12 de setembro de 2018

33 - Templo da Água


Recuando depressa, ela jogou outra espada para mim.
Virei-me e apanhei a arma no ar.
— Onde conseguiu estas? — perguntei, admirando a espada cinza-escuro polida e afiada.
Ana deu de ombros.
— Peguei-as emprestadas de um líder guerreiro.
Soltei um grunhido exasperado.
— Você saiu e fez alguma coisa sem mim de novo?
Com um sorriso lupino, ela disse:
— Se você me derrotar, eu conto.
Então deu um salto para a frente e sua espada desceu com força suficiente para separar minha cabeça do corpo. Girei e minha lâmina encontrou a dela com uma chuva de centelhas. Empurrei-a, mas ela estendeu as pernas fortes e rodopiou com graça felina, conseguindo fazer um corte em meu braço. O sangue escorreu pelo cotovelo. Olhando para baixo, franzi a testa ao observar o ferimento cicatrizar sozinho.
— Por que está fazendo isso, Ana?
Enquanto andava de um lado para outro, à espera de meu ataque, ela replicou:
— Por que você faz tantas perguntas?
— Talvez porque nunca me conte o que está acontecendo com você.
— Que tal se eu mostrar em vez de falar?
Ela brandiu a espada de um lado para outro, defendendo-se e atacando, em perfeita simetria. Seu cabelo esvoaçava formando um arco atrás dela e, se eu pudesse escolher, teria simplesmente me sentado para assisti-la em ação. Ana era melhor do que Kadam. Era melhor do que eu. Quando era menino, eu tinha visto Ana lutar com minha mãe, a mulher que Kadam dissera que era invencível. Eu não reconhecia completamente a habilidade de Ana na época, mas agora, sem dúvida, sim. Ela era boa o bastante para vencer minha mãe. Enquanto dançava a meu redor, sua arma mortal zumbia. O som do choque metálico das espadas era como uma canção doce, porém perigosa — uma canção tão sedutora quanto a mulher.
Ana golpeou meu pulso, empurrando-o contra o chão, e o punho de minha espada atingiu o solo com tamanha força que uma pedra se despedaçou. Saltei, girando acima dela no ar, e quiquei na parede. Disparando na direção dela, apontei a espada para sua barriga, mas Ana torceu o corpo com destreza, como eu sabia que faria, e eu passei por ela, rolando e assumindo a posição de prontidão mais uma vez. Lutamos sem parar. A efígie de cera perdeu braços e depois a cabeça.
Estalei a língua e a provoquei, dizendo que ela estava desrespeitando a deusa.
— Se alguém aqui desrespeita uma deusa, é você — disse ela ofegante, enxugando com as costas da mão uma gota de sangue que escorria de sua boca.
Como eu a estou desrespeitando? Foi ela quem quis lutar. Aproveitando-me de sua distração, desci o punho da espada sobre seu pulso. Ela soltou a arma, que deslizou para longe. Eu estava prestes a segurá-la quando ela deu uma cambalhota para trás, chutando meu queixo durante o movimento. Quando ficou em pé novamente, a espada estava de volta em sua mão.
— Isso é tão típico de você — observou ela. — Morder a mão que o alimenta.
— Você está me confundindo com um cão — retruquei. — Sou perfeitamente capaz de me alimentar sozinho.
— Ah, sim. Esqueço que você não precisa de mim para nada.
Ana avançou mais uma vez, de maneira calculada, recitando uma lenga-lenga sem perder o foco. Eu a bloqueei com a espada, o braço e as pernas, sem de fato tentar vencer, mas ao menos procurando impedi-la de enfiar a espada em meu coração, o que ela parecia comprometida a fazer.
Eu esperava que o que quer que a estivesse motivando arrefecesse em algum momento, mas sua força não se abrandou. Na verdade, pareceu se intensificar. Se eu não colocasse fim à luta, um de nós ou mesmo nós dois poderíamos sair gravemente feridos. Depois que ela cortou meus dois calcanhares, abriu um talho em meu rosto e feriu meu ombro, eu rosnei:
— Está tentando me matar?
— Se eu quisesse vê-lo morto, você já estaria.
— A essa altura você ainda não aprendeu que mexer com um tigre é uma coisa tola a se fazer?
— O que você pretende, tigre de ébano? — retrucou ela, com deboche. — Mostrar as garras para mim? Por favor. Conheço todos os seus truques.
Ela fungou e passou a mão pelo nariz, deixando uma atraente mancha de poeira.
— Nem todos — murmurei entre dentes.
— Ao menos ele seria um adversário de mais valor — prosseguiu ela, ignorando o que eu tinha dito. — Mas tenho que lhe dar crédito por tentar. O que, eu lhe asseguro, é algo que não estou acostumada a fazer. — Movendo-se para a frente e para trás, estreitando os olhos, a espada em prontidão, ela completou. — Vá em frente. Ande. — Agitando os braços freneticamente, insistiu: — Transforme-se em tigre e veremos como se sai contra mim. Não que você vá fazer isso. Não. É tímido demais para fazer algo assim. Você vem correndo atrás de humanos há muito tempo.
Rodeamos um ao outro. Alguma coisa estava muito errada, porém, por mais que eu me esforçasse, não conseguia descobrir o que era.
— Caso tenha se esquecido, você também foi mortal um dia — falei.
— Sim, mas eu nunca fui fraca.
Ergui uma sobrancelha e ela rosnou e atacou com violência, provavelmente supondo que eu estava insinuando algo sobre sua infância. Ela então não sabe que eu jamais usaria seu passado contra ela? Essa simples ideia me causava aversão.
Esquivando-me e aparando os golpes, defendi-me de seu ataque furioso, mas isso era tudo que eu podia fazer para não perder terreno. Ela continuava a me provocar, instigando-me a reagir, mas eu não queria machucá-la, e estávamos ambos ficando cansados e negligentes. Ela podia se curar com o kamandal, porém, e se eu acidentalmente desferisse um golpe mortal? Jamais me perdoaria.
Ana estava frustrada com minha hesitação. Em tom sarcástico, ela provocou:
— Já disse recentemente que acho que você está ficando velho? Sua versão mais jovem tinha músculos bem definidos e ombros largos. Temo que você tenha se permitido amolecer. Sua forma de tigre é esguia. Agora dá para perceber um queixo duplo e seus músculos estão molengas como massa de pão antes de assar. Além disso, acho que seu cabelo está ficando ralo — aferroou-me. — Talvez seja falta de carne vermelha na sua dieta.
Por um instante fiquei paralisado, espantado com sua emboscada verbal. Ela está de brincadeira comigo? Quase sem pensar, passei a mão pelo alto da cabeça e depois grunhi quando ela bufou. Ana rodopiou, erguendo a espada. Estava tentando me distrair ferindo meu ego e, para minha grande consternação, tinha funcionado.
— Está vendo? — acrescentou, empurrando a ponta da espada contra meu peito. — Você não é mais páreo para mim. Eu já poderia ter matado você várias vezes só no último minuto. E nem precisei usar meus poderes. Esse é o tamanho da sua impotência!
