11 de setembro de 2018

4 - Tóquio

Anamika agarrou os braços do trono de diamante cor-de-rosa, sua tensão imperceptível para qualquer um, menos para mim. Pus a mão em seu ombro e tentei transmitir-lhe um pouco de energia tranquilizadora.
Kadam falou, hesitante:
— Não sei muito bem por onde devo começar.
— Talvez deva começar do início — brincou Anamika, mas eu ainda percebia a seriedade por trás de seu tom leve.
— Sim. Bem, essa é a questão. Não existe um início. A linha do tempo dá voltas e reviravoltas, dobrando-se sobre si mesma como um grande anel. Eu só sei onde há fragmentos faltando, à espera de serem preenchidos... o que deve ser feito para completar o círculo.
— Então nos diga o que precisa ser feito — disse Anamika baixinho.
Kadam se remexeu e torceu o Lenço Divino nas mãos. As cores do lenço se modificavam à medida que espirais pretas avançavam pelo tecido mágico.
Quando ele levantou a cabeça, olhou para mim e disse em voz baixa:
— Vocês precisam criar a maldição.
Meu coração parou quando ouvi essas palavras.
— O que quer dizer com “criar” a maldição? — perguntou Anamika.
— A maldição que transformou Kishan e Ren em tigres não foi lançada por Lokesh — explicou Kadam. — Foi por vocês dois.
Quando Anamika começou a perguntar como, eu a atropelei e questionei:
— Por quê?
Suspirando, Kadam apertou o nariz na altura dos olhos e disse:
— Não há uma só parte disso que não tenha tido a mão de vocês dois. Quando visitamos os templos de Durga, vocês dois estavam lá. Quando Ren e Kishan foram transformados em tigres, foram vocês os responsáveis. Os presentes de Durga encontrados nos reinos de Shangri-lá, Kishkindha, Cidade de Luz e Sete Pagodes foram todos escondidos lá por... vocês.
Anamika ficou sem fala e eu também me vi atordoado com as palavras de Kadam.
Gaguejando, murmurei:
— Você está dizendo que fizemos isso a nós mesmos? Que nós causamos a maldição?
— Causar não é a palavra certa. É mais como... vocês a orquestraram — replicou Kadam.
Que insanidade se apossou da mente de Kadam? Nós orquestramos a maldição? Qual seria o propósito de fazermos isso? Não bastou eu ter sacrificado a vida que queria com a garota que eu amava para fazer o papel do tigre de Durga? É assim que o universo me recompensa? Não só tira o que eu mais quero como faz com que eu seja aquele que causou meus próprios problemas?
— Eu sei o que você está pensando — disse Kadam.
Duvido.
— Você está questionando tudo. Seu lugar no mundo. Seu propósito.
Olhei para Anamika e a vi ouvindo em silêncio, as mãos recatadamente cruzadas no colo. Parecia mais relaxada agora.
É claro. Para ela isso é apenas outra tarefa a cumprir. Ela não se importa se o que Kadam propõe acabar por destruir minha vida. A maldição do tigre não recai sobre ela; afeta a mim. Se eu não fosse um tigre, eu iria... iria o quê?
— Eu também tive essas preocupações, mas, quando pensei bem — continuou Kadam —, percebi que meus sacrifícios eram para o bem da minha família, o bem da humanidade.
O bem da minha família? A maldição do tigre destruiu minha família. O bem da humanidade tampouco era o primeiro item da minha lista de prioridades, e eu tinha certeza de que, se houvesse uma chance de Ana abrir mão de ser Durga, ela a agarraria com todas as forças.
— Não — falei.
Anamika ergueu os olhos para mim com uma expressão curiosa.
— O que você quer dizer? — perguntou Kadam.
— Não. Eu não vou condenar meu eu passado, meu eu futuro nem qualquer outra parte de mim a ser um tigre.
— Mas, filho, você precisa fazer isso.
— Por que preciso? Você disse que eu tinha a liberdade de escolher; bem, eu escolho ser livre.
— Não creio que você compreenda plenamente o que isso significa.
— Sei muito bem o que significa. Significa que Ren e eu teremos vidas normais. Podemos usar o poder do amuleto para voltar e derrotar Lokesh antes da maldição, o que será muito mais fácil, já que ele não tem o amuleto inteiro. Ren pode se casar com Yesubai e se tornar o imperador e eu vou para o futuro e encontro Kelsey. Todos ficam felizes!
— Não é assim que funciona, Kishan.
Cruzei os braços diante do peito.
— Por que não?
— Porque você não pode voltar e mudar o que já aconteceu. Você não vê? Se tivesse feito isso, então por que estaria aqui agora?
