11 de setembro de 2018

6 - Captura

Girando na direção do som às minhas costas, deparei com Anamika sorrindo afetadamente. Meu instinto dizia para agarrar o braço dela, mas o olhar que ela me lançou me fez parar, e eu me contive a tempo.
— O que está fazendo aqui? — sibilei.
Ela deu de ombros.
— Você ficou fora muito tempo.
Eu estava prestes a dizer que retornaria na manhã seguinte e que não tinha nenhuma importância por quanto tempo me afastasse, mas obviamente eu não retornara na manhã seguinte, ou ela não estaria aqui agora. As flutuações na linha do tempo me davam dor de cabeça. Então perguntei:
— Há quanto tempo estou fora?
— Duas semanas. Há quanto tempo você está aqui observando a si mesmo bajular Kelsey?
— Não é da sua conta.
Ela deu um passo em minha direção e olhou a cena lá embaixo. Ao passar por mim, o suave aroma de jasmim de sua pele e de seu cabelo me envolveu. Sua presença me deixou com raiva e o fato de eu gostar do cheiro dela me fez sentir mais raiva ainda.
— Bem, como foi que você chegou aqui? — sussurrei.
— Psiu. — Ela ergueu a mão.
“Você está... bem?”, o antigo eu perguntou a Ren.
“Agora estou.”
“O que aconteceu com você?”
“O véu do obscurecimento foi removido.”
“Véu? Que véu?”
Ren disse:
“O véu da minha mente. Aquele que Durga pôs em mim.”
Olhei para Anamika, que observava a cena com uma sobrancelha levantada e um perspicaz olhar analítico.
“Agora eu me lembro”, disse Ren. “Eu me lembro de tudo.”
Pouco à vontade, eu queria sair dali e lancei a Anamika uma série de suspiros e olhares significativos. No entanto, ela me ignorou e continuou a estudar Ren lá embaixo.
Quando Ren pediu baixinho “Não vá, iadala. Fique comigo”, Anamika enxugou uma lágrima no olho e finalmente voltou-se para mim com uma expressão irritada. Fechou a mão em torno de meu pulso e, embora pudesse ter me livrado de sua mão sem dificuldade, eu a segui quando se dirigiu a uma parte distante e deserta do barco.
Quando ela se deu conta de que o barco não estava preso a terra, entrou em pânico por um breve momento, mas então firmou as longas pernas e segurou a amurada. Sem dizer palavra, segurou o cinto de couro torcido que usava na cintura e, com um rápido movimento do pulso e um estalo suave, a Corda de Fogo elevou-se no céu noturno. Logo uma passagem se abriu e a expressão de Anamika indicou que queria que eu saltasse por ela. Resignando-me ao papel do obediente tigre de estimação de Durga, pelo menos no momento, saltei do convés superior do iate e mergulhei na corrente do tempo.
Permanecendo consciente ao longo do salto, uma vantagem de ser o lacaio imortal de Durga, pousei suavemente no gramado do jardim da casa na montanha e virei-me para observar o portal de fogo para a chegada de Anamika.
Fiquei preocupado quando pareceu que ela estava mais do que alguns passos atrás de mim, e eu estava prestes a saltar de volta através do portal para procurá-la quando o anel de fogo de repente se fechou com um estalo. Comecei a andar de um lado para outro, me perguntando aonde ela teria ido e o que lhe teria acontecido. Então, alguns segundos depois, outro círculo se abriu.
Justamente quando me voltei para ele, o corpo dela passou pelas chamas circundantes. Eu a peguei, mas a força com que ela saiu do anel de fogo foi suficiente para me fazer cair. Rolamos pelo chão algumas vezes e agarrei o corpo dela junto ao meu em uma tentativa de protegê-la e evitar que se machucasse. Amortecendo a maior parte do impacto da queda com minhas costas, paramos com as costas dela pressionadas contra a grama, os lindos cabelos esparramados à sua volta e eu em cima dela. Antes que eu tivesse chance de me mexer ou mesmo de apreciar plenamente a posição em que tínhamos caído, ela começou a se contorcer e se sacudir.
Meu gesto protetor foi recebido com raiva, não com gratidão.
