12 de setembro de 2018

30 - Templo do Ar

Entramos na aldeia, encontrando-a em grande parte como eu recordava, e me dei conta de quanto tempo havia se passado. As árvores estavam muito mais altas agora, os galhos entrelaçados acima de nossas cabeças. Um banquete havia sido preparado para nós e o próprio Fauno se curvou sobre a mão de Ana depois que ela se transformou na deusa Durga. Em vez de permitir que eu assumisse minha forma normal, Ana me transformou no tigre laranja.
— E como estão passando nossos visitantes? — perguntou ela enquanto as fadas esvoaçavam a seu redor, tocando-lhe os cabelos, dúzias delas se empoleirando em cada um de seus oito graciosos braços.
Desde a última vez que estivemos na aldeia, doze bebês haviam nascido das árvores e agora uma próspera raça do povo das árvores habitava o povoado. Dúzias e mais dúzias haviam se juntado aos primeiros bebês. Quando olhei para as árvores, vi os sinais reveladores de antigas cicatrizes onde galhos tinham se quebrado para receber os aldeões recém-nascidos. As fadas não precisavam mais cuidar dos bebês. Agora, os mais velhos de cada casa eram os responsáveis por essa tarefa. A função das fadas havia mudado. Em vez dos filhotes, elas agora zelavam pela fauna e forneciam luz para as pessoas à noite.
— Deusa — louvaram os silvanos, com uma reverência —, há muito aguardamos seu retorno.
O Fauno respondeu à pergunta de Ana:
— Eles estão sendo cuidados conforme a senhora ordenou há muitos anos.
— Maravilha! — exclamou Ana enquanto caminhava pela aldeia, admirando as cabanas e tocando as cabeças de cabelos prateados dos jovens. As fadas sussurravam em seu ouvido, fazendo-a rir. A conversa unilateral parecia deliciosa e eu gostaria de ter sabido o que elas disseram para deixá-la tão feliz.
As três ninfas que haviam cuidado de Kelsey surgiram e perguntaram a Ana se ela gostaria de tomar um banho ou de comer. Eu me lembrava de como Kells ficara atraente em seu vestido tecido com flores e não me opunha nem um pouco à ideia de ver Ana vestida de maneira semelhante.
Esbarrei em sua perna, tentando encorajá-la.
— Não, obrigada — disse ela. — Mas gostaríamos de um pouco de comida para levarmos na viagem. Adoro seus pães de mel.
— Evidentemente, Deusa.
Os silvanos saíram correndo e trouxeram uma sacola com pães de mel, um frasco de água e vários doces e frutas.
— Obrigada — disse ela, e passou a sacola de mão em mão até pendurá-la no ombro. — Vamos partir agora, mas, por favor, chamem se precisarem de nós. Prometemos voltar para visitá-los um dia. Quem sabe da próxima vez eu leve algumas mudas para o meu jardim.
A rainha dos silvanos disse que elas cultivariam suas flores mais lindas com esse fim e que esperariam nossa volta. Após algumas últimas instruções sobre Kelsey e meu antigo eu, Ana, acariciando minha cabeça, virou-se para partir e eu a segui pelo caminho. Quando a última das fadas desapareceu, Ana trocou de roupa, voltando a usar seus trajes normais.
— Vou sentir saudade deste lugar — falou.
Como não respondi, ela olhou para baixo e estalou os dedos. Assumi a forma humana.
— Já comentei que não gosto da cor laranja? — perguntei.
Ana riu e me deu um pão de mel e uma fruta opulenta. Quando coloquei o doce na boca, ela tocou meu braço e deixamos Shangri-lá para trás. As cores da linda terra giraram ao nosso redor e foram substituídas por um cinza sombrio. Ana me entregou o frasco, bebi grandes goles e comecei a comer a fruta, enquanto ela explorava o templo coberto de pó.
— Que lugar é este? — perguntou, lambendo o polegar.
— Você não sabe?
Ela sacudiu a cabeça, negando.
— Acabei de pedir ao amuleto que nos levasse para o tempo e o lugar seguintes da lista.
Olhando em volta, imediatamente ficou claro.
