12 de setembro de 2018

27 - Templo da Terra

Não lutei, pois não queria que Kadam retornasse.
— Qual é o problema? — sibilei baixinho enquanto seu corpo lentamente voltava, tornando-se visível. Seus olhos verdes faiscavam de raiva e mágoa. — Ana? — falei e levantei as mãos para cobrir as dela, que ainda agarravam minha camisa.
Quando vi que eram as mãos de Phet, sussurrei as palavras que devolveriam meu corpo e o lenço se pôs a trabalhar.
Ela não me respondeu quando toquei seu rosto, oferecendo-lhe acesso fácil à minha mente. Afastou-se de mim e ergueu entre nós a velha e familiar barreira.
— Eu disse alguma coisa errada? — perguntei. — Me esqueci de alguma coisa?
— Não — respondeu ela por sobre o ombro. — Você não esquece nada. Esse é o problema.
— Me fale o que está errado — pedi. — O que quer que seja, eu conserto.
Dando meia-volta, ela enfiou a lista em minhas mãos.
— Algumas coisas você não pode consertar, Sohan. — Ela se dirigiu para a porta, as botas atravessando, silenciosas, o chão da cabana. — Vou esperar lá fora até você estar pronto para ir — falou e abaixou-se para sair, ocultando o corpo para o caso de Kadam ainda estar por perto.
Ergui os olhos para o teto, suplicando aos céus da maneira que eu imaginava que a maioria dos homens fazia ao se verem absolutamente desconcertados com as mulheres com quem moravam, e então fui atrás dela. Quando a alcancei, ela estava fechada para mim de uma forma que não acontecia desde que nos tornamos companheiros. Toda sua postura estava rígida e inacessível. A camaradagem que havíamos construído ao longo dos últimos meses tinha desaparecido — o sentimento que tínhamos compartilhado como uma manta sob a qual nos sentamos, juntos, desfrutando do calor que ela oferecia.
Suspirando e desejando ter um manual de instruções que me ajudasse a entender Anamika, examinei a lista que Kadam nos dera e disse:
— A próxima parada é Kishkindha e depois o Templo da Terra. Não tenho a menor ideia do que é esse segundo.
Ana pegou a lista de minhas mãos e disse:
— O amuleto sabe. Você só precisa dizer a ele o destino na lista e ele nos leva ao lugar onde precisamos estar, ou pelo menos perto o suficiente para que a gente descubra. Mas primeiro precisamos descansar.
Retornamos à nossa casa e, para minha surpresa, percebi que Ana vinha trazendo crianças quando eu não estava prestando atenção. Na verdade, uma ala inteira da casa estava praticamente ocupada por elas.
— O que é isto? — perguntei-lhe quando meia dúzia de crianças atravessaram ruidosamente o corredor.
— Deve ser a hora dos estudos delas — respondeu, cansada.
— Temos professores aqui?
— Alguns. Eles vêm de diferentes tempos e lugares. E algumas babás. O suficiente para cuidar delas.
Com um sorriso debochado, perguntei:
— Você está tentando formar um novo exército?
— Não. Elas só precisavam de um lar.
Suspirei.
— Só não espere que eu seja um pai para metade da humanidade — falei, tentando diluir a tensão entre nós.
Em resposta, Ana disse baixinho:
— Eu não espero nada de você. Boa noite, Kishan.
— Boa noite.
Ela seguiu pelo corredor no qual as crianças haviam desaparecido. Uma sensação de vazio dentro de mim me levou a sair. Não querendo ficar em meu quarto solitário, fui para a floresta e dormi. Depois de um rápido café da manhã, eu a procurei, encontrando-a à minha espera, com a lista na mão.
Quase com relutância, ela se aproximou e fomos arrebatados, não para Kishkindha, mas para as ruínas de Hampi. Reconheci o Banho da Rainha e o Templo de Virupaksha.
— Onde estamos? — perguntou Ana.
— Este é o caminho por onde Ren e Kelsey entraram em Kishkindha.
— E como isso foi feito?
Sua atitude era fria e pragmática. Isso não me agradava. Eu queria a Ana calorosa de volta. A que despenteava meus cabelos e me provocava.
Estendi a mão e, quando ela a aceitou, senti como se tivesse ganhado alguma coisa.
— Se me lembro bem — eu disse enquanto caminhávamos —, eles passaram por dentro da estátua. Se a encontrarmos, encontramos nossa entrada.
Passamos entre construções até que chegamos ao lugar certo.
— Lá está ele — afirmei, apontando. — Anamika, este é Ugra Narasimha.
— Lindo. — Ela pôs as mãos nos quadris. — E agora?
Cocei o pescoço enquanto circulava a estátua.
— Bem, havia alguma coisa com um sino e uma oferenda. — Estalando os dedos, eu disse: — Já sei. Vamos avançar no tempo e ver como Ren e Kelsey entram.
Ana limitou-se a erguer uma sobrancelha, o que tomei por aquiescência, e, com o pensamento, corremos no tempo, só desacelerando quando Ren e Kelsey apareceram. Nós nos mantivemos afastados no tempo apenas o suficiente para poder ouvir e ver o que estava acontecendo sem sermos vistos por nenhum dos dois. Ocultei meu cheiro para que Ren não me detectasse. Juntos, observamos Kelsey desvendar as pistas de Kadam e, depois que desapareceram, descendo pela abertura, desloquei-nos para nosso ponto de partida. Voltamos velozes como uma daquelas tiras elásticas de Kadam.
— Não parece muito difícil — comentei.
Enquanto Ana se mantinha parada, de braços cruzados, segui até as colunas e bati em uma delas três vezes.
Quando voltei, ela apontou para a estátua.
— Não tem névoa. A boca não se abriu e os olhos da cobra não estão vermelhos.