Levantando as mãos, semicerrei os olhos e disse:
— Você abusa, Ana. Não sei o que está passando por essa sua cabeça agora. Quem me dera saber. Mas, como você parece não confiar em mim, acho melhor eu não lutar contra você agora.
— É claro que você não quer lutar — retrucou ela, com raiva. — Você não quer nada comigo. É um molenga que só quer combater com palavras leves que nada significam. Você me mantém perto enquanto lhe convém e depois me deixa de lado quando quer ficar sozinho. Não entendo você. Você lutou com Kelsey. Por tempo suficiente para que ela se tornasse uma lutadora decente. Por que não faz o mesmo comigo? Você me deve ao menos isso.
Soltando um suspiro de frustração, eu disse:
— Primeiro, Kelsey não estava tentando me matar quando treinamos. Segundo, você não precisa de mim para treiná-la. Você já é melhor do que eu. É isso que quer que eu admita? Que é mais poderosa? Isso é fato. Você é uma deusa.
— Sim — gritou ela. — Eu sou a todo-poderosa, intocável deusa Durga. Boa demais para você para merecer qualquer esforço seu. Onde sou o oceano, outras mulheres são como córregos gotejantes. Mas eu lhe pergunto: onde os homens vão beber? No mar salgado ou nas águas frescas e sedutoras de oásis que têm mais a oferecer?
Quando olhei para ela em silêncio, confuso pela mudança de assunto, ela franziu o nariz e debochou:
— Acho que nós dois sabemos o que você prefere. — Olhando-me de cima a baixo, seus olhos verdes cintilantes e frios, ela encerrou dizendo: — Você é um covarde, Kishan.
Retesando a mandíbula, ergui um dedo, golpeando o ar com ele.
— Não me chame de Kishan. Quer lutar, Ana? Tudo bem. Então largue sua arma. Vamos lutar do jeito que lutei com Kells.
— Não quero ouvir nada sobre o que você fez com Kells. — Ana sibilou a última palavra, mas estalou os dedos e as espadas sumiram.
— Lembre-se — adverti, levantando as mãos e rodeando-a. — Foi você quem quis isso.
— Por que se dar o trabalho de fazer o que eu quero agora? Você nunca fez isso antes.
Eu estava prestes a chamá-la de insuportável quando ela atacou. Antes que eu entendesse o que tinha acontecido, estava caído de costas com ela em cima de mim, batendo minha cabeça contra o chão de pedra. Agarrando seus ombros, girei, jogando-a para o lado, mas ela logo se pôs de pé e, assim que me levantei, seu pé atingiu-me no estômago. Com um zunido, o ar deixou meu corpo e eu me dobrei. Seu joelho atingiu meu queixo e ela torceu um de meus braços atrás das costas.
— Eu disse que você estava ficando mole — disse ela, e seu hálito quente fez cócegas em minha orelha.
Algo primitivo se moveu dentro de mim e eu rosnei. Pisei com força em seu pé e em seguida recuei depressa até ela atingir o muro de pedra. O som inconfundível de seixos caindo no chão significava que tínhamos quebrado mais um pouco do templo. O golpe cortou sua respiração e ela soltou meu braço.
Girando com velocidade, encaixei uma das pernas entre as dela e, com uma rasteira, tirei seus pés do chão. Ela bateu com força no piso sólido e tive um momento de fraqueza. Chegando mais perto, perguntei se ela estava ferida, mas Ana abriu os olhos, sorriu e me chutou no rim em retribuição a meu esforço.
A partir daí, tudo poderia acontecer. Nós mergulhamos e giramos. Imobilizamos um ao outro com gravatas. Lançamos um ao outro à distância até estarmos esgotados, machucados e certamente com um osso quebrado, ou dois, ou vinte, mas nem eu nem ela estávamos inclinados a parar. A luta tornara-se desesperada, quase cruel.
Ambos estávamos tentando provar algo para o outro, mas nenhum de nós tinha ideia de como fazer isso. Eu não tinha noção de quanto tempo se passara, mas, quando olhei para cima, os pulmões arfando, vi que a luz no templo havia se deslocado pelo chão e subira até o teto. Estávamos ambos exaustos. Fingi sair pela esquerda e peguei-a desprevenida. Pressionando-a contra a parede, empurrei meu braço pesado contra sua garganta e disse:
— Ainda acha que sou mole?
Ela inclinou a cabeça, como um pássaro, sem se importar com o fato de que eu poderia cortar sua respiração a qualquer momento.
— Mole talvez não, mas ainda um covarde.
O lindo vestido de Ana estava rasgado e se agitava, esfarrapado em vários lugares. Uma das mangas, solta, tinha escorregado precariamente de seu ombro cor de mel. O cabelo, antes penteado com perfeição, caía em torno dela em um emaranhado rebelde, oferecendo-me vislumbres provocantes das generosas curvas que seu vestido agora mal cobria.
Embora estivesse presa, ela se debatia, tentando me chutar entre as pernas ou pisar em meu pé.
— Ora, ora. Nada disso, minha bela senhora.
Cheguei mais perto, meu corpo empurrando firmemente o dela, de tal forma que não havia qualquer meio de ela se mexer.
Ela ofegou e meus olhos foram atraídos para sua boca voluptuosa. Senti um tremor atravessar seu corpo e soube o que era. Medo. Não medo da derrota ou da morte, mas medo do que um homem podia fazer a uma mulher vulnerável. Isso me despedaçou por dentro.
— Admite a derrota? — perguntei suavemente.
— Jamais — respondeu ela, levantando o queixo em desafio.
Seu rosto estava corado da luta. Seu cabelo estava úmido de suor, e os olhos, duros como pedras preciosas. Havia uma mancha de sujeira em seu rosto e outra atravessando sua testa. Não importava. Ela era linda. Era fascinante.
Apesar do frio que sentia por saber o que um homem tinha feito com ela quando criança, era impossível para mim não a querer. Fechando os olhos, tentei controlar meu desejo. O tigre em mim capturara sua presa e não estava disposto a deixá-la escapar. Queria cravar nela suas garras e reivindicar o que era seu por direito. Mas eu não era um animal. Pelo menos, não sempre.
Sem confiar em minha voz, falei com ela mentalmente.
Sei por que você treme, Ana. Confie em mim quando digo que será mais fácil para você se afastar do que para mim. Use sua magia para escapar, pedi, tentando persuadi-la.
Você acha que eu quero fugir?, indagou ela.
Confuso, tirei lentamente meu braço de sua garganta.
Se pudesse ler meus pensamentos, você ia querer.
— Não tenho medo dos seus pensamentos — retrucou em voz alta.
— Então diga o que quer de mim — repliquei, a voz baixa e ameaçadora. Com os olhos fixos na pulsação em sua garganta, baixei a cabeça, engoli em seco e disse: — O que você quer, Ana?
