12 de setembro de 2018

32 - Templo do Fogo

O pergaminho. Eu não tinha nada ali comigo. Ana havia levado nossa mochila para casa e não pensei em pegar nada. Literalmente, só tinha a roupa do corpo e o Amuleto de Damon.
— Não estou com ele — eu disse.
— Então é melhor torcer para que consiga encontrá-la sem ele.
— Você não pode me falar? — implorei. — Sei que você sabe onde ela está.
— Tenho minhas suspeitas — admitiu ele. — Mas você sabe que não posso ajudá-lo. Essa é uma parte da sua jornada, Kishan. Se eu interviesse, alteraria o resultado, ou até mesmo influenciaria suas futuras escolhas. Eu não poderia viver comigo mesmo sabendo que o mandei por um caminho que o levasse à infelicidade.
— E se minha infelicidade for o resultado de eu estragar tudo?
Kadam apertou os lábios. Sua teimosia era evidente em sua expressão e eu sabia que ele não iria ajudar.
— Muito bem. Então me diga como recriar nosso elo quebrado.
— Se for o destino de vocês permanecerem ligados, ele se recomporá sozinho — afirmou, de maneira enigmática. — É melhor eu ir agora, filho.
Suspirei.
— Vou vê-lo de novo? — perguntei.
— Posso garantir que sim. — Ele virou-se, mas, antes de desaparecer, acrescentou: — Por falar nisso, gosto do que você fez neste lugar.
Estúpido. Tigre estúpido. Censurei-me depois que ele desapareceu. Mais uma vez, eu havia falhado em meu dever de proteger Ana. Não que eu não acreditasse em Kadam, mas a primeira coisa que fiz foi chamar mentalmente a deusa. Ana?, pensei. Ana! Não houve resposta. Tentei fechar os olhos e sentir onde ela estava, mas, no lugar em que nossa familiar conexão havia se instalado dentro de mim, aquela que eu tinha desde que me tornara um tigre tantos anos antes, havia um vazio reverberante.
Agarrando o amuleto, corri e saltei através do tempo e do espaço e já estava em disparada quando meus pés tocaram a grama do jardim de rosas dela. Entrei de supetão em seu quarto e encontrei suas armas guardadas nos lugares de hábito. Até mesmo Fanindra estava tomando sol na janela. Eu havia deduzido que ela estaria com Kelsey agora, mas, aparentemente, o tempo funcionava de modo diferente para a cobra. De um jeito estranho, fazia sentido.
Vasculhei suas estantes e seus pertences em busca da bolsa ou do pergaminho, mas não consegui encontrar nem um nem outro. Em minha pressa, quase derrubei seu frasco de perfume. A tampa caiu e, antes de colocá-la de volta no lugar, levei o frasco ao nariz. Rosas e flores de lótus.
Onde ela está? Se estivesse por perto, eu poderia rastreá-la pelo cheiro, mas Ana não tinha estado ali recentemente.
— Ana! — gritei e saí à procura de alguém que pudesse saber aonde ela fora.
Encontrando um dos garotos que ela salvara, agarrei-o pelos ombros e apresentei um apressado pedido de desculpas quando ele se encolheu.
— Xing-Xing, onde está a deusa? — perguntei. — Me fale, rápido.
Ele encolheu os ombros.
— Faz semanas que não a vejo.
— Alguém a chamou? Convocou-a no último mês?
O garoto coçou o nariz.
— Não. Nada fora do comum, pelo menos.
Embora nossa conexão tenha se extinguido, eu ainda podia ouvir as orações e súplicas oferecidas pelos mortais. Permitir que esses chamados tomassem a dianteira em minha mente era como entrar em um furacão, mas não havia outro jeito. Preparando-me, abri a torneira e as súplicas de todo um século assaltaram minha mente. Trabalhei para isolar uma voz, um grito pela deusa, e então parti. Não fiquei por tempo suficiente para de fato fazer alguma coisa visando a ajudar, apenas verifiquei se Ana estava lá.
Vezes sem conta, saltei através do tempo, mas não consegui nada. Uma mulher queria que a filha encontrasse um companheiro. Outra desejava que o marido se curasse de um ferimento. Uma vila inteira precisava de ajuda com suas colheitas. Mas, independentemente de onde eu procurasse, não encontrava qualquer vestígio dela. Após dúzias e dúzias de paradas, não tive sucesso algum.
Onde ela está?
Finalmente, uma ideia me ocorreu. Voltando ao quarto dela, localizei o que fora ali buscar.
— Fanindra? — chamei. — Preciso da sua ajuda.
A cobra ergueu a cabeça e, na mesma hora, deslizou para meu braço estendido.
— Não consigo encontrar sua senhora — falei. — Você pode me levar até ela?
Sem saber o que encontraria assim que chegássemos lá, prendi o cinto de couro e pus na bainha a espada que se dividiria em duas. Então prendi o broche na camisa e pendurei o kamandal no pescoço. Pelo menos eu tinha algumas armas, além de dentes e garras. Ver todas as armas ali guardadas me deixava preocupado. O único objeto que estava faltando, além dos que já déramos para Kelsey e Ren, era a Corda de Fogo.
Fanindra enroscou os anéis cor de mel e alabastro em meu braço e usou sua energia para abrir um portal. Temi que, fazendo isso, sobrecarregaria a criatura a ponto de levá-la à morte mais uma vez, mas Fanindra havia renascido ou, talvez, nascido pela primeira vez. Ela estava cheia de vida e de energia. Entrei no portal e fui transportado.
O fogo aflorou à nossa volta no momento em que o portal desaparecia e ergui um braço, recuando diante das labaredas. Logo me dei conta de que nem eu nem minhas roupas estávamos queimando, então recuei um passo e examinei o ambiente à nossa volta.
O chão estava escuro como carvão e sua consistência era de pó, como cinzas. Jovens árvores com folhas avermelhadas tremiam em uma brisa morna que carregava o cheiro de fumaça e enxofre. Imediatamente eu soube onde estava. Bodha — a cidade sob o vulcão nas ilhas Andaman.
— Por que ela viria aqui? — perguntei a Fanindra.
A cobra não respondeu, mas transformou-se em metal em meu braço.
— Certo. Acho que estou por conta própria então.
Passei a mão pela barba de um dia em meu rosto. Quando me transformava de tigre em homem, estava sempre com a roupa preta, a última coisa que usei antes da maldição, e de barba feita. No entanto, desde que a maldição fora suspensa, eu podia ser homem pelo tempo que desejasse, o que significava que precisava me barbear de vez em quando. Era mais rápido simplesmente alternar entre tigre e homem, mas havia algo de humano em dedicar um tempo a me barbear.
Minha mãe sempre ajudava meu pai nessa tarefa e eu me lembrava de como ficavam felizes em servir um ao outro nessas pequenas coisas. Era uma das razões pelas quais eu gostava de me deitar no colo dela ou de escovar seus cabelos. Era meu momento especial com ela. Acho que a hora do barbear era o momento de meu pai.
Certa vez, eu perguntara a Ana se a incomodava eu usar barba e ela simplesmente bufara, como se a pergunta fosse ridícula. Era verdade que ela havia comandado um exército, cada soldado tendo sua preferência em relação aos pelos faciais, mas eu não era um soldado típico. Eu era dela. Pelo menos, achava que podia ser. Será que ela agora tem uma opinião diferente? Talvez eu pudesse aparar a barba, como vira homens do tempo de Kelsey fazer, deixando apenas um pouco de pelo em torno da boca e do queixo. Se eu a beijasse com barba, será que ela se esquivaria ou gostaria ainda mais? Descobri que era bom pensar nisso, mesmo que minha fantasia fosse irrealizável.