Franzi o cenho.
— Talvez essas coisas não tenham influência nenhuma. Precisamos de uma luz.
Ana abriu a mão e no centro de sua palma surgiu uma bola de fogo.
— Serve esta? — indagou.
— Sim. Deve servir. Em seguida vêm as garras.
Ana me dirigiu um olhar incisivo e estendeu o braço. Assumi a forma de tigre e deslizei as garras por seu braço, com força suficiente para tirar sangue, mas não o bastante para machucá-la seriamente.
— Desculpe — falei depois de voltar à forma humana.
Ela deu de ombros, mas, quando a ergui nos braços, manteve-se calada e fria, seu corpo rígido como um atiçador de fogo.
— Relaxe — pedi, meus lábios roçando sua orelha.
Quando cheguei ao portal, olhei para seu rosto. Os olhos estavam fechados; a franja formada pelos cílios lançava uma sombra sobre seu lindo rosto ao luar. Diga-me o que fiz para magoá-la, bela dama, falei diretamente com sua mente. Não tive a intenção de atiçar sua ira.
— Não importa — replicou ela em voz alta. Após um longo momento de silêncio, Ana se contorceu em meus braços. — Isso não está funcionando. Por favor, me ponha no chão.
Ela estava certa, mas me vi relutante em largá-la. Eu gostava da sensação de seus cabelos sedosos esparramados em meu braço e da curva tensa de sua boca quando ela me olhava de cara feia. Alguma coisa nisso me deixava feliz. Quando começou a se debater, coloquei-a no chão e ela arrumou o vestido, puxando-o com uma fúria que mal conseguia conter.
— Você parou para pensar — disse ela — que possivelmente criamos Kishkindha, como fizemos com a Caverna de Kanheri?
— Não, eu... eu acho que não pensei nisso. Mas, de fato, faz sentido. Fizemos quase tudo mais. Por que não criar toda uma cidade subterrânea?
Ela não entendeu meu sarcasmo e assentiu, erguendo os braços.
— Então vamos começar.
Antes que pudéssemos sequer discutir qualquer coisa, Ana já estava pondo em ação sua magia. A estátua começou a brilhar, e a cobra, a se retorcer. Até Fanindra ganhou vida para assistir ao processo. Quando conectamos uma marca de mão à recém-criada entrada do túnel abaixo de Hampi, Ana enviou seu poder pela abertura. A luz floresceu na escuridão e descemos por degraus que surgiam, vindo ao encontro de nossos pés.
À medida que caminhávamos pela passagem, a rocha e a terra derretiam-se diante de nós, reposicionando-se ou voando para o alto e para fora, e eu me perguntei se uma nova montanha estava sendo criada a partir do solo que deslocávamos. Finalmente, depois de percorrermos uma boa distância sob o solo, ela fez uma pausa, empurrando as mãos para a frente, e murmurou um feitiço que sacudiu a terra. Um abismo surgiu diante de nós. Rochas e terra rodopiaram em grandes redemoinhos, desaparecendo em rachaduras no teto bem acima de nós ou disparando pelo túnel por onde acabáramos de passar.
Quando a poeira abaixou, ela virou-se para mim e esperou até eu fechar a boca. Seu poder, não, nosso poder era... era imensurável.
— O que há em Kishkindha? — perguntou.
Contei a ela sobre a floresta de agulhas que poderia ser vencida pela gada. Em seguida, falei da misteriosa caverna cheia de túneis que abrigavam espíritos malévolos empenhados em induzir Ren e Kelsey a saírem do caminho que levava ao prêmio. Ana assentiu e espalhou os dedos.
Usando o pedaço terra do amuleto e o arco e as flechas, ela combinou seus poderes para criar árvores vivas e providas de agulhas afiadas. Elas se ergueram do solo recentemente arrasado e espalharam galhos frondosos. Em seguida, correndo ao lado delas, Ana criou um rio que forneceria água para as árvores. Para suprir a necessidade de luz, ela usou o poder do fogo e o lenço e fez uma espécie de pseudossol que nascia e se punha, fornecendo à caverna luz e calor suficientes para manter o ecossistema que ela havia construído.
Ana percorreu o caminho que atravessava a floresta, sussurrando para as árvores enquanto seguia. Elas se curvavam diante dela e prometiam honrar sua deusa e suas armas, se um dia retornasse. Chegamos a uma elevação natural da terra e, em questão de segundos, ela criou o labirinto de túneis. Usando o pedaço do amuleto que correspondia ao tempo combinado com o lenço e a pedra da verdade, algo que nunca me ocorreria fazer como parte de nossos recém-descobertos poderes, ela colocou elementos do passado de Kelsey e de Ren em cada túnel.
Pequenos animais que viviam no subsolo foram chamados a atrair e influenciar passantes, e o lenço transformou seus corpos em outros que Kelsey e Ren reconheceriam. Ana então prometeu-lhes que, assim que Ren e Kelsey se fossem, eles voltariam a suas formas naturais.
À medida que prosseguíamos, sentia-me perplexo não só com a absoluta extensão de sua criatividade como também com a naturalidade com que ela exercia seu poder. Quando chegamos ao rio e ela perguntou sobre as criaturas que viviam nele e que caçaram Ren e Kelsey, fiquei lá parado, mudo, olhando para ela.
— Você está bem? — perguntou Ana, pondo a mão em meu braço e me sacudindo.
— Você... você é incrível — falei, as palavras tropeçando em minha língua. Sempre que a via no modo deusa, eu me emocionava de tal forma que não conseguia descrever. — Kadam ensinou muito bem você. Eu... eu tenho sorte de ser seu companheiro — concluí debilmente.
Ela me fitou durante algum tempo, com uma expressão cética.
