12 de setembro de 2018

36 - Uma promessa cumprida


— A maldição — repeti, a voz sumindo.
— É. Kadam deixou isso por último.
— De propósito, não foi?
Ana assentiu, pouco à vontade.
— Ele queria que você tivesse tempo para considerar todas as ramificações dessa decisão primeiro.
— Kadam sempre foi inteligente — comentei, dando as costas a ela.
Ana ficou em silêncio por um momento, me dando tempo para pôr em ordem meus pensamentos. Por fim, pôs a mão em meu braço.
— Nenhum de nós vai forçá-lo a tomar essa decisão — disse ela. — Se você optar por desfazer a maldição, impedir que ela se realize, não vou julgá-lo.
Peguei sua mão e a fiz se virar para me encarar.
— O que você escolheria, Ana? — perguntei.
— O que eu escolheria é irrelevante. Foi você quem perdeu não uma, mas duas mulheres que amava. Você sofreu na selva, sentindo-se solitário e magoado. É você quem está condenado a ser um tigre até o fim dos seus dias.
— E você? — perguntei. — Escolheria a vida da deusa? Sei que você não queria. Não quando Sunil foi embora, pelo menos.
— Não — respondeu ela em voz baixa. — Eu não queria na época.
— E agora?
— Agora, eu… É uma vida que estou disposta a viver, mas não sem…
Ela cortou o fim da frase e mordeu o lábio.
— Não sem mim — concluí por ela.
— É — admitiu Ana. — Se você escolher permanecer totalmente humano, recusar o poder do Amuleto de Damon, então eu também terei uma vida mortal.
Encostei minha testa na dela.
— Assim nunca nos encontraríamos.
— Não.
— Não importa — afirmei, ansioso. — Não há decisão a tomar. Se eu não aceitar o poder, Yesubai vai morrer, de qualquer jeito. Ren e eu provavelmente pereceríamos nas mãos de Lokesh, talvez não de imediato, mas logo depois, e você… você seria uma escrava daquele monstro que abusava de crianças. É isso que você quer?
— Não — respondeu Ana —, mas o simples fato de você rejeitar o amuleto não significa necessariamente que essas coisas sejam inevitáveis. Pense nisso. Sem o amuleto, Lokesh teria morrido muitos anos antes. Yesubai nunca teria nascido. O tempo seria reiniciado. Quem sabe o impacto disso no mundo? Talvez o homem que escravizava crianças também não tivesse nascido, ou talvez fosse completamente diferente ou vivesse em uma cidade distante. Não podemos saber.
— Kadam sabia. Talvez, se não fosse tão covarde, eu tivesse trilhado o caminho que ele trilhou e vislumbrado meu futuro, seguido linhas do tempo diferentes.
— Ele não queria isso para nós, lembra? — disse Ana, tomando meu rosto nas mãos. — Você viu que esse conhecimento é um fardo para ele.
Assenti e ela continuou:
— Não deixe que o medo do que viu no passado ou os sofrimentos de sua família e de seus amigos tomem por você a mais importante das decisões. Nunca na história do mundo houve um homem que possuísse o dom de enxergar em retrospectiva assim. Pense no seu passado, sim, mas também considere os anos ainda não vividos. Deixe seu coração guiá-lo e ouça apenas o que ele lhe diz. Prometa que vai fazer isso, Sohan.
Segurei seu pulso e levei a palma de sua mão aos lábios. Fechando os olhos, beijei-a e disse:
— Eu prometo, Ana.
— Então, quando estiver pronto, iremos. Devemos observar sem sermos vistos por um tempo para que você possa decidir, mas saiba que vou apoiar sua escolha, seja ela qual for.
Ana tocou o Amuleto de Damon, que descansava contra minha pele, e depois se inclinou para beijar meu rosto.
Quando ela levantou a cabeça, eu me inclinei para trás e tirei a joia que havia mantido escondida atrás do amuleto. Eu a tinha pegado quando despertei Ana depois de escoltar Lady Bicho-da-Seda até em casa, pensando que encontraria o momento certo para dar o presente a Ana.
— Não importa o que aconteça — falei —, quero que você fique com isto. Tecnicamente, já pertence a você. Estava escondido dentro de uma das abóboras na casa de cabaças.
Abri os dedos, ela pegou o anel e o segurou pelas bordas, erguendo-o contra a luz. Era um anel simples — uma aliança de prata com videiras entrelaçadas —, mas, desde o Bosque dos Sonhos, ele me fazia lembrar dela, de nós. Nunca me pareceu certo dá-lo a Kelsey, embora eu o tivesse guardado com a intenção de presenteá-la com ele em algum momento. Agora eu sabia por que nunca o tinha dado a ela. Ele sempre fora destinado a Ana.
