11 de setembro de 2018

7 - O conto de um tigre

Deslocando-me através do tempo e do espaço, concluí que a maneira mais segura de rastrear Kadam era encontrar Phet. Eu sabia a data em que Ren e Kelsey tinham entrado em minha floresta, à minha procura, para que eu os ajudasse a quebrar a primeira parte da maldição, portanto segui para a cabana de Phet... hã... de Kadam, escondida entre as árvores, e deixei o tempo fluir para trás até ver Kelsey e Ren. O poder precipitou-se sobre mim em um jorro quando parei o tempo e deixei que ele progredisse normalmente outra vez.
Kelsey e Ren, em sua forma de tigre, deixaram a cabana e seguiram pela selva enquanto Phet lhes acenava adeus e os encorajava em sua jornada com sua voz cantada. A fumaça saía preguiçosamente da pequena chaminé no telhado enquanto ele os observava se afastar. Quando desapareceram, o estranho meio sorriso desapareceu de seu rosto e ele endireitou as costas até parecer mais Kadam com o rosto de Phet.
Embora ele ainda usasse o disfarce do pequeno xamã, reconheci a expressão cansada. Era como ele estava nas últimas semanas que antecederam sua morte. Engoli em seco, sentindo um nó na garganta enquanto me lembrava dos últimos dias de meu mentor. Como ele devia ter se sentido solitário ao executar seu trabalho sem ter ninguém com quem confidenciar. Ele tornou a entrar na cabana e eu saí de meu esconderijo, tomando o cuidado de não fazer barulho para que Ren não me ouvisse e se virasse para trás.
Phet reapareceu na porta com uma gaiola, que abriu, encorajando o passarinho ali dentro a retornar para as árvores, mas a avezinha não se movia. Ele ainda não tinha me visto.
— Parece que ele prefere ficar engaiolado — eu disse baixinho da lateral da cabana.
Phet, não... Kadam voltou os olhos arregalados em minha direção.
— O que está fazendo aqui, filho?
— Procurando você. Preciso da sua ajuda.
Ele olhou para as árvores, na direção em que Ren e Kelsey tinham acabado de partir.
— Entre então — disse ele. — Rápido. Não quero que eles nos ouçam.
Abaixei-me, seguindo-o para o interior da cabana, e sentei-me em uma cadeira familiar.
— Então — eu disse, sem saber direito por onde começar. — Esta construção esteve sempre aqui ou foi você que a criou?
Após apoiar a gaiola com o pássaro e deixar a porta aberta para que ficasse livre, ele fechou as cortinas finas da cabana e acendeu uma segunda vela. Não demorou para que eu ouvisse o murmúrio de tecido. Quando ele se sentou, o monge havia desaparecido e em seu lugar estava o homem que guardava mais segredos do que qualquer um deveria ter de suportar.
— Um homem viveu de fato aqui uma vez. A estrutura estava intacta — disse ele. — Eu só acrescentei o suficiente para fazer parecer que alguém vivia aqui no momento.
Ele virou-se para trás, pegou uma chaleira e me serviu uma xícara de chá fragrante, então pôs um prato de biscoitos rústicos entre nós, esfarelando a ponta de um deles e salpicando-a na mesa.
O pássaro foi até ali e começou a comer.
— Como posso ajudar? — perguntou.
Kadam parecia mais necessitado de ajuda do que eu.
— Você está cansado — eu disse, talvez um tanto bruscamente demais.
— Há muito que fazer antes que meu esqueleto possa descansar.
— Quanto tempo lhe resta? — indaguei baixinho.
Ele optou por não responder. Em vez disso, levou a xícara aos lábios e bebeu, pensativo, olhando para mim brevemente acima da borda da xícara. Por fim, pousou-a na mesa e disse:
— O tempo é uma coisa engraçada, não é, Kishan?
— Sim — admiti, bebendo da minha xícara. — Pressinto que suas horas restantes são poucas.
— Você deve estar correto, motivo pelo qual deve me dizer o que veio falar.
Deixei escapar um suspiro pesado.
— Muito bem. Capturamos Ren. O segundo item na sua lista.
— Ele está bem de saúde?
— Está ileso.
— Então qual é a questão?
