12 de setembro de 2018

38 - Andarilho

Quando enfim nos afastamos, olhamos nos olhos um do outro e havia uma compreensão entre nós que não existia antes. Estávamos mais do que casados. Fomos enxertados um no outro e desfazer um desfaria os dois.
Vieram então os cumprimentos, e ficamos surpresos ao ver que as árvores dos silvanos tinham entrelaçado suas raízes. Elas haviam se projetado do chão, formando um grande arco sobre nós. Flores brotaram da madeira e derramaram pétalas sobre nós. Deslizando as mãos por sua cintura, levantei Ana do chão e a girei, enquanto ela jogava a cabeça para trás, erguia os braços e ria de prazer.
Naquela noite, festejamos com os silvanos, saboreando bolos de mel, cremes, tortas de limão e lavanda, compotas de frutas e saladas salpicadas com flores comestíveis. Kadam estava encantado com o banquete e eu ri ao vê-lo pedir uma sacola cheia de guloseimas para levar para casa. Ana e eu nos sentamos juntinhos, como dois pássaros em um ninho, e nos revezamos oferecendo um ao outro pedaços de doces deliciosos e frutas silvestres suculentas.
Quando fiquei mais interessado em mordiscar a orelha dela do que a comida, Ana se levantou e pegou minha mão.
— Muito obrigada, meus amigos, por nos oferecerem esta refeição e sua companhia. Devemos nos despedir agora, mas prometo que voltaremos muitas vezes.
— Mas aonde vocês vão? — perguntou a rainha dos silvanos.
— Está na hora de começarmos nossa lua de mel — respondi, beijando os dedos delicados de Ana e sorrindo quando sua mão estremeceu de leve.
— Ah, é claro. Mas vocês não precisam partir — disse a rainha.
Ana olhou para mim, arqueando as sobrancelhas, intrigada.
— O Bosque dos Sonhos é confortável — respondi —, mas não quero me concentrar em nada que não seja a deusa.
— Nós compreendemos — disse a rainha. — É por isso que preparamos um bangalô para vocês. Está escondido em uma área linda da floresta. As fadas trabalharam incansavelmente para deixá-lo pronto para vocês. Tem bastante comida, uma cachoeira com um grande lago para nadar e o mais lindo de todos os jardins. Seria uma honra para nós se vocês ficassem por um tempo. Prometemos que não vamos incomodá-los, a menos que nos chamem.
— Este é um presente que não esperávamos — disse Ana.
— E vocês nos deram um presente maravilhoso casando-se aqui — respondeu a rainha. — Nossas terras agora nos curam e nos nutrem. Qualquer ser que colocar os pés nesta parte de Shangri-lá sentirá o poder da deusa cobri-lo e renová-lo. Por favor, aceitem nossa pequena oferta em retribuição.
Ana olhou para mim.
Não ligo, informei. Eu só quero você.
Pude sentir o tremor de excitação e nervosismo que a percorreu e acariciei de leve seus dedos com meu polegar.
Ela se virou, inclinando a cabeça de maneira graciosa.
— Obrigada, então. Aceitamos sua generosa oferta. Uma das fadas poderia nos guiar?
— Não há necessidade. As pedras marcam o caminho.
— Pedras?
Eles apontaram e, de fato, as pedras que ladeavam a trilha de terra que partia da aldeia na direção oeste emitiam um suave brilho verde na escuridão.
Nós nos levantamos e Kadam também ficou em pé. Ele deu um tapinha em meu ombro.
— Vejo você em breve, filho.
Então ele abraçou Ana, deu-lhe dois beijos no rosto e disse:
— Estou muito feliz por você agora oficialmente fazer parte da minha família. — E acrescentou: — Cuidem um do outro.
— Cuidaremos — prometi.
Juntos, Ana e eu saímos pelo caminho. Com meus olhos de tigre, eu podia vê-la claramente, mesmo na escuridão. Brinquei com seus dedos e, enquanto ela ia na frente, deixei que meus olhos passeassem por sua linda figura, admirando a curva de seus quadris, a cintura fina e o modo como os cabelos longos roçavam meu braço.
Os silvanos não exageraram na descrição. A pequena casa que construíram para nós era linda. Ana ficou encantada com o jardim, salpicado de luar. Eu, particularmente, estava mais extasiado com a mulher. As flores noturnas se abriram, exalando seu aroma, mas não eram nem de perto tão inebriantes quanto Ana.
Agora que estávamos a sós e nossas mentes se achavam abertas para o outro, senti sua timidez repentina. A última coisa que eu queria fazer era lembrá-la das coisas terríveis que tinham lhe acontecido no passado.
— Podemos nos sentar junto à cachoeira um pouco? — perguntei. — Isto é, se você não estiver cansada.
Ela concordou e eu evoquei o poder do lenço para fazer uma colcha espessa e dúzias de almofadas macias. Depois de me sentar, puxei-a para mim e a beijei de maneira suave, porém breve.
— Você está linda — afirmei. Em seguida, franzi a testa. — Não tiramos fotografias.
— Fotografias?
— Sim, lembra? São como pinturas, mas são criadas instantaneamente.
— Ah, é. Você quer dizer assim?
Ela fez um gesto em espiral com a mão e fios se juntaram, formando uma tapeçaria representando o momento de nosso beijo ao fim da cerimônia, as pétalas de flores caindo sobre nossas cabeças.