— Na verdade, estamos muito perto de nossa casa na montanha. É um templo de Durga no Nepal — informei.
— Existe algo especial sobre essa visita que você gostaria de me contar?
Esfreguei a palma da mão no rosto enquanto pensava.
— Bem, éramos apenas eu e Kells, daquela vez. Kadam não estava aqui e Ren tinha sido capturado por Lokesh. Ele estava padecendo naquela câmara de tortura.
Ana estremeceu de leve.
— Desculpe — falei. — Eu não devia ter dito nada.
Ela agitou a mão no ar.
— Estou bem, Sohan. Além disso, ouvir sobre o sofrimento dele não vai ser tão difícil quanto vê-lo sofrer.
— Nós vamos vê-lo sofrer? — perguntei.
— Está mais adiante na lista, mas, sim, vamos vê-lo. Somos nós que vamos tirar a memória dele.
Respirei fundo e fui até a janela pela qual ela olhava o céu noturno. Pus a mão em seu ombro e ela me surpreendeu cobrindo-a com a sua e virando-se para mim. O luar iluminava seu rosto e, quase sem pensar, tracei o contorno dele com a ponta dos dedos e disse:
— Prefiro você assim.
— Assim como?
— Como você mesma, não como a deusa.
— São os braços que o incomodam? — perguntou ela com um breve sorriso.
— Não.
Deslizei as mãos pelos braços dela, segurei-lhe as mãos e dei um passo para trás, analisando-as. Levei uma das mãos até meus lábios e beijei seu pulso de leve.
— Na verdade — eu disse em voz baixa —, tenho algumas ideias sobre todos aqueles braços.
Ela ergueu uma sobrancelha. Meus olhos dançaram com os dela e, lentamente, toquei seu queixo e envolvi seu pescoço com as mãos. Chegando mais perto, baixei a cabeça, pensando em beijá-la, mas Ana arquejou e virou-se de costas, o corpo trêmulo. Primeiro me senti confuso, mas em seguida cerrei as mãos vazias. Talvez ela me achasse pouco interessante depois do tempo que passara com os homens-sereias.
— Sohan... — começou ela, de costas para mim.
— Não se preocupe, Ana — interrompi-a, rigidamente. — Não tive a intenção de distraí-la do seu trabalho.
Ela suspirou e perguntou o que mais precisava saber sobre essa visita ao templo. Contei-lhe de maneira breve tudo de que me lembrava. Tocamos as paredes do templo com as mãos de novo, mas dessa vez foi muito rápido. A marca apareceu no exato momento em que escutamos passos na escada. Com um gesto da mão, Ana nos dessincronizou do tempo para que não fôssemos vistos.
Como de hábito, nossas pegadas no chão coberto de pó tinham se desfeito. Meu antigo eu e Kelsey entraram de mãos dadas. Ouvi as palavras “É só me dizer o que fazer” e então eles se ajoelharam aos pés da estátua, dispondo diversas oferendas.
Kelsey tocou com o dedo a tornozeleira que Ren lhe dera e ouvi o tilintar de sinos. Eles agora me faziam lembrar de Ana.
“Grande deusa Durga”, disse Kelsey, “viemos pedir sua ajuda novamente. Peço...”
As palavras esmoreceram quando olhei para o rosto de Ana. Ela recebeu as palavras de Kelsey como o apelo que eram. Elas a tocaram de um modo que eu não podia sentir. Foi então que me dei conta de que ela ouvia as preces de outras pessoas de maneira semelhante. Ela as sentia. Ana respondia de um modo emotivo, inteiramente diferente de mim. Minha prece será ouvida, Deusa?, pensei.
Quase como se por vontade minha, Ana voltou o rosto para mim. Mil palavras flutuaram no espaço entre nós, mas nenhum dos dois disse qualquer coisa. Dei um passo em sua direção, depois outro. Querendo, ou melhor, precisando transpor a distância.
Quando meu antigo eu começou a falar, ela se afastou de mim e olhou diretamente para ele. Embora ela não olhasse mais para mim, senti os grossos fios da nossa conexão se tensionarem.