— Saia de cima de mim, seu brutamontes! — berrou ela, me empurrando pelos ombros. — Você pesa mais do que um elefante de batalha!
Sua ingratidão me aborreceu, principalmente porque ainda podia sentir o cascalho do caminho ali perto cravado em minhas costas, bem como as gotas de sangue que vertiam dos ferimentos.
— Acalme-se, Deusa. Se ficar parada, vou remover minha deselegante forma elefantina de sua proximidade.
Anamika aquietou-se, mas me lançou um olhar hostil, e quando me levantei, mais devagar do que faria normalmente porque a reação dela me irritou, ela imediatamente afastou-se de mim, recuando até a fonte sem se levantar, e começou a tremer.
Seu medo era tão forte que eu podia sentir o gosto dele no vento.
— Ana — comecei, suavizando a voz —, o que aconteceu? O que é que está assustando você tanto assim?
Olhos verdes arregalados encontraram os meus e se desviaram, envergonhados.
— Não posso falar disso, Kishan. Eu... peço desculpas por minha reação. É que eu tinha de voltar. Tinha de ver aquilo novamente.
Aproximando-me alguns passos, agachei-me, ficando perto o bastante para uma conversa íntima e, ao mesmo tempo, longe o suficiente para lhe dar espaço.
— Voltar aonde? Quando? O que foi que você viu?
Ela sacudiu a cabeça e deixou os cabelos caírem em torno de seu corpo como uma cortina, mas não antes que eu visse o machucado em sua bochecha. Parecia idêntico ao ferimento que eu vira na caverna em Kishkindha. Eu sabia que nossa queda não poderia ter causado uma lesão daquelas.
Somente uma coisa poderia — o punho de um homem. Hesitante, perguntei:
— Alguém... um homem machucou você?
Engolindo em seco, ela abraçou as pernas e enterrou o rosto nos joelhos. Balançou-se para a frente e para trás e sussurrou, enquanto lágrimas escorriam por seu rosto:
— Foi há muito tempo. Pensei que, se eu pudesse ajudar, as coisas seriam diferentes.
— Então você tentou oferecer ajuda a alguém? — perguntei, tentando fazê-la falar, mas ela sacudiu a cabeça novamente.
Pouco depois, com voz trêmula, admitiu:
— Tentei ajudar uma garota a escapar das garras de um monstro. Mas travei. Em vez de ajudá-la, piorei as coisas.
— Anamika, por favor, me conte o que aconteceu. Você estava servindo a um rei? Um acólito? — A palavra monstro invocava a imagem de uma única pessoa em minha mente: Lokesh. — Você voltou à luta com Lokesh? Era Kelsey a garota que você estava ajudando?
Os ombros dela se contraíram e ela levantou a cabeça de maneira brusca.
— Kelsey? É só nisso que você pensa? Em salvar Kelsey? Encontrar Kelsey? Chorar por Kelsey? Amar Kelsey? Existem mais pessoas no mundo que precisam ser salvas, não só Kelsey!
Ela virou as costas para mim e limpou as lágrimas dos olhos, furiosa. Eu não sabia o que fazer, o que dizer. Abri meus pensamentos para ela e falei gentilmente à sua mente: Ana, me desculpe. Por favor, me conte o que aconteceu.
Uma dor vermelha e latejante tomou conta de sua mente e, antes que ela bloqueasse os pensamentos para mim, captei vislumbres de um homem encoberto pelas sombras avultando sobre ela, seu sorriso cheio de um prazer perverso. Ela gritou e o chutou enquanto ele a arremessava brutalmente contra uma parede. Havia uma garotinha de olhos arregalados na cama atrás dele, chorando, as mãos no rosto. Então a visão de Anamika ficou branca.
Um fogo abrasador cresceu em mim, mais profundo do que qualquer coisa que eu já tivesse sentido. Meus punhos involuntariamente se cerraram e tentei controlar a fúria o suficiente para falar em tom normal, calmo, mas ainda assim a raiva conseguiu infiltrar-se em minhas palavras.
— Quem? — consegui enunciar. — Quem bateu em você?
Isso só fez com que ela recomeçasse a chorar. Aproximei-me ainda mais e disse:
— Ana, vou pegar você e levá-la para dentro. Tudo bem por você?