Eu ri.
— Acho que isso serve — falei.
Quando ela estalou os dedos, a tapeçaria se enrolou sozinha e Ana usou o vento para mandá-la para dentro do chalé. Uma pétala soltou-se de seus cabelos e caiu em seu colo. Ela apontou para a cabeça e perguntou:
— Tem outras?
Inclinando-me para ela, sussurrei:
— Na verdade, estou com um pouco de medo de que as abelhas possam atacá-la enquanto dormimos.
O canto da boca de Ana se ergueu.
— Pode me ajudar?
— Claro.
Puxei uma pétala e então outra, e depois tirei delicadamente uma flor após outra, enfiando os dedos pelos fios de seu cabelo para soltá-las das tranças. Foi um processo lento, mas nós dois precisávamos disso. Quando seus cabelos ficaram livres das flores, massageei-lhe o pescoço e os ombros através das camadas do tecido vaporoso.
Ana usou sua magia para desfazer o tecido até o meio das costas e agora minhas mãos tocavam sua pele nua. Respirei fundo e tentei me concentrar no que estava fazendo, não na pele lisa como cetim ou na delicada curva de seu pescoço. Quando os cabelos soltos começaram a atrapalhar a massagem, cheguei mais perto dela, jogando a massa de fios por cima de seu ombro, toquei com os lábios o ponto logo atrás de sua orelha e desci devagar pelo pescoço.
Ela se virou e, quando suas mãos envolveram meu pescoço, eu a abracei e a puxei para meu colo, encostando a testa na dela.
— Não há pressa, Ana. Estou contente por ser seu marido.
Chegando um pouco para trás, Ana me estudou. Seu vestido, meio desfeito nas costas, se abriu na frente de uma forma que me distraiu muitíssimo.
Tropecei nas palavras, sabendo que precisavam ser ditas e desejando que fossem verdadeiras:
— Temos uma vida inteira juntos, talvez até mesmo várias. Temos tempo para ir devagar.
Ana tocou meu rosto.
— Você não me assusta, Sohan. Não vou negar que às vezes me sinto apreensiva, mas conheço seu coração. Você não tem intenção de me machucar.
— Eu a protegeria com minha vida — afirmei. — Você é a minha bela senhora, meu tesouro, minha prēmikā. — Beijei-a em ambas as faces. — Pelo restante dos meus dias, meu maior desejo será satisfazê-la.
Colando o corpo flexível ao meu, ela disse:
— Então vamos começar o primeiro dia agora.
Ana me beijou e eu a deixei tomar a iniciativa, deitando-me no cobertor com o corpo dela estendido sobre mim. De início fiquei hesitante, mantendo as mãos paradas, embora os fios sussurrassem ao redor dela, desfazendo o lindo vestido de noiva centímetro por centímetro de forma provocante. A longa cauda transformou-se em uma segunda colcha, que nos cobriu, e, com a energia dourada zumbindo entre nós, se intensificando a cada carícia e a cada toque, quando suas mãos deslizaram por meu peito nu é que me dei conta de que ela havia desfeito minha roupa também.
Acariciando suas costas, beijei sua orelha e murmurei:
— Tuma mere sapanom ki aurata ho.
Ela ergueu a cabeça, os longos cabelos se espalhando ao nosso redor como uma cortina. Os olhos verdes de Ana brilharam quando ela sorriu.
— Você gostaria de ver com que eu sonhei? — perguntou.
Ergui o corpo, apoiando meu peso nos cotovelos, e a beijei, ligando minha mente à dela, e logo nós dois fomos envolvidos por seu sonho. Naquela noite, mais alguns sonhos se tornaram realidade.


No dia seguinte, ou melhor, na tarde seguinte, percebemos que uma nova cadeia montanhosa havia surgido em Shangri-lá. Eu ri, mas Ana mordeu o lábio, preocupada com o possível dano ao mundo que ela aprendera a amar. Quando um aldeão apareceu com uma cesta cheia de comida após Ana chamá-lo, ela perguntou sobre as mudanças na paisagem, mas ele nos assegurou que estavam todos bem.
Após comermos, nadamos no lago e tomamos banho de cachoeira. Penteei os cabelos de Ana e nos deitamos lado a lado para nos secarmos ao sol, os dedos entrelaçados enquanto conversávamos sobre o futuro. Ali fizemos um pacto de não tentarmos ver o nosso. Com um pouco mais de prática, logo descobrimos que a afeição física que demonstrávamos mutuamente não afetava o mundo ao redor quando nos dessincronizávamos com o tempo.
Criamos o hábito de usar esse poder sempre que queríamos ficar a sós, um fato sobre o qual nossos filhos muitas vezes nos provocariam mais tarde. Ana e eu queríamos uma família grande, especialmente depois que lhe contei o sonho que tivera em que caçava com nossos filhos. Tivemos nove: sete meninos e duas meninas, embora, na realidade, tenhamos adotado dezenas mais, uma vez que Ana acolhia crianças perdidas em todos os lugares a que íamos. Depois de dar à luz nosso sétimo filho, a primeira menina, Arundati, Ana começou a dar sinais de que estava perdendo seu poder.
