12 de setembro de 2018

35 - Um sonho esquecido

Aos poucos, a luz branca foi se apagando. Gemi quando as silhuetas à minha volta finalmente começaram a tomar forma. Antes que minha visão retornasse, percebi que estava congelando. Meu corpo era sacudido por violentos tremores e, instintivamente, invoquei o tigre, transformando-me para proteger minha forma humana. De imediato, minha temperatura subiu. Pondo-me de pé, sacudi o corpo inteiro, o pelo se arrepiando, e então abri os olhos, tentando entender o que havia acontecido.
De repente, eu soube. Ana havia feito isso. Ela... ela estava furiosa com alguma coisa. Minha última lembrança era da sereia pedindo um beijo. Eu havia me sentado ao lado dela e... e... com toda a sinceridade, não conseguia me lembrar. Andando até a fonte, vi a sereia relaxando em sua piscina. Ela estava petrificada, exatamente como eu me lembrava de tê-la visto pela primeira vez com Kelsey, tanto tempo atrás. Mas onde estava Ana?
Baixando o nariz até o chão, captei seu cheiro. Ela voltara para o lago subaquático. Comecei a andar, movimentando os ombros. Meus músculos estavam tão doloridos e cansados que parecia que eu tinha acabado de atravessar metade da Índia correndo. Encontrei Ana de pé no meio do lago. Ela estava encharcada da cabeça aos pés, submersa até a cintura. Olhar para ela quase me cegou, mesmo na forma de tigre.
Ondas de energia atravessavam o corpo dela e da água borbulhante subia vapor. A superfície crepitava com eletricidade. Eu sabia que a água era profunda, portanto ou ela se encontrava de pé em uma plataforma ou usava seu poder para flutuar. Transformando-me em homem, fiz uma concha com as mãos e gritei seu nome, mas Ana não se virou para mim. Chamá-la mentalmente também não funcionou. Tudo que obtive dela foi uma espécie de estática sombria.
A água também havia mudado. Não era mais pura água do mar, tampouco tinha a cor de leite de que eu me lembrava. Em vez disso, era de um verde vívido em ebulição. O cheiro era nocivo. Tóxico. Na verdade, tinha um fedor muito semelhante ao da planta venenosa em que mergulhávamos a ponta das flechas quando eu era soldado. Toquei a água com o dedo do pé e levei um choque que deixou meus cabelos eriçados, mas não estava quente demais para suportar nem fez arder minha pele.
Salvar Ana dali tornou-se minha única motivação. Algo terrível havia acontecido com ela e a primeira medida a tomar era afastá-la do perigo. Apesar de desconhecer os riscos, mergulhei, e os pulsos de energia quase fritaram meu cérebro. Fiquei tão atordoado que cheguei até mesmo a parar de respirar por um tempo, mas meu poder interior me reviveu o suficiente para recuperar o fôlego e começar a nadar. Tomando cuidado para não beber nem um pouco daquela água, cheguei até ela sem demora. Minha energia se esgotava mais rápido do que eu conseguia reabastecê-la e eu estava exausto quando a alcancei.
Ao me aproximar de Ana, minha mão roçou um afloramento rochoso e subi nele, os membros tremendo. A água se abria em torno do meu torso enquanto eu andava até ela.
— Ana? — Peguei-a pelo braço e a sacudi, mas ela continuou olhando para a frente, o olhar perdido no nada, enquanto lágrimas escorriam lenta e incessantemente por seu rosto, caindo no lago. Cada lágrima chiava ao atingir a superfície da água, como se fosse ácido. Respirei fundo, lembrando-me dos demônios kappa que haviam sido criados a partir das lágrimas dela.
— Ana, amor, me diga o que há de errado — implorei, enxugando as lágrimas de seu rosto.
— Eu... eu joguei a chave no lago — disse ela baixinho. — Ela desceu até o fundo.
— Tudo bem. Isso não é problema. Quando vim aqui antes com Kelsey, tive mesmo de mergulhar para buscá-la.
A água sussurrava em torno de minha cintura enquanto sugava energia do meu corpo. Imaginei que estivesse fazendo o mesmo com ela.
Apesar da temperatura morna da água, Ana tremia. Deslizei as mãos para cima e para baixo em seus braços, tentando aquecê-la.
— Conte o que aconteceu — pedi. — Não posso ajudá-la se não souber o que há de errado.
— Esse é o problema — disse ela. — Eu não sei por que fiquei com raiva antes e não sei por que estou triste agora. Tudo que sei é que eu queria destruir alguma coisa, todas as coisas, e agora esse sentimento se foi. Em sua esteira, há um sofrimento terrível em meu coração.
— Certo. Então, se você não consegue me contar o que aconteceu, me mostre.
Ana piscou.
— Mostrar a você? — perguntou com a testa ligeiramente franzida.
— É. Na minha mente. Abra seus pensamentos para mim.
Ela sacudiu a cabeça.
— Não posso.
— Você pode. — Toquei o queixo dela com o dedo, forçando-a a erguer o rosto e olhar para mim. — Não precisa me mostrar tudo, só o que aconteceu com a sereia. Só estou pedindo que tente.
Depois de examinar meus olhos, ela assentiu devagar e tocou meu rosto com suas mãos. Ela ainda mantinha a maior parte da mente bloqueada, mas me permitiu ver suas lembranças recentes.
No olho de sua mente, me vi andando na direção da sereia, os passos hesitantes, e então a beijei. Fiquei chocado com quão ardente se tornou o abraço, acima de tudo porque eu não tinha qualquer lembrança dele. Através da visão de Ana, vi como Kaeliora me puxou para ela e piscou com atrevimento para Ana, ao mesmo tempo que sugava de mim energia suficiente para abastecer uma pequena cidade. Logo ficou claro que eu havia enlouquecido sob o domínio da sereia. Minhas mãos deslizavam por seu corpo e eu estava cego a tudo que não fosse ela.
Suavemente, Ana disse:
— Chega. Já basta.
A sereia a ignorou.
— Sohan — chamou Ana —, volte para mim.
Ainda assim, o beijo continuou.
— Sohan?
Ouvi uma voz ecoar na mente de Ana e reconheci-a como a da sereia: “Ele agora é meu. Ele nunca vai voltar para você depois de ter provado dos meus lábios”, garantiu ela.
— Não — disse Ana, a respiração se acelerando. — Não! — gritou. — Você não vai levá-lo!
Então ela ergueu as mãos e lançou a punição sobre a sereia traiçoeira.
Desabei no chão, esgotado e inconsciente, enquanto Kaeliora implorava por misericórdia. A deusa vingativa deteve-se por um instante quando a sereia desesperada advertiu que, se Ana a machucasse, me destruiria também. Ela disse a Ana que eu agora estava ligado a ela e que a procuraria pelo resto de meus dias.
A resposta de Ana foi congelar a sereia em vez de matá-la, embora, naquele momento, quisesse muitíssimo que a garota morresse. Depois disso, Ana caminhou, entorpecida, para o lago, na esperança de que a água congelante abrandasse o fogo que queimava seu sangue. Em vez disso, porém, sua dor escoou, poluindo lentamente a água.
