12 de setembro de 2018

31 - Vislumbre futuro

Arrastando-me para dentro da gruta escura, deitei-me e descansei a cabeça nas patas, deixando escapar um profundo suspiro. Esse era meu espaço, literalmente meu refúgio. Era o lugar que chamara de lar a maior parte de minha vida. Eu não tinha certeza de em que tempo me encontrava. Não mesmo. O amuleto simplesmente respondera a meu desejo de encontrar minha caverna.
A princípio, eu não sabia por que sentira a necessidade de fugir. Não era por estar infeliz ou aborrecido. Estava mais era confuso. Principalmente depois de passar tanto tempo com Ana. O sonho que eu tivera, associado àquele beijo, mexera comigo. Não só me fizera passar a ter consciência dela de formas com as quais eu não me sentia muito confortável como virara tudo que eu sabia e em que acreditava de pernas para o ar.
Estaria a pedra da verdade escondida no Bosque dos Sonhos me mostrando um futuro certo? Alguma coisa inevitável? Ou estaria me empurrando em direção a ele? Guiando-me, como Kadam fazia? O que eu sentia de fato por Ana? Eu gostava dela? Sim. Levei muito tempo para compreendê-la, mas agora compreendia. E não só isso, eu a respeitava.
Havia então a grande questão. Estava apaixonado por Ana? Sinceramente, eu não sabia. Poderia um dia ficar? Possivelmente. O que quer que eu sentisse por ela não era confortável ou fácil, como fora com Yesubai ou Kelsey. Mas talvez isso não fosse uma coisa ruim. Sem dúvida, o amor não fora fácil para Ren ou mesmo Sunil. Ambos tiveram de lutar para encontrar a felicidade.
Eu estaria disposto a fazer o mesmo?
E quanto aos sentimentos dela? Ana correspondera a meu beijo no bosque, mas estava meio adormecida na ocasião. Desde aquele episódio, parecera distante. Estava tão fechada para mim agora quanto no início. Era estranho que ela me permitisse ver certos fatos muito claramente. Mas qualquer coisa relacionada a seus sentimentos presentes estava escondida em um local profundo demais para que eu conseguisse desenterrá-la.
O futuro que eu havia planejado para mim parecia um sonho distante agora, como uma miragem que se afastava mais cada vez que eu tentava alcançá-la. Eu havia me resignado a uma vida servindo à deusa. Ajudando os outros. Pensara que não era meu destino ter um “felizes para sempre”. Que era hora de deixar a ideia de filhos e uma mulher que me amasse desbotar como um xale colorido que tivesse ficado muito tempo pendurado no varal.
Mas então houve aquele beijo. Aquele sonho. Eu não conseguia parar de pensar nele. Todas as vezes que fechava os olhos, eu o revivia. Seria Ana, de fato, a mulher em meu sonho ou ela era apenas a que estava em meus braços quando acordei? Talvez não fosse real. Mas, sem dúvida, a sensação fora bastante real. Aquela mulher dissera que me amava. Eu respondera da mesma forma e, quando as pronunciei, as palavras soaram verdadeiras. Queria ter uma pedra da verdade no pescoço para poder perguntar.
A noite chegou e, com ela, um vento forte, pesado e úmido. Soprava meu pelo e me fazia cócegas no nariz. O céu abriu-se em uma tempestade e trovões roncavam quando o mundo escurecido era iluminado por relâmpagos. Tentei dormir, mas, quando consegui ignorar o temporal, fui assaltado por uma tempestade de lembranças — aqueles lábios cinzelados movendo-se sobre os meus com os mais suaves beijos, a sensação dos cabelos sedosos fazendo cócegas em meus braços e de dois corpos unindo-se em uma espécie de frenética harmonia.
Quando o céu cinzento deu lugar ao azul metálico da manhã, decidi que precisava saber como ela se sentia e se havia alguma chance para nós dois. Os séculos à frente pareciam muito mais brilhantes se o futuro que sonhei pudesse vir a acontecer. Eu queria perguntar a Anamika se ela fora sincera ao dizer que amava seu tigre. Mesmo que ela ainda não pudesse amar o homem, era um começo.