Isso assustou mais a mim do que a ela. Quando Kadam apareceu, como tinha feito quando todos os nossos filhos nasceram, expressei minha preocupação. Ele ficou silencioso, como sempre, e nos deixou com o conselho ambíguo de considerarmos cada dia uma bênção. Tivemos o oitavo e o nono filhos e percebi que a cada bebê Ana cedia uma parte de si mesma e de seu poder. Quando segurei nos braços nosso nono filho, nosso garotinho, Jayesh, eu lhe disse que não queria mais filhos. Poderíamos adotar outros, se ela quisesse, mas eu não queria perdê-la. Mesmo que isso significasse nunca mais tocá-la.
Ana pensou que eu acabaria cedendo. No entanto, depois de um mês evitando ficar a sós com ela, ela concordou comigo, relutante, e avancei para o futuro a fim de obter de Kadam o que ela precisava para evitar a gravidez. Então nossa vida pareceu se acomodar em uma rotina. Muitas vezes nos ausentávamos, servindo nos papéis de deusa e tigre. Em alguns casos, ela curava ou fornecia respostas a súplicas sussurradas. Outras vezes, surgia como um anjo vingador, destruindo usurpadores e levando justiça àqueles que dela precisavam.
Passamos o equivalente a muitas vidas perdidos no tempo, cuidando de nosso trabalho e fazendo intervalos para ficarmos sozinhos, mas sempre voltávamos para casa pouco depois de sairmos, para não ficar longe da família. Eles entendiam a necessidade de atender ao chamado da deusa. Uma vez, perguntaram por que nós dois tínhamos que ir e expliquei que fizera uma promessa de sempre proteger a mãe deles. Nossos filhos entenderam e fizeram eles próprios a promessa de servir ao lado dela quando e onde fosse possível.
Isha, a velha criada de Yesubai, morreu quando nosso caçula tinha 8 anos. Ela fora babá de todos os nossos filhos e aprendemos a amá-la. A mulher tinha me reconhecido imediatamente quando retornamos à casa da montanha e nós três choramos juntos a perda de Yesubai. Falávamos com frequência dela, assim como de Ren e Kelsey, Nilima e Sunil e de nossos pais. Eram parentes distantes que ensinamos nossos filhos a honrar.
A exceção era Kadam, que fez várias visitas ao longo dos anos, comparecendo a todos os nascimentos e até me ajudando a treinar meus filhos de vez em quando. Sempre aparecia como ele mesmo e me perguntei se Phet tinha desaparecido para sempre. Às vezes ele pedia nossa ajuda. Embora nossa lista estivesse terminada havia muito tempo, ele ainda tinha um grande número de itens para cuidar na lista dele e volta e meia recrutava a mim ou Ana para ajudá-lo.
Eu estava junto quando ele fez em Kelsey a tatuagem de hena. Kadam bateu de leve em minhas costas e sorriu quando o desenho cuidadosamente trabalhado ganhou vida no momento em que passei a mão sobre ele, ligando-o ao poder dentro dela. Agora eu reconhecia a tatuagem pelo que era — uma manifestação física do amor entre um tigre branco e a garota com quem ele acabou se casando, um meio de revelar a brilhante luz dourada escondida sob a pele dela.
Kadam também me pediu que o acompanhasse para tirar nosso poder de cura pouco antes da batalha com Lokesh. Quando lhe perguntei o motivo, ele respondeu que o espírito de Yesubai estava ligado ao nosso e, com o pai morto, estava na hora de ela finalmente descansar. Ele acrescentou que o elixir da sereia e a fruta do fogo permitiriam que eu e Ana prosseguíssemos.
Argumentei que deveríamos esperar mais um dia, até que a batalha terminasse. Dessa forma, Ren não precisaria morrer. No entanto, com paciência, ele explicou que Ren tinha de perecer para que eu fizesse o sacrifício. Foi o ato de salvar meu irmão que me deu coragem para ficar para trás.
Ana foi com ele para tirar de Nilima as lembranças de ter se perdido no tempo. Ela também o acompanhou até o momento em que Phet libertou o tigre branco do serviço à deusa. Os outros não viram o tigre quando ele saltou do corpo de Ren. Ana se ajoelhou ao lado dele e acariciou sua cabeça, agradecendo por servir à deusa por tantos anos.
Ele se virou e focinhou a mão de Kelsey, embora ela não tenha sentido, e lançou a Ren um olhar longo e penetrante. Então, com passadas largas, correu para a floresta, seu corpo etéreo tornando-se apenas um sussurro na relva. Depois que o tigre se foi, a magia dourada deixou Ren e Kelsey, a tatuagem de hena desapareceu e a luz dourada voltou a se acomodar dentro do amuleto no pescoço de Ana.
Certa vez, encontramos um bilhete de Kadam afixado em nossa porta. Ele nos pedia que nos juntássemos a ele em um templo no Japão e nos deu instruções específicas sobre o que vestir, advertindo que deveríamos nos disfarçar. Para a alegria de Ana, nos vimos como convidados no casamento de Ren e Kelsey. Procuramos por Kadam e vimos o sacerdote xintoísta que os estava casando parar e piscar para nós. Ele pôs uma das mãos sobre o coração e inclinou a cabeça em nossa direção, e, quando Ren beijou a noiva, aplaudiu mais alto do que qualquer outra pessoa, enxugando as lágrimas.