— Simplesmente não sabemos para onde os caçadores devem levá-lo. Essa informação não estava incluída em sua lista. Sugeri aos homens que um rico mercador chamado Anik Kadam poderia estar interessado.
— Então ele estará.
Assenti rigidamente.
— Ótimo. Iremos quando você estiver pronto.
— Você me entendeu mal. — Kadam pousou a xícara na mesa, ergueu uma colher e mexeu bem devagar o líquido restante. Parecia muito velho naquele momento. Mais do que qualquer coisa, eu queria que ele confiasse em mim. Que me ajudasse a aliviar seu fardo. — Não posso acompanhá-lo — disse ele.
— Então... o que você quer que a gente faça?
Ele me fitou e em seus olhos vi o reflexo da eternidade.
— Não cabe a mim instruir vocês — declarou.
Confuso, perguntei:
— Mas não é isso que você vem fazendo todo esse tempo?
— Sim e não. — Kadam sorriu, mas era apenas o eco de um sorriso verdadeiro... um frágil fingimento que parecia errado em seu rosto.
— Acho que não estou entendendo — repliquei.
— A lista que dei a vocês dois cabe a vocês seguir. Se eu interferisse de alguma forma, poderia atrapalhar a maneira como as coisas devem acontecer.
— Você já não interferiu ao nos dar a lista, para começo de conversa?
Kadam sacudiu a cabeça.
— Dar a lista a vocês era algo que eu deveria fazer. Ajudá-los a executar as tarefas ali descritas não. — Seu tom era quase ríspido, um contraste gritante com seu comportamento normal.
Levantando-se abruptamente, ele me deu as costas, guardou com cuidado o chá na prateleira arqueada e se ocupou lavando nossas xícaras e em seguida secando-as. Então me pus de pé para ajudar e trabalhamos em silêncio por um tempo.
Quando ele começou a revirar uma pilha de pergaminhos macios, claramente me ignorando, eu disse:
— Me... me desculpe se estou pedindo muito de você.
Os ombros dele curvaram-se e, devagar, ele virou-se para me olhar, arrependido.
— Não, filho. Sou eu que peço desculpas. É difícil para mim navegar as vias do tempo, como venho fazendo. Estou subjugado à visão do futuro e à perspectiva do passado. As horas passam rápido demais e a dor aguda de saber mais do que eu deveria entorpece minha mente e meu coração. Me perdoe.
— É claro. — Pus a mão em seu ombro. Seu corpo, antes forte, pareceu frágil sob meus dedos. — Farei como você achar melhor — eu disse. — Vamos tentar resolver isso sozinhos da melhor maneira possível. Se preferir que eu não o visite mais, embora isso vá me entristecer, assim o farei.
Ele deu um suspiro profundo e os cantos de seus olhos se franziram.
— Embora eu não vá encorajá-lo a fazer isso, se você optar por cruzar seu caminho com o meu novamente, não consideraria isso prejudicial.
Sorri para ele, tentando mostrar que estava confiante, embora nunca tivesse estado mais distante disso.
— Então eu o verei de novo.
Assentindo, ele deslizou o polegar sobre um dos olhos. Kadam nunca fora do tipo que demonstra suas emoções abertamente. Nem mesmo quando meus pais morreram.
Ele me estudou por um momento e disse:
— Devo enfatizar três coisas: uma, não cruze o próprio caminho.
— Sim, você me disse que o universo implodiria.
Ele se sobressaltou.
— Isso não é bem verdade.
— Ah, é? O que acontece então?
— Você seria sugado por seu eu passado. Quando isso acontece, separar-se de seu passado é praticamente impossível. Não corra esse risco.
— Como é que você sabe disso? — perguntei baixinho.
— Vamos dizer apenas que cometi o erro de ir a meu enterro. Mesmo então, depois que minha alma já havia deixado minha forma mortal, fui puxado de volta para mim. Não é algo que eu desejaria a ninguém.
— Entendo — repliquei. — Quais são as outras duas coisas que você queria me dizer?
