12 de setembro de 2018

28 - O bosque


Depois de dar meia-volta, ela foi até as colunas que restavam no templo e demorou-se examinando cada um dos entalhes. Quando acabou, estalou os dedos e, enfim, me devolveu o controle sobre meu corpo. Eu estava espumando quando me livrei da pedra e reassumi a forma humana. Tinha tentado me libertar, mas, de alguma forma, ela havia me bloqueado. Furioso, limpei as mãos na camisa preta, tentando inutilmente descartar a poeira.
— O que foi isso? — gritei, fuzilando-a com os olhos.
Ignorando minha pergunta, ela agitou a mão e fui envolto na mesma hora em um ciclone que sugou todo o pó, como um dos aspiradores de Nilima, só que movido a deusa.
— Pare com isso! — gritei de dentro do túnel de vento.
Se ela me ouviu, não se deu o trabalho de responder. Quando fui libertado de sua “ajuda”, segui rapidamente até ela e a segurei pelo braço, fazendo-a girar e olhar para mim. Eu sabia que ela odiava que a segurassem com violência e, agora que conhecia a razão e vi sua reação assustada, me arrependi de pôr as mãos nela. Foi mais fácil afastar a mão dela do que me livrar da irritação.
— Você poderia, por gentileza, me dizer por que me deixou preso ali?
— Eu estava punindo você — disse ela simplesmente, as mãos nos quadris.
— E o que foi, me diga, por favor, que eu fiz para aborrecer você agora? Certamente você não estava com raiva de mim alguns minutos atrás, enquanto fazia carinho em minhas orelhas. Então presumo que esse seja um novo acontecimento.
Suas faces ganharam um discreto tom rosado.
— Não quero falar sobre isso — retrucou ela, dirigindo-se com passos duros para a entrada do templo.
Fui atrás dela e insisti:
— Acho que precisamos falar, sim. Na verdade, acho que precisamos estabelecer algumas regras básicas.
— Por que os homens sempre acham que podem conduzir a mulher na direção que querem simplesmente criando regras? — perguntou ela.
— Talvez os homens gostem de regras para que eles saibam exatamente o que esperar. As regras criam uma vida ordenada.
— Rá! Or-de-na-da? — gritou ela de volta, empurrando meu ombro. — Está mais para ordem. O seu tipo de ordem. — Ela enfatizou cada palavra com uma estocada do dedo em meu peito. — O tipo em que você pode me dizer o que fazer.
— Caso você não tenha percebido, era eu que estava sendo controlado por você, não o contrário. — Dei um passo à frente, prendendo-a entre meu corpo e a parede do templo de modo que ela não pudesse mais meter o dedo em meu peito. Sua mão ficou espalmada contra ele, mas Ana não me empurrou, e eu teria permitido se ela tentasse. — Não estou tentando dizer a você o que fazer — falei, rilhando os dentes. — Só estou tentando entender o que fiz para você me aprisionar dentro de uma estátua por quase uma hora.
Ana revirou os olhos.
— Não foi uma hora. Foram apenas alguns minutos.
— Pareceu uma hora!
Meu temperamento estava esquentando de novo, como quando tínhamos ficado presos juntos no passado da primeira vez. Eu tinha pensado que toda a emoção volátil entre nós havia ficado para trás. Mas essa mulher era tão exasperante.
— Estava tudo bem com você! — vociferou Ana.
— Eu estava preso!
— Se tem alguém preso aqui, sou eu! — gritou, agarrando minha camisa com as duas mãos e me empurrando até eu quase cair.
Ela era forte. Talvez mais forte do que eu e Ren juntos. Antes que me desse conta, ela inverteu nossas posições e empurrou minhas costas contra a parede. Suas mãos agarravam a camisa com tanta força que ouvi o tecido se rasgar um pouquinho. Os olhos de Ana cintilavam de raiva e medo e... e algo mais, algo que eu não conseguia identificar.
Levantando as mãos, as palmas voltadas para cima, acalmei minha voz e disse:
— Você não está presa, Ana. Está vendo? Eu não estou segurando você. É você quem está me segurando.