Ela não assentiu, mas tampouco protestou. Então, lentamente, como se estivesse carregando um recém-nascido, passei os braços por baixo de seus joelhos e por trás de suas costas. Com muito cuidado, a ergui, e o peso e a culpa que eu estava sentindo abrandaram um pouco quando ela enterrou a cabeça em meu peito.
Abrindo nossa conexão e dando-lhe pleno acesso a tudo que eu era e tudo que eu sentia sem pedir o mesmo dela, falei em sua mente e assegurei-lhe que eu jamais a machucaria daquela forma.
A raiva que tomou conta de mim contra quem quer que tivesse feito isso com ela me consumiu a ponto de eu esquecer todas as minhas preocupações e meus receios.
Depositando um beijo em seus cabelos, atravessei o corredor e senti que ela relaxava de encontro a meu corpo. Percebi que minha conexão aberta a ajudava a confiar em mim ou, se não em mim, em minhas intenções. Amaldiçoando-me por me fechar para ela e sabendo que não cumprira a promessa feita a seu irmão de que tomaria conta dela, eu me repreendia enquanto a colocava com todo o cuidado em sua cama e me virava para o lavatório e pegava uma toalha molhada.
Enquanto eu limpava as lágrimas de seu rosto, ela disse:
— Ele não sabia.
Fiz uma pausa.
— Quem não sabia?
— Meu irmão. Eu nunca contei a ele o que aconteceu... com a garota.
Mil perguntas surgiram em minha mente. Eu havia deduzido que esse homem que a machucou fizera isso em sua viagem recente, o que explicaria o ferimento, mas, se seu irmão estivera junto, então devia ter acontecido no passado. Refleti sobre as imagens que vira, mas não consegui dar sentido a elas.
— Kadam tinha razão — disse ela. — Eu não pude salvá-la do monstro.
— O que você fez foi perigoso, Ana. Você poderia ter cruzado o caminho de seu antigo eu no passado.
— Achei que pudesse mudar o que aconteceu — sussurrou Anamika.
Sabendo instintivamente que ela não queria ficar sozinha e que também não estava pronta para falar sobre o assunto, ajeitei os cobertores em torno dela e peguei sua mão.
— Vou massagear sua mão. Se em algum momento isso a deixar desconfortável, é só falar que eu paro.
Anamika não disse nada, mas não tirou a mão da minha. Comecei pelos dedos e segui em direção à palma.
— Você fazia isso... essa esfregadura nos dedos de Kelsey? — perguntou ela.
— Fazia.
— É... gostoso.
— Que bom.
— Estou envergonhada do meu comportamento quando você me segurou no jardim. Peço seu perdão.
Ergui os olhos e me vi, por um momento, preso em seus grandes olhos verdes.
— Não há nada para perdoar, Deusa.
— Agora que sabe isso sobre o meu passado... não quero que você me veja como uma fracote. Enfrentei homens muitas vezes depois daquilo e fiz isso com sucesso, mas, quando estou perto de você, acho difícil...
— Difícil o quê?
— Ficar distante. Minhas emoções afloram quando estou perto de você. Talvez isso se deva à nossa conexão.
— Pode ser.
Deslizei os dedos até o pulso dela e achei sua pele tão incrivelmente macia que tive de me dar uma sacudidela mental para voltar a me concentrar.
— Desculpe por me fechar para você, principalmente quando precisou de mim — eu disse.
— Não preciso de homem algum. De um tigre, talvez, mas não de um homem. Pelo menos, não como Kelsey precisa.
Franzindo a testa, perguntei:
— Então por que estava interessada em Ren?
— Dhiren não me pressionava como outros homens fazem.
— Como assim?
— Ele não esperava que eu... o bajulasse.
— Bajulasse?
Anamika suspirou, frustrada.
— Sim, bajulasse. Como quando Kelsey pegava sua mão, tocava você ou — ela engoliu em seco e passou a língua pelos lábios — beijava você.
— Você está falando de um relacionamento físico.
— Sim. Dhiren não esperava isso de mim.
Não pude evitar. Dei uma gargalhada.
— Pode ter certeza que esperava de Kelsey.
— Por que os homens têm de exigir isso? Não basta terem uma mulher forte a seu lado? Uma mulher que irá apoiá-los e lutar com eles?