— Você está me dando o anel para ganhar meus favores? — perguntou ela com um sorriso. — Se é por isso, lembre que você já tem a habilidade de dobrar a deusa à sua vontade.
Balancei a cabeça.
— Não peço nada em troca. É um símbolo da minha consideração por você.
— Ah! E devo interpretar que sua consideração significa que sou uma erva daninha que sufoca você? — provocou.
Peguei sua mão e a puxei para mais perto.
— Não — contestei-a suavemente. — Eu a considero como você considera suas flores. — Tocando seu cabelo com a ponta dos dedos, continuei: — Você é uma flor rara e preciosa que me traz prazer toda vez que me aproximo. Não importa o que vai acontecer a seguir, quero que saiba que não lamento nada nesta jornada com você e que o vínculo que compartilhamos é muito importante para mim.
Ana deslizou o anel em seu dedo e depois uniu as mãos atrás de meu pescoço.
— Então o anel será importante para mim — declarou.
Abraçando-a, invoquei o poder do amuleto e saltamos através do tempo. Então nos rematerializamos no palácio de Lokesh e ficamos dessincronizados com o tempo para nos mantermos invisíveis. Ana pegou minha mão e avançou, seguindo o som das vozes. Logo deparamos com meu antigo eu conversando com Lokesh.
“Onde está ele?”, indagou meu antigo eu, em tom de urgência. “Você não pode simplesmente atirá-lo na prisão.”
“Acalme-se, jovem príncipe. Nenhum mal foi feito a ele.” Em tom quase inaudível, Lokesh acrescentou: “Pelo menos nada a que não vá sobreviver.”
Meu eu mais jovem virou-se bruscamente e estreitou os olhos, mas Lokesh colou um sorriso de político no rosto.
“Você precisa confiar em mim quando digo que vai dar certo. Tudo que precisamos fazer é mostrar a ele que minha filha ama você, e o próprio Dhiren vai rasgar o acordo de noivado. Depois disso, se ele é verdadeiramente o irmão amoroso que você afirma que é, vai negociar novos termos.”
Após uma breve pausa, Lokesh prosseguiu:
“Quanto a mim, vou desempenhar o papel do pai vingativo que foi enganado pela família Rajaram. Para proteger sua honra e a de sua família, o herdeiro de Rajaram pagará o preço que pedirmos para apagar esse feio episódio. Ah, ele pode odiá-lo por um tempo, mas estou certo de que no fim tudo sairá como deveria.” Ele segurou meu antigo eu pelo ombro. “Vamos encontrar juntos uma nova noiva para ele, uma escolha mais adequada. Depois que ele estiver casado e feliz, logo esquecerá todo esse dissabor.”
Homem desprezível, sibilou Ana. Fico feliz que o demônio esteja morto.
Concordei. Ficamos para ouvir os dois homens fazerem seus planos e depois acompanhamos meu antigo eu até o lado de fora, seguindo-o de perto até ele encontrar Yesubai. Ao cair em seus braços, ela levantou o véu e ouvi Ana ofegar de surpresa.
Ela é linda, comentou Ana. Suas lembranças dela eram imprecisas.
Muitas vezes as recordações são assim. Eu me imaginava apaixonado por Kelsey quando você viu Yesubai através dos meus olhos. Provavelmente isso interferiu nas minhas lembranças. Mas você está certa, Yesubai era linda, observei enquanto via os dois se abraçarem. Olhei para o rosto de Ana e sua expressão era indecifrável. Será que ela odeia Yesubai? Será que está com ciúme? Se tivesse sido Ana a cair nos braços de um estranho, não sei o que eu faria. O mais provável é que eu o estrangulasse. Mas Ana apenas observava em silêncio.
Também estudei a menina de olhos violeta, pois era o que ela era, uma menina, de apenas 16 anos. Yesubai teria sido uma escolha adequada para mim ou Ren naquela época. Agora, porém, séculos depois, ela parecia jovem demais para mim. Se me olhasse no espelho, meu rosto poderia não parecer tão diferente do jovem abraçado a Yesubai, mas meus olhos revelariam minha idade.
Eu carregava os anos dentro de mim. Eles tinham passado e me moldado, do mesmo jeito que as marcas em minha carne denunciavam.