— Mas eu estou presa — insistiu ela com um tom de súplica que eu nunca ouvira antes. — Eu sou uma prisioneira. As correntes do meu passado... elas pesam sobre mim, me amarrando à lembrança de algo abominável. Então, quando olho para o futuro, as correntes do dever se estendem à minha frente. Entre os dois tipos de corrente, eu me sinto como se estivesse sendo rasgada ao meio, com o que tem de bom em mim se derramando no espaço entre as correntes. Eu não sei qual dos lados vai vencer. Mas, em todos os casos, eu perco.
Lembrei-me da jovem violada, a que havia me implorado que a ensinasse a se defender.
Imediatamente, minha raiva passou e estendi a mão para tirar o cabelo de seu rosto.
— Eu compreendo, Ana. Esta vida a que nos dedicamos não é fácil.
— Não quero que eles vençam, Sohan... nem o cosmo que me molda para seus propósitos nem o senhor de escravos que me usou. Quero encontrar um grau de felicidade em meio a tudo isso... um meio-termo satisfatório. É demais esperar isso? É?
— Não, Ana. Não é. Então me diga o que a deixa feliz. O que você quer?
— Eu quero... eu quero...
Ela umedeceu os lábios, uma expressão transtornada no rosto. Assenti, encorajando-a a prosseguir, mas Ana permaneceu muda. Então a determinação iluminou seu rosto e ela enroscou os dedos no tecido de minha camisa e puxou. Antes que eu percebesse o que estava acontecendo, sua boca esmagou a minha. Quando tentei recuar e me soltar de seu abraço desesperado, ela gritou e deslizou a mão por trás de minha cabeça, me forçando a ficar.
O que você está fazendo?, perguntei, de mente para mente, mas Ana havia efetivamente erguido um muro entre nós. Eu não podia lê-la mais do que podia ver através de uma pedra. Parei de lutar enquanto ela voltava a me beijar. Era um beijo febril e simples ao mesmo tempo. Como o beijo de uma criança, pressionando lábios contra lábios. Eu não correspondi. Mesmo que quisesse, estava chocado demais para compreender o que ela queria ou precisava de mim. Após um longo momento, ela recuou, o rosto lavado em lágrimas e dor.
Então tirou as mãos de meu peito, afastando-se tão abruptamente quanto se tivesse pisado em um arbusto espinhento, e levou os dedos à boca. Uma dezena de emoções se agitavam em sua expressão, mas ela rejeitou bruscamente quaisquer tentativas da minha parte de uma comunicação silenciosa.
— Ana... — comecei em voz alta, dando um passo em sua direção.
— Não — disse ela, sacudindo a cabeça de um lado para outro e virando os dedos para enxugar as lágrimas. — Não, Kishan. Não vamos falar disso.
Dando meia-volta, ela deixou o templo. Soltando um longo suspiro, eu a segui, correndo as mãos pela frente da camisa para alisar os vincos profundos, e então explorei o rasgo na lateral com o dedo. Sem nem mesmo olhar para mim, ela agitou a mão e fomos os dois lançados no tempo e no espaço.
Quando dei por mim, estávamos enterrados até os joelhos na neve. Estremeci e girei o corpo, olhando ao redor. Estávamos em um lugar de grande altitude. Mais alto que a montanha onde ficava nossa casa. Os fios do lenço circularam à minha volta e à volta de Ana simultaneamente, criando casacos grossos, luvas e botas pesadas. Uma vasta planície se estendia até onde eu podia ver de um dos lados, e do outro, picos altos de montanhas desapareciam em meio às nuvens.
— Deixe-me adivinhar — falei. — Vamos criar Shangri-lá?
Ana assentiu.
— Afaste-se, Kishan.
Quando ela ergueu as mãos, eu disse:
— Então voltei a ser apenas Kishan? Por quê, Ana? É porque eu não correspondi ao seu beijo?
— Não importa.
— Importa, sim.
— Não tanto quanto executar nosso trabalho.
— Certo, se é o que você diz, mas vamos ter de conversar sobre isso em algum momento.
— Esse momento não é hoje. Além disso, você não quer sair da neve?
Inclinando a cabeça, respondi:
— Seu desejo é uma ordem, Deusa.
Anamika me olhou de cara amarrada e então voltou a atenção para a montanha. Diante de meus olhos surgiram duas grandes árvores, brotando da densa camada de neve e gelo. De pé entre elas, Ana teceu um encantamento e as árvores cintilaram com uma luz interior que ameaçava explodir através da casca. De fato, a casca soltou-se e as folhas e os galhos murcharam e foram reabsorvidos. Entalhes intricados apareceram nos troncos.