Se as coisas corressem bem com Ana, talvez eu tivesse um motivo para abordar o assunto e pudéssemos decidir juntos. Quem sabe, experimentar diferentes possibilidades. Sorri, imaginando a reação dela a tal sugestão, então franzi a testa. É claro que, antes de sequer poder pensar em tentar beijá-la outra vez, eu teria de encontrá-la.
Por que ela teria vindo aqui?, me perguntei. Então eu soube a resposta. Ana deve ter continuado a trabalhar na lista enquanto eu estava fora. Bodha, porém, estava mais à frente. A Cidade dos Sete Pagodes deveria ser a próxima da lista. Ela não estava seguindo a ordem. Ana tinha o documento, não eu. Eu só havia anotado umas poucas coisas das quais poderia cuidar sozinho. Ela deveria ter esperado por mim e, mesmo que não tivesse, deveria saber qual era a próxima tarefa.
Fui contando nos dedos os itens da lista. Deveríamos ajudar Kells a cruzar a barreira para encontrar Lady Bicho-da-Seda, evitar que o carro matasse Kells na peça, mandar a água-viva levar Kelsey, Ren e meu antigo eu até a superfície do oceano, depois vinha alguma coisa relacionada ao monte Fuji, então a criação do sétimo pagode e receber Kells, Kadam, Ren e a mim mesmo no Templo da Água. Criar Bodha estava bem mais abaixo na lista.
Talvez ela não estivesse criando Bodha, pensei enquanto andava entre as árvores. Talvez estivesse apenas visitando. Por que ela iria até Bodha, porém, eu não fazia ideia. Não havia nada de interessante no lugar. Achei que ela poderia ter falado com a Fênix, mas, com certeza, quereria evitar os demônios rakshasa e os deuses do vulcão.
Meu coração estremeceu quando pensei nos deuses gêmeos que capturaram Kelsey à procura de seu amor havia muito perdido. Teriam eles alguma coisa a ver com o desaparecimento de Ana? Talvez os demônios rakshasa a tivessem capturado. Ou ainda pior: talvez ela tenha adormecido na Caverna do Sono e da Morte. Apressei o passo e logo estava correndo.
Não havia como saber aonde eu estava indo. Parei quando um cheiro familiar fez cócegas em minhas narinas. Agachando-me, examinei o solo, mas não encontrei qualquer rastro. De repente, um cometa cruzou o céu e as árvores escureceram. Era noite em Bodha. As samambaias, árvores e flores que antes bruxuleavam se apagaram de repente. Pondo a mão em uma árvore, olhei para a floresta escura à minha frente, tentando ter uma noção da direção que deveria tomar.
As árvores pareciam jovens. Bem mais jovens do que quando Ren, Kelsey e eu estivéramos ali. Acariciei o tronco de uma arvorezinha e senti uma vibração em minha palma. Foi quando lembrei que Kelsey podia falar com as árvores usando o poder do pedaço do fogo do amuleto.
Toquei o tronco com a palma da mão e perguntei:
— Você pode me ajudar?
Um raminho bem fino na ponta de um galho roçou meu pescoço. Meu primeiro impulso foi afastá-lo, mas deixei que ficasse ali e, embora não estivesse totalmente alerta, a arvorezinha me deu uma vaga ideia de onde poderia encontrar Ana. Infelizmente, ela havia atravessado toda a floresta. Eu tinha um longo caminho a percorrer para achá-la.
Em vez de cruzar Bodha à maneira tradicional, como fizera com Kelsey, usei o poder do amuleto e reuni os ventos. Elevando-me acima das árvores, cheguei sem demora à montanha da Fênix. Procurei sinais de frutas do fogo, de ovos ou da ave incandescente, mas não encontrei nada.
A caverna também ainda não existia ou estava oculta.
Escalar a montanha era uma tarefa difícil com os ventos me açoitando, mas, por fim, ergui-me acima deles e desci pelo outro lado, onde parei para tentar captar o cheiro de Ana e pedir a ajuda das árvores. Elas confirmaram meus temores. Ana estava no templo do diamante. Eu não tinha certeza se ela havia criado o templo ou se ele sempre estivera ali, mas me lembrava bem dos deuses do vulcão. Eles foram duros na queda, mesmo com Ren a meu lado.
Descendo no ponto em que terminava a floresta, eu me subtraí do tempo e entrei na cidade. Havia música, celebração e dança, assim como da última vez que eu estivera ali. Eu sabia o que isso significava. Uma garota, em algum lugar da Terra, estava sendo sacrificada a um vulcão. Fiz uma careta e comecei a procurar Ana em meio à multidão, mas, de repente, fiquei paralisado.
Demônios rakshasa misturavam-se livremente aos bodhas. Bem à minha frente, uma garota bodha deslizava a palma da mão pelo peito nu de um demônio rakshasa. As tatuagens dele iluminaram-se enquanto ela sussurrava em seu ouvido. Os dois, de mãos dadas, afastaram-se. Uma garota rakshasa, que se parecia muito com Kelsey quando ela se disfarçara de rainha, estava cercada por um grupo de homens de ambas as raças. Observei, estupefato, os rakshasas beberem em cálices e beliscarem frutas, pães e queijos. Onde estavam os assassinos de sangue-frio de que eu me recordava? Os que bebiam sangue, devoravam seus feridos, perseguiam os mortos e vertiam veneno da ponta dos dedos? O que havia acontecido com o medo que os bodhas sentiam? No entanto, não tive muito tempo para pensar no assunto, pois os deuses do vulcão surgiram na abertura da pirâmide.
— Bem-vindos, cidadãos! — gritou um dos sinistros gêmeos.
Eles pareciam iguais a quando Kelsey e eu estivéramos lá. Sua pele dourada era realçada pelos cabelos brancos. Um deles usava plumas nas cores vermelha e laranja nas tranças e o outro usava plumas azuis e verdes.
— Como todos sabem, vocês foram trazidos a este reino por uma mulher muito poderosa e, devo acrescentar, muito bonita. E estamos muito felizes em anunciar que esta noite ela irá se tornar uma noiva!
A multidão aplaudiu ruidosamente. Meu estômago se contraiu. Tive um mau pressentimento. A última vez que eu estivera ali, os deuses gêmeos haviam capturado uma garota e a submetido a um teste para saber se era uma encarnação de sua amada Lawala. Até que pousaram os olhos em Kelsey. Foi por um triz que conseguimos escapar com vida. Sacudi os braços e estalei o pescoço. Se eles tivessem feito algo semelhante a Ana, eu os mataria. Não estavam lidando com o mesmo tigre que enfrentaram no passado.
Comecei a andar em meio à multidão, esbarrando em alguns ao fazê-lo. Embora não pudessem me ver, vários dos rakshasas se detiveram e ergueram o nariz no ar. Estalei os dedos para mascarar meu cheiro e os poucos que tinham começado a me seguir pararam e olharam à sua volta, confusos. Eu havia acabado de chegar à base do templo quando um ronco sacudiu o solo. Seria o vulcão?
A parede na extremidade oposta do templo rachou e um dos deuses de cabelos compridos no alto gritou:
— Contemplem sua rainha!
Quatro homens, dois bhodas e dois rakshasas, os corpos nus, exceto por um pequeno sarongue amarrado na cintura, carregavam uma espécie de liteira coberta com flores de fogo. Os músculos de seus braços avolumavam-se enquanto transportavam a mulher ali deitada.
Ela estava curvada, o rosto oculto e as mãos espalmadas de forma que seus dedos tocassem a extremidade da cama tecida. A pele nua de suas costas estava pintada com tatuagens luminosas e seus cabelos preto-azulados estavam soltos e rebeldes, embora se vissem flores, penas e folhas trançadas nos fios. Eles pendiam pelas laterais da liteira e as pessoas que se ajoelhavam à medida que ela passava estendiam a mão para tocá-los com a ponta dos dedos.