Eu não tinha uma resposta para ele. Meu coração e minha mente estavam me dizendo para ir, agora, para evitar que a maldição acontecesse, mas Kadam tinha razão. Alguma coisa me detivera ou iria me deter. Caso contrário, eu teria feito isso. A lógica circular estava me dando uma dor de cabeça lancinante.
— Isso me aflige tanto quanto a você — acrescentou ele. — Acredite quando digo que já pensei muito no assunto. Acabei de passar semanas me segurando para não comprar Ren ou não evitar que o roubassem. Deixá-lo naquelas jaulas quase me destruiu. Confie em mim quando digo que isso é tão difícil para mim quanto será para você.
— Então o que você gostaria que fizéssemos? — perguntou Anamika, me lançando um olhar de simpatia.
Cansado, Kadam suspirou e, por um momento, senti uma onda de culpa por atacá-lo. Se alguém tinha em mente os melhores interesses de minha família, era ele. Eu sabia disso. Era uma das únicas coisas no universo que permanecia constante. Ele estava usando os últimos dias de sua vida para nos ajudar, para me ajudar. Eu deveria ser um pouco mais agradecido. Mas era difícil não me irritar com a ideia de amaldiçoar meu eu passado diante da vida solitária que eu vinha levando.
Pelo menos Ren havia escapado da maldição. E eu? Eu passaria o restante dos meus anos como um tigre.
Alheio a meus pensamentos sombrios, ou talvez ignorando-os, Kadam apresentou uma lista de épocas e lugares em que precisávamos intervir na história para criar nosso presente. A lista era muito mais longa do que eu havia antecipado e Anamika tinha perguntas imediatas do tipo “Como vamos saber o que fazer?” e “E se saltarmos para o tempo ou o lugar errado?”.
Kadam ergueu a mão.
— O Amuleto de Damon funciona como um... como um... Ainda não existe expressão para descrevê-lo, só em termos futuros. É como um GPS cósmico. Kishan vai explicar o conceito para você. De certa forma, ele está pré-programado para ir a esses lugares onde a linha do tempo deve ser reforçada. Quanto à questão do que vocês farão uma vez lá, não posso mesmo dizer. Isso poderia afetar suas ações.
Depois de uma pausa, continuou:
— Aprendi que permitir que as coisas aconteçam organicamente em geral funciona melhor. Agora preciso voltar para o meu tempo, mas confio em que vocês dois farão a coisa certa. Kishan conhece os lugares listados e a ajudará nas tarefas que precisam realizar. Usem o lenço para se disfarçar, quando necessário, pois não seria sensato da parte de vocês encontrar seu eu passado. Bhagyashalin. Boa sorte para os dois.
— Espere! — gritei quando ele segurou seu pedaço do amuleto. — Nós o veremos novamente?
Sua boca se retorceu em um sorriso triste.
— Sem dúvida.
Assim que ele baixou a cabeça, o vento espiralou a sua volta, toldando nossa visão. Quando o vento se dissipou, ele havia desaparecido.
Anamika pressionou os dedos contra os lábios. Eu me perguntei o que ela estava pensando e quase estendi a mão para tocar seu braço. Nós dois podíamos partilhar os pensamentos se nos tocássemos e estivéssemos dispostos a abrir a mente, mas o breve contato físico só produzia o agradável zumbido ao qual já havíamos nos acostumado.
Ela deslizou do trono de diamante e começou a andar de um lado para outro no tapete espesso enquanto lia a lista. Quando chegou ao fim, me entregou o papel e esperou, impaciente, que eu terminasse de ler. Soltei um suspiro e corri a mão pelos cabelos.
— O que vamos fazer com isso? — perguntou ela.
Inclinando a cabeça, contrapus:
— O que você quer fazer?
— É muita coisa para se levar em conta. — Ela ficou brevemente paralisada quando, por fim, percebeu o amuleto pendurado em meu pescoço. Seus olhos voaram para os meus, como se ela estivesse tentando ler os pensamentos escondidos sob a superfície. Como não ofereci qualquer explicação, ela disse: — Talvez devêssemos discutir isso em detalhes amanhã.
Assenti, ciente de que precisava contar a ela o que havia acontecido. Eu sabia que ela não deixara de notar que um item, o primeiro da lista, já fora riscado.
Salvar Kelsey
Com o andar duro, Anamika voltou para seus aposentos. Eu me senti muito culpado e não sabia muito bem o porquê. Não tinha feito nada de errado. Sim, pegara o amuleto sem falar com ela. Kadam, porém, tinha dito que esperasse até que ele pudesse explicar. Ainda assim, eu me sentia como se houvesse traído pessoalmente a confiança de Anamika.
