12 de setembro de 2018

37 - Sonho realizado

Afastando-me, continuei segurando a mão de Ana enquanto virava as costas para a selva.
— Você tem certeza, então? — perguntou ela, a voz hesitante.
— Tenho.
Ana entrelaçou os dedos nos meus e eu não sabia se era a mão dela que tremia ou a minha. Fui até Ren. Ele estava de quatro. Seu sangue formava uma poça no chão. Agachando-me ao lado dele, toquei suas costas.
— Eu gostaria de poder dizer que tenho certeza de que você tomaria a mesma decisão se estivesse no meu lugar. Você confiou em mim antes. Gostaria de pensar que confiaria outra vez. Meu maior arrependimento é não ter sido o irmão que você merecia. Pelo menos, não durante muitos anos. Tudo que posso prometer é que vou tentar agir melhor com você no futuro.
Olhei para meu antigo eu, debruçado sobre o corpo da garota que amava, seu rosto uma máscara de agonia. Alguma parte dele se lembraria disso?, me perguntei. Provavelmente não.
Mas isso não tinha mais importância. Não pela primeira vez e provavelmente tampouco pela última, me questionei se estava fazendo a coisa certa.
A voz de Ana em minha mente pôs fim à hesitação:
Você sabe o que fazer, Sohan.
Colocando ambas as mãos em meu irmão, invoquei o poder do amuleto. Ele fluiu através de mim e a meu redor. O amuleto pendia de meu pescoço e a ponta tocava as costas de Ren. Inclinei-me um pouco mais e o amuleto se acomodou entre suas escápulas. Uma luz emanou do tigre entalhado no amuleto e nos envolveu. Ouvi um ruído e me virei para Ana. Ela se transformara na deusa e seus oito braços estavam erguidos no ar, tecendo a magia entre eles.
O corpo de Ren tremeu sob minhas mãos e o tempo avançou em câmera lenta. Nem mesmo a deusa Durga ou seu tigre poderiam detê-lo. Já não tínhamos controle sobre ele. Meu irmão gritou em agonia quando a luz do amuleto se retorceu e curvou-se, mergulhando em seu corpo. Ergui os olhos para meu antigo eu. Ele havia tapado os ouvidos, tentando bloquear o poderoso zumbido da deusa, que aumentava de volume. Ao fechar os olhos, desejei que também eu pudesse tapar os ouvidos.
Então eu o ouvi. E senti seu cheiro.
Garras estalaram no piso de mármore. Levantei a cabeça e olhei nos olhos de um tigre. Ele era imenso. O pelo branco estava molhado da selva úmida e havia barro entre as garras. Aproximando-se, ele me cheirou e depois cheirou Ren. Ele atendera ao chamado do amuleto. Tendo testemunhado as outras criações da deusa, eu sabia o que precisava fazer em seguida.
— Você vai servir à deusa? — perguntei a ele. — Vai se tornar parte do meu irmão?
O tigre baixou a cabeça e rosnou baixinho, depois se aproximou e cutucou minha mão com o focinho. Ele bufou e minha visão ficou turva.
— Obrigado — sussurrei. — Cuide dele. — Erguendo uma das mãos, pousei-a na cabeça do tigre e senti a vibração de sua energia. — Quando chegar a hora, voltaremos para libertá-lo.
A magnífica criatura desapareceu diante de meus olhos, colocando sua força vital a serviço da deusa e curvando-se diante do poder do Amuleto de Damon. Conduzi a essência do tigre para dentro de meu irmão e, na sequência, fiquei de pé, as pernas trêmulas, observando enquanto homem e tigre duelavam pelo controle. A pele de Ren ondulou e se rasgou, cicatrizou e esticou enquanto o tempo se movia lentamente a seu redor.
Ana pegou minha mão e me guiou até meu outro eu.
— Você não pode pôr as mãos nele — advertiu —, mas pode lhe dar o dom através de mim.
Um dom, foi como ela definiu. Sorri e toquei seu rosto.
É assim que você vê, eu disse para sua mente.
Em seu coração, você sabe que é, replicou ela.
Eu sei.
Meu antigo eu tinha saltado no ar, o rosto cheio de fúria, ao atacar Lokesh. Ana se meteu entre os dois homens e usou o poder do vento para erguer o corpo no ar um pouco mais. Ela pôs duas de suas mãos no rosto dele e olhou para mim.