Suas sobrancelhas escuras se ergueram e ela passou a língua pelos lábios. Então, com a voz presa na garganta, nossos hálitos quentes se misturando, ela respondeu:
— Eu quero… eu quero…
Mas, antes que ela pudesse terminar, fechei sua boca violentamente com a minha. Eu esperava que ela me empurrasse ou desaparecesse, mas aconteceu exatamente o contrário. Ela gemeu e segurou minha nuca, puxando-me para mais perto. Quando seus lábios se abriram, foi minha vez de gemer. Entrelaçando meus dedos nos dela, pressionei suas mãos contra a pedra. Seu corpo inteiro se mexia sinuosamente e se espremia contra o meu, enquanto seus lábios dançavam com os meus com tanta violência quanto a que ela havia mostrado durante a luta.
Embora eu não tivesse consciência de nada no começo, exceto de sua boca e de seu corpo, logo reconheci o formigamento revelador do poder que significava nosso vínculo. Embora discreto e abafado no início, quanto mais tempo o beijo durava, mais ele revigorava nossa conexão. Eu estava inebriado por isso. Por ela.
Uma parte de minha mente sabia que haveria uma consequência. Que esse vínculo se tornaria permanente entre nós se eu permitisse que se desenvolvesse por completo. Soltei um grunhido do fundo da garganta, sabendo que ela merecia escolher. Isso foi tudo que eu pude fazer para deter a maré e perguntar se era aquilo que ela queria.
Ana? Meu corpo vibrava, mas liguei meus pensamentos aos dela, enviando-lhe uma imagem vaga do que estava acontecendo.
Sim, foi sua única resposta.
Foi como derramar gasolina na fogueira. Não havia mais dúvida. Nem hesitação. Nem perguntas. Apenas posse. E a necessidade urgente de forjar em aço indestrutível as correntes incandescentes que nos conectavam. Logo meus braços e pernas crepitavam com uma energia prateada. O zumbido produzido por nosso vínculo se iluminou e se intensificou, equiparando-se ao estrondo da paixão enquanto torturávamos um ao outro, atiçando o fogo do desejo.
Ela escapou de meu abraço e puxou meus cabelos, enquanto eu envolvia sua cintura com um dos braços e a levantava, deslizando minha outra mão por dentro de seus cabelos soltos e inclinando sua cabeça para que o beijo se aprofundasse. Quando uma de suas pernas subiu pela minha coxa, fiquei muito perto de perder o pouco controle que me restava.
O beijo interminável era violento e brutal, perigoso e ardente. Muito diferente daquele trocado na floresta, mas não menos poderoso e transformador. Era ao mesmo tempo punitivo e promissor. E sussurrava coisas para as quais nenhum dos dois estava pronto. Então eu a empurrei contra a parede para prender seu corpo e acalmar sua reação febril. Não adiantou muito para esfriar meu sangue, que fervia, mas funcionou nela.
Interrompendo o beijo, encostei minha testa na dela. Estávamos ofegantes. E eu temia que o que quer que eu dissesse em seguida pudesse arruinar tudo e nos levar de volta para onde estávamos quando ela me jogou a espada. Antes que eu pudesse falar, ela advertiu:
— Se tentar pedir desculpas, vou banir você para o abismo mais sombrio que puder encontrar.
— É bom saber — falei, uma espécie de alívio percorrendo meu corpo.
Ao levantar a cabeça, vi que ela não me olhava nos olhos. Ergui o cabelo que caía sobre seu rosto molhado e o empurrei para trás de seus ombros, depois gentilmente deslizei a mão por seu braço, saboreando o formigamento familiar.
— Nosso vínculo está de volta — comentei, erguendo o canto da boca.
Vínculo parecia uma palavra muito insignificante para algo tão íntimo, tão indefinivelmente poderoso.
— É o que parece — disse ela.
A expressão de Ana não me dava qualquer indicação de que ela fora tão afetada pelo beijo quanto eu. Seus músculos mostravam-se tensos e sua pele estava quente. Ela era uma mola pronta para saltar.
Inclinei-me para trás, mas não estava disposto a tirar as mãos de sua pele.
— Por que não abre sua mente para mim? — perguntei em voz baixa, adorando a vibração de nossa conexão, que lançava comichões na palma de minha mão onde eu a tocava. Apesar do corpo dolorido e dos músculos cansados, meus nervos estavam revigorados só de estar perto dela. — Preciso entender o que está acontecendo aqui. Quero saber o que você está pensando — insisti. — Compartilhe seus pensamentos comigo, Ana. Por favor.
Afastando-se de mim, ela se virou e saiu do templo. Eu sentia cada centímetro que ela colocava entre nós como se fosse 1 quilômetro. Eu a queria de volta em meus braços com uma intensidade que me chocou. Nunca em minha longa vida me senti tão possessivo em relação a uma mulher como me sentia em relação a Ana. Naquele momento, percebi que nunca quis me separar dela. Com Yesubai e Kelsey eu sentira atração e ternura. Ambas eram doces e amorosas. Retribuí o afeto delas e acho que poderia ter sido feliz com qualquer das duas.
Mas com Ana havia dor. Era bruto e doloroso. Ana tinha o poder de me irritar tanto que eu perdia a cabeça, e tudo que eu queria fazer era… empurrá-la contra uma parede e beijá-la até ela parar de falar. Quando ela estava triste, queria tomá-la nos braços e abraçá-la até passar toda a sua tristeza para mim, compartilhando sua dor como ela havia feito quando eu estava sofrendo. A ideia de fazê-la feliz era um desejo que me perseguia.
Era ela a mulher em meu sonho. Reconheci a curva de seu rosto, a maciez de seus cabelos e o sabor de seu beijo. Eu estava absolutamente certo disso agora. E faria qualquer coisa para tornar essa doce visão realidade.
Com Ana, minhas emoções estavam fora de controle como nunca estiveram com as outras duas garotas. Amá-las parecera fácil. Mas com Ana era complicado. Difícil. Mesmo garoto, chorei quando ela me deixou. Aparentemente ela sempre conseguia arrancar reações emocionais de mim.
Observando-a sair, fiquei muitíssimo consciente do ritmo de meu pulso. Ela era tudo que eu via. Tudo em que eu pensava. Eu não sabia rotular meus sentimentos. Amor não parecia abranger tudo isso. Não era o suficiente. Eu precisava da ajuda de Ana para nos definir. O que éramos, o que poderíamos ser, era algo muito grande, muito significativo para que eu tentasse identificar sozinho.
Quando me juntei a ela do lado de fora, fiquei espantado ao ver que a espessa camada de neve e gelo ao redor do templo havia derretido. Já acontecera isso antes. Eu me lembrava agora, mas na época pensei que era por causa do fogo ou do poder da deusa. Agora sabia que tinha sido causado por outra coisa. Vapor brotava do chão e a terra florescia com uma nova vida. Como com a árvore em Shangri-lá, a mudança na paisagem foi o resultado direto de nosso beijo.
Enquanto eu me encantava com o efeito de nosso encontro apaixonado, ela disse:
— Há uma escuridão que me consome nos meus momentos de maior fraqueza. Não vou deixar que você veja, Sohan.
Franzindo a testa e desejando que ela pudesse confiar em mim, eu disse:
— Nada que você me mostre eu vou achar feio, Ana.