Enquanto ela seguia montanha adentro, optei pela direção oposta e saí do castelo escavado na pedra, indo até uma varanda que dava para o jardim de Durga. A noite estava fria e as estrelas pareciam estar tão perto que daria para tocá-las. O perfume de lótus e rosas pairava no ar e fazia cócegas em meu nariz.
Sem parar, saltei a varanda e aterrissei, agachado, na grama alguns níveis abaixo. Então, ato contínuo, mudei de forma e bebi a água gelada da fonte. Depois de saciar a sede, encontrei um lugar macio no solo e me acomodei para a noite. O vento soprava minha pelagem preta e a sensação era relaxante, então resvalei para o sono, pensando na versão mais jovem de Kelsey.
Acordei ao alvorecer e estava terminando de me espreguiçar quando captei um cheiro de jasmim no ar. Anamika achava-se sentada junto à fonte, repetidamente mergulhando as mãos e deixando a água escorrer entre os dedos. Parecia absorta em pensamentos.
Preguiçosamente, fui até ela, que correu a mão por minhas costas quando me sentei a seus pés. Enquanto ela continuava a acariciar minha cabeça e meus ombros, eu a senti falar em minha mente — uma habilidade especial que descobrimos quando entramos na batalha com Lokesh como Durga e Damon. Nunca tive a chance de perguntar a Kelsey e Ren se o mesmo acontecia com eles. O truque era bastante conveniente quando eu estava servindo como tigre de Durga. Ela nunca precisava adivinhar, com base em minha cara de tigre, o que eu queria dizer.
O que vamos fazer?
Não sei. O que você acha de tudo isso?, foi o que respondi.
Não estou muito certa. Se quero desfazer o passado — revisitar batalhas que perdi, buscar aqueles que amo? Sim! Mas, se eu mudar a história, também não estarei arriscando perder meu irmão para o demônio? Se eu criar resultados positivos onde antes fui derrotada, também não perco as lições que aprendi e, em última análise, abro mão de meu verdadeiro eu?
Grunhindo levemente, respondi:
Você está dizendo que eu devo amaldiçoar meu eu passado?
Não. Estou dizendo que você deve aprender a abraçar quem você é, o que você se tornou.
Sacudindo meu corpo de tigre, repliquei:
Eu perdi tanto, Ana... O tigre destruiu tudo que era importante para mim: meus pais, minha herança, minha chance de ter uma família... e tirou de mim as duas mulheres que amei.
Talvez você esteja certo, no entanto, pense no que o tigre lhe deu.
Eu poderia igualmente pedir a você que abrace sua versão deusa.
Ela ficou paralisada, com a mão em minha cabeça.
Você tem razão em pensar que eu não acolho de braços abertos meu destino. Após um momento de silenciosa reflexão, ela enviou outro pensamento para minha mente: Você já começou sua jornada em direção ao nosso destino, não é, Kishan?
A mão dela caiu de meu ombro quando me afastei alguns metros. Mudando para a forma de homem, me mantive de costas para ela e disse:
— Você está se referindo ao item riscado.
Inclinei a cabeça, mas só ouvi o leve ruído de sua respiração como resposta. Dando meia-volta, deparei com ela me fitando com firmeza, pacientemente esperando minha explicação. Corri a mão pelos cabelos e me agachei diante dela.
— Kadam me pediu que pegasse o amuleto e não contasse a você. Disse que precisávamos salvá-la.
— Kelsey — afirmou Anamika.
— Sim. Eu presumi que alguma coisa estava errada em casa, que ela fora atacada, mas o que de fato aconteceu foi... bem, foi completamente inesperado.
— Me conte — pediu ela, mudando de posição e expondo uma longa e deslumbrante perna nua.
Sentindo um desconforto repentino, me levantei e comecei a andar de um lado para outro.
— Não fomos até o presente ou o futuro de Kelsey, fomos para o seu passado.
— Passado? Por quê?
— Quando ela era adolescente, seus pais morreram em um acidente de automóvel.
— O que é adolescente?
— Uma adolescente é uma garota jovem. Que não é mais criança, mas ainda não é mulher.
— Entendi — observou ela, pensativa. — E o que é um automóvel?
— Um automóvel é uma espécie de... — Vasculhei meu cérebro tentando encontrar uma forma de descrevê-lo. Em vez disso, ofereci minha mão. — Talvez seja mais fácil mostrar a você.
Anamika se levantou e estendeu a mão. Quando envolvi sua mão quente com a minha, não pude deixar de perceber como sua pele era macia e como seus cabelos exalavam uma fragrância de lótus e jasmim. Ela sorriu, vislumbrando rapidamente para onde minha mente me conduzia, mas eu logo embaralhei os pensamentos sobre suas pernas e o perfume de seus cabelos, mandando-os para o fundo da mente, e trouxe à superfície minha experiência recente com Kelsey.