— Ela mentiu — afirmei, acariciando o emaranhado encharcado de seus cabelos. — Não sinto nenhuma atração pela sereia. Ela não tem nenhuma influência sobre mim.
— Mas você a queria. Eu vi no seu rosto. Na maneira como você a tomou nos braços.
— Era um truque. Um mero feitiço para ela pegar o que queria de mim. Fui uma abelha insensata seduzida pelo mel dos lábios dela, quando tenho uma rainha em casa. É a ela que sirvo. — Como Ana permaneceu muda, acrescentei: — Ana, você precisa acreditar em mim. Eu não seria leviano assim com você. O que aconteceu não foi deliberado da minha parte, tampouco um sinal de afeto.
Envolvi sua cintura com meus braços, puxando-a para mim e abraçando-a com tanta força que dava para sentir nossos corações batendo um contra o outro.
— Quanto ao seu estado emocional, sua raiva era porque você pensou que eu a traí. As lágrimas vieram depois porque você acreditou que eu estivesse perdido. Não é isso, minha bela senhora?
Ana deslizou as mãos, prendendo-as em torno de meu pescoço, e assentiu.
— A beleza dela é sedutora — disse, arrasada. — Não o culpo por querê-la.
Eu a mantive nos braços, embalando seu corpo contra o meu.
— Mas eu não a queria. Nem um pouco. Além disso, eu teria me libertado da magia dela rapidamente. Você sabia que já fui aprisionado por sereias na grande árvore de Shangri-lá?
Quando ela sacudiu a cabeça em negativa, expliquei:
— Levei muito tempo para escapar. Mais do que Kells. No momento em que pensou em Ren, ela se libertou. No meu caso, gostei de me perder no feitiço das sereias. É um encanto intoxicante que elas usam e a única forma de dissipá-lo é pensar na pessoa que você ama. O estranho é que Kells não era a garota em quem pensei quando escapei, apesar de, na época, ter acreditado que era.
— Então como você conseguiu fugir do abraço delas? — perguntou Ana.
— Ouvi o sussurro de uma deusa. — Ana separou-se de mim e sorriu, pondo a mão no próprio rosto. — Naquela ocasião, pensei que a deusa Durga estivesse com pena de mim, mas agora sei que não foi isso.
Ela engoliu em seco, os olhos brilhantes.
— Era eu?
— Agora eu entendo que sempre foi você. Você andou comigo toda a minha vida, Ana. Como eu poderia me deixar encantar pelo beijo de uma simples sereia quando me encontro nos braços uma deusa?
— Então é uma deusa que assombra os seus sonhos? — perguntou ela de maneira suave.
— A deusa é uma parte de você, Ana, e não vou negar que ela é de tirar o fôlego, mas não sonho com a deusa Durga com seus oito braços armados. Meus sonhos são dominados por uma garota de cabelos escuros que caça na floresta a meu lado. Que me desafia a cada curva. O bosque me mostrou essa garota em duas ocasiões e em nenhuma delas a garota era uma deusa. Ela é aquela em quem não consigo parar de pensar.
Delineando com meus polegares seu rosto ainda molhado, eu a beijei. Tive a intenção de que fosse um beijo doce e breve, mas Ana não me soltou. Sua boca moldou-se suavemente à minha e pude sentir o sabor do sal de suas lágrimas. Era real e inebriante e absolutamente diferente do beijo fácil de ser esquecido da sereia. Um feitiço de outro tipo teceu-se à nossa volta. A água ondulou em torno de nossos corpos nesse lago estranho com um suntuoso movimento de vaivém que não era muito diferente do dar e receber de nosso beijo.
Afastando-me dela, embora fosse uma das últimas coisas que eu quisesse fazer, perguntei:
— Você me perdoa, Ana?
Ela piscou languidamente. Era um afago em meu ego perceber que ela fora afetada por nosso beijo tanto quanto eu. Inclinando a cabeça, ela beijou meu rosto com delicadeza.
— Este gesto significa perdão, além de saudade de alguém? — perguntou.
— Pode ser — respondi, e peguei a mão dela, levando seus dedos a meus lábios. Olhei então para o lago, que tremeluzia. Todo e qualquer traço da toxicidade verde havia desaparecido e ele havia se transformado no mar de leite que eu conhecia. — Ora, que interessante — observei.
Ana olhou à sua volta.
— Ele está zumbindo com poder. Poder de cura — acrescentou.
— Isso mesmo.
Esfreguei meu queixo e olhei para ela.
— Por que está me olhando assim? — perguntou Ana.
— Só estou imaginando o que aconteceria se eu fizesse mais do que beijar você. Será que ativaria um vulcão? Tiraria a Lua de sua órbita?
Ana franziu a testa, levando meu comentário a sério.
— Humm, sim. Em algum momento, eu gostaria de praticar o beijo por mais do que dois minutos. Seria bom nos aconselharmos com Kadam.
— O quê? Não!
— A ideia do nosso contato corporal deixa você constrangido?
— Não, não me deixa constrangido...
— Deixa, sim.
— Pare de ler a minha mente.
— Seus pensamentos são dolorosamente claros, mesmo que nossas mentes ainda estejam fechadas uma para a outra. Há muito mais que você gostaria de fazer comigo do que já fez. E quanto a mim...
— Bem, vamos parar por aqui. Podemos voltar a esta conversa mais tarde?
Ela suspirou.
— Tudo bem.
— Então — comecei, desesperado para mudar de assunto — o que vamos fazer a respeito da nossa sereia?
Atravessamos o lago a nado. A água agora confortava e curava em vez de roubar nossa vitalidade. Quando alcançamos a margem, Anamika usou seu poder para rapidamente nos secar e criar novas roupas. Junto à fonte, Ana andou de um lado para outro por alguns segundos e então estalou os dedos, aquecendo a água. A pele da sereia foi descongelando aos poucos e ela estremeceu violentamente, mas Ana não teve pena da garota. Olhou para a criatura com toda a fúria de uma deusa guerreira.
— Você nos enganou — acusou, apontando o dedo, ameaçadora. — Por isso será punida.
— Ele não achou ruim — retorquiu a sereia, girando o dedo na água. Ela não entendeu que essa era absolutamente a coisa errada a dizer. — Eu só estava me divertindo um pouco — prosseguiu. — Não sabia que ele pertencia a você.
Olhei para Ana. Se ela ficou desconcertada com essa afirmação, não demonstrou. Então eu pertenço a Anamika? É isso que ela quer? Eu tinha dito a ela que não seria leviano com seus sentimentos, mas isso também era verdade para ela? Eu nunca fora do tipo inseguro em relação às mulheres, mas não tinha exatamente um bom histórico. Talvez ela quisesse apenas um braço forte no qual se apoiar de vez em quando ou um parceiro receptivo em quem pudesse confiar, um que pudesse satisfazer sua curiosidade sobre o que acontece entre um homem e uma mulher.
Se fosse esse o caso, não bastava. Eu vira o que o futuro poderia guardar para mim e queria todos os aspectos dele. Na verdade, era o que eu sempre sonhara e passara a maior parte da vida buscando. Esse sonho era uma grande parte da razão pela qual tive tanta dificuldade em esquecer Kelsey.
Mas isso era passado.