Aproximei-me, querendo ficar perto dela. Ela passou os braços ao redor da própria cintura, como que para se proteger. O fogo, a ira e a paixão tinham se esgotado e o que restou era algo pesaroso, desesperado e frágil. Hesitante, coloquei as mãos em seus braços, puxando-a de volta a meu peito e dando-lhe espaço suficiente para se desvencilhar, caso preferisse.
Ana apoiou a cabeça em mim e passei os lábios pela curva de seu pescoço macio bem devagar. Minhas mãos deslizaram por seus braços e envolveram as dela. Um calor vivo, lânguido e pacífico percorreu minha pele. Tentei virá-la para mim, querendo mostrar-lhe um lado diferente, não um homem tomado pelo desejo, mas alguém que poderia ser atencioso e apaixonado. Seu corpo se retesou e ela levantou a cabeça. Eu a soltei na mesma hora. Percebi seus ombros caídos.
Fale comigo, implorei. Se ela me ouviu, não respondeu.
A atmosfera da área que cercava o templo tornou-se silenciosa e me dei conta de como estava frio. Não demoraria muito para que o lugar mais uma vez se cobrisse de neve e gelo. Minha respiração se condensou em vapor e vi a nuvem reveladora da respiração ofegante em torno da cabeça de Ana quando ela soltou o ar. No entanto, ela não olhou para mim.
— Como eu tecnicamente a venci, acho que você deveria me dizer onde conseguiu essas espadas.
Fiz uma careta ao dizer isso, sabendo que tinha falado uma bobagem, mas tentando melhorar o clima.
— Eu menti — respondeu ela em voz baixa. — Bem, não exatamente. Elas me foram dadas por um líder guerreiro quando o derrotei em batalha. Fazem parte da minha coleção.
— Então você foi vapt-vupt até em casa enquanto eu a esperava?
— Não sei o que significa vapt-vupt, mas, se está perguntando se eu saí daqui, a resposta é não. Eu as convoquei.
— Pode fazer isso sem desaparecer?
— Fiz a mesma coisa com o fragmento da pedra da verdade no Bosque dos Sonhos. Meus poderes aumentaram — disse ela com tristeza, quase como se pensar nisso a fizesse perder a esperança. — É como usar minhas habilidades sem que os presentes estejam por perto. Mesmo quando você se afasta de mim por séculos e por uma distância que levaria meses para atravessar a cavalo, ainda posso acessar e usar o Amuleto de Damon.
Sem saber o que dizer, perguntei, mudando de assunto:
— Por que você me chamou de Kishan antes? De todos os insultos que ouvi de você, acho que esse foi o pior. E, já que estou na berlinda, por que você estava descaradamente se atirando para o meu antigo eu?
Ela se virou para mim com um sorriso irônico e suspirou.
— Só o chamo de Kishan quando você me irrita. Quanto ao seu antigo eu, ele enxerga somente a mim. É verdade que provavelmente está apaixonado pela deusa, mas não conhece as coisas ruins que meu passado abriga. Tudo que ele vê é uma mulher por quem se sente atraído. Você, por outro lado, sabe de tudo. É... mais fácil dizer a ele o que tenho vontade de dizer.
— Então… está dizendo que queria flertar comigo? — perguntei, retorcendo a boca.
— O que significa flertar?
— Significa seduzir com palavras. Para provocar de um jeito romântico.
— Para mim não é natural falar com um homem de tal maneira. Você é uma exceção. O antigo você, quero dizer.
— Eu não me importaria se você treinasse sua habilidade de flertar com esta versão de mim — informei com um sorriso torto. Estendi a mão e ela colocou a dela sobre a minha. Eu a puxei para mais perto. — Senti ciúme dele, sabia?
— Ciúme de você mesmo? — ela debochou, inclinando a cabeça.
— Não gostei de ver você cobrindo-o de atenção.
Segurando seu queixo, estava prestes a abaixar minha cabeça para um beijo quando ela tocou minha boca para me impedir. Naquele momento, ela pareceu pequena, o que era uma façanha para a majestosa deusa.
— Estou com medo, Sohan — murmurou.
— Medo de mim?
— É… não, não exatamente. Eu sei que você não quer me machucar.
— Não vou machucar você, Ana. — Ao dizer isso, olhei seus lábios inchados, feridos por meus beijos, e o inchaço em uma das faces causado pela luta. Enojado comigo mesmo, afastei-me. — Pelo menos não foi minha intenção.
Quem eu estava enganando? Eu já tinha machucado Ana. Yesubai estava morta por minha causa e eu abandonara Kelsey quando ela me pediu ajuda em Kishkindha. Ela poderia ter morrido muitas vezes.
— Talvez seja melhor mantermos nosso relacionamento simples — sugeri.
Sua mão em meu braço me deteve.
— Nosso relacionamento nunca será simples, Sohan. Nem quero que seja. Só que eu… eu preciso acertar as contas com meu passado, e não quero errar no que diz respeito a você. Temos muito a perder se nos atirarmos de maneira impulsiva nessa batalha.
— E suponho que com batalha você queira dizer romance...
Olhei para ela sobre meu ombro.
Ela assentiu com a cabeça.
— Mas é algo que você quer levar adiante?
— Sim — respondeu ela em voz baixa, dando a volta ao redor de mim.
Segurei uma mecha de seu cabelo, torcendo-a entre os dedos.
— Muito bem — falei. — Então o que você acha que poderia nos fazer perder essa batalha?
— Primeiro, eu mesma. Como você sabe, sou mais propensa a algemar um homem do que a beijá-lo. Nem sempre fui assim, mas está enraizado em mim agora. Temo que vá ser difícil superar essa prática.
Sorri e esfreguei o queixo.
— Sim, eu diria que estou intimamente consciente dessa tendência. Por sorte, eu cicatrizo depressa. Acho que podemos resolver esse problema, desde que você esteja pelo menos um pouco interessada nos beijos.
Seu olhar subiu até minha boca.
— Beijar você é algo em que pensei muitas vezes, Sohan. Tantas vezes, na verdade, que a ideia toma conta da minha cabeça nos momentos mais inoportunos. — Meu pulso se acelerou a essas palavras. — Como flertar — prosseguiu ela —, essa é uma habilidade que quero aprimorar. Talvez, depois que eu estiver bem versada nisso, os beijos já não ocupem tanto meus pensamentos.
Por um momento, esqueci de respirar.
— Bem — murmurei e engoli em seco. Senti a garganta se apertar e o ar ao redor do templo de súbito esquentou. — Algo mais em sua lista de preocupações?
— Tem também o fato de que os tigres não se acasalam para toda a vida — disse ela, sem rodeios.
— E as deusas, sim? — perguntei.
Ela assentiu, mordendo o lábio.
Assim como fez meu eu mais novo, peguei sua mão, levei os dedos aos lábios e beijei-os de leve.
