12 de setembro de 2018

29 - Nas asas de um passarinho

Eu estava feliz. Mais feliz do que me lembrava de jamais ter me sentido. Estava caçando com um grupo de rapazes. Eles eram fortes de corpo e tinham a mente aguçada. Eu estava em minha forma de tigre, mas eles pareciam confortáveis com isso. Um deles parou atrás de uma árvore e fez sinal com as mãos para mim, à maneira que Kadam havia ensinado a nós, guerreiros. Seu cabelo, preto como as penas de um corvo e ondulado, estava amarrado na nuca. Com a pele cor de cobre e penetrantes olhos azul-celeste, mesmo à luz do alvorecer, ele me parecia familiar.
Seu sinal me informava que a presa estava próxima. Eu deveria circundá-la enquanto ele e os outros assumiam suas posições. Quando estivessem prontos, eu forçaria a caça a se expor. Esgueirei-me por entre os arbustos até que cheguei ao alto de uma colina de onde se via uma planície. O ruído de galhos se quebrando me alertou para que me agachasse, contraindo ligeiramente a cauda. Um pequeno grupo de cervos pastava preguiçosamente lá embaixo. Quando ouvi um pio de coruja e o reconheci como vindo de um humano, saltei do esconderijo. Os cervos fugiram na mesma hora na direção contrária, disparando entre as árvores o mais rápido que podiam. A vibração de uma flecha foi seguida pelo grito de um dos animais. Ele tombou imediatamente e, quando saltei sobre ele, o animal já estava morto. Um abate impressionante.
Os caçadores eram tão hábeis que eu não os teria ouvido em absoluto se não tivesse a audição apurada. Eram invisíveis também. Somente meu nariz me dizia onde estavam e, mesmo assim, um deles me surpreendeu. Ele havia ocultado seu cheiro permanecendo a favor do vento e abateu um segundo animal usando uma lança, enquanto um terceiro pegou sua presa com uma rede com pesos.
O cervo aprisionado debateu-se até que o rapaz apareceu e eficientemente passou a faca pelo pescoço do animal. Ele manteve a mão nas costas do cervo, acariciando-o de modo a tranquilizá-lo, até que o animal se aquietou e morreu.
Depois que os cervos foram preparados para a viagem, amarrados em varas compridas, seis dos rapazes ergueram seus fardos enquanto outros dois examinavam o terreno à frente. Eu caminhava entre os dois e o que estava à minha direita voltou-se para me olhar com um sorriso um tanto petulante.
— Você está ficando um pouco lento, não está, meu velho?
Os outros rapazes riram de leve enquanto eu rosnava e avançava contra ele, de brincadeira. O manto de lã que ele usava esvoaçava em torno de suas pernas cobertas por botas. Percebi com que facilidade seus ombros largos carregavam o peso do cervo adulto. Ele estava orgulhoso da caçada e merecia mesmo estar. O animal não sofrera. Sua pontaria era melhor do que a de qualquer um dos soldados que eu treinara ao longo dos anos.
Olhei para cima e os olhos verdes do garoto cintilaram quando ele disse:
— Você diria que vencemos a aposta, pai?
Mudando para a forma humana, soquei-o de leve no ombro e sorri para ele.
— Se tem alguém aqui ficando velho, é você. Fez um belo trabalho, e, sim, eu diria que vocês ganharam a aposta. Mas não conte para a sua mãe. Você sabe como ela é.
Os garotos riram e meu coração se inflou no peito. Meus, pensei. Aqueles rapazes bonitos eram meus filhos. Não sei como, mas eu sabia.
Um dos batedores, um garoto de cerca de 16 anos, voltou com uma expressão de alarme.
— Pai, está vendo aquela fumaça no horizonte? Um vilarejo está sendo atacado. Devemos convocar a deusa?
— Quantos? — perguntei, refletindo.
— Duas dúzias, pela minha estimativa.
— Acha que podemos dar conta deles?
O garoto ergueu as sobrancelhas e me dirigiu um olhar que dizia que eu já devia saber a resposta.
— Muito bem — falei. — Não vejo nenhuma necessidade de incomodá-la. Teremos de esconder os cervos, mas podemos vir buscá-los depois. Com sorte, nenhuma outra criatura vai levá-los enquanto isso.
— Vidas são mais importantes do que carne — observou o garoto louro e calado à minha esquerda enquanto ele e o irmão erguiam a vara e a prendiam em uma árvore próxima, posicionando o cervo o mais alto que podiam e o camuflando com galhos.
Os dois não pareciam irmãos, mas eu sabia que eram. Os outros garotos fizeram o mesmo que eles e logo as três caças estavam cuidadosamente ocultas na copa da árvore. O cheiro atrairia predadores, mas, com sorte, nenhum seria grande demais a ponto de não podermos afugentá-lo.
O canto de minha boca subiu e assenti, orgulhoso, enquanto os observava. Eu os ensinara a pensar como hábeis caçadores, tanto em termos humanos quanto felinos. Quando concluíram, falei:
— Agora vamos ver qual aspirante a tirano está causando estragos.
Partimos e fui arrebatado para outro sonho. Esse era uma doce imagem de Kelsey tendo no colo um bebê de olhos dourados que ela chamava de Anik Kishan. Era seu primeiro filho. A cena se desenrolou e notei uma diferença entre esse sonho de agora e o anterior, quando eu tivera a visão. No primeiro sonho, com os meninos, eu fazia parte do círculo. Tinha pronunciado as palavras e sentido o que aquela versão de mim sentia. Quando vi Kelsey, fiquei feliz, mas faltava aquele sentimento de orgulho. Eu era um observador externo. Não era uma sensação ruim. Não exatamente. Era apenas diferente.
Um de meus caçadores tinha olhos castanhos bem claros, nariz marcante e traços benfeitos. Parecia-se muito com meu pai. Eu sempre assumira que ele era a versão adulta do bebê de Kelsey, mas agora percebia diferenças sutis. O formato do nariz não era o mesmo. O cheiro, que era forte mesmo no sonho, também não era o mesmo.
Depois dessa cena, fui levado para outro lugar. Eu estava em uma selva conversando com Kadam. Ele estava triste e acariciava minha cabeça de tigre, sentado a meu lado, encostado em uma árvore. Nós dois observávamos o pôr do sol e meu coração estava, ao mesmo tempo, apertado e esperançoso.
Esse se desvaneceu e um novo sonho tomou seu lugar. Ouvi a risada de uma mulher enquanto eu a perseguia no escuro. Havia um véu sobre meus olhos e ela não tinha cheiro algum.
— Venha me encontrar, tigre — acenou ela com um convite que prometia mais do que uma caçada bem-sucedida.
Minhas garras rasparam o tronco em que me equilibrei quando pulei. Transformando-me ao me aproximar do chão, peguei a mulher pela cintura e rolamos juntos, parando com ela em cima de mim.
— O que eu ganho? — perguntei, arfando e sorrindo enquanto afastava os cabelos de seu rosto.