Quando os homens pararam diante de Shala e Wyea, os deuses gêmeos ergueram os braços para silenciar a multidão.
— Mantivemos o rosto dela escondido, embora todos vocês já tenham ouvido sua voz e respondido a seu chamado. Ela é nossa salvadora. Enviada pelos antigos, que nos presentearam com um novo lar. E agora ela desceu a este plano para servir e viver entre nós. Conheçam nosso amor, nossa Lawala recém-surgida.
A mulher não se moveu. O tom dourado de sua pele cintilava à luz do templo com o mesmo brilho de calor que umedecia minha pele. Prendi a respiração e esperei junto com a multidão.
Um dos deuses, o de olhar perspicaz conhecido como Shala, baixou os olhos, sua boca uma linha dura que cobria os dentes brancos e brilhantes do sorriso de político de um instante antes.
— Querida — disse ele, seu tom transbordando de uma falsa paciência —, levante-se e cumprimente o seu povo.
Gemendo, a mulher enterrou os dedos nas fibras da liteira. O homem acima moveu os dedos, manipulando-a como uma marionete. Os braços dela tremiam quando ela ergueu o corpo. Enquanto a multidão aplaudia, ela oscilou como um bêbado, os olhos esmeralda cansados e sem foco.
Ana!
Os homens a giraram em um círculo de modo que todos pudessem admirar a deusa.
O que eles fizeram com ela? Eu iria matá-los. Cada um deles.
Empurrando as pessoas para tirá-las do caminho, segui na direção dela, notando seu minúsculo traje. A saia de folhas mal cobria seu traseiro, que dirá as pernas compridas. E a frente única de cambraia cor de marfim que ela usava não deixava nada a cargo da imaginação.
Quando cheguei mais perto, percebi a vermelhidão de sua pele, a inércia de seus membros normalmente vigorosos. Teriam eles a envenenado? Eu não sabia o que estava errado com Ana, mas não havia dúvida de que eles tinham feito alguma coisa com ela. Concluindo que era melhor me conter e observar, no caso de a terem drogado e eu precisar de um antídoto, mantive-me perto, porém invisível. Tentei tranquilizá-la, falando à sua mente, mas, se ela me ouviu, não demonstrou.
— Esta noite iremos cortejá-la e ela escolherá entre nós dois. Sua rainha estará casada pela manhã! Nós os convidamos a fazer vigília e brindar à nossa felicidade. Até amanhã!
A multidão juntou-se aos deuses em um brinde e os dois homens desapareceram no alto, ao passo que eu, silenciosamente, seguia os guardas que carregavam Ana enquanto eles retornavam ao templo.
Ana desabou de novo na cama, enquanto as pessoas atiravam contas, flores e penas em sua liteira, para dar sorte. Uma vez dentro do templo, os homens a conduziram por várias passagens até chegarem a um quarto grande que reconheci.
— Deixem-na aqui — ordenou Wyea.
Depois que os homens pousaram a liteira, ele os dispensou.
Shala a fez rolar, reposicionando-a com as mãos ao lado do corpo, enquanto o irmão esticava as pernas dela, ao mesmo tempo acariciando-a.
Meus braços tremiam com a necessidade de matar. Como ousam tocá-la!?
Ela continuou dormindo durante todo o processo, embora gemesse.
— Lawala — disse um deles —, é hora de acordar e escolher. Imploramos que não nos faça sofrer por mais tempo.
Franzindo o rosto como se sentisse dor, Ana sacudiu a cabeça.
— Não — sussurrou. — Por favor.
— Precisamos deixar que ela acorde totalmente, irmão. Como pode escolher um de nós se não estiver consciente?
— Eu já disse a você — replicou o outro, seu rosto quadrado tornando-se sombrio —, se a deixarmos recuperar a consciência, ela vai escapar. Ela quase nos deixou antes, quando o enganou. Você é mole demais.
— Não era a intenção dela — insistiu o irmão. — Além disso, você sabe como as palavras dela me aquecem. Seu hálito em meu ouvido inflama a minha alma. Ela manda um beijo e com isso gera energia suficiente para convocar nosso povo aqui e trazer vida nova. Desde que acatamos seu chamado e viemos para este reino, tenho tido de usar todo o meu poder para gerar calor suficiente para sobrevivermos. Com ela ligada a nós, nossas habilidades serão ilimitadas.
— Admito que eu também vivo mais cansado aqui — disse o outro, soltando um suspiro. — Também anseio pelo dia em que poderemos confiar nela, mas agora não podemos. Você não se lembra de como ela nos enganou no início? Prometeu que, se partíssemos primeiro, abrindo caminho, ela nos seguiria. Estamos esperando há éons, irmão, séculos, que ela venha se juntar a nós. Não vou permitir que ela nos faça de bobos novamente.
— Ela está diferente desta vez. Você não consegue sentir? Ela ainda nos ama. Eu sei. Por que outro motivo teria nos trazido para este lugar?
— Talvez. Talvez possamos aprender a confiar nela. Com o tempo. — O deus tocou o rosto de Ana e o meu esquentou. — Muito bem — disse ele. — Não vamos administrar a bebida sonífera esta noite. Ela vai acordar naturalmente dentro de algumas horas. Quem sabe, então, confesse seu propósito em nos trazer aqui e desperte o suficiente para fazer a escolha. — Ele olhou para o irmão. — Uma coisa é certa, Wyea, dentro de algumas horas ela será uma noiva.
Debruçando-se sobre Ana, ele levou a mão dela até sua boca e a tocou brevemente com os lábios. Então massageou-lhe os dedos e disse:
— Durma agora, minha querida, e amanhã vamos santificar a aurora adornando nossa câmara nupcial com os vívidos tons do desejo.
Recostei-me na parede e cruzei os braços no peito, lívido diante de sua audácia. Ren teria apreciado a poética declaração bem mais do que eu. Por outro lado, provavelmente não teria gostado tanto se o Lorde Chamejante tivesse agido assim com Kelsey, drogando-a no processo.
Shala então ficou de lado enquanto o irmão se aproximava de Ana e alisava seus cabelos, beijando-lhe a testa.
— As lembranças que criaremos, querida, irão acender em Bodha um fogo como nunca se viu antes. Se me escolher, nossa união será tão poderosa que irá derreter o gelo azul que cobre as extremidades deste lindo planeta. Agora durma enquanto vou preparar nosso caramanchão.
Depois que eles saíram, soltei um suspiro e sacudi a cabeça. Eles estão de brincadeira? Devem ter muita confiança em suas habilidades para fazerem promessas assim a uma mulher. Derreter calotas polares? Santificar a aurora? Inacreditável. Depois de me certificar de que estávamos sozinhos, ajoelhei-me ao lado de Ana e toquei seus lábios com o kamandal, vertendo um pouco do elixir da sereia entre seus lábios.
Contendo o pouquinho que escorria devagar pelo canto de sua boca, levei o dedo até o lábio inferior de Ana, cuidando para que ela se beneficiasse de cada gota. Então, incapaz de me conter, deslizei o polegar pela carne macia. O que eu poderia oferecer a uma garota como Ana? Não poesia, como Ren, ou promessas fantásticas, como os dois palhaços que tinham acabado de sair.
Abri as mãos e examinei-as. Eram mãos grandes. Fortes, mas calejadas e marcadas por cicatrizes deixadas por armas e lutas. Eu não tinha talento para os negócios ou as finanças. Riquezas e o acúmulo que essas atividades traziam não me importavam. Eu era um soldado. Um lutador. Um caçador. Não era o tipo que bajulava a garota com palavras floreadas ou gestos românticos. É claro que me esforçaria para agradar, mas eu era o que havia em minha essência. Mesmo que tentasse mudar, não estava certo de que convenceria. Será que ela poderia me amar pelo que eu era?