Virei-me para a selva aberta e gritei:
— Sei que está aí. Se vai servir à deusa, apareça.
Esperamos um momento, e mais outro. Senti o peso de sua presença, mas ele ainda estava indeciso. Finalmente, ouvi um rosnado e um segundo tigre surgiu subindo os degraus com um salto.
Ele andou diante de mim, mostrando os dentes. Quando levantei a mão, subitamente deu meia-volta e rugiu alto o suficiente para afugentar os mainás das árvores.
— Você sabe quem eu sou — declarei — e o que peço.
O grande felino andou em círculo, a cauda balançando de um lado para outro enquanto absorvia a cena. Era um belo animal. O pelo era escuro, e as listras, grossas e negras. Seus olhos brilhavam com inteligência enquanto me observava. Ao perceber que eu não iria me mexer, ele parou de andar e sentou-se, ofegante. E começou a lamber uma pata com calma.
— Vai servir à deusa? — perguntei humildemente.
O tigre ergueu a cabeça no meio de uma lambida e rosnou, depois se sacudiu e se aproximou da deusa.
— Olá, bonitão — saudou ela, estendendo duas de suas mãos para acariciar-lhe a cabeça.
O animal virou a cabeça para que ela pudesse afagar sua nuca e depois esfregou o corpo em sua coxa.
— Ele está claramente se apropriando de você — afirmei.
— É como deveria ser, não? — disse Ana com um sorriso. — O que você diz, grande felino? — perguntou Ana. — Meu Sohan pode não ser tão bonito quanto você, mas é um lutador valoroso. Ele gosta de caçar e de tirar cochilos longos e preguiçosos — arrematou, piscando para mim.
O tigre olhou para a deusa e depois para mim.
— Não sei quando ou se você vai ser libertado — comentei —, mas posso lhe prometer vida longa e, se tivermos sorte, uma bela deusa disposta a coçar nossas costas.
Sentando-se, o grande animal me analisou por um momento e depois finalmente bufou, concordando, virando a cabeça para que a deusa pudesse brincar com suas orelhas. Aproximei-me, tomando cuidado para não o assustar, e coloquei as mãos nas costas de Ana.
— Está pronta? — perguntei.
— Você está? — ela devolveu a pergunta.
Em resposta, retirei o Amuleto de Damon do pescoço e usei o poder do vento para posicioná-lo contra o peito de meu antigo eu. Uma das mãos de Ana o manteve no lugar enquanto eu colocava a mão no tigre. Meu antigo eu gritou. O tigre ao lado de Ana dissolveu-se na luz e sua essência vital entrou no corpo que Ana tocava.
Depois que o tigre ficou ali lutando dentro de sua nova forma, assim como Ren lutara com seu felino, julguei que nosso trabalho estivesse pronto. Ana, porém, com as mãos ainda em meu antigo eu, disse:
— Agora devemos fazer dele Damon.
Franzi a testa.
— Pensei que dar a ele o dom do tigre seria o suficiente.
Ela balançou a cabeça.
— Devemos batizá-lo e selar o amuleto para ele definitivamente. A maldição do tigre nunca disse respeito a Ren ou Kelsey. Ela diz respeito a você, meu amor. Sempre foi a você.
Fechando os olhos, esperei até absorver o impacto de sua declaração. Damon era um nome que eu carregaria para o resto da vida. O tigre negro e eu ficaríamos unidos até que o universo julgasse que nossa estada estava terminada, e o trabalho, feito. Respirando fundo, pensei em todas as coisas de que abrira mão e ainda abriria, mas depois refleti sobre tudo que eu receberia em troca. Quando me ofereceu o soma, Phet disse que isso me daria o que eu mais queria no mundo, mas também me faria sentir falta de algo. Eu tinha aceitado a bebida dos deuses naquela ocasião e ainda a aceitaria agora.
— Pode me ajudar a dar a ele esse último presente? — perguntou Ana, arrancando-me de meus pensamentos.
— Eu… eu não sei como — confessei.
— Você se lembra de quando Kelsey e Ren se tocaram?
— Eles produziram a luz dourada.
Ela assentiu.
— Devemos criar uma luz nossa e derramá-la sobre ele.
