12 de setembro de 2018

34 - O beijo gélido da sereia

Tomando seu rosto delicadamente nas mãos, perguntei:
— Você quer praticar?
Ana assentiu e agarrou minha camisa, me puxando para ela. Cobri as mãos dela com as minhas e apertei, detendo-as.
— Embora eu aprecie seu entusiasmo diante da tarefa, o beijo nem sempre é uma coisa selvagem e descontrolada. Pode ser suave e doce.
Ana franziu a testa.
— Não sou uma mulher suave.
Sacudindo a cabeça, repliquei:
— Você é uma mulher passional. Isso não significa que não seja... suave. — Segurei seu rosto. — Eu vejo quem você é por dentro, Ana. Seu coração é terno, apesar de toda a rude bravata que você demonstra para seus homens. Eu sei que foi assim que você os manteve longe e entendo por que agiu assim.
Enquanto falava, eu traçava o arco de sua sobrancelha com o dedo.
Ela mordeu o lábio.
— Eu não sei o que fazer ou o que você quer de mim, Sohan.
Refletindo, eu disse:
— Pense no beijo como a degustação de uma fruta madura. Saboreie. Lamba devagar o suco em seus dedos. Aprecie o sabor, a textura. Se você engole rápido demais, não tem tempo de desfrutá-la.
— Muito bem — disse ela, impaciente. — Vou tentar fazer como você pede. Mas, se você tivesse me beijado quando pedi da primeira vez, a esta altura isso já estaria resolvido.
— Ah, minha bela senhora — retruquei, acariciando-lhe o pescoço —, não pretendo ter nada “resolvido” com você por muito, muito tempo.
Ela abriu a boca para fazer outra pergunta, mas eu cobri seus lábios com os dedos.
— Shh. Agora, feche os olhos.
Ela os semicerrou, desconfiada, mas fez como instruí.
— Ótimo. Agora feche a mente para tudo. Deixe o corpo ficar imóvel e calmo, como se estivesse se concentrando para uma batalha.
Devagar, deslizei a mão por seu pescoço e segurei seu braço com a outra mão. Aproximando-me mais dela, encostei o nariz em seus cabelos e inspirei profundamente. Eu quase podia sentir o sabor do aroma de rosa e jasmim enquanto meus lábios tocavam a delicada curva entre seu ombro e o pescoço. Deslizei a boca, de leve, sem beijar a pele dourada, apenas roçando-a com os lábios, subindo até o maxilar.
Uma vez ali, tornei a descer pela pele lisa, dessa vez pousando beijos cálidos em cada centímetro dela. Com uma lentidão torturante, fui até o canto de sua boca e deslizei a mão pelo braço até o ponto em sua cintura onde a curva do quadril começava. Então a puxei para mim, encaixando seu corpo no meu.
Tremendo em meus braços, Ana tentou me beijar.
— Ainda não, amor — murmurei de encontro à sua boca.
Deliberadamente, levei os lábios a suas pálbebras delicadas e à ponta do nariz. Ela estremeceu quando capturei o lóbulo de sua orelha entre os dentes e só então, finalmente, de modo bem lento, voltei aos lábios. Minha boca pairou sobre a dela por um torturante segundo e enfim cedi à dolorosa necessidade de beijá-la.
O gemido de prazer que ela emitiu ateou fogo em mim, mas eu o controlei, determinado a mostrar-lhe que o amor não precisava machucar. A princípio, sua boca manteve-se firmemente pressionada à minha, mas, de maneira quase lânguida, eu a persuadi a explorar, a sentir, a provar. Enquanto ela fazia isso, eu acariciava seus cabelos, suas costas e seu rosto, aprendendo os ângulos e linhas de seu corpo.
Moldei minha boca suavemente à dela, com movimentos delicados, provocando e seduzindo, ao mesmo tempo ensinando e aprendendo. Logo percebi em minha mente um zumbido de contentamento e reconheci que era Ana ligando-se a mim em um nível subconsciente. Testar sua linguagem interior de prazer era um exercício de entrega ao qual descobri que não conseguia resistir. Quando meus dedos roçavam a parte interna de seus braços ou quando minhas mãos envolviam sua cintura, puxando-a para mim, era como se fogos de artifício explodissem em sua mente.
Cresceu em mim uma necessidade de catalogar cada um dos pontos em que ela gostava de ser tocada e, embora eu não tivesse qualquer intenção de explorar esse aspecto de nossa conexão especial integralmente naquele momento, mal podia esperar por isso. O formigamento que costumava sentir quando minha pele roçava na dela agora se multiplicara por dez e estar perto dela parecia ser a coisa certa. Beijar Ana era como voltar para casa. Não. Era como finalmente encontrar uma casa.
Quando ela quis intensificar o que estava acontecendo entre nós, recuei de propósito, interrompendo o beijo, mas continuando a acariciar seus braços.
— Por que... por que você parou? — arfou ela. — Quero continuar praticando.
Eu sorri.
— Continuaremos, amor. Eu prometo. Mas este não é bem o momento ou o lugar para... hã, praticar. Além disso, acho que é melhor aprender uma lição de cada vez. — Ela olhou para nossas mãos entrelaçadas. — Tudo bem para você? — perguntei, baixando a cabeça para avaliar sua expressão.
— Sim. Acho que sim. — Ela afastou-se alguns passos. — Mas essa prática deixa meu corpo mais tenso do que a véspera da batalha.
Rindo, eu disse:
— Também me afeta assim. — Olhei à nossa volta. — Até aqui, tudo bem. Parece que não criamos nenhuma outra árvore no mundo nem derretemos o templo. Venha, vamos ver se há algum maremoto se aproximando.
— O que é um maremoto? — perguntou ela quando pusemos o pé fora do templo.
— É um... bem, uma onda gigantesca que quebra na praia.
— Por que criaríamos isso?
— Não sei. Coisas estranhas acontecem quando beijo você. — As luzes ainda estavam acesas na cidade e não vi qualquer sinal de perigo iminente. — Talvez só aconteçam quando estamos brigando — sugeri.
— Não. Não estávamos brigando no Bosque dos Sonhos. Parece que a magia cresce quando estamos abraçados.
— Certo. — Meu olhar desceu novamente para sua boca e nos aproximamos. Era como se fôssemos ímãs incapazes de resistir à força de atração do outro. Antes de beijá-la outra vez, me detive a muito custo e murmurei com a voz rouca: — Vamos continuar trabalhando na lista de Kadam?
— Vamos. Quem sabe a gente encontre alguém com quem lutar para aliviar a tensão.
— Vamos torcer para isso — repliquei, entrelaçando meus dedos nos dela. — Então o que vem agora?
— Lady Bicho-da-Seda.
— É mesmo? — perguntei, passando a mão pelos cabelos. — Para onde a levou depois que vocês desapareceram?
Ana deu de ombros.
— Ela está na nossa casa, tecendo e desempenhando o papel de mãe para as criancinhas que resgatei.
— Ah. Estranho que eu não a tenha visto.