— Sim. Segunda: não deixe Anamika andar por aí sozinha. Ela precisa de você. Há ocasiões em que ela se deixa levar por sua cabeça forte e seu coração mole, e existem pessoas dispostas a se aproveitar disso. Cuide dela. E por último... — Ele se virou, enrolou um pergaminho, amarrou-o com um cordão e o entregou a mim. — Quando você entrar em pânico e não conseguir encontrar quem procura, abra isto. Saberá quando chegar a hora certa.
Peguei o rolo de papel e assenti. Eram Ren e Kelsey que gostavam de ficar horas decifrando profecias, não eu. Eu preferia caçar a ler. As instruções vagas e a ideia de que eu ainda tinha outra busca para completar, dessa vez sem Kadam, Ren e Kelsey, eram desanimadoras. No entanto, eu não queria que ele soubesse quão desesperado me sentia. Com um aperto em seu ombro, eu disse adeus e me preparei para ir, mas ele então me deteve.
— Somente desta vez, vou ajudar. Procure um homem chamado Vanit Savir. Ele é um mercador honesto com quem trabalhei por muitos anos. Não mencione meu nome, pois naquela época eu ainda não o conhecia, mas ele vai ajudá-lo a colocar Ren em uma boa casa. Além disso, não se esqueça de tirar de Ren a capacidade de se transformar.
— Eu... eu posso fazer isso? — gaguejei.
— Sim. Você fez. Você fará. Não duvide.
Esfregando a nuca, assenti. Tenho certeza de que a confusão que eu sentia estava evidente em meu rosto. Abrindo a porta, parei na soleira, me perguntando que outras surpresas esperavam por mim e por Ana.
— Ah, e antes que você vá...
— Sim? — Eu me virei da porta de entrada aberta.
— Você pode levá-lo com você? Acho que ele sente falta da dona.
— O pássaro? — perguntei. — Quem é o dono? — Ele não respondeu de imediato, mas foi até a gaiola, arrastando os pés, fez o pássaro entrar e trancou a porta. Lentamente compreendi. — Ah, Kelsey uma vez mencionou isso. Ele é de Durga.
— Sim. Ela cuidou dele desde o ovo e o alimentou à mão.
— Quando?
— Isso importa?
Dei de ombros, desconfortável com a ideia de que Ana ainda não havia sequer encontrado o ovo desse pássaro, e peguei a gaiola.
— Ele está velho agora — prosseguiu Kadam, me acompanhando até a porta. — Pensei que iria poupá-la de sua morte, mas parece que ele quer olhar o rosto dela quando deixar este mundo.
Observando atentamente o pássaro, que virava a cabeça de um lado para outro enquanto falávamos, eu disse:
— Acho que não posso culpá-lo por isso.
— Sim. — Kadam me fitou com seus olhos demasiado sábios, então olhou para baixo, murmurando: — É apropriado estar perto daqueles que você ama ao deixar este mundo.
Assenti, sem saber o que dizer, e ele pegou minha mão e a apertou com firmeza. Pude sentir o tremor em seus dedos. Ele fez um gesto afirmativo com a cabeça e disse:
— Melhor voltar agora.
Então, com um breve aceno, usei o poder do Amuleto de Damon para me levar de volta a Anamika no passado.
Quando cheguei ao lugar e ao tempo em que a deixara, tomando o cuidado de me dar algumas horas a fim de não causar o colapso do universo ou correr o risco de adentrar de vez meu passado ao esbarrar em meu antigo eu, já era noite. O céu acima das árvores estava escuro e salpicado de estrelas. Os galhos pesados das árvores moviam-se com o vento forte. Seu rangido significava que uma tempestade estava a caminho.
Tirei o pássaro da gaiola e lhe dei uma última chance de partir, mas, em vez disso, ele voou para o bolso de minha camisa e se enfiou ali. Gentilmente, acariciei seu corpinho quente e joguei a gaiola entre as árvores.
— Muito bem, então — eu disse. — Vamos procurar a sua dona.
Só levei alguns segundos para localizar o cheiro de Anamika. Sua trilha mal era perceptível. Mas, como ela obviamente estava seguindo os caçadores, peguei a rota mais fácil e segui o caminho que eles haviam percorrido através da selva. Duas horas depois, eu estava agachado junto à orla da floresta, tentando decidir se deveria seguir para a cidade e encontrá-la ou se deveria esperar até o amanhecer.