Dez minutos se passaram e, justamente quando eu me perguntava se o elixir iria mesmo funcionar, Ana se mexeu, alongando-se de uma forma que procurei ignorar, sobretudo quando reparei outra vez em seus trajes sumários. Ela enfiou a mão sob o rosto e virou-se de lado, os longos cílios roçando as bochechas como meias-luas escuras. Então começou a ressonar. O que me fez sorrir.
— Ana? — chamei, sacudindo-a de leve. — Ana, hora de acordar.
Ela ainda estava visivelmente grogue, mas despertou o suficiente para reconhecer onde estava, se não com quem estava.
— Não!
Ela deu um tapa em minhas mãos e debateu-se, tentando escapar de mim.
— Ana — exclamei, tentando despertá-la —, sou eu!
— Pare. Eu não vou. Você não pode me forçar. Nunca mais. — Alarmada, ela se afastou bruscamente de mim, arrastando-se para trás, seu corpo voltado para mim, e, então, virou-se para correr. Seus membros ainda estavam fracos e ela cambaleou de encontro à parede, desabando, cobrindo a cabeça com os braços e chorando. — Por favor — implorou. — Por favor, me deixe em paz.
— Shh, shh, shh, Ana — sussurrei, indo devagar até ela. Não a toquei, mas mantive as mãos estendidas para que ela pudesse vê-las. — Eles não estão aqui agora. Somos só você e eu.
Sentei-me ao lado dela, esticando as pernas.
— Sohan? — chamou Ana, os olhos ainda enevoados devido ao que quer que tinham lhe dado.
— Sim, estou aqui.
Ela estendeu a mão e agarrou meu braço, sacudindo-o.
— Mas você... você me deixou.
— Eu não deveria.
— Você queria um... um tempo.
Fraca, ela se aproximou mais, arrastando-se.
— Você quer que eu a segure? — perguntei, desejando poder ler sua mente. Quando ela assentiu, puxei-a para meu colo e aninhei sua cabeça em meu pescoço. — Eu errei, Ana. Você pode me perdoar?
— Talvez.
Deslizei a mão por suas costas para confortá-la, mas rapidamente me lembrei de que estavam nuas quando meus dedos correram pela pele sedosa que me provocava entre cachos do cabelo.
Parei então com o movimento e apenas a segurei junto de mim, dando-lhe tempo para acordar.
— Sohan? — chamou ela, a voz ainda engrolada.
— Humm? — repliquei, tentando ignorar a sensação de seus lábios e cílios roçando meu pescoço.
— Eu já disse que gosto do seu cheiro?
— O quê?
Eu ri, minhas sobrancelhas se unindo.
— É. Você tem cheiro de grama, árvores e alguma coisa... alguma coisa quente, como o âmbar.
— Isso é, hã... legal — retorqui.
Ela deu um suspiro profundo, o hálito quente soprando em meu pescoço.
— Eu acho muito prazeroso — disse Ana languidamente. — Também gosto dos seus olhos. Nunca sei de que cor eles vão ficar. Cheguei à conclusão de que depende do seu humor. Quando está com raiva, eles ficam castanhos como pelo de vison. Às vezes, ficam cor de canela ou de mogno. — Ela tocou a ponta de meu nariz e deu uma risadinha bêbada. — Mas minha cor preferida é quando ficam de um castanho-amarelado, feito um topázio. Eles cintilam então e sei que é porque você está feliz. Só vi seus olhos ficarem assim umas poucas vezes, mas me lembro de cada uma delas.
Abri a boca para replicar, embora não soubesse muito bem o que dizer, e nesse instante a porta se abriu de repente. Os dois irmãos entraram de maneira intempestiva. Erguendo Ana nos braços, me levantei, preparando-me para nos deslocar para longe do templo do diamante.
— Ela foi embora! — um deles bradou. — Eu disse que deveríamos nos revezar vigiando-a.
Fiquei confuso a princípio. Eu sabia que eles não podiam me ver, mas deveriam poder ver Ana ainda. Ela lhes pareceria um corpo flutuando. Olhei para ela em meus braços e a vi me fitando, os olhos um pouco menos turvos. Com delicadeza, ela segurou meu rosto e percebi que seu corpo estava desfocado no tempo, assim como o meu. Se havia feito isso sozinha ou se tinha simplesmente acontecido por causa de nossa proximidade, eu não sabia. Ergui as sobrancelhas e Ana sacudiu a cabeça ligeiramente, empurrando de leve meu peito para que eu a pusesse no chão.
Ela girou os dedos e senti as fibras do lenço me envolverem, transformando-me em um ser que se parecia com eles, mas era mais alto e muito maior. Cabelos louros e compridos pendiam sobre minhas costas e meus braços e pernas estavam nus, exibindo a pele dourada. Quando ficou satisfeita com minha aparência, ela nos retornou ao tempo deles.
— Eu estou aqui, meus senhores — anunciou. — Vocês me pediram que escolhesse um companheiro e assim fiz. Minha escolha é a minha contraparte, meu semelhante. Ele veio me buscar e me despertou do sono que vocês infligiram à minha forma mortal.
Ela pousou a mão em meu peito nu e eu a cobri com a minha.
Ana sussurrou, recorrendo ao poder do lenço. Fios a envolveram, criando um vestido que cintilava como a luz de centenas de estrelas. Aproximando-se mais de mim, ela abraçou minha cintura e eu passei um dos braços por seus ombros, em sinal de proteção e posse.
Os dois homens, maravilhados diante de seu poder, gaguejaram, em protesto:
— Mas... mas você é Lawala renascida.
— Não. Não sou. — Ana sacudiu a cabeça com tristeza. — Nós somos dois dos Antigos. Encontrei vocês à deriva entre as estrelas e pensei em lhes oferecer um novo lar. Infelizmente, vocês se aproveitaram da minha bondade e me aprisionaram neste reino mortal. Um reino onde sou como um peixe fora d’água, ao qual não pertenço. Aquela que vocês procuram não atendeu a meu chamado — disse Ana, dando um passo à frente e oferecendo a mão a Wyea.
Ele prostrou-se aos pés dela.
— Talvez ela ainda venha. Você pode buscar outras — implorou ele. — Tente encontrá-la. Nós suplicamos.
— Sinto muito — disse ela. — Eu trouxe tantas quantas estavam dispostas e agora é minha hora de partir.
O homem abraçou as pernas dela e chorou.
— Como poderemos sobreviver sem você?
— Eu lhes concederei o poder de explorar o centro deste mundo, onde existe uma vasta quantidade de calor. Mais do que suficiente para permitir que seu povo prospere. Mas, entendam, vocês não podem jamais deixar este reino. Serão felizes aqui, se não procurarem expandir seus horizontes, no entanto, se fizerem isso, receio que irão provocar o caos. Porque aprendi que não posso confiar plenamente em vocês, irei colocar um guardião entre seu povo. Ele vai se reportar a mim e, se eu precisar retornar aqui, vocês serão depostos de sua posição e despojados de seu poder. Compreenderam?
— Nós vamos encontrá-la — disse Shala. — Nada pode nos manter afastados. Nem mesmo um Antigo.
Dei um passo à frente.
— Já chega — falei. — Vocês dois deveriam ser punidos pelo que fizeram.
— Não vamos deixar de procurar por ela — avisou Shala, uma luz ensandecida cintilando em seus olhos. — Mesmo que você não possa ou não queira trazê-la, ela virá por vontade própria. Ela nos ama.