— Ela não gosta de se misturar com os soldados. Eles a deixam nervosa. Então criei uma casa só para ela atrás da nossa e lhe dei assistentes para a ajudarem no trabalho. Vou mostrar a você.
Pegando minha mão, Ana nos conduziu através do tempo, de volta à nossa casa na montanha, e me levou por uma passagem escondida atrás de uma comprida tapeçaria. Eu sempre acreditara que o tecido fora um presente, mas agora via o que era de fato: uma imagem bordada de Lady Bicho-da-Seda sentada junto a uma janela, costurando. Quando examinei o tecido onde estava a agulha, vi a imagem inacabada de seu jovem amado, o pobre rapaz que eu vira morrer.
Seguindo por um corredor, fiquei surpreso ao vê-lo abrir-se em uma confortável sala de estar. Mulheres passavam, atarefadas, carregando bobinas de linha, bandejas de comida ou fardos de tecido. Duas delas conversavam amistosamente enquanto teciam no canto, em grandes teares, e outras se sentavam em cadeiras, tricotando grossos xales ou fiando rendas delicadas.
Ana me conduziu por uma escadaria sinuosa até uma grossa porta de madeira, onde bateu com os nós dos dedos. O cheiro de lavanda pairava no ar.
— Quem é? — perguntou uma voz vinda de dentro.
— É Anamika — replicou ela.
Achei curioso que ela usasse seu nome de batismo, não o da deusa Durga.
A porta se abriu um instante depois. O sorriso largo da mulher desapareceu quando me viu de pé atrás de Ana. Ela alisou o vestido com a mão e prendeu alguns fios de cabelo soltos. Sua expressão relaxada mudou e tornou-se rígida e formal com a minha presença ali, não mais à vontade como se mostrara com Ana.
— Não se preocupe com ele — disse Ana, apontando para mim. — É meu protetor.
— Ah — murmurou Lady Bicho-da-Seda com uma mesura. — Então lhe dou as boas-vindas. Mas certamente você não precisa se proteger de mim — disse a mulher com uma risadinha.
— Não mesmo — replicou Ana, sorrindo suavemente. — Na verdade, estamos trabalhando juntos em uma tarefa e precisamos de sua ajuda.
— É claro. O que posso criar para vocês? — Ela olhou para baixo. — Ah, estou vendo!
A mulher pegou o retalho de seda que Ana trazia na mão e o aproximou do rosto para examiná-lo. Era o tecido da oferenda de Nilima, mas não tinha o mesmo aspecto. Quando Kelsey o colocara aos pés da estátua, era um simples pedaço de seda verde, bonito e luxuoso, mas sem nada de extraordinário. Agora ele faiscava e crepitava, os fios de seda pulsando com ondas de luz.
— Que lindo! — exclamou Lady Bicho-da-Seda.
— Este é aquele... — comecei.
Ana assentiu, antecipando minha pergunta:
— É. A oferenda de Nilima.
— O que aconteceu com ele? — perguntei.
Umedecendo os lábios, Ana me dirigiu um olhar carregado de significado.
— Creio que nós acontecemos a ele.
Minha boca se escancarou em um “oh” e estendi a mão para tocá-lo. O tecido vibrava sob a ponta de meus dedos.
— Posso fazer algo verdadeiramente excepcional com estes fios — disse Lady Bicho-da-Seda —, embora vá me tomar um bom tempo desmanchar o tecido sem partir os fios. Para quando vocês precisam?
— Você pode ficar com ele e fazer o que quiser. No entanto, não espero que nada seja criado imediatamente. No momento, precisamos de sua ajuda em outra coisa.
Com cuidado, a mulher ergueu a tampa de uma cesta. Havia vários buracos no topo e fios de cores diferentes saíam por eles. Empurrando para o lado algumas meadas de fios de seda, a mulher colocou o tecido brilhante dentro da cesta e a fechou antes de se virar para Ana.
— Como posso ajudar? — perguntou.
Rapidamente explicamos como ela deveria ajudar Kelsey em sua missão. Contei a ela o que me lembrava da melhor maneira possível e disse que estaríamos por perto, que atrairíamos Kelsey para o templo para que elas pudessem conversar em particular. Na mesma hora, Lady Bicho-da-Seda pegou uma cestinha, pendurou-a no braço e disse que estava pronta.
Canalizando o poder do Amuleto de Damon, Ana levou nós três para o distante Templo da Praia. Virei-me para a água, olhando o grande iate ancorado não muito longe dali, e o apontei para Anamika. Ela protegia os olhos do sol usando a mão, mas ainda assim pude vê-los se arregalarem.
— Onde estão as velas e os remadores? — perguntou.
— Máquinas de metal impulsionam o barco. Você gosta? — perguntei.
— É... grande. — Ela voltou-se para mim. — Tudo que é fabricado no tempo de Kelsey é desse tamanho?
Enquanto Lady Bicho-da-Seda exclamava alguma coisa sobre o templo e se afastava para examinar uma estátua, respondi:
— Muitas coisas são. O iate é algo de que vou sentir falta. Ele foi batizado em homenagem à minha mãe.
Ana franziu a testa.
— Acho que sua mãe preferiria um homônimo menor, mais delicado. Nenhuma mulher quer seu nome emprestado a algo do tamanho de cinquenta elefantes. — Ana me cutucou com o braço. — De que mais você sente falta, Sohan? — perguntou.
— Bem, tem a motocicleta. A academia de ginástica. O cinema.
Ana fez uma careta.
— Não quero mais saber. Você está falando por enigmas.
Passei o braço pelos ombros dela.
— Posso ensinar sobre cada uma dessas coisas a você, assim que acabarmos com a lista de Kadam.
— O que é aquilo? — indagou Lady Bicho-da-Seda, apontando para o mar.
A proximidade de Ana quase me fizera esquecer por que e com quem estávamos ali.
— É outro barco. Menor. Isso significa que eles estão vindo — respondi.
O som da lancha foi se tornando mais alto.
— Espere aqui — disse Ana. — Vou preparar um lugar para ela se encontrar com Kelsey.
Ana e Lady Bicho-da-Seda desapareceram, enquanto eu me escondia atrás de uma estátua. Elas não voltaram logo, o que me deixou preocupado. O que Ana poderia estar fazendo para demorar tanto? A lancha atracou e Kadam, Kelsey, Ren e meu antigo eu saltaram em terra. Ren e eu empunhávamos nossas armas novas, alertas ao perigo. Eles passaram por mim sem me ver, posto que eu havia me dessincronizado com o tempo e, lembrando-me do risco, me mantive bem longe de meu antigo eu.
O grupo desapareceu no interior do primeiro templo, Kadam conversando com Kelsey sobre uma variedade de coisas. Captei as palavras domo santuário, mas ignorei-as em grande medida. Onde está Ana?, tornei a pensar, ficando mais preocupado a cada momento que passava. Pressenti sua presença antes de vê-la e virei-me para a praia. Lá estava Ana, agora usando um vestido branco que se arrastava atrás dela na areia. Um longo véu cobria seus cabelos e os pés estavam descalços.