— É isso mesmo que você sente? — perguntou.
Peguei sua mão e a pressionei contra meu peito.
— Olhe em meu coração, Ana. Você sabe que eu a venero. De verdade.
Apesar de meu pedido, seus pensamentos permaneceram bloqueados para mim. Ela só me ofereceu um breve sorriso.
— Você me honra com suas palavras — replicou. — Mas acho que sua mente e seu coração estão em outro lugar.
Ela voltou-se para o rio e se agachou, mergulhando a mão na água. Ajoelhei-me ao lado dela, mas Ana não olhou para mim. Nossos reflexos se distorciam e tremiam no rio. Percebendo a importância das próximas palavras, pensei cuidadosamente no que queria dizer antes de começar:
— Anamika, de todo o meu coração, eu juro que sou seu. Não estou olhando para trás. Eu garanto a você. Servirei fielmente à deusa por todos os anos que me restam na vida.
Sua mão se imobilizou na água e notei que uma gota pousou em sua superfície brilhante. Ondulações se propagaram a partir do ponto em que a gota caiu. Quando ela olhou para mim, vi que aquela gota não era de chuva, mas uma lágrima.
— Eu sei que você servirá à deusa — murmurou. — Mas há uma mulher aqui também.
— Ana... eu não... eu não entendo. Claro que você é uma mulher também. Eu sei disso.
Em um gesto brusco, ela enxugou o rosto com as mãos, depois juntou-as em concha, permitindo que a água do rio se acumulasse nelas, e lavou o rosto. Usando o lenço para secá-lo, ela deu um passo para trás. Eu estava prestes a abordá-la novamente e pedir respostas quando percebi uma agitação na água. Arquejando, olhei para baixo.
— O que é isso? — indagou ela, aproximando-se e parando a meu lado.
Embora ainda fossem minúsculos, como já os vira adultos, eu sabia o que eram.
— Demônios kappa — respondi suavemente. — Criaturas nascidas das lágrimas de uma deusa.
Enquanto observávamos, os frutos de sua tristeza cresceram. Eles amadureciam dentro das lágrimas, que os abrigavam como uma bolha flexível. Suas longas caudas perfuravam os ovos translúcidos e se prendiam a plantas subaquáticas, ancorando-os como um cordão umbilical enquanto eles se balançavam suavemente. Quando atingiram o tamanho adulto, o que aconteceu no intervalo de alguns segundos, eles morderam a membrana que os abrigava, cortando-a, e a substância gelatinosa se soltou e afundou no rio. Contei pelo menos uma dúzia e sabia que haveria muitos mais no momento em que Ren e Kelsey chegassem. Isso significava que Ana iria chorar de novo ou apenas que eles se reproduziam com facilidade? A ideia me fez estremecer.
Três dos seres recém-criados se separaram de sua planta subaquática e seguiram lentamente para terra. Eram tão feios quanto eu me lembrava. Como se fossem uma só criatura, eles se ajoelharam aos pés de Ana, que recuou um passo. Inspiravam medo até mesmo nela. Pensei que isso não era um bom sinal.
A voz sinistra da untuosa criatura do meio saiu de seus lábios arreganhados. Sua língua se projetava de forma antinatural entre os dentes afiados como os de um tubarão.
— Deusa — disse a criatura —, nós surgimos da escuridão como estrelas errantes arrancadas dos céus. Para seus inimigos, somos um indesejável flagelo. Cairemos sobre eles como o mar furioso, atacando com as mandíbulas escancaradas e os dentes à mostra até que eles estejam duas vezes mortos, suas bocas espumando e seus olhos, incrustados de sal, cheios de vergonha.
— E como vocês distinguirão aqueles que considero inimigos? — perguntou Ana.
A criatura virou a cabeça em um ângulo impossível a fim de me olhar. Seu sorriso era cheio de ameaça.
— Aqueles que causam suas lágrimas são seus inimigos — disse o monstro malicioso, sua voz viscosa e sibilante, como um poço de piche fervendo.
— Entendo — disse Ana.
Dando um passo na direção dela, eu estava prestes a segurá-la pelo braço quando as três criaturas rapidamente se ergueram e se colocaram entre nós, arreganhando os dentes e sibilando.
Arrepios percorreram minha espinha quando me lembrei do que tinham feito com Kelsey.
— Este aí não tem coragem em relação à senhora — afirmou o monstro para Ana. — É uma árvore sem frutos. Vamos cortá-lo.
— Não. Deixem-no — disse Ana. — Ele é meu, assim como vocês.
— Mas ele provocou suas lágrimas — gemeu um deles.
— Provocou. E, sem dúvida, provocará muitas mais em minha vida, mas, ainda assim, ele é meu. Vocês não lhe farão mal. Nem agora nem nunca. Agora vão — ordenou. — Cumpram seu dever. Mantenham vigilância e protejam esta terra daqueles que queiram prejudicá-la.
— Sim, Deusa — sibilaram em uníssono, me fuzilando com os olhos enquanto voltavam para o rio.
Depois que se foram, cruzei os braços e olhei para a água, a repulsa curvando para baixo os cantos da minha boca.
— Repugnantes — falei. — Já os vi em ação também. Você sabia que eles quase mataram Kelsey? Se Fanindra não estivesse lá...
Anamika empurrou com força minhas costas e, como eu já estava meio desequilibrado, cambaleei para dentro d’água, escapando por um triz antes que aquelas coisas lá embaixo me pegassem. Saí rápida e atrapalhadamente e me virei para ela. O problema não era ela ter me empurrado, já havíamos brigado vezes suficientes para que eu conhecesse sua força. O que ela fizera não fora para me machucar, mas para mandar uma mensagem, e eu também tinha a minha.