— Um homem pode querer isso de um guerreiro de confiança. Mas sua companheira de vida deve ser mais. Homens bons não fazem exigências ou magoam as mulheres que eles amam, Anamika. Mas tocar é um desejo natural, normal, entre um homem e uma mulher.
— E Kelsey gostava desses toques e beijos?
— Gostava.
— Você — ela lutou com as palavras — massageava o resto do corpo dela?
Eu não tinha muita certeza do que ela estava perguntando e não queria dizer a coisa errada, então respondi da forma mais direta que pude:
— Eu massageava os braços, os pés, os ombros e a cabeça de Kelsey, embora também possa fazer massagens nas pernas ou nas costas. Se você está se referindo a toques mais íntimos, então não, não fazia.
Depois de levar alguns instantes ponderando essa informação, Anamika disse:
— Você pode massagear meus pés, se quiser.
Escondendo o sorriso, passei para os pés dela e fiquei encantado ao vê-la fechar os olhos e relaxar no travesseiro. Quando terminei a massagem na outra mão, ela já estava dormindo e, em vez de seguir para meu quarto ou para o jardim, como normalmente eu fazia, saí em silêncio do quarto e dormi ali fora como tigre, meu corpo grande bloqueando a porta fechada.


Eu dormia profundamente quando a porta se abriu de repente e acertou minha cabeça de tigre. Diante de meu suave e queixoso rosnado, Anamika passou pela porta e então me fuzilou com os olhos, pondo as mãos nos quadris. Transformando-se mais uma vez de garotinha vulnerável em uma poderosa deusa, ela anunciou que estava na hora de avançarmos para o próximo item na lista de Kadam e, se isso não me agradasse, azar o meu.
Não gostei dessa reviravolta. Nem um pouco. As implicações do fracasso de Anamika em salvar seu eu passado de um homem lascivo significavam que os planos que eu havia feito para mim estavam cheios de bloqueios iminentes, e a última coisa que eu queria era acrescentar mais troncos à represa que me impedia de consertar o passado para obter o que queria.
Ela apresentou a lista e o item seguinte era nos certificarmos de que Ren fosse capturado. Após refletir sobre isso por um momento, concluí que estava de acordo com esse item. Se eu quisesse conhecer Kelsey no futuro, hã... passado, então Ren tinha de estar no circo.
Cogitei brevemente a ideia de que eu poderia me fazer capturar no lugar dele, mas um tigre negro era tão raro que, provavelmente, eu seria mantido na Ásia para sempre e nunca iria parar naquele pequeno circo no Oregon. Além disso, havia o probleminha de eu não envelhecer. Seria muito difícil fazer dar certo, então era necessário colocar Ren em uma jaula.
Assim que nós dois ficamos prontos, Anamika se pôs a meu lado e, quando lhe ofereci a mão, ela a pegou. Juntos desaparecemos de nossa casa na montanha e nos rematerializamos em meu antigo território. Captando meu cheiro de tigre, abaixei-me imediatamente e a puxei comigo, levando o dedo aos lábios para indicar que ela devia ficar quieta.
Um suave rugido ecoou em meio às árvores e, justamente quando minha antiga forma enfiou a cabeça entre a vegetação para investigar, Anamika envolveu meu bíceps com a mão e ficamos invisíveis, mergulhando nossos corpos em uma corrente do tempo, que também mascarava nossos cheiros. O tigre negro aproximou-se de nós e passou um bom tempo farejando o ar. Então, para minha surpresa, atravessou nossas formas agachadas. Com um rápido movimento da cauda negra, ele se foi.
— Essa foi por pouco — disse Anamika baixinho após nos rematerializarmos um momento depois. — Você se lembra disso?
— Não. Lembro-me muito pouco dos meus dias na selva.
— Ótimo. Vamos procurar os caçadores então?
Voltando meu nariz para o vento, comecei a caminhar na direção leste, parando com frequência para farejar a área e movendo-me o mais silenciosamente possível pela floresta. A seu favor, devo dizer que Anamika era uma companhia silenciosa atrás de mim. Quando me virei para olhá-la, ela permanecia alerta, o arco dourado a postos, com uma flecha preparada. Mais uma vez ela usava seu vestido verde e as botas que iam até as coxas, e não emitia nem um sussurro, embora as folhas secas na trilha crepitassem até mesmo com meus passos cuidadosos.