O tempo passou enquanto nos concentrávamos, felizes, na família. Tivemos grande prazer em criar nossos pequenos. Quando os filhos, que se tornaram grandes caçadores e guerreiros habilidosos, tiveram idade suficiente, passaram a nos acompanhar nas batalhas. Eu observava, orgulhoso, enquanto lutavam e podia curá-los simplesmente ao encostar o Amuleto de Damon na pele deles.
Um por um, eles nos deixaram. Era sempre triste e nós os visitávamos tantas vezes quanto podíamos, mas, com o tempo, nossos filhos e depois nossos netos morreram. Eles viveram muito mais do que os mortais à sua volta. Eram líderes, cada qual à sua maneira, e tínhamos orgulho deles.
Comparecemos a todos os funerais, nascimentos e casamentos, em alguns casos abertamente, como pais ou avós, mas depois, mais tarde, como estranhos. Quando nossa linhagem tornou-se grande demais, desistimos de acompanhá-la, embora pudéssemos sentir, quando encontrávamos certas pessoas, que elas eram parte de nós, graças às pedras da verdade que usávamos.
Comecei uma tradição de, a cada aniversário de dez anos de casamento, adicionar algo aos presentes que eu dera a Ana. A mangueira tinha crescido sob seus cuidados; colhi a fruta mais madura e plantei para ela uma nova árvore, até que um grande pomar de mangueiras surgiu perto de nossa casa da montanha. Com a ajuda de Yínbáilóng, o dragão branco, encontrei um grupo de mariscos gigantes e consegui adicionar mais algumas preciosas pérolas negras ao colar dela. Visitamos a casa das Fênixes e cada novo pássaro me presenteou com uma pena, que acrescentei ao cinto de Ana. Após centenas de anos fazendo acréscimos aos presentes de casamento, a magia dentro de cada um deles cresceu, até percebermos o que tínhamos diante de nós. Eram os presentes de Durga. A pérola única tornou-se o Colar de Pérolas. O cinto de penas da Fênix tornou-se a Corda de Fogo. O véu verde, o que ela mais usava, estava agora imbuído de mais magia e tornou-se o Lenço Divino.
Um dia, quando caminhávamos no pomar de mangueiras, esquecemos de nos dessincronizar com o tempo. Inspirado pelo ambiente bucólico, puxei Ana para baixo dos galhos e a beijei.
Quando estávamos indo embora, percebi que algo brilhava acima de nós em um galho alto da árvore. Ana ergueu os braços, envolvendo-nos em uma bolha, e levitamos no ar. Ali, aninhado entre as outras mangas, um globo solitário balançava, a luz do sol refletida na casca brilhante.
Ana o puxou e entregou a mim com um sorriso. Agora tínhamos todos os presentes e sabíamos de onde eles tinham vindo. Haviam sido tecidos pelo tempo, pelo amor e pela magia.
A história da deusa e de seu tigre acabou se modificando e as pessoas a esqueceram. Orações e súplicas tornaram-se não só menos frequentes como também menos urgentes. Ana ficou doente pela primeira vez desde que aceitara o papel da deusa. Alarmado, procurei Kadam. Ele preparou uma bebida para ela. Quando perguntei o que era, Kadam respondeu:
— Soma, o tônico dos deuses.
— O mesmo que você me deu tantos anos atrás?
— Sim. Ela pode se recuperar dessa doença, Kishan, mas temo que isso vá minar uma parte de sua energia enquanto ela utiliza o poder de cura que há dentro de você. Você se lembra de quando Kelsey curou Ren da Gáe Bolga?
— Eu me lembro — respondi, enchendo-me de esperança.
— Você pode fazer o mesmo com a conexão que têm. Apenas tenha cuidado para não dar tanto que não sobre nada para si mesmo. A esta altura, ela não pode sobreviver sem você.
— Vou fazer isso — insisti. — Pegue o que for necessário.
— Kishan — disse Kadam —, você sabe que nem você nem ela são imortais. Ana tem exercido grande poder ao longo dos séculos. Isso tem um preço. Ela começa a mostrar sinais da idade.
— Então vou conseguir mais elixir da sereia. Irei à Fênix para buscar ajuda.
— O elixir já não funciona com ela. Ana agora é imune aos seus efeitos. Quanto ao suco de fruta do fogo, receio que aconteça o mesmo. É o caminho natural das coisas. Lamento, filho, mas o corpo de Ana está cansado. Sua energia está se esgotando. Ela precisa usar as suas reservas agora, se quiser se curar.
Olhando para baixo, para minha linda mulher, toquei seus cabelos escuros. Mesmo no auge da doença, ela parecia tão jovem quanto no dia em que nos casamos. Se seus olhos não estavam tão brilhantes ou sua pele não estava tão firme, eu via isso como consequência da doença. Ana não estava envelhecendo. Eu não podia aceitar o que Kadam estava dizendo. Dessa vez ele estava errado.
— Ren não envelheceu. E você viveu tanto quanto ela — argumentei, desesperado para encontrar uma solução.
— Levei uma vida tranquila, exceto nesses últimos meses. Quanto a Ren, o tigre e o presente de Yesubai o mantiveram jovem — explicou ele. — O Amuleto de Damon concede vida longa, especialmente a você e a Ren, que receberam a essência do tigre. Mas você e Ana viveram muitos, muitos anos. Muitos anos mais, se considerarmos quantas semanas e meses vocês saltaram no tempo. E utilizaram o poder do amuleto de um jeito que o restante de nós não utilizou.