Quando ela pousou a palma da mão em uma das árvores, juntei-me a ela e deixamos ali a impressão da mão, que lentamente desbotou. O lenço se ergueu no ar e criou um tecido transparente e mágico entre os dois troncos. Os flocos de neve que espiralavam suavemente no ar foram atraídos para o vento que Ana criou. Então o tecido transparente e o vento repleto de flocos de neve começaram a girar freneticamente, até que um ciclone surgiu entre as duas árvores. Uma explosão de luz me obrigou a cobrir os olhos e, quando a claridade diminuiu, vi uma tela tremeluzente que se estendia de um tronco a outro.
Sem olhar para ver se eu a havia seguido, Ana atravessou a tela e desapareceu. O lenço separou-se da substância brilhante e flutuou acima de mim. Pegando-o, guardei-o no bolso e fui atrás dela.
Ana já se lançara ao trabalho nos poucos segundos que levei para entrar. As vastas terras de Shangri-lá estendiam-se diante de nós e, sem que ela nem mesmo me consultasse, uma floresta inteira irrompeu do chão. Agachando-se, ela pressionou as mãos contra a grama recém-brotada e um rio fluiu de suas palmas. Criando o próprio leito, ele correu sobre pedras e se acumulou em pequenas depressões enquanto continuava seu caminho sinuoso.
Os trajes pesados desfizeram-se em nosso corpo e foram reabsorvidos pelo lenço. Ana, agora descalça, começou a caminhar e, onde seus pés tocavam o solo, flores de todos os tipos brotaram. Ela tocou o galho de uma árvore e grandes bandos de pássaros surgiram das folhas, levantando voo em todas as direções. Quando passamos por uma colina familiar, eu disse que ali deveria haver um velho barco e que animais de todas as espécies viviam nos arredores.
Com um aceno de cabeça quase imperceptível, ela criou o barco e animais de todos os tipos saíram pela porta aberta, desceram a rampa e foram em busca de novos lares. Vários nos seguiram enquanto andávamos. Ana se deteve diante de um campo vasto e estéril. Batendo um dedo no lábio, murmurou alguma coisa sobre rosas. Diante de meus olhos, centenas de roseiras estenderam braços espinhentos e floriram quando ela as tocou.
Encostando o nariz em uma rosa púrpura totalmente desabrochada, ela inspirou fundo e sorriu.
Meu coração apertou-se de tristeza ao vê-la em seu elemento. Suas rosas a deixavam feliz. Peguei-me desejando que ela voltasse o poder daquele sorriso em minha direção. Que eu pudesse fazê-la feliz em vez de instigá-la a me esganar. Ela merecia ser feliz. Ana trabalhava tanto e ajudava tantos; o mínimo que eu poderia fazer era não discutir com ela.
Ana segurou a flor entre as mãos e soprou-a suavemente. As pétalas cintilantes desprenderam-se e dispersaram-se ao vento, e, quando ergueu as mãos em concha, ela me mostrou o que estava ali. Em sua palma havia uma linda fadinha com asas púrpura.
— Olá — disse Ana.
A criatura bateu as asas, tomando fôlego, e seu corpo elevou-se da mão de Ana até ela ficar olhos nos olhos com sua deusa.
— Sim, pode. É claro — disse Ana, em uma conversa da qual eu só ouvia o que a deusa dizia. — Você tem liberdade para fazer o que quiser — acrescentou. — Agora vá. E acorde as outras.
Com isso, a fada adejou acima das roseiras, tocando cada botão com os pés. Um a um, os botões se abriram e, de cada um, uma nova fada nasceu, espreguiçando braços e pernas delicados e bocejando. Então ouvi um suave cicio quando voaram pela primeira vez. Logo à primeira juntou-se outra fada, e mais outra, até que tantas esvoaçavam no ar que a luz do sol cintilava em suas ofuscantes asas diáfanas.
— São lindas — afirmei enquanto prosseguíamos para a aldeia dos silvanos.
— Você deve saber — murmurou Ana.
— Como? — perguntei, confuso.
— Nada.
Soltei um suspiro de frustração, minha determinação em fazê-la feliz se dissipando. Concluí que Ana só estava de muito mau humor e que, com a sorte que eu tinha, só teria de esperar um século ou dois para que aquilo passasse. Suspirei e a segui, dando-lhe uma boa dianteira.
