11 de setembro de 2018

5 - Voyeur


— Você quer dizer que Kelsey vai se casar com Dhiren — disse ela sem emoção.
Assenti sem me virar e fitei meu reflexo no vidro. Eu não havia envelhecido em mais de trezentos anos, mas meus olhos estavam velhos, cansados. O ferrão da deslealdade picou meu coração. Embora soubesse que Kelsey nunca deixara de amar Ren, pelo menos não completamente, ainda mantivera viva a esperança de que talvez ela escolhesse a mim se tivesse tido opção.
Mais uma vez eu me repreendi por permitir que Ren partisse com ela. Que escolha eu dera a ela, de verdade? Praticamente a empurrara para os braços dele e dissera: Tenham uma vida feliz.
Espalmei a mão na janela aquecida pelo sol e imaginei o poder e a energia da luz amarela fluindo para meus dedos. Isso me fez tomar uma resolução, que eu não ousava dizer em voz alta, mas a ideia dominou minha mente.
Pensei na jovem versão de Kelsey e soube que ela de fato vira algo em mim naquela ocasião. Ela havia acreditado que eu era seu protetor, confiara totalmente em mim. Precisara de alguém então, assim como eu precisara dela para me trazer da escuridão para a luz. Kelsey nunca desistiu de mim, e uma coisa era certa: eu não iria desistir dela ou simplesmente deixá-la entregue a seu destino. Eu precisava saber se ela realmente queria se casar com Ren ou se estava apenas escolhendo o caminho mais fácil.
Anamika interrompeu meus pensamentos.
— Ela está se casando com Dhiren, não está?
Esfreguei o maxilar antes de responder.
— Vamos ver. — A determinação fluía em meu sangue e me incitava a agir. Girando, agarrei seu braço e disse: — É hora de ir.
Puxando o braço para se desvencilhar de mim, Anamika recuou, os olhos reluzindo de fúria. Seus cabelos soltaram-se, cascateando em longas mechas, meu fraco esforço para contê-los indo por água abaixo. Ela estava linda, como uma deusa livrando-se de sua forma humana. O poder ondulava em sua pele enquanto ela me encarava, estreitando os olhos, e dizia:
Não me segure dessa maneira.
Quando soltei a mão, a raiva dela foi diminuindo aos poucos e ela baixou as pálpebras de forma que seus longos cílios se destacaram como leques contra o rosto. Mais calma, acrescentou:
— Nenhum homem faz isso.
— Eu... Me desculpe, Deusa. — Uma emoção se irradiava de Anamika, algo que eu nunca sentira nela antes. Constrangimento... vergonha... com uma pontada de... medo? Dei um passo em sua direção e ergui seu queixo com meu dedo, delicadamente, de modo que ela pudesse se afastar e romper o contato a qualquer momento. Quando seus olhos verdes encontraram os meus, eu disse: — Não precisa ter medo de mim, Ana.
— Eu não tenho medo de você, Kishan.
— Então o que a amedronta? — perguntei.
O rosto dela se suavizou por um momento e pareceu que ela confessaria o que a estava aborrecendo, mas então suas costas se retesaram e ela fechou a conexão emocional entre nós.
— Meu passado é só meu, tigre negro. É algo que escolho não partilhar com você.
Dei um passo para trás e, depois de observá-la atentamente por um instante, assenti. Havia algo de vulnerável nela naquele momento e senti uma urgência irresistível de consolá-la, mas a deusa Durga não queria consolo. Ela tampouco gostava de mostrar vulnerabilidade. Disso eu já sabia.
Pronto para partir, ofereci-lhe a mão, que ela aceitou após um segundo de hesitação. Pousou a mão em meu braço enquanto eu instruía o amuleto a nos levar para casa.
Quando voltamos para nosso palácio de pedra na montanha, ela perguntou:
— Por que você escolheu se materializar no parque e se dar o trabalho de se disfarçar, se podíamos simplesmente ter aparecido em sua sala de vidro?
Esfregando o pescoço, dei de ombros.
— Era mais seguro supor que tivessem dado meu escritório para outra pessoa, eu acho.
Eu podia ver a mente dela trabalhando, tentando compreender o significado pleno da palavra escritório e o estado transitório de tal coisa.
— Quero agradecer a você por ter me levado lá — disse ela. — Gostei de andar pelo...
— Parque? — sugeri.
— Isso. Parque. Gostei das flores e das fontes.
— Fico feliz. — Sinceramente, uma parte de mim tivera vontade de caminhar pelo parque de braços dados com a deusa. Eu gostava da ideia de perambular com ela pela era de Kelsey, por um lugar onde não fôssemos reconhecidos. Ninguém ali clamava por nossa atenção ou formava fila com presentes para a deusa. Podíamos apenas ser nós mesmos. Duas pessoas desfrutando de um passeio tranquilo, sem pressa. Eu tinha quase me sentido contente enquanto estávamos lá. Isto é, até saber do casamento iminente de Kelsey.
Ao usar o lenço para me transformar, passando de um auditor asiático de terno a minhas roupas pretas de hábito e meu rosto, Anamika me olhou com astúcia.
— Não entendo por que você precisava da informação da caixa de imagens em sua mesa. Você não poderia descobrir a notícia do casamento de Kelsey simplesmente perguntando a alguém ou talvez bisbilhotando quando os próprios Kelsey e Ren conversassem?
— Eu... — Por que eu não queria ir diretamente à fonte? Suponho que uma parte de mim, uma peça que eu não queria admitir que existia, sentia-se desconfortável com a ideia de vê-los juntos. Eu não estava pronto para arriscar a possibilidade de que Ren fosse a pessoa que Kelsey tinha desejado o tempo todo, porque, se isso fosse verdade, então todo o meu futuro, a vida que eu começara a planejar para mim mesmo a partir do momento em que soubera que Kadam era Phet e embalei uma jovem Kelsey em meus braços, estaria destruído em um instante.
