a fúria com que ela me fuzilava e examinei sua roupa. A seda fluida de seu vestido de alças colava-se a seu corpo como a espuma à praia. Eu havia pensado que seu vestido verde de caça era perturbador, mas o modelo azul-claro que ela usava agora era devastador. O decote era profundo. Mais profundo do que qualquer coisa que eu tivesse visto Kelsey ou Nilima usarem. E a fenda na lateral expunha quase toda a perna.
Engolindo em seco, recuei um passo. Não sabia nem como ela tinha chegado ali, muito menos vestida como estava. A lua brilhava através da janela, iluminando a pele dela com raios de alabastro, e eu enxuguei o fio de suor que escorria em minha têmpora. Com os cabelos louros, ela parecia Afrodite emergindo do mar. Levei a mão à nuca, pensando por onde começar.
Ela cruzou os braços e me olhou, séria, mas meus olhos desviaram-se dos dela porque fui distraído pela maneira como o movimento fazia seu peito subir e descer. As curvas arredondadas de seu corpo, inteiramente exposto, em minha opinião estavam à mostra como pérolas cintilantes para todos os homens na festa. Tirei meu paletó e o estendi.
— Tome, vista isto.
— Não. Seu paletó não combina com meu vestido.
— Não combina com seu... — Eu me vi olhando-a novamente e sacudi a cabeça para clarear a mente. — Ana, agora não é hora de discutir comigo. Vista. Você está praticamente nua.
— Eu não estou nua — resmungou ela enquanto se cobria com meu paletó. — Além disso, seu paletó é quente demais.
— Olhe, o que você está usando é... é inadequado.
Anamika olhou o próprio corpo e franziu a testa.
— Mas há muitas mulheres na festa vestidas da mesma maneira.
— Sim. Bem... talvez seja verdade.
Havia? Se houvesse uma mulher vestida daquele jeito, eu teria notado. Pelo menos acho que teria.
— É verdade. Copiei exatamente o vestido de uma mulher. Só a cor é diferente — disse ela.
— É? — Esfreguei o rosto com a mão. — Olhe, mesmo que você esteja certa, está muito... muito... — Agitei a mão na direção de seu corpo, deslizando-a em círculos para indicar seu cabelo. — E seu rosto está excessivamente... — Meus ombros se curvaram. — Ana, você não pode usar vestidos assim.
— Por que não? — insistiu ela, pondo as mãos nos quadris.
Soltei um gemido e fechei os olhos.
— A cor é... feia?
— Não, a cor é... está ok — respondi. — É muito... — Fiz uma pausa e meus olhos se fixaram em seus lábios cheios. — ... atraente — concluí.
— Então me diga o que há de errado com ele para que eu possa corrigir no futuro — disse ela baixinho. — Eu preciso aprender.
Seu comentário inocente me desarmou e consegui recuperar minha autoconfiança. Era por isso que ela precisava de mim. Eu era seu guia em um mundo que ela não compreendia.
— Ana, você é uma mulher muito bonita. Claro que você sabe disso.
— Eu... — gaguejou ela, dando um passo para trás, subitamente hesitante. — Eu sou uma deusa.
— Sim, mas também é uma mulher. Você já era uma mulher linda antes de ser deusa.
— Mas estou disfarçada aqui. Eles não me conhecem.
— Essas pessoas podem não ver a deusa Durga quando olham para você, mas ainda assim verão uma deusa. — Segurei seu ombro e o pressionei, em um gesto tranquilizador, oferecendo-lhe um sorriso fraternal. — Nesta época, como em muitos outros séculos, algumas pessoas veem a beleza e desejam possuí-la, mesmo que a beleza não deseje ser possuída. Você compreende?
Ela inclinou a cabeça para me estudar.
— Então você quer que eu fique velha e feia como você — disse ela, arquejando em seguida. — Tem alguma mulher aqui que deseja possuí-lo? Me mostre onde ela está e eu vou lá para dizer que você não está ao alcance dela!
— Não, Ana. Não tem ninguém aqui que me deseje.
Sua carranca transformou-se em sorriso.
— Suponho que não. Nenhuma mulher quer dar comida na boca de um companheiro velho e doente.
Os cantos da minha boca se levantaram e eu estava prestes a refutar seu comentário quando seus olhos se arregalaram e ela ofegou. Virei-me e praguejei baixinho quando vi Nilima de braço dado com Sunil. Ele a acompanhou até o elevador e pressionou um botão. Nilima fez uma observação sobre ele finalmente ter aprendido a apertar os botões e estava prendendo uma mecha de seu cabelo escuro atrás da orelha quando os olhos dele se acenderam.
Estreitando a distância entre eles, Sunil deslizou a mão pela curva do pescoço da jovem e baixou a boca até a dela, vacilante a princípio, e em seguida a puxou contra ele, posicionando seus lábios mais fortemente sobre os dela. Os braços de Nilima deslizaram em torno da cintura dele e nenhum dos dois percebeu quando o elevador apitou, abriu e tornou a fechar as portas.
— Sunil — murmurou Anamika, a voz embargada, e, antes que ela pudesse passar por mim e se aproximar do irmão, eu a abracei e nos tornei invisíveis. Com suas curvas exuberantes firmemente pressionadas contra meu corpo, eu nos conduzi através do tempo, suas lágrimas molhando minha camisa.

Um comentário:

  1. Deve ser um saco poder ver as pessoas que você ama mas não poder ser capaz de dizer à elas que é você...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!