Agora, tudo havia mudado. Agora eu acreditava que Ana era a garota em meu sonho. Mais do que isso, no fundo do coração, eu sabia que era ela. E, se fosse honesto comigo mesmo, eu pertencia mesmo a ela. Desde o início. Como tigre. E como homem. Agora eu só precisava descobrir se ela queria pertencer a mim também.
A sereia continuou falando:
— Além disso, percebi que vocês dois estavam ocupados esquentando as coisas lá no lago, então ninguém se machucou de verdade.
Eu me perguntei como ela havia notado isso enquanto estava congelada. Então me lembrei de sua habilidade em se transformar em névoa. Talvez ela não estivesse tão aprisionada pelo gelo quanto parecera.
A sereia fez biquinho.
— Não fique zangada. É só o nosso jeito. Vou ficar e ajudar seus amigos como prometi. Palavra de sereia.
Ela agitou a cauda, cruzando as barbatanas como se tocasse o coração.
Suspirando, Ana disse:
— Muito bem. O mar de leite tem uma quantidade suficiente de nosso poder residual para sustentá-la até eles chegarem e até mesmo por um tempo depois, caso você escolha ficar.
— Ah, tem poder suficiente, sim. Isso é certo. Ah! Tive uma ideia. Talvez eu convide alguns amigos para me fazer companhia enquanto espero.
— Não. Não vai, não. Na verdade, para ter certeza de que você não vai nos enganar novamente, vou congelar o mar de leite.
Ana agitou a mão.
— E eu? — protestou a sereia.
Ana drenou a fonte e tornou a enchê-la com as águas leitosas do lago.
— Pronto. Isso vai mantê-la. Você não permitirá que ninguém, exceto o homem tocado pela deusa, entre no lago ou vá em busca do colar que estamos deixando para trás. Entendeu?
Kaeliora assentiu, impaciente.
— Ninguém mais pode suportar a energia do mar de leite. Assim que recuperarem a chave e encherem o kamandal, diga-lhes que sigam para o sétimo templo através dos túneis, naquela direção.
Ana apontou um túnel escuro que partia da fonte.
— Tá, tá. Entendi.
— Agora há a questão de você seduzir meu... meu companheiro — disse Ana.
Ergui uma sobrancelha, mas não disse nada.
— Acredito que uma punição condizente será você permanecer congelada até meus amigos chegarem. Pelas minhas contas, isso acontecerá daqui a uma semana, mais ou menos. — Houve alguns movimentos de cauda lançando água e gritos de raiva que logo se transformaram em choramingos e súplicas. Ana, ignorando tudo isso, virou-se para partir, mas antes deu um aviso final: — E, se você sequer pensar em beijar um dos meus amigos, vou cuidar para que permaneça congelada por um século. Estamos entendidas?
A sereia, emburrada, lançou um punhado de água sobre a borda da fonte, molhando nossos pés.
— Sim, Deusa — anuiu.
— Ótimo.
Ana jogou um beijo para a garota e a fonte congelou. Com um rápido estalo dos dedos, ela também me apagou da memória da sereia, para que ela não me reconhecesse quando eu chegasse com Kelsey e Ren.
— Sente-se melhor? — perguntei a Ana.
— Acho que sim — disse ela e me dirigiu um sorriso conspiratório enquanto seguíamos pelo túnel.
Quando chegamos a um ponto sem saída, Ana usou seu poder para abrir um buraco na rocha. Ela conteve a força do oceano, transformando a área à nossa frente em um lençol espesso de gelo, e então avançamos, o gelo se movendo e se deslocando à nossa volta até criar o longo túnel de que eu me lembrava.
Não demorou para que eu percebesse que estávamos sendo seguidos. Os monstros gigantes que nadavam nas profundezas nos avistaram. Preparei-me para um ataque. Ana, porém, falava arrulhando com as feias criaturas enquanto elas nos acompanhavam como cachorrinhos, focinhando o gelo e lançando a ela olhares tristes com seus estranhos olhos que não piscavam. Quando já tínhamos percorrido uma distância suficiente, Ana ergueu a mão, provocando um abalo sísmico submarino. Rochas se ergueram e metais preciosos se soltaram do leito do mar. Seus imensos monstros de estimação dispararam enquanto ela criava o templo completo, incluindo uma porta e uma fechadura em que se encaixaria a chave que havia feito mais cedo.
Entrando no templo, ela correu a mão pelas paredes, fazendo surgir entalhes que se espalharam à nossa volta como ondas. Enquanto atravessávamos as salas, vi pedras preciosas e estátuas de mármore.
— De onde elas vieram? — perguntei.
Ela deu de ombros.
— Peguei emprestadas com Jīnsèlóng. Seu acervo estava ficando grande demais.
Ri e contei-lhe do incenso, do lago e das grossas janelas que davam para o mar. Em um intervalo de tempo em que mal cabia um pensamento ou um sussurro dela, tudo que descrevi apareceu diante de meus olhos.
Sua pele brilhava na penumbra do templo enquanto ela percorria cada passagem. Ana me pediu que a ajudasse a remover o fecho do colar de pérolas negras e, depois de sussurrar as palavras que nos concederiam mais seis horas, ela o guardou dentro de uma das dúzias de ostras gigantes que subiram à superfície e entreabriram suas conchas avidamente, em busca do privilégio de guardar o presente da deusa.
Descrevi as estátuas que havíamos encontrado no alto e o tubarão gigante e a imensa água-viva que Kelsey convocou para nos levar de volta à superfície. Ela ficou fascinada com a assustadora história da escapada. Sua boca escancarou-se, horrorizada, quando contei que Kelsey quase fora devorada e como Ren subira nas costas do tubarão gigante, cravando o tridente nele.
— Eu teria gostado de ver isso — disse ela. — Deve ter sido assustador.
— Aterrorizante — concordei. — Flutuamos por muito tempo em uma concha de marisco gigante, por fim usando o lenço como um parapente. Com isso, fomos levados de volta ao barco.
— Deve ter sido uma aventura e tanto — comentou Ana.
— Foi — respondi enquanto olhava através do vidro escurecido e captava com o canto do olho o clarão de algo grande. — Fico feliz que tenhamos conseguido. Não me entenda mal. Foi difícil, e cada esquina que dobrávamos nos deixava cara a cara com algo que poderia nos matar, mas vencemos, sabe? É gratificante saber disso.
Ana trançou seu braço no meu e descansou a cabeça em meu ombro. Relaxamos um pouco e comemos. Contei-lhe do kraken e nem precisei embelezar a história para ver seus olhos se arregalarem. Em seguida, contei sobre o dragão verde nos caçando. Ela arquejou e disse que devíamos planejar algum tipo de punição.
— Está tudo bem — falei. — Quando me ajudaram a curá-la, vi a vida inteira deles em um relance. Eles não têm a intenção de fazer o mal. No fundo, não. E se esforçam ao máximo para cumprir o dever que você lhes impôs. Os dragões só gostam de ser os chefes do mar. Eles passaram muito tempo aprisionados na base da cadeia alimentar e querem afirmar sua supremacia. É uma coisa animal. — Dei de ombros. — Como ser humano pleno, hã, como deusa, você provavelmente não entende.