Ainda não conseguia vê-la nem sentir seu cheiro, mas o formato de seu rosto me era familiar.
— Vamos começar com um beijo e ver até onde vai a partir daí? — sugeriu ela com uma risada rouca.
— Acho que posso cuidar disso — falei, traçando a linha de seu rosto e puxando-a para baixo.
A luz se irradiava à nossa volta, contornando suas formas, quando nossas bocas se encaixaram com perfeição. Nossos lábios misturaram-se tão perfeita e verdadeiramente como o horizonte, a distância entre nós indiscernível. Segurando sua nuca com uma das mãos e deslizando a outra lentamente por suas costas até encontrar a curva de seu quadril, apertei a carne macia e a puxei para mim, murmurando de encontro aos seus lábios:
— Quero ver você.
Ela tocou meu nariz com a ponta do dedo.
— Creio que ainda não.
Gemendo, levei os lábios a seu pescoço e puxei a manga do vestido, desnudando-lhe o ombro. Ela deixou escapar um breve e suave gemido ao arquear o pescoço, me oferecendo mais acesso. Cobri seu maxilar de beijos, descendo em seguida para a curva do ombro, explorando bem devagar cada centímetro.
Impaciente, ela virou minha cabeça e colou seus lábios de veludo aos meus, contorcendo o corpo e aproximando-se ainda mais de mim. Sua figura voluptuosa estava esmagada contra meu corpo e eu a abracei mais apertado, prontamente dando-lhe os beijos lentos e entorpecentes que ela desejava enquanto minhas mãos subiam, deslizando entre seus cabelos. Ouvi um tamborilar de chuva primaveril na copa acima de nós, embora ainda não pudesse ver nada. Eu já não ligava para minha visão limitada. Poder senti-la, poder tocá-la era tudo que importava. Pressionando suas costas delicadamente, tornei a rolar, de modo que agora eu pairava acima dela, apoiado nos cotovelos para não esmagá-la com meu peso. Ela me puxou pela camisa, tentando me fazer baixar, mas eu resisti e cobri sua mão com a minha, onde ela me segurava, sobre o coração.
— Eu te amo — falei. — Eu disse isso recentemente?
Não precisei ver seu sorriso para saber que ele estava lá.
— Você me diz com tanta frequência e tamanha intensidade que ninguém que o escuta pode duvidar.
— Ótimo. Nenhum homem deve jamais cogitar que você não é comprometida.
Ela socou meu braço, mas ergueu a cabeça na mesma hora para beijar de maneira suave minha orelha e murmurar:
— Eu também te amo, minha fera. Mas, se você parar de me beijar, eu talvez venha a considerar outro pretendente.
— Bem, com certeza, não posso permitir isso, minha bela senhora — repliquei com brandura.
Logo sua boca sedosa encontrou a minha e me vi perdido em seu abraço. Seus braços se enroscaram em meu pescoço, seus lábios entreabertos, e o sonho transformou-se em algo mais poderoso, imperioso. Os aromas da floresta enchiam minhas narinas. Flores de todos os tipos nos cercavam: rosas, jasmins, lírios. Havia também o cheiro de folhas e de grama pisada. A luz também havia diminuído. Agora era tênue — cinza fumaça e rosa pétala. Lentamente, fui tendo consciência de que já não estava deitado no chão, mas em uma cama tão macia quanto asas de fadas. Minha visão retornara. Erguendo a cabeça, vi meus dedos entrelaçados com os dela onde nossas mãos se apoiavam perto da cabeceira. As palmas dançavam juntas, os dedos se apertando.
Soltei sua mão e deslizei os dedos pela extensão de seus cabelos, que se espalhavam como um halo, derramando-se sobre o travesseiro e os lençóis.
Ela deixou escapar um leve ruído de impaciência e segurou meu queixo, me forçando a virar a cabeça novamente para ela. Tornei a fechar os olhos e baixei os lábios até os dela. A mulher que eu beijava me segurava com força, suas mãos massageando minhas costas e deslizando em seguida entre nós para acariciar meu peito onde a camisa se abrira. Minha mente estava nebulosa de sono e eu não tinha qualquer razão imediata para querer despertar. O sonho era doce, apaixonado e perfeito. Minha boca movia-se com a dela enquanto ela me provocava e me excitava com seus beijos suaves e doces.
Ela puxou minha camisa e murmurei junto a seus lábios:
— Só um minuto, minha linda jaani.
Desembaraçando minhas pernas das dela, me ergui com a intenção de tirar a camisa e de repente me dei conta de que não estava mais dormindo. Minhas mãos congelaram nos botões quando baixei os olhos para a mulher agora muito visível. Anamika estava deitada ali, tão linda e suave quanto uma flor colhida, seus lábios rubros de meus beijos. Um atraente rubor subia de seu peito arfante até as maçãs do rosto e tingia até mesmo os ombros.
Os cabelos de Ana emolduravam seu rosto adorável, as ondas se irradiando a partir dela como raios brilhantes saindo da face do sol. Eu queria afundar meus dedos e encher a mão com eles. Olhar para ela era compreender o significado de inocência e paixão, poder e súplica, força e vulnerabilidade. Ela era mulher, deusa e menina — tudo em uma só criatura encantadora.
Enquanto eu a fitava de cima, boquiaberto com o choque, ela estendeu a mão e a deslizou ao longo de meu braço. Estremeci com a necessidade ardente de me deitar novamente em cima dela e me aproveitar do desejo que via em seus olhos. A fome que eu sentia por ela era esmagadora e eu não conseguia entender como o Bosque dos Sonhos podia ter me levado por um caminho tão vergonhoso e cheio de culpa.
— Sohan? — chamou ela, a testa franzida, os olhos verde-musgo ainda pesados de sono. — Qual o problema?
— Eu... eu... me desculpe — retruquei. Meu corpo finalmente acertou o passo com o cérebro e me afastei dela o mais rápido possível. Ela sentou-se, a camisola sedosa escorregando ainda mais pelo ombro, perigosamente perto de expô-la. Dando as costas para ela antes que isso acontecesse, procurei, atrapalhado, as palavras: — Eu, hã, vou esperar você lá fora.
Passando de maneira brusca pelas trepadeiras pendentes, arranquei algumas das árvores, atirei-as violentamente de lado e saí pisando duro pela floresta. Meu corpo inteiro tremia com a tensão. Deixá-la com seu perfume inebriante para trás provou-se quase impossível. Andando de um lado para outro como uma fera enjaulada, passei o polegar pela boca e fechei os olhos. Ainda podia sentir o gosto dela. Meu sangue latejava nas veias, meu corpo insistindo em que eu era um idiota por deixar uma mulher tão cálida e aparentemente receptiva sozinha na cama.
O tigre em mim não via nada de errado com o que eu fizera. Ana era minha, assim como eu era dela. Já estávamos ligados de uma forma única. Nada no universo poderia nos manter separados, mesmo que quiséssemos. O tigre era regido pelo desejo e pela necessidade e estava muito perto da superfície. Mesmo agora, uma parte dela chamava por mim ou, talvez, por ele. Cambaleei alguns passos e então atendi a seu chamado, retornando ao bosque, mas sem entrar.
