11 de setembro de 2018

3 - Esclarecimento

Nós nos rematerializamos na estrada no exato momento em que o carro atingia a borda saliente da montanha. Com um estrondo de metal se retorcendo, o veículo girou e se espatifou lá embaixo, transformando-se em um monte de aço amassado. O mundo branco à nossa volta aquietou-se quando o motor morreu. Então ouvi uns estalidos e me virei para o outro lado quando a parte inferior do veículo, agora voltada para o céu, irrompeu em chamas.
Cambaleei para trás e desabei apoiado em um joelho, ainda com Kelsey nos braços. Ela gritou quando uma de suas pernas tocou o chão. Rapidamente pegando-a no colo outra vez, perguntei:
— Onde está doendo?
— Minha... minha perna — gemeu ela. — Tem alguma coisa errada com o meu joelho.
Seus olhos estavam sem foco e o sangue pingava de um corte na têmpora. Eu precisava verificar esse ferimento em sua cabeça. Um grande galo estava se formando.
— O que aconteceu? — perguntou ela. — Onde estão meus pais?
Engolindo em seco, eu disse:
— Houve um acidente.
Ela assentiu, mas eu não tinha certeza se havia entendido. Tremendo levemente, ela disse:
— Estou com tanto frio.
— Eu sei, bilauta. — Aconcheguei-a junto a meu peito e senti o rastro de lágrimas geladas em meu rosto.
Eu não sabia o que fazer. Se tivesse trazido o kamandal comigo, poderia curá-la. O mínimo que eu podia fazer era ajudá-la a se aquecer. Usando a parte de fogo do amuleto, criei um bolsão de ar aquecido que nos envolveu. Ela suspirou e enterrou o rosto em meu suéter. Roçando os lábios em seus cabelos, eu disse:
— Feche os olhos, minha querida. Não abra até eu mandar.
Suas pálpebras estremeceram, fechando-se, e eu a levei para o chão da floresta, não muito longe do carro destroçado que ainda queimava mais abaixo. Pedaços de metal haviam sido arrancados e se encontravam espalhados por toda parte. Usei a parte de água do amuleto para apagar as chamas. Uma fumaça negra subiu no ar, e estava tão frio que a água em torno do automóvel começou a congelar. Abrindo caminho até o carro através de um denso banco de neve, aproximei-me do veículo destruído e parei abruptamente quando vi uma poça gelada de sangue, que aumentava à medida que uma quantidade maior penetrava devagar na neve, vinda do lado do motorista.
Ouvi o ruído de alguém caminhando e esmagando a vegetação rasteira e girei o corpo, esperando ver a mãe de Kelsey, mas era Kadam. Ele carregava a colcha de Kelsey e a enrolou em torno do corpo trêmulo da menina. O fato de eu ter me transportado com ela usando o poder do amuleto a havia afetado. Ela estava praticamente inconsciente.
— Os pais? — perguntei.
Ele sacudiu a cabeça com tristeza.
— O pai se foi.
Engoli em seco com dificuldade.
— Maddie?
— Ela foi lançada para fora do veículo. Maddie Hayes vai viver apenas por mais alguns minutos. Ela fraturou a coluna e uma perna e um braço estão esmagados. Tem ferimentos por todo o corpo e vai morrer antes que o socorro chegue — respondeu ele.
Dando um passo determinado à frente, eu disse:
— Isso é tempo suficiente para fazer alguma coisa. Ela não tem de perder a mãe também. Fique aqui com Kelsey enquanto eu volto e pego o kamandal.
Kadam bloqueou meu caminho e pôs a mão em meu ombro.
— Não, filho. — Seu rosto enrugado parecia esculpido em pedra. Somente seus olhos mostravam quão doloroso isso era também para ele.
Afastou-se, caminhando entre as árvores, e, quando parou, apertei Kelsey junto ao peito com os braços tremendo. Ouvi quando ele murmurou suavemente para a mãe de Kelsey:
— Pronto, Maddie. Prometo que vou tomar conta dela. A ajuda chegará em breve. Ela vai ficar bem.