“Eu... não mereço sua bênção”, eu tinha dito. “O que aconteceu foi minha culpa, mas peço-lhe que ajude meu irmão. Zele por sua segurança... por ela.”
Enquanto eu observava, Ana tocou o peito de meu antigo eu com sua mão espectral. Meu coração se acelerou quando uma sensação de ternura percorreu meu corpo. Lembrei-me de sentir o mesmo na ocasião, embora tivesse atribuído ao amor que sentia por Kelsey. Meu antigo eu se transformou no tigre negro. Ele bufou suavemente e, quando ela recuou, uivou de leve, como se sentisse que ela o estava deixando.
“Esta é a parte assustadora!”, ouvi Kelsey dizer, segurando-se no tigre negro.
Ana levantou as mãos e um redemoinho gelado entrou pelas janelas abertas do templo. A área inteira se transformou em algo lindo. A tempestade não me afetou em nada e andei devagar em sua direção, sentindo a necessidade de tocá-la, de colocar minha mão sobre seu coração como ela havia feito comigo, mas ela desapareceu, transformando-se na estátua do outro lado da parede.
O templo cintilou como a pele de Ana e vi o brilho da marca de sua mão onde havíamos tocado a parede um momento antes. Kelsey moveu sua mão para o mesmo ponto e a parede girou. Só então minha visão se nublou e fui sugado para dentro do entalhe na pedra, ao lado de Anamika.
Ouvi a voz de Ana ecoar no templo:
— Saudações, jovem. Suas oferendas foram aceitas.
Todas as oferendas que foram dispostas a seus pés haviam sumido.
Quando completamos a transformação, o vento soprou para longe o pó que nos cobria e me sacudi. Mais uma vez, eu era o tigre laranja. Olhando para minha pata, enruguei o focinho e espirrei, depois me sentei aos pés de Ana. A deusa estava linda. Adorável como uma flor cor-de-rosa. Eu queria enterrar o rosto em seus cabelos sedosos e sentir seu perfume. A mão mais alta, acima de sua cabeça, mexia com sua tiara dourada.
Minha mente voltou ao beijo apaixonado que trocamos naquela manhã. A ideia de estar com ela daquele jeito não me assustava mais como a princípio. Talvez a pedra da verdade não só tivesse mostrado meu futuro, mas também colocado a mulher em meus braços. Se um amor como aquele era o que me esperava, eu era mesmo um homem de sorte.
Enquanto ponderava as possibilidades, eu me perguntava se Ana acariciaria de novo minhas costas ou brincaria com minhas orelhas, e se isso poderia levar a outras coisas depois. Um homem — ou um tigre — podia ter esperanças. Por outro lado, ela não havia respondido da mesma maneira desde então. O que quer que estivesse acontecendo com ela, conosco, era confuso e, independentemente do que eu fizesse, parecia ser sempre a coisa errada.
Ana falou com Kelsey sobre o fruto e depois perguntou onde estava Ren, e também a questionou sobre o tigre a seu lado. Franzi a testa, tentando imaginar por que ela faria tal pergunta. Antes que eu pudesse formular um pensamento, o tigre negro à minha frente transformou-se, assumindo minha forma humana, e aproximou-se da deusa.
“Senhora”, disse meu antigo eu, “também sou um tigre.”
A deusa soltou uma risada quando ele sorriu.
De que está achando graça?, perguntei, irritado.
Os pensamentos dele, quero dizer, os seus pensamentos estão abertos para mim de um modo que nunca experimentei com você. Ele está... relaxado. Posso ver as profundezas de sua mente. Ele não esconde nada. Muito diferente de como você é agora. Vejo que gosto disso.
Ele não tem noção do que está acontecendo, resmunguei.
Ao contrário de você, ele parece muito contente em me ver.
Estou feliz em ver você, retruquei.
Sim, mas ele gosta de mim.
Que homem com sangue nas veias não gostaria?
Ela estremeceu. Foi a coisa errada a dizer. Por que eu sempre metia os pés pelas mãos quando estava perto de Ana? Pensei mais sobre isso enquanto ela acariciava Fanindra.