— Estou aqui — informei, muito formalmente, através das trepadeiras. — De que você precisa?
As plantas se ergueram por vontade própria quando Ana passou. Ela usava uma túnica justa azul como um mar turquesa, uma calça justa feita de couro de corça e botas até os joelhos. A roupa realçava seu corpo o suficiente para fazer minha garganta secar e meu pulso latejar. Seus cabelos estavam jogados para trás e pude ver o leve avermelhado no pescoço, provavelmente causado pela barba crescendo em meu rosto. Estremeci e desviei o olhar.
— O que eu preciso é que você explique suas atitudes — disse ela baixinho.
— Eu... eu não sei o que dizer. Eu estava sonhando e...
Minha boca se movia, mas as palavras não saíam.
Erguendo os olhos, vi sua típica postura determinada, as mãos apoiadas nos quadris.
— Continue — disse ela. — Você estava sonhando e...
— E... nada. Não foi nada. Não vai acontecer outra vez. Peço desculpas. Não havia nenhuma razão para eu...
— Para você... o quê?
Ela se aproximou, seus passos largos rapidamente cobrindo a distância. Desconfortável, recuei até minhas costas baterem em uma árvore.
— Beijar você daquela forma. Não era minha intenção. Eu prometo que não vai acontecer de novo.
— Ah? — Ela deu outro passo e, se eu pudesse ter desaparecido dentro do tronco da árvore, teria feito isso. — Não era sua intenção, você diz? Tive a sensação de que era sua intenção, sim.
Ana envolveu meu bíceps com a mão e inclinou-se em minha direção. Seu rosto estava iluminado por uma luz suave que acentuava suas feições, sobretudo a boca rosada e benfeita. Meus olhos desceram para seus lábios macios e ela sorriu.
Sensível a suas emoções, que estavam tão perto da superfície quanto as minhas, detectei um persistente traço de desejo ali, agora oculto por trás de algo mais. Medo? Nervosismo? O que quer que fosse, ela não estava compartilhando. No sonho, eu estivera aberto à mulher, a Ana, completamente, mas, ao acordar, ambos erguemos nossos muros mais uma vez.
No entanto, ela usou nossa conexão para falar comigo. Eu também sonhei, Sohan, disse em minha mente. Existe de fato um espaço para mim entre o passado e o futuro. Eu o vi. E, agora que sei que ele existe, meu objetivo é tomar posse dele. Você desejaria me privar dele?
— Não, eu...
Ela me interrompeu: Você sempre disse que é um homem que luta pelo que quer. Dando mais um passo em minha direção, sua coxa roçou na minha e todo e qualquer pensamento coerente se foi, como o desejo de uma fada. Ana tocou a ponta do dedo em minha escápula e desceu lentamente pelo peito, só parando quando o dedo encontrou o tecido da camisa. Eu senti cada milímetro do caminho.
Seus olhos ficaram fixos em meu peito por um longo momento. Então ela espalmou a mão sobre meu coração. Admito que o que eu quero me tortura de muitas formas. Sua voz era um leve sussurro em minha mente. Virando a cabeça, como se não aguentasse mais olhar para mim, ela deixou os braços caírem ao lado do corpo e perguntou: O que você quer, tigre?
— Eu quero... eu quero...
Eu não conseguia pensar em uma bendita coisa neste mundo que eu quisesse. Pelo menos, nada que fosse apropriado. Não com os lábios dela a poucos centímetros dos meus. Eu tinha prometido a Ana que seria como um irmão para ela. Como um amigo do peito. Não alguém que constantemente pensasse em seu peito generoso. Fechei os olhos, tentando me lembrar da versão mais jovem de Ana, a criança que confiava em mim, mas não consegui trazer sua imagem à mente.
Ana me encarou, estudando meu rosto por um longo momento. Sua boca curvou-se para baixo, como se estivesse desapontada.
— Humpf — suspirou e então deu um piparote em meu nariz. — Me fale quando descobrir.
Ela girou rapidamente e pôs-se a andar pelo caminho.
— Venha, tigre — chamou. — Temos trabalho a fazer.
Enquanto caminhava atrás dela, eu tentava olhar as aves, o céu e as árvores, qualquer coisa que não fosse o balanço de seus quadris ou suas pernas muito, muito longas, mas, mesmo enquanto fitava o chão, eu pensava em sua boca zombeteira, que tinha acabado de implorar para ser silenciada com um beijo.
Quando chegamos à passagem entre as montanhas onde Kelsey e eu tínhamos avistado a árvore gigante, fiquei chocado ao ver que ela já estava lá.
— Você fez isso mais cedo? — perguntei.
— Não — disse ela, distraída.
Erguendo os braços, ela criou uma bolha à nossa volta e descemos flutuando até o chão. Ela olhou para os galhos no alto, mergulhada em pensamentos, depois continuamos caminhando.
Descrevi a árvore e as quatro casas em detalhe, mas era quase como se ela simplesmente não estivesse me ouvindo.
— Ana — chamei. — Ana, o que foi que acabei de falar?
Ela agitou a mão no ar.
— Alguma coisa sobre corvos, acho.
— O que está incomodando você? — perguntei.
— É essa árvore.
Ela parou e voltou a olhar para o alto, então estalou os dedos e uma folha gigante soltou-se e rodopiou no ar acima de nós, como uma imensa pipa, até pousar no chão ali perto. Apanhando-a, ela correu a mão sobre a folha e fechou os olhos. Alguns segundos depois, eles se abriram, uma expressão de surpresa e satisfação surgindo em seu rosto.
— Que fascinante! — exclamou.
— O quê? — perguntei, passando a mão na nuca e esmagando um inseto.
— A árvore. Ela responde à emoção. Venha aqui. Vamos testar isso.
— Testar o quê? — resmunguei enquanto a seguia até outra árvore, uma mudinha que crescia debaixo dos galhos de sua irmã bem maior.
— Aqui — disse ela. — Vire-se e fique bem aqui.
— Está bem — repliquei, cruzando os braços diante do peito. — E agora?
— Agora... você precisa me beijar.
Minha boca se escancarou.
— Eu preciso fazer o quê? — perguntei, na esperança de que minha mente estivesse me pregando uma peça.
— Você precisa me beijar. Como fez antes.
— Hã, não. Essa não é uma boa ideia.
— Por quê? Está com medo de eu machucar você?
Bufei.
— Não. Só que essa não é a maneira como um irmão deve agir.
Ana fechou a cara.
— Você não é meu irmão.
— Não, não sou. Mas, se ele estivesse aqui, concordaria comigo. É uma péssima ideia.
— Por que você está dificultando as coisas? Eu só quero testar minha teoria. Tudo que estou pedindo é um simples beijo. Você não se opôs antes.
— Eu não sabia o que estava fazendo. — Minha voz se elevara e até mesmo aos meus ouvidos eu soava um tanto histérico e nervoso. — Olhe — falei, tentando encontrar uma forma de evitar o que ela estava pedindo —, o que você está tentando fazer aqui?