Após uma breve pausa, ele continuou:
— Ana sempre exerceu seu poder através de você. Ele tem sido compartilhado livremente entre vocês todos esses anos, por meio de sua conexão, e isso permitiu que ambos fizessem coisas notáveis a serviço da humanidade, mas ele está se extinguindo nela agora. Ana está começando a sentir o peso de sua mortalidade.
— Tem certeza?
— Tenho.
Kadam tocou o ombro dela e vi algo mais em seus olhos.
— O que foi? — perguntei.
— Quero dizer que lamento.
— Lamenta o quê? Você não causou isso.
— Não. Mas acelerei o processo.
— Como assim?
— Se você… se você não tivesse tido de me salvar quando fiquei preso no túmulo, vocês dois poderiam ter muito mais anos juntos. Temo que ter salvado a vida de Ren e depois ter me resgatado tenha custado a ambos. Esgotamos significativamente seu poder. É uma coisa terrível, filho. Não posso pedir que me perdoe, pois não há nada que eu possa fazer para compensar essa perda.
Segurei sua mão enquanto ela se contorcia de febre, pressionando seus dedos contra meus lábios. Não falamos por muitos minutos.
— Não importa — falei por fim, com toda a calma. — Ana ia querer você a salvo, não importa a que custo. Eu sabia que haveria um preço a pagar.
Kadam assentiu e ficou por perto, velando Ana comigo a noite toda. Tentei uma vez pressioná-lo para me dizer quanto tempo nos restava, mas seus olhos brilhantes nada revelaram. Poderíamos ter ainda séculos, anos, meses ou dias. Não saber era a pior parte.
Se eu fosse um de seus seguidores, poderia ter pedido ajuda a Ana, mas a quem uma deusa e seu humilde marido poderiam rezar? Durante duas semanas me mantive a seu lado, enxugando-lhe a testa enquanto tentava afastar a voz que me incomodava no fundo da mente, um presságio, contando-me que havia mais sobre essa doença do que Kadam estava dizendo.
Ana se recuperou, mas não era mais a mesma depois da doença prolongada. Seus poderes diminuíram bastante e ela realmente estava começando a mostrar sinais da idade. Não demorou muito para que, toda vez que a tocava, eu transmitisse energia a ela. Isso se tornou uma obsessão para mim. A cada dia eu observava novas linhas aparecerem ao redor de sua boca e manchas escuras surgirem em suas mãos. Fios brancos brilhavam em meio aos cabelos negros e até mesmo seu amado jardim passou a sofrer. Pela primeira vez em séculos, suas rosas começaram a morrer.
Um dia, quando peguei suas mãos, soprando-as e esfregando-as, infundindo nela toda a força que me era possível, ouvi sua voz em minha mente.
Sohan, disse ela suavemente, é hora de parar, meu amor.
Levantei a cabeça e perguntei em voz alta:
— Estou machucando você?
Não.
— Então o que é? — perguntei, franzindo o cenho.
Ana me olhou e algo dentro de mim se desfez e se partiu.
— Não! — protestei com veemência. — Não, Ana. Isso não.
Lágrimas borraram minha visão e solucei. Minha Ana, minha mulher, me abraçou e me puxou para perto enquanto eu chorava.
— Sshh, meu tigre — disse ela, sua voz pouco mais que um sussurro. — Chegou a hora. Adiamos este momento o mais que podíamos.
Levantei a cabeça.
— Posso fazer mais. Eu posso…
— Venha comigo — ela me interrompeu. — Leve-me além deste plano uma última vez.
Havia muito Ana perdera a habilidade de saltar no tempo e dependia exclusivamente de mim para levá-la para a frente e para trás. Eu deixara de fazer isso depois de perceber como cada salto a esgotava. Eu ia dizer não, tentar argumentar, mas ela fixou sua mente na minha e qualquer afirmação que eu fizesse se esvaiu diante da certeza dela.
Levantando-a delicadamente em meus braços, as lágrimas escorrendo por meu rosto, perguntei:
— Aonde você quer ir?
Ela afastou o cabelo de meus olhos, beijou meu rosto molhado e respondeu:
— Você sabe.
Assenti com a cabeça e levei-a de volta à nossa pequena cabana em Shangri-lá. Seu corpo tremia devido à transição.
— Estamos aqui — avisei.
Sua voz soou, suave e calma, em minha mente:
Leve-me até a cachoeira.
Eu a levei. Criando uma colcha, sentei-me com ela nos braços, minhas costas apoiadas em uma árvore. Ela se encostou em mim, os cabelos sedosos fazendo cócegas em meu pescoço.
Prometa, disse ela.
Qualquer coisa, prēmikā, respondi, apertando sua cintura.
Prometa que vai terminar de entalhar a pedra da verdade.
Aquilo nunca tinha parecido importante antes. Havia muitas coisas que eu queria fazer, a maioria envolvendo Ana. Toda vez que eu pegava a pedra para terminar, algo acontecia e desviava minha atenção. Sempre me justifiquei afirmando que havia muito tempo. Agora, parecia, meu tempo estava acabando. Assenti, roçando meu rosto no dela.