A tempestade decidiu por mim. Ela desabou e a brisa que havia refrescado a selva me perseguiu com um dilúvio que me encharcou em um instante. Segui para a cidade e fui atrás do cheiro de Anamika até ele terminar em um beco entre edifícios. O local cheirava a podridão.
— Ana? — sibilei. Ao não obter resposta, um arrepio de preocupação percorreu meus nervos. — Ana! — tentei mais uma vez.
— Estou aqui — respondeu uma voz irritada.
Estendi a mão na escuridão, tateando loucamente até meus dedos tocarem seus cabelos sedosos, e então cheguei mais perto. Meu pulso foi envolvido por uma mão e uma deusa carrancuda emergiu das sombras. A Corda de Fogo era um cinto dourado preso em sua cintura e o Lenço Divino estava amarrado em seu pescoço. Amaldiçoei o fato de não termos trazido nenhuma de suas armas.
— Você está machucada? — perguntei, correndo as mãos por seus ombros e braços.
— Tire as mãos de mim — resmungou ela, empurrando meus braços para longe. — Não estou machucada.
— Eu deveria ter deixado o kamandal com você, por via das dúvidas — afirmei.
— Aqueles caçadores não são páreo para mim — desdenhou ela —, mesmo apenas com minhas habilidades de mortal. Eu nunca corri perigo, Kishan. A menos que você considere perigosos os ratos vasculhando o lixo neste beco.
— Ter cautela nunca é demais — repliquei.
Inclinando a cabeça, os olhos verdes cintilando na escuridão, ela me estudou.
— O que há de errado com você? — perguntou, perspicaz. — Está nervoso. Aconteceu alguma coisa com nosso professor?
— Não. Sim. Bem, vai acontecer. E logo. Ele está... — Corri a mão pelos cabelos. — Ele está tão cansado... Está perto do fim, eu acho.
Ela assentiu, séria.
— Ele concordou em nos ajudar, então?
— Concordou. Mas estamos por nossa conta depois disso. Explicou que não pode nos ajudar com o que vem depois na lista, mas pôde me dar algumas sugestões para esta situação em particular.
Contei a ela tudo que tinha se passado entre mim e Kadam. Ela ouviu com atenção, mordendo o lábio enquanto sua mente trabalhava.
Quando acabei, ergueu o queixo, indicando com o gesto o edifício do outro lado da rua.
— Os caçadores se reuniram lá dentro. Acredito que estejam consumindo bebidas alcoólicas. Ren está sendo mantido alguns prédios adiante com os outros animais. Ele está em segurança por ora. O jovem que você personificou foi enviado para encontrar Anik Kadam, o comprador do tigre, mas fugiu, pois não conhece tal homem. Seu desaparecimento nos dá uma oportunidade.
— Concordo. É pouco provável que o esperem de volta antes de amanhã. Quer voltar para casa e descansar até lá? — perguntei.
Anamika sacudiu a cabeça.
— Prefiro ficar perto de Dhiren até termos certeza de sua segurança.
Pisquei.
— Sim, é claro. Então parece que precisamos providenciar nossas acomodações para esta noite. Espere aqui. Volto logo.
Seguindo na direção do barulho abafado vindo do prédio, abri a porta e entrei. Levei apenas um instante para localizar o estalajadeiro e perguntar sobre a possibilidade de alugar um quarto. Quando mencionei que precisaria de dois, um para mim e outro para minha irmã, os caçadores apuraram os ouvidos. Os poucos comentários imorais que ouvi fizeram com que eu me recriminasse. Homens eram homens, independentemente do século, e homens como aqueles estavam sempre à procura de encrenca.
Quando o proprietário pediu o pagamento, fiquei paralisado. Assegurei-lhe que, se pudesse reservar os quartos, seria bem remunerado. Seus olhos se estreitaram e ele examinou minha roupa e meus pés descalços. Então me informou que só restava um quarto e ele só seria meu se eu apresentasse uma quantia que eu sabia ser bem superior à que ele pedira aos outros.