— Qual é o problema? — perguntei, espremendo a camisa.
Em minha raiva, acabei rasgando o tecido e um segundo depois arranquei a camisa ensopada do peito e a joguei longe com toda a força. Ela foi parar do outro lado do rio. Depois de puxar o lenço das mãos dela, eu o usei para secar meu peito. Os olhos dela iam de meu rosto para meu tórax. O tom avermelhado em suas bochechas me dizia que agora ela devia estar arrependida do que fizera, mas eu a conhecia. Ela jamais admitiria que tinha ido longe demais.
Enquanto eu usava o lenço para criar roupas novas para mim, seus olhos se arregalaram e ela se virou, pisando duro e entrando no rio. Vários demônios levantaram a cabeça da água e piscaram, me olhando de lado com seus olhos negros. Um deles, pintalgado, correu a língua sobre os dentes irregulares, observando-me como se estivesse antevendo o jantar.
Com um floreio da mão, Ana os dispensou e, devagar, eles voltaram a submergir. Peguei uma pedra e joguei com raiva no rio. Eu tinha mirado nos kappa, mas por um triz não acertei Ana. Quando a vi se encolher, imediatamente me arrependi e me lembrei do abuso que ela sofrera quando garota.
Soltando um longo suspiro, eu disse:
— Me desculpe, Ana.
Fui até onde ela estava e lancei outra pedra na superfície do rio. Enquanto afundava ela se transformou em uma pedra preciosa, e eu fiquei olhando, observando-a cair, para ter certeza de que não era apenas um truque da luz. Então vi que todas as pedras do rio tinham se transformado. O leito agora estava coberto com diamantes, rubis, esmeraldas, safiras e outras pedras preciosas.
Por que as pedras mudaram na água? Será que os kappa fizeram isso? Olhei para Ana e a vi brincando com uma esmeralda, jogando-a para cima e pegando-a com a mão, enquanto fitava, pensativa, a água.
— Você fez isso? — perguntei, apontando a água.
— Fiz — respondeu ela calmamente.
As pedras preciosas tentariam qualquer um. A ideia de que Ana atrairia Kelsey intencionalmente para aquelas criaturas malignas me parecia destoante.
— Por quê? — perguntei em tom agressivo.
Ela virou-se para mim.
— Por que não, Kishan? — Ana cuspiu meu nome com um ar de repugnância, como se a mera menção a mim deixasse um sabor ruim em sua língua.
Tentando me controlar, movi o maxilar de um lado para outro, rilhando os dentes, até ter certeza de que iria falar com civilidade. No fim das contas, não adiantou nada.
— Ana — comecei, erguendo as mãos e falando com calma, tentando apaziguar a mulher irascível —, você não entende que isso pode ser um problema?
— Não é — disse ela com arrogância, cruzando os braços diante do peito depois de jogar a esmeralda na água.
Corri a mão pelos cabelos, puxando-os, frustrado.
— Mas Kelsey e Ren vão...
Ela me cortou.
— Não quero ouvir falar nem mais uma palavra sobre Kelsey.
Um sibilo me desviou de nossa discussão e me virei para o rio, onde vi várias criaturas prestando atenção a tudo que dizíamos. Baixei a voz, me lembrando de como os demônios quase mataram Kells.
— Por que você não me ouve?
— Por que eu deveria? Você claramente não me escuta! Se por acaso se desse o trabalho de perguntar de maneira educada em vez de fazer suposições, eu lhe diria o porquê de ter agido assim. Não que isso devesse importar. Pensei que a esta altura eu já merecesse sua confiança.
Minha expressão estupefata devia ter dito tudo, mas, por via das dúvidas, falei:
— É claro que confio em você. Confio em você para qualquer coisa, para tudo.
— Não tudo. Não quando se trata de Kelsey.
O silêncio caiu entre nós. O peito dela arfava de emoção e, afora o barulho da água batendo na margem, nossa respiração era tudo que eu podia ouvir. Havia, porém, mais coisas entre nós. Coisas que não estavam sendo ditas. O peso invisível, intangível do que não estávamos dizendo fluía entre nós, como fumaça. Que enchia meus pulmões e exigia que eu reconhecesse sua existência.
— Eu... eu... — comecei, sem saber o que iria dizer, mas deixando as palavras subirem como bolhas de algum lugar bem fundo dentro de mim. — Eu sei que você nunca faria algo para machucar Kelsey.
Os olhos dela cravaram-se nos meus, procurando desesperadamente alguma coisa, e pude ver o momento em que ela desistiu da procura.
— Deixe para lá — disse por fim, seu corpo inteiro envergando com o peso da decepção. — Vamos só terminar o trabalho.
Não gostei do tom definitivo em sua voz ou da maneira como ela seguia à minha frente pelo caminho. Naquele momento, ela parecia totalmente a garotinha encolhendo-se diante do vilão. Não havia o menor traço da deusa, e eu odiava o fato de ter sido eu a fazê-la sentir-se assim. Em voz baixa, descrevi a fortaleza desmoronada, a mangueira, o chafariz e os macacos.
Ao canalizarmos o poder da terra, poderosos blocos de rocha se ergueram do solo, empilhando-se uns sobre os outros até formar ali uma antiga cidadela indiana. As árvores se sacudiam às nossas costas e reconheci os gritos dos macacos. Eles haviam respondido ao chamado de Ana e as árvores permitiram que passassem para que pudessem servir à sua deusa. Ela os incumbiu de guardar o precioso Fruto Dourado da Índia e, depois que concordaram em curvar-se diante tanto da deusa quanto de suas armas, eles se instalaram no alto da fortaleza, transformando-se em pedra, da mesma forma que Fanindra se tornava metal.