— Pelo seu bem — disse Ana —, espero que esteja certo. Mas seu poder irá minguar se fizerem mau uso dele. Vocês teriam de estender os dedos até as estrelas para procurá-la e, se fizerem isso, irão consumir o calor de sua cidade. As árvores morrerão e não haverá comida suficiente. Vocês destruirão este paraíso que eu criei. Pensem seriamente nisso antes de agirem.
Wyea assentiu, mas Shala manteve uma posição rígida, os punhos cerrados.
— Venha, minha bela senhora — chamei. — Deixe que se aconselhem um com o outro. Eles já tomaram mais do que lhes foi oferecido e não merecem nenhuma bênção neste momento.
— Você tem razão, meu amor — disse ela, voltando-se para mim com olhos semicerrados. — Mas ainda há trabalho a fazer neste lugar. — Erguendo o braço, ela fechou os olhos e uma corda dourada se materializou, enrolada. — Vocês pegarão esta corda — disse ela — e a esconderão na floresta de fogo. Ela será guardada de perto por um de meus amados bichinhos de estimação. Vocês deverão proteger sua localização até serem os dois derrotados em batalha. Entenderam minhas instruções?
— Sim, Antiga.
Ambos inclinaram a cabeça, mas eu vi o brilho de malícia ainda espreitando por trás dos olhos bastante afastados um do outro de Shala.
— Muito bem. Vamos partir agora. Por favor — disse ela, após pegar minha mão —, por favor, não desperdicem o presente que lhes dei.
Com isso, ela murmurou para a corda as palavras que fariam com que Ren e eu pudéssemos ser humanos sem limite de tempo e entregou-a a Shala. Ana então fez um floreio com a mão e nós dois nos rematerializamos na floresta de fogo a uma boa distância dali, de modo a não sermos encontrados imediatamente. O lenço nos envolveu e logo tínhamos a aparência de hábito.
— Desculpe — falei assim que nos rematerializamos. — Eu nunca deveria ter deixado você sozinha.
— Sou eu que peço desculpas — disse ela.
— O que aconteceu, Ana? — perguntei. — Por que você não me disse aonde estava indo?
— Eu deixei uma carta para você — balbuciou ela.
— Uma carta? — Então compreendi tudo. Cruzando os braços diante do peito, perguntei: — Ana, onde você colocou o pergaminho de Kadam?
Ela estalou os dedos e uma bolsa apareceu. Vasculhou seu interior e tirou um rolo de pergaminho, abrindo-o em seguida. Seu rosto ficou corado e ela o estendeu para mim.
— Esta é a minha carta — declarou.
Li rapidamente a mensagem, que dizia:

Sohan,
Compreendo que você precisa de um tempo longe de mim. Eu não o culpo por isso. Tampouco espero alguma coisa de você. Se você escolher uma vida separada da minha, eu aceitarei. Se, porém, retornar à minha procura, estarei por uma semana no riacho da floresta perto de nossa casa, onde você caça. Se você não me encontrar nesse período, deduzirei que decidiu me deixar. Eu... sentirei sua falta, mas não abandonarei meu dever.
Ana

— Ao que parece, Kadam quis se certificar de que eu a recebesse, mas seus esforços foram um tiro pela culatra. Você esperou a semana inteira? — perguntei.
— Esperei. Mas então senti que houve uma mudança. Eu já não conseguia sentir sua presença.
— Tive de salvar Kadam — expliquei. — Ao fazê-lo, rompi nosso elo. Não era minha intenção, mas ele estava aprisionado. Quando perguntei se podíamos recuperar o elo, ele disse que talvez seja possível... — Minha voz falhou. — Você estava tentando concluir a lista sem mim?
— Não exatamente. — Ela chutou a grama com a bota. — Eu... eu fui uma tola — disse, então afastou os olhos de mim. — Eu estava procurando uma conexão e uma força me trouxe aqui.
— Uma conexão? — perguntei. — Como assim?
— O que quero dizer é... — Ela retorceu as mãos, andou de um lado para outro e então concluiu: — Eu estava procurando um... um companheiro.
— Um compa... Ah. Entendi. Isso é culpa minha, Ana. A questão é mais do que apenas o dever, não é? Você pensou que eu estava abandonando não só nosso trabalho, mas você também.
— Sim... não. Quer dizer, não exatamente.
— Não, isso é minha responsabilidade. Eu estraguei tudo.
— De que você está falando? — perguntou ela enquanto chamava um animal.
Dei um tapa em minha testa e expliquei tudo que havia acontecido com Kadam. Os olhos dela se arregalaram e ela ergueu um dedo enquanto se curvava para a cobra e a criatura que parecia uma cabra.
— Vocês me servirão? — perguntou-lhes.
Elas devem ter concordado, porque Ana sorriu e logo surgiu à minha frente uma quimera. O animal enfiou a cabeça em minha barriga e fungou ruidosamente.
— Hã, sim, você pode fazer com que ela seja atraída por Ren, e não por mim? — pedi.
Ana riu, enquanto a fera bufava, soprando ar quente em minhas pernas.
— Não, é sério — insisti, seguindo Ana quando ela começou a andar. A quimera me acompanhou, mordiscando meus calcanhares. — Esta aqui tem uma queda por tigres.
— Não temos todas? — murmurou ela entre dentes.
— O que foi que você disse? — perguntei.
— Nada. — Ana bateu em sua coxa e a fera saltou para a deusa, abanando a cauda de cobra. — Você irá guardar a Corda de Fogo? — perguntou à criatura meio gato, meio réptil.
O animal me dirigiu uma triste espécie de ganido, bufou e então se afastou, sumindo por entre as árvores.
— Você sabe que está fazendo isso fora da ordem, certo?
— Sei. Eu não esperava vir aqui. Na verdade, eu nem estava tentando criar Bodha.
— Não estava? — franzi a testa. — Então o que você estava fazendo?
— Como eu disse, estava tentando encontrar um companheiro.
— E acabou com os Lordes Chamejantes?
— São os Lordes da Chama.
— Ah, que seja. Levando em consideração que eles a drogaram, e você ainda não explicou como isso aconteceu, aliás, e quase a forçaram a se casar com um deles, você foi bastante complacente com eles.
Ana deu de ombros.
— Eles não tinham intenção de me fazer mal. Não de verdade.
— Ah, tinham, sim. Eu os conheço um pouco melhor do que você. Eles fizeram algo semelhante a Kelsey. Eles...
— Você não os conhece, Sohan. De verdade, não. Eles não são humanos como nós. A maneira como fazem as coisas é diferente. Eles nasceram das estrelas. Não estão acostumados a ficar confinados nos corpos humanos que lhes dei.
— Mesmo agora eles não são exatamente humanos.
— Não. Eles viviam em cidades de cristal. Eram lindos, seus corpos brilhavam à noite como as estrelas. O lugar onde nasceram foi destruído e eles foram lançados na escuridão do espaço. Aquela que eles amavam ficou para trás, para se certificar de que todos escapassem, mas temo que ela tenha se perdido. Talvez um dia eles a encontrem. Eu, porém, não alimento esperanças como eles.
— Certo, mas isso não é nenhuma desculpa para raptar mulheres.
— Não, você tem razão. Mas, em seus corações, eles não desejam o mal.
Cruzei os braços e me recostei em uma árvore de fogo.
— É mesmo?
— É.
— Então por que você tentou fugir quando pensou que eu era um deles? Por que estava implorando que parassem?
— Eles estavam... estavam me tocando.
— Eles machucaram você? — perguntei baixinho, a voz gélida.
Ana sacudiu a cabeça.