Refleti sobre sua ideia do que queria de um homem. Anamika afirmava que não precisava de um, e em todas as minhas pesquisas sobre a deusa Durga nunca encontrei uma indicação de que ela houvesse tido um companheiro. Sua única companhia era o tigre, Damon. Seria fácil ser o tipo de homem que ela queria, o tipo de que precisava. Com meu chakram pendurado no bolso e minha habilidade em empregar dentes e garras, eu poderia ser exatamente o que ela precisava — uma companhia que lhe desse proteção. O problema era que... eu queria mais.
Eu sonhava com uma casa onde haveria uma mulher que me amasse, que me enlouquecesse tanto com debates passionais quanto com abraços apaixonados — o tipo de relacionamento que meus pais tiveram. Além disso, eu queria filhos. Um filho que eu pudesse ensinar a caçar e com o qual pudesse lutar; uma filha linda e doce, com o ímpeto da mãe. Quando os pretendentes aparecessem, eles pensariam duas vezes em como a tratariam, com um pai que poderia rasgá-los em dois.
Era triste pensar em todas as coisas de que Anamika estava disposta a abrir mão. Ela se resignara a um futuro sem amor e ternura. A perda do irmão deve ter sido realmente difícil para ela.
Nuvens deslizavam pelo brilhante céu azul, mas a selva estava abafada, apesar das sombras das árvores. Ao sol do meio-dia, o suor escorria por minha nuca e me encharcava a camisa.
Anamika enxugou a testa. Sua pele reluzia no calor; apesar disso, ela não se queixava, e me vi admirando não só sua energia, mas a maneira como seus cabelos se encaracolavam na umidade. Não pude evitar compará-la com Kelsey. Minha ex-noiva teria resmungado por causa do calor pelo menos uma vez por hora enquanto caminhava ruidosamente a meu lado. Eu não me importava. De verdade. Mas isso dificultava bastante emboscar uma presa. Como eu recentemente tinha visto Kelsey avançando com dificuldade pelo matagal, tagarelando com Ren como um passarinho contente, ela oferecia um chocante contraste com a jovem que caminhava a meu lado.
Enquanto Kelsey me mantinha entretido com sua alegre tagarelice e suas histórias, Ana era pensativa e quieta. Seus olhos estavam fixos na selva, e seus sentidos, alertas ao ambiente ao redor. Quando ergui a mão, indicando silenciosamente que deveríamos seguir para oeste, Anamika assentiu e avançou de maneira tranquila, encontrando trilhas com a mesma facilidade que eu.
Kelsey, por outro lado, costumava se perder, embrenhava-se pela vegetação impenetrável ou precisava de um empurrãozinho para se manter na trilha certa. Ela espalhava suas coisas pelo acampamento. Suas roupas, o diário e os apetrechos eram jogados aleatoriamente, como se ela estivesse plantando um jardim de coisas arbitrárias, e ela acabava deixando seu cheiro por toda parte. Qualquer idiota que soubesse alguma coisa sobre rastreamento poderia seguir sua trilha tão facilmente quanto a de um rebanho de búfalos.
Ana, porém, mal deixava vestígios. Era como um espectro na floresta, um fantasma. Às vezes, enquanto caminhávamos, ela desaparecia por completo. Eu parava e me virava, apurando os ouvidos em busca de um sinal de seu paradeiro, e ela então surgia de repente dos arbustos com a mão cheia de frutinhas silvestres ou a muda de uma planta que queria acrescentar ao jardim de casa. Eu olhava carrancudo para ela, mas Anamika simplesmente erguia uma sobrancelha, me desafiando a dizer alguma coisa. Era mais fácil manter a paz.
Não demorou para que encontrássemos um grupo de caçadores. O cheiro de morte e de medo agarrava-se a eles como uma doença. Criaturas da selva fugiam diante daquele fedor, se distanciando o máximo possível daqueles humanos. Anamika franziu o nariz, como se também pudesse sentir seus cheiros. Um calor ondulante pairava sobre o grupo que penava em meio às árvores. Saber o que eles eram, o que faziam, trazia um gosto de bile à minha boca.