Ana pôs as mãos nos quadris e a parte de meu cérebro que eu estava tentando desligar me disse que eu poderia muito bem fazer o que ela pedia agarrando-a pela cintura e puxando-a em minha direção. Eu disse a essa parte do cérebro que se calasse e fechei a cara para ela.
— Aquela árvore — disse ela, apontando o gigante às nossas costas enquanto mantinha os olhos verdes fixos em mim — foi criada por nós, por nossos beijos, esta manhã.
Desconsiderei abertamente sua sugestão:
— Isso... isso não é possível, Ana.
— Não é? As raízes dela vão até o Bosque dos Sonhos. Há uma ligação direta. Eu posso senti-la.
— E você descobriu tudo isso em uma folha?
Ela soltou um suspiro de impaciência.
— Veja você mesmo — disse ela, colocando minha mão em cima da folha. — Consegue sentir?
Puxei a mão rapidamente. Sim, eu sentia. A folha tremia como os braços de Ana quando eu os acariciava.
— Estes minúsculos veios verdes na folha pulsam em minha palma como seu coração quando o cobri com minha mão. As raízes fazem cócegas nos dedos dos meus pés, pedindo mais alimento. Os rangidos dos galhos estão melancólicos. O vento me provoca com a lembrança. Eu sou a deusa das coisas que crescem também. Este é o meu reino. Faz sentido que a terra responda a mim dessa maneira.
A cada frase, ela se aproximava um pouco mais.
Engoli em seco e tentei pensar em uma forma de refutar o que ela estava dizendo.
— Então... você está dizendo que só quer testar essa teoria. Um simples beijo e você vai saber.
Arqueando uma delicada sobrancelha, Ana respondeu:
— É. Eu vou saber.
Mordendo o lábio, eu disse:
— Tudo bem, então. — Suspirei, como um homem indo para a guilhotina, e pus as mãos em seus ombros, mal tocando sua pele com a ponta dos dedos. — Então vamos lá.
Ela franziu a testa e disse:
— Abra seus pensamentos para a arvorezinha atrás de você. Veja se consegue senti-la como eu sinto.
Inclinando-me para a frente, hesitei por tempo suficiente para ver Ana fechar os olhos e aproximar a boca. Pressionei meus lábios contra os dela no beijo mais casto que me foi possível e então me afastei. Não pude deixar de notar que seu corpo estremeceu.
Ela me deu um tapa no braço.
— O que foi isso? — perguntou.
— Um beijo. Como você pediu.
Andando de um lado para outro enquanto pensava, Ana murmurou:
— Isso não chegou nem perto dos beijos que você me deu antes.
— Não, mas isso é tudo que estou disposto a dar neste momento.
— Kishan... — começou ela.
Meu antigo nome foi o estopim.
— Eu disse para você não me chamar assim! — gritei.
— Que tal se eu o chamar de palhaço, seu tigre cabeça-dura?
Atrás de nós a arvorezinha se sacudiu e, agora que eu estava prestando atenção, senti que ela reagia a nós. As folhinhas murcharam nos galhos e a cor desbotou.
— Pare! — disse ela, erguendo a mão e tocando uma folha, que se soltou e caiu no chão, a seus pés. — Está vendo agora o que você fez? — gritou, me empurrando para longe da árvore. — Você a matou!
— Eu a matei? — repliquei, dando um tapa em meu peito. — De quem foi a brilhante ideia do beijo? Eu diria que foi você quem a matou.
Ambos ficamos paralisados quando ouvimos o gemido de um galho pesado lá no alto.
— Shh — disse Ana, pegando minha mão e apertando meus dedos. — Precisamos parar de brigar. Senão vamos destruir a árvore grande.
— Se eu admitir que você está certa, podemos deixar esse assunto de lado e terminar nosso trabalho?
Ana me olhou demoradamente e então assentiu.
Enquanto nos dirigíamos para o tronco gigante, eu pensava no que ela dissera. Será possível que a terra responda a ela? Totalmente. O que eu não entendia era como nossos beijos podiam criar uma árvore gigante.
Parando ao pé da árvore, ela fechou os olhos e murmurou:
— Fanindra, estou precisando de você.
Ana girou a mão no ar e tocou o amuleto em seu pescoço. Uma luz tremeluziu em torno de sua mão e, um instante depois, ali estava Fanindra, a cabeça dourada erguida para a deusa.
— Preciso de sua ajuda — disse ela, e pressionou a mão no chão.
Fanindra sibilou e levantou a parte superior do corpo, dilatando o pescoço e oscilando para a frente e para trás, hipnoticamente. Não demorou para que uma cobra verde saísse coleando do meio da grama e tocasse o nariz de Fanindra com o seu.
— Certo — falei. — Ela é pequena demais. Como eu disse, a cobra era gigante.
— Por que os homens têm tão pouca paciência? — perguntou Ana a Fanindra. — Eles não conseguem perceber o que está bem debaixo do nariz deles.
A cobra dourada girou a cabeça, como se estivesse me avaliando, e pôs a língua para fora.
Abaixando-se, Ana acariciou a cabeça escamosa da cobra verde.
— O que você acha de fazer um favor à sua deusa? — perguntou.
Depois de esperar um pouco e inclinar a cabeça, como se ouvisse uma resposta inacessível para mim, Ana pôs em prática sua magia. Canalizou algumas habilidades diferentes, usando o kamandal da cura, assim como Fanindra e as porções da terra e do ar do amuleto. Entrelaçando todos de uma forma nova e única, ela imbuiu a cobra de seu dom.
Diante de meus olhos, a cobra cresceu e ganhou poder, não só para se camuflar como também para falar. Ana lhe deu instruções e ela curvou a cabeça para a deusa antes de desaparecer pela lateral da árvore. Seu corpo produzia um sussurro peculiar e levou vários minutos para a ponta de sua cauda finalmente desaparecer.
— Espero que ela se lembre de tudo — disse Ana.
— Por que não se lembraria?
Ela deu de ombros.
— Ela é bastante simplória. No entanto, Fanindra diz que vai ajudá-la.
Aprumando-se, Ana fez uma porta na árvore e, exatamente como fizera em Shangri-lá, iluminou o interior da árvore com seu poder, refazendo-a e recriando-a muito além do que eu podia ver.
— Venha, Sohan — chamou. — Fanindra, pode voltar para Kelsey, se quiser, ou nos acompanhar por algum tempo.
A cobra respondeu enroscando-se no braço de Ana.
Encerrando-nos em sua bolha, Ana nos elevou no ar, criando degraus no interior da árvore e escavando a madeira a fim de conceber espaços onde poderíamos ascender. Só foi preciso um instante para criar a casa de cabaças. Quando chegamos à casa de sereias, ela criou o lugar com muita facilidade, o teto de madeira escuro estendendo-se acima. No entanto, Ana não sabia onde encontrar sereias.