Não. Não bastava ver se Kelsey estava feliz agora. Eu precisava me convencer totalmente de que ela estava feliz desde o começo. Se Ren fosse de fato o homem certo para ela, então ficaria óbvio. Eu precisava de uma nova perspectiva. Rebobinar o passado e dar uma segunda olhada não faria mal algum. Além disso, havia uma comichão desesperada em meu cérebro que gritava “E se...?”. Para calar essa voz, eu teria de estudá-la de todos os ângulos. Somente então, quando tivesse certeza de que Ren era, sem a menor dúvida, a pessoa certa para ela, eu me resignaria a meu destino.
Anamika ainda estava aguardando minha resposta.
— Tenho motivos para o que estou fazendo, Ana, e esses motivos não lhe dizem respeito. — Era uma resposta evasiva, um tanto fria, mas a deusa compreendia a franqueza.
— Entendo. — Ela piscou, como se esperasse que eu acrescentasse algo, mas então suspirou e disse: — Você vai me dar o Amuleto de Damon agora?
Levando a mão ao objeto, eu o envolvi com os dedos.
— Ainda não. Tem uma coisa... uma coisa que preciso fazer primeiro.
Anamika me fitou por um longo minuto antes de inclinar a cabeça e sair. Eu sabia que ela estava me dando um presente. Mesmo que ela não aprovasse o que eu queria fazer, estava permitindo que eu tivesse a liberdade de fazer minhas escolhas, e eu era grato por isso. Em certo sentido, seu gesto me surpreendeu. Era como se ela tivesse se resignado à vida de deusa mas não quisesse que eu tivesse de sofrer o mesmo destino. Talvez houvesse uma saída para nós dois, racionalizei, sentindo-me culpado por deixá-la para trás.
Antes que ela saísse, avisei:
— Mantenha as armas por perto. O amuleto estará muito longe para que você use o poder dele.
Ela não demonstrou ter ouvido meu comentário, apenas se afastou e desapareceu na área do palácio que levava a seus aposentos.
Decidi começar imediatamente.


Minha primeira parada foi a selva onde conheci Kelsey.
O vento fustigava à minha volta quando reapareci na selva indiana. Os cheiros da floresta me cercaram quando mudei para minha forma de tigre em um bosque denso. Sabia que Ren e Kelsey apareceriam em breve, então fiquei à espera deles na trilha que tomariam. Não demorou muito para que eu ouvisse o barulho de alguém caminhando, então me esgueirei pela mata para poder observar. Ren apareceu primeiro, mantendo o nariz erguido ao vento, mas eu tomei o cuidado de me manter o mais a favor do vento possível.
Ele fazia pausas ocasionais e eu me perguntava se teria captado meu cheiro, mas Ren seguia em frente. Se eu estivesse na forma humana, teria rido ao ver Kelsey arrastando-se atrás dele com uma evidente frustração em seu lindo rosto. Estava cansada e ainda não tinha resistência física para andar por horas pela selva. Isso só viria mais tarde, depois de começarmos a treinar juntos.
Quando chegaram ao acampamento, fiquei lá pacientemente escutando-o falar de borboletas, por incrível que pareça, e então o ouvi explicar que seu propósito era me encontrar. Logo ficou óbvio para mim que, embora ele estivesse interessado em começar um relacionamento com Kelsey, se sentia inseguro sobre como abordar a questão. Sua tentativa de cortejá-la parecia incluir duas coisas: tocá-la a cada oportunidade e tentar deixá-la o mais confortável possível durante a busca.
Mantive vigília durante a noite, embora soubesse que não havia predadores na selva que estivessem a minha altura. Eu tinha declarado esta selva meu território séculos antes e fazia pelo menos cinquenta anos que nenhuma outra criatura ousava cruzar meu caminho quando Kelsey apareceu. A verdade era que eu nem tinha certeza de quantos tigres ainda restavam nesse século. Kadam mencionara que eles tinham sido caçados até quase a extinção.
Esfregando o queixo, me dei conta de que não encontrava machos dominantes em minha selva desde os anos 1950 mais ou menos. A ideia me entristeceu. Os tigres eram criaturas nobres. Inteligentes. Predadores perfeitos. De todas as feras com que eu tinha trabalhado como príncipe e de todos os animais que eu encontrara em minhas perambulações pela selva, o tigre era o que eu mais respeitava.
Apesar de minha inveja de Ren por ele ter conquistado o direito de levar uma vida mortal normal, eu precisava admitir que abraçara meu lado tigre muito mais rapidamente do que ele.
Embora eu não precisasse mais assumir a forma do tigre negro, ainda fazia isso. Preferia cochilar à tarde como tigre, e caçar com meus dentes e garras me concentrava como nada mais, além de Kelsey, conseguia fazer.
No dia seguinte, rastreei Ren quando ele, supostamente, estava procurando por mim. Mas, em vez disso, eu o encontrei tentando colher flores, só que as pétalas caíam do caule à medida que eram esmagadas em suas garras de tigre. Ele cuspia pétalas e folhas e espirrava com frequência, rosnando baixinho antes de desistir. Por fim, decidiu levar mangas para ela. Importunou os macacos em uma mangueira até eles começarem a atirar nele as esferas pesadas. Recolhendo várias com a boca e deixando algumas caírem ao longo do caminho, ele voltou ao acampamento. Eu observava do alto de uma árvore, em minha forma humana, e me comprazia em torturá-lo usando o poder do amuleto para colocar pedras grandes ou troncos caídos em seu caminho a fim de atrapalhar seu progresso.
Ele parava e cheirava as pedras recém-desenterradas e então dava a volta por elas até captar o cheiro de sua trilha novamente. Quando ofereceu seu presente lamentável e babado, tive de reprimir um risinho, sobretudo quando Kelsey disse que não as queria. Se ao menos ela soubesse o esforço que ele fizera, na forma de tigre, para levar-lhe um presente tão simples.