Quando chegamos à fonte, ela pegou a manga dourada em sua bolsa e a colocou em um grande vaso que se ergueu no centro. Com algumas palavras murmuradas por Ana, ele afundou no solo e, em questão de segundos, uma plantinha brotou e cresceu diante de nossos olhos até alcançar sua altura plena. Flores se abriram e frutos surgiram. No topo, uma flor especial, que brilhava mais do que o sol, desabrochou e se transformou no Fruto Dourado.
— Mas nós não vamos precisar dele? — perguntei.
Ela sacudiu a cabeça.
— Não se tivermos o amuleto. Com isto — ela ergueu o medalhão pendurado em seu pescoço —, podemos recorrer ao poder do Fruto Dourado, independentemente de onde estivermos.
— Mas como? Nunca funcionou assim antes.
— O fruto é um presente de Durga, não é?
— É, mas...
— Meu... meu corpo absorveu o poder dos presentes. Já não preciso do lenço ou do fruto para recorrer à magia deles.
— Quando isso aconteceu? — perguntei.
— Percebi pouco depois que retornamos do passado. Nosso professor sugeriu que isso poderia ser o resultado da picada da jovem Fanindra associada ao fato de eu ter me fundido com meu eu passado. Ele deduziu que, em algumas espécies, o veneno da cobra recém-nascida é muito mais poderoso que o do animal adulto. Não sei se esse é o caso de Fanindra, mas meus poderes cresceram desde então.
Ana virou-se para outro lado e vi a orgulhosa rigidez de seus ombros. Embora ela se recusasse a abrir a mente para mim, eu sabia que os poderes expandidos que ela agora possuía a perturbavam. Ela optara por não me contar e doía saber que ainda não confiava em mim.
Afastando-se, ela disse:
— De qualquer forma, o fruto tem cumprido seu propósito para nós. Agora irá servir outra vez. — Ela murmurou mais algumas palavras e então disse: — Pronto. Está feito. Quando Ren e Kelsey colherem o fruto da árvore, vocês dois recuperarão seis horas diárias como homens.
Criamos então a marca da mão e o enigma. Ana deixou a mão sob a minha apenas pelo tempo suficiente para criar o mecanismo que elevaria a árvore. Preocupado com Ren e Kelsey, mencionei os ataques a eles que eu testemunhara antes e perguntei se ela poderia limitar suas criações ainda mais para que eles não se machucassem. Ela levou a mão ao babuíno de pedra e perguntou suavemente:
— Eles sobreviveram, não foi?
— Sim, eu suponho — respondi, lembrando-me de como os ajudara antes. — Mas uma deusa poderia, com certeza, fazer mais para...
— E quanto às minhas criaturas? — indagou ela. — Você se preocupa mais com Kelsey do que com esses seres que, de boa vontade, servem a mim?
Cruzando os braços diante do peito, retruquei:
— Sinceramente? Sim.
Ana me lançou um olhar cortante. Seus olhos tornaram-se vítreos e sem expressão. Ambos viramos a cabeça assim que ouvimos um estrondo do outro lado da cidade de macacos. Sem dizer palavra, seguimos naquela direção.
Suspirando, estendi a mão e toquei seu ombro, mas ela se esquivou de mim.
— Ana, vamos lá. Precisamos conversar sobre o que está aborrecendo você.
— Não — retrucou ela. — Não precisamos. Se você continua ansioso em relação à garota que o abandonou, então pode voltar para ajudá-la sem me fazer assistir a isso.
Não me dei o trabalho de dizer a ela que já tinha feito isso. Pareceu-me a hora errada de mencionar esse fato. Encontramos a fonte do barulho e vimos que um pedaço da ponte levadiça havia caído. Como tínhamos acabado de criá-la, ficamos surpresos.
Enquanto eu examinava o local, ela falou, de costas, correndo o dedo por uma dobradiça quebrada.
— Se você tivesse se dado o trabalho de me perguntar por que enchi o rio com pedras preciosas, eu teria lhe contado. — As costas de Ana estavam rígidas, a epítome da deusa inacessível. — Apesar das suas suspeitas — continuou —, eu não fiz isso para atrair Kelsey. Se quer saber, os kappa são como dragões com um tesouro. As pedras preciosas os acalmam e os mantêm adormecidos e quietos.
— Você poderia ter me contado — redargui.
— Não deveria ser necessário — replicou Ana, os olhos distantes.
Sem saber o que dizer, perguntei se ela iria consertar a ponte levadiça. Não foi uma boa escolha. Ana apertou o amuleto na mão e nos transportou no tempo e no espaço sem nem mesmo me tocar. Estava certa quanto a seu poder ter aumentado. Meu estômago se contraiu ao chegarmos à parada seguinte — o Templo da Terra.
Raios cintilantes de sol nos envolveram com sua luz, que se infiltrava pelas rachaduras do teto. Girando, examinei o lugar onde nos encontrávamos. E o reconheci de fotografias.
— É o templo de Durga — falei. — Este é o primeiro.
Ana caminhou pelo recinto, examinando as colunas. Percebi que suas pegadas desapareciam na poeira assim que ela levantava os pés. As minhas também. Eu não tinha certeza se ela havia providenciado para que fosse assim ou se isso era uma coisa natural que acompanhava seu poder.
Lembrei-me de quando os rastros dos camelos desapareceram no passado. Ela passou a mão pelas lisas colunas de terracota, ignorando-me de propósito.
— Espere — eu disse. — Tem alguma coisa errada. — Tornei a girar devagar, descrevendo um círculo, tentando ver o que estava faltando. — As colunas estão vazias. Deveriam estar cheias de pistas sobre as coisas que irão acontecer em cada uma de nossas jornadas. A primeira busca deveria ser aqui — concluí, apontando uma coluna. — A do tubarão, bem aqui. Naquela de lá, a Cidade de Luz, e nesta aqui deveriam estar os silvanos. — Dei um tapa na testa. — Suponho que eu possa buscar as fotos na biblioteca de Kadam. Ele tirou muitas...