Imediatamente me preparei para correr até ela, mas Ana ergueu os olhos, alarmada, e levou o dedo indicador à frente dos lábios. Olhei para trás e vi Kells ali parada, olhando através de mim diretamente para ela. Teria ela visto Ana? Então me lembrei que sim. Na ocasião, tínhamos atribuído o fato à imaginação de Kelsey, e depois, quando falamos a respeito, presumimos que ela havia visto Lady Bicho-da-Seda. Quando tornei a olhar, Ana havia desaparecido, mas apenas alguns segundos se passaram antes que eu a sentisse tocar meu ombro.
Envolvi-a com os braços, agradecido ao ver que ela agora havia se dessincronizado com o tempo também.
— O que aconteceu? — perguntei. — Por que você desapareceu por tanto tempo?
Ana recuou um passo e me dirigiu um olhar de culpa.
— Peço desculpas — disse ela. — Sei que você não gosta que eu atenda a meus deveres sem você. Mas o chamado era forte demais para que eu ignorasse.
— Chamado? Que chamado?
— Era uma espécie de limpeza. Havia muitas mulheres sofrendo. Muitas devotas. Muitas preces. Eu tinha que ajudar.
— Você correu perigo? — perguntei.
Ela sacudiu a cabeça.
— Não. Era uma peste. A água do poço estava contaminada. Adicionar o elixir do kamandal ajudou a limpar a água, mas elas precisavam de cura e a maior parte estava fraca demais para tirar água do poço sozinha. Fui enfermeira para aquelas que não tinham ninguém para ajudar e passei muitas horas indo de casa em casa. Não me envolvi em nenhuma batalha, então pensei que você não se importaria.
— Eu ainda quero saber aonde você vai, Ana. — Toquei seu rosto e o véu escorregou de seus cabelos, mostrando-me os olhos avermelhados. — Você está cansada — falei. — Deveria ter me chamado. Eu teria ajudado.
Ela sacudiu a cabeça.
— Não queria tirá-lo daqui, porque eles poderiam precisar de sua intervenção. Eu teria voltado antes, mas calculei mal o tempo e me esqueci de ocultar minha presença. Acho que Kelsey me viu.
— Ela viu, sim — confirmei. — Mas não tem problema. Vá para casa e descanse. Vou chamá-la assim que levar Lady Bicho-da-Seda de volta.
Ana assentiu e, depois de eu tocar seu ombro para tranquilizá-la, se foi. Concluir a lista precisava ser nossa prioridade. Ana e eu tínhamos outros trabalhos para fazer. Eu vinha efetivamente ignorando os gritos dos suplicantes que imploravam a ajuda da deusa, mas eles não pediam diretamente a mim, portanto não me perturbava tanto quanto a ela. O fardo cósmico devia estar sobrecarregando-a o tempo todo. Eu teria de ajudá-la mais no futuro.
Ao entrar no templo, vi que tinha chegado na hora H. Eles estavam prestes a entrar na sala onde Kells desapareceu. Arquejei, vendo as paredes completamente nuas, e parei o tempo para criar os entalhes de que me lembrava, depois pus o tempo para correr outra vez. Quando Kelsey começou a traçar com o dedo um fio entalhado na parede do templo, recordei-me de repente de que meu trabalho ainda não tinha acabado.
Fechando os olhos, busquei me lembrar de como Ana usava o poder do amuleto. Eu estava tentando abrir uma passagem que levasse a Lady Bicho-da-Seda, mas que só Kelsey pudesse ver, porém acabei criando uma mariposa. Franzindo a testa, tentei novamente, meus lábios se movendo enquanto eu sussurrava minhas instruções de novo. Dessa vez, a mariposa bateu as asas e uma luz pulsou por trás dos entalhes na pedra.
Como se eu estivesse fazendo exercícios de aquecimento no tai chi, estendi a mão à frente, a palma voltada para fora, e o corpo de Kelsey foi empurrado para dentro da parede. Entrei em pânico por um segundo e corri até ela, aliviado ao ver que estava bem. Então a segui, conduzindo-a com meu poder até entrarmos na bolha no tempo criada por Ana para que Kells se encontrasse com Lady Bicho-da-Seda. Fiquei observando as duas conversando e costurando e acabei me distraindo com meus pensamentos quando Lady Bicho-da-Seda falou de prática e paciência. Fez com que eu me lembrasse da prática do beijo com Ana.
Lady Bicho-da-Seda contou a história do rapaz que ela amava, aquele que não pude salvar, e a culpa tomou conta de mim. Eu sabia que Kadam tinha seus motivos, mas, se alguém me dissesse que eu deveria deixar Ana morrer, eu daria um soco na cara dessa pessoa, mesmo que fosse Kadam, e faria tudo que estivesse a meu alcance para salvá-la.
Enquanto bordava com Kelsey, Lady Bicho-da-Seda prosseguiu contando sua história. Ela não fez qualquer menção a mim. A única coisa que a pobrezinha se lembrava era de ser resgatada pela deusa. Perguntei-me se deveria confessar minha parte naquilo tudo, mas decidi que era melhor não. Nada mudaria com isso. Voltar a esse assunto só causaria mais sofrimento.
Quando chegou a hora de Kelsey retornar, usei o mesmo método que usara antes. Fechei os olhos e lhe dei um empurrão mental, mas ela se virou ou ficou presa. Eu não sabia se tinha me desconcentrado ou se apenas não estava fazendo a coisa direito. Então ouvi uma voz. Era Ren. Eu não tinha certeza se Kells ouvira ou não, mas definitivamente inclinou seu corpo na direção da voz.
Sem minha ajuda, Ren de alguma maneira rompeu a barreira do tempo e agarrou a mão dela, tirando-a dali em segurança.
Talvez fosse a conexão entre ambos enquanto encarnações de Durga e de seu tigre. Os dois tinham um vínculo tão poderoso quanto o que eu compartilhava com Ana. Agora que eu havia experimentado todo o peso dessa ligação, era chocante pensar no autocontrole que Ren tivera ao abrir mão de Kelsey. Não acho que conseguiria fazer isso. Já foi difícil o bastante deixar a garota que eu amava e entregá-la a meu irmão quando não havia essa conexão entre nós. Afastar-se de Kells deve ter sido terrível para Ren. Eu não podia nem imaginar me afastar de Ana agora, seja como homem ou como tigre.
Voltando até a mulher que eu deixara para trás, esperei pacientemente que ela reunisse seus pertences. Quando se levantou, me dirigiu um olhar perspicaz.
— Onde está a deusa? — perguntou.
— Descansando. Ela estava exausta por causa de um trabalho e me pediu que a levasse para casa.
— Há... há alguma coisa que você queira me pedir? — indagou ela.
Franzi a testa. Haveria alguma coisa? Eu não tinha pensando nisso até então, mas, agora que ela mencionava, algo veio à superfície.