Assentindo, fui buscar Ana. Ela usou o poder do amuleto para extrair moedas e pedras preciosas da terra. Eu havia esquecido que tínhamos essa habilidade, embora tivesse visto Lokesh usá-la para tirar uma espada havia muito enterrada no solo. A própria espada, na verdade, que ele usara para matar Kadam.
Ela me entregou os tesouros cobertos de terra e fez cair uma chuvarada sobre minha mão. Quando ficaram bem limpos, resmunguei e disse que aquilo seria suficiente, então tentei convencer Anamika a se disfarçar como uma solteirona feiosa, mas ela se recusou, afirmando que não tinha medo dos sujeitos abomináveis e grosseiros e que não havia nada que pudessem fazer para machucá-la.
Acabei concordando, mas, quando entrei com ela na hospedaria, todo o salão ficou em silêncio. Entreguei a fortuna em pedras preciosas, moedas esquecidas e pepitas de metais preciosos ao estalajadeiro, que gaguejou, perplexo. Ele apresentou na mesma hora a chave de um quarto que, eu suspeitava, tinha acabado de ser tirado de um dos caçadores e desculpou-se profusamente por ter apenas um aposento vago.
Com alívio, aceitei a chave oferecida, rangendo os dentes ao ver os olhares maliciosos no rosto dos homens. Segurei Anamika pelo cotovelo. Ela parou e olhou para minha mão e em seguida para meu rosto com as sobrancelhas erguidas. Devolvi seu olhar com outro igualmente significativo e disse:
— Vamos, irmã, vamos acomodá-la. — E inclinei a cabeça na direção da escada. Suas costas estavam rígidas, mas ela colocou um sorriso no rosto e me seguiu.
Quando ela começou a subir a escada, virei-me e disse ao boquiaberto estalajadeiro:
— Importa-se de nos levar o jantar no quarto? Minha irmã está faminta.
Ele assentiu e perguntou se gostaríamos de roupas limpas. Quando lhe disse que não era necessário, isso provocou uma onda de tosse e risadas sufocadas. Eu estava fazendo tudo errado. Passara muito tempo no século de Kelsey. As mulheres eram tratadas de modo diferente no futuro. Quando viajávamos em seu tempo, éramos ignorados na maioria das vezes. Kadam havia sempre cuidado das delicadas interações cotidianas com as pessoas. Ren provavelmente poderia fazer um trabalho bem melhor ao distrair aqueles homens e também seus olhares curiosos. Eu fora um tigre por demasiado tempo. Minha reação instintiva era rasgar e dilacerar.
Dando meia-volta, segui Anamika escada acima e tentei ignorar as vozes dos homens lá embaixo, que se maravilhavam com a beleza dela e se perguntavam por que eu permitia que uma jovem tão linda usasse roupas tão reveladoras. Um deles disse achar que eu não era irmão dela coisa nenhuma e outros sugeriram que eu era um cafetão, e ela, uma nova aquisição que eu havia trazido para a cidade. Levantaram a hipótese de eu estar aberto a negociação.
A simples ideia de uma coisa assim me enfureceu. O poder concentrou-se em meu corpo e eu podia sentir o tigre dentro de mim. Ele rasgava minha pele, querendo puxá-la até as presas emergirem. Meu sangue fervia e os ossos em meu pescoço estalavam. O tigre queria mutilar e destruir, e precisei dar o melhor de mim para contê-lo, embora o fogo que me queimava por dentro implorasse para ser liberado. Agarrei o corrimão da escada com tanta força que a madeira lascou sob minha mão.
Então senti um toque no braço. Anamika havia se voltado e me olhava, preocupada.
— Venha, Damon — disse ela baixinho. — Estou exausta.
Seu toque me acalmou e o tigre se aquietou. Não protestei por ela usar meu nome de tigre, pois naquele momento eu era mais fera do que homem.
Os caçadores lá embaixo ainda falavam baixinho sobre Ana. Eles não sabiam que eu podia ouvir cada palavra que pronunciavam. Cada uma delas era como uma chicotada em minha pele, atravessando minha mente como uma lança na água. Nossos olhos se encontraram e senti o tremor de sua mão. Segurando seus dedos, apertei-os de leve, assenti e então a segui escada acima.