Ficamos sentados em silêncio olhando a água. Nossas mentes estavam conectadas e não havia necessidade de palavras. Não havia necessidade de falar. Eu conhecia todos os seus pensamentos e todos os seus desejos, assim como ela conhecia os meus. O que ela mais lamentava no fim era me deixar só. Ana me fez prometer que eu não tentaria fazer mal a mim mesmo e que verificaria de vez em quando como estava nossa linhagem.
Com esses últimos desejos declarados, a única coisa que restava era o murmúrio satisfeito de nosso amor. Ele queimava suavemente, fluindo entre nós, tornando-se cada vez mais fraco, até que, por fim, minha Ana se foi. Ela parecia tão tranquila, tão em paz quando a virei em meus braços.
Era como se estivesse apenas dormindo. Chorando abertamente, beijei seus lábios uma última vez e depois seu rosto e suas pálpebras fechadas, sem querer me separar dela. Tínhamos estado juntos durante séculos, mas não fora o bastante. Nem mesmo uma eternidade com Ana seria suficiente. Nós dois tínhamos sido um só no serviço à deusa, um em mente, um em espírito e um em amor. Mas agora, sem Ana, havia apenas… um. Eu estava sozinho e assim ficaria pelo resto de meus dias. O melhor que poderia esperar era que não demorasse muito.
— Eu te amo, minha bela senhora — murmurei, lágrimas salgadas pingando em seu rosto de porcelana.
Enxuguei-as e então me levantei e preparei o lugar para o repouso final da mulher que eu amava. A casa no jardim dissolveu-se e desapareceu e em seu lugar uma grande rocha se ergueu. Flores entalhadas adornavam o granito liso.
Pegando no colo a deusa Durga, a mãe de nossos filhos, minha mulher ainda tão linda, coloquei-a sobre a rocha, cruzando suas mãos no peito. Enquanto o lenço criava para ela um belo vestido e flores brotavam em cachos em torno de seu santuário, senti uma mão no meu ombro.
— Sinto muito, filho — disse Kadam.
Então ele me abraçou e eu recomecei a chorar em seu ombro.
Ficamos juntos ali por um tempo, apenas olhando para ela. Permanecemos no túmulo de Ana por três dias, mantendo vigília, como minha mãe tinha feito com meu pai. Durante esse período, nem ele nem eu dormimos ou comemos. Fiz com que o luar prateado descansasse no lindo rosto de Ana à noite e a protegi do calor do sol durante o dia. Quando os três dias se passaram, aproximei-me de seu caramanchão de pedra e toquei sua testa com os lábios uma última vez. Em seguida, a pedra cresceu e fechou-se sobre ela, selando-a em seu túmulo.
Não sei por quanto tempo fiquei ali, a palma da mão pousada na rocha, mas foi o suficiente para Kadam sair e voltar, porque ele disse:
— Os silvanos sabem que ela está aqui. Eles vão manter a vigília enquanto seu povo existir e as fadas vão cuidar do jardim. — Como não respondi, ele continuou: — Venha, vou ficar um tempo com você.
Kadam ficou comigo por mais uma semana, embora eu soubesse que isso lhe custava. Ninguém morava em nossa casa da montanha agora. Todos os nossos amigos próximos tinham morrido. Lady Bicho-da-Seda fora enterrada havia muito tempo ao lado de Isha e já não precisávamos de servos depois que nossos filhos saíram de casa. Os seguidores haviam sumido anos antes. Eu estava sozinho agora na casa que compartilhara com Ana.
Quando me refiz o suficiente para perceber a fadiga evidente no rosto e nos olhos de Kadam, disse-lhe que ele precisava ir para casa. Seguro de que eu me encontrava estável o suficiente em meu desespero, ele se foi.
Os anos que se seguiram foram um borrão para mim, afora umas poucas experiências dignas de nota. Segui entalhando a pedra da verdade e, enquanto trabalhava, percebi que tinha uma companhia, afinal. Um dia, estava sentado na cadeira favorita de Ana, trabalhando na pedra, quando notei um brilho na janela.
— Olá — falei, feliz por vê-la.
Deixei a faca de lado e limpei nas pernas os fragmentos da pedra.
Fanindra ergueu a cabeça, oscilando à luz do sol.
— O que você acha? — perguntei, mostrando-lhe a pedra de marfim com os veios cor de laranja e dourados. Ela inclinou a cabeça, como se analisasse meu trabalho. — Eu sei, eu sei. Posso fazer melhor. Mas vou terminar, pode ter certeza.
A serpente ficou comigo depois disso e, quando fui me sentindo cada vez mais inquieto, preparei uma bolsa com os presentes de Ana, coloquei Fanindra em cima de tudo e saí andando pelo mundo. Depois de alguns meses, cheguei a uma clareira e algo nela me pareceu familiar.
Demorei um pouco, mas acabei me dando conta de que era o lugar onde deveria ser a casa de Phet. Suspirando, ergui os braços e criei uma pequena cabana, decidindo torná-la meu novo lar fixo.
De vez em quando eu viajava no tempo com Fanindra, espiando aqueles que amava, embora cada salto me deixasse esgotado por semanas. Ainda assim, isso afastava a solidão. E era gratificante ver que todos estavam felizes e contentes. Os filhos de Ren e Kelsey também cresceram fortes e saudáveis. Eles tiveram cinco. Eu os observei por um tempo, mas não me preocupei em acompanhá-los depois que saíram de casa.