Ana se levantou, limpando as mãos.
— Ainda assim, deveríamos visitá-los de tempos em tempos. Para ajudá-los a lembrar que alguém está vigiando.
— Concordo.
Ana fez as estátuas sob minha orientação, concedendo-lhes o poder do lenço para que pudessem transformar a mim, Ren e Kells quando aparecêssemos. Ao terminar, olhou para Shiva, Indra e Parvati e deslizou os dedos pelo braço de Shiva. Então lhe contei a história que Kadam havia nos ensinado.
— Ele me contou essa história também — disse ela. — Algumas coisas que enfatizou me vêm a mente.
— Hã?
— Sim. Ele queria que eu me lembrasse especialmente de que, embora Shiva pudesse ter esquecido Parvati por um tempo, qualquer um que o visse com ela saberia que estavam destinados a ficar juntos, pois o poder de um equilibrava o do outro.
— O que mais ele disse?
— Falou também que Shiva foi um tolo por, para começo de conversa, desprezar a mulher.
— É, ele foi — concordei.
Olhar as estátuas me fez pensar em Ren e Kelsey. Perdido em pensamentos, toquei a mão de Parvati.
— Sabe, quando as estátuas desapareceram e seus papéis foram atribuídos a nós três, eu fui Shiva, e Ren, Indra. Na época, pensei que isso significava que era eu o destinado a ficar com Kelsey. Que eu era o seu verdadeiro amor. Eu tinha essa esperança, embora me sentisse como se fosse um charlatão tentando roubar algo que não me pertencia.
Ana sacudiu a cabeça.
— Você estava enganado, Sohan. Você nunca foi um charlatão. Você assumiu o papel que sempre foi seu destino ter. Você é o companheiro de Parvati. Ren e Kelsey eram os jogadores nesse jogo cósmico. Eles representam a metade mortal de nós, o outro lado da moeda. — Ela segurou meu pescoço com sua mão quente. — Mas você, meu lindo tigre, você foi sempre o herói da história. Nunca se esqueça disso.
Peguei seus dedos e os levei aos lábios.
— Sabe, pela primeira vez desde que me entendo por gente, acho que posso acreditar nisso.
— Acredite mesmo.
— Ana? — chamei, passando o braço por sua cintura. — Quando Shiva encontrou o colar, ele ganhou um prêmio.
Ela prendeu o fôlego.
— Eu me lembro — disse ela suavemente. — Ele pôde reclamar sua noiva.
— Certo. — Puxei seu corpo esguio mais para perto de mim. — Então o que acontece quando ele entrega o colar? — pergunto.
— Humm. Imagino que nós dois teremos que descobrir.
Ana se afastou antes que eu pudesse conduzir a conversa na direção que pretendia e moldou a estátua do tubarão. Inclinando-se sobre ela, sussurrou em seu ouvido o que ele deveria fazer quando os visitantes chegassem. Esperei que isso não incluísse saborear nenhum de nós.
Indo até a parede de janelas, ela contorceu os dedos e minúsculos organismos, seres microscópicos, foram crescendo e crescendo até se tornarem as águas-vivas de que eu me lembrava.
— Que criaturas extraordinárias! — exclamou Ana, entusiasmando-se. — Vamos ter que voltar um dia para visitar todos os lugares no fundo do mar. Estou especialmente interessada em ver o tesouro do dragão dourado.
A ideia de explorar o mundo subaquático por meio das águas-vivas me deixou um tanto enjoado.
— Se for preciso...
— Não tema caminhar por onde a deusa anda, Sohan — disse Ana com uma risada. — Venha. Precisamos visitar Ren agora.
— Ren? Quando?
— Quando ele está preso por Lokesh. Precisamos remover suas lembranças de Kelsey.
Deixei escapar um assovio.
— Vamos, então. Kadam explicou por que temos que fazer isso?
— Você sabe que ele nos diz muito pouco.
— Certo.
— Mas, neste caso, ele abriu uma exceção.
Ela sentou-se no parapeito da janela e indicou, com tapinhas, o lugar a seu lado. A reunião dos bulbosos corpos das águas-vivas por trás do vidro lançava sobre nós uma luz púrpura e pintalgada que dançava nos braços e no rosto de Ana.
— Ele devia saber que relutaríamos nessa tarefa — disse Ana —, então deixou uma breve observação.
— O que dizia?
— Que a memória de Ren precisava ser removida para que você pudesse ter uma chance de amar Kelsey.
— Mas... por quê? Que diferença isso faria? O fato de Ren tê-la esquecido causou grande sofrimento a Kelsey. Eu não ia querer isso para ela. Além do mais — acrescentei, buscando a mão dela —, talvez, se eu nunca houvesse tido uma chance com Kelsey, minha mente e meu coração estivessem mais preparados para aceitar...
— Outra pessoa? — murmurou ela.
Assenti. Eu queria me declarar naquele momento. Dizer a ela tudo que sentia no coração, mas um segundo se passou, e depois outro, e então o momento se foi.
— O que você teria feito depois de passar por Shangri-lá, ficando mais próximo de Kelsey a cada dia, então ajudando-a a salvar Ren só para vê-los reunidos na volta dele? Como você teria reagido? — perguntou Ana.
— Eu... acho que teria ficado feliz por eles. Ou pelo menos tentado ficar.
— Sim. Mas, depois, o que faria? Você os teria seguido na jornada seguinte para encontrar o colar?
— Eu provavelmente embarcaria, sim — declarei.
— Mas você teria se distanciado.
— Você não?
— Sim. Quando duas pessoas se unem, é natural dar um tempo para que elas fiquem sozinhas.
Um calor subiu por meu pescoço.
— Certo, mas Ren e Kelsey não estavam... juntos.
Ela agitou a mão.
— De qualquer forma, Kadam acredita que, sem a esperança de um relacionamento entre você e Kelsey, você teria acabado por deixar os dois fazerem as coisas da maneira deles, preferindo permanecer um tigre na selva. Você teria abandonado a busca e, como resultado, Kelsey teria morrido.
Meus músculos se contraíram.
— Como você sabe disso?
— Kadam. Ele disse que um dos desenvolvimentos mais prováveis na linha do tempo em que Ren conservava a memória era você deixá-los. Kelsey morria em várias circunstâncias. Numa delas, pereceu nas mandíbulas do tubarão. Em outra, não resistiu quando lutou contra os Lordes da Chama. Em um dos cenários, tornou-se um dos cadáveres errantes na Caverna do Sono e da Morte. A rainha rakshasa transformou-a em algo inumano...
— Tá, entendi — falei, impedindo-a de continuar. — Então o que você está dizendo é que eles precisavam de mim.
— Não só eles, Sohan. Se você não tivesse tido a oportunidade de amar Kelsey, então eu jamais teria tido a chance de... de...
— De me amar? — Peguei seus dedos, entrelaçando-os com os meus. Vi que sua boca havia se escancarado, as palavras lhe fugindo. — Está tudo bem — falei. — Você não precisa dizer nada. Na verdade, por favor, não diga. Não ainda.