Eles nadaram juntos perto da cachoeira, e, quando a pedra caiu, tive de me segurar para não ir eu mesmo salvar Kelsey. Após algumas horas de intensa especulação, concluí que o fato de Ren tê-la salvado poderia ter sido o catalisador para que ela se apaixonasse por ele. Ela havia demonstrado uma grande indiferença e talvez até um pouco de medo de Ren antes do resgate na cachoeira, mas, depois que ele a salvou do afogamento, ficou bastante óbvio que ela estava começando a sentir algo mais que simpatia por ele.
Impaciente com as longas horas, descobri que podia avançar no tempo, acelerando as coisas como um dos filmes de Kelsey. O sol se pôs em questão de segundos, as estrelas se moveram como se alguém puxasse um cobertor cheio de luzes brilhantes sobre o céu. Durante o processo, meu estômago se revirou, mas isso não me afetou por mais que alguns segundos. Ajustar-me aos desconfortos da viagem pelo tempo não acontecia suficientemente rápido.
Por volta do meio-dia, quando eles se sentaram novamente diante da fogueira e Ren estava na forma humana, desacelerei o tempo para que voltasse ao ritmo normal. Ren ia dizendo os últimos versos de um poema. Revirei os olhos e ouvi.

... Tu, ó esguia donzela,
o amor apenas aquece;
mas a mim ele queima;
como a estrela do dia apenas sufoca a fragrância da flor noturna,
mas extingue o próprio orbe da lua.
Este meu coração,
oh, tu que és de todas as coisas a que lhe é mais cara,
não terá nenhum propósito que não seja tu.

“Ren, é lindo!”, disse Kelsey.
Ela falava baixinho e eu não conseguia ouvir tudo, então usei o amuleto para me aproximar um pouco mais e me rematerializei no instante em que Ren ia dizendo:
“... permissão... para beijá-la.”
Uma fúria cega percorreu meu corpo. Mesmo conhecendo a história deles, eu queria estrangular meu irmão. Levei um minuto para conseguir me acalmar e perceber que nada estava acontecendo. Kelsey fechou os olhos, esperando que ele a beijasse, e ele ficou lá parado como um dois de paus.
Quando ela se deu conta de que ele não ia se mexer e começou a fazer um sermão sobre ser antiquado, eu me vi feliz como há muitos meses não me sentia. Cheguei a rir alto, mas me contive e usei o poder do amuleto para ficar invisível. Ren, que tinha se afastado, zangado, e entrado na floresta, olhou a sua volta, desconfiado, mas, não vendo nada, logo seguiu em frente.
Observei o acampamento por tempo suficiente para ver Kelsey me encontrar pela primeira vez.
Eu a ouvi dizer que sabia que eu era irmão de Ren, que o havia traído e roubado sua noiva. Embora fosse verdade, eu me encolhi. Ren já havia azedado a impressão dela a meu respeito desde o começo e minha recusa a acompanhá-los na busca também não ajudou. Por um momento, cogitei revelar minha presença para o tigre negro que eu costumava ser. Um chute e um breve esclarecimento talvez fossem o truque para fazer com que meu eu teimoso os ajudasse a ir até o Fruto Dourado. Além disso, minha presença naquela busca serviria para esmorecer as intenções românticas de Ren. No entanto, Kadam havia declarado de forma excessivamente dramática que encontrar nossos antigos eus desencadearia um resultado trágico, como o colapso do universo.
Como esse definitivamente não era meu propósito, fiquei ali ponderando as ramificações que aconteceriam se eu alterasse a história, mas acabei decidindo que essa era uma viagem de coleta de informações. Se eu fosse mudar alguma coisa, só o faria depois de ter reunido todos os fatos.
Relutante em correr o risco de mandar meu eu passado naquela primeira missão, mais uma vez me repreendi por ser um idiota e usei o poder do amuleto para seguir para o próximo local em minha programação: Kishkindha.
Dessa vez apareci à noite e minhas roupas escuras me esconderam da luz do pequeno acampamento. Quando senti as árvores a minha volta ganharem vida e lançarem seus ramos coleantes em minha direção, usei o Amuleto de Damon para paralisá-las. Estalidos e ruídos vindos da perigosa planta ali perto fizeram Ren erguer a cabeça e espiar entre as árvores, mas ele logo voltou a se acomodar ao lado de Kelsey.
Irritado ao vê-lo agir possessivamente em relação a ela de forma tão rápida e não querendo vê-lo dormir ao lado dela por horas, alterei o tempo. Disparei através dos minutos e eles desapareceram com velocidade. O poder do Amuleto de Damon fluiu através de meus membros e arrepiou os pelos em minha nuca. Minha pele formigava à medida que o tempo rodopiava em torno de meu corpo como folhas de outono roçando minha pele em meio a um vento forte.
Quando Kelsey acordou na manhã seguinte, fiz uma pausa e a observei traçar as linhas do rosto de Ren. Uma dor tão densa correu por meu corpo que tive de engolir em seco. Ela nunca havia me olhado com uma admiração tão patente. Ren acordou e a abraçou. A naturalidade que ele sentia com ela, no entanto, logo mudou.
Ren era um tolo por não ver que alguma coisa estava errada. Em vez de agir com cautela em relação a ela, dando-lhe espaço, ele a pressionou, querendo ir muito longe muito rápido. Deixou que seu orgulho o impedisse de enxergar o medo que ela sentia. Eu vi os dois pegarem o Fruto Dourado e a observei afastar-se cada vez mais dele.
Empoleirado, invisível, no alto de uma construção antiga, ouvi os dois gritarem um com o outro enquanto eram perseguidos por centenas de macacos. As criaturas caíram sobre eles como uma enchente, mas, ainda assim, meu irmão com cérebro de macaco estava mais preocupado com a rejeição de Kelsey do que com aquela horda. Sacudi a cabeça. Salvar a vida dela era mais importante do que analisar seus sentimentos. Ele teve sorte de ela não ter sido morta.