Então eu escutei aquele som — o ruído ao mesmo tempo áspero e suave da mãe de Kelsey tentando respirar uma vez, duas, e depois o horrível som do nada. Ela havia partido.
Quando Kadam voltou para perto de mim, perguntei rudemente:
— Por quê? — As lágrimas escorriam pelo meu rosto. — Por que salvar apenas ela?
Com um suspiro fundo, ele explicou:
— O elixir da sereia não deve ser usado para mudar o destino. Cada pessoa tem seu tempo estipulado aqui na Terra. O tempo deles chegou ao fim.
— Papai? — chamou Kelsey, grogue, tentando desesperadamente se levantar.
Dei as costas para o local do acidente, voltando para o meio das árvores, para que ela não visse os destroços retorcidos e fumegantes do automóvel.
Eu não suportava a ideia de contar a ela o que acontecera.
— Estou aqui, Kells — falei.
— Papai, tive um sonho lindo! — Ela sorriu com doçura, mas então gemeu e levou a mão ao couro cabeludo.
Perguntei silenciosamente a Kadam se ela ia ficar bem. Ele assentiu e seus lábios se moveram, embora sem emitir qualquer som:
— Concussão.
Meu coração estava partido por ela.
— Com o que você sonhou, amor? — perguntei, tentando não deixar a dor transparecer em minha voz. Ajeitando a colcha em torno dela, sentei-me em um tronco caído e afastei seu cabelo do rosto.
— Estou... estou um pouco tonta — disse ela, tentando abrir os olhos.
— Shh. Mantenha os olhos fechados e tente relaxar. — Aqueci o ar à nossa volta outra vez enquanto Kadam mantinha vigilância ao nosso lado.
— Sonhei com um príncipe lindo. Ele me salvou de um dragão!
— Salvou, não foi? — Sorri enquanto pressionava os lábios em seu cabelo, incapaz de resistir ao breve momento de proximidade.
— Acho que ele me ama, papai.
— Eu sei que ele ama — repliquei.
Ela ficou em silêncio depois disso e resvalou para um sono leve. Levantei a cabeça e perguntei a Kadam:
— E agora, o que vai acontecer?
— Esperamos até as autoridades chegarem.
— E depois?
— Nós a deixamos.
Sacudi a cabeça.
— Não. Não. Não posso deixá-la para que enfrente a morte dos pais sozinha.
Kadam pressionou um pedaço de pano no ferimento que sangrava no couro cabeludo de Kelsey.
— É preciso, Kishan. Se é para ela se tornar a garota que você conhece, a garota disposta a ir para a Índia ajudar um estranho, a garota por quem você se apaixonou, então precisamos deixá-la vivenciar essa dor sozinha.
— Como isso pode ser a coisa certa a fazer?
— A coisa certa muitas vezes machuca. Se alguém sabe disso, esse alguém é você.
Depois de um momento, perguntei:
— Por que eu?
— Por que você o quê?
— Por que fui eu que precisei salvá-la? Por que não você? Por que não Ren?
— É você porque sempre foi você.
Trouxe Kelsey para ainda mais perto de meu peito e observei com irritação:
— Destino. Destino é a sua resposta para tudo, não é? Bem, eu não acredito nem um pouco no destino. Na realidade, acho que o destino errou com a minha vida.
— Você não está vendo a situação da forma certa. O destino não é um anjo da guarda que influencia suas escolhas. O destino não escolhe nada. Ele simplesmente é. Você está aqui salvando Kelsey apenas porque você a salvou de fato. Se você não estivesse aqui, agora, neste momento, então ela teria morrido com os pais.
— Então você está dizendo que eu não tenho escolha? Nenhuma liberdade? Sou simplesmente um peão empurrado de um lado para outro em um jogo cósmico de xadrez?