Pensamentos do que seria possível entre nós me enchiam de uma nova esperança. Meu coração fora partido mais de uma vez, mas ainda batia. Eu ainda era capaz de amar. Tinha algo a oferecer.
Levantando-me, sacudi a umidade do pelo e me espreguicei de uma forma que somente os tigres podem fazer. Após abrir as mandíbulas em um imenso bocejo, desci por uma trilha familiar. Era muito raro agora vir até minha selva e eu queria prestar homenagens a meus pais.
Quando me aproximei do lugar onde eles haviam sido enterrados, captei o cheiro de alguém familiar. Não saber o ano em que me encontrava significava que precisava tomar cuidado, mas, se eu tinha de cruzar o caminho de alguém, a melhor pessoa seria ele. Talvez pudesse lhe fazer algumas de minhas perguntas prementes. Segui meu faro até um pequeno grupo de árvores do lado oposto ao local onde ficava o jardim de minha mãe. Lá, eu o encontrei acocorado atrás de algumas plantas. Ele fizera um esconderijo e tanto para si mesmo.
Rosnei suavemente e ele girou, a mão sobre o coração.
— Olá, filho — disse com cautela, depois de recuperar o fôlego.
Mudando para a forma humana, avancei em meio às plantas e espiei através da vegetação.
— Kadam. — Assenti, então ergui as sobrancelhas. — O que você está procurando? — perguntei.
— Bem, essa é uma boa pergunta.
Ele umedeceu os lábios, nervoso. Nesse momento, ouvi o inconfundível ruído de um avião. Ele se imobilizou, os olhos fundos.
— Você queria me dizer alguma coisa? — indaguei.
— Não. Isto é... se você tiver uma pergunta, estou certo de que posso...
Ergui a mão, interrompendo-o.
— Tenho muitas perguntas, e a primeira delas é: o que você está fazendo aqui?
— Eu ia perguntar o mesmo a você.
— Bem, estou tentando entender o que sinto em relação a Ana e...
— Ana?
Suas sobrancelhas grossas se franziram.
— É. Ana. Sabe, a deusa Durga?
— A deusa?
A boca de Kadam se escancarou. Ele pareceu estarrecido de uma forma que me assustou. Seu pomo de adão subiu e desceu quando ele engoliu em seco.
— Ei, você está bem? — perguntei, preocupado com ele. — Viajar através do tempo está afetando você?
— Viajar através... Ah, entendo. Você está vagueando como eu.
— Estou.
Pronunciei a palavra enquanto examinava seus olhos, buscando sinais de um colapso. As bochechas de Kadam estavam fundas, e a pele, pálida.
Ele soltou um suspiro profundo.
— Que alívio, Kishan. Temi ter sido descoberto. — Estendendo a mão, agarrou meu braço. — Confesso que receei estar caminhando para a loucura. Meu coração está gelado de apreensão e não sei nem dizer quanto conforto sua proximidade me dá. Pode ficar comigo até que tudo esteja acabado?
— Até que tudo o quê esteja acabado? — perguntei.
— Meu... meu enterro? — sussurrou.
— Seu enterro? — ecoei. As veias em seu pescoço e nos braços avolumaram-se quando ele segurou meu braço. A compreensão tomou conta de mim. — Tá — falei baixinho. — Vou ficar com você até que tudo esteja acabado.
O avião tornou a circular e franzi a testa.
— Você criou uma pista de pouso? — perguntei, então olhei para o pedaço do tempo do amuleto em seu pescoço. Não. Ele não poderia, respondi eu mesmo a minha pergunta. — Espere aqui — falei. — Já volto.