Tantas coisas haviam me acontecido desde que eu fora aquele rapaz. Eu me sentia uma pessoa completamente diferente. Meu corpo era jovem, mas meu espírito era muito velho. Enquanto os observava juntos, meu coração transbordava. Não de um afeto constrangido pela menina doce que era filha de um monstro, mas de uma sensação de melancolia e tristeza por uma vida podada prematuramente.
“O que está acontecendo?”, perguntou Yesubai, afastando-se do abraço.
“Seu pai diz que teremos que confrontá-lo abertamente”, respondeu meu eu mais jovem, “e parece acreditar que será mais fácil convencê-lo se ele vir que nós três estamos unidos. Tecnicamente, meu irmão é prisioneiro do seu pai, mas ele me garantiu que só pretende ameaçar Ren até ele entregar o que seu pai deseja, e então irá assinar o novo acordo de noivado.”
“Mas…”
Nesse momento, Lokesh chegou.
“Ah, aí está você, querida.”
Era óbvio que Yesubai tinha um medo mortal do pai. Ela desceu o véu assim que ouviu a voz dele e baixou a cabeça. Afastando-se rapidamente do rapaz que amava, Yesubai passou o braço pelo do pai.
“Se nos dá licença, Kishan”, disse Lokesh, “vou acompanhar minha filha até os aposentos dela para que descanse e se troque antes de seu irmão chegar.”
“É claro”, disse meu antigo eu.
Tive o cuidado de passar a uma boa distância dele quando deixamos o antigo Kishan para trás e seguimos Yesubai e Lokesh. Ele levou a filha por uma escadaria de pedra. Com nada menos que três portas trancadas entre os aposentos dela e o jardim, era evidente que ele tomara providências para que não houvesse possibilidade de Yesubai fugir.
Depois que ela e Lokesh entraram no quarto dela, a porta foi trancada atrás deles. Decidimos que era melhor esperar no corredor. Mesmo assim, ouvimos trechos de conversa e ameaças sussurradas. Ana estava prestes a ir até eles quando a porta de repente se escancarou e Lokesh saiu. Como Yesubai nesse momento estava em segurança com sua criada, decidimos seguir Lokesh.
O pai de Yesubai trancou a porta do quarto e depois desapareceu pela porta seguinte. Quando íamos segui-lo, ouvimos a voz alarmada da menina através da porta. Yesubai falou baixo o suficiente para que os soldados lá fora não pudessem ouvir, mas suficientemente alto para que uma deusa e seu tigre escutassem.
“Isha”, disse ela, “estou com tanto medo! Ele vai matá-los!”
Ana me lançou um olhar significativo. Peguei sua mão e apertei. Enquanto a criada consolava Yesubai, percorremos o pátio rapidamente, atravessando as paredes do palácio, e seguimos Lokesh, que estava na sala do trono com seu conselheiro.
“Quando você o trouxer”, disse Lokesh, “certifique-se de que Yesubai seja a primeira coisa que ele veja. Os dois príncipes apaixonados vão passar um por cima do outro para me dar o que eu quero.”
“É claro, e então, depois que eles estiverem mortos, receberei minha recompensa?”
“Sim, sim, minha filha será sua. Agora vá. Prepare o prisioneiro.”
Depois que o homem saiu, Lokesh trancou a porta, ergueu os braços e começou a praticar o poder do amuleto. Ana o observava, transfixada. O poder não vinha naturalmente para Lokesh. Nós dois podíamos sentir o amuleto resistir aos comandos dele.
O controle não se destinava a ele, disse Ana. O amuleto luta contra ele.
É verdade.
Nunca coube a Lokesh e seus antepassados exercer o poder. Eles eram apenas guardiões.
Vimos Lokesh tropeçar. As veias em seus braços saltavam, quase negras, contra a pele. O amuleto o está destruindo, disse Ana. Ele o está enlouquecendo, do jeito que Kadam disse que aconteceria.
Será que vai afetar Kadam do mesmo jeito?, indaguei.
Ana mordeu o lábio.
Quanto mais é usado, mais o poder destrói quem o utiliza. Mas Kadam detém apenas um pedaço. Ela pousou a mão em meu braço. Vamos observá-lo.
Então o que está nos protegendo?, perguntei.
A garota a meu lado me lançou um olhar que queria dizer muitas coisas. O único problema era que eu não sabia exatamente o quê.
Talvez algum dia a gente descubra, respondeu ela.
Lokesh suava em profusão depois de mais ou menos uma hora usando o amuleto. Ele enxugava a testa com uma toalha quando bateram à porta, aberta por ele com violência.