Quando chegamos à área em que a vila deveria ficar, ela parou e fechou os olhos. Era quase como se pressentisse o que haveria ali. Ana cantarolou suavemente e isso fez a terra tremer e um vento forte soprar. O solo se abriu e árvores imensas brotaram e desfraldaram suas folhas. Quando estavam aproximadamente na metade do tamanho de que eu me lembrava, Ana foi até a primeira delas e cantou baixinho.
Um galho abaixou-se e, enfiado entre os ramos folhosos, mostrou um bebê silvano. Ana o pegou do galho e fez cócegas em seus dedinhos dos pés enquanto ele emitia seus sons de bebê.
Meu coração falhou uma batida. Ela era tão espontânea com ele, tão inesperadamente doce. Lembrei-me de seu ponto fraco por todas as crianças perdidas e me arrependi de zombar dela por isso antes. Com delicadeza, ela colocou o bebê em um tapete de grama que cresceu, espesso e viçoso, formando o que era quase um berço para a criança.
Ela seguiu percorrendo a linha de árvores, retirando um recém-nascido de cada uma delas. Levando a palma da mão aos lábios, ela a beijou e soprou, e imediatamente ficou cercada por fadas que ouviram com atenção suas instruções e então partiram em um enxame até que cada berço de grama estivesse rodeado por suas formas esvoaçantes.
Ela contou aos bebês e a suas fadas-babás uma história, como uma mãe contaria ao filho na hora de dormir. Falou de um homem chamado Noé, que veio para suas terras com um barco cheio de animais. De uma deusa e seu companheiro, que criaram seu lindo lar. Então Ana falou de um homem e uma mulher que um dia viriam a suas terras e como eles deveriam ajudá-los e guiá-los. Quando concluiu, seguiu em frente, deixando os bebês para trás.
— Acha mesmo que as fadas pequeninas podem cuidar dos bebês? — perguntei.
— Elas produzem um elixir do crescimento a partir das flores azuis que brotam na margem do rio. Os silvanos já serão adultos quando retornarmos.
— Ah... — Após um minuto, perguntei: — Quem contou a história da arca e dos animais para você?
— Quem você acha que foi?
É claro que tinha sido Kadam. Ela se deteve quando encontrou um pássaro vermelho gritando. Ele dançava ao lado de um ninho recém-criado, cheio de filhotinhos de bico aberto, piando. Estendendo um dedo, Ana chamou o pássaro e ele voou até o poleiro que ela lhe oferecia. Após um momento de pios indiscerníveis, Ana respondeu:
— Vou ver o que posso fazer.
Ela então levou a mão ao interior do ninho, tirando cuidadosamente do caminho os filhotes desengonçados, e recolheu um ovo não eclodido. Ana o guardou no bolso e seguimos adiante.
— O que aconteceu ali? — perguntei.
— Você não reconhece?
— O quê? O ovo?
— Os pássaros. Este aqui é o passarinho que vou criar.
Agora que ela tinha dito, pude ver a semelhança entre a mãe e o pássaro vermelho que Kadam havia me dado. Sacudi a cabeça, admirado com sua capacidade de apreender as disparidades do tempo. Enquanto caminhávamos, ela aqueceu o ovo com as mãos e sussurrou para ele, que tremeluziu e desapareceu. Não me dei o trabalho de perguntar o que aconteceu com ele.
Quando chegamos à caverna onde tínhamos encontrado a pedra ônfalo, Ana criou as abelhas e a pedra com facilidade, assim como a fumaça química, que se formou quando suas mãos aquecidas pelo fogo pressionaram a pedra. No entanto, não havia como imbuí-la da capacidade de ver o futuro. Quebramos a cabeça por um tempo, Ana tentando coisas diferentes, mas nada funcionou. Eu estava debruçado sobre a pedra, examinando suas profundezas, quando Ana pegou meu cordão e o puxou. Seus olhos se estreitaram enquanto ela contemplava a pequena lasca da pedra da verdade que eu sempre trazia comigo.
— Quantos pedaços destes você tem? — perguntou.
— Alguns. Por quê?
— Posso ficar com este?