Ana sacudiu a cabeça.
— Não vai ser necessário.
Seu corpo desapareceu por um instante quando ela fechou os olhos e então, com um movimento rápido de sua mão esquerda, a areia irrompeu da coluna e a luz cintilou por dentro à medida que os entalhes que eu vira em fotografias se materializavam exatamente como eu me lembrava deles, até o último detalhe. Ela agitou a mão sobre a segunda coluna e senti o cheiro das flores que haviam sido trançadas nos cabelos de Kelsey pelas fadas.
Na terceira, captei o cheiro do mar e a quarta rapidamente materializou-se em Senhores da Chama e qilins. O forte odor de enxofre e um jato de calor me assaltaram. Eu estava estudando um demônio rakshasa na recém-concluída quarta coluna quando uma luz brilhante destruiu uma quinta coluna em que Ana vinha trabalhando. Foi poderosa o bastante para lançá-la do outro lado do ambiente. Corri na mesma hora até ela.
— Você está bem? — perguntei, ajoelhando-me a seu lado.
Havia um corte em seu braço e um pó vermelho cobria seus membros e cabelos.
— Machucada, mas não quebrada — disse ela enquanto seus olhos assimilavam a destruição.
— A quinta coluna — ponderei. — Kadam disse que eu não deveria me preocupar com a maneira como ela foi destruída. — Mordi o lábio. — Você... viu alguma coisa?
Ela ergueu os olhos para mim.
— Um pouco. Reconheci nossa imagem como deusa e tigre, com todas as armas. Estávamos a caminho da batalha. — Ana tocou um dedo no brilhante bracelete de cobra. — Vi a morte e o nascimento de Fanindra. Eu falando com Nilima no templo. A criação da Caverna de Kanheri e de Kishkindha. Assim que cheguei a esse ponto, um véu de escuridão nublou minha visão e, embora eu saiba que finalizei os entalhes, não tive permissão para vê-los. Quando estava completo, um poder o destruiu. Isso é tudo que sei.
— Eu me pergunto se fomos nós que fizemos isso — falei baixinho.
Ela sacudiu a cabeça.
— Seria perigoso demais. Encontraríamos a nós mesmos.
Assenti. Ambos sabíamos que só havia uma outra pessoa com um motivo e o poder de destruir a coluna.
— Foi ele, não foi? — perguntei.
— Faz sentido — disse ela, com um suspiro.
Estendendo a mão, me ofereci para ajudá-la a se levantar, mas Ana claramente me ignorou e se pôs de pé sozinha.
— Mais alguma coisa? — perguntou.
Esfregando o rosto, franzi a testa e olhei ao redor.
— Acho que isso é tudo. Não. Espere. Havia uma marca de mão oculta que foi exposta por um terremoto. Uma em cada templo.
Aproximando-se da estátua, Ana levou a mão à pedra e olhou em minha direção, esperando que eu fizesse o mesmo. Deslizei a mão sobre a dela e nossos olhos se encontraram. Ana, eu disse para sua mente, eu não quero brigar. Me diga qual é o problema. Deixe-me compartilhar sua dor, da maneira como compartilhou a minha. Dei um passo à frente, pressionando meu corpo contra o dela. Ana não me respondeu, mas tampouco se afastou. Com nossas mãos se tocando, ela acelerou o tempo. Os séculos passaram velozmente. Eu estava hipnotizado pela luz que brincava em suas feições até que, rápido demais, a luz desacelerou.
Eu estava prestes a falar quando, naquele momento, ouvimos uma voz alegre e aguda. Era Kelsey, sem dúvida. Ana ficou rígida e afastou-se abruptamente, agitando a mão para cobrir a impressão com pedra. Pensei que ela gostasse de Kelsey. Não fazia sentido que estivesse tão aborrecida por vê-la outra vez. Mas eu podia sentir o ressentimento elevando-se em ondas. Ela não agira assim no casamento de Kelsey. Por mais ligados que fôssemos, eu não conseguia entender o que estava acontecendo com ela.
Ana murmurou algumas palavras e o poder do vento levantou todo o pó de seu corpo e de suas roupas e o levou embora. Um instante antes de Kelsey entrar no templo com Ren como tigre a seus pés, ela nos deslocou no tempo, de modo que ficássemos fora do alcance da visão deles. Mais uma vez, tomei o cuidado de bloquear meu cheiro e apagá-lo do templo para que Ren não pudesse detectar minha presença.
Kelsey aproximou-se e eu ia sair do caminho, mas Ana segurou meu braço e sacudiu a cabeça. Kelsey nos atravessou. Ela estremeceu, mas, afora isso, nada percebeu. Eles seguiram até a estátua de Durga com seu tigre. Ela era antiga e já se encontrava no templo. Nós os seguimos em silêncio, nossos passos desaparecendo na areia como por mágica.
“Acho que ela também tinha um tigre para protegê-la, hein, Ren?”, disse Kelsey. “O que você acha que o Sr. Kadam espera que encontremos aqui? Mais respostas? Como conseguimos a bênção dela?”
Kelsey andou em torno da estátua limpando a sujeira, um gesto inútil, considerando-se que a poeira tornava a se assentar no instante em que sua mão se afastava. Ren abanava a cauda de um lado para outro, alheio ao pó que se grudava em seu pelo, os olhos fixos em Kelsey. Ela sentou-se e continuou a tagarelar enquanto ponderava sobre a situação em voz alta.
Suspirei com impaciência. Apenas olhe para cima, pensei. A resposta está bem ali. Finalmente ela se levantou, passando o dedo sobre o entalhe.