Um fio de água escorria no interior do tronco e Ana deixou a água empoçar em sua mão em concha.
— Meu professor, quero dizer, Kadam uma vez me disse que as sereias eram uma espécie de criatura metade peixe, metade mortal que vive sob as águas.
— Em algumas histórias, são.
— Talvez, assim como os demônios kappa brotam das lágrimas, essas criaturas surjam por conta própria.
— O que você está dizendo?
Anamika não respondeu. Em vez disso, abriu a mão, exibindo a palma, e sussurrou alguma coisa que não consegui ouvir. O tridente materializou-se em sua mão. Tocando com sua ponta o fio de água e fechando os olhos, ela sussurrou uma convocação.
De início, não houve qualquer sinal de que seu chamado tivesse sido compreendido e eu estava prestes a me aproximar dela para discutir outras opções quando Ana levantou um dedo e o levou aos lábios.
— Está ouvindo? — perguntou.
Sacudi a cabeça fazendo que não.
Ela inclinou a sua e sorriu.
— Vocês podem se apresentar.
Uma névoa cinzenta fluiu de buracos nos nós da madeira e foi se condensando, formando figuras humanas. Quando se materializaram, curvaram-se diante da deusa. Reconheci imediatamente as sereias que aprisionaram a mim e Kelsey. No momento em que um bonito rapaz curvou-se sobre a mão de Ana e pressionou os lábios contra a pele dela, a minha esquentou.
— Afaste-se dela — ordenei, empurrando seu peito nu.
Ele limitou-se a sorrir para mim e então senti a mão de uma mulher em meu braço. Afastei a mão dela de imediato.
— Acho que não — falei.
— Ora, Sohan — disse Ana —, você está sendo descortês com nossos convidados.
— Convidados? É mesmo? — sibilei. — Você sabe o que eles são? O que podem fazer?
— É claro.
Ela foi até um dos rapazes e ele lhe ofereceu o braço. Uma cadeira se materializou e ele a convidou a sentar-se e relaxar. As garotas saíram de meu caminho quando as fuzilei com o olhar e segui direto para Ana, que se refestelava na cadeira. Um dos rapazes havia tirado as botas dela e massageava seus pés.
— Ah, isso é gostoso — disse ela. — Acho que sua massagem até se iguala à do meu tigre.
— Ana — chamei, minha voz soando mal-humorada e petulante. — Insisto em irmos embora daqui agora mesmo. Você não sabe como essas criaturas são perigosas.
— Perigosas? — Ela riu. — Elas são tão perigosas quanto um roupão de seda.
Cruzei os braços.
— Um roupão de seda pode ser perigoso, se usado pela pessoa certa.
Os olhos dela se estreitaram.
— Eu lhe asseguro que eles não têm intenção de fazer nenhum mal. Foram banidos de seu reino. São nuvens sem água. Receber e dar amor é seu propósito. Isso os completa.
Um dos homens ajoelhou-se a seu lado e descansou a cabeça em seu colo. Ela acariciou-lhe os cabelos e ver isso acendeu uma chama inextinguível em minhas entranhas. Quase amorosamente, ela brincou com os cabelos dele enquanto dizia:
— Estavam vagueando há milênios, como nuvens sopradas de um lado para outro pelo vento. Eu lhes dei permissão para tomar forma. Eu lhes dei propósito.
— Você sabe que eles literalmente amam as pessoas até a morte.
Ana jamais se mostrara tão à vontade fisicamente comigo quanto estava se comportando com eles.
Sentindo a mudança de humor dela, eles recuaram e a ajudaram a se levantar.
— Isso é tão errado assim? — indagou ela. — Mesmo quando aqueles que amam se tornam velhos e grisalhos, eles continuam a amá-los com toda a energia de sua alma.
— Eles turvam as mentes. Confundem as pessoas. Manipulam suas emoções. Excitam seus sentidos. Eles até já conseguiram seduzi-la em poucos segundos.
— Não — insistiu Ana. — Eles dão aos solitários o que estes desejam. Preenchem o vazio em seu coração. Admito que há um certo embotamento das inibições, mas eles não tiram a liberdade de escolha.
— E se suas vítimas quiserem experimentar essa conexão com outras pessoas? Com alguém especial?
— Você não sabe nada do que significa ser uma vítima — ela cuspiu as palavras com pausas incisivas. — Existem muitas pessoas neste mundo que nunca encontram alguém especial. Verdade, a afeição com que nos cobrem termina com a morte do objeto de seu afeto. De fato, eles nem se lembram mais da pessoa depois que ela vai embora, mas pelo menos essa pessoa vivenciou o toque, a gentileza e o companheirismo. Há muitos que morrem com menos.
Desoladas, as quatro criaturas postaram-se em um semicírculo por trás dela e pousaram mãos solidárias em seus ombros.
— Ana — falei devagar —, eu não quis...
— Eu não serei uma flor que murcha no caule, despercebida e seca. Sim. Eu fui destruída por uma tempestade. Fui esmagada pela bota de um homem. O que é frágil e vulnerável em mim foi exposto e então jogado de lado como se fosse lixo. Mas ainda estou viva. Essa garota despedaçada tornou a brotar. Eu voltei meu rosto para o sol e me nutri dele. Você não vê? Eu, também, anseio por contato humano. Quero ser tocada e amada por alguém que me trate com gentileza e carinho. Não vou aceitar nada menos que isso, Sohan. Não quando já vi o que é possível.
Fitei seus olhos intensos e suplicantes e, a seguir, os quatro seres de pé atrás dela. Minhas mãos comichavam para fazê-los em pedaços. Então tornei a olhar para ela e meu coração doeu.
Ana havia se tornado importante para mim, mas, se estar com eles a deixaria feliz, quem era eu para me colocar em seu caminho? Um deles apertou seu braço ligeiramente e ela nem mesmo se encolheu, como fazia quando eu a tocava. Minha boca tornou-se uma linha fina e eu disse:
— Muito bem, Anamika. Se eles são o que você quer, vou deixá-la com eles. Venha me encontrar quando estiver pronta para prosseguir.
Virando de costas, saí pelos fundos da casa e, encontrando um lance de escada familiar, subi, mudando para minha forma de tigre no caminho. Rugi minha frustração enquanto subia pela árvore, só parando quando encontrei um canto escavado. Foi uma sorte tê-lo visto, pois eu mal conseguia enxergar sem a luz que naturalmente cercava o corpo de Ana. Arrastando-me para ali, pousei a cabeça nas patas e fechei os olhos, tentando ignorar os sentimentos conflitantes que me atravessavam.
Devo ter dormido profundamente, porque Ana chegou até mim sem que eu percebesse.
— Já conteve suas emoções voláteis? Está pronto para acordar, Sohan?
Levantando-me abruptamente, bati a cabeça no teto de minha pequena alcova. Sacudindo a cabeça, saí dali com um salto e mudei para a forma humana.