“Sinto você triste e perturbada, filha”, disse Ana a Kelsey. “Conte-me a causa de sua dor.”
Olhei para Kelsey. Seus olhos estavam vermelhos. Lembrei-me de que ela não estava conseguindo dormir. Era óbvio que se preocupava com Ren o tempo todo. Kells explicou sobre Ren e pude sentir a onda de empatia vinda de Ana quando Kelsey disse: “Mas, sem ele, encontrar os objetos não teria significado para mim.”
Ana fez uma longa pausa e eu me perguntei o que estava passando por sua cabeça. Por fim, ela se inclinou para a frente e colheu uma das lágrimas de Kelsey. Então usou seu poder para transformá-la em um diamante e o entregou para meu antigo eu. Depois declamou um pouco da retórica de Kadam sobre salvar a Índia e como aquela missão era vital, etc. etc. Prometeu proteger Ren e em seguida congelou.
O que houve, Ana?
Eu não... não sei. Tem mais alguém aqui.
Quem?
Não tenho certeza, mas não consigo me mexer.
O tempo parou e Kelsey e meu antigo eu ficaram imóveis como estátuas. O ar rodopiou perto de nós e então Kadam apareceu.
— Olá — disse ele. — Está tudo correndo bem?
Eu teria respondido, mas descobri que não podia.
— Ah, sim. Desculpem-me. Vim ajudar. Vocês não podem estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. Precisavam de uma terceira pessoa desta vez. — Ele estava com o lenço e o usou para se transformar na Divina Tecelã. — Acho que estou pronto. Poderiam me fazer um tear e um banco, por favor? — perguntou.
Assim que Ana atendeu ao pedido, ele se sentou, pegou a lançadeira e pediu:
— Por favor, prossiga, minha querida.
O tempo tornou a correr e Ana disse:
“Oh... eu vejo. Sim... o caminho que você tomar agora vai ajudá-la a salvar seu tigre.” Ela balbuciou mais algumas palavras, respondendo de forma vaga às perguntas de Kelsey, até Kells perguntar sobre o prêmio aéreo mencionado na profecia.
Ana respondeu:
“Aqui está alguém que eu quero que conheçam.”
Ela apontou na direção de Kadam, que de fato atraiu a atenção deles. Como ele sempre parecia saber mais do que nós, ficamos tão atentos a suas palavras quanto Kelsey e meu antigo eu. Ele não decepcionou.
Kadam desempenhou bem seu papel e usou o tear como se tivesse feito aquilo a vida inteira. Ouvi a verdade em suas palavras quando ele respondeu à pergunta de Kelsey:
“O mundo, minha jovem. Eu teço o mundo.”
Kadam realmente trazia enrolados em seus dedos os fios do destino. Era ele que orquestrava tudo. Quando Kelsey tocou o tecido, percebi que se tratava do Lenço Divino. Eu o vi ondular entre seus dedos ao responder a seu toque.
Quando Kadam aconselhou Kelsey a dar um passo para trás e visualizar a peça como um todo, eu soube que ele já não falava com ela. Seus olhos estavam fixos nos meus quando disse:
“Se focaliza apenas o fio que lhe é dado, perde de vista o que ele pode vir a ser.”
Eu tinha passado muito tempo lamentando meu destino. Pensando que o que eu queria tinha sido roubado injustamente e levado de mim, e que o universo tinha me deixado sem nada. Ana tocou minhas costas, seus dedos acariciando de leve meu pelo. Ficar ao lado dela me parecia certo, mas mesmo assim eu sabia que ainda tínhamos um longo caminho pela frente.
“Durga tem a capacidade de ver a peça do início ao fim”, disse Kadam. “Confie nela.”
Suas palavras seguintes sedimentaram-se em mim, aninhando-se em meu coração: PaciênciaDedicaçãoCompreensão. Se eu pudesse dar essas coisas a Ana, então talvez pudéssemos criar algo esplêndido, algo maravilhoso, juntos. Talvez o tecido que fiássemos fosse mágico de verdade.
Será possível? E, mais importante, será que mereço essa dádiva?