— De jeito nenhum. — Kadam sentou-se no tronco a meu lado. — Você sempre teve a liberdade de fazer as próprias escolhas. Só que suas escolhas estão gravadas nos anais do tempo. Todas as suas escolhas. Cada pessoa é levada em conta. Cada evento é registrado. A única diferença é que eu posso vislumbrar os eventos que afetam nossas vidas e agora conheço meu lugar. A ironia é que, se eu não tivesse visto minha linha do tempo, não teria o conhecimento necessário para assumir meu papel como seu guia.
— Você conhece meu futuro também?
Ele hesitou.
— Conheço.
— E o de Ren? De Kelsey?
Kadam assentiu.
— Ela... ela está feliz?
— Acho que é melhor para você não saber como as coisas se desdobram. Viajar no tempo não é uma empreitada fácil. O conhecimento que tenho influencia cada pensamento, cada palavra, cada atitude que tomo. Se você aprendesse as coisas que sei, isso o transformaria para sempre. O que aconteceu é algo que eu não posso consertar, Kishan. — Após refletir por um momento, acrescentou: — Muitas vezes eu gostaria de poder.
— Não estou pedindo que você conserte. Só quero que me diga. A futura Kelsey é feliz?
— Lamento, mas não posso partilhar essa informação com você, e há acontecimentos dos quais você não deve tomar conhecimento. Se tentar saber mais ou modificar coisas com as quais não deve mexer, as consequências podem ser catastróficas. Eu lhe imploro, deixe Kelsey entregue à sua sorte.
Sua sorte. Seu destino. Enquanto embalava a versão juvenil da garota que eu amava e ouvia seus suaves gemidos durante o sono, sabia que deixar Kelsey entregue à sua sorte era algo que eu jamais poderia fazer. Se tinha cometido um erro ao deixá-la partir com Ren, então eu precisava saber. Kadam podia ter escrúpulos em relação a alterar a linha do tempo, mas, se eu pudesse evitar que Kelsey sofresse e pudesse me assegurar de sua felicidade, então faria o possível para que isso acontecesse.
Meus pensamentos foram interrompidos quando ouvi uma sirene na estrada acima de nós e gritos de homens.
— Está na hora — anunciou Kadam. — Precisamos ir embora antes que eles cheguem.
— Você quer deixá-la aqui sozinha?
— Precisamos fazer isso. Não deve haver qualquer registro de nossa presença ou de nossos nomes associado ao que aconteceu aqui hoje.
Estreitei os olhos brevemente, então suspirei e beijei o rosto macio de Kelsey ao me levantar.
Estudando o cenário ao nosso redor, não fiquei satisfeito. Eu me recusava a deixá-la perto demais do carro, com medo que acordasse e deparasse sozinha com a cena traumática, mas, se ela continuasse a dormir, eu precisava que ela estivesse perto o bastante para que a equipe de resgate pudesse encontrá-la.
Fechando os olhos, usei o poder do Amuleto de Damon. A terra ribombou e pedras surgiram, bloqueando a visão que ela poderia ter do carro. Derreti a neve e sequei o chão à nossa volta; até fiz crescer alguns tenros brotos de grama e flores silvestres. Kadam ergueu uma sobrancelha, mas não disse nada. Satisfeito com meus esforços, cuidadosamente a deitei sobre o tapete natural que eu havia criado.
Quando terminei, Kadam disse:
— E agora é hora de apagar a memória dela.
Eu me assustei.
— Apagar a... — Cerrei o maxilar. — O que você está dizendo?
— Precisamos alterar a memória dela para que esqueça a nossa presença. Certamente você compreende por que isso precisa ser feito.
Impaciente, passei a mão pelos cabelos. Apagar a memória dela? Quando Kelsey me conheceu na selva, tinha dito que sabia quem eu era e o que eu era. Ela sabia que eu era irmão de Ren e que era um tigre, mas não houve qualquer centelha de reconhecimento ao ver meu rosto. Eu me irritei ao pensar no que Kadam estava me pedindo e me perguntei o que aconteceria se não aquiescesse. Ela se lembraria de mim e levaria essa conexão com ela? Quando me visse pela primeira vez, lembraria que eu era o homem que a salvou? Ela me daria uma chance de amá-la antes que Ren pusesse suas garras nela? Não apagar a memória de Kelsey poderia alterar o futuro de maneira significativa. De repente, compreendi por que Kadam estava pressionando.