Pressionando meu rosto no dela, deslizei as mãos ao longo de seus braços, com cuidado para não entrar em contato com meu antigo eu. Ele ainda estava se movendo no ar, mas era lento o suficiente para que pudéssemos evitar tocá-lo. Fechei os olhos e deixei minha mente e meu coração abertos para Ana. Nossas energias se misturaram até nossos corações baterem como um só e o ar entrando e saindo de nossos pulmões se mover em perfeita sincronia.
— Príncipe Sohan Kishan Rajaram — disse Ana com a voz do trovão —, nós o presenteamos com um novo nome. Daqui em diante, você se chamará Damon e será dotado de todos os poderes de que a deusa Durga dispõe, bem como dos de seu tigre consorte. Você poderá exercer todas as nossas múltiplas habilidades. Seu dever é servir à deusa pelo restante dos seus dias. O Amuleto de Damon é, e sempre foi, seu legado. Nós o encarregamos de guardá-lo, assim como o seu poder. Você aceita esse dever?
Meu antigo eu, a boca ainda aberta em um grito, não conseguiu responder, então falei em seu lugar.
— Aceito — murmurei.
— Então que assim seja.
Uma onda de poder fluiu de nós dois até entrar em meu antigo eu. Achei que aceitar o tigre era doloroso, mas não se comparava a receber o poder da deusa. Os olhos de meu antigo eu se reviraram, ele desmaiou e eu senti o cheiro de carne queimada. O amuleto em seu pescoço o havia marcado. Um vergão vermelho, no formato de um tigre, surgiu em sua pele.
Ana deu um passo para trás, segurando o Amuleto de Damon, e levou uma das mãos aos lábios. Soprou um beijo para meu antigo eu e a pele em seu pescoço cicatrizou na mesma hora. Depois pegou meu braço e me levou dali.
— Está feito — disse ela.
Fiapos de fios moveram-se por seu corpo e seus braços extras cintilaram e desapareceram. Logo ela estava de volta em seu vestido de caça verde. Estalando os dedos, Ana usou seu poder para que o tempo fluísse naturalmente ao nosso redor mais uma vez.
Ren se transformou primeiro. O tigre branco explodiu de seu corpo, começando pelas garras. Ele se sacudiu e rugiu para Lokesh. O antigo Kishan estava caindo. Sua forma humana permanecia inconsciente, mas o tigre encontrava-se muito desperto e consciente. Ele se transformou antes que seu corpo tocasse o chão. De imediato, o tigre deu um salto para a frente e liderou o caminho para a selva. Ren o seguiu. Os dois tigres pararam no limite da floresta e olharam para trás.
Ana sorriu quando eles desapareceram na vegetação e apertou meu braço, apoiando a cabeça em meu ombro.
Antes de irmos embora, voltei até Yesubai. Gentilmente, toquei seu rosto. Pegando sua mão, levei-a aos lábios.
— Ela não merecia esse destino — declarei. — Ao amaldiçoar Ren e a mim mesmo, eu também a amaldiçoei. Foi egoísmo meu.
— Não, Sohan — disse Ana. — Você deu a ela o maior presente que uma pessoa pode dar a outra.
Olhei para ela e passei a mão pelo rosto para enxugar uma lágrima.
— O que você quer dizer? Foi Yesubai que nos deu o dom da cura, e pagou com a própria vida por isso.
— É verdade — Ana assentiu. — Mas você sabia que ela se perguntava se não teria sido melhor se nunca tivesse nascido? Yesubai não queria ter o destino da sua família, Kishan, nas mãos dela. Ela se via como uma covarde por não ter enfrentado o pai antes.
— Ele a teria matado.
— Sim. E eu concordo que a curta vida de Yesubai foi trágica. Seu potencial foi desperdiçado. Mas você, meu tigre maravilhoso, a amou e ela pôde corresponder a esse amor. Ouvi as súplicas de inúmeras pessoas que sofrem de solidão, mágoa e saudade. Acima de tudo, elas desejam amor. A maioria morre sem nunca tê-lo experimentado. É uma coisa muito preciosa, um milagre, uma centelha no coração que nem uma deusa pode produzir. Embora seu tempo na Terra tenha sido breve, ela experimentou algo delicioso para sua alma. AmorVocê deu isso a ela.
Ana permaneceu a meu lado enquanto fiquei ali segurando a mão de Yesubai. Por fim, beijei sua testa e me despedi.
— Venha, meu tigre — disse Ana, me abraçando. — Está na hora de deixar o passado para trás e pôr os pés no caminho que leva ao nosso futuro.