Quando terminou, Kadam piscou para nós e Ana acenou depois que ele e o tear desapareceram. Sua voz ecoou em nossa mente: Esse conselho vale para vocês dois também.
Ana olhou para mim e esfreguei a cabeça em sua coxa. Seu sorriso era suave, mas havia uma perturbação em seus olhos. A dúvida persistente que brincava no fundo de minha mente começou a circular, dilacerando minha esperança e caindo sobre mim como uma chuva de confete.
Ana girou as armas e presenteou Kelsey com o arco e as flechas. Meu outro eu deu um passo à frente, ansioso por receber uma arma também, e talvez a proteção da deusa.
“Paciência, meu tigre de ébano”, disse ela. E senti que ela falava mais para mim do que para o homem de pé diante dela. “Agora vou escolher algo para você.”
“Aceitarei com alegria qualquer coisa que me oferecer, minha linda deusa”, disse meu antigo eu com uma piscadela e um sorriso presunçoso.
Ela ficou tensa a meu lado. Revirei os olhos e enviei-lhe o pensamento: Lamento ter sido tão cretino.
É bom mesmo que lamente. O canto de sua boca se contraiu. Mas ele não quer dizer nada com isso. Bem, quer, sim. Mas não é nada comparado com...
Ana interrompeu o pensamento, mas foi fácil para mim concluí-lo. O que meu antigo eu fez e disse não era nada em comparação com o mal que ela sofrera nas mãos do senhor dos escravos.
Ela merecia mais do que ter o animal estúpido que eu era demonstrando seu desejo por ela. Soltei um grunhido baixo, mas meu antigo eu era tão tolo que nem percebeu.
Depois que ela deu o chakram a meu antigo eu, ele pegou a mão dela e a beijou. Mostrei os dentes. Ana não só permitiu o beijo como também parou, analisando-o. Era quase como se estivesse tentando ler seus pensamentos. Um momento depois, ela saiu daquela espécie de transe e disse mais alguma coisa antes que nós dois fôssemos novamente transformados em pedra. Ana congelou o tempo e emergimos da pedra. Quando o tempo voltou a avançar, estávamos invisíveis. Ambos observamos Kelsey e meu antigo eu se preparando para partir.
“Alô?”, disse Kelsey. “Terra chamando Kishan.”
Ele continuou parado no mesmo lugar, observando a estátua girar.
“Ela é... excepcional!”, exclamou meu antigo eu.
“É. Qual é o seu problema com mulheres inalcançáveis?”, perguntou Kelsey.
Suas palavras me apunhalaram, confirmando as incertezas que eu carregava no coração. Kelsey tinha razão. Eu não havia merecido Yesubai. Se alguém fizera jus a um final feliz com Kells, era Ren. E, quanto a Ana, ela era uma deusa. Estava tão acima de mim que qualquer tentativa de minha parte de aprofundar nosso relacionamento era risível, na melhor das hipóteses. Um insulto, no mínimo.
A mão de Ana deslizou sob meu braço quando ouvi meu antigo eu dizer:
“Talvez eu encontre um grupo de apoio.”
Não era má ideia. Nem para ele nem para mim. Afastei-me de Ana. Não queria que ela me confortasse e, sobretudo, não queria sua compaixão.
— Acho que devíamos conversar sobre isso, Sohan — disse Ana quando ficamos a sós no templo.
— Não é necessário — retruquei. — Acho que entendo. — Rindo de modo autodepreciativo, acrescentei: — Além disso, Kells disse tudo que havia para dizer.
Ana fitou minhas costas. Eu podia sentir seus olhos em mim, mas não conseguia encará-la. Kelsey não me queria. Ana tampouco. Poderia culpar uma ou outra? Talvez o Bosque dos Sonhos tivesse errado. Talvez estivesse me mostrando o que poderia ter sido se eu fosse um homem de mais valor. Ren sofrera terrivelmente por cada pedacinho de felicidade que obteve. Imagino que eu estava recebendo o que o universo julgava que eu merecia também. Mas por que a pedra da verdade me daria um vislumbre do paraíso e depois o tomaria de mim? Castigo? Era cruel demais.