“Ren”, disse Kelsey, “o que você acha que ela tem na mão?”
Ren assumiu sua forma humana. Apoiei o ombro na estátua, observando o diálogo entre os dois. Que ele já estava apaixonado por ela àquela altura era óbvio. Estava caído de quatro. Eles discutiram sobre como fazer uma oferenda, saíram para buscar comida com Kadam, que esperava do lado de fora, e então finalmente começaram o processo de invocar as bênçãos da deusa.
Demoraram vários minutos para encontrar um sino e, por um momento, entrei em pânico, pensando que tínhamos nos esquecido de providenciar um, mas Ana deslizou a mão pelo ar e um sino apareceu em uma prateleira. Quando tornaram a se aproximar da estátua, eu me afastei, dando-lhes espaço. Ana observava todo o processo com interesse. Não havia um só traço de tédio visível em seu rosto.
“Acho que você deve fazer a oferenda, Kells”, disse Ren. “Você é a protegida de Durga, afinal.”
Eles falaram um pouco sobre religião. Olhei para Ana quando Ren admitiu que nunca tinha sido devoto de Durga. Ela, porém, não pareceu se importar com isso. Quando Kelsey falou sobre sua falta de fé desde a morte dos pais, eu me encolhi. Eu tinha estado lá. Poderia tê-los salvado. No entanto, não fiz isso. Naquela ocasião, pensei que poderia voltar e consertar tudo. Agora não tinha mais certeza. Se os pais dela tivessem sobrevivido, Kelsey provavelmente nunca teria trabalhado no circo. Nunca teria encontrado a mim ou Ren.
Bufei quando Ren falou poeticamente sobre um poder benigno no universo. Até onde eu sabia, o único poder no universo éramos nós. Eu, com certeza, não me sentia digno o bastante para ser um deus. Ana, porém, era diferente. Mesmo agora ela os observava com um sorriso beatífico. Quase como se fosse uma mãe satisfeita, desaparecidos todos os traços de seu ressentimento anterior.
Mudei de posição, incomodado, pensando que talvez fosse de mim que ela se ressentisse, não de Kells.
Eles começaram a limpar a estátua e, quando Ana se afastou, fiz o mesmo. Ela usou o poder do vento para ajudar a manter a poeira à distância. Quando acabaram, eles dispuseram a oferenda e tocaram o sino.
Ren disse:
“Durga, viemos pedir sua bênção para nossa busca. Nossa fé é fraca e simples. Nossa tarefa é complexa e misteriosa. Por favor, nos ajude a encontrar a compreensão e a força.”
A voz de Kelsey tremia, como se ela estivesse nervosa:
“Por favor, ajude esses dois príncipes da Índia. Devolva-lhes o que lhes foi tirado.”
Anamika olhou para mim e me dirigiu um breve sorriso.
Eu retribuí, enquanto Kelsey prosseguia, torcendo para que isso significasse que nossa briga tinha chegado ao fim.
“Ajude-me a ser forte e sábia o bastante para fazer o que for necessário”, continuou Kelsey. “Ambos merecem a chance de ter uma vida.”
Ficamos ali parados, os quatro, dois de nós invisíveis e os outros dois de mãos dadas. Nada aconteceu. Ana franziu a testa e então me olhou, arqueando as sobrancelhas, como se eu fosse saber o que fazer. Sacudi a cabeça e dei de ombros. Mais alguns minutos se passaram. A deusa e seu tigre não apareceram.
Ren transformou-se em tigre novamente. Ana fez um movimento com a mão e o tempo parou. Ren e Kelsey ficaram ali, imobilizados. As partículas de poeira que cintilavam nos raios de sol não se moviam.
— O que acontece agora? — perguntou Ana.
— Bem, a deusa e seu tigre aparecem. Ela dá Fanindra e a gada para Kelsey.
Ana franziu a testa, aparentemente refletindo, e então fez um gesto afirmativo com a cabeça.
— Muito bem. Me acompanhe.
Ela agitou a mão e canalizou o poder da terra e do lenço. Antes que eu pudesse perguntar o que estava fazendo, o solo tremeu. A pedra que cobria a impressão caiu. Kelsey a tocou e, com um solavanco, senti meu corpo se reposicionar enquanto assumia minha forma de tigre. Eu estava rígido e imobilizado. Ana!, pensei.
Paciência, Damon, foi sua resposta. Pelo menos tente confiar em mim.
Kelsey colocou a mão na estátua e, através de uma espécie de filme que recobria meus olhos, vi uma luz brilhante aparecer. Era tão atordoante que eu queria fechar os olhos, mas não podia, então grunhi baixinho. Pouco a pouco, senti meus membros voltarem à vida. A poeira fazia cócegas em meu nariz, mas, em vez de espirrar, arreganhei os dentes e rosnei.
Ren rugiu, me desafiando, e reconheci que ele estava se preparando para saltar sobre mim. Uma mão tocou meu ombro e, quando levantei os olhos, vi que era Ana, vestida como a deusa, brandindo todas as armas que eu sabia que se encontravam na mochila em minhas costas. Eu estava a centímetros de sua cintura nua e das pernas longas, muito longas. A saia tinha uma fenda que subia até a coxa e o corpete justo se colava a suas curvas. Ela cheirava a lótus e jasmim e os cabelos compridos desciam pelas costas em ondas sedosas. Dois de seus braços descansavam em mim e ela se comunicou comigo silenciosamente: Vamos fazer isso juntos.
Ana ergueu um braço longo e dourado, as pulseiras tilintando baixinho.
“Bem-vinda ao meu templo, filha”, disse Anamika. “Sua oferenda foi aceita.”