“O que é?”, sibilou.
“Sua filha está pronta. Neste momento ela se encontra com o príncipe mais novo. Achei melhor não deixá-los sozinhos por muito tempo.”
“Muito prudente da sua parte”, disse Lokesh. “Me dê um momento e depois os traga aqui.”
O homem desapareceu e Lokesh usou o poder do amuleto para se refrescar. Ele vestiu a túnica e ajeitava o cabelo quando o servo entrou, curvando-se, acompanhado por Yesubai e meu antigo eu.
Como eu estava orgulhoso então. Tão feliz e autoconfiante. Sim, eu estava preocupado com Ren, no entanto meus pensamentos voltavam-se para a garota de braço dado comigo. Ana estava certa ao dizer que minhas lembranças de Yesubai não lhe faziam jus. Naquela ocasião, tudo que eu tinha visto fora sua beleza. A bondade em seus olhos. O amor que ela obviamente sentia por mim.
Agora eu podia ver o medo tremeluzindo sob o rubor do rosto, o tremor dos lábios brilhantes que maculava seu sorriso e as lágrimas não derramadas fazendo com que seus olhos faiscassem.
Depois que eles se sentaram e Lokesh deu suas instruções finais, os soldados receberam ordens e Ren foi trazido à sala. Ele tinha sido espancado, mas não era nada se comparado à tortura que Lokesh pessoalmente lhe infligiria no futuro. Naquele momento de sua vida, Ren ainda estava cheio de esperança e rebeldia. Mesmo quando me viu sentado no trono com Yesubai e soube de minha traição e da deslealdade dela, sua raiva e sua tristeza eram coisas mínimas se comparadas ao que ele sentira ao perder Kelsey.
“Por que você… você, que é quase da família... me tratou com tanta… falta de hospitalidade?”, perguntou Ren.
“Meu querido príncipe”, respondeu Lokesh, “você tem algo que eu desejo.”
Estremeci, obrigando-me a ouvir novamente cada palavra de Ren. Era quase como se ele estivesse fazendo as perguntas a mim, não a Lokesh. Sim, o pai de Yesubai nos causara dor, mas agora era eu o carrasco. Na verdade era eu, Kishan, quem ia impor a ele e a nós um sofrimento que duraria anos.
“Nada que você possa querer justifica isso”, disse Ren. “Nossos reinos não devem se unir? Tudo que tenho está à sua disposição. Basta pedir. Por que fez isso?”
Por quê, de fato? Embora meu irmão não pudesse me ver, fui até ele e pousei minha mão espectral em seu ombro. Ambos fitávamos Lokesh enquanto ele esfregava o queixo. Eu assim, ao lado de Ren, era como sempre deveria ter sido. Irmãos, lado a lado.
“Os planos mudam”, respondeu Lokesh. “Parece que seu irmão gostaria de tomar minha filha como noiva. Ele me prometeu certas compensações se eu o ajudar a atingir esse objetivo.”
A conversa entre os dois prosseguiu. Minhas mãos coçavam para fazer algo. Para deter Lokesh. Aqui. Agora. Mas eu não deveria fazer isso. Estava ali para tomar uma decisão. Uma decisão que afetaria não só minha vida, mas a de todas as pessoas que eu amava no mundo.
“Pensei que tivéssemos um acordo”, sibilou meu eu mais jovem. “Só atraí meu irmão até aqui porque você jurou que não o mataria! Era para você tomar o amuleto dele. E só.”
“A esta altura, você já deveria ter aprendido que eu tomo tudo que eu quero”, retrucou Lokesh.
Era assim que eu sempre fui, um homem que tomava para si o que queria? Eu tinha tomado Yesubai. Tinha tomado Kelsey. E agora havia Ana. Se eu decidisse manter o poder do amuleto, estaria tirando suas escolhas? E as de Ren?
Foi quando escutei.
Estarei do seu lado, irmão.
Espantado, ergui os olhos e vi que Ren fitava meu antigo eu e este, por sua vez, olhava para trás. Aquela tinha sido minha voz ou a de Ren? Será possível que sempre estivemos conectados de alguma forma através do Amuleto de Damon ou eu estava apenas escutando o eco de pensamentos vindos do meu eu mais jovem? Não havia como saber.
O grito de Lokesh desviou todos os olhares para ele:
“Talvez você precise de uma demonstração do meu poder. Yesubai, venha!”