— Você pode fazer um presente para ela? Para Ana, quero dizer. Talvez um véu para seus cabelos ou um vestido? Algo que mostre como me sinto em relação a ela.
— E como é que você se sente em relação a ela?
Essa é a pergunta da vez, não é? Não havia como negar que eu me sentia atraído por ela. Que sentia sua falta quando não estava presente. Que já havia decidido que passaria o resto da minha vida com ela. Por que é tão difícil definir o sentimento que tenho? Quando garoto, eu me apaixonara por ela. Para a jovem Ana, eu poderia dizer facilmente que me preocupava com ela e que queria que fosse feliz. Mas quanto à mulher? Gostaria de poder conversar a respeito com Ren. Ele tinha talento com as palavras. Dizer a Kells que eu a amava ou mesmo a Yesubai que queria me casar com ela não parecera nem de longe tão difícil quanto confrontar Ana e confessar meus sentimentos. Talvez essa diferença tivesse algum significado.
Lady Bicho-da-Seda estava esperando.
— Você parece não ter certeza — disse ela. — Mas, para fazer um presente do coração, eu preciso conhecer seu coração. Posso? — perguntou.
Assenti, embora não estivesse certo do que ela estava me pedindo que fizesse até ela pousar a mão em meu peito. Lady Bicho-da-Seda fechou os olhos por um momento e senti um calor penetrar minha pele. Meu coração queimou no peito, ficando cada vez mais quente, até eu pensar que minha pele pegaria fogo. Quando ela recuou um passo, seus olhos se arregalaram.
— Bem — disse ela. — Isso foi... surpreendente.
Ela afastou-se, batendo com o dedo no lábio inferior, então virou-se de repente, os olhos brilhando.
— Já sei exatamente o que vou fazer. Não se preocupe. Você me deu uma tarefa que um mero mortal não poderia executar, mas agora tenho acesso a coisas além da imaginação dos meros mortais. Não vou desapontar você... nem ela.
— Tenho certeza disso — falei, embora não tivesse a menor ideia do que ela queria dizer. — Podemos ir?
— Sim. O tempo é curto e há muito a fazer.
Ela aceitou o braço que ofereci e aceleramos. Deixei-a junto à tapeçaria que levava à sua suíte e fui procurar Ana. Encontrei-a dormindo em seu quarto, a mão debaixo do rosto. Sentei-me ao lado dela e corri o dedo pela extensão da parte interna de seu braço, onde ela particularmente gostava. Ela moveu-se antes que eu pudesse piscar e me vi com uma faca pressionada contra o pescoço. Ergui as mãos.
— Desculpe — sussurrei.
Ela arquejou, sem fôlego, e desabou de volta no travesseiro, enfiando a faca debaixo dele.
— Sou eu que peço desculpas — retrucou. — Não queria assustar você.
— Não fiquei assustado. Só surpreso. — Inclinei-me, chegando mais perto dela. — Não foram exatamente as boas-vindas que eu estava esperando.
As sobrancelhas dela se arquearam.
— E como você preferia ter sido recebido? — perguntou ela.
— Ah, você sabe. Um banquete, danças, celebração e muitos beijos.
Afastando meu braço para poder se levantar, ela disse:
— Acho bom que você não espere que eu vá enfileirar lindas donzelas fazendo biquinho para recebê-lo no futuro, Sohan.
Ana pegou a escova e a deslizou pelos cabelos em movimentos bruscos. Abraçando-a por trás, beijei sua orelha.
— Só existe uma única linda donzela que me interessa. Você dormiu? Tentei sincronizar minha volta para que você pudesse descansar.
— Dormi. — Ela se virou, mas não permiti que escapasse de meus braços. Ergui uma sobrancelha e sorri com malícia quando ela tentou se libertar, mas dava para ver que ela não queria de fato que eu a soltasse, só era teimosa demais para admitir o que queria. Ela se contorceu, tentando encontrar uma forma de se sentir confortável e relaxada enquanto eu a segurava daquela maneira.
Por fim, optou por manter as mãos levemente pressionadas contra meus bíceps e uns bons 15 centímetros entre nós. Eu preferia que estivéssemos mais perto, mas assim mesmo parecia uma vitória. Contudo, no fim, minha vitória durou pouco.
— Fico feliz que você esteja bem — disse ela e então, meio desajeitada, deu um tapa forte em meu braço, à maneira de um soldado felicitando seus companheiros sobreviventes após uma batalha.
— Lição dois em romance — eu disse, segurando seus quadris e puxando-a para mais perto. — É perfeitamente aceitável abraçar o outro. Principalmente ao se reencontrarem. O beijo apaixonado nem sempre tem de fazer parte, mas um afetuoso beijinho nos lábios, no rosto ou na testa serve para assegurar à outra pessoa que seus sentimentos não mudaram durante o tempo em que estiveram afastados.
— Ah. Então os seus sentimentos mudaram? — provocou ela.
Respondi beijando-a suavemente no rosto.
— Não. Se alguma coisa mudou, foi que agora eles estão mais intensos do que antes.
— Seus olhos estão cor de cobre — comentou ela, inclinando a cabeça. — Isso significa que você está brincando?
— Garanto que estou falando sério.
Ana comprimiu os lábios.
— Muito bem. — Ela tocou meu queixo com seus lábios aveludados. — Isso basta?
Suspirei.
— Um homem poderia esperar mais.
— Talvez, quando ele merecer mais, ele receba.
Enquanto eu ria e refletia sobre o que poderia fazer para merecer mais, desaparecemos e nos rematerializamos no topo de uma alta montanha. Ana afastou-se para examinar as imediações.
— Onde estamos? — perguntei, tentando enxergar através da névoa.
O ar era rarefeito e frio e enchia minhas narinas com umidade e o cheiro forte de minerais. Ouvi o som de água corrente à distância.
— Temos de encontrar dragões neste lugar.
— Dragões?
— Isso é tudo que sei pela lista de Kadam — disse Ana.
Esfreguei o rosto com a mão. A montanha estava fria. Evoquei o poder do pedaço do fogo do amuleto. Logo um bolsão de ar girava em torno de nossos corpos, nos aquecendo, embora a neve na montanha permanecesse intacta.
— Se me lembro bem — falei —, os dragões surgiram há milênios.
Andamos pela montanha, procurando cavernas grandes o bastante para abrigar dragões, mas não encontramos nada. Por fim, segui em direção ao som da água e chegamos a um grande lago que transbordava, em um dos lados, derramando-se por um precipício. A água descia por degraus de pedra, desaparecendo na neblina abaixo. Cada queda-d’água formava um pequeno poço onde a água se acumulava antes de continuar a descer pela encosta da montanha.
— Olá!
Ouvi a voz de Ana e me virei para ver o que ela estava fazendo. Ela havia se ajoelhado ao lado da piscina bem no topo, mexendo os dedos na superfície. Cabeças coloridas balançavam-se perto de seus dedos, as bocas se abrindo e fechando enquanto procuravam comida.