— Ana, por mais que você goste de me lembrar da minha natureza animal, e por mais que eu goste desse aspecto de mim mesmo, também sou um homem. Não sou escravo do instinto. O fato de eu ter resistido aos seus encantos por tanto tempo devia ser um sinal da minha fidelidade. Não fui infiel a Kelsey. Nem fui desleal com Yesubai. Se avançarmos nessa nova… aliança, continuarei firme. Você saberia desse aspecto do meu caráter se compartilhasse meus pensamentos abertamente.
Ana abriu a boca para se explicar de novo.
— Como eu falei — eu a cortei antes que ela dissesse qualquer coisa —, não há nada que você possa estar escondendo que diminua meu respeito por você. Se está preocupada com o relacionamento físico, fique tranquila.
Levando a mão a seu rosto, tracei a curva de sua bochecha com o polegar.
— Por mais que eu queira você, e não se engane, quero você mais do que tudo que já quis, temos uma vida muito, muito longa à nossa frente, Ana. E sou um homem muito paciente. Esperei séculos para encontrar a mulher dos meus sonhos. Posso aguardar um pouco mais.
Anamika me lançou um olhar desconfiado, como se não pudesse acreditar no que eu dizia, embora a pedra da verdade pendurada em seu pescoço brilhasse, validando as promessas que eu lhe fazia. Finalmente, ela assentiu.
— Muito bem. Vamos… praticar o romance. Tenho certeza de que posso me acostumar se avançarmos bem devagar. De acordo? — propôs.
— De acordo.
Sorri, pensando em como gostaria de começar a namorá-la, não, a treinar Ana no romance. Agora eu só tinha de descobrir um modo de ajudá-la a me tolerar. Ren teria rido de uma mulher aprendendo a me tolerar. Balancei a cabeça. Só mesmo Ana para ser prática, sedutora, frustrante e inocente ao mesmo tempo.
— Você precisa descansar? — perguntou ela.
Cocei a barba.
— Mal não vai fazer. Eu gostaria pelo menos de comer.
Ana fez um gesto com a mão e desaparecemos, voltando a nos materializar não em nossa casa da montanha, mas na selva, ao lado de um riacho. Ajoelhando-se junto à água, ela bebeu, usando a mão em concha. Segui o exemplo e achei a água limpa, deliciosa e gelada. Se o tigre dentro de mim não tivesse me mantido aquecido, meus dedos ficariam dormentes por causa da temperatura.
— Onde estamos? — perguntei.
— Perto de nossa casa. Eu ainda não queria ir para lá. Tem muita…
— Muita gente por lá — completei.
— É.
Eu entendia. O que acontecera entre nós era novo e delicado. Estar perto de outras pessoas o diminuiria de alguma forma. Ela usou o poder do amuleto para aquecer a área ao redor de nós e para canalizar o distante Fruto Dourado, criando uma refeição. Parecia que eu não comia havia eras. Não pude deixar de notar o acréscimo de algodão-doce e pipoca. Apresentei-a a pizza, cheeseburger, churros e vaca-preta.
Ana gostou do sorvete, mas não do refrigerante. Depois de provar tudo, ela criou sua refeição preferida: cervo assado com vegetais e grossas fatias de pão besuntadas com manteiga, geleia e mel. Suas escolhas encheram a barriga de uma forma muito mais substancial do que o algodão-doce macio e as guloseimas açucaradas do tempo de Kelsey. Nós dois comemos e bebemos com prazer e depois a exaustão nos dominou.
Quando o restante do jantar desapareceu no éter, ela procurou um lugar confortável para deitarmos e criou sacos de dormir encorpados. Embora estivesse habituada a acampar com vários soldados e até comigo, eu diria que dessa vez ela se sentia nervosa.
Enquanto ela estava no riacho, toquei o colar de couro que Kelsey me dera muito tempo atrás. Sorri afetuosamente diante dessa lembrança. Passei o polegar devagar sobre o fecho e o abri. Por um longo minuto fiquei olhando para ele, pensando no que representava. Assim que Ana voltou, guardei-o em nossa bolsa, encerrando finalmente um capítulo de minha vida antiga.
Ana me olhava de vez em quando enquanto se mexia, tentando ficar confortável, provavelmente se perguntando por que eu estava sorrindo à toa. Eu havia falado sério quando dissera que poderíamos ir devagar, no ritmo ditado por ela. Não tinha qualquer expectativa em relação a ela. Estar perto de Ana bastava.
O ar ao nosso redor estava quente, o suficiente para não precisarmos de fogueira ou mais do que um cobertor fino. Deitei-me perto dela, mas não a seu lado, com os braços sob a cabeça, mas nenhum de nós conseguia dormir. Após muitos minutos de tensão entre nós, assumi a forma de tigre. Bufando suavemente, com o ar noturno arrepiando meu pelo, andei até ela.
Depois de pressionar o focinho em seu braço, deixei-me cair de lado, ficando atrás de suas costas, e estendi as patas na direção oposta. Um momento depois, senti que ela mudava de posição e cingia meu corpo com os braços, acariciando meu flanco. Seu perfume me envolveu e, depois que ela sussurrou “Boa noite”, caí em um sono profundo e relaxante, sem sequer perceber que começara a ronronar.
Na manhã seguinte, ela se levantou antes de mim e cutucou minhas costas de tigre com a bota. Languidamente, levantei-me, alonguei cada uma das pernas e bocejei, mostrando todos os dentes.
Ana parecia renovada e limpa, como se tivesse tomado banho e feito roupas novas. Fui até ela e me esfreguei de lado em suas longas pernas. Ela passou a mão em minhas costas e eu dei meia-volta e retornei, saboreando a sensação de suas pernas até que ela puxou minha cauda. Ana riu e gostei do som o suficiente para ignorar o insulto.
Transformei-me em homem e passei os braços pela cintura dela.
— Você parece bem descansada.
— E estou. — Estreitando os olhos sob o sol brilhante, ela ergueu a mão e acariciou meu rosto. — Acho que prefiro o pescoço peludo — comentou.
— É mesmo? — perguntei, sorrindo. — Pensei que preferisse que minhas bochechas fossem caídas.
— Não, de jeito nenhum — respondeu ela, as sobrancelhas finas erguidas. — Na verdade, gosto que meus homens tenham a pele marcada, seca e escamosa, e o peito caído e flácido, a pele branca como leite azedo. É muito azar o meu que você seja tão forte e musculoso, com uma pele de bronze cobrindo músculos rígidos. — Ela apertou meu braço e suspirou. — Você não podia ao menos ser dentuço ou ter um queixo esquisito?
— Receio que não. — Eu ri. — Mas tenho algumas cicatrizes que poderia lhe mostrar.
— Isso faria com que eu me sentisse melhor.
— Está vendo? Você nem precisou de uma aula de flerte. É natural para você.
Ana piscou.
— Isso é flertar?
— É.
Ela sorriu.
— Você quer dizer que eu posso zombar de você e você vai gostar?
— Dependendo de como você fizer, sim.
Aparentemente satisfeita por ter sido bem-sucedida em sua primeira aula, ela perguntou se poderíamos visitar Kadam. Estávamos preocupados com o fato de termos bagunçado a lista, tirando-a da ordem.