— Não da maneira que você está pensando, mas temi que chegassem a isso. — Ela chutou o solo escuro com a bota. — Você sabe que não gosto de ser forçada ao contato físico.
— Sim — confirmei suavemente. — Eu sei.
— E agora você sabe o motivo.
Assenti.
— Sou uma líder entre os homens — disse ela abruptamente. — Sunil me protegeu até eu aprender a me defender. Sempre fui cuidadosa e me cerquei daqueles que considerava dignos de confiança. Qualquer soldado que me visse como uma simples garota fingindo-se de guerreira, ou alguém com quem brincar, logo aprendia a mudar de opinião. Conquistei o respeito deles e dei o melhor de mim para fazê-los esquecer que estavam sendo liderados por uma mulher.
Meus lábios crisparam-se e ergui uma sobrancelha ante essa afirmação, mas não teci qualquer comentário. Nenhum homem em sã consciência deixaria de notar Anamika. Mesmo enfaixada e coberta por uma armadura, Ana era deslumbrante.
Ela prosseguiu:
— Eu nunca quis encorajar relacionamentos íntimos. Primeiro, porque não sabia se poderia estar com um homem e não me sentir como se estivesse presa em um pesadelo. Segundo, porque casamento significa filhos. Como pode uma mãe partir para a batalha? Como um marido se sentiria ao ver a mulher liderar um exército? Aceitei o que eu era. Quem eu era. Quer dizer, até você.
— Eu? — perguntei. — O que foi que eu fiz?
— Não é o que você fez. É... — Ela ergueu os olhos para mim e então me olhou de cara feia. — Dá para você parar de me olhar enquanto digo isso?
Eu ri.
— Você quer que eu vire de costas?
— Ajudaria.
Fitando seus olhos grandes e sinceros, e então suspirando, fiz meia-volta.
— Pronto. Não estou olhando para você. Se me lembro, você estava falando sobre por que desencaminhei sua vida.
— Sohan — disse ela, com um suave suspiro —, você não desencaminhou a minha vida. Você me deu a dádiva da possibilidade.
— Possibilidade?
— É. Eu agora acredito que é possível para mim viver tanto como mulher quanto como guerreira, como esposa e como deusa. Quando dormi no Bosque dos Sonhos, vi o que poderia ser.
Minha pulsação disparou. Ela estava dizendo o que eu estava pensando?
— Você não entende? — perguntou ela. — Foi por isso que procurei os Lordes da Chama.
Ah. É claro.
— Acho que entendi — falei devagar. — Você queria que um deles preenchesse o espaço vazio em sua vida.
— Bem, sim. Eu pensei que...
— Não. Eu entendi — interrompi-a, dando meia-volta. — Você queria um marido e somente um deus serviria. Por isso você procurou nos céus até encontrar não um, mas dois. Faz sentido. Eu entendo totalmente.
— Sohan, não acho que você entenda. O que estou tentando dizer é...
Ergui a mão.
— Não quero ouvir mais, Ana. Se você não se importa, eu gostaria de concluir a lista de Kadam e então poderemos realmente dar um tempo muito, muito longo um do outro. Sem nosso vínculo, deve ser fácil. Depois disso, podemos cada um seguir o seu caminho. Você pode ir em busca do que está procurando e eu... eu vou finalmente ter um pouco de paz.
Uma espécie de dor aguda surgiu em meu peito enquanto permanecia ali parado, plenamente consciente de minha respiração profunda durante o tempo em que ficamos estudando um ao outro em silêncio. Por fim, ela assentiu com a cabeça e disse:
— Como quiser, Sohan.
Ela me deu as costas e depois só me dirigia a palavra quando precisava esclarecer algo. Falei-lhe das árvores de frutas do fogo e do qilin, e ela usou o amuleto para criar uma floresta inteira das árvores amadas pela Fênix. Ana também criou vinhedos cheios de globos reluzentes que pareciam uma mistura de nectarina e uva, e campos de grãos amadurecendo, que explodiam na ponta com pequenas flores semelhantes a pipoca.
Ela criou flores de fogo de todos os tipos e gramados altos e ondulantes. Cogumelos vermelhos brotavam em árvores e pedras. Uma pesada espécie de mariposa elevou-se de uma árvore e Ana moveu os braços até que mil daquelas criaturas explodiram de um arbusto flamejante. Elas fabricavam um tipo de seiva dourada e rapidamente começaram a construir colmeias. Tudo que ela tocava inclinava-se em sua direção e ganhava vida.
Em seguida, criou centenas de criaturas, tanto grandes quanto pequenas. Algumas pareciam coelhos ou cervos, outras eu nunca vira antes, mesmo quando percorríamos a floresta. Talvez tivessem sido caçadas até a extinção pelos rakshasas ou os bodhas. Esse pensamento me deixou triste. Ana extraiu cristais de diferentes cores do solo e convocou pequenos animais de pernas compridas. Depois de perguntar se eles serviriam a ela, os animais aceitaram a dádiva da deusa.
Os cristais cobriram seus corpos e logo estávamos cercados por uma manada de reluzentes qilins. Eles relinchavam e batiam os cascos enquanto disparavam pela floresta, deixando uma trilha de fogo em seu rastro. Eram tão deslumbrantes quanto eu lembrava. Eu havia pensado que Shangri-lá era bonita, mas a floresta de fogo era igualmente linda. Se não fosse pelos rakshasas, não teria me importado de passar mais tempo ali.
Quando contei a Ana da caverna e dos raskshasas, ela inclinou a cabeça, ouvindo com atenção. Assim que acabei, ela disse:
— Os rakshasas estão com os bodhas agora. Eles vão romper em algum ponto, mas esse momento ainda não chegou. Vamos deixar que avancem naturalmente ao longo dos séculos. Talvez os Lordes da Chama um dia os separem. Talvez eles de fato desacatem meu conselho e danifiquem esta terra, causando sofrimento ao povo. Nesse caso, faria sentido que aqueles que romperam se tornem comedores de carne.
Depois de criarmos uma marca da mão dentro do túnel de lava onde Kelsey entraria na Cidade de Luz, toquei seu ombro.
— Ana — comecei —, eu só queria dizer...
— Não há necessidade de falarmos mais disso — cortou ela. — Venha. Está na hora de encontrar a Fênix.
Deixamos o reino de fogo e nos rematerializamos no topo de uma grande montanha. Via-se uma caverna acima, não muito distante.
— Ela mora ali? — perguntei.
— Creio que sim — respondeu ela.
Pus a mão em suas costas enquanto subíamos para me certificar de que ela não cairia, mas Ana se afastou de mim. O vento açoitava os cabelos negros como as penas do corvo e ela grunhia, frustrada, quando ele entrava em seus olhos. Ao chegar à entrada da caverna, ofereci-lhe ajuda para subir, mas fui mais uma vez ignorado. Eu sabia que o que tinha dito era rude, mas, mesmo que eu pudesse voltar, ainda diria o mesmo. Se ela ia se casar com o primeiro sujeito que aparecesse, eu não queria estar por perto. Só pensar nisso já me fazia querer esmagar alguma coisa. Ana era inalcançável para mim. Eu sabia disso. Sempre soubera. Mas meu sonho tinha significado alguma coisa. Aquele beijo tinha significado alguma coisa. Não tinha? Acho que não havia sido nada memorável para ela, mas eu certamente me lembraria dele. Até o dia que eu morresse, me lembraria daquele beijo.
Entramos na escuridão da gruta e Ana criou uma bola de fogo nas mãos para iluminar o lugar.
— Olá! — chamou.
Ouvi umas batidas distantes.
— Lá — sussurrei, e entramos em uma imensa caverna à direita.