— Tem mais — disse ela. — Ren é muito persistente em resistir ao toque da deusa em sua mente. Luta contra ele e, em diversas ocasiões, quase venceu o bloqueio da memória. Nós teremos de impedir seu progresso em diferentes pontos da linha do tempo para reforçar o bloqueio.
Soltei um suspiro.
— Certo. Vamos lá.
Num momento estávamos debaixo do oceano e, no seguinte, nos encontrávamos curvados, corpos dobrados para a frente, em uma sala abafada dentro do complexo de Lokesh, nos ajustando à mudança de pressão. O cheiro de tigre enfurecido, suor e mofo permeava a área. O chão estava úmido de água, produtos químicos e sangue. Nós dois tínhamos chegado dessincronizados com o tempo, mas Ren deve ter pressentido alguma coisa.
— Kelsey? — sussurrou sua voz fraca vinda de dentro da jaula.
Nós nos aproximamos e Ren segurou as barras com dedos quebrados. Seus olhos estavam roxos e um deles, de tão inchado, não abria. O ar chiava em seus pulmões. Anamika moveu a mão e o poder do lenço a cobriu com um reluzente vestido de ouro e ametista. A luz se concentrava em torno de sua forma e cintilava em sua pele. Recuei para as sombras, ocultando meu cheiro.
— Não — replicou Ana suavemente. — Você me reconhece, Dhiren?
Ele arquejou de dor ao se aproximar se arrastando.
— Durga? — sussurrou.
— Sim.
— Você é de verdade?
— Sim. Sou de verdade — disse ela, tocando um chicote ali perto com os dedos e encolhendo-se. — Prometi a Kelsey que cuidaria de você.
Meu pobre irmão chorou de gratidão.
— Então vai me ajudar a fugir? — perguntou ele, em um tom de súplica que eu nunca o ouvira usar antes.
— Não — sussurrou Ana, o pesar transparecendo em sua voz. — Mas posso lhe oferecer ajuda.
— Que tipo de ajuda?
Ela me olhou em busca de orientação, mas eu simplesmente movi a cabeça, encorajando-a.
— Eu posso... tirar suas lembranças — disse ela.
Ren se sacudiu na jaula. Se estava chocado, tinha razão para isso.
— Como é que tirar minhas lembranças me ajudaria exatamente?
— Lokesh anda interrogando você sobre Kelsey, não é? — perguntou ela.
Eu não havia pensado nisso. Típico de Ana considerar todos os ângulos de uma questão. Ela não estava errada em seguir essa linha de raciocínio com Ren. Ele faria qualquer coisa para proteger Kelsey. E talvez Ana tivesse razão e Lokesh acabasse vencendo Ren. Eu não pensava assim. Sabia pelo próprio Ren que, por Kelsey, ele havia sido torturado até a morte, literalmente. Não uma, mas duas vezes. Eu não sabia se Lokesh já havia arrancado o coração dele, mas, se ainda não tinha feito isso, faria em breve.
Ana prosseguiu:
— Posso apagar suas lembranças de Kelsey, para que ele não consiga descobrir onde ela está.
— Mas minhas lembranças são tudo que me resta dela.
— Dhiren — Ana ajoelhou-se diante da jaula e tocou os dedos dele com os seus —, se você não concordar com isso, acredito que Kelsey irá sofrer severamente.
Isso era verdade. Eu, sem dúvida, não queria a morte de Kelsey em minha consciência e sabia que Ren tampouco queria isso.
— A decisão deve ser sua — disse Ana. — Pense nisso. Retornarei amanhã.
Afastando-se dele, ela dessincronizou-se com o tempo e eu estendi os braços para ela. Será que não podemos evitar ao menos parte do sofrimento dele?, perguntou ela enquanto suas lágrimas molhavam minha camisa.
Ei, nada disso agora, adverti. Suas lágrimas são letais.
Ela fungou e olhou à nossa volta, em busca de sinais de algum acontecimento catastrófico. Não encontrando nada, disse: Talvez isso só aconteça quando você é o responsável pelas lágrimas.
Franzi a testa, olhando ao redor. Uma lágrima caiu da ponta de seus cílios, mas não alcançou o chão. Desapareceu, assim como nossas pegadas quando estávamos dessincronizados com o tempo.
Interessante.
Ficamos parados ali, os dois, abraçados, enquanto Ana avançava rapidamente o tempo. Horrorizados, vimos quando Lokesh entrou na sala e mandou tirarem Ren em forma de tigre da jaula, arrastando-o. Impaciente, ele submeteu o corpo de Ren a choques elétricos até que voltasse à forma humana. Ren havia se curado como tigre, mas estava faminto. Fraco. E isso prejudicava o processo de recuperação natural de seu corpo.
Lokesh aplicou uma injeção em Ren e fez uma pergunta após outra. A maior parte delas era sobre Kelsey. Ren gritou em agonia quando Lokesh cravou uma faca em seu corpo e a torceu. Ana ergueu um dedo e percebi que os olhos de Ren clarearam, seu corpo relaxou, aliviado. Ela tirara a dor.
Lokesh agarrou o rosto de Ren, virando-o para ele.
— Eu juro a você, meu príncipe orgulhoso — cuspiu ele —, que você me contará a localização dos dois outros amuletos. É só uma questão de tempo.
De volta à jaula, assim que o complexo ficou silencioso enquanto a noite avançava pelo céu, algo interessante aconteceu. Kelsey apareceu. Ana pegou minha mão quando dei um passo à frente e me puxou para trás, sacudindo a cabeça.
Como ela pode estar aqui?, perguntei.
Deve ser a conexão deles, respondeu Ana, pressionando minha mão contra o tigre entalhado na pedra da verdade que pendia de seu pescoço. Você pode ver a força da aura de ambos? É como a nossa. Ela os une.
De fato, eu podia ver a luz brilhante que cercava os dois.
“Kells?”, disse Ren, sua voz pouco mais que um sussurro.
“Sim, sou eu”, respondeu Kelsey, agarrando as barras da jaula.
“Não consigo vê-la”, disse ele.
Kells ajoelhou-se e encostou o rosto nas barras.
“Assim está melhor?”
“Está.” Ren tocou as mãos dela com dedos trêmulos e inchados e a luz que os cercava tornou-se exponencialmente mais intensa.
Deslizei minha mão para o ombro de Ana e a trouxe para mais perto de mim, pousando um beijo em sua têmpora enquanto a segurava.
Vendo o péssimo estado dele, Kelsey começou a chorar. Ana a acompanhou, pressionando a ponta dos dedos contra a boca.
“Ah, Ren! O que foi que ele fez com você?”, perguntou Kelsey.
Ele contou a ela sobre Lokesh, disse que ele queria encontrá-la a qualquer custo. Ela implorou que ele aguentasse um pouco mais e garantiu que estávamos vindo buscá-lo.
Quando falou “E eu estou tão... cansado”, meu coração se despedaçou. Fiquei surpreso quando Kelsey respondeu: “Então conte a ele. Conte a ele o que ele quer saber.” Ela enlouqueceu?
“Nunca contarei a ele, prema”, prometeu Ren.
O fogo apagou-se em Kells com a mesma rapidez com que surgira.
“Ren, eu não posso perder você”, disse ela.
“Eu estou sempre com você. Meus pensamentos estão em você. O tempo todo.”