Com isso, congelei o tempo e me dirigi à parte da selva onde eu lembrava que tínhamos aterrissado. Canalizando o pedaço da terra, à semelhança do que Ana tinha feito em Shangri-lá, mudei árvores de lugar, aplainei arbustos, removi terra e fiz minerais duros subirem à superfície para formar uma pista forte o bastante para Murphy pousar o avião. Quando acabei, voltei ao esconderijo de Kadam e desloquei nós dois no tempo para que ele não precisasse mais se esconder.
— Eles não vão poder nos ver — informei, fazendo sinal para que ele saísse. — Estamos em segurança.
Sua voz soou fraca:
— Tem certeza?
— Tenho. — Tentei lhe oferecer um sorriso tranquilizador. — Já fiz isso antes.
Ele assentiu e me seguiu, hesitante. Subimos por um aclive que dava para a nova pista de pouso e observamos o avião aterrissar. Ficamos ali juntos, observando em silêncio, enquanto Ren e meu antigo eu cuidadosamente tiravam do avião uma forma envolta em uma mortalha e seguiam pela trilha. Gesticulei com a cabeça na direção de Kells e Nilima e ele me acompanhou. Chegamos a tempo de ouvir Murphy perguntar:
“Por que diabo ele iria querer ser enterrado no meio do nada? Simplesmente não entendo.”
Murphy então lançou-se em suas recordações de quando conhecera Kadam, na Segunda Guerra Mundial. Kadam sentou-se e ficou ouvindo e fui ver como estavam Ren e meu antigo eu. Lágrimas escorriam pelo rosto de Ren enquanto ele lutava com uma pá. Meu antigo eu golpeava o chão violentamente com uma picareta. Era surreal reviver aquele momento, vendo-o de uma nova perspectiva. Lembrei-me de como aquele dia fora difícil para todos nós.
Tocando o amuleto, amaciei a terra e fiz dissolver-se uma boa parte dela, para que não fosse preciso tanto esforço. Tentei facilitar sem deixar óbvio que alguém estava ajudando, mas, ainda assim, Ren notou e fez uma observação a respeito.
Lembrando-me de que o caixão estivera lá à espera e não vendo nenhum, segui para a velha casa e criei longos pedaços de madeira que se encaixariam com facilidade. Em vez de usar martelo e pregos, recorri ao poder do pedaço da terra para dar forma aos cantos de modo que eles pudessem se justapor firme e naturalmente. Quando a tampa ficou pronta, conectei-a também para que abrisse e fechasse sem dificuldade com dobradiças de madeira. Então pus o caixão onde ele seria facilmente encontrado.
Satisfeito, voltei para onde havia deixado Kadam, perto de Kelsey, Nilima e Murphy, e sentei-me ao lado dele para ouvir os outros recordarem. Muitas lágrimas foram vertidas. De Kadam, inclusive. Eu apenas sentia o peso da lembrança angustiante.
Quando Ren e meu outro eu retornaram, Kadam parecia pronto. Que estranho devia ser para ele assistir ao próprio funeral. Ele nunca me disse que havia feito isso. Tinha contado que vira coisas que nenhum homem deveria ver. Talvez estivesse falando disso.
Macacos tagarelavam no alto enquanto descíamos a trilha. Não me dei o trabalho de ocultar o cheiro de nós dois, pois, afinal, ambos estávamos lá, ainda que um não mais estivesse entre os vivos. Kadam estendeu o braço e segurou com força meu ombro quando pegaram seu corpo e o colocaram no caixão. Captei o cheiro da morte e movi os dedos, criando uma brisa para levá-lo dali. Era o mínimo que podia fazer, naquelas circunstâncias.
Meu antigo eu levou os dedos à lápide de meu pai.
“O que diz?”, perguntou Kelsey.
Meu antigo eu respondeu:
“Diz: ‘Rajaram, amado marido e pai, rei esquecido do Império de Mujulaain. Governou com sabedoria, zelo, bravura e compaixão.’”
“Como o seu selo”, disse Kelsey.
Pensei no selo então. O que eu ainda tinha de esculpir. Eu o deixara em casa com Ana.