Quando Ren atravessou correndo a ponte levadiça com dezenas de macacos agarrados a seu pelo e vi que Kelsey estava em segurança, movi a mão no ar e a gigantesca onda remanescente de macacos parou e voltou para seus poleiros; sua trêmula massa de corpos tornou-se silenciosa à medida que eles se transformavam mais uma vez em estátuas. Eu me perguntei se, caso não estivesse ali e não tivesse cuidado do problema dos macacos, Ren e Kelsey teriam conseguido sair de Kishkindha.
A ideia era alucinante e aterradora ao mesmo tempo. E se, em algum momento particularmente perigoso, eu não estiver lá quando ela precisar de mim? As palavras de Kadam voltaram a mim naquele instante, mas dessa vez elas eram reconfortantes. Ele dissera que quaisquer mudanças, quaisquer decisões que eu tivesse tomado ou fosse tomar estavam todas registradas nos anais do tempo. Em essência, Kelsey estará salva porque ela estava salva.
Embora fosse um alívio saber que o quer que eu tenha feito, ou que faria, não causou a morte de Kelsey, ainda era desagradável pensar a respeito. Eu odiava a ideia de que todas as minhas decisões estavam sujeitas, de alguma forma, ao universo e que alguma programação invisível estava ditando minha vida. Esse conceito era irritante.
— É o mesmo que me enjaular — murmurei para mim mesmo.
Ouvindo um grunhido, me virei e estudei Kelsey através das árvores enquanto ela enfrentava os macacos restantes com a gada. Ela ficou orgulhosa de si mesma quando os acertou. Seu arroubo de entusiasmo me lembrou de quando ela desferia um chute forte em nosso boneco de treinamento ou quando finalmente conseguiu atingir uma flor com seu poder do raio.
Feliz em observá-la, recostei-me e sorri, atingindo o macaco que ela acertara com um pequeno raio quando ela não estava olhando. Eles saíram correndo de volta à cidade com o rabo entre as pernas e, com um aceno de minha mão, tornaram a ficar inertes.
Fui distraído quando Ren, na forma humana, emergiu de entre as árvores de agulhas e o babuíno do qual eu vinha protegendo Kelsey avançou alguns metros. Ren logo pôs um ponto final nisso e eu usei o poder do Amuleto de Damon para mandar de volta a seus leitos de pedra os últimos dois macacos que restavam.
Seguindo-os na caminhada de volta, eu esperava descobrir mais sobre seu relacionamento incipiente, mas ambos estavam obstinadamente calados, falando apenas quando necessário. Eu não conseguia me livrar da sensação de que estava deixando escapar alguma coisa. Então Kelsey avistou os kappa e bisbilhotar foi para o final de minha lista de prioridades. Os demônios os deixaram em paz na ida, mas, agora que eles tinham o fruto e os macacos haviam fracassado, acho que concluíram que tinham o dever de interferir.
“Olhe, Ren. Temos companhia”, ouvi Kelsey dizer.
Os demônios recuaram quando Ren brandiu a gada, mas, no momento em que ele disse “Continue, Kelsey. Vá mais rápido!”, ouvi um sibilo e eles avançaram. Embora eu não estivesse naquele tempo, vários deles olharam em minha direção. Não tentaram me atacar, mas tampouco agiram de forma amistosa comigo. Como eu fizera com as árvores, tentei paralisá-los com o Amuleto de Damon, mas eles não foram afetados por minhas tentativas.
Ren e Kells se saíram bem mesmo sem minha ajuda. Mantive-me vigilante ao lado de Kelsey quando ela adormeceu depois de os kappa perseguirem Ren até o meio das árvores e aproveitei o fato de estar sozinho com ela. Estendendo os dedos, acariciei seu rosto macio e tirei uma ou duas folhas de seus cabelos. Mais do que qualquer coisa, eu queria tomá-la nos braços e mantê-la a salvo, protegê-la do sofrimento e da dor que ela deveria estar experimentando, mas tinha de me lembrar que essa Kelsey mal me conhecia naquele momento. Ela acreditava que eu não me importava se ela vivesse ou morresse. Que eu não tinha qualquer interesse na maldição do tigre.
Eu estava traçando as linhas na palma de sua mão quando ela sorriu e murmurou, em seu sono, o nome de Ren. Delicadamente, pousei sua mão e encolhi minhas pernas, levando os joelhos ao peito. Seria tarde demais? Ela já estava apaixonada por meu irmão a essa altura? Enquanto eu me perguntava se deveria retroceder mais na linha do tempo, ela tornou a dizer o nome dele, mas dessa ver em tom de alarme.
Algo estava errado. Ergui a cabeça e o grito de guerra de Ren ecoou pela floresta. Levantei-me imediatamente. Rastreando-o em meio às árvores, segui seu cheiro até encontrá-lo. Ele estava cercado por demônios da água. Permanecendo invisível, lancei-me contra os kappa, tirei-os de cima dele e arremessei os demônios cambaleantes de encontro às árvores de agulhas. Mais demônios se aproximaram.
Ren esforçou-se para ficar de pé. Muito fraco para perceber a força invisível que o ajudava na batalha, avançou na direção dos demônios, pronto para lutar até suas últimas forças. Eu sempre admirara Ren em uma batalha. Ele era inteligente, calculista, nunca despendendo mais energia do que a absolutamente necessária nem usando mais força do que era preciso. Por meio de lutas e treinamentos com Ren, eu sabia que ele podia ver buracos na defesa quando eu jurava que não havia um. Era um talento natural dele, que eu invejava. Ele percebia quando um homem privilegiava o uso de uma das pernas ou quando um cavalo estava ávido por desalojar o cavaleiro. Se eu era os músculos, ele era o cérebro. Juntos, tínhamos sido quase invencíveis nos campos de batalha. Não seria diferente aqui.