— O que eu precisaria fazer? — perguntei, ainda indeciso.
— O Amuleto de Damon tem o poder de remover as lembranças que ela teria de você. Como há apenas umas poucas neste momento da vida dela, deve ser muito fácil seguir sua trajetória. Use o amuleto para abrir a mente dela. Feche os olhos e veja o que ela vê.
Entrei na mente de Kelsey, embora ainda não estivesse certo de que iria com isso até o fim, mas imaginei que não faria mal nenhum dar uma olhada. Uma centelha de luz reluziu quando o amuleto brilhou e senti um calor se espalhar por mim. Imagens a princípio difusas, que se tornavam cada vez mais claras, encheram minha mente.
Inicialmente me senti oprimido ao ver tantos pensamentos dela. Passavam tão rápido que eu não conseguia absorver todos eles, mas logo reconheci padrões e uma organização em sua mente. Os pensamentos sobre sua avó e sua preocupação com um garoto na escola que a estava perseguindo eram predominantes. Meus punhos se fecharam enquanto eu a via chegar em casa em lágrimas porque ele estava fazendo bullying com ela.
A voz de Kadam me interrompeu.
— Concentre-se nas últimas horas — disse ele.
As imagens mudaram, passando rapidamente às mais recentes. Eu vi a mim mesmo no resort, esticando o pescoço à espera de um vislumbre de Kelsey. Ela não estava lendo nada, mas me observando. Sorri quando descobri que ela pensou que eu era o homem mais bonito que ela já vira. Logo essas imagens foram substituídas pelo medo quando os garotos bateram em nós e a lembrança de agarrar minha mão quando ela instintivamente buscou em mim força e proteção. Ela não queria que os baderneiros no outro carro a vissem. Quando me ofereci para enfrentá-los, me olhou com espanto e algo despertou dentro dela naquele momento. De repente, ela queria reagir e encará-los. Com orgulho, percebi que fora eu quem dera isso a ela.
— Kishan, precisamos nos apressar — disse Kadam.
Examinei suas lembranças e decidi que, se eu ia mudar o futuro, teria tempo suficiente para fazê-lo quando Kadam não estivesse por perto para me deter. Por ora, eu faria como ele pedira.
Com um rápido movimento mental, roubei as lembranças que Kelsey tinha de quando conheceu a mim e Kadam no hotel e da minha presença no carro. Infeliz, removi a recordação de segurá-la nos braços após o acidente, mas, no último minuto, decidi deixar duas coisas — o último conselho que recebera da mãe e o embrionário sentimento de querer enfrentar e lutar. Ela não saberia de onde ele veio, mas ainda o reconheceria, e eu sempre saberia que fora eu quem lhe inspirara aquela coragem.
Tendo concluído, levantei-me e assenti para Kadam, que pousou a mão em meu ombro. Usando o Amuleto de Damon, removi todos os sinais de nossa presença. Quando o ruído de um helicóptero ficou mais forte, eu também pus a mão no ombro de Kadam. Mais uma vez o mundo inclinou-se em seu eixo enquanto girávamos no redemoinho do tempo.
Dessa vez meu estômago se estabilizou mais rápido e, quando vi onde nos encontrávamos, olhei para Kadam.
— Se você não se importa de ir procurar Anamika — pediu ele —, há algumas coisas que precisamos discutir. Encontro vocês dois na sala do trono.