Quando estávamos juntos, Anamika raramente abria a mente para mim e, como cortesia, eu mantinha a minha inacessível para ela também, embora fosse completamente possível saber tudo que cada um de nós sentia e vivia. Também era possível limitar o que era mostrado, como eu fizera com Kelsey. Eu trouxe à superfície tudo que acontecera desde que Phet se revelara para mim e deixei-a ver tudo através de meus olhos.
Anamika absorveu tudo em silêncio, mas, ainda assim, pude perceber que a surpresa e o espanto a dominavam. Perguntas enchiam sua mente enquanto ela estudava as cenas que, da minha perspectiva, se desenrolavam para ela como um filme. Depois que viu a morte dos pais de Kelsey e testemunhou quando eu me removi de sua mente, ela estendeu delicados dedos mentais, em uma tentativa de ver mais. Eu a interrompi e soltei sua mão.
— Você já viu o bastante — declarei abruptamente.
Ela me estudou com os olhos verdes límpidos e cheios de compaixão. Tomando minhas mãos nas dela e oferecendo simplesmente a serena calidez de nossa conexão, ela disse:
— Por favor, não se zangue. Peço desculpas pela intromissão. Não tive a intenção de ver mais do que você queria mostrar.
— Mas viu.
Anamika assentiu.
— Vi sua intenção. O que está cogitando fazer é perigoso.
— Perigoso para quem?
— Para todos nós. Meu professor... — ela fez uma pausa — ... Kadam disse que ver nosso eu passado poderia ser desastroso.
Cerrando o maxilar em um gesto resoluto, retruquei:
— Eu só quero ver se ela está feliz.
— E se ela não estiver?
— Vamos lidar com o problema quando chegar a hora.
Unindo as mãos atrás de si, ela atravessou o jardim, seguindo para o amplo arco de pedra com passos determinados. Fui atrás dela.
— Aonde você vai?
— Buscar minhas armas.
— Você não vai precisar de armas onde eu planejo ir.
Ela se deteve e pôs as mãos nos quadris, o que destacou a cintura fina e fez subir a barra do vestido verde, o favorito para caçar, até o meio das coxas.
Esfreguei o maxilar.
— Mas vai precisar de roupas novas.
Enquanto ela balbuciava alguma reclamação, agarrei sua mão, dei meia-volta e segui na direção do castelo, os nervos e a excitação acelerando meu passo.
Minutos mais tarde, eu usava um terno executivo escuro e gravata, e decidira fazer as vezes de auditor. Eu usara o lenço para vestir Anamika como minha assistente.
— Por que não vamos direto visitar Kelsey e Dhiren? — perguntou Anamika.
— Porque não quero interferir, a menos que seja absolutamente necessário.
— Então você vai encontrar a informação que procura na sua... ampesa?
— É empresa a palavra correta, e, sim, devo conseguir saber mais se puder acessar o computador.
— Eu não entendo empresas ou computadores.
— Eu sei. Olhe, sua função é ser minha assistente.
— As assistentes precisam usar esta roupa desconfortável?
Ela puxou, irritada, a jaqueta cinza antes de fazer comentários depreciativos sobre a cor de sua blusa de seda rosa. Depois de deslizar as mãos pela saia justa e chutar a cadeira com suas sapatilhas de tecido macias, ela exigiu:
— Quero ao menos manter minhas botas.
— Você tem sorte — respondi com um sorriso irônico. — Se o lenço pudesse fazer saltos altos, era o que você estaria usando.
Jogando os cabelos compridos por cima do ombro, ela seguiu até o espelho, resmungando o tempo todo sobre saltos altos e empresas.
Cruzei os braços e sorri. Mesmo com trajes modernos, Anamika era a própria princesa guerreira e selvagem. Pigarreando, eu disse:
— Vamos ter de fazer alguma coisa em relação a esse cabelo.
Ela girou e, na defensiva, me fuzilou com os olhos.
— Qual é o problema com meu cabelo desta vez?
— Ele precisa ser... bem... controlado. Quem sabe um coque na nuca?
— Meu cabelo não pode ser controlado. Muitos tentaram, mas todos fracassaram.
— Entendo.
Esfregando o polegar no maxilar, estudei suas longas madeixas.
— Sente-se — ordenei.
Ela recuou um passo, os olhos alarmados.
— O que você pretende fazer? — perguntou, cautelosa.
— Pretendo arrumar o seu cabelo.