Rapidamente, avaliei os ferimentos de meu irmão. Apesar de sua habilidade em curar-se, Ren estava ensanguentado por causa das árvores de agulhas e tinha sido violentamente mordido pelos kappa. Ele sangrava profusamente por ferimentos em que nacos de carne haviam sido arrancados de seu corpo. Embora houvesse tentado trocar de tática, mudando de homem para tigre e de volta para homem, eles o haviam quase destruído, dilacerando-o brutalmente pedaço a pedaço.
Entre os kappa e as árvores de agulhas, ele não tinha qualquer chance de se salvar, muito menos Kelsey. Um de seus braços pendia, flácido, ao lado do corpo e ainda assim ele se pôs de pé, pronto para lutar até seu último suspiro. Eu estava ali para me assegurar de que seu último suspiro não seria nesse dia. Ren nunca me contou quão próximo esteve da morte nessa floresta. Arrependimento e vergonha tomaram conta de mim. Eu deveria estar ali com meu irmão, lutando a seu lado. O antigo eu estivera chafurdando na dor, enfrentando demônios interiores em vez daqueles que podiam aleijar e matar. Era um orgulho teimoso que me mantinha na selva. Eu estivera tão determinado a me sentir infeliz que bloqueara tudo. Por minha causa, Ren poderia ter sido despedaçado. Kelsey poderia ter morrido. Eu não merecia o presente que ela havia me dado — que ambos tinham me dado —, mas com certeza podia cuidar para que eles sobrevivessem àquilo.
Com um toque de poder, instruí as árvores a focarem nos kappa e deixarem Ren em paz. Diferentemente dos kappa, as árvores obedeciam ao Amuleto de Damon. À medida que Ren lançava os demônios contra as árvores, eu cuidava para que eles não voltassem. Depois de vários minutos de luta sem que o fim dos demônios parecesse próximo, ambos ouvimos um grito.
Com um poderoso rugido, Ren correu as garras pelas barrigas dos dois demônios mais próximos, derramando suas vísceras negras pelo solo da floresta, e então disparou em meio aos galhos que o açoitavam, alheio a suas feridas ou ao fato de que seu braço mal se sustentava preso ao corpo. Grunhindo, mudei para a forma de tigre e mantive os demônios restantes à distância, dilacerando-os ao mesmo tempo que instruía as árvores a que formassem uma parede de galhos atrás de Ren para funcionar como barreira.
Repulsa e raiva me percorriam em ondas enquanto eu dilacerava as criaturas letais. Era uma sensação boa. Parecia ser a coisa certa a fazer. Em algum momento da luta, porém, me dei conta de que minha raiva e minha repulsa não eram dirigidas aos demônios, por mais nojentos que fossem, mas a mim. Que a criatura sombria e baixa que eu realmente queria destruir era o homem que eu era. Uma alma covarde e negra que preferia esgueirar-se para a escuridão a se pôr de pé e lutar pelo que queria.
Com os últimos kappa liquidados, segui a trilha de Ren de volta a Kelsey, torcendo desesperadamente para que tivesse tomado a decisão certa ao assegurar a fuga de Ren em vez de voltar eu mesmo até ela. As árvores ganharam vida e açoitaram meu rosto com os galhos, deixando uma dorzinha incisiva em todos os lugares que tocaram, mas dessa vez aceitei a dor aguda. Acolhia. Eu merecia a dor, então me regozijei com ela. E pedi mais. No entanto, ainda não era penitência suficiente.
Quando tornei a encontrar Ren, ele estava eliminando o kappa que estivera sugando o pescoço de Kelsey. Eu me amaldiçoei por deixá-la sozinha. Por não ter me lembrado de que ela havia sido atacada. Amaldiçoei o fato de não ter vindo nessa busca, de não ter ajudado. Kelsey estava pálida. Seus membros caíram, flácidos, junto ao corpo de Ren quando ele a levantou. Uma substância negra vertia do ferimento no pescoço dela.
Eu tinha feito isso. Ela estava machucada por minha culpa. Cada dor que ela sofria aqui, cada desconforto, cada risco, tudo isso poderia ter sido eliminado, ou pelo menos aliviado, se eu tivesse agido como homem. Senti cada passo doloroso que Ren dava como uma adaga em meu coração. Estremeci com os gemidos de dor que ele não conseguia reprimir ao ajeitar Kelsey cuidadosamente em seus braços, que ainda estavam em processo de cura.
Nunca mais, eu jurei. Nunca mais vou permitir que outra pessoa sofra por causa da minha inércia.
Ren carregou Kelsey até uma caverna e procurou madeira para fazer uma fogueira, nunca se afastando muito dela. Fiquei empoleirado, invisível, no morro ali perto e me forcei a ver o sofrimento de Kelsey. O mínimo que eu podia fazer era ficar ali com Ren, mesmo que ele não soubesse. Minhas brincadeiras tolas na selva, enquanto ele levava mangas para Kelsey, pareciam infantis agora. Eu era um homem pregando peças como um garoto mimado.
Embora devesse ter se transformado em tigre para se curar mais rápido, Ren permaneceu como homem para poder cuidar de Kelsey. Seu corpo humano tentava se curar e eu estremeci, sabendo a dor que ele estava experimentando.
Quando nos machucávamos como tigres, os ferimentos se curavam mais de cinco vezes mais rápido do que quando estávamos na forma humana. Como homens, uma febre acompanhava a regeneração, uma febre tão alta que um ser humano normal morreria. A sensação era de que nossas veias estavam pegando fogo quando isso acontecia. Também nos curávamos rápido como humanos, mas suportar essa dor por um tempo extenso era um grande sacrifício da parte de Ren.
Gentilmente, ele pôs panos molhados no braço e na testa de Kelsey, embora seus braços tremessem e o suor escorresse de suas têmporas. Ren falava com a forma inconsciente dela e suas palavras me ferroavam de várias maneiras. Ela já significava tudo para ele. Ele era ferozmente protetor em relação a ela e se culpava por quaisquer ferimentos que ela viesse a sofrer quando estava sob seus cuidados.