Rodopiamos em um vórtice e voltamos à nossa casa, surgindo no gramado de seu jardim de rosas antes que eu me desse conta do que estava acontecendo. Ana se afastou, como se fosse se separar de mim ali, mas deslizei depressa a mão por seu braço e segurei a sua.
— Aonde você vai? — perguntei.
— Eu… eu pensei que você gostaria de ficar sozinho.
— Acho que já fiquei sozinho por muito tempo. Além disso, você me prometeu férias.
Ela inclinou a cabeça.
— E você quer começar essa viagem agora?
— Hum, acho que posso ser convencido disso.
— Muito bem, então. Para onde vamos primeiro? — perguntou enquanto eu a tomava nos braços.
— Acho que precisamos ter uma conversa antes de fazermos outros planos, Ana.
— Hã? E sobre o que seria?
— Sobre a maneira como você continua lançando por aí essa maldita palavra. Aquela que eu odeio.
— Que palavra? — perguntou ela, intrigada.
— Consorte.
Ana soltou uma risada.
— Devo entender que você se sente ofendido com ela?
— Sim, me sinto.
— Entendo. Pois, então, que palavra você prefere que eu use para me referir a você?
— Ah, não sei. Que tal marido?
O sorriso de Ana foi lento e doce, e, quando se abriu em todo o seu esplendor, me deixou sem fôlego.
Fomos em busca de Kadam e perguntamos se faria as honras. Ele ficou empolgado quando pedimos que nos casasse, mas nós dois soubemos, ao olhar em seus olhos, que ele já sabia que isso aconteceria. Quando dissemos que queríamos que o casamento acontecesse em Shangri-lá, ele assentiu e mostrou um documento que, de fato, lhe concedia o poder de realizar tal casamento. Ana sacudiu a cabeça, rindo por eu ter insistido na formalidade, mas eu queria começar nossa relação adequadamente.
Kadam sorriu para Ana e deu-lhe dois beijos no rosto, depois me deu tapinhas orgulhosos nas costas e começou, à sua maneira habitual, um sermão sobre os deveres de um marido. Ele desapareceu por um instante e puxei Ana para mim, beijando-a na testa. Eu não tinha planejado pedir Ana em casamento daquele jeito, mas, quando o fiz, parecia a coisa certa. Já éramos um par, ligados como deusa e tigre, mas eu queria mais. Queria que Ana fosse minha de todas as maneiras.
Então nos separamos pelo espaço de um dia. Kadam levou Ana para que ela pudesse descansar de nossas provações e ter tempo para se preparar para o casamento. Eu também dormi, comi e dormi um pouco mais ao longo desse dia. Quando acordei, estava pronto em todos os aspectos, exceto por um. Queria dar um presente a Ana. Um sinal do amor que sentia. Refleti sobre o presente perfeito, saltando através do tempo para tentar encontrar inspiração, mas não consegui me decidir por uma coisa sequer. Nada do que eu escolhia parecia bom o bastante. Ainda assim, reuni alguns objetos, na esperança de que ela gostasse de pelo menos um deles.
Com uma bolsa pendurada nas costas, segui para Shangri-lá, onde fui recebido por Kadam. Os proclamas já haviam sido anunciados e as fadas cantavam alegremente quando cheguei, ansiosas por testemunhar as núpcias da deusa que as criara. As árvores e as casas estavam enfeitadas com jasmins e madressilvas, e flores de todos os tipos brotavam entre as pedras, por todos os lados.
Kadam me disse que as silvanas tinham levado Ana para prepará-la e que voltariam dali a uma hora. Isso me dava bastante tempo para conversar com ele.
— Você sabe que ele estaria aqui, se você quisesse — disse Kadam. — Todos eles estariam. Sunil adoraria entregá-la a você.
— Eu sei. Falamos sobre isso, mas decidimos deixá-los em paz por enquanto. Nós dois conhecemos, como você, o fardo de ter muitos segredos para guardar.
— Você nunca irá visitá-los?
— Talvez um dia.
Kadam assentiu.
— É sua a decisão, é claro. Estou feliz por você, filho.
— Você sabia, não é? — perguntei.
— Sabia.
— Podia ter nos contado.
— Ambos sabemos que eu não podia.