Assenti e ela estendeu as mãos por trás de meu pescoço para desamarrar o cordão. Seu corpo curvilíneo, que no momento estava envolto apenas em um fino vestido de verão, de repente se encontrou pressionado contra o meu e minhas mãos naturalmente foram para sua cintura a fim de estabilizá-la. O hálito quente de Ana fez cócegas em meu pescoço e seu perfume floral me envolveu. Minha respiração ficou presa, embora eu me forçasse a não reagir, e ela de repente se imobilizou.
Centímetro a centímetro, dolorosamente, ela se afastou, suas mãos soltando o cordão e deslizando até segurarem meus ombros. Ficamos os dois ali imóveis, a franja dos longos cílios escondendo seus olhos. Pigarreei, prestes a dizer alguma coisa para tentar desfazer a tensão que não deveria estar ali, e então ela olhou para mim. Os olhos verdes fixaram-se nos meus e eu não conseguia respirar, muito menos formar um pensamento coerente. Cada centímetro de minha pele formigava, consciente da presença dela.
— Eu... eu não consegui tirar — explicou ela, as palavras ditas de maneira suave.
Minha mente seguiu em uma direção totalmente diferente e ela inclinou a cabeça, como se ouvisse meus pensamentos. Eu os protegi dela na mesma hora e me afastei tão rápido que ela cambaleou.
— Sim, hã, eu mesmo cuido disso. — Erguendo a mão, arranquei o cordão do pescoço e o atirei para ela. — Depois me diga se funciona. Vou esperar você lá fora.
Quando saí da caverna, corri a mão pelos cabelos. O que há de errado comigo?, pensei. Ela não estava sugerindo nada. De modo nenhum. Certo, Ana havia se jogado em cima de mim, desajeitada, havia pouco, no templo, mas ela não tinha intenção alguma com isso, tinha? O mais provável é que estivesse apenas aborrecida.
Um pensamento então me ocorreu e fez meu sangue gelar. Ou ela acreditava que eu estava aborrecido e queria me apaziguar. Dei um tapa na testa. É claro. O sádico que a comprara, o homem que eu tinha matado, ele devia exigir afeição física para apaziguar sua raiva. Era provavelmente uma reação condicionada de Ana.
Meus punhos se fecharam. Ela acreditava mesmo que eu a usaria dessa forma? Que idiota eu era. Precisava refrear meu temperamento perto dela, do contrário ela se jogaria em cima de mim para satisfazer minhas necessidades masculinas. Enojado de mim mesmo, voltei-me para entrar novamente na caverna e me desculpar no momento em que ela saía.
— Pronto — disse ela, limpando as mãos uma na outra. — Tentei e funcionou. A pedra me mostrou uma coisa interessante. Eu...
— Você não precisa fazer isso — falei de supetão.
Seus lábios, curvados em um sorriso, voltaram-se para baixo quando ela franziu a testa.
— Fazer o quê? — perguntou.
— Você não... você não me deve nada, Ana. Favores, eu quero dizer.
— Favores?
Forcei as palavras a sair, mas elas estavam retorcidas e misturadas dentro de mim como as peças de um quebra-cabeça que eu não conseguia encaixar. Eu causaria mais danos se não fizesse isso com cuidado. Chutando a terra com minhas botas macias, tentei explicar:
— Ana, eu quero me desculpar.
— Por quê?
— Por... por segurar você daquele jeito. Por ficar com raiva.
Ela deu uma risada.
— Você está sempre com raiva. No mínimo, irritado. Não é nenhuma novidade.
— Não, eu sei. Mas não vou ficar mais. Não agora que sei como você reage.
Cruzando os braços diante do peito, ela disse:
— Você não gosta da forma como reajo?
— Não. Quero dizer, você não precisa agir assim. Eu não espero isso. Não é... não é a maneira como um homem deve tratar uma mulher.
Ana suspirou.
— Pode dizer logo o que quer e parar de gaguejar? Cansa a minha paciência ouvir você balbuciando sobre coisas que não fazem o menor sentido.
— Pronto. Está vendo? — falei, apontando um dedo para ela. — É disso que estou falando. Estou tentando ser compreensivo. Não acho que seja tão difícil conviver comigo, mas aí você vem e joga coisas na minha cara, e eu tenho de me esforçar para ser um cara legal.
— É, eu sei. Agora você vai me dizer como se dava tããão bem com a Kelsey.
— Eu me dava bem com a Kelsey, sim. Ela era fácil, comparada a você.