A pobre garota gemeu e se contorceu na cadeira dourada enquanto ele se aproximava. Antes que ele a alcançasse, Ren, sempre o herói, interveio e atraiu de volta para si a atenção do pai dela.
“Você é como uma cobra enrolada que se escondeu em sua cesta, esperando o momento de dar o bote”, gritou meu irmão, olhando para Yesubai e depois para meu antigo eu. “Vocês não veem? Suas ações libertaram a víbora e nós fomos picados. Seu veneno agora corre pelo nosso sangue, destruindo tudo.”
Como era irônico o fato de que, no fim, foi mesmo uma víbora que acabou por destruir Lokesh. Se ao menos Fanindra estivesse aqui agora.
“Você quer ouvi-la gritar?”, ameaçou Lokesh quando o ínfimo controle que mantinha sobre sua sanidade se extinguiu. “Garanto que ela grita muito bem. Esta é sua última chance de fazer uma escolha. Entregue a sua parte para mim.”
Enquanto Lokesh, o rosto arroxeado, ameaçava Ren, eu pensava em Yesubai. Agora eu via com os próprios olhos o que Ren tinha sofrido nas mãos de Lokesh. E o que ela sofrera? Ren tinha sido prisioneiro de Lokesh apenas por alguns meses, mas Yesubai vivera com ele por dezesseis anos.
“Que seja, então”, disse Lokesh, e puxou uma faca da túnica. Ele começou a girar um medalhão ao mesmo tempo que sussurrava algumas palavras, conjurando o feitiço de sangue para fazer de Ren seu escravo.
Nisso, notei algo que não tinha visto antes. Uma luz surgiu em torno de Ren e Lokesh à medida que o feitiço progredia, mas Yesubai também estava brilhando.
Está vendo, Ana?, perguntei.
A pedra do tigre esculpida a partir do ovo da Fênix nos mostra a verdade, respondeu Ana.
Aparentemente, eu não precisava mais tocar um pedaço da pedra da verdade para enxergar o que havia no coração das pessoas. Eu podia ver através dos olhos de Ana. O corpo inteiro de Yesubai pareceu brilhar com um lustro dourado que me lembrou Ana quando estava na forma de deusa. Fui até Ana, que observava em silêncio, encostada em um pilar.
O que está acontecendo com ela?, perguntei no instante em que meu antigo eu saltou do tablado para atacar Lokesh.
Yesubai se pôs de pé e sua aura cresceu até ela parecer um pequeno sol prestes a explodir.
É um dom, eu acho, disse Ana, com os braços cruzados na frente do peito. Ela fechou os olhos. Sim. Quando Lokesh matou a mãe de Yesubai, Yuvakshi, ela fez um pedido antes de morrer, um pedido nascido do amor. Sua última súplica ecoa nos meus pensamentos ainda hoje.
E qual foi o pedido?, perguntei.
Foi o simples pedido de uma mãe. Que sua filha soubesse que era amada e que fosse protegida da ameaça de seu pai. A súplica de Yuvakshi foi ouvida e o universo concedeu seu desejo. Yesubai foi agraciada com dois dons por causa disso. Para se esconder do pai, ela desenvolveu o dom da invisibilidade.
Quer dizer que ela pode se dessincronizar com o tempo, como nós?
Ana refletiu.
Não. Acredito que seja simplesmente uma forma de camuflagem, como a dos animais que se fundem com o ambiente.
Então ela poderia tê-lo deixado a qualquer momento.
Ah, mas a jovem Yesubai ama a criada que cuida dela e muitas vezes suplicou aos deuses pedindo pela mulher. Nunca a deixaria para trás. Seu pai cuidava para que ela estivesse sempre por perto, para que a filha fizesse o que ele mandava.
E qual foi o segundo dom?
O milagre da cura, tanto para si mesma como para os outros. É esse dom que ela dá a você agora.
O quê? O que você…
Ana pegou meu braço e me virou de frente para a cena. Lokesh estava brigando com meu eu mais jovem enquanto Ren tentava se levantar. Ao mesmo tempo, Yesubai, braços erguidos, entoava um cântico, sussurrando uma súplica pela intervenção divina. Ana e eu assistimos quando o poder se elevou do corpo de Yesubai em uma nuvem dourada. Ele se dividiu em dois, metade disparando na direção de Ren, e a outra, na direção de meu antigo eu. Os ferimentos dos príncipes começaram a cicatrizar de imediato.
Quer dizer que é por isso que podemos nos curar? Sempre pensei que tinha a ver com o amuleto ou com o próprio tigre.
Ana sacudiu a cabeça.