Eu ainda estava furioso com ele por causa de sua absoluta recusa a sequer considerar alterar a história. Enquanto me dirigia para o quarto de Anamika, me perguntei por quanto tempo tínhamos ficado ausentes e se ela estaria dormindo ou ainda no banho. Fazendo meia-volta, decidi verificar primeiro no banho e fiquei levemente desapontado ao não encontrá-la recostada em meio a milhares de bolhas cor-de-rosa. Eu não tinha quaisquer intenções com a deusa, mas certamente gostava de vê-la irritada. Uma briga com Anamika teria me distraído do que eu tinha acabado de vivenciar com Kelsey, pelo menos por algum tempo.
Bati de leve na porta de seu quarto, mas não houve resposta. Quando a abri e entrei silenciosamente, esperava que uma mulher muito aborrecida me colocasse no meu devido lugar por ter entrado em seu quarto sem licença, mas, em vez disso, fiquei perplexo com as mudanças que ela fizera no cômodo.
Para uma mulher tão dura quanto Anamika aparentava ser, eu esperava que seu quarto fosse simples, austero ou talvez semelhante a sua tenda no campo de batalha. Em vez disso, me vi cercado pela suavidade. Não era suntuoso, embora houvesse suntuosidade ali, remanescente dos adornos de Lokesh, mas o quarto era aconchegante, convidativo. Diversos vasos cheios de flores exalavam sua fragrância, o que combinava com o leve cheiro de fumaça vindo do fogo fraco. Ela havia usado o Lenço Divino para fazer tapetes espessos e almofadas, e o quarto era repleto de lembranças e presentes que lhe haviam sido ofertados. As paredes estavam decoradas com tapeçarias elaboradamente bordadas, mas também com desenhos de crianças. Relíquias, peças de cerâmica e miniaturas da deusa em batalha enfeitavam prateleiras simples de madeira.
Apesar dos vários níveis de habilidade requeridos para criar essas coisas, Anamika parecia atribuir-lhes igual consideração, posto que versões infantis estavam colocadas ao lado de obras de arte. Embora houvesse muitas peças expostas, percebia-se uma ordem entre elas. Era quase como se cada coisa tivesse sido colocada exatamente no lugar certo.
Seguindo em direção à cama, eu a encontrei dormindo profundamente. O cabelo estava espalhado sobre o travesseiro e sua mão descansava em cima dele. A leve camada de sardas no nariz quase desaparecia na escuridão, mas os cílios e sobrancelhas escuros ainda eram facilmente visíveis à luz do fogo.
Mudando de posição, ela virou-se de lado, ficando bem de frente para mim. Inspirei fundo. Jasmim de floração noturna e lótus. As flores em seu quarto haviam quase me sufocado com sua fragrância, mas o perfume quente que ela exalava era melhor do que o de todas elas, embora eu jamais fosse admitir isso para ela.
Percebi que ela havia puxado tanto o cobertor que seus pés ficaram descobertos. Estendi a mão para cobri-los. Anamika era tão alta quanto a maioria dos homens, embora eu ainda fosse alguns centímetros maior do que ela, e era uma guerreira formidável nas batalhas. Tinha músculos, mas sem exagero — ainda era curvilínea em todos os lugares certos e seu cabelo espesso era certamente invejado por toda mulher que a conhecia.
O problema eram aquelas pernas compridas, pensei com um sorrisinho. Todas aquelas outras coisas já distraíam o bastante, mas eram as pernas que a metiam em apuros. Suas pernas eram... bem, espetaculares seria um eufemismo. Eu sempre tinha de repelir devotos do sexo masculino que sentiam a necessidade de venerar a deusa um pouquinho demais.
Quando ela deu um leve suspiro, estudei seus lábios e pensei que sua boca era linda, uma boca feita para ser beijada. Que pena que ela preferia usá-la para insultar os homens. A karkasha, pensei, com um sorriso relutante. Bem, nem todos os homens. Na maioria das vezes, só a mim. Mas mesmo eu tinha de admitir que Anamika era uma bela mulher, uma verdadeira deusa nascida humana. Qualquer homem a desejaria e cairia a seus pés para adorá-la. Se não estivesse apaixonado por Kelsey, até eu poderia ter sido subjugado por seus encantos.