Como não queríamos conversar, ou pelo menos eu não queria conversar, passamos as horas seguintes riscando itens da lista. A maioria deles era tão simples que mal precisávamos prestar atenção para executá-los. Revivemos os capangas que nos caçaram na floresta do Oregon para que eles pudessem subjugar Ren e a mim. Ana congelou o tempo, recuperando aqueles que tinham sido feridos e sussurrando em seus ouvidos a direção que tínhamos tomado.
Se não tivéssemos interferido, Ren, Kelsey e eu teríamos fugido. No entanto, fizemos um trabalho tão bom que havia homens em demasia, que poderiam ter me impedido de fugir com Kells. Ana cegou todos que me perseguiam para que nunca nos alcançassem. Ela fez uma careta de solidariedade enquanto observávamos meu antigo eu lutando para se manter acordado e colocar Kelsey na picape.
Em seguida, retiramos os poderes de Kelsey no castelo do dragão verde, caso contrário ela poderia ter fugido sozinha. Depois jogamos uma espécie de feitiço nos pais adotivos dela, para que eles permitissem que ela pegasse o avião. Sem nossa intervenção, Kelsey jamais teria deixado o Oregon.
Riscando o item seguinte, apresentei Ana à primeira partida de futebol americano de sua vida. Em vez de comemorar nos touchdowns, ela comemorava quando os jogadores eram brutalmente derrubados e consumiu o equivalente a seu peso em pipoca e cachorro-quente. Supervisionamos Kelsey do alto das arquibancadas. Ana fez cara feia para Jason e criou gelo sob seus pés, para fazê-lo cair sentado quando ele ficou assoviando para as mulheres no campo.
Ela me perguntou por que o rapaz estava se comportando daquela maneira e como ele podia achar que impressionaria Kelsey agindo feito um boboca. Não pude responder à pergunta, pois concordava com ela. Peguei-a murmurando silenciosamente e perguntei o que estava fazendo, mas sua única resposta foi:
— Melhorando o estado de espírito de Kelsey.
Kells olhou para nós uma vez, porém não nos reconheceu, pois tínhamos usado o lenço para mudar nossa aparência. No fim da noite, providenciamos para que o acompanhante embriagado de Kelsey não tivesse a oportunidade de levá-la para casa. Kadam só tinha avisado sobre aquele encontro. Eu queria que a tivéssemos poupado de suas outras noites decepcionantes, mas isso não estava em nossa lista.
Visitando outra vez o Bosque dos Sonhos, Ana removeu a pedra da verdade da cama e a colocou no galho da árvore onde eu dormia em uma rede. Ela levantou a sobrancelha, olhando para mim de modo inquisitivo quando aceleramos o tempo, mas preferi me calar sobre meus motivos para deixar Kelsey sozinha na cama. Depois que Kells e eu partimos na manhã seguinte, Ana levou a pedra da verdade de volta a seu lugar e viajamos no tempo para o local seguinte.
Usamos disfarces na festa de aniversário de Kelsey no circo, para garantir que seus pais adotivos permitissem que ela saísse. Vimos Kadam na festa, mas era uma versão mais velha dele. Ele nem piscou quando me apresentei como um fã do tigre e apertei sua mão. O único momento digno de nota daquelas horas que passamos juntos foi ver Ana experimentar sorvete Tillamook pela primeira vez. Isso quase me tirou de minha fuga emocional, mas nem mesmo um Tillamook e uma root beer, que subtraí de uma máquina de venda automática, ajudaram.
Observei-a saborear o sorvete enquanto tomava minha bebida. Passei a mão em minha barba espessa, que era parte do meu disfarce. O moletom volumoso não escondia minha barriga dilatada. Eu me senti pesado, e não só porque meu corpo estava volumoso naquele momento.
O disfarce de Ana lhe caía melhor. Parecia uma versão ligeiramente diferente de si mesma. Eu ainda podia ver a linda deusa sob a pele de ébano, ouvir sua risada, clara como cristal, quando um dos cães serpenteou entre suas pernas, enroscando a guia. Ela virou seus olhos castanho-claros para mim e eles brilhavam com o mesmo fogo que sempre esperava dela.