“A lápide, na verdade, é uma réplica, se você olhar mais de perto”, disse Ren, e então ajoelhou-se diante do túmulo da mãe e leu a inscrição: “Deschen, esposa e mãe muito amada.”
Quando pensei em nossa mãe, meu coração se inflou. Lembrei-me de como ela e papai tinham amado Ana. Ela não era nem um pouco parecida com Yesubai ou Kelsey e, no entanto, conquistara a confiança deles imediatamente. Eles a teriam aprovado como meu par, se eu tivesse perguntado. Talvez não para meu eu adolescente, mas certamente agora, sim. Sorri, pensando que minha mãe a teria chamado para uma luta de treino. Nem mesmo mamãe, hábil como era, poderia vencer Ana.
Minha mente voltou-se para a cena presente quando Ren mencionou os ossos de tigre. Franzi a testa e olhei para Kadam, mas ele não estava mais a meu lado. Respirei fundo, tentando detectar seu cheiro, mas não pude captá-lo além de seus restos mortais no caixão. Teria ido embora sem falar comigo? Não havia rastros.
Quando o grupo deu início à cerimônia fúnebre, corri de volta à casa e em seguida verifiquei seu esconderijo em meio às árvores. Só ouvi minha voz ecoando pelo jardim.
“Lutar a seu lado e viver em sua presença foi um privilégio...”
Eu estava ficando desesperado. Teria ele ido embora? Onde estava? Por que iria embora agora?
Kelsey começou seu poema e as palavras me seguiram enquanto eu procurava por toda a área.
Por fim, voltei até o caixão e fiquei parado do lado oposto àquele em que os outros estavam. Enquanto Ren falava de Kadam, baixei os olhos para o corpo. Ren disse:
“Fechem a porta, fechem as persianas, ou pelas janelas veremos em luto a nudez e o vazio absolutos da escura casa abandonada...”
Houve um lampejo de alguma coisa, um minúsculo movimento dentro do caixão. Pensei que talvez fosse um truque da luz, mas então as pálpebras tremularam. Ninguém mais, além de mim, notou. Ren terminou seu elogio fúnebre e Kelsey aproximou-se com sua rosa branca. Ela a colocou dentro do caixão e eu pisquei. O tempo deslocou-se à minha volta e Ren e meu antigo eu ergueram a tampa quase em câmera lenta. Nesse momento, minha visão se desfocou e, sob a carne amarelada e morta, vi um homem escondido. Um homem muito vivo.
E ele estava gritando.
Os outros fecharam a tampa.
Congelei o tempo e agitei os dedos no ar. A tampa voou e se chocou contra uma árvore, estilhaçando-se. Eu não podia me preocupar com isso agora. Nesse momento, precisava descobrir como isso acontecera. Debruçando-me sobre o caixão, gritei:
— Kadam! Kadam, pode me ouvir?
Seus olhos assustados deslizaram em minha direção e em seguida se afastaram enquanto ele se contorcia dentro de sua prisão de carne. Foi como o que aconteceu com Ana quando ela entrou em contato com seu eu mais jovem, mas dessa vez não havia um espírito ali dentro para se fundir com o dele. Em vez disso, Kadam se viu preso dentro de um recipiente que mal podia contê-lo.
Enquanto eu observava, ele ergueu o braço, mas a carne que o envolvia não era mais animada por uma alma. Como resultado, o braço bateu de um lado a outro no caixão, tão descontrolado quanto um peixe na margem do rio.
Sua boca escancarou-se e, enquanto ele ofegava, percebi que os pulmões do corpo não estavam mais aspirando o ar. Eu tinha que tirá-lo dali. E logo.
— Aguente firme! — gritei, embora ainda não tivesse a menor ideia do que fazer.
Deduzi que o primeiro objetivo era obter oxigênio para ele. Usando o pedaço do ar do amuleto, enchi os pulmões de seu corpo. Felizmente para nós dois, funcionou.