— Você tomou banho? — perguntei enquanto nos preparávamos para partir. — A água está um gelo.
— Não exatamente. Posso fazer uma coisa nova. Mais tarde eu mostro.
Estalei os dedos.
— Acho que já sei. Você fez algo assim no terceiro templo, o feito de ouro. Foi como uma lavagem a seco.
— Lavagem a seco. — Ela repetiu cada palavra devagar. — É, acho que tal definição funcionaria. Está pronto para ir?
— Estou. Leve-nos de volta à nossa casa no futuro — pedi. — Precisa ser antes de o encontrarmos no templo onde lutamos. Logo depois disso, ele…
— Ele está morto — disse Ana suavemente. — Ele me contou uma vez, quando eu era muito jovem. Pensei que fosse a história de outro homem, mas era sobre ele mesmo.
Eu a abracei e ela se apoiou em mim. Quando desaparecemos, ela nos dessincronizou com o tempo para que não pudéssemos ser vistos. Os aromas e sons da casa eram familiares. Nilima estava cozinhando e Ana e eu pegamos doces e fatias reluzentes de frutas tropicais; eu ainda apanhei um pote de pasta de amendoim no armário e duas colheres.
Quando meu antigo eu entrou e beijou Nilima na bochecha, Ana pegou meu braço e me afastou, sussurrando um aviso para não entrar em contato comigo. Eu já estava muito à frente dela. Nós nos sentamos na sala de jantar, de onde poderíamos ver tudo sem sermos incomodados, e tomamos nosso café da manhã roubado. Os olhos de Ana se arregalaram ao provar pasta de amendoim pela primeira vez. Kelsey entrou e encheu um prato, seguida por Ren.
“Ele está aqui esta manhã?”, perguntou Ren. Todos sabiam de quem ele estava falando.
“Ele ficou acordado até tarde de novo”, respondeu Nilima. “Está dormindo.”
“Não é normal ele se distanciar tanto”, acrescentou Kelsey, preocupada.
Meu antigo eu deu de ombros.
“Talvez esteja apenas ficando velho.”
Como eu tinha sido insensível. Kadam tornara possível para nós não só sobreviver, mas ter uma herança. Aquilo tinha sabor de ingratidão. Ele estaria morto em questão de semanas. Passara por coisas terríveis. Por que não aproveitei a oportunidade para dizer-lhe quanto gostava dele? Para dizer que o amava?
Levantei-me na mesma hora para fazer isso, levando o pote de pasta de amendoim pela metade conosco. Ana me seguiu enquanto passávamos como fantasmas pela casa. Quando ninguém estava olhando, abrimos a porta de Kadam e rapidamente a fechamos atrás de nós. Seu velho relógio emitia um tique-taque ritmado, o que me fez pensar em como o tempo era importante. Ele não estava na cama e a pilha de anotações em sua cômoda falava da profecia em que estava trabalhando. Debaixo dela, porém, encontrei seu testamento.
— O que é isso? — perguntou Ana.
— Um papel que lista seus últimos desejos em relação à própria morte.
— Entendo.
Tal coisa não era inédita em exércitos como o de Ana, mas as cartas com as últimas vontades costumavam ser uma despedida dos entes queridos mais do que uma distribuição de bens. Houve uma perturbação no ar atrás de nós e Kadam se materializou como Phet. Ele estava dessincronizado com o tempo, assim como nós, e achamos interessante que pudesse nos ver.
— Kishan, Anamika — saudou. — O que os traz aqui? — Ele olhou para a porta, nervoso, e verificou se estava mesmo trancada. Usando o lenço, reassumiu sua forma usual.
— Professor — disse Ana —, com esse meu temperamento, fiz uma coisa errada.
Kadam ergueu uma sobrancelha.
— Eu me lembro bem do seu temperamento, minha cara. Conte-me o que aconteceu.
Ana iniciou uma explicação sobre ter convocado os Lordes da Chama e criado Bodha antes de criar o mundo dos dragões. Ela retorcia as mãos e baixara a cabeça. Eu sabia que se sentia culpada e, mais do que qualquer outra coisa, queria agradar o homem que lhe ensinara por tantos anos. Estendi a mão e segurei a dela. Ela se aproximou de mim e continuou.
Kadam notou nossas mãos dadas e me olhou brevemente. Um sorrisinho brincou em seus lábios. Quando ela terminou, ele ficou de pé e a segurou pelos ombros.
— Não se preocupe com essa pequena mudança. Eu sabia que era uma possibilidade. Como resultado, você conheceu Anoitecer em vez de Bico Brilhante, mas Anoitecer gostou de você e atenuou os períodos difíceis. Se você agora seguir a ordem correta no restante da lista, vai ficar tudo bem.
— Obrigada, professor — agradeceu ela timidamente.
Alguém bateu à porta.
— Sr. Kadam? Trouxe seu café da manhã.
— Obrigado, senhorita Kelsey — disse ele atrás da porta fechada. — Acho que vou tomar só um pouco de chá. Pode se juntar a mim na biblioteca para o chá em uma hora?
— Posso, claro — respondeu ela.
Eu conhecia aquele tom de voz. Ela estava decepcionada. Kelsey provavelmente sentiu que algo estava errado, embora não soubesse o que era.
Depois que ela se afastou, eu disse:
— Você devia ter passado mais tempo com eles. Vão ficar de coração partido quando você…
Não consegui pronunciar as palavras.
— Quando eu morrer?
Assenti.
— Ficamos todos arrasados. Você se fechou no fim. Nilima pensou que estivesse doente. Você não nos deu a chance de dizer adeus. De descobrir outro caminho.
— Ah, meu filho — disse ele, sentando-se com ar cansado. — Não havia outro caminho. Não fiquei longe porque quis. Havia muito a fazer. Na verdade, ainda há.
— Não pode descansar antes de retornar ao seu tempo? — perguntou Ana.
— Viajar dessa maneira é difícil para mim. É diferente para você. O amuleto é uma parte de você agora, não é?
Ana assentiu com os olhos arregalados.
— É uma parte de vocês dois. Não vai prejudicá-los como prejudicou a mim.
— Prejudicar-nos? — perguntei, assustado.
— É. Algo aconteceu quando fui absorvido pelo meu… cadáver. Algo sobrenatural. Embora você tenha me tirado de lá, isso me modificou. Sinto a vida escoar de mim desde então. Cada salto que dou no tempo me suga um pouco mais. Temo que a morte me encontre em breve, apesar de tudo.
Percebendo a amargura em seu rosto, ele prosseguiu:
— Sei o que você está pensando, Kishan. Mas não se culpe. Mesmo que eu não houvesse tido aquela experiência memorável, o amuleto acabaria por causar o meu fim. Nunca foi para ser meu, você entende? Lokesh enlouqueceu por causa dele. Esteve de posse de muitos pedaços dele por muito tempo. Agora o amuleto está onde deveria.
Ajoelhando-me ao lado dele, fitei seus olhos normalmente brilhantes que agora, no entanto, estavam embaçados.