Esfregando as mãos grossas e pálidas para limpá-las, levantei-me da mesa, pronto para sair da tenda. Ana seguiu-me com os cantos da boca voltados para baixo.
Chutei um bloco de cimento e ele saiu do lugar, revelando um talho escurecido por baixo. Minhocas e insetos se espalharam. Com fascinação mórbida, fiquei olhando enquanto fugiam para dentro do capim e lamentei não poder fazer o mesmo.
— O que é que você tem? — perguntou ela.
Resmungando, balancei a cabeça. Os longos dreadlocks que desciam por meu pescoço incomodavam como a corda de um carrasco.
— Nada. Eu só... preciso de um tempo.
— Um tempo?
— É. Por que você não vai para casa? Para ter uma boa noite de sono?
A luz acima de nós lançava sombras em seu rosto.
— Você quer dizer que deseja uma separação física?
Dei de ombros.
— Não é como se você não soubesse onde estou. Pode me encontrar quando quiser.
— Mas você quer que eu me associe com outros. Que não mais me isole com você. É isso?
— Bem, é, sim. Acho que você pode ir ver como estão as crianças que levou para casa, se está procurando companhia.
Ela puxou a blusa marfim que estava usando e mordeu o lábio.
— Tem certeza, Sohan? — perguntou. — Seus sentimentos em relação a isso são fortes?
— Sim — respondi com esforço, dirigindo-lhe um olhar confuso. — Mas não saia por aí fazendo coisas perigosas enquanto eu estiver longe. Estarei de volta antes que se dê conta. Tome um bom banho e relaxe. Você também tem direito a descansar.
— Banho? — Ana olhou para o próprio corpo e fez uma careta. — É — disse em voz baixa. — Vou descansar um pouco. E você também vai tomar cuidado?
Seus olhos estavam brilhantes e indecifráveis.
— Vou — respondi, assentindo.
Ela me entregou o amuleto. Quando protestei, argumentando que ela poderia precisar dele, ela sacudiu a cabeça.
— Eu tenho a corda — respondeu. — Mesmo que não tivesse, o Amuleto de Damon atende ao meu chamado agora. Posso usar seu poder à distância.
Pode mesmo? Era interessante que o medalhão, que levava meu nome, respondesse a ela daquela maneira. Eu sabia que ela havia abandonado a sacola de armas e presentes, deixando-os em casa e só os convocando quando necessário, mas eles lhe pertenciam, os presentes e as armas de Durga. Eu não sabia o que sentir quanto ao fato de ela controlar o amuleto como se pertencesse a ela também. Ela era a deusa, porém, e decidi encerrar a conversa.
Então me virei e disse, por sobre o ombro:
— Boa noite, Ana.
— Adeus, Sohan.
A luz projetou minha figura em uma longa sombra e em seguida desapareceu. Usando o poder do amuleto, lancei-me no tempo e no espaço. Logo meus pés de tigre tocaram o chão da selva.
Corri e corri, até esgotar minhas forças. Quando cheguei a uma trilha conhecida, eu a segui até finalmente deparar com a caverna escura que estava procurando.

5 comentários:

  1. essas viagens no tempo estao deixando minha cabeça confusa, as vezes tenho q reler o mesmo paragrafo umas duas vezes.

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  2. Eles estão em toda parte, participam de quase todos os acontecimentos. Ação ficando zonza.

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  3. Ai meu deus... Esses dois em! Cramba! Eles tem que ficar juntos, o romance que me intereça mais tem tão pouco tempo, pouquissimos capitulos com os dois em!!!

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  4. Toda a magia dos livros anteriores estão desaparecendo a cada vez que descubro que eles é que estavam por trás de tudo ou da maioria das coisas que acontecem 😢

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  5. E eu não.consigo me conformar com o que a Kells e o Ren fizeram com ele deixando ele para traz , pode falar o qnto for que era destino e tais , mais se eu fosse a Kells tinha mandado a Ana ir caçar o tigre dela que akeles dois eram meus .😢😢

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Boa leitura, E SEM SPOILER!