Não mais temendo que ele se sufocasse, refleti sobre o próximo passo. Lokesh conseguira usar o amuleto para ressuscitar os mortos. Ele os reanimava, embora não estivessem exatamente vivos. O que Ana fizera com ossos dessecados tinha sido diferente.
Andando de um lado para outro, eu pensava. Ana, enviei um chamado mental. Preciso de você.
Como ela não apareceu passados alguns segundos, entendi como um sinal de que não me ouvira ou de que não queria ser incomodada.
Bem, pensei. Eu consigo fazer isso. Com cuidado, concentrando-me no que vira a deusa fazer, fechei as mãos em torno do amuleto e disse:
— Damonasya Rakshasasya Mani-Bharatsysa Pita-Rajaramaasya Putra.
O amuleto em minhas mãos começou a brilhar. Então me lembrei de que, todas as vezes que trouxera alguém de volta, o amuleto me cobrara um preço. Para salvar a vida de Ren, tive de dar parte da minha. Para resgatar Ana, eu me ligara para sempre ao tigre. Que preço ele exigiria agora, para salvar Kadam?
Labaredas lamberam minha pele e o suor escorreu pelo peito e as costas. Os braços tremeram e caí de joelhos. O poder deixou meu corpo e verteu para dentro do amuleto. Foi como se uma parte de mim tivesse morrido naquele momento, mas, ao mesmo tempo, uma pequena bolha de luz se levantou e disparou na direção do caixão. Perfurou a carne e iluminou a forma de Kadam que se debatia ali dentro.
Ele gritou, mas o som não penetrou o corpo. A luz o consumiu e, então, a forma de seu espírito se desintegrou. Se o padrão seguisse o que acontecera com Ana, Kadam teria voltado para casa.
Logo que recuperei o fôlego, levantei-me, cambaleando, e olhei o interior do caixão. O Kadam que eu conhecia havia desaparecido. Tudo que restava era o cadáver inanimado do homem que eu considerava um segundo pai.
Delicadamente, reposicionei suas mãos, pondo a flor sobre elas. Seus lábios se entreabriram quando o ar com que eu enchera seus pulmões foi lentamente deixando o corpo. Usando o amuleto, refiz a tampa e a coloquei de volta sobre o caixão. Então me fiz invisível e reiniciei o tempo.
Exausto, caminhei com pesar até as ruínas da casa de meus pais e desabei na escada. Fiquei totalmente imóvel, mesmo quando meu antigo eu desceu o caminho com Kelsey e se ofereceu para lhe mostrar a casa. As vozes vinham de dentro da construção e eu podia distinguir claramente a conversa. Ren subiu o caminho após cobrir a cova e lavou o rosto. Enquanto sacudia a água das mãos, ergueu os olhos para a casa, ouvindo. Que ele podia escutá-los tão bem quanto eu, estava evidente em seu rosto.
“Você o ama, Kells?”, meu antigo eu perguntou.
“Sim.”
“Você me ama?”
Ela deixou passar uma fração de segundo antes de responder:
“Sim.”
Eu podia quase ouvir o desespero em minha voz:
“Tem certeza de que quer me escolher?”
Ren arquejou, a dor clara em sua expressão. Nós dois apuramos o ouvido para escutar a resposta dela, embora eu já soubesse qual seria.
“Tenho”, disse Kelsey baixinho.
Ren deu meia-volta, os ombros curvados. Apanhou uma pedra e a lançou contra o tronco de uma árvore próxima. Ela rachou e a pedra afundou no tronco enquanto ouvíamos Kelsey dizer que eles teriam de deixar Ren. Caso contrário, seria doloroso demais.
Como pude não perceber que sua voz falhou quando ela falou em deixá-lo? Lembro-me de delirar de felicidade só de ouvi-la validar meus mais profundos desejos. Em nenhum momento considerei o custo de um futuro sem meu irmão ou o que partir e deixá-lo para trás teria feito a ela.