Ana segurou meu braço e apoiou-se em meu peito.
Ren mencionou que Durga havia lhe oferecido ajuda, mas, deliberadamente, deixou Kelsey acreditar que a oferta era para salvá-lo, não a ela.
“Aceite! Não pense duas vezes. Você pode confiar em Durga.”
Ana encolheu-se ante aquelas palavras.
“Qualquer que seja o preço”, continuou Kelsey, “não importa, desde que você sobreviva.”
“Mas Kelsey...”, disse ele.
“Shh. Faça o que for preciso para sobreviver, está bem?”
Ren assentiu, resignado a seu destino, e disse que ela precisava ir embora. Então pediu um beijo, acreditando que seria a última vez que beijaria a mulher que amava. Ele a segurou com tanta delicadeza, com tamanho cuidado, que qualquer um que os observasse deduziria que era por causa da dor. Mas o motivo não era esse, de jeito nenhum. Para Ren, Kelsey era a coisa mais preciosa no mundo, e ele queria que ela soubesse disso. Eu invejava a facilidade com que meu irmão expressava seus sentimentos. Então ele abriu a boca para recitar um poema. Sério? Agora?
Eu me remexi, impaciente, esperando que Ana entendesse a mensagem para acelerar as coisas, mas mentalmente ela me mandou ficar quieto. O poema comoveu Ana mais do que a mim, mas entendi o sentido dele, a mensagem que Ren estava tentando passar. Se antes eu não compreendia de verdade meu irmão, certamente, agora, sim.
Quando terminou, Ren afastou-se de Kells. Toda a ternura esvaiu-se de sua voz, como se ele já estivesse deixando-a partir.
“Kelsey?”, chamou ele. “Não importa o que aconteça, por favor lembre-se de que a amo, hridaya patni. Prometa que irá se lembrar.”
“Vou me lembrar. Prometo. Mujhe tumse pyarhai, Ren.”
A luz mudou à volta de Kelsey. Ela começou a desaparecer. Se não estivesse tão concentrada em Ren, gritando seu nome enquanto era levada dali, poderia ter se virado e nos visto. E, então, ela se foi.
Chegou a hora, disse Ana.
Invocando seu poder, ela deslocou seu corpo, deixando-o surgir por completo no tempo de Ren.
— Vou aceitar sua oferta, Deusa — disse Ren.
— Muito bem.
Ana deu um passo, aproximando-se dele.
— Nunca mais vou me lembrar dela? — perguntou Ren.
— Suas lembranças serão bloqueadas apenas temporariamente — replicou Ana.
O alívio no rosto dele foi maior do que quando ela suspendera sua dor. Se lhe fosse possível, acho que ele teria se ajoelhado aos pés dela para venerá-la.
— Obrigado — disse ele humildemente.
Ana levou a mão ao interior da jaula, tocando-lhe o rosto de leve com a ponta dos dedos. Ela começou seu trabalho, mas então algo me ocorreu. Lembrei-me do momento em que Ren recuperara a memória. Fora ao me ver beijar Kelsey.
— Ana — murmurei silenciosamente no escuro.
— Hein?
Ela voltou-se para mim.
— Você precisa definir um gatilho. Algo que traga a memória dele de volta.
Ela assentiu.
— Precisamos de um gatilho, Dhiren.
— Como assim? — perguntou ele. — Quem está com você?
— Estou acompanhada pelo meu... meu consorte.
Bufei, não gostando nem um pouco daquela palavra. Ana me ignorou.
— O gatilho é um acontecimento que irá despertar sua memória. Precisa ser algo que prove a você que ela está em segurança.
Ren sugeriu várias formas de gatilho, mas nenhuma delas era a correta — a que aconteceu de fato.
— O gatilho foi um beijo — contei a ela. — Quando beijei Kelsey pela primeira vez, ele recuperou a memória.
Ana me lançou um olhar frio, franzindo a testa. Cruzei os braços diante do peito. Se ela ia me chamar de consorte, então podia lidar com meu relacionamento passado.
— Kelsey está em segurança com seu irmão, não está? — perguntou ela, após voltar-se novamente para Ren.
Aparentemente, quando eu estava dessincronizado, Ren conseguia me ouvir o bastante para saber que havia alguém com a deusa, mas não o suficiente para compreender minhas palavras ou reconhecer minha voz.
— Com meu irmão? Sim. Ela vai ficar em segurança com ele. Então, vê-los juntos vai devolver minha memória?
— Não. Não basta vê-los juntos. Eles precisam estar... à vontade.
Ren riu.
— Meu irmão gosta de ficar um tanto à vontade demais com Kelsey. Ele provavelmente vai se aproveitar da minha ausência e tentar beijá-la sempre que tiver oportunidade.
Ele não percebeu que o corpo inteiro de Ana se retesou.
Séria, ela assentiu.
— Muito bem. Seu gatilho será um beijo.
— Você quer dizer que, quando eu o vir beijá-la, vou recuperar a memória?
— Exatamente.
Ren afastou-se.
— Por que hesita, Dhiren? — perguntou Ana. — Você não acredita que seu irmão vai beijá-la?
Ergui uma sobrancelha diante da minúscula nota de esperança na voz dela.
— Ah, ele vai beijá-la, vai, sim — garantiu Ren.
— E você pode ter certeza da segurança dela se os vir se beijando?
— Provavelmente.
— Ah, você gostaria que existisse outra forma — disse Ana e voltou-se para mim. — Eu também gostaria. Mas o que tem de ser será. Vamos, Dhiren, é hora de finalizarmos.
Enquanto ela trabalhava, Ren entrou em uma espécie de transe.
Sincronizei-me por completo no tempo dele, sabendo que ela tiraria quaisquer lembranças de minha presença ali.
— Quanto disso ele vai lembrar? — perguntei.
— Somente as partes que quisermos — respondeu ela, a mão resplandecente estendida enquanto ela filtrava com cuidado as memórias dele.
Era muito mais fácil limpar uma mente por inteiro ou remover tudo que aconteceu em uma determinada janela de tempo do que realizar o delicado trabalho de remover apenas uma pessoa e deixar o restante intacto.
— Certifique-se de que ele não saiba que eu estive aqui, então.
Ana assentiu.
Aproximei-me e me ajoelhei ao lado da jaula.
— Olá, irmão — falei.
Seus olhos cansados dirigiram-se a mim e ele se aproximou.
— Kishan? Como... como você pode estar aqui? — perguntou.
— Sinto muito que você tenha de sofrer — comentei, desejando poder tirar parte do fardo dele. — Você vai ser resgatado em breve. Não que vá se lembrar de eu ter dito isso.
— Não entendo — disse Ren, sua voz evocativa e exigente. — O que está acontecendo, Kishan? Me conte! — insistiu, tentando sentar-se.
— É um véu de obscurecimento — afirmei. — Estamos ocultando suas lembranças de Kells para que Lokesh não a encontre.
Estendi a mão através das grades para ajudar a apoiá-lo e me encolhi ao ver como ele estava esquálido. Tocando o amuleto, aumentei um pouco a jaula. Não a ponto de Lokesh perceber, mas mesmo alguns centímetros de cada lado o deixariam mais confortável.