A cura foi sempre um presente dado por Yesubai.
Um doce sentimento de profunda gratidão me invadiu. Quantas vezes eu tinha considerado natural nossa capacidade de curar? Ren e eu teríamos morrido em várias ocasiões, não fosse pelo sacrifício dela.
Tornei a olhar para a garota, mas Yesubai desapareceu diante de meus olhos. Ana apontou e só consegui distinguir sua forma espectral quando ela apanhou uma faca que estava esquecida por ali e a cravou nas costas de Lokesh. O golpe, porém, não foi suficiente para matá-lo. A corajosa jovem, seu manto de invisibilidade se dissolvendo, saltou em seguida na frente de meu antigo eu para protegê-lo quando Lokesh estava prestes a matá-lo. Ele usou o poder do ar e da terra para golpeá-la, lançando seu corpo delicado no ar.
Ela caiu e as lágrimas encheram meus olhos ao ouvir sua cabeça bater na borda do tablado com um estalo inconfundível. Mesmo se eu já não soubesse o que aconteceria em seguida, tanto Ana quanto eu tínhamos bastante experiência para reconhecer um golpe fatal quando víamos um. O tempo congelou.
Ana pôs a mão em meu braço.
— Vou até ela agora — falou, hesitante, como se pedisse minha permissão.
Assenti com a cabeça e Ana usou seu poder para se transformar na deusa, mas sem os braços extras. Isso não me espantou, mas fiquei surpreso ao ver que Fanindra tinha se juntado a ela. A serpente olhou para Lokesh e sibilou, abrindo as mandíbulas.
— Ainda não, meu bichinho — disse Ana a Fanindra, e em seguida descongelou o tempo em torno de Yesubai.
Vi que ela estava canalizando energia suficiente apenas para adiar a morte da menina. Ana se ajoelhou ao lado de Yesubai e pegou sua mão.
— Olá, Yesubai — disse ela. — Eu sempre quis conhecê-la.
Yesubai tentou dizer algo, mas apenas um sopro agitou o ar. Ana sorriu de leve e usou seu poder para ajudar.
— Você pode falar, se assim desejar.
— Quem… quem é você? — perguntou Yesubai. — O que está acontecendo?
— Sou a deusa Durga.
— Uma deusa?
Yesubai perguntou se Ana iria salvar a todos. Embora Ana tenha dito que não, eu me perguntei se isso era verdade. Ana, sem dúvida, tinha me salvado inúmeras vezes.
— Não entendo. Então por que está aqui? — perguntou a garota agonizante.
— Como eu disse, queria conhecê-la.
— Por quê?
— Queria entender quem você é. — Ana olhou para mim. — Particularmente, eu queria saber se você o ama.
— Se amo quem?
Ana hesitou antes de responder:
— Kishan.
Eu me aproximei, então, franzindo o rosto, e sacudi a cabeça, mas Ana insistiu.
— Sim — respondeu Yesubai suavemente. — Eu o amo. Sinto muito pelo que aconteceu com Dhiren. Ele é um bom homem. Não merecia sofrer. Se eu pudesse voltar atrás e fazer tudo diferente, voltaria.
— Acredito em você — afirmou Ana.
— Eles não merecem que o destino deles fique preso ao meu.
— Não quero que você se preocupe com o destino deles, Yesubai.
— Mas Lokesh…
Ana acariciou o rosto da menina, inclinou-se e sussurrou:
— Seu pai será derrotado, mas não neste tempo.
— Vou viver para presenciar isso?
Ana abriu a boca, mas a resposta demorou para vir:
— Não penso igual aos outros deuses com relação a revelar o futuro, então vou responder à sua pergunta. Você não viverá além de hoje. Na queda, você quebrou o pescoço.
— Mas eu sou capaz de me curar — insistiu Yesubai.
Sentindo-me derrotado, abaixei-me no tablado ao lado de Ana e Yesubai, com a cabeça nas mãos. Enquanto explicava a Yesubai que seu dom agora se fora, Ana estendeu a mão, segurou meus dedos e apertou.
— Então eu passei no seu teste? — perguntou Yesubai.
— Não havia nenhum teste, Yesubai.
— Talvez não, mas Kishan disse que uma dádiva seria conferida até mesmo à mais baixa das criaturas se os deuses a julgassem valorosa.
Minha respiração ficou presa no peito. Qual seria o desejo de Yesubai? Viver? Que a deusa levasse nós dois para longe desta câmara?
— Que dádiva deseja? — perguntou Ana, a voz falhando.