Poucas horas depois, alguns kappa alcançaram o acampamento. Ren ergueu a gada e se preparou para se defender mais uma vez. Em vez de fixar seus sinistros olhos negros em Ren, eles hesitaram e ergueram a cabeça para mim. Ren olhou em minha direção, mas eu permanecia invisível para ele. Como se fossem um único ser, os kappa avançaram e Ren ergueu a arma com o braço bom.
Tocando o pedaço da água do amuleto, sentindo sua forma pressionada contra a carne de meu polegar, fechei os olhos e comecei a falar em uma língua que eu não conhecia. As palavras soavam sombrias, líquidas e suscitaram uma resposta nos kappa, cujo avanço se desacelerou até cessar.
Um deles começou a falar e, embora eu não compreendesse completamente as palavras, o significado era claro. Eles queriam. Eles precisavam. Eles cobiçavam. E nos consideravam seus inimigos. Sua presa. Era seu direito nos caçar.
Repliquei em tom sussurrado e rebuscado, formando palavras que pareciam turvas como um pântano ao escapar de meus lábios. O farfalhar das árvores ao vento que eu havia criado levava as palavras direto até eles e ocultava minha voz do tigre com a audição ampliada. Eu sussurrava não para eles, posto que eles não acatavam o poder do amuleto, mas para a água que fluía neles e através de suas guelras: Adormeçam, recuem, desapareçam, ou eu tirarei as águas que sustentam vocês.
Os demônios oscilaram para a frente e para trás com suas pernas grossas, piscaram os olhos de crocodilo várias vezes, como se considerando minha autoridade, e então finalmente voltaram a seus covis aquáticos. Quando senti que todos eles haviam voltado para a água, congelei o rio para que não pudessem sair e deixei um comando para que as águas permanecessem congeladas até Kelsey e Ren deixarem Kishkindha.
Ren e eu cochilávamos apenas ocasionalmente, mantendo Kelsey sob vigília por dois dias. Embora eu pudesse ter acelerado o tempo, não o fiz. O mínimo que podia fazer era ficar com ele.
Ren acreditava que Kelsey estava morrendo. Ele parecia destruído. Inconsolável. Eu já o tinha visto assim. Era como estava quando ela partira para o Oregon. Meu coração doeu ao pensar nisso, mas então lembrei que o amor de Ren por Kelsey nunca foi a questão. Não fora por isso que eu viera.
Na noite do segundo dia, Kelsey piorou. Ela estava perdendo a batalha contra o veneno kappa. Ela se contorcia de dor e eu enxuguei lágrimas de raiva. Sabia sobre essa parte. Não havia nada que eu pudesse fazer para interromper o processo. Por que Fanindra não a mordia para deter o abominável veneno? Enquanto Ren tentava fazê-la beber água, eu sussurrei: “Vamos, Fanindra. Kelsey precisa de você.”
Naquele momento, a cobra dourada acordou. Ela deslizou, deixando o braço de Kelsey, e enroscou-se perto da coxa de Ren. Ele nem a notou. Dilatando o pescoço, a língua dela projetou-se para fora da boca diversas vezes e então ela se virou e olhou diretamente para mim. A cobra balançou-se para a frente e para trás, como se esperasse que eu reconhecesse sua presença.
Eu sabia que precisava pedir.
Sussurrando para a escuridão, implorei a Fanindra que ajudasse Kelsey, que a livrasse da dor e a curasse daquele veneno demoníaco. A cabeça da serpente ergueu-se e sua língua disparou, como se sentisse o sabor de minhas palavras. Então, coleando, deslizou o corpo de escamas douradas pelo ombro de Kelsey, ergueu a cabeça, escancarando a boca, e deu um bote rápido. Repetiu o processo várias vezes.
Ren estava de costas para ela, remexendo na mochila, quando isso aconteceu. Fanindra estava novamente enroscada e inanimada quando ele levou a garrafa de água até os lábios de Kelsey, que arquejou e levou os dedos ao pescoço. Foi nesse momento que Ren finalmente notou os orifícios na pele. Com cuidado, limpou os ferimentos e ergueu Kelsey nos braços. Quando ela perdeu a consciência, ele ameaçou a cobra reluzente:
— Se você salvar a vida dela com o que quer que tenha feito, então eu devo minha vida a você. Mas, se ela morrer, esteja avisada que vou encontrar uma forma de destruir tanto você quanto a deusa que nos mandou nesta busca.
Algo sombrio e agourento fervilhou nos olhos de meu irmão naquela noite escura, algo com que eu estava bastante familiarizado. Algo que eu nunca quis que ele conhecesse. Meus pensamentos voltaram-se para a deusa que ele mencionara. Minha testa se franziu. A ideia de que Ren ou qualquer outra pessoa pudesse fazer mal a Anamika era ridícula e, no entanto, me incomodou quando eu pensei que a estava deixando tanto tempo sozinha. Fechando os olhos, testei nossa conexão e fui assegurado de que ela não sofrera qualquer mal durante minha ausência. Mudei de posição, sentindo-me um tanto culpado, mas determinado a seguir meu caminho.
Logo ficou evidente que Kelsey estava se curando e, depois do nascer do sol, ela acordou. Ren ficou abraçado a ela e expressou seus sentimentos de uma forma melancólica, como eu jamais poderia fazer. Como eu poderia competir com um poeta que seduzia as mulheres com discursos floreados?
Na verdade, o fato de Ren expressar abertamente seus pensamentos e sentimentos para Kelsey a essa altura me surpreendeu. Ele confiava nela. Contou-lhe coisas que nunca havia confiado a mim ou a meus pais, nem mesmo a Kadam, até onde eu sabia. Que ele também estivera contemplando pôr fim à sua existência era algo de que nunca tínhamos falado. Eu me identificava com isso. E, no espaço de alguns minutos, passei a ver meu irmão sob uma nova luz. Talvez ele tivesse sofrido tanto quanto eu. Talvez, quando viu Kelsey, ele também tenha enxergado uma saída, um caminho, uma forma de deixar para trás nosso triste destino.