Localizamos nosso quarto e ela caminhou até a pequena janela, abrindo as cortinas para olhar as estrelas. Seus braços estavam cruzados com firmeza diante do corpo quando ela se recostou no parapeito. Tive a sensação de carregar uma pedra no estômago. Por que eu a trouxera aqui? Por que eu agira como um animal, um tolo?
— Me desculpe por assustar você — eu disse estupidamente.
Ela virou-se para mim, os lábios contraídos. E suspirou.
— Não foi você quem me assustou, Kishan. Não pense mais nisso.
Franzi a testa.
— Se não fui eu, então... foram os homens lá embaixo? Você tremia quando me tocou.
Um leve tremor tornou a percorrer seu corpo. Ver uma guerreira como ela tremer por causa das palavras de um homem me enervava.
— Não quero falar disso — disse ela baixinho, me dando as costas mais uma vez.
Houve uma batida na porta e o estalajadeiro fez uma mesura e entrou, trazendo um par de velas e uma travessa coberta. Pousou a travessa e o aroma da comida encheu o pequeno quarto. Então ele usou as tochas que ardiam no corredor para acender as velas. Isso feito, trouxe um balde d’água, uma bacia e algumas toalhas e deixou tudo ali.
— Descansem bem — disse ele. — Me chamem, se precisarem de alguma coisa.
Pude ouvir o inconfundível tilintar de moedas em seu bolso quando desceu a escada.
— Está com fome? — perguntei.
Anamika sacudiu a cabeça e olhou para o céu escuro lá fora. Seu reflexo me mostrava algo muito diferente da deusa que eu conhecia tão bem. Ela parecia... vulnerável. Franzi a testa e então, à semelhança de como ela fazia comigo, deixei-a com seus pensamentos. Nos acomodamos quase fácil demais em nossa rotina padrão.
Nós dois estávamos conectados em um nível íntimo, quase invasivo, mas ainda conseguíamos manter uma distância obstinada do outro. Era quase como se fôssemos duas pessoas com um adversário em comum que haviam chegado a um acordo de apoio mútuo puramente para a autopreservação e para promover nossos interesses.
A chuva forte batia na janela, descendo em riachos que vazavam para dentro do quarto. Anamika emitiu um som irritado e recuou, usando o lenço para criar toalhas, que usou para enxugar a bagunça e enfiar nas frestas da moldura da janela. O quarto ficou abafado, parecendo apertado, já que o ar fora cortado. A umidade tomou conta do cômodo, acentuando os cheiros azedos e meio apodrecidos associados com a taverna. Era um eficaz supressor de apetite.
Deixando a maior parte da refeição, levantei-me e disse a Ana que estaria lá embaixo se ela quisesse aproveitar a oportunidade para se lavar dos odores do lixo em decomposição de lá de fora e tirar a poeira do rosto. Era para soar como uma piada, mas foi de muito mau gosto. A dor em seus olhos me atingiu como um soco no estômago. Sua reação normal teria sido me pôr para fora e bater a porta na minha cara, mas alguma coisa nesse lugar a incomodava.
A princesa de gelo empertigada e com um brilho desafiador nos olhos havia desaparecido. Em seu lugar estava uma mulher cujas emoções estampadas no rosto eram tão tensas que me perguntei se elas arrebentariam se eu a tocasse. Eu só vira Anamika chorar uma vez, quando seu irmão partira. Foi o tremor de seu lábio inferior vermelho-cereja que acabou comigo.
Bati a porta às minhas costas. Sombras escuras e densas me seguiram quando desci os degraus. Ao chegar à base da escada, não pude tolerar a presença dos outros homens, embora eles estivessem calados, a maior parte fitando suas bebidas com os olhos desfocados. Saí. A noite estava pesada e quente, a chuva, irritante ao escorrer entre meus cabelos e pingar por dentro da gola da camisa. Andei de um lado para outro, meus músculos tensos e clamando por uma briga.
O cheiro terroso do solo era familiar e deveria ter me acalmado, mas eu ficara mal acostumado vivendo nas gramas doces da casa da deusa. O aroma de rosas e jasmins lá fazia cócegas em meu nariz enquanto eu dormia e meus sonhos eram quase sempre agradáveis. Mesmo quando Kelsey aparecia neles, eram sonhos felizes, contentes, não os pesadelos que eu tinha antes.