— Ótimo! Então, se ela o faz feliz, você devia voltar para o tempo dela e me deixar em paz. Eu não preciso da sua ajuda e certamente não quero você aqui se sentindo preso a meu lado.
Virando-se, ela pôs-se a andar entre as árvores e eu me apressei a segui-la.
— Ana, espere. Ana, por favor, pare. Me desculpe. Acredite ou não, eu estava tentando pedir desculpas.
Ela virou-se rapidamente e veio em minha direção. Parando a alguns centímetros de mim, seu corpo tenso de raiva e os olhos de esmeralda frios e duros, disse:
— Então diga logo o que quer, Kishan, e acabe logo com isso.
— Em primeiro lugar, você precisa saber que eu não me sinto aprisionado. Pelo menos, não mais. Eu quero ficar aqui, ajudando você. Em segundo, Kelsey é parte do meu passado. Uma parte importante, sim, mas aceitei que ela está com meu irmão. Ela está feliz com ele. Eu não vou interferir.
— E terceiro? — murmurou ela baixinho.
A ira já a tinha deixado, fazendo com que se desinflasse como um balão.
— Terceiro? Eu não gosto que você me chame de Kishan. Prefiro Sohan.
O lábio dela se contorceu.
— Prefere que eu o chame de Príncipe Sohan, o Grande?
— Não me desvie do assunto. Ainda nem cheguei à parte mais importante.
— E que parte é essa?
Estendi as mãos. Ela olhou para baixo, cerrou os lábios e por fim colocou as mãos nas minhas.
— O último ponto é... não importa quão zangado ou frustrado eu esteja, eu nunca, jamais a trataria como o homem que abusou de você.
Ela abriu a boca para falar e eu sacudi suas mãos levemente.
— Por favor, me deixe terminar. Eu não espero nada de você, Ana. Você não precisa massagear meus ombros, me beijar, nem mesmo me abraçar. Na verdade, estou perfeitamente feliz em servir como seu tigre pelo resto da minha existência. Você pode me considerar um protetor, como seu irmão. Sei o que você passou e não vou ser eu a lhe causar mais dor. Por favor, acredite nisso, Ana, acredite em mim quando digo que nunca, jamais porei as mãos em você dessa forma.
Baixei a cabeça para olhar seu rosto, na esperança de que ela percebesse minha sinceridade.
Mais uma vez, uma miríade de emoções passava sob a superfície, mas Ana as mantinha escondidas de mim. Apertando suas mãos, perguntei:
— Você compreende, Ana?
— Sim — disse ela, a voz monótona e baixa —, eu compreendo.
— Ótimo. — Soltei um suspiro e dirigi-lhe o que esperava fosse um sorriso do tipo fraternal. — Agora, o que vem a seguir na lista? As quatro casas?
— Não — respondeu ela, distraída. — Sim. — Sacudiu a cabeça e afastou-se. — Quero dizer, podemos deixar para amanhã? Estou esgotada.
Preocupado, toquei seu ombro.
— É claro, isto é, sim, você está usando muito do seu poder. Deve estar exausta. Devíamos dormir um pouco. Quer ir para casa?
— Não. Nosso trabalho aqui ainda não terminou. Será que a gente pode dormir por aqui?
— Podemos. — Passei a mão pelos cabelos e girei em um círculo, pensando. Uma ideia surgiu em minha mente. — Eu, hã, conheço um lugar. Talvez você queira tentar o Bosque dos Sonhos... Dormi lá uma vez com Kelsey.
Eu me encolhi imediatamente, sabendo que esse ainda podia ser um ponto delicado, mas Ana limitou-se a assentir, sem interesse.
Levei-a até o lugar e soltei um gemido quando me lembrei de que ainda estávamos criando tudo.
— Você confia em que eu cuide deste? — perguntei.
Ela agitou a mão no ar e afastou-se para colher algumas flores.
— Certo, aqui vai — falei, e recorri aos poderes da deusa, acessando-os por meio de nossa conexão. Usando o pedaço da terra do amuleto, criei o caramanchão e, então, com o lenço, construí uma imponente cama suspensa entre as árvores, como uma grande rede. Flores e trepadeiras cresceram para preencher as lacunas entre as árvores, oferecendo privacidade.
Quando terminei, ela deslizou a mão sobre o colchão.