No entanto, o que eu queria era uma mulher de verdade. Carinhosa, suave e amorosa. Não uma princesa de gelo que me olhava de cima, desdenhosa, e tinha um comentário mordaz sobre tudo que eu fazia. Anamika era demasiadamente majestosa. Rígida demais. Fria demais. Excessivamente...
A deusa adormecida ressonou de leve.
Congestionada?
Reprimi o riso e imaginei como ela ficaria mortificada se eu zombasse dela por roncar e provavelmente me destruiria com um raio se me pegasse espiando enquanto ela dormia. Ainda assim, eu tinha de lhe dar crédito. Os círculos escuros sob seus olhos eram visíveis. Anamika era uma deusa perfeita. Ela trabalhava arduamente, amava seu povo e tinha um coração bondoso.
Delicadamente, eu a sacudi pelo ombro, torcendo para que tivesse dormido por um bom tempo.
Ela gemeu baixinho em protesto. Sacudi com um pouco mais de força.
— Ana. Anamika, você precisa acordar.
— Vá embora — murmurou ela.
— Não.
— Por que você tem sempre de me perturbar quando estou tentando relaxar? — perguntou com os olhos fechados.
— Eu vivo para irritar você — repliquei.
— Que sorte a minha.
Ela rolou e sentou-se na cama, embora seus olhos continuassem fechados. Passou a mão pelos cabelos despenteados, bagunçando-os ainda mais. Uma imagem muito distante da deusa perfeita que ela preferia mostrar em público. Sorri, pensando que parecia encantadora e vulnerável, como uma garotinha. Então meus pensamentos se voltaram para outra garotinha, uma que eu deixara sozinha ao lado dos destroços de um carro.
— Venha — chamei. — Vista-se. Kadam precisa falar conosco.
— Kadam? Quem é esse? Um rei?
— Não, ele não é um rei, é... Ele mesmo precisa explicar a você.
— Muito bem. — Ela se levantou, tropeçou ligeiramente e espetou o dedo em meu peito. — Mas depois disso você vai me deixar dormir.
Peguei a mão dela, firmemente afastando o dedo em riste de meu peito, e envolvi com seus dedos a escova de cabelo.
— Tome. Talvez você queira fazer alguma coisa em relação a esse ninho que uma ave estinfaliana fez no alto da sua cabeça. Vista-se. Vou esperá-la do lado de fora.
Eu tinha acabado de fechar a porta quando ouvi a escova acertá-la pelo lado de dentro. Por alguma razão, a reação dela me fez rir. E ainda estava rindo quando a porta se abriu um momento depois e deparei com uma mulher totalmente desperta e vingativa, com olhos flamejantes e os lábios volumosos franzidos.
— Agora estou suficientemente apresentável para você? — sibilou.
Esfreguei o queixo, como se considerando sua aparência.
— Creio que sim. Embora seu cabelo não esteja tão lustroso quanto poderia estar.
Furiosa, ela contraiu um músculo do maxilar. Eu não sabia bem por que gostava tanto de irritá-la. A verdade era que nunca tinha visto cabelo tão lustroso quanto o dela. As ondas espessas caíam pelos ombros de tal maneira que eram, para mim, uma tentação constante. Eu queria passar as mãos naqueles fios sedosos.
Quando entramos no salão do trono, encontramos Kadam andando de um lado para outro.
— Ah, aí está você, minha querida.
Ele tomou-lhe as mãos e beijou cada uma delas.
Anamika sorriu amavelmente, mas deu um passo para trás, ficando mais perto de mim; na verdade, ela estava tão perto que segurei seus braços e me inclinei para sussurrar:
— Ele não vai machucar você.
Ela se enrijeceu e afastou-se bruscamente.
— Não tenho medo dele. — Com um gesto gentil, ela o conduziu em direção ao trono, onde normalmente se sentava. — Gostaria de se sentar, meu amigo?