— Não são lindos? — perguntou ela quando me agachei a seu lado.
— São.
Sorri enquanto Ana brincava com as carpas coloridas.
— Eles fizeram uma longa viagem — informou. — Parece que saltaram de poço em poço até chegar ao topo da montanha.
— É mesmo? É um esforço e tanto. A menos que estejam na desova, eu não sabia que os peixes eram capazes disso.
— Duvido que seja essa a razão — disse Ana. — São todos machos.
— Hum...
Joguei uma pedra no lago e uma cabeça dourada surgiu à superfície. Por um breve segundo, a carpa pareceu me olhar, furiosa. Quando ela me fitou com seus grandes olhos dourados, tive a impressão de que me era familiar. Fiquei de pé abruptamente e observei o peixe grande.
— Tem quantos aí? — perguntei.
— Cinco — respondeu Ana.
Contando nos dedos enquanto os examinava, murmurei:
— Dourado, vermelho, azul, branco...
— E verde — completou Ana. — Esse é difícil de ver, porque a água aqui é bem verde.
De repente minha mente voltou a algo que eu ouvira havia muito, muito tempo.
— Ana — chamei —, tenho uma história para lhe contar.
Então narrei para ela a história, transmitida por meus ancestrais, sobre o rio Amarelo e as carpas. Há muito tempo eu havia compartilhado com Yesubai a lenda do corajoso peixe que tinha subido o rio em busca do presente dos deuses. Ela amava os peixes, assim como minha mãe.
Quando contei a Ana que os peixes se transformavam em dragões, ambos soubemos o que tínhamos de fazer. Ana sorriu e acariciou a lateral do corpo do peixe azul. Ele nadou em um círculo para que ela pudesse alcançar o outro lado.
Apontando para a queda-d’água, eu disse:
— Minha mãe me contou que a cachoeira onde essa transformação supostamente aconteceu era chamada de Portal do Dragão.
Ela olhou para baixo.
— Então talvez devêssemos tornar este lugar um pouco mais óbvio para que a história possa ser partilhada.
Erguendo as mãos, Ana canalizou seu poder e a montanha se sacudiu, pedras rolaram e se deslocaram e, quando ela terminou, o topo da queda-d’água tinha uma nova saliência, que formava o crânio de um dragão. A água jorrava de sua mandíbula aberta e depressões escavadas, com pedras de cores diferentes no centro, formavam os olhos. Pedras salientes enchiam a boca aberta para compor os dentes.
Mais abaixo, as pedras tornaram a se deslocar, assumindo a forma de um dragão em plena transformação. Ana nos fechou em uma bolha de ar e descemos a queda flutuando. Cada nível da queda foi refeito até que as pedras estivessem cobertas de entalhes no formato de carpas subindo aos saltos, cada pulo transformando-as até que, no topo, surgissem como dragões plenamente formados.
Quando Ana ficou satisfeita, voltamos ao topo e ela se virou para os peixes. Eles esperavam por ela na borda do lago e, como fizera com as outras criaturas, Ana perguntou-lhes se estavam dispostos a se transformar em algo novo. Os peixes, com o intelecto que lhes era peculiar, concordaram e Ana usou seu poder para imbuí-los de energia. Um a um, os peixes se elevaram da água e se transformaram diante de meus olhos.
As escamas se alongaram. As caudas se agitaram de um lado para outro, crescendo a cada movimento. Suas espinhas e cabeça tornaram-se irregulares, com pontas, penas, cabelos e galhadas. Chifres cresceram em suas cabeças, tão individuais quanto os próprios peixes. As barbatanas formaram as pernas e as garras malignas. O que mais me surpreendeu foi quanto isso deveria ter sido óbvio. Mesmo como peixes, eles tinham personalidades semelhantes às dos dragões que eu conhecera. Quem poderia imaginar que peixes eram tão diferenciados?
Depois que os dragões estavam formados, eles voaram em círculos acima de nós e fiquei observando-os, tentando identificar o que havia de diferente neles. De repente, percebi. Estavam menores. Mais jovens. Talvez o equivalente a dragões adolescentes. Eu podia ver a alegria que sentiam com suas novas figuras enquanto espiralavam os corpos em torno uns dos outros.
Ana, exausta depois de tamanho investimento de poder, voltou-se para trás e segurou minha mão. Passei o braço em torno dela.
— Você está bem? — perguntei.
— Descansarei quando tivermos terminado. Mas preciso dar mais a eles.
Ela ergueu os braços.
— Venham a mim, meus dragões. Digam-me seus novos nomes e eu concederei a cada um de vocês um presente.
— Deusa — disse o dragão branco, aproximando-se —, diga-nos quem você é, para que agradeçamos à mãe que nos deu esse novo nascimento.
— Eu... — Ana fez uma pausa. — Eu sou a Mãe Terra e este — disse, apontando para mim — é o Pai Tempo.
— Mãe — disse o dragão branco —, como podemos ajudá-la?
Ana estendeu a mão e segurou a cara dele.
— Vocês servirão a nós, poderoso dragão. Mas primeiro eu lhes darei minha bênção. — Ela olhou dele para os outros. — Todos vocês são muito especiais. Serão guardiões, incumbidos de certas responsabilidades. Somente os bravos como vocês merecem uma função tão importante, por isso presentearei cada um com habilidades para ajudá-los em seus esforços. Primeiro, convoco meu dragão vermelho. Como você se chamará?
— Meu novo nome será Lóngjūn — disse o dragão vermelho e preto.
— Muito bem. Então, Lóngjūn, que acaba de nascer do oceano Pacífico, a partir de agora eu lhe atribuo o dever de guardar os céus. Quando a humanidade olhar para as estrelas, verá a sua forma e será inspirada por sua coragem. Você está abençoado com o poder do ar e da luz que preenchem o céu. Seu domínio se encontra em todos os pontos a oeste do centro. Eu lhe concedo a amplitude das estrelas.
Ana tocou-lhe a garra e soprou um beijo em sua direção. O vento fustigou seu corpo, que cintilou com o poder.
— Obrigado, Mãe — disse o dragão de olho carmesim.
Ana assentiu quando ele se afastou.
— Aproxime-se, dragão verde — chamou.
Imediatamente o dragão verde veio ondulando em nossa direção. Olhei, furioso, para a fera astuta, mas ele não sabia ainda quem eu era ou o que faria comigo no futuro. Mesmo jovem, ele me pareceu arrogante e malicioso.
— Como você se chamará? — perguntou Ana.
— Adotarei o nome de Lüśèlóng — respondeu ele, sacudindo a cabeça.
— Muito bem. Então, Lüsèlóng, que acaba de surgir do oceano Índico, a partir de agora será o incumbido da tarefa de proteger a Terra. Quando os homens cultivarem o solo, eles verão sua sombra no alto e saberão que suas colheitas serão frutíferas. Você foi contemplado com o poder da terra e a força das rochas. Seu domínio se encontra em todos os pontos a leste do centro. Eu lhe concedo a intensidade do raio.