— Parece confortável — disse. — Talvez eu devesse criar uma dessas em meu jardim.
— Eu ficaria feliz em fazer uma para você.
Ver Ana cercada pelas flores e plantas que ela amava aquecia meu coração. Enquanto ela dava a volta pela cama, indo para o lado oposto e correndo os dedos pelos lençóis sedosos, o lenço envolveu seu corpo e criou para ela uma camisola de fios de aranha, tão macia e maleável quanto cetim. Era da cor das asas de uma pomba branca e colava-se ao corpo dela de uma maneira que tentei inutilmente ignorar. Uma cauda curta arrastava-se atrás dela e a fita que prendia seus cabelos desapareceu. Os longos cabelos caíram pelas costas em ondas brilhantes. Quando ela se virou, engoli em seco.
— Você, hã, está linda, Ana.
Estava mesmo. Anamika estava tão deslumbrante quanto uma princesa de conto de fadas em meio a seu jardim florido. Eu nunca tinha visto algo tão hipnotizante em toda a minha longa vida. Nada podia se comparar à beleza da deusa. Qualquer outro homem que estivesse ali no meu lugar teria se atirado a seus pés, desfrutando do calor de sua presença, à espera do momento em que ela o agraciasse com um sorriso. Minha respiração ficou presa na garganta e percebi que eu também esperava esse sorriso, mas seus lábios não se curvaram em momento algum.
Ela baixou os olhos para si mesma e exclamou:
— Oh!
Distraidamente, puxou as mangas boca de sino rendadas. Seu corpo reluzia com uma luz própria; a pedra da verdade em seu pescoço cintilava com a verdade de minhas palavras. O brilho irradiava em torno dela, fazendo o bosque parecer mágico à medida que o rubor do pôr do sol da utopia que ela havia criado se extinguia, dando lugar ao crepúsculo.
— Sim. Você está cem por cento a deusa.
Enrijecendo, ela disse educadamente:
— Obrigada.
Indo até a cabeceira da cama, correu a mão sobre um travesseiro, afofando-o levemente.
— Então você e Kelsey dormiram aqui? — perguntou. — Juntos?
— Sim. Mas foi platônico — apressei-me a explicar. — O Bosque dos Sonhos tem certa magia. Ele fez nós dois sonharmos com coisas que aconteceriam no futuro.
Ana mordeu o lábio inferior.
— Você quer dizer como a pedra ônfalo?
— É, acho que sim, parando para pensar agora.
— Você tem outra lasca da pedra?
Sacudi a cabeça.
— Aqui não. Em casa, tenho.
Ana fechou os olhos e, quando os abriu, um pequeno pedaço da pedra estava na palma de sua mão.
— Como foi que você fez isso? — perguntei.
Ela limitou-se a dar de ombros, então soprou na pedra, que se embutiu na cabeceira da cama feita com galhos entrelaçados.
— Vamos? — indagou, levantando um dos lados da macia roupa de cama.
— Hã... Não sei se essa é uma boa ideia — comentei, esfregando o pescoço com as costas da mão.
— Bobagem — disse ela. — Você é como meu irmão, não é?
— Sou. Certo. É que...
Ana me encarou.
— Você precisa descansar tanto quanto eu. Com meu tigre guardião a meu lado, nada poderá me fazer mal. Não estou certa?
— Está, mas...
— Chega de conversa por hoje, Sohan. Descanse.
Ela puxou as cobertas e, resignado, afundei ao lado dela, dando as costas para a linda garota e me aproximando da borda da cama o máximo possível.
— Durma bem, Ana — falei, um tanto áspero.
— Você também, meu tigre.
Suas palavras macias flutuaram no ar acima de nós e caíram sobre mim como neve. Eu não sabia se estava assim tão cansado ou se ela havia tecido um feitiço para dormir. Qualquer que fosse o caso, no intervalo de alguns segundos mergulhei em um sono profundo... e em um sonho muitíssimo familiar.

2 comentários:

  1. Me irrita essa burrice do Kishan, em ficar interpretando as coisas de forma errada. Frustrada me define. Ele pergunta: o que fará você feliz? O que você quer? Aí ela o beija e ele não saca que é isso que a fará feliz??? Gente

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  2. O Kishan é muito burrrrooooooooi

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Boa leitura, E SEM SPOILER!