Erguendo o queixo com altivez, ela respondeu:
— Não.
— Ele precisa ser arrumado, Ana.
Ela sacudiu a cabeça e afastou-se ainda mais de mim.
Meus sentidos se aguçaram e alguma coisa mudou em mim. Senti um súbito impulso de caçar. Um rosnado ribombou em meu peito enquanto eu me aproximava devagar. Quando as costas dela encontraram a parede, estreitei o olhar, fixando-o em seu pescoço esguio, e dei mais um passo, transfixado pela pulsação que saltava violentamente à minha aproximação.
Estendendo a mão para tocar seu cabelo, perguntei:
— Está com medo de mim, Ana?
Ela engoliu em seco e ergueu os olhos. Não foi medo que vi ali, mas havia alguma coisa, alguma coisa... vulnerável. Tão rapidamente quanto eu havia reconhecido o sentimento, ela piscou e seus lindos olhos verdes reluziram, desafiadores.
— Não tenho medo de você, tigre negro.
Zombei dela de leve:
— Não. Você só está com medo de que penteiem seu cabelo.
Com um sibilo, ela me empurrou e se sentou.
— Não estou com medo de nada — disse e me entregou uma escova de cabelo.
Jogando o cabelo dela sobre seu ombro, pressionei meus lábios em seu ouvido e disse:
— Desculpe se não acredito em você, Deusa.
Anamika fez um gesto, como uma rainha dispensando um lacaio, e dei uma risadinha. Ela sentou-se, rígida, enquanto eu corria a escova por seu cabelo longo e escuro. A sensação era relaxante e me fez pensar em minha mãe.
Quando eu era garoto, gostava de escovar o cabelo de minha mãe. Era nosso segredinho, ela dizia. Depois que comecei a ser treinado por Kadam, peguei a escova da minha mãe e a escondi. Alguns dias mais tarde, ela mandou me buscar e perguntou se eu a pegara. Com a expressão séria que só um garoto de 8 anos pode ter, eu lhe disse que um guerreiro tão formidável quanto eu iria me tornar perderia toda a credibilidade, teria a reputação arruinada, se descobrissem que gostava de escovar cabelo de mulher.
Mamãe, em resposta, perguntou se uma mulher poderia escovar o cabelo de um homem.
— É claro! — respondi.
Ela se inclinou para mim, seu nariz quase tocando o meu, e disse:
— Então talvez eu possa escovar o seu.
Pegou a escova quando eu prontamente deitei a cabeça em seu colo e, enquanto ela a deslizava por meu cabelo, falamos de minhas reflexões infantis. Com o passar dos anos, criei o hábito de deitar a cabeça no colo de minha mãe. Eu contava todas as minhas preocupações e então ouvia seus sábios conselhos.
Quando vi Yesubai pela primeira vez, lembro-me de ter notado seu cabelo muito, muito comprido. À medida que a fui conhecendo, concluí que era inteiramente apropriado a um marido escovar o cabelo da mulher na privacidade de seus aposentos. Eu planejava dar a ela um conjunto de lindas escovas como presente de casamento. Então ela morreu e eu fui amaldiçoado e condenado a viver como tigre.
Minha mãe tentou transpor o abismo que surgira entre nós depois que me tornei um tigre, mas eu estava determinado a ser infeliz. Ela me abraçava ou acariciava minhas costas de tigre, mas eu sempre me afastava. Sentia falta da intimidade entre nós, mas não sabia como consertar o que eu era ou anular o que eu fizera. Ser um tigre foi a punição que recebi por me apaixonar pela namorada de Ren.
Então veio Kelsey. Seu abraço me curou. Seu toque me fez esquecer. Me deu a esperança de um futuro que agora parece ter sido levado para sempre. Eu havia deitado a cabeça no colo de Kelsey. Pedido que fosse minha mulher. Finalmente ia me tornar o homem que sempre quisera ser.
Mas o tigre não me deixaria. Mais uma vez, a maldição ameaçava me destruir porque eu me apaixonara pela garota de Ren.
Como se pressentisse meus pensamentos, Anamika perguntou:
— Você escovava o cabelo dela?
Eu soube imediatamente a quem o “dela” se referia. Ainda assim, perguntei:
— Kelsey?
Ela assentiu. Eu me imobilizei e pensei em minha ex-noiva. Engoli em seco antes de responder:
— Não. Nunca fiz isso.
— Talvez devesse ter feito — brincou ela de leve. — Você tem boas mãos.
Juntando seu cabelo, eu o enrolei e prendi em sua nuca com uma tira de couro. Satisfeito, cutuquei-a na cadeira.
— Também sou francamente adepto das massagens — informei com um sorriso triste.