Será que eu teria sido feliz deixando a Índia? Deixando tudo para trás? Na ocasião, pensei que seria. Que o amor era tudo de que eu precisava. Agora, sabia que não era assim. Eu precisava, sim, de amor. Mas com a pessoa certa. Com alguém que me amasse exclusivamente. Alguém que jamais olhasse para trás. E essa pessoa merecia o mesmo de mim.
“Gostaria de voltar aqui um dia”, ouvi Kelsey dizer. “Quero plantar flores no túmulo do Sr. Kadam e limpar o mato em volta. Seria bom ficar aqui às vezes”, concluiu.
Eu entendera aquilo como um sinal de que moraríamos na selva. Mas esse nunca fora o desejo de Kelsey. Ela iria em visita, claro. Mas morar ali? Levantei-me e atravessei o gramado, tocando a pedra engastada na árvore — um sinal do sofrimento de Ren.
Só havia uma pessoa que eu podia imaginar vivendo comigo na selva. Kelsey tinha razão ao dizer que esse lugar era meu lar. Era importante para minha família. Sempre seria.
Dando meia-volta, esperei que todos seguissem de volta para o avião e, quando ouvi o ruído do motor, ergui as mãos e canalizei o poder do amuleto. Fechando os olhos, imaginei como a casa era quando meus pais viviam ali. Árvores e plantas mudaram. Algumas cresceram. Outras encolheram. O grito dos macacos me fez saber que estava perturbando seu lar, mas não me importei. Flores e árvores frondosas cresceram no jardim de minha mãe. Os pedaços de madeira quebrada e os caminhos destruídos repararam-se diante de meus olhos.
Quando acabou, uma casa linda se erguia onde um momento atrás havia ruínas. O avião levando minha família voava lá no alto, a luz se refletindo nas janelas. Se tivessem olhado para baixo naquele momento, teriam visto que um luxuriante jardim havia crescido no lugar onde tinham acabado de estar, mas eu sabia que estavam todos emocionalmente arrasados demais para notar.
Uma mão tocou meu ombro. Girei, alarmado, e então ri quando reconheci meu mentor. Seu rosto comprido estava revestido pela fadiga, mas sua cor era saudável.
— Obrigado por me salvar — agradeceu.
Ele parecia mais o Kadam que eu conhecia do que o de antes.
— Eu estaria mentindo se dissesse que não estou aliviado por vê-lo. O que foi que aconteceu ali?
— Lembra-se de quando eu disse para ter cuidado perto de seu eu passado?
Assenti e disse:
— Foi por isso que tive de salvar Ana.
— É, bem, neste caso, minha versão que você acabou de encontrar foi a que desapareceu do Deschen durante o ataque. Eu havia acabado de descobrir que tinha a habilidade de viajar no tempo e estava tentando navegar seus caminhos. Também acabara de descobrir sobre minha morte iminente, e dizer que isso me chocou é eufemismo. Embora eu a tivesse testemunhado com meus olhos, tive dificuldade em aceitar que não estava preso em um sonho. Pensando que poderia me acordar, toquei minha mão no caixão e, bem, você viu o resultado.
— E quanto a Nilima? Ela não estava com você?
— Eu nunca disse a vocês ou a ela que a perdi por um tempo. Foram necessários um grande esforço e o equivalente a vários anos para localizá-la e, então, ainda mais tempo para que ela se recompusesse.
— Se recompusesse? — Franzi a testa. — Isso não parece nada divertido.
— Acredite em mim quando digo que não foi.
— O que aconteceu depois que você saiu do seu corpo? — perguntei.
— Algo parecido com o que aconteceu a Nilima. Sabe a pressão que a gente sente por dentro quando viaja no tempo?
— Sei.
— Imagine seu efeito em meros mortais. Como você, Ana, Kelsey e Ren estavam, e estão, conectados ao poder do amuleto, ele protege vocês dos efeitos. Quanto ao restante de nós... vamos dizer apenas que fomos refeitos. Seu presente literalmente me dilacerou em átomos e levou um bom tempo para completar o quebra-cabeça. Basta dizer que não sou o mesmo homem que era.
— E Nilima? — perguntei.