Kadam queria que eu aceitasse o papel de tigre de Durga, que considerasse a maldição uma dádiva. Mas, para mim, fora uma punição, bem-merecida por eu ter permitido que Lokesh matasse Yesubai. Quando Kelsey partiu, restou ao tigre a sensação de estar acorrentado.
Ocultando meu cheiro e me tornando invisível, segui para o prédio onde Ren era mantido. Abri a porta e ele ergueu a cabeça. Ele só podia sentir o cheiro da umidade da chuva e das centenas de corpos e animais ali perto; ainda assim, inclinou a cabeça para trás e para a frente, e vi o momento em que percebeu minhas pegadas molhadas.
Durante um tempo, fiquei ali parado, observando-o em silêncio, e então tomei uma decisão e permiti que meu corpo se tornasse visível. Ele estremeceu na jaula, que era muito pequena para que ele se movesse de maneira confortável. Ren grunhiu baixinho, as orelhas deitadas, coladas na cabeça.
Meus olhos dourados encontraram os seus, azuis. Havia tanto que eu queria lhe dizer, tanto que ele precisava ouvir... mas eu não sabia por onde começar, e esse Ren não compreenderia. De repente, tive uma grande empatia com o que Kadam estava passando. Respirando fundo, apertei os lábios, deixei escapar um leve suspiro, avancei alguns passos e abri sua jaula.
Quase com cautela, ele saiu para o solo lamacento e, um instante depois, meu irmão estava parado diante de mim, descalço, com sua roupa branca de costume. Seus olhos me perfuravam como agulhas. Ren falou primeiro, enquanto eu me perguntava por onde começar.
— Quem é você? — perguntou.
Franzi o cenho.
— Seu irmão — respondi.
Ele andou à minha volta, descrevendo um círculo amplo, farejando o ar como um cachorro desconfiado.
— Você não cheira como meu irmão — disse ele. — E eu confio mais no meu nariz do que em meus olhos.
Eu ri nesse momento, mas o riso soou um tanto histérico — uma risada de camisa de força, como Kelsey teria chamado.
— Apesar de tudo, senti sua falta, Ren.
Sua boca se escancarou, mas ele logo disfarçou sua reação.
— Então... irmão... você veio me resgatar?
— Não... não exatamente — falei enquanto roçava a mão sobre minha barba por fazer. — Eu só queria conversar.
— Conversar?
— Sim. Isso vai demorar um pouco, então talvez queira voltar à forma de tigre. Sei que você não tem muito tempo.
Ren franziu a testa.
— Nem você.
— Sim. Bem, sobre isso...
Encontrei um ponto mais limpo no chão e me sentei, descansando as costas na parede. A chuva era pesada o bastante para abafar minha voz no caso de alguém passar, e nós dois tínhamos luz suficiente para nos enxergarmos. Quase com relutância, Ren mudou de volta para a forma de tigre e deitou-se. Não muito perto. E escolheu o espaço entre mim e a porta, para o caso de querer ir embora. Isso não me incomodou nem um pouco.
Respirando fundo, comecei.
Durante horas, despejei minha história para ele. Contei tudo — Kelsey, a maldição, Durga, Lokesh, Kadam, nossos pais, sua transformação em mortal, até o casamento iminente. Seus olhos de tigre mantiveram-se cravados em mim o tempo todo. Se não fosse pelo movimento da cauda, eu poderia acreditar que ele era uma estátua. Quando terminei, a tempestade já tinha passado. O sol nasceria em menos de uma hora.
Dobrei uma perna e descansei o cotovelo no joelho, apoiando a cabeça na mão.
— Sobrecarregá-lo com tudo isso é uma atitude egoísta, eu sei. É que... não sei o que fazer.
Ren se transformou sem que eu percebesse. Sentou-se à minha frente e esfregou as mãos devagar, os olhos fixos nelas enquanto dava forma de palavras a seus pensamentos. Por fim disse:
— Você sempre foi o mais forte.
Minha mão afastou-se do rosto. Olhei para ele, incrédulo.
— Do que você está falando? Você estava me ouvindo?