Anamika virou-se, tentando entender o funcionamento do botão em sua jaqueta.
— O que são massagens? — perguntou enquanto enrolava a Corda de Fogo na cintura, como um cinto, e amarrava o Lenço Divino no pescoço.
Estendendo a mão para ajudá-la com o botão, respondi:
— Mais tarde eu mostro a você.
Anamika mexeu no botão de meu paletó, acariciou a gravata de seda e então tocou o amuleto que pendia de meu pescoço.
Oferecendo-lhe o braço, chamei:
— Vamos?
Ela olhou meu braço com uma expressão confusa.
— Vamos o quê?
Peguei sua mão, dobrei seus dedos sobre meu braço e disse:
— Vamos embora?
Fitando os próprios dedos como se eles não fizessem mais parte de seu corpo, ela assentiu, calada.
Selecionando um tempo de quatro semanas depois que Ren e Kelsey retornaram ao futuro, fechei os olhos e visualizei o parque arborizado perto das Indústrias Rajaram, no Japão.
Apertando Anamika junto a meu corpo, desaparecemos.


Eu havia propositadamente escolhido um lugar à sombra de uma grande árvore, nas primeiras horas do dia, momentos antes do nascer do sol, e por muita sorte não havia ninguém por perto quando aparecemos. Pegando a mão de Anamika, eu a guiei entre as árvores, na direção do lago.
As Indústrias Rajaram ficavam do outro lado do parque e, se tínhamos cronometrado corretamente, havíamos chegado no momento em que abriam.
Quando um par de ciclistas madrugadores passou à nossa frente em um caminho sombreado por ginkgos, Anamika se assustou.
— O que... o que são essas coisas? — perguntou com espanto. — São carros?
— Não. — Dei uma risada. — Essas coisas são chamadas de bicicletas. São usadas como transporte e para as pessoas se divertirem.
Uma música pairava no vento e ela puxou meu braço para me levar naquela direção.
— Venha. Quero ouvir os tambores.
Então nos aproximamos de uma área onde músicos de todos os tipos se preparavam para tocar. Fiquei surpreso ao ver no rosto dela uma expressão de deleite em lugar de medo. Depois que eu disse a ela que era indelicado apontar a roupa e a aparência esquisitas dos transeuntes, que aumentavam em número à medida que os minutos passavam, ela se contentou em sussurrar comentários para mim sobre os estranhos penteados, roupas e piercings que notava.
Anamika ficou especialmente fascinada com os corredores da madrugada. Com as mulheres que usavam rabo de cavalo, fones de ouvido e sapatos de corrida coloridos. Ela se maravilhou com os amplos jardins de rosas, e a animação em seu rosto me fez desacelerar o passo para que ela pudesse parar e sentir o perfume das flores. Quando cruzamos a ponte, a fonte no lago disparou um jato d’água bem alto no ar. Deixei-a observar a água por vários minutos até parecer satisfeita e voltar-se para mim com uma expressão de curiosidade.
— Este é o mundo em que você cresceu?
— Não. Este é o mundo de Kelsey. Eu nasci num tempo em que as coisas se moviam lentamente, muito parecido com o seu. — Quando voltamos a andar, perguntei: — Este lugar assusta você?
— Não. Não com você ao meu lado.
Olhei para ela, me perguntando se estaria tentando brincar comigo, mas Anamika observava o ambiente, completamente alheia a meus pensamentos. Censurando-me, lembrei que ela era muitas coisas, mas frívola não era uma delas. Ela se orgulhava de ser direta. Era algo que eu admirava nela. O fato de minha presença lhe dar coragem despertou um sentimento de satisfação em mim.
— Você me honra, Deusa — declarei com um brilho nos olhos.
Seus olhos verdes ergueram-se para os meus, procurando descobrir minha disposição, e um segundo depois ela me presenteou com um raro sorriso.
Depois de passar por um templo japonês, deixamos o bosque e atravessamos um amplo gramado. Anamika parou de repente. Sua respiração se acelerou e senti o cheiro pungente de seu medo. Ela agarrou meu braço.
— O que foi? — perguntei baixinho.
— Não... não é possível — disse ela.
Sua cabeça estava erguida para o céu. No ponto onde as árvores se separavam, o horizonte de Tóquio era claramente visível e um avião passou sobre os arranha-céus enquanto observávamos.
— Anamika, olhe para mim.