Quando Ren morreu, eu estava a seu lado. Kelsey havia falecido antes dele, cercada pelos filhos e netos. Eu estava lá, mas ninguém ficou ciente disso. Invisível, inclinei-me sobre a cama do hospital enquanto ela dormia e beijei seu rosto enrugado. Mesmo com analgésicos pingando em suas veias, ela abriu os olhos e me fitou como se pudesse me ver. Retribuí seu sorriso e fiquei ao lado de Ren enquanto ele segurava sua mão e ela passava ao mundo seguinte.
Seus filhos não chegaram a tempo quando Ren morreu de um súbito ataque cardíaco. Sentei-me ao lado da cama em sua pequena casa. Ele parecia tão velho, pensei, embora seus olhos tivessem ainda o mesmo azul e, mesmo naquela idade, ele ainda fosse bonito. Estava ficando cada vez mais difícil fazer isso, mas congelei o tempo, como Ana fizera para Yesubai, e conversei com meu irmão por longas horas.
Depois que restaurei todas as suas lembranças, ele me perdoou sinceramente por toda a dor que eu lhe causara e choramos juntos pelas mulheres que amamos e pela tristeza de nossas vidas separadas. Disse-lhe que o amava e ele me perguntou se tinha sido eu que presenteara seu filho com o selo da família. Respondi que, de fato, tínhamos sido eu e Ana, embora soubesse que o selo inacabado ainda se encontrava na cabana de Phet em minha linha do tempo.
Contei-lhe o que o selo realmente era e que, em uma de suas visitas a mim e a Ana, Kadam me deu o que ele usara para abrir a Caverna de Kanheri, dizendo que estava na hora de passarmos o selo à geração seguinte. Depois de deixá-lo com o filho mais velho de Ren, seguimos seu caminho por um tempo. Os filhos de Ren nunca souberam a importância do objeto nem seu poder.
Sentado ali com Ren, soube que, naquele momento, o selo descansava sobre a cornija da lareira de um dos netos dele. Eu me perguntei quantas gerações levaria para que a história simples que eles conheciam fosse esquecida.
Ren me repreendeu por não ter feito uma visita a ele e Kelsey em anos.
— Se não fosse pela carta que escreveu, nem saberíamos o que aconteceu com você — disse ele.
— Carta? — indaguei.
— Sim — respondeu ele, tossindo. — Você sabe, o pergaminho.
Assenti com a cabeça, embora não soubesse a que ele estava se referindo. Dei-lhe um pouco d’água e mudei de assunto. Fiquei com ele por horas, contando todas as minhas aventuras e escutando-o contar as dele. Ren tinha orgulho de sua família, e deveria mesmo ter, mas estava mais entusiasmado com a possibilidade de rever Kelsey.
— Você acredita que ela está por aí, em algum lugar? — perguntei.
— Se existe alguém que deveria saber isso, eu diria que é você — respondeu Ren.
Olhei pela janela para o sol da manhã, congelado no tempo, e depois verifiquei o relógio.
Eram 6h38.
— Gostaria de poder dizer que tenho certeza que sim — falei.
— Bem, se você não tem certeza, eu tenho.
— Como você sabe?
— Posso senti-la. Aqui — disse ele, batendo no peito.
— Acho que é seu ataque cardíaco falando — comentei.
— Não. É algo mais do que isso. É como… como se ela estivesse me chamando. Pedindo que eu a encontre. — Nós nos olhamos por um longo momento. — Eu… eu acho que quero ir até ela agora, irmão.
Assentindo, levantei-me e peguei sua mão, apertando-a na minha. Ele a apertou em resposta, mas mal senti algo além de uma leve agitação contra minha pele.
— Adeus, Ren — eu disse. — Vá ao encontro de Kells, e mande lembranças minhas.
— Darei. E… Kishan?
— Sim?
— Eu também te amo.
Meus olhos se encheram de lágrimas. Reiniciando o tempo, parti, sem querer ver morrer outra pessoa que eu amava.
De volta à cabana de Phet, pensei muitas vezes sobre o que Ren tinha dito. Peguei tinta e um pergaminho, sentei-me e escrevi uma carta para ele e Kelsey. Enrolei o pergaminho, tentando entender de onde um rolo, entregue a eles depois do casamento, poderia ter vindo. O tempo teria de ser exato para que não impactasse o futuro deles.
Carreguei-o comigo durante anos e, quando o papel se rasgou e desbotou, fiz uma cópia, usei o selo recém-concluído da Casa de Rajaram para fechá-lo e moldei um vidro para proteger o papel de danos. Foi quando eu soube o que era. Eu o tinha visto antes.
Sabendo o que fazer, visitei a Fênix, que, quando perguntei sobre uma substância que abriria os olhos de um mortal para que ele pudesse ver coisas que estavam ocultas para os outros, pediu-me que tirasse o suco de uma fruta do fogo. Fiz isso e o apresentei a ela, que se inclinou sobre o líquido e piscou. Uma única lágrima se formou na borda de seu olho e caiu no líquido.
— Quanto tempo vai durar? — perguntei.
— Ele permanecerá potente até a queda da última Fênix — respondeu ela.