Eu não o culpava por amá-la.
Não o culpava por querer sair da selva um homem completo.
Não o culpava por aproveitar sua chance de tê-la.
Fechando os olhos, respirei fundo. Kelsey respondeu às emocionadas palavras de Ren dizendo: “Está tudo bem. Eu estou aqui. Não precisa ter medo.”
Mantendo os olhos fechados por mais um momento, fingi que ela estava falando comigo. Pousando a mão em meu braço. Confortando o tigre negro, não o branco.
Kelsey agradeceu a Ren e em seguida a Fanindra por salvar sua vida, e eu não pude deixar de sentir uma certa amargura com o fato de que, na verdade, fora eu quem a salvara e ela nunca saberia. Grunhindo, saltei para a boca da caverna para segui-los até o interior e corrigi esse pensamento: Kelsey não sabia... ainda.
Segui os dois através da caverna e fiquei fascinado com os lampejos de cenas do nosso passado e do futuro deles. A caverna assombrada não exercia nenhum efeito sobre mim, afora zombar de mim com imagens de coisas que me traziam arrependimento. Anamika apareceu perto do fim. Ela era jovem e estava chorando, algo que eu nunca a vira fazer. Tinha um machucado no rosto e, se eu não conhecesse a natureza daquela caverna, teria ido atrás dela para cuidar de seu ferimento.
No túnel que levava a Hampi, eu me locomovi o mais silenciosamente que pude, mas, vira e mexe, Ren olhava para trás e de tempos em tempos parava para ouvir. Em determinado ponto, ele farejou o ar e eu me dei conta de que ele poderia identificar meu cheiro. Então, com algumas palavras sussurradas para o amuleto, mascarei meu cheiro, como Kadam fizera, e logo o único cheiro que eu podia sentir, além do de Ren e de Kelsey, era o do musgo que crescia nas paredes.
Kelsey estava exausta e, na maior parte do tempo, alheia tanto a Ren quanto ao ambiente. O fato de que ele estava apaixonado por Kelsey, mesmo no começo, era indiscutível. Mas eu já sabia que ele a amava. A pergunta que permanecia era: ela o amava verdadeiramente mais do que amou a mim?


Avançando no tempo, espionei os dois. Ondas de esperança foram desfeitas por cenas ternas que torturaram meu coração e me despedaçaram. Obriguei-me a analisar suas discussões íntimas, ouvi suas promessas sussurradas e vi o amor crescer entre eles.
Disfarçando-me de garçom, eu os servi no Dia dos Namorados e mal pude me conter para não puxar a cadeira onde ele estava sentado antes de ela se acomodar no colo dele. Escondido nos arbustos, eu o vi presenteá-la com uma tornozeleira e implorar que ela não o deixasse. Na festa em Trivandrum, eu o observei desprezar o harém de garotas e se afastar com uma expressão sombria no instante em que Kelsey se retirou em lágrimas.
Invisível, espiei sua conversa no iate logo depois de Ren recuperar a memória e me empolguei por um breve momento quando Kelsey disse que ia ficar comigo. No entanto, avançando um pouco no tempo, deparei com os dois colados em um abraço muito íntimo na cabine dele, em uma época em que, supostamente, ela estava comigo. Quando apertei o amuleto, a cena desapareceu.
Murmúrios de aflição irromperam de meus lábios enquanto eu girava em um turbilhão, sem saber aonde deveria ir a seguir ou o que realmente estava tentando fazer. Minha mente aquietou-se um pouco e concluí que o que mais me confortaria e me ajudaria a compreender os sentimentos de Kelsey por mim seria reviver os momentos em que senti seu amor.
Um sorriso aflorou em meu rosto quando observei nossa guerra de sorvete e revivi momentos em Shangri-lá que provavelmente significavam mais para mim do que para ela. Kelsey parecia satisfeita de mãos dadas comigo enquanto caminhávamos pela selva e ao se agarrar a mim com força quando a carreguei depois que ela torceu o tornozelo tentando resgatar Ren.
Quando cheguei ao dia em que a pedi em casamento, franzi a testa, vendo que ela estava distraída. Foi preciso estudar a cena de vários ângulos diferentes e finalmente me disfarçar de banhista, tomando sol na areia, antes de me dar conta de que ela estava distraída por Ren. Enquanto meu eu passado se debatia com o que dizer e como soar romântico, tudo que Ren precisou fazer foi sair da água e todas as mulheres em um raio de mais de um quilômetro suspiraram por ele, inclusive aquela que estava em vias de se tornar minha noiva.
Ren ficou paralisado quando me viu oferecer o anel a Kelsey e então disparou morro acima como um raio, transformando-se em tigre assim que os arbustos lhe deram cobertura. Mesmo então, naquele momento, tive o pressentimento de que alguma coisa estava errada. De que Kelsey parecia quase triste ao aceitar a proposta. Ignorei o desapontamento que senti. O fato era que ela havia se tornado minha noiva. Mesmo sabendo que Ren tinha visto tudo, ela assumiu um compromisso comigo, e era óbvio, observando nós dois juntos, que ela sentia alguma coisa por mim.
Deixando a praia, voltei no tempo até nosso encontro no iate. Das sombras, assisti inúmeras vezes ao nosso beijo.
“Você devia se sentir muito solitário”, disse Kelsey enquanto eu via a cena pela décima vez.
“E me sentia mesmo”, meu outro eu respondeu. “Fazia tanto tempo que estava sozinho que me achava o último homem na Terra. Então, quando vi você, foi como um sonho. Você era um anjo que finalmente tinha chegado para me resgatar da minha existência infeliz.”