Quantos anos de sua vida Ren havia perdido em jaulas?
A culpa por deixá-lo ali era quase incapacitante, mas então me lembrei da conversa que tivemos. Acontecera meses antes para mim, mas há séculos para ele. Mesmo então, quando ainda não conhecia Kelsey, ele havia aceitado seu destino. Tive certeza de que, se soubesse de tudo agora, faria a mesma coisa novamente. Meu irmão era um homem nobre e merecia toda a felicidade que veio a ter. Ele a havia conquistado.
— Mas por que você está aqui? Não entendo.
— Você não acreditaria se eu tentasse explicar — disse a ele com gentileza. — Além disso, eu mesmo mal entendo. Apenas confie em mim quando digo que isso é necessário. — Toquei seu ombro, apertando-o de leve, então deixei Ren e murmurei para Ana: — Já está terminando?
— Quase.
O corpo de Ren se sacudiu e então ficou flácido. Observamos enquanto ele se transformava em tigre.
— Agora está feito — disse Ana. — Durma, tigre branco, e sonhe com a garota que você ama uma última vez.
Ela teceu a magia no ar e a usou para escorar o corpo de Ren sobre sua maciez enquanto o baixava. Então ela lhe deu comida fresca, água limpa, palha nova, curou-o e invocou o poder para banhar e secar seu corpo. Ana então acariciou seu pescoço e tocou-lhe a cabeça com os lábios, as grades se dissolvendo enquanto ela se aproximava e se refazendo no momento em que se ergueu.
Quando ficou satisfeita, Ana desfez-se de sua aparência glamourosa e saltamos através do tempo, parando em vários pontos para nos assegurarmos de que o bloqueio na memória de Ren se manteria. A primeira parada foi na cabana de Phet. O falso xamã estava esfregando bolotas de gosma cor-de-rosa nos cabelos de Ren. Paramos o tempo e todos permaneceram imobilizados, exceto Kadam.
— Já era mesmo hora de vocês dois aparecerem — disse ele. — Não sei por quanto tempo mais Ren ia suportar isso.
Ana riu, cobrindo a boca para abafar a risadinha, e então reforçamos o bloqueio.
Kadam, disfarçado de Phet, nos dispensou com um aceno.
— Obrigado. Assumo daqui para a frente.
Nós dois disparamos então para o Festival das Estrelas. Ren quase lembrou-se de tudo quando levou Kelsey para a árvore que ele encheu com pedidos escritos em tiras de papel. Ana ficou encantada com a ideia e puxou alguns bilhetinhos da árvore, guardando-os para si. Quando pedi que me mostrasse, ela se recusou, e, quando ele nos viu e me perguntou quem era minha nova garota, Ana sorriu e lançou seu feitiço para remover nossa aparição de sua mente mais uma vez, fortalecendo seu lapso mental de modo que ele não conseguisse se lembrar de Kells.
Em seguida, fomos para o quarto dele em nossa casa, onde ele estava quebrando a cabeça com poemas, quase todos sobre Kelsey. Ana congelou o tempo e tirou uma página de seus dedos.
— Isso é muito... efusivo — disse ela.
— Você não viu nem a metade — retruquei.
Ana reforçou o bloqueio e passamos à próxima parada.
Congelando o tempo no palácio do dragão vermelho, Ana estudou a luz dourada que aflorava à palma da mão de Kelsey. Ren ficou parado atrás dela, os dois produzindo energia suficiente para criar uma supernova. Batendo no lábio com os dedos, Ana disse:
— Quando usam seu poder dessa forma, o bloqueio da memória é consumido. É parecido com o que acontece quando nós... nos abraçamos.
— Ah. Faz sentido, suponho — falei.
— Isso vem de seu elo como encarnações da deusa e de seu tigre. É por isso também que ela é capaz de abrir todos os nossos portais e fechaduras. Eles estão canalizando o mesmo tipo de poder.
Franzi a testa.
— Mas, Ana, Kelsey testou esse poder comigo no barco. Kells e eu não conseguimos gerar esse poder juntos.
— Talvez porque você não seja o tigre dela — respondeu Ana suavemente e estendeu a mão para mim.
— Não — anuí, deslizando a palma da minha mão sobre a dela e saboreando o formigamento familiar associado a nosso toque. — Eu pertenço a outra pessoa.
Ana se postou entre meus braços e girou o dedo, deixando o tempo prosseguir naturalmente.
Observamos Kelsey e Ren acenderem a estrela. Quando concluíram, ambos vimos o momento em que ele se lembrou.
“Kelsey”, disse Ren, seu corpo inteiro em sintonia com o dela. A emoção tomou conta de seu rosto quando ele tornou a chamá-la. Mas Kelsey estava exausta. Ela não percebeu. Tive pena dele nesse momento e fiquei tentado a deixá-lo pelo menos falar com ela, mas Ana, sempre eficiente, logo tirou as lembranças de sua mente outra vez.
— Se eu não tivesse pensado em tornar Ren avesso a tocá-la, passaríamos uma vida inteira só tentando mantê-los separados — explicou Ana. — Como você conseguiu comprometer-se com uma garota apaixonada por seu irmão?
— Ele foi um idiota e terminou com ela. Kelsey quase morreu porque ele não podia salvá-la fisicamente. Ele ficava doente perto dela. Ren decidiu que era melhor para ela ficar comigo. Isso partiu o coração dos dois.
— O seu também — disse ela baixinho.
— O meu também — concordei.
Em seguida, fomos para o topo da casa do leme no Deschen, onde Ren e Kelsey encontravam-se recostados em almofadas, comendo pipoca. Ren olhava fixamente sua tigela, como se ela contivesse os segredos do universo. Ele murmurou alguma coisa sobre um vestido azul e Ana disse:
— Ele está se lembrando de algo e isso está desencadeando mais lembranças.
Erguendo a cabeça, ele sorriu e deu um passo na direção de Kelsey. Nesse momento, Ana deslizou a mão sobre seu rosto e ele vacilou.
Em um segundo, estávamos em uma cabine do Deschen que reconheci como a de Kelsey. Nós a ouvimos assoviando no banheiro.
— Vamos curá-la da mordida do kraken? — perguntei.
Ana sacudiu a cabeça e franziu a testa.
— Isso não estava na lista. Vocês usaram o kamandal?
— Ainda não o tínhamos enchido.
— Talvez Kadam a tenha curado — sugeriu Ana.
— Não. — Sacudi a cabeça. — Ela curou-se rapidamente sozinha, como aconteceu em Shangri-lá.
— Ela curou-se lá? Interessante. E ainda assim precisou do kamandal para curar-se da mordida do tubarão?
Fiz que sim com a cabeça.
— E Fanindra a curou da mordida do kappa em Kishkindha.
— Shangri-lá é um lugar especial, de fato — disse Ana —, mas não o criei para ser um lugar de cura. Tampouco moldei Kishkindha com esse propósito. E esse é um lugar onde os dragões governam. Eles mesmos criaram esses lugares. Eu me pergunto se, como eu, Kelsey utiliza o poder da conexão com seu tigre para se curar. É mais forte entre nós dois, porque nosso elo é permanente e o elixir intensifica esse poder. Mas Kelsey e Ren também têm essa habilidade, embora seja de uma forma mais limitada.