Luzes de todas as cores dançavam nas laterais da caverna e, quando dobramos uma curva, arquejamos ao ver milhares e milhares de ovos da Fênix, cada um brilhando com o próprio fulgor. Tínhamos de andar com cuidado para não pisar acidentalmente em um deles.
— Aproximem-se — chamou uma voz. — Estava me perguntando quando vocês viriam.
Erguemos os olhos e, de um ninho construído no alto da parede da caverna, uma grande Fênix nos espiava.
— Bem — disse a ave —, vocês dois têm a aparência ligeiramente menos impressionante do que eu esperava, mas, afinal, não somos todos assim?
Ela estendeu e bateu as grandes asas azuis algumas vezes e pousou de maneira suave à nossa frente.
— Grande Fênix — começou Ana —, somos...
— Sei quem vocês são, Deusa — disse ela. — Estamos de olho em vocês já faz algum tempo.
— É mesmo? — perguntou Ana com um sorriso.
— Mesmo. Meu nome é Anoitecer. E, antes que perguntem, sim, irei com vocês para o reino do fogo. Alguém vai ter de ficar de olho naquele lugar.
— Obrigada. Posso fazer outra pergunta?
— Pode — disse ela a Ana.
— Como você sabia que viríamos?
A Fênix riu.
— Também sou chamada de Conhecimento das Eras, Vigilante da Humanidade e o Fogo Encontrado em Todos os Corações. Se eu não soubesse da deusa Durga ou de seu tigre Damon, esses títulos não significariam grande coisa, não é?
— Acho que não.
— Ah — suspirou a ave, batendo as asas. — Suponho que eu possa relaxar as regras da formalidade com vocês dois. — Inclinou-se, chegando mais perto, e disse: — Fanindra me contou.
Franzi a testa e estava prestes a fazer outra pergunta quando Anoitecer prosseguiu:
— E, já que falei em corações, gostaria de oferecer minha bênção ao seu casamento.
— Eu... eu ainda não tenho um companheiro — gaguejou Ana.
— Hã? — A ave piscou um olho sábio. — Não é o que diz o seu coração.
Fechando a cara, eu disse:
— Temos muito que fazer, Anoitecer. Talvez você possa oferecer sua bênção em outro momento.
— Talvez — disse ela. — Talvez.
A ave mudou de posição, arrepiando as penas, e então tocou Fanindra com o bico.
— Olá — saudou.
A cobra ganhou vida e ergueu a cabeça, dilatando o pescoço.
— Ah, sim — disse a ave, como se falasse com a cobra. — Ele é um pouco cabeça-dura. No entanto, tem bom coração. Que inteligente da sua parte usar a pedra da verdade.
Ana, que estava ouvindo com atenção a conversa de Fanindra com a Fênix, empertigou-se. Suas sobrancelhas benfeitas arquearam-se.
— Fanindra então tem uma ligação com você, grande ave? — perguntou.
— De certa forma, sim — disse ela, com uma risadinha. — De certa forma.
— Você não tem a intenção de nos dizer, não é? — tentou Ana.
— Ainda existem coisas que vocês precisam descobrir — disse Anoitecer em tom enigmático. — Não quero privá-los das surpresas que os aguardam. — Ela estalou o bico e acrescentou: — Agora vamos.
— Você precisa de ajuda? — perguntou Ana.
— Creio que não. — O ar ao redor deles tremeluziu e os ovos desapareceram. — Até nos encontrarmos de novo — disse ela e bateu as asas.
Cada vez que as asas subiam, criavam um vento que ia se tornando mais fraco à medida que seu corpo desaparecia. Logo estávamos sozinhos em uma caverna escura.
Ana voltou-se para mim e fechou a mão, apagando a bola de fogo. Automaticamente estendi os braços e a puxei para mim. Na escuridão, era fácil fingir que não havia nada se interpondo entre nós. Fechei os olhos e me senti apaziguado pelo simples fato de estar perto dela. Você ainda pode me ouvir?, perguntei silenciosamente. Se ela podia, não respondeu.
Aparecemos em seguida dentro de um templo, ao lado de uma estátua de cera da deusa.
— Não tem nenhum tigre — observou Ana.
— Não. Não neste templo. Você não acha que devíamos seguir a ordem e ir para a Cidade dos Sete Pagodes primeiro? — perguntei.
Ela sacudiu a cabeça.
— Os templos devem ser pareados com o reino. Acabamos com o reino do fogo, então precisamos presentear Kelsey com aquelas armas agora.
— Tem certeza? — perguntei, duvidando.
— Tenho — respondeu ela suavemente.
Erguendo a mão, Ana tocou uma guirlanda pendurada no pescoço da estátua e encostou o nariz no jasmim.
— Uma avó bem velhinha me deu isto — disse ela. — Os nós dos dedos dela estavam inchados e deformados por uma doença e ainda assim ela teceu estas flores para mim.
— Como você sabe disso? — perguntei.
Ana voltou-se para mim.
— Ouço o chamado dela. Há muito trabalho a fazer quando isso tiver acabado, Sohan.
— É mesmo? Bem, tenho certeza que seu futuro marido estará disposto a ajudar o máximo que puder.
Ouvi seu leve suspiro.
— Eles estão vindo — avisou.
Rapidamente posicionamos nossas mãos, a minha sobre a dela, na pedra perto da estátua e uma reluzente marca de mão surgiu.
Tocando o amuleto, desloquei-me no tempo e Ana desapareceu por completo. Kelsey, Kadam, Ren e meu antigo eu entraram no templo.
“Ela é linda”, disse Kelsey.
— É, sim — murmurei ao mesmo tempo que meu antigo eu.
Observei-os dispor suas oferendas e começar a pedir a graça da deusa, um de cada vez. Meu antigo eu e Ren estavam tentando impressionar Kelsey e fiquei surpreso ao notar que eu não sentia nem um pouco de ciúme.
Quando meu antigo eu disse “... pedimos a oportunidade de uma nova vida...”, perguntei-me o que ela estaria pensando sobre isso. Eu certamente obtivera o que havia pedido. Tinha uma vida nova agora, servindo à deusa como tigre. Era uma vida da qual eu tinha passado a gostar. Poderia mesmo abrir mão dela? Deixar Ana sem lhe dizer... sem dizer o quê? Que eu gostava de estar perto dela? Que observá-la dormir me fazia sorrir? Que aquele beijo em Shangri-lá era tudo em que eu conseguia pensar? Que não podia imaginar existir sem ela? Que eu... a amava?
O fogo começou e meu coração se apertou enquanto eu observava a estátua derreter. Ana?
Estou bem, foi sua resposta mental. O alívio que senti ao saber que não havíamos perdido nossa conexão mental foi esmagador. Deixei escapar um suspiro trêmulo e, ao inspirar, inalei cinzas.
Quando os outros começaram a tossir, invoquei um vento para levar a fumaça para longe e manter o fogo suficientemente controlado de modo a não feri-los. Kelsey tocou a marca da mão, o sinal para Ana aparecer. Observei, fascinado, a cera que cobria seu corpo derreter. Seus gloriosos cabelos estavam em chamas e ela os afastou da cabeça, apagando o fogo. Parecia mais a Ana de todos os dias com apenas dois braços e, mesmo assim, ainda era magnífica em seu vestido inflamado. Ela sorriu e vi os outros reagirem à sua voz tilintante com uma espécie de reverência que eu também sentia. Ana, porém, não voltou seu olhar deslumbrante para mim.
“É bom rever todos vocês”, disse ela.
Fanindra ganhou vida nas mãos de Kelsey e baixei os olhos para meu braço, surpreso ao ver que a cobra não estava ali. Eu nem mesmo a sentira sair.
Meu antigo eu fez um barulho.