Kadam sorriu e disse:
— Não. Obrigado. Mas talvez seja melhor você se sentar.
Intrigada, Anamika acomodou-se no trono e eu me sentei ao lado dela enquanto Kadam se aproximava de nós dois.
Ele esfregou as mãos e andou de um lado para outro por um instante, erguendo os olhos para nós a cada volta. Por fim, se deteve e estendeu as mãos.
— Talvez eu devesse me apresentar primeiro. Meu nome é Anik Kadam. Sou o soldado que serviu à Casa de Rajaram.
Anamika me lançou um olhar estupefato.
— Mas você... você está morto. Kishan e Kelsey falaram de você.
— Eu não estou morto... ainda. Mas perecerei em breve.
— Não compreendo — disse Anamika.
— Você está ciente de que a Corda de Fogo e o Amuleto de Damon têm o poder de permitir a quem os usa viajar através do tempo e do espaço?
Anamika assentiu.
— Foi assim que vim até aqui agora. Estou vivo no meu tempo e venho até aqui falar com vocês antes da minha morte.
— Entendo. Prossiga.
Anamika estava entendendo essa história de viajar pelo tempo bem mais rápido do que eu.
— Embora não tenha me encontrado nesta forma — prosseguiu Kadam —, você me conhece em outra.
Anamika franziu as sobrancelhas.
— Que outra forma? — perguntou.
— Fui seu professor, minha querida criança.
Em sua língua nativa, Kadam falou de uma aula memorável:
— Uma vez você caiu de um potro arisco e jurou que nunca mais montaria nele. Lembra-se?
Anamika franziu ainda mais a testa, assentiu e disse:
— Meu professor o acalmou, como se por magia, me convenceu a montá-lo novamente e o guiou até eu me sentir segura. — Sentando-se na borda do trono, ela perguntou: — Como sabe disso? O senhor não se parece nada com o meu professor. O que está dizendo é impossível.
— Sim, é possível, com isto. — Ele tirou do pescoço o lenço, que se retorceu até adquirir sua forma natural.
Anamika se pôs de pé imediatamente.
— O senhor roubou isso de nós? Deve ter entrado no meu quarto enquanto eu dormia, pois eu o deixei lá!
— E, se voltar lá agora, vai encontrá-lo no lugar em que o viu pela última vez. Tomei este Lenço Divino emprestado no meu tempo, e muitas vezes eu o usei e vou usá-lo para assumir o papel de Phet, seu professor.
— Vai usá-lo? — perguntei.
Ele assentiu com gravidade.
— Ainda há muito trabalho a ser feito e vou precisar de vocês dois para me ajudarem a realizá-lo.
Anamika me olhou em busca de orientação.
— Ele é mesmo quem diz ser? — indagou.
— É. Embora possamos ter opiniões diferentes sobre o trabalho que ele pretende nos dar.
Após um breve momento examinando-o, Anamika suspirou e então disse:
— Quando jovem, aprendi a confiar no meu professor. Ele parecia sempre saber das coisas antes que elas acontecessem. — Ela olhou para mim e acrescentou: — Faremos o que nos for pedido.
Como me limitei a grunhir, Kadam me agraciou com um brilho nos olhos. Eu conhecia aquele olhar. Ele estava satisfeito por termos aceitado um desafio. Exibia uma expressão semelhante quando eu me mostrava particularmente teimoso no treinamento com armas quando garoto.
Kadam curvou-se, fazendo uma reverência para Anamika, e, sorrindo de maneira afetuosa, disse:
— Uma mente aberta e um coração solícito são o início de muitas aventuras grandiosas. Comecemos então.

5 comentários:

  1. O modo como Kishan descreve ela, faz parecer que no fim ele vai se apaixonar por ela de qualquer jeito :V

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  2. Eu acho que o kishan só não percebeu que gostar da anamika porque não superou a kelsy

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  3. Mano a autora não mudou nada em relação ao personagem, é como se a Kelsey estivesse falando não o Kishan!!! (ou pensando né)

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