O corpo do dragão verde reluziu e folhas verdes brotaram em suas costas. Seu peito abaulado se inflou e ele baixou até o solo, como se tivesse se tornado pesado como pedra. Então ergueu a cabeça e lançou-se ao céu mais uma vez.
— Lüśèlóng — adverti, incapaz de resistir à oportunidade de alfinetar o dragão —, talvez fosse conveniente você voltar e agradecer à sua mãe.
O dragão franziu o nariz e soltou uma baforada de ar, mas me senti gratificado ao ouvi-lo dizer, emburrado:
— Obrigado.
— O próximo, meu dragão azul — anunciou Ana.
Aguardamos enquanto ele voava lentamente em nossa direção, mostrando-se hesitante até Ana acariciar as laterais de seu corpo, como fizera quando ele era um peixe. Então ele pousou por completo, jogou-se no chão e rolou, deitando de costas para que ela coçasse sua barriga.
— Como você irá se chamar? — perguntou Ana.
O dragão bocejou portentosamente e ergueu uma pata para que ela alcançasse o lugar que ele queria. Suas escamas de um azul elétrico cintilavam com a luz. Somente quando Ana parou ele tornou a voltar sua atenção para ela. Ainda tentou cutucá-la com o focinho para que continuasse, mas Ana se recusou.
— Você deve me responder, dragão azul.
— Muito bem — disse ele. — Pode me chamar de Qīnglóng.
— Qīnglóng, recém-saído do oceano Antártico — disse Ana —, eu o encarrego de guardar os oceanos. Quando os marinheiros içarem as velas, verão o brilho de suas escamas na água e buscarão descobrir lugares além. Com esse importante símbolo, eu lhe concedo o poder e a permeabilidade da água. Da mesma forma que você traz as tempestades, também traz a vida. Seu domínio se encontra em todos os pontos ao sul do centro. Eu lhe concedo a leveza das nuvens.
Qīnglóng não pareceu dar muita importância a seus novos poderes. Ele simplesmente soprou com irritação as penas turquesa e púrpura que brotaram em suas costas e abanou a cauda, aborrecido. Ana lhe disse que podia ir, mas ele simplesmente rolou, ficando de barriga para cima, contorceu-se na neve e adormeceu com as perninhas curtas para o ar. Quando começou a roncar, Ana resmungou e disparou contra ele uma descarga leve, porém suficiente para acordá-lo e fazê-lo se mover.
— Quem é o próximo? — perguntou Ana, irritada, tirando fios de cabelo do rosto.
— Me escolha! Me escolha! — guinchou o dragão dourado. — Eu ia dizer que você deveria guardar o melhor para o fim, mas para que perder tempo quando se tem o melhor bem à sua frente?
Ana sorriu.
— Dragão dourado...
— Espere. Espere — implorou o dragão. — Você deve saber que não vivo terrivelmente preocupado com os outros. Alguns podem me chamar de egoísta. Assim, acho que é melhor você me conceder algo em que sabe que irei me destacar, como comer ou encontrar os melhores lugares para tomar banho de sol. Ah! Que tal ser lindo? Sou o mais deslumbrante dos dragões. Pode parecer que estou me gabando, mas você já estava pensando nisso, então não é me gabar de fato, certo? É apenas constatar o óbvio.
— Vou levar em consideração suas sugestões — disse Ana. — Como vai se chamar?
— Bem, essa é uma pergunta fascinante, não é mesmo? Existem tantas palavras que se poderia usar para descrever um dragão como eu. Indestrutível me vem à mente. Mas isso poderia incentivar os cavaleiros, não acha? Por outro lado, um nome como Mensageiro da Morte pode manter a plebe afastada. Sei que não quero nenhum nome bobo como Escamas Cintilantes ou Garra Afiada, embora eu seja o primeiro a admitir que provavelmente vou atacar quando estiver estressado. — Ele girou no ar, continuando seu monólogo: — E, definitivamente, nada com um “de” no título, como Protetor de, Campeã de ou Mensageiro de. Não. Existe muita expectativa atrelada a um nome assim.
Ana suspirou e, mentalmente, eu sugeri seu nome.
— Que tal Jīnsèlóng?
O dragão fez uma careta.
— Jīnsèlóng? Acho que não. É genérico demais para um ser tão complexo quanto eu.
— Talvez você tenha razão — disse Ana. — Por que não o usamos por enquanto, como um apelido? Assim você pode ter todo o tempo do mundo para pensar e voltar a mim quando tiver escolhido o nome definitivo.
— Acho que assim está bem — aceitou ele. — Desde que todos por aqui saibam que a questão ainda não está fechada.
— Muito bem. Então, Jīnsèlóng, recém-surgido do oceano Atlântico, eu lhe dou o dever de guardar os tesouros da Terra, tanto os ocultos nas profundezas das montanhas quanto aqueles criados pelos humanos. Quando a humanidade vir sua imagem na arte ou em entalhes, será inspirada por sua beleza, terá a imaginação despertada e criará. Com esse dever em mente, eu lhe concedo o poder do discernimento e o comando dos elementos para que você possa ir em busca do que é mais precioso e protegê-lo. Seu domínio se encontra em todos os pontos ao norte do centro. Eu lhe confiro a continuidade das ondas.
O dragão estremeceu quando suas escamas endureceram e se tornaram tão variadas na cor quanto os metais preciosos da Terra.
— Sou-lhe grato pelo presente que está me dando, não me entenda mal — disse o dragão para Ana —, mas tenho algumas perguntas relativas aos meus deveres.
— Confio plenamente em você — replicou Ana. — Se alguém pode proteger a riqueza e a beleza deste mundo, é você. — Inclinando-se para ele, sussurrou no ouvido do dragão: — É melhor não ficar falando muito sobre os seus deveres — disse. — Seus irmãos podem ficar com mais ciúme de você do que já têm.
O dragão dourado olhou na direção do dragão branco e estreitou os olhos com astúcia. Então voltou-se para Ana.
— Conselho muito sábio — falou, em um sussurro audível. — Falaremos mais a respeito em outro momento.
Ana piscou para ele, que se afastou, enrolou o corpo em um círculo e olhou com raiva os irmãos, como se eles quisessem roubar seu poder. Reprimi uma risada. Ela fora muito hábil ao lidar com ele. Tinha muita experiência no trato com soldados de todos os tipos. Dragões não eram assim tão diferentes, no geral.
— Dragão branco — disse Ana —, você é o próximo.
Quando ele se aproximou, soprou uma névoa gelada sobre nós.
— Desculpem — disse ele. — Ainda estou me acostumando à vida fora d’água.
Murmurei entre dentes:
— Eu não contaria com isso por muito tempo.
— Como vai se chamar? — perguntou-lhe Ana.
Ele hesitou por um momento, olhando nos olhos da deusa enquanto ela olhava nos dele. Tive a sensação de que estavam se comunicando mentalmente, embora eu não ouvisse nada.