Sem erguer os olhos, Ana suspirou e lhe disse:
“Você precisa aprender a ter paciência no que diz respeito a mulheres e deusas, meu tigre de ébano.”
Senti, naquele momento, que ela não estava falando apenas com ele, mas também comigo.
“Perdoe-me, Deusa”, replicou ele.
“Aprenda a amar o momento em que se encontra”, disse Ana suavemente. “Valorize suas experiências, pois momentos preciosos passam rápido demais por você e, se estiver sempre correndo em direção ao futuro”, ela me lançou um breve olhar, “ou ansiando pelo passado, irá se esquecer de desfrutar e apreciar o presente.”
Nossos olhos se encontraram por um brevíssimo instante. No entanto, mil palavras pareceram passar entre nós então.
“Irei me esforçar para me manter atento a cada palavra que passa por seus lábios, minha deusa”, disse meu antigo eu.
Ana inclinou-se para a frente e tocou carinhosamente o rosto dele.
“Se ao menos você fosse sempre tão... devotado”, disse ela.
Franzi a testa.
O que você está fazendo, Ana?, perguntei.
Ela ignorou a pergunta e começou a falar com Kelsey. Eu me desliguei até ouvir Kelsey perguntar:
“Os tigres voltarão a ser homens em tempo integral depois que encontrarmos o próximo prêmio, certo?”
Ana fez uma pausa demorada e então respondeu:
“A forma do tigre foi dada a eles com um propósito e logo esse propósito será alcançado. Quando a quarta tarefa for concluída, eles terão a oportunidade de se separar do tigre. Venham e peguem suas últimas armas.”
Puxando a espada do cinto, Ana fez um movimento com a mão, criando duas lâminas, e então as girou, distraindo tanto Ren quanto meu antigo eu, de modo que nem sequer reagimos quando ela levou as duas lâminas a nossos pescoços. Ela poderia ter nos matado, se quisesse. Foi constrangedor ver a facilidade com que tínhamos ficado hipnotizados por ela. Ana entregou a arma de Ren, mas manteve a outra espada na garganta de meu antigo eu. Na verdade, eu sabia que não era exatamente ele que ela estava desafiando, mas a mim.
Ela lutou com ele por um minuto ou dois e ainda conseguiu vencê-lo. Deixei escapar uma espécie de suspiro melancólico. Sentia falta de vê-la em ação.
“Não se preocupe, minha querida Kelsey, pois o coração do tigre negro é duro demais para ser perfurado”, disse Ana.
Desloquei-me em sua linha de visão e ela ergueu uma sobrancelha, como se me desafiasse a negar sua afirmação. Ela nem notou a maneira como meu antigo eu a fitava. Eu notei, porém, e ela sorriu para mim enquanto tornava a tocar o peito dele com a ponta da espada.
Quando ele empurrou a lâmina, afastando-a, Ana a girou, oferecendo-lhe o punho, e então lhes deu os broches e demonstrou como usá-los. Juntando as mãos atrás das costas, dei a volta para o outro lado até me encontrar bem detrás do ombro de meu antigo eu.
Ana, olhando direto para mim e mais parecendo ronronar, correu a mão pelo ombro de meu antigo eu e disse:
“Talvez seja melhor, por ora, que você continue com estas roupas modernas.” Aproximando-se mais dele e dando uma piscadela, acrescentou: “Tenho um fraco por homens bonitos em trajes de batalha.”
Meus punhos se cerraram. Ela estava flertando. Intencionalmente. Com o homem que eu fora.
Pare, pedi.
Por quê? Incomoda você ver outro homem interessado em mim?
Ele não é outro homem, Ana. Sou eu.
Sim. Bem, minhas opções estão limitadas no momento.
O que você quer dizer com isso?
Shh, estou ocupada agora.
“Estes broches foram criados especialmente para vocês dois”, disse ela, a voz rouca e hipnotizante. “Gosta do meu presente, tigre de ébano?”, perguntou suavemente.
Meu antigo eu estava praticamente tropeçando nos próprios pés para chegar até ela. Ele pegou a mão dela e eu me encolhi, sabendo que ela odiava isso, mas Ana nem mesmo piscou. Ao contrário, dirigiu-lhe um sorriso cálido enquanto ele tropeçava nas palavras:
“Acho que você é... quer dizer, acho que ele é... incrível. Obrigado, Deusa.”
Ele beijou-lhe os dedos e ela... ela gostou.
“Hum.” Ela sorriu, com prazer. “Por nada.”
Kadam pigarreou alto.
“Talvez fosse melhor começarmos nossa jornada. A menos que tenha mais para nos dizer... Deusa?”, disse ele, dirigindo-lhe um olhar perspicaz.
Ana remexeu-se sob o escrutínio de seu professor e, na mesma hora, recuou um passo. Mas me olhou com ar desafiador. Ergui o queixo, aceitando o desafio. Se ela queria briga, eu ficaria mais do que feliz em atendê-la. Seu peito arfava e seus braços se retesaram, como se ela fosse saltar. De repente lembrei-me da perseguição cega pela floresta e da garota que queria que eu a pegasse. Meus dedos contraíram-se em antecipação. Era Ana. Tinha de ser.
Acho que precisamos conversar, Ana, eu disse.
Ela estreitou os olhos.
“Eu já disse tudo que é necessário.” Voltando-se para os outros, ela sorriu. “Até o próximo encontro, meus amigos.”
O corpo de Ana se enrijeceu e Kelsey perguntou rapidamente:
“Quando nos encontraremos novamente?”
Mas a deusa apenas piscou para ela e então, mais uma vez, era uma efígie de cera.
Fiquei olhando fixamente para a forma da deusa, esperando que Ana aparecesse, mas parecia que ela queria me fazer esperar. Ren gritou com meu antigo eu e lhe acertou um soco. Eu me encolhi, sentindo outra vez o golpe.
“Se você tratar Kelsey assim outra vez, vou fazer muito mais do que tentar enfiar um pouco de juízo nessa sua cabeça. Acho bom pedir desculpas a ela. Fui claro, irmãozinho?”, indagou Ren.
Ele saiu com Kadam e eu me ouvi pedir desculpas a Kells e perguntar se ela ainda era a minha garota. Kelsey apenas assentiu, mas ficou claro que ela não estava nem de perto tão furiosa quanto eu acabara de me sentir ao ver Ana flertando com meu antigo eu. Se tivesse sido Ren a se jogar em cima da deusa, ela teria ficado lívida. Ou, no mínimo, com o coração partido. Em relação a mim, ela não estava nada disso. Eu sentia saudade de Kells. Mas ela estava feliz. Ela seguira em frente com sua vida. Era hora de eu fazer o mesmo.
Passado muito tempo depois que eles tinham ido embora e Ana ainda não havia aparecido, cruzei os braços diante do peito e disse:
— Não acha que tem explicações a dar?
Em resposta à minha pergunta, ouvi o ruído de uma espada sendo desembainhada e, antes que eu pudesse reagir, sua ponta foi pressionada contra minha nuca.
— Vamos retomar de onde paramos, tigre? — perguntou uma voz macia.

7 comentários:

  1. Aaah então agoora faz sentido o flerte...
    Pareceu tão esquisito nos livros anteriores, mas agora eu shippo!

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    1. desde o começo eu desconfiei desses dois:O

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  2. ATE QUE EM FIM KISHAN!!! Meu pai amado que demora pra vc descobri que ama a Ana

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  3. Cara depois falam da chatice da Rabanete nos outros livros . Kishan fala uma coisa Anamika entende outra.. Aí fica difícil

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  4. Ue? Mais.não é só pessoas puras que podem entrar no templo? Como a Ana entrou?

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  5. Talvez esses irmãos estejam certos, talvez logo depois ela se torne uma noiva...

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