— Ela não está pior por isso, até onde eu sei. Nilima se perdeu... espalhada pelos quatro ventos... mas consegui usar minha experiência nada invejável para tornar o processo mais fácil para ela. Tive de usar uma porção de seu presente para salvá-la, mas valeu a pena no fim.
— Eu... Me desculpe. Eu devia ter feito mais.
Ele sacudiu a cabeça.
— Você já fez demais. Sacrificou-se por mim, assim como fez por Ren. Por favor, aceite meu mais profundo pesar por sua perda.
— Minha perda? — perguntei.
— Ah. Você ainda não compreende.
— O que foi que eu perdi?
Ele suspirou.
— Receio que você tenha aberto mão de sua conexão com a deusa.
— Minha conexão com... com Ana? — Minha boca se escancarou. — Como isso é possível? Sou o tigre dela! Como vamos poder fazer nosso trabalho sem o elo?
— O Amuleto de Damon ainda conecta vocês. Ana ainda pode utilizar o poder dele. Estou falando de sua, hã, conexão pessoal. Antes, seu laço funcionava como um triângulo. Ana podia extrair poder de você, e você, dela, mas agora a única opção para vocês dois é extrair poder do amuleto. É mais... limitado.
— Nós ainda vamos ser capazes de nos falar através da mente? — perguntei.
— Não sei. Talvez através do amuleto.
— Posso consertar isso? — perguntei, já adivinhando qual seria a resposta.
Kadam me olhou demoradamente.
— Neste caso, sim. É possível reconectar-se com Ana. Mas, se optar por fazer isso, o vínculo será permanente.
— Entendo.
— Não, não acho que entenda. — Kadam suspirou. — Se você um dia decidir deixar a deusa e o trabalho dela, esse vínculo teria enfraquecido com o passar do tempo, de qualquer forma. Talvez seja melhor decidir o curso de seu futuro antes de fazer qualquer coisa... duradoura.
— Você quer que eu me afaste de tudo isso? Dela?
— Não foi isso que eu disse, filho, e sim que você sempre teve a liberdade de escolha.
— Sim. Bem, neste momento, eu escolho encontrá-la.
— Sim. É claro. Seria sábio da sua parte procurá-la. — Ele estreitou os olhos. — Pensei que tivesse deixado claro que ela precisava que você permanecesse perto dela. Pelo menos até você ter feito a escolha final.
— Sim, você disse, mas eu... eu precisava de tempo para colocar meus sentimentos em ordem.
— Filho... — Ele pôs a mão em meu ombro. — Uma vez dei um conselho a Kelsey sobre travesseiros.
— Travesseiros? — repeti.
— É. Eu disse a ela que a pessoa que você escolhe para compartilhar sua vida, e acredite quando digo que você tem, sim, uma escolha, vai moldá-lo de formas que você não pode compreender. As perguntas que você precisa se fazer são estas: você gosta do homem que é quando está com ela? Ela o encoraja a se tornar mais do que você é? Ela pode lhe oferecer companheirismo e conforto durante suas provações? Ela o compreende de uma forma que outros não conseguem? Se as respostas a essas perguntas forem sim, então tudo mais vai se resolver.
Eu sabia, em meu coração, a resposta para cada uma daquelas perguntas. Esse era um teste fácil. Quase fácil demais para ser confiável.
— Como eu a encontro, se perdi nossa conexão? — perguntei. — E como recrio nosso elo quando a encontrar?
Kadam juntou os dois dedos indicadores e os levou à linha reta formada por seus lábios.
— Talvez agora seja um bom momento para ler o pergaminho que deixei com você...

3 comentários:

  1. Essas viajens no tempo estão bugando minha mente...

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  2. Eu fiquei boiando por mô tempo e tive que ler as frases umas 3 vezes pra compreender o que tava aacontecendo por causa das viagens no tempo

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  3. Queria que Ren, Kelsey, Kishan e Ana se encontrassem no final do livro. Mas não sei se isso seria possível...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!