— Acredito que deva adotar o nome de Yínbáilóng — respondeu o dragão.
— É uma escolha muito apropriada — disse Ana, aprumando os ombros, como se tomasse uma decisão. — Yínbáilóng, que acaba de nascer do oceano Ártico, será o líder de seus irmãos. Como tal, eu lhe outorgo o dever de protegê-los, assim como a todos os habitantes da Terra. Seu domínio se estende até muito distante, tocando todos os mundos que circulam o Sol. Quando os homens voltarem o rosto para buscar a calidez dourada de seus raios, sentirão sua proteção e serão lembrados do que significa ser nobre e sábio. Por causa disso, eu lhe atribuo os poderes do bom senso e a habilidade de equilibrar todas as coisas. Seu domínio é o centro. Não o centro deste mundo, mas o centro de todas as coisas. Eu lhe concedo a quietude da neve.
Quando o poder a deixou mais uma vez, o corpo do dragão branco reluziu. Pingentes de gelo cresceram sobre seus chifres e o pelo em suas costas tornou-se espesso e branco. Eu agora sustentava totalmente o peso dela.
— Sohan — sussurrou ela e abriu a boca, como se fosse falar mais, mas seu olhos se reviraram.
— Ana? — Eu a peguei quando ela perdeu as forças. — Ana!
— Ela só está exausta, Pai — disse Yínbáilóng. — Mas, se você nos guiar, podemos ajudar. Ponha a mão no peito dela e nós cinco poderemos recorrer ao poder dos corpos celestiais aos quais agora estamos ligados. Venham, irmãos.
Todos se aproximaram, as imensas cabeças balançando-se juntas. O dragão branco me disse que atuaria como veículo, canalizando o poder dos outros. Usando nossa conexão, verti minha energia para Ana através da palma de minha mão. O processo começou e os cinco dragões se encheram de uma luz que explodiu e se projetou sobre a montanha, criando um matiz de arco-íris que iluminou o céu. O feixe colorido envolveu Yínbáilóng.
Uma coluna de luz me atingiu e cambaleei por um instante, mas mantive Ana segura com firmeza. Olhando para cima, vi que a luz vinha dos olhos de Yínbáilóng. O calor envolveu meu corpo e, quando abri a mente para os dragões, vi cada um deles através de um novo olhar. O pedaço do tempo do amuleto me mostrou o que eles fariam e como influenciariam a humanidade ao longo dos éons. Aparentemente, eles viram o mesmo que eu.
Quem é você, Pai, que pode nos mostrar tais maravilhas?, perguntaram eles em minha mente.
Enquanto eu canalizava a energia do cosmo a partir da oferenda que os dragões fizeram, conduzindo-a para Ana, respondi: Sou aquele que vaga. Aquele que sabe tudo, mas prefere vivenciar o mundo como alguém alheio. Um dia, sua mãe e eu deixaremos os mistérios deste mundo para vocês cinco, mas, por ora, deem-se por satisfeitos. Aprendam e cresçam, e usem sua grande influência para o benefício de outros.
Sim, Pai, responderam os cinco dragões.
Ana piscou lentamente e eu a aconcheguei a mim.
— Obrigada, meus grandiosos filhos — disse Ana, tocando o dragão vermelho.
— Há mais alguma coisa que possamos fazer por vocês? — indagou Lóngjūn.
— Sim — disse Ana. — Um dia virão viajantes em busca de sua ajuda. Eles terão o toque da deusa. Ajudem essas pessoas em suas causas e saibam que, quando as ajudarem, estarão ajudando a mim. Se algum dia precisarem de mim, basta chamar e eu ouvirei sua súplica e mandarei ajuda no que me for possível. Agora vão — instou ela. — Construam palácios em seus domínios e encontrem paz e segurança em seus novos lares.
Um a um, os dragões elevaram-se no ar, ondulando como fitas ao vento. Quando o último desapareceu nas nuvens, perguntei a Ana:
— Como você está, de verdade?
— Estou me recobrando enquanto falamos. Pode me pôr no chão agora. Acho que posso ficar de pé.
— E se eu gostar de ter você exatamente onde está? — perguntei, acariciando-lhe a orelha com meu nariz.
— Pensei que aqueles beijinhos fossem para receber alguém que estivesse longe de casa.
— Podem ser para outras coisas também — falei, beijando a curva de seu pescoço.
— Haverá tempo para uma terceira aula mais tarde. Estamos quase chegando ao fim da lista.
Ergui a cabeça, surpreso.
— Verdade? Pensei que nunca acabaríamos.
Ana me espiou através dos cílios semicerrados.
— Talvez, se terminarmos hoje, possamos tirar umas... Como é mesmo? Umas férias?
A ideia de relaxar em uma praia distante com Ana de biquíni era, para mim, motivação mais do que suficiente para concluir o trabalho. Coloquei-a no chão com delicadeza.
— O que vem agora? — perguntei, um tanto ansioso demais.
— Acredito que seja criar o mar de leite e designar um guardião para ele.
Franzindo o nariz, eu disse:
— A sereia? — Suspirei. — Bem, vamos atrás de uma sereia. — Ela estava prestes a nos teletransportar para longe da montanha quando peguei sua mão e pedi: — Espere.
— O que foi?
— Não apagamos as mentes dos dragões. Eles vão se lembrar de mim.
Ana sorriu.
— Duvido.
— Por quê?
— Para eles, todos nós, humanos, temos a mesma aparência. Exceto, talvez, para Yínbáilóng. Ele é bastante inteligente. Sua mente procura aprender. Terei de visitá-lo novamente em breve e dizer-lhe que limite as informações que compartilhar com você no futuro.
Ana me abraçou pela cintura e a montanha desapareceu. Seguiu-se a isso a vertigem e um forte estalo em meus ouvidos. Ana e eu nos curvamos após a transição, segurando a cabeça, mas logo a sensação se dissipou.
— Estamos bem abaixo do oceano — expliquei. — Acho que é por isso que dói, mas parece que o amuleto está nos protegendo da pressão.
Os olhos dela se arregalaram.
— Sério? Estamos debaixo do mar?
— Sim, esta caverna é parte de um túnel de gelo que o dragão branco usa para se deslocar debaixo d’água sem se molhar.
— E esse tal mar de leite que tenho que criar?
Descrevi a fonte, a sereia, a chave e o fato de que fui eu que tive de nadar para buscá-la. Ana criou a fonte com facilidade e usou o pedaço da água do amuleto para formar um amplo lago na caverna, mas, até onde eu podia dizer, nada havia de diferente na água.
— Deveria ser branca. A água, digo — expliquei.
— Então vou convocar a guardiã. Talvez ela saiba a razão.
Ana chamou o tridente, mergulhou os dentes dele na água e mexeu. Fechando os olhos, murmurou, convocando um viajante desejoso de servir. Seus olhos de repente se abriram.
— Ela está vindo — informou.
Com um floreio de sua mão, o tridente desapareceu.
Um momento depois, a água ondulou e uma sereia de cabelos louros surgiu, espiando-nos.