Ana não tinha a menor ideia de quais emoções voláteis eu estava experimentando naquele momento. Eu não sabia por quanto tempo dormira. Quanto tempo Ana tinha ficado com as sereias e os homens-sereias. Só de pensar naqueles homens pondo as mãos nela, beijando-a, abraçando-a, era como ter um torno comprimindo meu peito. Como ela pôde me beijar, como fez antes, e então voltar-se para eles sem nem mesmo uma explicação? Não fazia sentido.
— Você não vai falar comigo? — perguntou ela enquanto prosseguíamos no caminho.
— Não vejo razão para isso.
— Ah, você está aborrecido.
— Não. Você pode fazer o que quiser com quem você quiser. Não estou preocupado com isso.
— Ah, é? Então, se não é preocupação o que vejo em seu rosto, o que está perturbando o seu humor?
Dei de ombros.
— Eu só quero acabar com isso.
— Eu também quero acabar com isso.
— Então, por favor, vamos logo.
Ela suspirou e sacudiu a cabeça, e eu a segui pelo labirinto no interior da árvore até uma caverna ampla, que parecia vagamente familiar. Quando falei, minha voz ecoou no espaço que, iluminado pelo brilho da deusa, parecia uma bacia íngreme, com diversos níveis, juncada de picos altos e petrificados. Cada pico era conectado ao próximo por pontes feitas de raízes entrelaçadas.
— Esta é a caverna dos morcegos? — perguntei.
— Acredito que seja um bom lugar para ela.
— Não parece certo. Kelsey e eu tivemos de nos arrastar de gatinhas para entrar aqui e as pontes não existiam. Tive de saltar de pico em pico para resgatá-la. Foi uma espécie de teste a que os morcegos me submeteram.
— Rá — Ana soltou uma risada. — Parece bem o que você merece.
— Eu mereço? Não fui eu que...
A madeira à nossa volta se deslocou e uma das pontes se retorceu e caiu.
— Eu tomaria cuidado, se fosse você — disse Ana, estalando a língua. — Você corre o risco de derrubar a área inteira.
Ela seguiu até uma ponte e começou a subir. De má vontade, calei a boca, temendo que qualquer coisa que dissesse provocasse nossa queda. Não morríamos com facilidade, mas eu não queria correr nenhum risco desnecessário. Ana fez uma pausa, a mão em uma trepadeira que brotava sob seus dedos.
— O que foi? — perguntei.
— Uma lembrança — respondeu, olhando para trás com um sorriso triste. — Esta ponte de raiz, como todas as outras aqui, foi criada antes. Esta aqui cresceu quando você enroscou os dedos no meu cabelo.
Ana avançou e eu fiquei ali parado, imóvel, pensando no que ela havia acabado de dizer. Prossegui, ainda processando aquela informação, até que ela apontou outra coisa.
— Está vendo como a árvore se curva bem ali? — perguntou. — Isso foi quando...
— Tá, eu já entendi — falei, interrompendo-a. A maneira como a árvore se curvava em torno de si mesma no topo mostrava a imagem muito clara de dois amantes abraçados. — Por que você não me avisa quando encontrar a seção criada quando você abraçou seus homens-sereias, para eu passar bem longe?
Ana fez uma pausa. Ouvi sua voz chegar a mim de maneira suave.
— Não existe tal lugar — afirmou ela.
Baixei a cabeça e me recusei a olhar para o ambiente, dizendo a mim mesmo que não importava se ela quis dizer que nada acontecera entre ela e os homens-sereias ou que o fenômeno só ocorria entre nós dois. Quando chegamos ao topo, ela abriu uma porta na árvore que levava diretamente a um dos galhos maiores. Então ergueu os braços e riu quando centenas de pequenos morcegos entraram guinchando na caverna. O barulho deles misturou-se com sua voz até parecer que todos os morcegos estavam rindo com ela.
Seus olhinhos redondos e implacáveis reluziam na meia-luz. Com o poder do amuleto, ela exerceu neles sua magia, do mesmo modo que fizera com a cobra. Eles cresceram diante de meus olhos e foram contemplados com o poder da fala. Depois de deixá-los com as instruções fornecidas por Ana, partimos.
— Por que a caverna parecia tão diferente? — perguntei.
— Talvez você vá me irritar outra vez nesta jornada e, se isso acontecer, a beleza da árvore se deteriorará ainda mais.
— Muito engraçado. Estou falando sério, Ana.
Ela se virou e deu de ombros.
— Talvez seja porque você e Kelsey só visitarão este lugar daqui a mais de um século.
— Voltamos tanto assim na linha do tempo?
— As coisas morrem, Sohan. O tempo transforma tudo em pó. Até mesmo os tigres — retorquiu ela, espetando o dedo em meu peito.
Não gostei do tom irreverente que usou. A ideia de que eu podia morrer não me incomodava tanto, mas ela? Eu nunca tinha pensado na deusa Durga como um ser mortal. Fiz uma anotação mental para perguntar isso a Kadam. Não que ele fosse me dizer alguma coisa.
Ana escorregou em um ramo e eu agarrei sua mão. Infelizmente, o orvalho no ramo me fez escorregar também e, quando tombamos para o lado, eu a puxei para mim e a abracei, virando-me para protegê-la e evitar que batesse nos galhos. O vento passava por nós, levantando nossos cabelos enquanto caíamos. Mas logo não estávamos mais despencando. Os braços de Ana envolviam meu pescoço e flutuávamos cada vez mais alto.
Ela se aconchegou a mim, descansando a cabeça em meu ombro, e, quase sem pensar, acariciei seus longos cabelos. Não falamos nada, nem em voz alta nem em nossas mentes. Estávamos fechados para o outro desde aquela manhã e eu não tinha a menor ideia de como poderia romper o silêncio. Chegamos ao topo rápido demais para que eu tivesse decidido o que deveria fazer em seguida. Ela só levou alguns minutos para criar as aves estinfalianas e colocar o Lenço Divino sob um de seus ovos gigantescos. Em seguida, Ana sussurrou as palavras que dariam a Ren e a mim a capacidade de ser homens por doze horas diárias no momento em que o lenço fosse recuperado por Kelsey e meu eu anterior.
As aves estinfalianas eram águias planadoras antes de Ana modificá-las e, como com suas outras criações, a deusa pediu permissão antes de dotá-las de bicos blindados e penas de metal afiadas como lâminas. Estremeci, lembrando-me de como eu chegara perto de morrer da última vez que as encontrara. Agora pareciam inofensivas, mas eu sabia quão perigosas se tornariam.
Vendo que era hora de ir, abaixei-me e tomei-a nos braços. Beijei sua testa como uma espécie de pedido de desculpas. Ana me dirigiu um sorriso beatífico e impulsionou as pernas ao mesmo tempo que usava o ar para nos baixar suavemente. Seu sorriso me aqueceu mesmo nas sombras da grande árvore.
Enquanto planávamos entre os galhos altos, perguntei:
— Por que, no futuro, eles não se lembram de mim... as sereias, as aves e os morcegos? Você apagou as lembranças deles?
— Bem, como eu disse, as aves e os morcegos são a primeira geração. É muito pouco provável que eles passem histórias sobre você para seus descendentes. Seu entendimento das coisas é muito limitado.