— Você pode… zelar por ele?
Ana sorriu para a garota altruísta.
— Sim. Vou zelar pelos dois príncipes. Prometo a você.
Em seguida, Yesubai pediu à deusa que salvasse sua criada. Então proferiu suas últimas palavras. Palavras que ficariam gravadas em meu coração daquele dia em diante.
— Então o sacrifício valeu a pena — disse Yesubai.
Meu coração falhou. Esse sacrifício vale a pena? Essa linda, doce e corajosa garota achava que sim. Ren achava que sim. Kadam também. Se eu tivesse a chance de perguntar a Kelsey, sei exatamente o que ela diria.
— Agora descanse, minha pequena — disse Ana. — Você é muito corajosa.
Ana acariciou os cabelos de Yesubai e se dessincronizou com o tempo, tornando-se invisível.
Em seguida, reiniciou o relógio.
Meu antigo eu foi até Yesubai e tomou nos braços a garota agonizante.
Dayita, meu amor... não me deixe — implorou ele.
Ambos sentimos o momento em que o coração de Yesubai parou de bater.
Por que você fez aquela pergunta a ela?, indaguei a Ana.
Você se refere àquela sobre o amor dela por você?
Assenti.
Você precisava saber. Uma parte de você sempre se perguntou se ela realmente o amava ou se era cúmplice do pai. Como o corvo, assisti, da sua perspectiva, ao que aconteceu aqui. Que você gostava profundamente dela é óbvio, mas carregou a mágoa dentro de si por muito tempo. Você se culpou pela morte dela, mas também por não ter visto a armadilha.
Ela parou para respirar e prosseguiu:
Foram a autorrecriminação e a culpa que engoli, como corvo. Como resultado, você se convenceu de que Yesubai não o amava. Isso o absolveu, em certa medida, da deslealdade que você associou ao amor por Kelsey. A dúvida quanto aos motivos de Yesubai eu não podia eliminar. Até agora. Foi por isso que perguntei. Yesubai amou você, Sohan. Devemos honrá-la pelo presente que deu de livre e espontânea vontade.
Ana encostou os lábios em minha orelha e sussurrou:
Aproveite para pensar enquanto cuido da criada de Yesubai.
Anuí e ela desapareceu. Estalei os dedos e o tempo tornou a congelar. Andei pela cena, olhando uma pessoa de cada vez. Mesmo Lokesh, com uma expressão enlouquecida, era alguém que eu precisava levar em conta. Seguindo para os grandes pilares, onde a sala se abria para a selva lá fora, parei nos degraus de mármore e olhei para as árvores.
Era isso.
Minha grande escolha.
Eu iria passar por tudo de novo, lançar sobre mim e sobre Ren a maldição de sermos tigres, ou retomar minha mortalidade e me tornar o jovem príncipe que eu deveria ter sido?
Se eu desistisse de tudo, nunca conheceria Kelsey nem Ana. Se o amuleto continuasse a existir, então Ren e eu enfrentaríamos Lokesh juntos, talvez até o vencêssemos, e o Amuleto de Damon permaneceria dividido em pedaços para sempre. Ou, se perdêssemos, Lokesh conseguiria os pedaços que estavam conosco, recomporia o amuleto e se elevaria ao poder, enlouquecendo aos poucos e destruindo a si mesmo e muitos outros.
Mas havia outra possibilidade. Se Ana estivesse certa, então, sem o tigre, o Amuleto de Damon deixaria de existir e Lokesh estaria morto muito antes de Ren e eu nascermos. Se fosse esse o caso, Ren e eu estaríamos em nossa casa com nossos pais agora, preparando-nos para a próxima fase de nossas vidas. Yesubai nunca teria nascido.
Esfreguei a palma da mão no peito. Havia muitas variáveis. Eu queria que Kadam me dissesse o que fazer. Mas ele já não tinha dito? Amaldiçoar-me para ser um tigre estava na lista. Ele tinha deixado esse item para o fim, mas sua sugestão era clara.
Mesmo assim, ele e Ana queriam me dar a oportunidade de escolher. Em meu coração, eu sabia o que deveria fazer. Agora só precisava reunir a coragem para agir.
Minhas narinas se abriram quando captei o aroma de jasmim e rosas.
— Você precisa de mais tempo? — perguntou Ana delicadamente.
Virando-me, tomei-a nos braços.
— Não, minha bela senhora. Já fiz minha escolha. — O olhar de Ana se desviou. — Mas antes há uma coisa que você precisa saber.