Mesmo da distância em que nos escondíamos entre as árvores, eu conseguia distinguir dezenas de aves e animais enjaulados, peles de todos os tipos e o inconfundível brilho do marfim projetando-se de grandes bolsas. Um homem provocou uma criatura em uma das jaulas, oferecendo um pedaço de carne e então afastando-o. Sua gargalhada me atravessou como uma faca. Se eu ainda não estivesse irado, teria ficado depois de vê-lo escarnecer da pobre criatura. Uma sólida onda de fúria se retorceu em minhas entranhas ao pensar em deixar Ren nas mãos desses homens.
De repente, a ideia de enviar Ren a uma jaula daquelas não me caía muito bem. Foi Ana que chamou minha atenção e me distraiu da cena.
Ela me puxou, deu a volta em um grupo de árvores e apontou. Daquele ângulo podíamos distinguir alguns homens saindo de um poço. O líder grunhiu suas instruções e os homens pegaram um dos menores animais de uma jaula, mataram-no e içaram a carcaça sangrenta acima do buraco que tinham feito. Rapidamente o cobriram com longas varas entrecruzadas e dispuseram folhas através dos galhos até que o poço estivesse escondido. Quando se deram por satisfeitos, pegaram suas bolsas e jaulas e se foram, adentrando mais a selva.
Julgando seguro o tempo de meia hora que esperamos depois que se foram, saímos do meio das árvores e esfreguei o queixo, inspecionando a armadilha.
— Ele não vai cair nesta. É inteligente demais. Mesmo assim — murmurei, curvando-me para espiar através das folhas que cobriam o poço —, tem lanças afiadas lá dentro. Ele poderia se curar se fosse empalado, mas teria dificuldade de se libertar.
— Então vamos fazer uma segunda armadilha e cuidar para que ele não veja esta — disse ela.
— Acha que é uma boa ideia? Mesmo que ele caia, como pode ter certeza de que os caçadores a encontrarão?
— Vamos colocar a segunda perto da primeira.
— Os caçadores não vão perceber que não é a armadilha deles?
— Esses não são o tipo de homem que honra qualquer código de caça. Se o virem, vão levá-lo. Só precisamos nos certificar de que o vejam.
Usando o poder do Amuleto de Damon, Ana cavou a terra rapidamente, abrindo outro poço ao lado do primeiro. Quando ficou preparado, ela apagou nossos cheiros e subimos bem alto em uma árvore para esperar Ren. A princípio, fiquei preocupado com a possibilidade de esperarmos muito tempo, então nos transportei para a manhã do dia em que Ren havia desaparecido; estávamos na árvore havia pouco tempo quando o ouvi.
Ouviu-se um estalo nos arbustos e, com um gesto da mão, Anamika nos tornou invisíveis. A cabeça de tigre de Ren projetou-se da vegetação e ele ergueu o focinho no ar. Esperou algum tempo, atento a possíveis ruídos, e então saiu de entre os arbustos, espreguiçou-se e ergueu a cabeça para olhar a carne crua. Com cuidado, circundou o poço, intencionalmente empurrando com o focinho as folhas que cobriam o buraco até deixá-lo exposto. Ele franziu o focinho, em uma careta felina, quando viu as varas pontiagudas que se projetavam lá de dentro, no buraco.
Olhando mais uma vez para a carne, lambeu os bigodes. Era uma refeição fácil e ele provavelmente estava com fome. Ren não gostava de caçar tanto quanto eu. Era comum que eu levasse minhas caças para casa e as partilhasse com ele. Ren tinha os mesmos instintos que eu, mas odiava ceder à sua metade tigre. Quando estava perto do segundo poço, Anamika disparou uma série de flechas contra ele, de nosso posto na árvore. Ela errou todas as vezes, de propósito, mas, quando ele começou a rumar para a direção errada, ela permitiu que uma flecha o atingisse de raspão, para que ele voltasse ao outro lado.