— Certo, e quanto às sereias? Aquelas são as mesmas, hã, pessoas do tempo que as encontrei.
— Sim, bem, no caso delas, apaguei suas lembranças.
— Ah. Aposto que elas lamentaram isso — comentei com petulância. — Estou surpreso que não tenha apagado as minhas também.
Ela me dirigiu um olhar curioso e disse:
— Eu falei que jamais tiraria suas lembranças. — Depois de piscar várias vezes, perguntou suavemente: — Você quer esquecer o que aconteceu entre nós?
— Não — respondi de imediato. — Você quer?
— Eu não.
O alívio que senti me surpreendeu. O choque de encontrar Ana em meus braços no Bosque dos Sonhos havia passado. A mulher que eu via sempre em sonhos, a que havia atormentado minha mente durante anos, fora substituída por uma garota de verdade. Eu sempre presumira que Kells era aquela que eu perseguira pela floresta, beijara e a quem declarara meu amor. Mas, agora, eu suspeitava que sempre fora Ana. Fazia sentido. Ana era a única que tinha o poder tanto de me cegar quanto de ocultar nosso cheiro. Seus cabelos eram muito mais compridos que os de Kelsey e ela era muito mais alta.
— Isso nos deixa com uma última tarefa — disse Ana, felizmente interrompendo meus pensamentos antes que eles fossem muito além.
— O que é? — perguntei.
— Os corvos.
— Certo. Você vai convocá-los?
— Não exatamente.
Paramos em um galho bem alto da árvore. O ar à nossa volta ficou desfocado à medida que Ana avançava o tempo. Meu estômago deu uma guinada e eu grunhi, enquanto meus músculos tremiam. Duas pessoas surgiram — eu e Kells. Ana sussurrou:
— Olhe, o que quer que aconteça, não entre em contato físico com você.
Ela estalou os dedos e a magia do lenço nos envolveu, muito embora tivéssemos acabado de deixar o Lenço Divino no topo da árvore. Ele nos transformou em corvos. Bati as asas, irritado, grasnando para Ana, que piscou seu olho de ave para mim e saltou do galho. Voar, para ela, era tão natural como tudo o mais que fazia. Suas penas eram da cor de seus cabelos e brilhavam na luz enquanto seguíamos as pessoas lá embaixo.
Quase caí ao tentar voar, desajeitado, e tive de bater as asas com muita força para evitar entrar em contato comigo.
— Crá! — gritei, quando queria dizer: “Cuidado!”
Felizmente, aterrissei na posição vertical e, imediatamente, levantei voo, tentando aumentar a distância entre mim e meu antigo eu.
O tempo avançou em saltos e usei minha conexão com Ana para encontrá-la na casinha da árvore. Ela estava sentada lá em um ninho, bicando pães de mel. A pulseira e a câmera de Kelsey estavam ao lado dela.
O que você andou fazendo?, perguntei.
Roubando coisas. Sinto uma certa satisfação, por algum motivo. Não se preocupe, vou devolvê-las. Eles não precisam disso neste momento. O que esta caixa faz, por falar nisso?
É uma câmera fotográfica. Você pode registrar imagens com ela. Você se lembra de quando expliquei sobre elas no circo?
Como funciona?, perguntou, continuando a bicar os pães de mel.
Aqui, vou mostrar a você. Consegui tirar umas duas fotos com minha minúscula língua de pássaro, o que foi mais difícil do que imaginei, e mostrei a ela as imagens.
Nesse exato momento, ouvi um barulho. Olhamos lá para baixo, pela borda do ninho. Era surreal observar a mim e Kelsey entrando com dificuldade na casa da árvore. Se eu pudesse, teria revirado os olhos diante do papel de idiota que estava fazendo ao entrar na casa me balançando como um macaco. Era um espetáculo bem patético. Finalmente, Kelsey chamou minha atenção.
“Pare de se exibir, pelo amor de Deus. Você não percebe a altura em que estamos e que você poderia despencar para uma morte horrível a qualquer momento? Está agindo como se esta fosse uma aventura superdivertida”, censurou-me Kelsey.
Tentei me desligar do restante. Eu estava claramente dando em cima dela e era constrangedor saber que Ana estava ali do meu lado, vendo tudo. Infelizmente, também servia para me abrir os olhos para o fato de que Kells não estava respondendo do jeito que eu pensara que estivesse.
Claro, ela gostava de mim, mas, ao observá-la de uma nova perspectiva, eu podia ver como meu entusiasmo a deixava incomodada.
A atenção de Ana estava concentrada no espetáculo abaixo. Se eu pudesse gemer, teria feito isso.
Como foi que você fez isso?, perguntei, tentando distraí-la da cena que se desenrolava lá embaixo.
Fiz o quê?, replicou ela, os olhos fixos no outro eu.
Como você nos transformou em Hugin e Munin. Atribuí minha versão laranja do tigre a uma simples reformulação da cor, mas os pássaros? Não achei que fosse possível.
Esqueceu que transformamos o jovem fornecedor de seda em um cavalo? Talvez você devesse redefinir seus parâmetros para o que é possível e o que não é. Agora, silêncio, Sohan. Quero ouvir.
Inflei as penas, irritado que minha tentativa não muito sutil de distraí-la tivesse falhado.
“... gosto de ser homem o tempo todo”, disse o outro eu. “E gosto de estar com você.”
Ai, caramba, pensei. Era esquisito saber que Ana estava assistindo a meu antigo eu se jogar para cima de Kells, sobretudo com tudo que havia acontecido recentemente entre nós. Por fim eles se sentaram e Kelsey pegou suas indefectíveis anotações. Era digna de admiração a eficiência de Kelsey. Isso era uma das coisas de que eu sentia falta ao não tê-la por perto. Ficamos em silêncio, observando-os e ouvindo os dois conversarem. Até que, impaciente, fiz um barulho.
“Olá? Tem alguém aqui?”, ouvi Kelsey perguntar.
O que fazemos?, perguntou Ana com sua voz de pássaro grasnando.
Hã, vamos ver. Balancei a cabeça para baixo e para cima. Eu não me lembro. Era alguma coisa sobre clarear pensamentos.
Ana arrepiou as penas e grasnou para mim: Deixe para láVamos descobrir.
Ela levantou voo e eu a segui, ainda desajeitado, enquanto ela executava algumas piruetas verdadeiramente impressionantes. Meu antigo eu sacou o chakramPor favor, pensei. Não se estresse. Só eu seria desconfiado o bastante para tentar degolar um corvo com o chakram.
Sempre sábia, Kelsey falou:
“Vamos esperar e ver o que eles fazem. O que vocês querem de nós?”
Ana pousou e repetiu:
“Querendinós?”
“Você entende o que falo?”, indagou Kelsey.
Ana assentiu com sua cabeça de corvo.
“O que estamos fazendo aqui? Quem são vocês?”, continuou Kelsey.
Pegando a deixa de Ana, tentei incorporar um pássaro e disse:
“Hughhn.”