Falamos de Ren e Kelsey, Nilima e Sunil. Kadam sempre teve o cuidado de apenas acrescentar algo à conversa quando eu falava primeiro do que tinha visto. Isso fez com que eu me perguntasse o que mais ele saberia. Talvez tivesse razão ao dizer que nem sempre era bom saber o futuro. Nem sempre saber tornava a jornada mais fácil.
Alguém bateu à porta. Kadam levantou-se para abrir.
— Está na hora — disse ele, virando-se para mim com um sorriso.
Kadam ficou a meu lado, nós dois descalços e vestindo as calças brancas e as camisas brancas de tecido fino preferidas pelos silvanos. As únicas diferenças na forma como estávamos vestidos eram as rosas tecidas na gola de minha camisa e o Amuleto de Damon, que pendia de meu pescoço. O calor do verão perpétuo envolveu-nos enquanto o sol se punha, estendendo seus longos raios sobre a Terra, como se ele também não quisesse ir embora antes de testemunhar o casamento.
Então Ana apareceu. Enquanto caminhava em minha direção, a luz que se extinguia emoldurava sua linda figura, banhando sua pele com tons de dourado. No entanto, por mais espetacular que fosse essa visão, foi o sorriso que ela me dirigiu que fez meu coração palpitar no peito.
Minha, pensei com orgulho. Ana é minha.
Kelsey teria criticado uma afirmativa dessas. Eu, mais do que qualquer um, sabia que a deusa Durga não era — na verdade, mulher alguma era — uma posse para um homem reivindicar. Eu mesmo matara um homem que tinha feito essa suposição em relação a Ana no passado. No entanto, eu também era uma criatura movida pelo instinto e, naquele momento, sentia-me decididamente territorial em relação à mulher que amava.
Eu já tinha me sentido feliz antes. Muitas vezes, na verdade. Mas nenhum acontecimento na minha longa vida me enchera de um contentamento tão profundo. Tudo que se passara comigo, cada momento de minha vida, tinha me trazido a esse acontecimento, e eu viveria tudo de novo só para experimentar a intensa alegria que sentia nesse momento. Observando Ana percorrer lentamente o caminho até chegar a meu lado, fiquei maravilhado com a absoluta bênção que era o presente que eu havia recebido. Ser marido daquela mulher era um milagre que eu, por certo, não merecia.
Os pássaros cantavam nas árvores e os silvanos ladeavam o caminho, cantarolando com suas vozes etéreas e alegres, enquanto alguns tocavam flautas. Sua música inesquecível era, ao mesmo tempo, mágica e singular, apropriada para o casamento de uma deusa. As fadas haviam tecido um vestido para Ana. As mangas, estreitas e justas nos braços, abriam-se nos pulsos em forma de copos-de-leite.
Rosas brancas foram tecidas na cauda diáfana do vestido, que, em vez de ser arrastada pelo tapete de grama, era carregada centímetros acima do solo pelas fadas aladas. Os longos cabelos de Ana estavam enfeitados com flores de todas as cores e se derramavam em ricas ondas por suas costas. Os pés dela estavam descalços como os meus, mas aros de prata adornavam-lhe os tornozelos e os pulsos, de modo que cada passo que ela dava tilintava com o som de sinos. Ela carregava o maior buquê que eu já vira, chegando quase até o chão.
Quando finalmente parou a meu lado, estendi as mãos. Ela fez um movimento e o buquê flutuou, afastando-se dela e se transformando em centenas de borboletas coloridas. Ouvi a multidão ofegar quando as lindas criaturas se instalaram nas árvores, nas casas, nos ombros e nas plantas. Prendi a respiração quando Ana chegou mais perto de mim e pousou as mãos sobre as minhas.
Eu não conseguia desviar meus olhos dela. Eles acompanharam a curva das maçãs de seu rosto, a linha do queixo, as sardas salpicadas sobre o nariz, os aclives e declives dos lábios e, por fim, se perderam nos poços verdes de seus olhos. O tempo pareceu parar enquanto ficamos ali, extasiados um com o outro. As vozes dos silvanos haviam silenciado e até os pássaros estavam quietos. O ar parecia pesado, à espera de algo.
— Estão prontos? — perguntou Kadam.
— Estou — respondi, sem querer tirar os olhos dela.
— Então vamos começar. Anamika, pode colocar os braços sobre os dele?
Ela olhou para ele, erguendo as sobrancelhas.
— Assim? — perguntou, enquanto deslizava as mãos por meus antebraços.