Pus as mãos em seus ombros e a virei para mim:
— Nesta época, as pessoas têm recursos para construir edifícios muito altos e transitar pelo céu em carruagens de metal. Elas viajam por terra em estradas amplas que parecem não ter fim. Existe uma força invisível chamada eletricidade que fornece uma luz equivalente a cem velas. Portas são feitas de vidro e se abrem sem que ninguém as segure. Você verá muitas coisas estranhas e diferentes, mas quero que se lembre de que você tem mais poder do que tudo isso. Você é a deusa Durga e nada pode feri-la. Eu estarei ao seu lado. Caso se sinta insegura, observe o que eu faço. Prometo que não vou deixá-la desorientada.
Anamika engoliu em seco e assentiu com a cabeça. Um brilho familiar surgiu inadvertidamente em seus olhos.
— Estou pronta — disse ela. — Pode me acompanhar até a empresa gigante de metal.
Quando começamos a andar na direção da faixa de pedestres agora fervilhante e seus olhos se arregalaram ao ver as centenas de carros mudando de faixa e buzinando, acrescentei:
— Ah, mais uma coisa: provavelmente vai ser melhor se você não falar muito.
Ela franziu a testa e arqueou uma sobrancelha, desafiadora, e essa expressão me fez rir. Sua indignação justificada diante de meu comentário também serviu para ajudá-la a esquecer quanto esse mundo era totalmente estranho para ela. Estávamos nos aproximando das portas de vidro da sede das Indústrias Rajaram e, vendo-a caminhar de maneira corajosa a meu lado, eu me perguntei se lidaria com essa época tão bem se nossos papéis estivessem invertidos.
A recepcionista foi simpática até eu declarar nosso propósito. Sua testa se franziu, numa expressão confusa.
— Acabamos nossa auditoria anual recentemente. Desculpe, mas não estou entendendo — disse ela em tom educado, mas com uma expressão de “Nada esquisito passa por mim”. Anamika não ajudou nem um pouco quando perguntou bruscamente à garota por que ela estava usando cor nos lábios e no rosto.
A recepcionista estava pegando o telefone para chamar um supervisor quando Ana agitou os dedos no ar. A garota piscou e se desculpou por incomodar o supervisor sem necessidade antes de desligar o telefone. Ela então retornou a seus papéis, ignorando-nos completamente.
Havia muito tínhamos descoberto que ambos podíamos acessar o poder do Amuleto de Damon, não importando quem o estivesse usando, desde que não estivéssemos afastados mais do que alguns poucos quilômetros.
— O que foi que você fez? — perguntei, incrédulo.
— Simplesmente acessei a memória dela e nos bloqueei de seus pensamentos. Ela não vai se lembrar de nós ou nos ver enquanto estivermos aqui.
— Como foi que fez isso?
— É a mesma coisa que você fez com Kelsey.
— Não exatamente. Você nos tornou invisíveis.
— Ah, isso. É um truque. O lenço pode distorcer a luz quando usado com o pedaço do amuleto que nos permite viajar no tempo. — Ela franziu a testa. — É difícil explicar. Nossos corpos são desfocados de modo que andamos em um tempo ligeiramente diferente, o que obscurece o outro tempo, então eu uso o pedaço do fogo para refazer os padrões de luz à nossa volta. É semelhante a esconder-se da presa com pintura na pele ou roupas camufladas.
Olhei para ela com franca admiração até que ela se remexeu, desconfortável, e perguntou:
— Podemos nos apressar e encontrar o que você procura, por favor?
Assentindo, segurei-a pelo cotovelo, conduzindo-a para dentro do elevador, e me amaldiçoei quando vi que precisaríamos de um cartão-chave. Expliquei-lhe rapidamente como um elevador funcionava enquanto apertava o botão para fechar a porta. Ela posicionou a palma da mão sobre o teclado e faíscas azuis de eletricidade cintilaram por entre seus dedos. Para uma garota analfabeta em termos de tecnologia, sua capacidade de apreender conceitos e manter a mente aberta era impressionante. Em um segundo, estávamos disparando para o último andar do edifício, onde acharíamos minha sala.
Agora era minha vez de, literalmente, dar uma mãozinha para resolver a situação, então pousei a palma sobre a fechadura e a porta se abriu. Entreguei a ela uma barra de chocolate japonês e uma garrafa de refrigerante que peguei no frigobar antes de deixá-la explorando o escritório enquanto eu verificava o computador. Observá-la se encantar com um aquário, atacar o frigobar e perder o fôlego diante da vista da cidade da janela da minha sala era tentador, mas ainda assim consegui passar os olhos pelos e-mails de Nilima e descobri o anúncio de que Ren estava assumindo a presidência das Indústrias Rajaram.
Havia um artigo de jornal sobre como ele reagira à triste notícia do falecimento de seu amado avô, Anik Kadam, e de seu irmão, Sohan Kishan Rajaram. Deixei escapar um suspiro quando li a história fabricada de nossas mortes. Aparentemente, tínhamos sido vítimas de um acidente aéreo no oceano Índico. O avião caíra e nossos corpos nunca foram encontrados.