— Mesmo assim, não seria um consolo estar com sua família em um momento como este? — perguntei.
Ele pegou meu braço com um aperto familiar.
— Eu estou com a minha família — respondeu. Umedecendo os lábios secos, acrescentou: — Vocês têm sido a alegria da minha vida. Os dois. — Ele segurou o rosto de Ana. — É animador para mim ter tido esse tempo extra com vocês. Eu não poderia ter pedido um presente maior do que ter sido parte de suas vidas.
Uma lágrima delicada rolou pelo rosto de Ana.
— Não chore por mim, minha querida. Pelo menos, ainda não. Há mais por vir e vocês dois têm muitas coisas a fazer.
Ficamos de pé e Ana fez um gesto com a mão sobre a mesa dele. O cheiro de chá de hortelã encheu a sala.
— Obrigado, querida — disse ele.
Antes de sairmos, falei:
— Só quero que você saiba…
— Ainda há tempo, filho — interrompeu ele em voz baixa. — Guarde suas palavras por enquanto. Também tenho muito a lhe dizer no futuro.
Olhei para seus olhos úmidos e assenti com a cabeça.
— Até logo.
Com isso, desaparecemos e nos rematerializamos no templo dourado em Mangalore.
Olhamos para a estátua de Durga sentada em um trono dourado. Ana a avaliou de um lado a outro.
— Não é uma semelhança muito lisonjeira — concluiu.
— Nada se compara à verdadeira — comentei com um sorriso.
— Isso é flertar? — perguntou ela.
— Talvez seja.
— Hum... — Virando-se novamente para a estátua, ela disse: — Não gosto do chapéu. Que guerreiro usa uma coisa dessas? Por que sempre me colocam tiaras tolas em vez de um elmo e uma armadura?
— Talvez não se lembrem de você dessa maneira. — Ouvimos um carro encostar do lado de fora. — Acho que está na hora — falei.
Ana fez que sim com a cabeça e rapidamente colocamos as mãos na parede, criando uma impressão para Kelsey, e em seguida ela desapareceu, enquanto eu me dessincronizava com o tempo.
Fazendo barulho, o grupo entrou no templo.
“As coisas podem ficar um pouco agitadas, por isso tomem cuidado”, disse Kelsey.
Eles colocaram as oferendas e falaram, um de cada vez. Kadam, em particular, chamou minha atenção quando disse:
“Ajude-me a acudir os meus príncipes e pôr fim a seu sofrimento.”
Pobre e leal Kadam. Ele havia obtido seu desejo, embora tivesse lhe custado muito. Fiz um pedido por ele naquele momento. Para que se mantivesse por perto até o fim. Era bobagem. Eu sabia que o que havia ocorrido já estava feito e não havia como mudar. Mas, mesmo assim, ele era um pai para mim, um amigo, tão amado como meu irmão e meus pais. Se eu pudesse fazer por ele algo que tivesse metade da importância do que ele fizera por mim, então eu teria dado um pequeno passo para recompensar um grande homem.
Kelsey disse a Ren e a meu outro eu que se transformassem em tigres, e foi o que eles fizeram, mas a deusa não mostrou seu poder. Quando Ren segurou a mão de Kelsey, as coisas começaram a acontecer. Perguntei-me por que Ana não agiu antes. Certamente nada a impediu. Não com o poder do amuleto à disposição.
Assim que os ventos e a água vieram, firmei as pernas no chão e, quando a inundação se derramou sobre minha cabeça, eu me achava envolto por uma protetora bolha de ar. Um vento leve circulava a meu redor e eu respirava sem dificuldade, enquanto os outros se debatiam. Eu me senti mal, sabendo que estavam com medo e lutando muito, mas, ao mesmo tempo, sabia que ficariam bem.
Depois que a água escoou, deixando o chão coberto de lama e detritos, meu antigo eu se aproximou da estátua segurando um bastão fosforescente para lançar luz no templo escuro. Kelsey tocou a parede com a mão e uma chuva suave caiu sobre todo o lugar. A deusa foi revelada em todo o esplendor e meu coração se derreteu diante de sua aparência. Ela me dirigiu um lindo sorriso. O chapéu que usava deslizou ligeiramente e só eu captei a leve irritação em sua expressão quando ela o empurrou, tirando-o da cabeça.
Com exceção dos braços, ela se parecia muito mais com ela mesma do que nos outros templos. O vestido verde não era diferente de seu traje de caça. Caía-lhe muito bem. E, quando não estava com as botas confortáveis, ela preferia ficar descalça, de qualquer maneira. Mesmo em seu trono, em casa, ela costumava dobrar as pernas, enfiando os pés nus debaixo das saias enquanto entretinha os convidados.
Estávamos todos molhados da pancada de chuva, até eu, e vê-la espremer a água dos cabelos, o vestido encharcado colado a suas curvas, fez com que minha respiração ficasse presa no peito.
Ana me deu uma piscadela e olhei para minhas roupas ensopadas e ergui as sobrancelhas. Ela riu, um som musical e alegre.
Olhando para Kelsey, ela disse:
“Ah, Kelsey, suas oferendas foram aceitas.” Seus olhos pousaram em cada um deles e depois, mais claramente, em mim. Ela estalou a língua. “Ah, mas vocês estão todos desconfortáveis. Deixem-me ajudar.”
Ela então fez aquela coisa da limpeza a seco de que eu me lembrava. E, enquanto seu arco-íris envolvia meu corpo, me limpando, secando e vestindo em segundos, senti o leve toque dos dedos da deusa em meus cabelos e depois descendo pelo pescoço. Ela fez um movimento com o dedo curvado, me chamando, e tive de me segurar para não empurrar os outros, tirando-os do caminho, e ir até ela, especialmente quando vi como estava linda no vestido cintilante. Eu queria acariciar aqueles braços de alabastro e sussurrar coisas escandalosas em seu ouvido.
Ana teve uma breve reunião com Fanindra e depois achou a oferenda de seda de Nilima. Lembrei-me de quando ela estivera com Nilima e prometera que não só ajudaria Kelsey a encontrar a felicidade, mas também ajudaria Nilima. Fiquei feliz por Nilima e Sunil terem se encontrado. Talvez o destino tenha se cumprido em mais de uma forma.
Em seguida, Ana pediu para falar com Kadam. Discorrendo sobre sacrifícios, ela lhe disse o que nós dois desejávamos muito dizer. Ele era tão importante para ela quanto para mim. Mais uma vez, escutei as palavras dela com atenção. Tinham mais significado para mim agora do que quando as ouvi pela primeira vez.
“Se pelo menos houvesse mais homens, mais pais como você”, disse ela. “Percebo que tem muito orgulho deles e que são sua fonte de alegria. A maior bênção e a maior satisfação que um pai pode ter é passar os anos criando os filhos e então ver os resultados gloriosos: descendentes fortes e nobres, que se lembram de suas lições e que vão transmiti-las aos seus. Isso é o que todo bom pai deseja. O seu nome será lembrado com muito respeito e amor.”