— É claro que sim. A história que você conta... é... bem, é fantástica. Ela me dá esperança. Você me dá esperança.
— Não era essa minha intenção.
— Não. É que...
— O que é? — perguntei.
Seus olhos azuis se ergueram.
— Você sabe por que meu eu futuro procurou por você na selva?
— Sim. Você queria que eu ajudasse a quebrar a maldição.
— Sim. Claro. Mas devia haver uma parte de mim que estava com medo de fazer isso sem você.
— Isso não me parece certo.
— Mas é. Você foi sempre o corajoso, Kishan.
Sacudi a cabeça.
— Você é o líder, Ren. Não eu.
— Você está enganado. Sim... sim... eu era o diplomata. Aquele que tecia belas palavras para encantar homens ricos, pomposos e obesos, mas você era o guerreiro. Para você, Yesubai foi há muito tempo, mas para mim foi recente. Eu entendi por que ela amava você. Ela enxergava você da mesma maneira que eu. Você estava sempre confortável em ser você mesmo. O favorito de mamãe. O favorito de Kadam.
— Nada disso importa agora. Além do mais, você é corajoso. Você lutou a meu lado, derrotou Lokesh, nos salvou incontáveis vezes. Eu nunca tinha visto você tão concentrado em uma batalha.
Ele baixou a cabeça.
— Eu devo tê-la amado então. Vou amá-la, quero dizer.
Soltei um grunhido.
— Você amou. Ama.
— Mas você também.
— Sim.
Após um momento de tensão, ele perguntou:
— Você vai fazer?
Eu sabia o que ele estava perguntando.
— Lançar a maldição?
Ele assentiu.
— Não sei.
— Bem, então... — Ren se levantou, limpou as mãos na calça branca, sujando-a. — Suponho que é melhor você descobrir. — Ele se virou e andou até a porta, fitando o céu limpo, recém-lavado. Inspirou fundo e disse: — Se ajuda alguma coisa, eu sei que qualquer decisão que você tomar será a correta.
— Como pode estar tão certo?
Ele me olhou por sobre o ombro e me ofereceu um brilhante sorriso branco.
— Porque você é Sohan Kishan Rajaram. — Ren voltou até sua jaula e correu a mão por uma das barras. — Não há razão para você ter de tomar a decisão final esta noite. Parece que há muito mais coisas desagradáveis em meu futuro do que simplesmente ficar em uma jaula.
Levantei-me, segurei seu ombro e o fiz se virar.
— Está me dizendo que quer que eu o venda amanhã? Que providencie o seu cativeiro, do qual você não terá qualquer trégua durante trezentos e cinquenta anos? Que apague a sua memória para que não reste qualquer vestígio desta nossa conversa em sua mente para lhe dar algum conforto?
Ren sacudiu a cabeça e agarrou meu braço, em um gesto familiar.
— Estou dizendo que sou seu na vida, irmão, e seu na morte. Confio em que você irá resolver os pequenos detalhes.
A confiança que ele tinha em mim era inabalável. Meus olhos arderam com lágrimas reprimidas. Que ele estivesse disposto a se entregar assim, mesmo sabendo que seu futuro encerrava torturas, espancamentos e mais sacrifícios do que se deveria pedir a um homem, me fez respeitá-lo ainda mais.
Eu o puxei pelo ombro e o trouxe para mais perto, envolvendo-o em um abraço. Meu corpo se sacudia enquanto eu soluçava. Quando parti, Ren estava em sua forma de tigre, trancado em uma jaula. Eu tirara sua lembrança de nossa conversa e sua habilidade de assumir a forma humana, deixando-o apenas com o sonho de uma garota de cabelos castanhos que um dia o amaria.
Com passos pesados, subi a escada até o quarto compartilhado e encontrei Anamika dormindo na cama. Seu corpo estava encharcado de suor e ela se debatia de um lado para outro. Lágrimas escorriam pelo seu rosto e ela chutava violentamente o lençol fino.
— Não — gemeu baixinho. — Não, por favor!
Segurei-a pelos ombros para acordá-la e ela gritou.

2 comentários:

  1. Muito triste com essa conversa do Kishan e Ren T_T e preocupada com a Anamika...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!