Ana grasnou e completou:
“Muunann.”
Kells perguntou sobre seus objetos roubados e os pães de mel, dos quais Ana já comera a maior parte. Ela provavelmente estava com fome. Eu não tinha pensado em tentar encontrar comida para ela. Isso mostrava como eu estava cuidando bem da deusa. Parando agora para pensar, eu mesmo estava faminto.
Querendo acabar logo com o espetáculo, saltei para o joelho de Kelsey. Quando ela inclinou a cabeça, lembrei o que Hugin tinha feito. Ele havia clareado seus pensamentos, mostrando-lhe o que ela enfrentaria no topo da árvore. Essa foi bem fácil. Usando o poder de minha conexão com Ana, coloquei um pensamento em sua mente. Na verdade, era mais uma lembrança. Mostrei-lhe uma das aves que guardavam o lenço no alto da árvore. Em seguida, imprimi em sua mente o que o lenço podia fazer e como ela poderia e iria usá-lo para ajudá-los em sua busca.
E ainda lhe dei uma lembrança extra: uma visão de como tínhamos salvado Ren.
“O que você está fazendo?”, perguntou ela quando minhas pequenas garras seguraram seu ombro.
“Pensamentosemperrados”, repliquei.
Quando acabei, tinha uma espécie de fio pequeno e fino estava preso no meu bico. Eu não o invocara, então acho que deve ter sido Ana. Estalei o bico e o fio se dissipou lentamente, como eu lembrava que acontecera antes. Quando Kelsey arquejou, acusando-me de ter lhe causado uma lesão cerebral, tive vontade de rir.
Ana, como Munin, fez algo semelhante em mim... bem, na antiga versão de mim. Kells me perguntou se Ana estava clareando os pensamentos dele também. Eu só mudei de um pé de pássaro para outro e esperei que Ana me perguntasse o que devia fazer. Ela não perguntou. Kelsey continuou insistindo comigo e eu, por fim, disse:
“Espereparaver.”
Finalmente, Ana pulou para o chão tendo no bico um fio preto e fino do tamanho de uma minhoca. Ela o engoliu.
Hã, o que foi isso, Ana?, perguntei.
Ela não respondeu e então ouvi meu antigo eu falar. Eu me lembrava, mas a sensação era de que tudo aquilo tinha acontecido décadas antes.
“Estou bem. Ele... ele me mostrou.”
Ana eriçou as penas ao ser chamada de ele.
Meu antigo eu então discorreu sobre Yesubai e as coisas que eu lembrava do meu passado.
O que você fez, Ana?
Tirei sua culpa, disse ela suavemente. Yesubai não o culparia. Seu amor e sua preocupação com ela faziam com que você se lembrasse do que aconteceu de forma diferente.
Você alterou as lembranças?
Não. Eu só dividi a sua culpa, do mesmo jeito que dividi sua dor antes. Dessa forma, ela diminuiu.
Você não precisava fazer isso, Ana.
Eu tinha de fazer, respondeu ela brandamente. Uma deusa e seu tigre devem... devem dividir tudo.
Tudo?, perguntei baixinho, e pulei para mais perto dela.
SimAo fazer isso, pude... abrir sua mente para novas possibilidades. Ela fez uma pausa, depois disse: Foi interessante ver a coisa do seu ponto de vista. Pobre garota.
Sim, pensei. Pobre garota.
Você a amava.
Não o suficiente.
O suficiente para se punir durante séculos. Isso é prova de um amor que resiste a tudo.
Será?, perguntei. Eu questionava se isso era verdade. Meu amor por Yesubai era grandioso? Eu não pensava assim. Eu não a conhecia. Não de verdade. Só estava apaixonado por ela. Pronto para me casar com ela. Mas, depois de amar e perder Kelsey, tive outra perspectiva. O que poderia ter sido nunca é igual ao que foi ou ao que é. O tempo muda todas as coisas.
Como se lesse meus pensamentos, Ana acrescentou: Yesubai foi um redemoinho apanhado na tempestade sombria de um vilão. Você só sentiu a possibilidade de uma vida com ela. A ventania frenética que foi a vida dela roçou seu rosto e o modificou. Você é um homem melhor por tê-la conhecido, Sohan. Não lamente a influência dela em sua vida.
Kelsey estendeu a mão além de nós e pegou o ninho. Meu antigo eu quase me tocou. Gritei, alarmado, e voei para longe, desesperado.
Ela pegou seus pertences no ninho e nós os observamos nos deixarem presentes, achando que estávamos aborrecidos. Olhei para os objetos que meu antigo eu deixara e, pensando em como poderíamos tê-los usado no percurso, disse: Por que fui tão idiota?
Eu me faço essa pergunta constantemente, replicou Ana, e riu enquanto ambos deixávamos o ninho e voávamos na direção da aldeia dos silvanos.

10 comentários:

  1. "Ana havia se tornado importante para mim, mas, se estar com eles a deixaria feliz, quem era eu para me colocar em seu caminho? "
    Como esse cara consegue ser tão burro?

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  2. Ele não é burro.
    É altruísta demais!
    Se culpa por tudo, chega até a ser ingênuo.
    Mais nesse livro, eu vejo ele com outros olhos. Ganhou o meu respeito.
    Nós outros livros eu enxergava Ren mais honrado, lendo esse últimi livro eu vejo que os dois são muito honrados.

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  3. Respostas
    1. Ahh qual é kishan? era pra vc ter pegado ela de jeito em alguma arvore e me provado que só n ter um corpo bonito como fogo là dentro, porra to frustrada aqui!!

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    2. EXPECTATIVA:
      _eu já me decidi-afirmei indo ao seu encontro.
      _já? E e o que quer fazer comigo?-disse dando um sorriso sedutor.
      _Ah, cara Ana, quero faze-la gritar meu nome, quero leva-la ao extase tão fortemente que daqui a uma semana ficara excitada só de lembrar a maneira que foi fodida por mim!-disse dando alguns passos em sua direção até encosta-la em uma arvore e prender o seu corpo junto ao meu.
      Ela arfou visivelmente parecendo se excitar com a possibilidade de fode-la com força até que nenhum dos dois pudesse andar.
      -ohh...bem, não quero frustrar suas espectativas-disse enrolando as pernas contra os meus quadris, gemendo como uma cadela no cio quando encostou seu clitoris no cume duro do meu pau.
      Aí meu amigo as coisas ficaram quentes...
      REALIDADE:
      _Hump, quando se decidir me avise!
      _Vamos, temos trabalho a fazer!!

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    3. Kkkkkk
      Meu Deus vc é muito engraçada, mas concordo com seu jeito de pensar!

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    4. Morri de rir com esse comentário...kkkkkkkkkkkkkkkkk
      Pareceu até 50 tons de cinza

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    5. Kkkk tb era minha expectativa

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  4. Ela tá muito afim do kisham!!!Só que ele é muito cego e burro,Só pode

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Boa leitura, E SEM SPOILER!