Nesse momento fiz uma promessa junto com ela: que eu de fato me lembraria dele e de tudo que tinha feito por nós. Foi muito justo Kelsey ter batizado seu primeiro filho com o nome de Anik, em homenagem a ele.
Em seguida, ela me chamou.
“Meu tigre de ébano, chegue mais perto.”
Minha atenção se concentrou no meu antigo eu. Eu me aproximei, estreitando os olhos e dando-lhe um aviso silencioso. Mas, afora oferecer sua mão para um beijo e me lançar um olhar atrevido, Ana foi uma boa garota. Ela lhes deu o kamandal e o tridente, explicando como funcionavam, e até fez uma demonstração da arma.
Em seguida, quis falar com Kelsey sozinha. Depois que todos saíram, ela perguntou:
“Por que ainda está tão triste, querida? Eu não cumpri minha promessa de cuidar do seu tigre?”
“Cumpriu. Ele voltou e está a salvo, mas não se lembra de mim. Ele me bloqueou e diz que não devemos ficar juntos.”
Ana pensou no que dizer e olhou para mim. Por fim, disse:
“O que tiver que ser, será. Todas as coisas neste universo são conhecidas e, no entanto, os mortais ainda precisam descobrir seus propósitos, seu destino, e devem fazer escolhas que os levem ao caminho que desejam percorrer. Sim. O seu tigre branco tomou a decisão de apagar você da memória.”
“Mas por quê?”
“Porque ele a ama.”
“Isso não faz o menor sentido.”
“Geralmente as coisas não fazem muito sentido quando você as observa de perto demais. Dê um passo para trás e tente ver o quadro todo.”
Invisível para Kells, subi no estrado e segurei uma das mãos de Ana. Ela apertou a minha de leve.
“Muitos sacrifícios já foram feitos em seu favor”, continuou Ana. “Muitas donzelas vêm a este altar em busca da minha bênção. Elas desejam um marido virtuoso e querem ter uma vida boa. Isso é o que você deseja também, Kelsey? Um rapaz honesto e generoso para ser o companheiro da sua vida?”
Os olhos de Ana encontraram os meus rapidamente. Era isso que Ana estava procurando também?
“Eu… na verdade, não estou pensando em casamento, para ser sincera. Mas, sim, gostaria que o companheiro da minha vida fosse honesto e generoso. E meu amigo.”
Ana estremeceu ao ouvir aquilo.
“Quero amá-lo sem arrependimentos”, concluiu Kelsey.
Suspirando suavemente, Ana aconselhou:
“Arrepender-se é se decepcionar consigo mesma e com suas escolhas. Os sábios veem a vida como um caminho de pedras que cruza um grande rio. Todo mundo escorrega em uma pedra de vez em quando. Ninguém é capaz de atravessar o rio sem se molhar. O sucesso é medido pela chegada ao outro lado, não pela lama em seus sapatos. As pessoas que se arrependem são aquelas que não compreendem a razão da vida. Elas ficam tão desiludidas que param no meio do rio e não dão o próximo passo.”
Kelsey não notou o fato de Ana ter engolido em seco. Eu sabia que o conselho que ela estava dando a Kelsey era algo que ela vinha pensando de si mesma. Você também pode dar o próximo passo, pensei para ela. Estarei aqui para segurá-la.
“Não tenha medo”, acrescentou Ana, passando a mão pelos cabelos de Kelsey. Eu nunca a tinha visto ser tão carinhosa com Kelsey antes. Anamika estava mudando de uma maneira que eu não pensava que fosse capaz. “Ele será seu amigo, seu companheiro em todos os sentidos. E você vai amá-lo com mais ardor do que jamais amou antes. Vai amá-lo tanto quanto ele a ama. Você será feliz”, disse Ana com fervor, e apertou minha mão com uma determinação igualmente apaixonada.
Kelsey não percebeu como os dedos de Ana ficaram brancos de tanto apertar os braços do trono.
“Mas qual dos irmãos vai ser?”, perguntou Kelsey.
Ana sorriu discretamente e disse:
“Da mesma forma, vou levar em consideração sua irmã, Nilima. Uma mulher com tanta devoção também precisa de amor. Tome isto.” Ela entregou a Kelsey um colar de flores de lótus. “Não possui nenhum poder especial, a não ser que os botões nunca murcham, mas terá uma função na sua viagem.”
Franzindo a testa, me perguntei como Ana sabia sobre as flores. Eu não tinha contado nada sobre as flores de lótus nem a sereia, mas ela parecia já saber. Será que podia ver o futuro? Teria Kadam contado a ela? Talvez fosse apenas um presente. As flores que tinham estado penduradas na estátua ficaram com ela. Olhei para a guirlanda e notei, pela primeira vez, como as flores tinham se iluminado e ganhado vida só por tocarem sua pele. Não era surpresa alguma. Era assim que eu também me sentia quando a tocava.
“Quero que você aprenda a lição do lótus”, disse ela a Kelsey. Ana adorava todas as flores, e a flor de lótus não era exceção. Não me surpreendeu que ela soubesse como elas cresciam. “Esta flor surge de águas enlameadas. Ergue suas pétalas delicadas ao sol e perfuma o mundo, enquanto, ao mesmo tempo, suas raízes se prendem ao húmus elementar, à própria essência da experiência mortal. Sem esse solo, a flor murcharia e morreria. Cave fundo e fortaleça suas raízes, minha filha, pois você vai se estender para cima, irromper da água e encontrar paz na superfície calma no final. Irá descobrir que, se não tivesse se estendido, teria se afogado no fundo, sem florescer nem compartilhar seu dom com os outros.”
Sem que Kelsey pudesse me ver, curvei-me e toquei a testa de Ana com os lábios. Um braço envolveu minha cintura e outro acariciou meus cabelos.
“Está na hora de me deixar, preciosa”, disse ela a Kelsey. “Leve Fanindra. Quando chegar à Cidade dos Sete Pagodes, procure o Templo da Praia. Uma mulher está à sua espera lá. Ela vai lhe dar a orientação de que precisa para sua viagem.”
“Obrigada. Por tudo”, disse Kelsey.
O ouro escorreu sobre Ana e a cobriu. Quando os outros se foram, Ana apareceu diante de mim, ainda usando o vestido verde esvoaçante, os pés descalços. Em sua mão trazia o retalho de seda de Nilima. Toquei seu queixo com a ponta do dedo e virei seu rosto para ela me olhar.
— Você se saiu muito bem — elogiei. — Mas por que só apareceu depois que Kelsey segurou a mão de Ren?
Ela deu de ombros.
— Pareciam infelizes. Quis ajudá-los a estreitar a distância que existia entre eles.
— Você é uma deusa generosa — falei, sorrindo, mas em seguida fiquei sério ao ver sua preocupação.
— Sohan? — disse ela.
— Sim, minha bela senhora.
— Não quero me afogar no fundo do rio.
— Eu também acho que você não quer isso.
— Você…
Ela suspirou de leve, o sopro de ar levantando uma mecha de seus cabelos escuros. Eu a afastei de seu rosto com o polegar.
— Eu o quê, Ana?
— Me beija?

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