— Faz sentido. Os ferimentos dela foram menos severos nesse caso e seu elo estava mais forte. Bem, se não estamos aqui para curar Kells, então por que viemos? O bloqueio de memória de Ren está falhando?
— Está. Mas, neste caso, nós queremos que falhe.
— Ah. Então esta noite é o meu primeiro encontro com Kelsey.
A porta se abriu e Kelsey surgiu do banheiro usando seu lindo vestido.
“Kishan?”, chamou, e imediatamente ficamos quietos. “Acho que não”, disse Kells. “Parece que agora estou ouvindo coisas também.”
Kelsey andava de um lado para outro, nervosa, conferindo sua aparência no espelho.
Ana fechou os olhos.
Ela está rezando.
Para você?, perguntei, surpreso.
Não. Para a mãe dela. Ela... ela queria que a mãe estivesse aqui para orientá-la e...
Ana inclinou a cabeça.
O que foi?, perguntei, instando-a a prosseguir.
Ela quer que você fique feliz. Que sinta que pertence a este mundo. Ela quer amar você como ama Ren.
Mas não ama.
Os sentimentos dela por você são fortes. Ainda são. Kelsey ama você, mas...
Mas ama Ren mais intensamente.
Voltando-se para mim, Ana tocou meu braço.
Está tudo bem, falei. Uma parte de mim sempre soube. Foi por isso que concordei em ficar para trás com você.
Houve uma batida na porta e Ana inclinou-se para ver de relance meu antigo eu.
Você estava muito bonito, comentou.
Ofereci-lhe a mão e os seguimos até o convés, onde eu havia me empenhado em organizar um jantar romântico.
Você se esforçou muito, disse Ana, admirando a mesa.
É. Esfreguei a nuca, me sentindo culpado por nunca ter feito nada assim para Ana. Eu estava bem desesperado para conquistar o afeto dela, eu disse.
Qualquer afeto conquistado dessa forma é fugaz, replicou ela. Uma mulher deve amar um homem por seu caráter, não porque ele a cobre de belos presentes e luxos.
É verdade, concordei, abraçando sua cintura por trás e inclinando-me para falar suavemente em seu ouvido: Mas um homem deve ser gentil e atencioso quando corteja uma mulher. Com o peso de Ana apoiado em mim, começamos a nos balançar ao som da música. Dança comigo, Ana?
Ela assentiu e eu a virei em meus braços e a puxei para mais perto. A sensação de seu corpo movendo-se junto com o meu era inebriante. A mão de Ana acariciava meu peito e eu a capturei, pressionando-a sobre meu coração. Logo nos vimos perdidos em um mundo só nosso e fiquei tão concentrado que quase esbarrei em meu antigo eu quando ele começou a dançar com Kelsey. Em vez de me puxar para longe, Ana congelou o tempo e dançamos uma música criada por nós mesmos.
Deslizando os braços em torno de meu pescoço, ela colou-se ainda mais a mim e nossos lábios se encontraram. Minhas mãos passearam por suas costas e pela curva de sua cintura. Segurei seus cabelos e puxei sua cabeça delicadamente, de modo que seu rosto virasse ainda mais para cima e eu pudesse beijar a pele macia de seu pescoço. O mundo à nossa volta pegou fogo e, por fim, nos separamos quando ouvimos um estrondo.
Parece que o tempo recomeçou sem a nossa ajuda, disse Ana.
Ren deve ter feito isso. Devíamos aprender a nunca subestimar um tigre desesperado, falei.
As mãos de Kelsey ainda seguravam a camisa de meu antigo eu e os cabelos dele estavam eriçados. Com a pedra da verdade de Ana pressionada contra meu peito, percebi que a aura de Kelsey não combinava com aquela exibida pelo meu outro eu. Antes que eu pudesse comentar isso com Ana, ouvimos a voz de Ren vir de algum lugar acima de nós:
“Eu disse: Solte-a! Agora!
Houve outro estrondo e um vingativo Ren saltou na direção deles. E ameaçou:
“Não... me faça repetir!”
Ele está se lembrando?, perguntei a Ana.
Está prestes, mas não, ainda não.
Bem, vamos tirar o pobrezinho desse sofrimento.
Ana agitou a mão sobre a cabeça de Ren e ele gritou.
Tocando as costas dela, perguntei:
O que houve? Por que ele está com dor?
Ele está... ele está lutando contra mim, explicou ela.
Por quê? Ele não quer lembrar?
Preciso da sua ajuda, foi a resposta de Ana. Uma parte dele pressente que estamos aqui e se recusa a se submeter à nossa interferência outra vez. Ele é um tigre lutando por sua companheira.
Ela pôs a mão na cabeça de Ren e eu toquei o ombro dele.
Relaxe, irmão, sussurrei para sua mente. Ren gemeu e lutou contra nós. Na verdade, eu não podia culpá-lo. Se alguém tivesse tirado Ana de mim dessa forma, um ataque violento seria o mínimo que eu faria.
Não vamos mantê-la longe de você por muito mais tempo. É hora de você se lembrar. Ren acalmou-se o suficiente para que Ana terminasse o que precisava fazer e então desabou no convés.
Eu me aprumei e peguei a mão de Ana.
Está feito, então?, perguntei.
Ele vai se lembrar de tudo, exceto da sua presença na primeira vez que tiramos suas lembranças.
Ren se levantou e começou a explicar sobre o véu de obscurecimento e como Durga havia ocultado suas lembranças.
— Essa foi por pouco — comentei depois que todos haviam ido embora.
Ela olhou para o convés acima de nós.
— Nossa presença neste lugar foi arriscada. Você poderia ter encontrado a si mesmo duas vezes aqui.
— É verdade. — Passei a mão pelo queixo, lembrando-me de que havia assistido a essa cena repetidamente. — Nossos antigos eus não podem nos ver?
— Não. Eles foram embora agora. Eu não me lembro de nos ver. E você?
— Não. Acho que está tudo bem.
— Felizmente para nós, essa foi a última vez que tivemos de interferir na mente de Ren. Falando nisso, temos só mais uma tarefa na lista.
— E então fazemos uma pausa? — perguntei, pensando em ter Ana só para mim em uma praia de areias brancas.
— Sim. Mas, Sohan, essa tarefa será a mais difícil de todas. E não sou eu quem vai realizá-la. Se isso vai acontecer, precisa ser sua escolha, e apenas sua.
— O que é? — perguntei, engolindo um nó que se formou em minha garganta.
— Precisamos retornar ao momento da morte de Yesubai.
Assenti.
— Certo. Acho que posso fazer isso.
— Não é assistir à morte dela que temo que vá abalar você.
Inclinando a cabeça, eu disse:
— O que mais poderia ser? O que temos de fazer? Eu já sei que Kadam não vai querer que a salvemos.
— Não. Não estamos sendo mandados até lá para salvá-la. Vamos até o momento em que você se torna um tigre. — Umedecendo os lábios, Ana chegou mais perto e pegou a minha mão. — Você se lembra? Nossa tarefa final é criar a maldição que transformou vocês.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!