— O que é, Sohan?
Fiz uma pausa. As palavras estavam ali, esperando para serem ditas. Embora em meu coração já tivesse reconhecido a veracidade delas há tempos, eu as retive, não querendo ficar vulnerável daquele jeito outra vez. E agora aqui estava eu, pronto para tomar uma decisão que mudaria minha vida para sempre. A única coisa que restava era Ana.
Tocando seu queixo com a ponta do dedo, fiz com que olhasse para mim.
— Antes, eu quero lhe dizer…
— Sim?
— Quero que saiba que amo você, Ana. — Ela abriu a boca em um leve arquejo. — Eu deveria ter dito isto há muito tempo.
— Quando… quando você soube? — perguntou ela.
— É difícil dizer. Quando você devolveu minhas lembranças, minha paixão infantil voltou com toda a força. Acho que, olhando por esse lado, estou apaixonado por você desde os meus 12 anos. Lamento ter demorado tanto para reconhecer isso. Como você sabe, sou um pouco cabeça-dura.
Ana ergueu a mão e acariciou meus cabelos. Peguei sua mão e virei a cabeça para beijar a palma.
— Se esta é a hora das confissões, então também admito que comecei a gostar de você quando era criança.
— Então é só isso que você sente? Você simplesmente gosta de mim? — provoquei, sorrindo.
— Não, Sohan — respondeu ela, séria, e segurou meus braços. — Gostar é a palavra que eu uso para me referir a minhas armas, ao meu cavalo favorito ou... como se chama?... ah, pipoca. O que sinto por você passou a ser uma dor constante no meu coração. Durante o dia, mal posso esperar para sentir seus olhos em mim e seus lábios nos meus. À noite, sonho em me aninhar em seus braços. Tem sido uma coisa muito incômoda de experimentar e é muito imprópria para um guerreiro. Você me distrai de tudo em que devo me concentrar. Se você rotula isso de amor, então acredito que sofro de um caso grave.
— Entendo. — Toquei as sardas em seu nariz com a ponta do dedo. — Talvez exista algum tipo de elixir que possa resolver isso para você.
Ela franziu a testa e empurrou meu peito.
— Não quero tomar um elixir.
— Está dizendo que você quer continuar se sentindo assim? — perguntei, fingindo uma expressão de assombro.
Ana cruzou os braços e virou-se, murmurando:
— Você é um homem tolo e um tigre lamentável. Não sei como posso amar alguém tão desagradável.
Rindo levemente, tomado por emoções agridoces, eu a abracei e murmurei em seu ouvido:
— Então você me ama.
— Amo, Sohan — confirmou ela, inclinando a cabeça para que eu pudesse mordiscar sua orelha. — Eu amo você. Mais do que eu jamais acreditaria ser possível.
Era o que eu queria — não, era o que eu precisava — ouvir, e ainda assim a doçura de suas palavras não tornava mais fácil o que eu estava prestes a fazer. Ela virou-se em meus braços e abraçou minha cintura. Fitei seus encantadores olhos verdes e entrelacei seu cabelo sedoso em meus dedos. Deslizando a mão por trás de sua cabeça, puxei-a mais para mim. Quando meus lábios tocaram os dela, foi diferente de todos os outros beijos. Não estava cheio de poder ou criação. Não era o beijo de uma deusa e seu consorte. Era simplesmente um homem beijando a mulher que amava.
Pela primeira vez, abri minha mente completamente para ela, sem hesitação nem reservas. Compartilhei tudo com ela — minhas esperanças, meus sonhos e o mais importante naquele momento: minha decisão.
Ela vacilou por um instante, mas em seguida me abraçou ainda mais forte. Ambos escolhemos ignorar as lágrimas salgadas que molhavam nossos rostos.

4 comentários:

  1. Sejam felizes! O casal que nós respeitamos, Kishan e Ana <3
    Choreiiiii

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  2. De repente agora tudo faz sentido... eu quero dizer, tem algumas partes como o Kishan salvar a Kelsey quando criança, eu achei um pouquinho estranho, mas o resto (pelo que me lembro agora)... a reação da Durga e suas perguntas... ah.
    Nos livros anteriores eu achava o modo como ela agia curioso, às vezes mais deusa, às vezes mais humana. Mas agora faz sentido, como escrevi acima xD com toda essa viagem no tempo.

    Enfim, fiquei triste de novo com a morte de Yesubai... ;w;

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  3. Melhor casal ever!!! Na verdade tem Ren e Kelsey também...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!