Ele saltou para o lado depois que uma flecha perfurou seu flanco e caiu no buraco que Ana tinha feito. Aquele sem as lanças mortais. Silenciosamente, ela desceu da árvore, sincronizando seu corpo com o tempo, de modo que Ren não pudesse detectá-la. Ela recolheu suas flechas e olhou lá de cima para o tigre que andava de um lado para outro. Eu a segui e, juntos, nos afastamos, nos escondendo entre as árvores, permanecendo perto o bastante para protegê-lo, mas longe o suficiente para que não houvesse risco de ele nos ouvir. Quando ficamos satisfeitos com nossa posição, Anamika acelerou o tempo.
Depois de dois dias para Ren e alguns minutos para nós, ela segurou o amuleto e o tempo desacelerou, voltando ao ritmo normal. Ren já estava com fome ao cair no poço. Eu podia ver suas costelas salientes mesmo através da folhagem. Ele devia estar faminto agora, então Anamika usou o amuleto para que chovesse sobre o poço e ele tivesse água, e afugentou alguns animais pequenos, fazendo-os cair no poço, a fim de que ele tivesse algo para comer. Então ela voltou para meu lado e o relógio disparou para a frente novamente.
Enquanto observávamos e esperávamos, eu me perguntei se Ren teria morrido se eu não estivesse lá no momento exato para cuidar que fosse alimentado. Então me lembrei de como era difícil nos destruir. Ren tivera o coração literalmente arrancado do peito e sobrevivera. Sem dúvida, ficar sem comida e água não iria matá-lo.
Ainda assim, era alentador pensar que minha presença tinha dado algum conforto a seu eu passado. Meus pensamentos voltaram-se do desejo que eu tinha de estar com Kelsey para a captura de meu irmão. Eu não invejava seus anos de cativeiro e o sofrimento que ele tivera de suportar. Por trezentos anos. Não tenho certeza se eu teria me saído tão bem se estivesse no lugar dele.
Estávamos nos preparando para dar água e comida a ele de novo, no quarto dia, quando percebemos que os caçadores retornavam. Anamika desacelerou o tempo para que pudéssemos ouvir o momento em que descobriam o resultado de sua caça. Eles se maravilharam com seu prêmio e discutiram por algum tempo se deveriam tirar a pele de Ren ali mesmo ou levá-lo vivo.
Ren rosnava para eles do fundo do poço e tentava atingi-los com as garras sempre que tinha uma chance. Ele rugiu bem alto e reconheci seu grito. Era para chamar minha atenção. Devia ter pressentido minha proximidade. Eu me sobressaltei. Meu antigo eu estava perambulando pela selva, longe dali, resmungando sobre Yesubai e meu destino. Não ouvi seu rugido pedindo ajuda.
Estou aqui, pensei. Estou com você, irmão.
Meu irmão jamais saberia disso, é claro. Seu eu passado não chegara a ver o homem que eu me tornara desde então. Esse Ren só conhecia um irmão que o havia traído, roubado sua noiva e se refugiado na selva. Eu sentia vergonha do homem que fora. Se tivesse prestado atenção, teria percebido que ele estava desaparecido. Ele ficara no poço por quase quatro dias. Se eu tivesse procurado minha família com mais frequência, poderia tê-lo encontrado facilmente. O fato era que sua captura fora a tragédia final que levara meus pais a seu leito de morte.
Eu poderia impedi-la.
Mudar seu passado. Mudar nosso passado.
Kadam insistia em que Ren precisava ser levado pelos caçadores. Mas isso era mesmo verdade? Se Ren não tivesse ido para o circo, ele nunca teria encontrado Kelsey. A ideia inundou meu coração de tristeza. Mas talvez, apenas talvez, meus pais tivessem vivido mais tempo. Talvez Kadam não tivesse ido embora. Talvez fosse melhor para Kelsey se nunca nos conhecesse.
Pressionei as palmas de encontro às têmporas e apertei. A lógica circular estava me esmagando.
Senti um toque no braço. O calor de Anamika se irradiou por ele. Seu olhar era de compreensão. De compaixão. Inclinando-se, ela encostou os lábios em meu ouvido e sussurrou:
— Vai ficar tudo bem. Confie em nosso professor.
Com um aperto confortador, ela voltou a atenção para os homens. Ana confiava em seu professor, Phet, ou melhor, Kadam, completamente. Eu podia confiar nele tanto quanto ela confiava? Havia feito isso no passado. Sabia que ele tinha segredos. Que havia mais coisas em jogo do que ele nos contava. Dando uma risadinha, me admirei do fato de ele ter conseguido evitar que soubéssemos de tudo isso por tanto tempo. Ele era astuto. Mas eu confiava nele, sim. Sempre confiara. Ninguém amava meus pais, a mim e Ren mais do que ele.