Agradeci e segui para o Tibete. Em vez de deixar que todos os monges soubessem de minha presença, me materializei diante do primeiro Dalai-Lama enquanto ele caminhava sozinho em seu jardim, provavelmente refletindo sobre os segredos do universo. Se ficou espantado ao me ver, não demonstrou.
Depois de entregar-lhe o pergaminho e o unguento, usei o poder do lenço para criar um medalhão de tigre como aquele de que me lembrava e o pendurei ao redor de seu pescoço. Terminei avisando-o de que o conteúdo do pergaminho não deveria ser lido e lhe dei todas as outras instruções que pensei serem pertinentes para ajudar Kelsey e meu antigo eu em sua missão.
Toda vez que eu pensava em Shangri-lá, sentia um aperto no peito. Com a carta entregue e o selo concluído, eu não tinha mais nada a fazer. Vagueei por algumas décadas, ajudando as pessoas quando podia, sabendo que Ana teria desejado que eu fizesse isso. Durante minhas viagens, encontrei um jovem e minha mão vibrou quando apertei a dele.
De imediato soube que se tratava de um de meus muitos descendentes. Ele me disse que se chamava Tarak e tive um sobressalto. Eu estava na presença do meu avô. Para ter certeza, perguntei-lhe de onde era e ele confirmou minhas suspeitas. Viajamos juntos por um tempo e, quando nos separamos, lhe ofereci um presente.
— O que é isso? — perguntou ele, desembrulhando o pano.
— Uma herança muito preciosa. Uma vez que não tenho descendentes — o selo permaneceu frio em minhas mãos, reagindo à minha mentira —, eu ficaria honrado se você mantivesse isso em sua família.
Seus olhos se arregalaram ao ver o que tinha nas mãos.
— Tem certeza que deseja se separar dele? — perguntou.
— Considero você merecedor de possuí-lo. Além disso, chegou a hora de seguir sem ele.
Eu estava prestes a ir embora quando outra coisa me ocorreu. Hesitante, tirei um segundo tesouro inestimável de minha bolsa e o coloquei em suas mãos.
— Isto pertenceu à minha falecida esposa — informei. — Talvez um dia sua mulher ou sua filha possa apreciá-la.
Toquei com a ponta dos dedos a escova de cabelo com cabo de marfim de Ana e depois sorri, sabendo que algum dia estaria nas mãos de minha mãe.
Ele apertou meu braço em um gesto familiar. Era a promessa do guerreiro. As palavras tinham mudado um pouco desde o meu casamento, mas as promessas feitas ainda agitaram meu coração.
Abracei o rapaz, batendo em suas costas.
— Que a sorte esteja com você sempre, jovem Tarak.
— E também com você.
O rapaz acenou quando nos separamos e continuei minha jornada, voltando para a cabana de Phet. Muitas vezes refleti que eu, de algum modo, podia ser meu antepassado e desejei ter compartilhado essa ideia com Ren. Decidi escrever uma nova carta, incluindo o fato recém-descoberto, e viajei de volta no tempo, trocando-a pela antiga, enquanto meu outro eu dormia na cabana.
Dessincronizado com o tempo, olhei meu rosto adormecido. Havia mechas grisalhas em meus cabelos e rugas ao redor dos olhos e eu tinha perdido massa muscular. Parecia que o tempo estava me alcançando. Quando retornei, gemi. Eu me sentia velho e cansado do mundo. Os dias transcorriam de forma monótona, sobretudo porque eu pressentia que meu trabalho finalmente estava terminado.
Certa manhã, Fanindra me acordou. Sentou-se em meu peito e ergueu a cabeça.
— Olá, minha menina — cumprimentei. Ela projetou a língua no ar e eu quase não senti quando tocou minha bochecha. — Ah — murmurei com tristeza. — Você está dizendo adeus. Volte para mim algum dia, se puder, pois vou sentir muita saudade de você.
Depois de um momento, ela deslizou para o chão e, quando olhei, havia desaparecido, assim como os outros presentes de Durga.
Sem Fanindra e os presentes, senti meu poder se esvair rapidamente. Não podia mais viajar no tempo, invocar armas, criar comidas ou bebidas. Transformando-me em tigre, saí para caçar, ampliando meu território até deparar com as antigas terras onde meus pais, algum dia não muito distante, construiriam uma casa perto da cachoeira. Não assumi a forma humana durante mais de um ano e descobri, quando tentei, que já não conseguia.
Logo depois, perdi o amor pela caçada e me levantava apenas para beber água no lago.
Quantos dias se passaram sem que eu comesse, eu não sabia. Mas um dia, no fim da tarde, enquanto eu dormia, farejei um cheiro que eu não sentia fazia anos.
— Olá, filho — disse Kadam, de costas para o sol poente.

3 comentários:

  1. Parece tão agridoce esse fim... eles meio que tiveram um final feliz mas triste quando a morte os separou.
    Acho que prefiro quando o livro se encerra na parte feliz...

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  2. Eu to bem triste, eu sei que todo mundo vai morrer uma hora, mas mesmo assim quebrou meu coração esse final. Mas, foi uma saga muito boa!

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  3. me sinto triste por kishan mas, é bom saber o que acontece dpois do final feliz

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Boa leitura, E SEM SPOILER!