— Olá! — disse ela. — Alguém chamou uma sereia?
Vendo sua aparência, perguntei a Ana:
— Ela é parente daquelas que vivem na grande árvore em Shangri-lá?
— De certa forma.
Ouvi uma risadinha e a sereia transformou-se em névoa. Sua forma fantasmagórica percorreu a passagem na direção da fonte. Nós a seguimos. Quando chegamos, ela já estava relaxando na piscina.
— Que gracinha! — falou. — Mas eu não me importaria se vocês ligassem o aquecimento.
Ana aquiesceu e o ar em torno dela foi tomado por vapor. A sereia suspirou, contente, e tornou a relaxar na água.
— Você servirá por um tempo? — perguntou Ana à sereia. — Viajantes não tardarão e vão precisar de uma chave.
Ana então exibiu uma chave na palma da mão. Quando perguntei como sabia que ela abriria o templo, Ana disse que o templo ainda não havia sido construído, mas que faríamos isso em seguida.
A sereia inclinou-se sobre a borda da fonte, arqueando deliberadamente o corpo para se exibir.
— Acho que posso fazer isso. Com o incentivo certo — disse, piscando para mim. — Oi. Meu nome é Kaeliora.
Franzindo a testa, Ana perguntou:
— Qual prêmio você gostaria de ganhar em troca da ajuda?
Kaeliora fingiu pensar a respeito.
— Estou solitária há muito, muito tempo — disse ela, erguendo a longa cauda da água e deslizando as mãos provocantemente pelas escamas. — Acho que um beijo seria o suficiente para me motivar.
— Você quer que eu a beije? — perguntou Ana com uma careta.
A sereia revirou os olhos.
— Você não. Ele.
A maneira como disse ele fez com que eu me sentisse desconfortável e me remexi.
— Olhe — eu disse —, não acho que isso seja...
Ana me interrompeu.
— Essa é a sua única exigência? — perguntou de maneira formal.
— Ah, acho que isso deve bastar. Contanto que ele cumpra a tarefa com entusiasmo, digamos assim.
Eu disse “Não” ao mesmo tempo que Ana dizia “Muito bem”.
A sereia bateu palmas, contente.
— Oba! — Ela deslizou o corpo ágil, içando-o para o banco na borda da fonte, e estendeu os braços gotejantes. Depois acenou para mim, rindo roucamente. — Venha aqui, lindo.
Virando-me para Ana, sibilei:
— Não podemos lhe oferecer outra coisa?
— Essa é a exigência dela — replicou Ana. — Você sabe que essa proximidade com outro ser é o que lhes fornece sustento. Em essência, ela está pedindo comida. Como podemos pensar em privá-la de algo tão básico?
— É, eu sei, mas...
— Apenas beije e acabe logo com isso — ordenou Ana, irritada.
— Isso parece um teste — comentei. — É um teste?
— Não sei a que você está se referindo.
— Um teste de relacionamento. São comuns no tempo de Kelsey. As mulheres submetem os homens a pequenos testes de integridade e compromisso.
— A única avaliação que faço em relação aos homens é de sua habilidade em proteger minha retaguarda durante a batalha. Se falharem nesse aspecto, são destinados a outras tarefas ou dispensados. Você há muito provou seu valor nessa função. Como a presente situação faz parte do nosso trabalho, não se aplica a nosso... relacionamento. Pode ter certeza de que não o estou testando de maneira nenhuma.
Racionalmente, eu compreendia o que ela estava dizendo, mas meus instintos ainda me indicavam que alguma coisa não estava certa.
— Tem certeza que quer que eu faça isso?
— Tenho.
— Tudo bem — eu disse, andando na direção da fonte de forma tão lenta e apreensiva quanto um homem seguindo para a forca.
Olhei várias vezes por sobre o ombro para Ana. Primeiro, ela acenou para que eu prosseguisse e, então, quando me aproximei da fonte, olhou para outro lado. Eu não sabia se isso era um bom ou um mau sinal.
— Agora, é melhor você fazer valer — advertiu Kaeliora. — Caso contrário, não tem acordo.
É só sustento, pensei. Sombriamente, sentei-me ao lado dela e tomei sua forma voluptuosa nos braços. Ela se contorceu, aconchegando-se a mim até que suas curvas cobertas de escamas estivessem tão coladas em meu corpo que fiquei surpreso que ela conseguisse respirar. Kaeliora passou a língua pelos lábios, lenta e avidamente, e eu baixei a boca até a dela. Em questão de segundos, esqueci onde eu estava, quem eu era. Tudo que importava era seu beijo voluptuoso. Seu sabor e seu cheiro estavam me enlouquecendo. Eu precisava de mais. Segurando seu corpo escorregadio, puxei-a parcialmente da fonte, colocando-a em meu colo, alheio ao fato de que estava ficando encharcado. A água estava quente, mas não tanto quanto a mulher em meus braços. A pele nua que eu tocava me queimava.
Minhas mãos vagavam por suas costas, penetravam na massa encharcada dos cabelos muito claros. Seu suspiro de encontro à minha boca era suave e tinha o gosto do sal do oceano. Enterrei os dedos em suas escamas e ela arquejou, deixando escapar um leve gemido de prazer. Cores e imagens atravessaram minha mente — escamas azul-celeste, coral, azul-claras e cinza-tubarão. Elas pulsavam e giravam cada vez mais rápido, num ritmo selvagem, e meu corpo dançava, acompanhando, afundando lentamente. Juntos, disparamos rumo a um desfecho desenfreado.
Eu não estava ciente do frio até que Kaeliora estremeceu de encontro a mim. Ela forçou os lábios a descolarem dos meus.
— Pare — murmurou. — Pare! — gritou.
Seus lábios adquiriram um tom azul glacial e sua pele estava branca feito porcelana. Nuvens de ar brotavam de sua boca, turvando o espaço entre nós. Ainda sob seu domínio, tornei a puxá-la para mim, minha mente enevoada pelo desejo. Com um violento empurrão, ela me impeliu para longe e eu cambaleei, atordoado, meus dedos se fechando com a necessidade de tomá-la nos braços outra vez.
— Não! — gritou a sereia. — Fique longe.
Confuso, virei a cabeça para ver o que a sereia estava olhando e vi uma mulher cheia de fúria e poder. Seus cabelos da cor da meia-noite se projetavam, flutuando ao redor dela e criando uma moldura para seu rosto. Bolas prateadas de luz crepitavam nas palmas de suas mãos. Ela olhou para mim com uma repugnância crua e, enquanto eu a fitava, fascinado, seus olhos passaram do oliva escuro ao esmeralda e ao cromo.
A pele dourada da mulher se iluminou, tornando-se luminescente. Quando ela ergueu as mãos, seu corpo se elevou no ar. Eu estava hipnotizado por sua beleza, isto é, até ela lançar seu poder direto em minha cabeça. Essa foi a última coisa de que tive consciência antes que o mundo à minha volta ficasse todo branco.

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