Os gritos dos homens perto do buraco chamaram minha atenção. Quando o líder defendeu a ideia de matar Ren, entrei em ação, me disfarçando como um dos caçadores que havia se embrenhado entre as árvores para se aliviar. Eu disse que conhecia um homem rico que pagaria muito para adicionar um tigre branco vivo a sua coleção de animais selvagens. É claro que, na realidade, eu não conhecia ninguém assim, mas concluíra que precisava dizer alguma coisa para impedi-los de esfolar Ren.
O líder pareceu surpreso que um de seus subordinados tivesse qualquer conexão com um homem de recursos e exigiu que eu lhe dissesse quem era o homem. Falei o primeiro nome que me veio à mente, Anik Kadam, e disse-lhe o nome da cidade mais próxima. Concordaram, então, em levar o tigre vivo para esse Kadam e negociar o pagamento.
Se eu estivesse errado, seria severamente punido. Concordei e escapei para o meio das árvores no momento em que o homem que eu havia personificado retornava. Embora não tenha sido fácil, eles conseguiram colocar Ren em uma jaula construída às pressas. Foram necessários seis homens para carregá-lo. Como eu não tinha certeza de que não iriam matar Ren no fim das contas, decidimos nos separar. Anamika seguiria a procissão através da selva enquanto eu retornava ao futuro para encontrar Kadam. Suas instruções haviam deixado muito espaço para nossa imaginação e eu não queria arriscar a vida de Ren por causa de uma falha de minha parte.
Peguei a mão de Ana antes de nos separarmos e perguntei se ela preferia retornar ao futuro em meu lugar. Ela sacudiu a cabeça, lembrando-me de que eu estava mais familiarizado com os caminhos de Kadam do que ela. Era uma sensação incômoda deixá-la sozinha com todos aqueles homens, apesar do fato de que ela obviamente conhecia a selva melhor do que qualquer um deles. Eu sabia que Anamika não confiava nos homens em geral e que estar perto deles a deixava nervosa, mesmo com o poder que tinha a sua disposição. Garantindo-lhe que me apressaria, peguei sua mão e, quando a apertei, passei o braço em torno de seus ombros. Fiquei surpreso quando ela se entregou ao abraço. Acabou antes que eu pudesse reagir. Afastando-me, dirigi-lhe um rígido aceno de cabeça e desapareci, a escuridão espiralando à minha volta enquanto eu ia à procura de Kadam.

11 comentários:

  1. Dá um pouco de dor de cabeça, todo esse ciclo de ir para o futuro, voltar para o passado, alterar as coisas mas na verdade não... eita.

    ResponderExcluir
  2. Eu n sei se eu to shipando ou não.
    E teve aquela carta dele ne
    AAAH
    TO CONFUSA!

    ResponderExcluir
  3. Essa história do Phet vou te contar, meio estranha/surpreendente.

    ResponderExcluir
  4. manooo livroooo topppp d+++++
    o melhor é que tudo que nao apareceu nos outros livros que complementaria a historia esta aparecendo agora!!!

    ResponderExcluir
  5. Como ele não percebe que ela é perfeita pra ele?

    ResponderExcluir
  6. as vezes parece loucura, mas é incrível como tudo se encaixa

    ResponderExcluir
  7. Não estou entendendo, para que essa viajem no tempo, se no final das contas deu tudo certo. O que quero dizer, então o Kishan já conhecia a Kelsey desde o acidente dos pais? Estou confusa.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Só deu tudo certo porque isso já tinha sido feito por Kishan no passado, é meio difícil de entender e de explicar, mas é como Kishan disse em um trecho "Kelsey estaria a salvo porque estava a salvo". É como se fosse um ciclo, pelo menos foi dessa maneira que eu entendi

      Excluir
    2. Isso mesmo é um ciclo, acontece essa mesma coisa várias vezes e por isso ele tem que fazer tudo o que o Phet diz, pra manter o ciclo

      Excluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!