Eu ainda me sentia assim. A maldição foi quebrada para Ren, mas não para mim. Eu ainda estava preso a uma existência infeliz, e essa garota era a única pessoa no universo que poderia pôr fim nisso. Cruzei os braços e me encostei em um pilar, movendo os lábios conforme as palavras que havia muito eu tinha decorado eram ditas:
“Quis ficar com você, sem me importar com quem iria magoar ou em como isso iria fazer você se sentir. Eu queria que você me quisesse da mesma maneira, e você não queria. Queria que sentisse por mim o mesmo que sentia por Ren, mas você não era capaz disso.”
“Mas Kishan...”
“Espere... deixe-me terminar. Não sei se foi algo que aquele pássaro idiota fez comigo em Shangri-lá, mas tenho sido capaz de enxergar com mais clareza desde então... não só no que se refere ao meu passado e a Yesubai, mas a você também, e ao meu futuro. Eu sabia que não ia ficar sozinho para sempre. Vi isso no Bosque dos Sonhos.”
Refleti por um momento sobre as visões que me foram dadas no Bosque dos Sonhos. Talvez tivesse sido orgulho o que me motivou a esconder o conhecimento de que o bebê de Kelsey tinha meus olhos. Aquele doce bebezinho de olhos dourados embalado por sua linda mãe era uma imagem que me perseguia em todos os momentos em que eu estava desperto.
Ela lhe dera o nome de Anik. Isso eu tinha lhe dito, mas o que eu não partilhara era o fato de que o nome do meio era Kishan. Anik Kishan Rajaram, meu filho de olhos dourados. Talvez, se eu lhe tivesse dito o que sabia, ela tivesse se sentido de outra maneira. Nosso relacionamento poderia ter sido mais fácil, e Ren, uma influência menor. No entanto, meu ego atrapalhou tudo. Eu queria que ela me escolhesse porque me amava, não por causa de uma visão. Estúpido! Que diferença isso teria feito? Kelsey tomou uma decisão sem ter todas as cartas na mesa. Como eu poderia esperar que ela ficasse, se ela não sabia o mesmo que eu? Tornei a voltar a atenção para a cena que se desenrolava à luz de velas.
Vi o Kishan lá embaixo tocar os lábios de Kelsey. Se eu fechasse os olhos, ainda podia sentir aquela textura de veludo sob a ponta dos meus dedos.
“Eu não estava pronto para ter um relacionamento naquela época. Não tinha nada a oferecer. Não para uma mulher deste tempo. Mas Shangri-lá me deu algo mais valioso do que mais seis horas por dia como homem. Me deu esperança. Uma razão para acreditar. Por isso esperei. Aprendi a ser paciente. Aprendi a viver neste século. E agora... o mais importante: acho que finalmente aprendi o que significa amar alguém.”
Meu antigo eu tinha pelo menos uma gota de bom senso. Ele, ou eu, tivera paciência, e essa paciência tinha valido a pena. Talvez, se eu pudesse reunir um pouco mais de paciência, as coisas terminassem bem. Ainda tinha tempo. Muito tempo, na verdade. Não havia razão para que um casamento tivesse de acontecer. Eu podia parar aquilo antes que as coisas fossem longe demais.
Ouvi um rangido quando Ren apareceu em meu campo de visão. Ele se agachou no convés logo abaixo do meu e observou o casal abaixo com o mesmo fascínio e a mesma atenção que eu vinha lhes dedicando. Seus dedos seguraram com força a cadeira de piscina perto dele.
O antigo Kishan disse:
“Então, suponho que a única questão restante, Kelsey, seja... será que os meus sentimentos são correspondidos? Você sente pelo menos uma pequena parte do que eu sinto por você? Há um pedaço seu que pode reservar para mim? Que eu posso chamar de meu? Que eu posso tomar para mim e guardar para sempre? Prometo que vou valorizá-lo e defendê-lo ardorosamente por todos os dias da minha vida. Seu coração chega a bater por mim, meu amor?”
Após um breve momento, Kelsey respondeu:
“Claro que sim. Não vou permitir que você fique sozinho nunca mais. Eu também amo você, Kishan.”
Assisti ao beijo, lembrando a força e a paixão presentes nele, e senti inveja de meu antigo eu por ter aquela experiência naquele momento. As palavras de Kelsey ecoavam em minha mente. Um pedaço dela pertencia a mim e sempre pertenceria. Eu sabia que isso era verdade. Quando Ren perdeu a cabeça, atirou a cadeira e um caos geral se seguiu, murmurei silenciosamente as palavras da promessa de Kelsey para o ar escuro e balsâmico:
— Eu não vou ficar sozinho.
— É claro que você não está sozinho — declarou uma zombeteira voz feminina atrás de mim.

8 comentários:

  1. Eu não sei mais oq pensar.
    Pq eu estava mt feliz com o final, agr eu to com pena dele. Pq ele é maravilhoso e eu já chorei mt por ele e eu n sei mais oq pensar!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pois é, todo mundo não tava nem ai pro Kishan né? Agora todos estão. Sempre fiquei com pena deleX-(

      Excluir
  2. Acho que o Kishan se sacrificou demais pela a Kelsy para receber muito pouco. O que ele ganha em troca? Ficar no passado e ficar sofrendo por um amor não correspondido!!

    ResponderExcluir
  3. Acho que o Kishan se sacrificou demais pela a Kelsy para receber muito pouco. O que ele ganha em troca? Ficar no passado e ficar sofrendo por um amor não correspondido!!

    ResponderExcluir
  4. Coitado, eu gosto tanto dele, tomara q até no fim do livro ele se toque q a Kelsey é do Ren. Investe na deusinha q nao tem erro

    ResponderExcluir
  5. Eu ja tinha suspeitado que seriam eles a refazer a maldição mas que kishan estaria observando tudo como se estivesse vendo um bbb, essa é nova

    ResponderExcluir
  6. Poxa! Ele merece mais! Que triste!

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!