Ren não perdera tempo em assumir a empresa e se estabelecer em uma vida humana normal. A inveja infiltrou-se cruelmente em minhas veias, mas eu a esmaguei de maneira impiedosa. Fazia muito tempo desde que eu sentira inveja de meu irmão por causa de bens materiais. Eu não dava a mínima para a empresa. O que precisava saber era o que estava acontecendo com Kelsey.
Navegando por outras manchetes e avisos da empresa, fiquei paralisado quando li: Líder das Indústrias Rajaram, Dhiren Rajaram, fica noivo. Cliquei no artigo.

O multibilionário herdeiro da corporação Indústrias Rajaram, Alagan Dhiren Rajaram, está de casamento marcado com a universitária norte-americana Kelsey Hayes e a cerimônia acontecerá bem aqui no Japão, no dia 7 de agosto. As bodas serão uma celebração reservada, mas vários VIPs e funcionários do alto escalão das Indústrias Rajaram receberam convites para a recepção do casal, que acontecerá no topo do luxuoso hotel Rajaram Grand Towers, de propriedade do noivo.
Alagan Rajaram herdou a corporação após a morte do avô, Anik Kadam, que essencialmente dirigia a companhia através da sobrinha Nilima Mehta. Recluso e pouco afeito à imprensa, Anik Kadam só era conhecido de alguns poucos membros do conselho, e mesmo estes não sabiam da existência de seus netos até ele os apresentar à companhia menos de um ano antes de sua morte.
É uma infelicidade que, justamente quando a família Rajaram estava sendo descoberta, o mundo tenha perdido tanto o presidente da empresa, Anik Kadam, quanto o co-herdeiro e irmão caçula de Dhiren, Sohan Kishan Rajaram, mas, como Nilima Mehta, presidente interina, afirma: “Todos nas Indústrias Rajaram esperam ansiosamente que o jovem herdeiro da fortuna Rajaram assuma sua posição de presidente. De minha parte, mal posso esperar para tirar longas férias depois que ele estiver instalado no cargo. Por ora, quando começam uma vida juntos, desejo a ele e à sua noiva muitas felicidades.”
Quando perguntamos como o solteiro bilionário conheceu sua futura esposa, o jovem Sr. Rajaram brincou: “Em um circo, é claro.” Talvez um dia tenhamos a sorte de ouvir a verdadeira história de como uma garota norte-americana comum e desconhecida conseguiu tirar o partido da década do mercado matrimonial.
Nós também lhes desejamos sorte e uma feliz união, e torcemos para que o contentamento que recentemente encontraram um no outro atenue a dor de perder um irmão e um avô muito honrado.

Recostei-me na cadeira, silenciosamente absorvendo a notícia do iminente casamento de Ren e Kelsey. Dessa vez, deixei o ciúme que sentia correr desenfreado. Ren não só recebera a dádiva da humanidade como também ficara com minha garota. E eu? Era obrigado a correr pela selva com o rabo entre as pernas.
Não que eu não esperasse que ele pedisse Kelsey em casamento. Sabia que Ren a amava e eu mesmo tinha pedido a ele que cuidasse dela. Só que era cedo demais. Eles iam se casar menos de dois meses depois de voltarem. Ela havia me esquecido assim tão rápido? Estava feliz? O fato de que talvez ela achasse que não tinha opção me veio à mente. Agarrei-me a essa ideia e não a larguei.
Meus pensamentos estavam tão voltados para Kelsey que nem percebi Anamika se aproximar.
— O que foi, Kishan? — perguntou suavemente, pousando a mão em meu braço. — Você está agitado.
Foi só quando ela deu a volta e se empoleirou em minha mesa a fim de me olhar de frente que dei por sua presença. Correndo a mão pelos cabelos, recuei, me afastando dela, me levantei e fui até a janela. Minha mão se fechou e a levei até a vidraça. Mas, em vez de quebrá-la, como era minha vontade, encostei a testa no punho e disse, destroçado:
— Ela vai se casar.

5 comentários:

  1. "— Meu cabelo não pode ser controlado. Muitos tentaram, mas todos fracassaram."

    Ushuauhashuas

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  2. Acho que alem de garantir seu presente essa jornada pelo tempo vai também ajudar ele ansegui em frente

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  3. Velho real esses dois em;) kkkkkkkk
    sério aposto que vai aparecer alguem de olho em durga tipo quando Kishan apareceu pro ren e a Kelsey

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Boa leitura, E SEM SPOILER!