Delicadamente, segurei-a da mesma maneira.
— Assim mesmo — começou Kadam. — Vocês dois conhecem a promessa do guerreiro. Eu mesmo ensinei a vocês, mas agora vão conhecer sua verdadeira origem. Há muito tempo, um homem abraçou a vida de um tigre. Esse homem sacrificou tudo pelo amor de uma deusa. Sua história foi transmitida ao longo das eras. Embora muitos tenham esquecido que o tigre não era um mero companheiro de batalha que a carregava por vastas planícies ou que ameaçava seus inimigos, todos se lembravam do vínculo especial que existia entre eles.
Ele fez uma pausa antes de prosseguir:
— Kishan, repita comigo. Anamika Kalinga…
Acariciei os braços dela com meus polegares. A energia zumbia entre nós.
— Anamika Kalinga — repeti, com voz rouca.
— Eu sou seu por toda a vida.
— Eu sou seu por toda a vida.
— E seu na morte.
— E seu na morte.
— Prometo respeitar sua sabedoria.
Ela sorriu quando repeti:
— Prometo respeitar sua sabedoria.
— E me manterei sempre vigilante dos meus deveres como seu marido.
— E me manterei sempre vigilante dos meus deveres como seu marido.
— Por você, enfrentarei com bravura todas as coisas.
— Por você, enfrentarei com bravura todas as coisas.
— E deste dia em diante hei de honrá-la acima de todos os outros.
— E deste dia em diante hei de honrá-la acima de todos os outros.
— Muito bom — disse Kadam. — E agora, a última parte. Anamika Kalinga, eu, Príncipe Sohan Kishan Rajaram, agora sou seu, assim como você é minha. Esta é a minha promessa.
— Anamika Kalinga — repeti suavemente, e minha garganta estreitou-se enquanto eu terminava —, eu, Príncipe Sohan Kishan Rajaram, agora sou seu, assim como você é minha. Esta é a minha promessa.
Toquei minha testa na dela por um breve momento e então Ana repetiu as mesmas palavras para mim.
— Príncipe Sohan Kishan Rajaram — começou ela —, eu sou sua por toda a vida. E sua na morte.
Observei sua linda boca formar cada palavra. Ela falou com uma certeza e uma confiança que me surpreenderam. Sua firmeza era algo com que eu sabia que contaria ao longo dos anos. O Mestre do Oceano me disse uma vez que eu poderia ser uma pedra capaz de resistir aos golpes das tempestades. Por maior que fosse minha força, eu sabia que só a possuía porque Ana era minha âncora.
— Prometo respeitar sua sabedoria — disse ela. — E me manterei sempre vigilante dos meus deveres como sua mulher. Por você, enfrentarei com bravura todas as coisas. E deste dia em diante hei de honrá-lo acima de todos os outros. — Ana apertou meus braços. — Príncipe Sohan Kishan Rajaram, eu, Anamika Kalinga, agora sou sua, assim como você é meu. Esta é a minha promessa — concluiu ela em voz baixa.
— Excelente — disse Kadam. — Agora acho que é hora de trocar os presentes.
Ana começou, passando a mão sobre a minha. Um anel de prata surgiu.
— Ele foi feito da primeira arma que você me deu — informou.
Levantei minha mão para examinar o anel.
— Está falando da faca que usei para matar o homem que fez de você uma escrava? — perguntei.
— Sim.
— Não traz de volta lembranças ruins?
— Não — respondeu Ana. — É um lembrete para mim de que você desceria aos lugares mais escuros para me encontrar. Este anel será sempre um farol de esperança para mim.
— E a pedra?
Na parte externa do anel, engastada entre as duas bordas, estava uma pedra faiscante.
— Você não a reconhece? — perguntou ela.
Sacudi a cabeça, negando.
— É feita com fragmentos da pedra da verdade.
— Ah!
Agora que ela dissera, senti a vibração da pedra no ponto onde ela tocava meu dedo.
— Dessa forma, você sempre saberá que eu falo a verdade. É um sinal da minha fidelidade.
— O casamento já deixa você tentada a mentir para seu marido? — provoquei.
Inclinando-se, ela murmurou:
— Estou pressupondo, é claro, que meu marido nunca me dará motivo para mentir.
Eu ri.
— É perfeito o presente. Obrigado. Posso lhe dar seus presentes agora?
Ela ergueu a sobrancelha.
— Você tem mais de um?
— Tenho.
Kadam ajudou, pegando os objetos que eu colocara em uma bolsa e me entregando um a um.
— O primeiro — comecei — é um cinto tecido de penas da Fênix. A nova Fênix, Cair da Noite, ofereceu-as como um presente de casamento. Demorou para deixá-las retas. As penas da Fênix são muito difíceis de manusear.
Ana pegou o presente e acariciou as penas. Então ergueu a cabeça, o rosto surpreso.
— Há magia nelas! — exclamou.
Assenti com a cabeça e sorri.
— Há um pouco de magia em todos os meus presentes.
— Qual é o próximo? — perguntou ela, ansiosa, entregando o cinto a uma silvana.
Kadam me passou uma pequena muda em um vaso de barro. Tinha apenas alguns centímetros de altura.
— O que é isso? — perguntou Ana, pegando a planta.
— Uma mangueira, ou pelo menos será, um dia. Representa nossa nova união, que, espero, crescerá, tornando-se tão alta e frutífera quanto esta árvore.
Ela entregou a pequena árvore a outra silvana depois de tocar com a ponta do dedo uma das três folhas trêmulas. Em seguida, dei-lhe o presente que Lady Bicho-da-Seda fizera com o tecido que Nilima lhe dera. O véu finamente tecido era do mesmo tom de verde que os olhos de Ana. Ela cobriu a cabeça com ele e as fadas ajudaram a mantê-lo no lugar. O tecido cintilava e faiscava com um poder próprio. Por um momento, fiquei distraído com a visão de seus belos olhos emoldurados pelo véu.
Então pigarreei.
— Este colar substitui o Mangalsutra tradicional. Sei que é uma peça simples, mas vou completá-la mais tarde. Parece que é muito difícil encontrar pérolas.
Ana sorriu e se virou para que eu pudesse prender a fina corrente em seu pescoço. A pérola negra solitária deslizou, parando no centro de seu pescoço delicado.
— Adorei — disse Ana, virando-se para mim e tocando a pérola brilhante.
— Sei que nenhum desses presentes é tradicional.
— A nossa união não é tradicional — disse ela, pegando minhas mãos e apertando. — O maior presente que você me deu, Sohan, foi ter escolhido ficar a meu lado.
Pigarreando novamente, eu disse:
— O último é um anel.
— Mas você já me deu um.
— Eu mudei umas coisas nele.
Fechando a mão, sussurrei algumas palavras e uma luz surgiu entre meus dedos. Quando ela diminuiu, mostrei o que estava na palma de minha mão. Era o anel de prata com videiras entrelaçadas, mas agora esmeraldas brilhantes descansavam entre cada volta, com uma grande esmeralda lapidada no centro, cercada por diamantes.
— Foi feita a partir da pedra com que você presenteou meus pais quando os visitou. Kadam guardou-a por todos esses anos — expliquei. — O verde é do tom exato dos seus olhos.
Ana estendeu a mão e eu deslizei o anel em seu dedo.
— É perfeito — disse ela, segurando minhas mãos.
— Muito bem — disse Kadam. — Então, se vocês dois estiverem prontos, acho que é hora de coroar esta ocasião mais do que auspiciosa com o noivo beijando a noiva.
Puxei Ana para mais perto, um sorriso no rosto quando baixei a cabeça, mas, assim que meus lábios tocaram os dela, ela falou em minha mente:
Há mais um presente que preciso lhe dar, Sohan.
E o que é, Hridaya Patni?, perguntei, mais do que distraído pelo beijo.
Ela não respondeu com palavras. Em vez disso, sua mente se abriu para mim. Ana despiu as camadas de sua alma, lançando uma linda luz sobre tudo que ela fora, tudo que ela era e tudo que se tornaria. Nós nos aceitamos com tudo que éramos, sem esconder nada. Com todas as barreiras derrubadas, descobrimos um ao outro em níveis tão profundos que nada jamais seria capaz de se colocar entre nós outra vez, e isso selou para sempre o vínculo que tivera início tanto tempo atrás.
Embora para os demais o beijo tenha durado um tempo adequado, ficamos girando nos braços um do outro, flutuando pelo tempo e pelo espaço, perdidos tão completamente um no outro que nem mesmo uma deusa ou seu tigre poderiam ter nos encontrado.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!