O sorriso em seu rosto era tão doce, sua voz tão melodiosa, que eu a fitei tão extasiado quanto Ren e Kelsey. Você é tão linda, pensei, e então engoli em seco, me perguntando se ela teria escutado minha voz interior.
Ana hesitou, então uma de suas mãos foi até minha cabeça e ficou brincando com minha orelha. Uma espécie de satisfação dourada me percorreu, e eu não sabia se vinha dela, de mim ou se era de nossa conexão, mas, de qualquer maneira, eu gostava da sensação de seus dedos acariciando meu pelo.
“Vejo que você tem seu próprio tigre para ajudá-la em tempos de guerra”, disse Ana.
“Ah... sim. Este é Ren, mas ele é mais do que apenas um tigre.”
“Eu sei quem ele é e que você o ama quase tanto quanto eu amo o meu Damon. Não é?”
Espere aí. Como? Ela me amava? Você quis mesmo dizer isso?, perguntei mentalmente. Como poderia, se há pouco tempo, em Kishkindha, estava com raiva de mim?
Silêncio, respondeu ela, seu segundo braço massageando meu pescoço. Não está vendo que estou ocupada?
“Vocês vieram buscar minha bênção e minha bênção eu darei”, continuou Ana. “Cheguem mais perto e a aceitem.”
Ren avançou, aproximando-se de nós, e me encolhi enquanto ele farejava. Teria me reconhecido? Lembrei-me de Ren dizer que o tigre de Durga era laranja. Olhando para baixo, vi que, de fato, minhas patas estavam laranja. Arranhei a pedra, pensando que as preferia pretas.
Ana lhes disse aonde deveriam ir e os advertiu dos perigos. Eu estava ocupado, de olho em Ren — que me observava perto demais para meu gosto —, para ver Ana entregando a gada a Kelsey.
Tem certeza?, perguntei.
Sim. As armas de Durga agora também fazem parte de mim, explicou ela quase com tristeza. Posso invocá-las do éter a qualquer hora ou em qualquer lugar que quiser. Quando não precisamos mais delas, simplesmente as soltamos e elas voltam para o lugar de onde vieram.
Suspirei, o que, em um tigre, parece um sopro. Isso seria estranho aos ouvidos de Ren, mas não havia nada que eu pudesse fazer para voltar atrás.
Kelsey testou a gada e fiquei surpreso ao ver que ela possuía a força da deusa. Eu sempre presumira que a força de Ana vinha do pedaço de terra do amuleto, mas Kelsey já a tinha, mesmo àquela altura. Eu me perguntei então se era a conexão com o tigre que dava às duas mulheres as habilidades que tinham. Se assim fosse, a maldição do tigre não era uma punição, mas uma bênção. Sem ela, Ana e Kelsey teriam morrido no campo de batalha, supondo-se que sobrevivessem às provações anteriores.
Fechei os olhos e inclinei a cabeça. Ana estendeu a mão e coçou a parte inferior de meu maxilar. Suas mãos estavam definitivamente me distraindo. Tanto que não vi Fanindra despertar e deslizar para Kelsey. O que me surpreendeu ainda mais foi Fanindra ter crescido a seu tamanho máximo. Quando isso aconteceu?, perguntei.
Ela se alimenta do tempo, disse Ana, respondendo à minha pergunta. Durante nossas viagens no tempo, ela se desenvolveu rapidamente.
Isso respondia a duas perguntas. Não só eu agora compreendia o rápido crescimento de Fanindra como sabia que Ana podia ouvir meus pensamentos secretos. Ela me ouvira chamá-la de linda.
Kelsey tremia quando Fanindra se aproximou. A pobre garota estava obviamente petrificada. Olhando para Ana, bufei. Sinto muito, eu disse. Sei que você vai sentir falta de Fanindra. Ren e Kelsey estavam preocupados demais com a cobra para notar as lágrimas no rosto de Ana. Mas nada de choro agora, acrescentei. Quem sabe que demônios você irá criar com essas lágrimas?
A mão de Ana agarrou firme meu pelo. Esfreguei a cabeça em sua perna torneada. Vamos vê-la novamente, não vamos?, perguntei.
Percebi o leve movimento afirmativo de sua cabeça. Ela irá atender meu chamado sempre que eu precisar de ajuda. Eu lhe dei a habilidade de deixar uma duplicata de metal com Kelsey quando a ocasião permitir. Mas Kelsey precisará dela no momento.
Que interessante. Enquanto Kelsey e Ren se apavoravam com Fanindra, eu me perguntava quantas vezes durante nossa jornada carregáramos uma joia em vez da criatura verdadeira.
Quando Fanindra alcançou o braço de Kelsey, ergueu a cabeça e projetou a língua, como se despedindo da deusa, e então se transformou em bracelete.
“Ela se chama Fanindra, a Rainha das Serpentes”, explicou Ana. “É um guia e irá ajudar vocês a encontrar o que procuram. Ela pode conduzi-los por vias seguras e irá iluminar seu caminho através da escuridão. Não tenha medo, pois ela não lhe deseja nenhum mal.” Ela sorriu e acariciou a cabeça de Fanindra. “Ela é sensível às emoções das pessoas e anseia por ser amada pelo que é. Tem um propósito, assim como todos os seus filhos, e devemos aprender a aceitar que todas as criaturas, por mais assustadoras que possam ser, são de origem divina.”
Senti nas palavras de Ana mais do que uma tentativa de aconselhar Kelsey. Seria possível que Ana amasse aqueles demônios horríveis? Os macacos assassinos? Quando ela disse que Kelsey e Ren deveriam usar o coração para encontrar um ao outro, a pedra da verdade pendurada em meu pescoço esquentou. Será que não estou usando o coração para encontrar meu propósito? Ana havia me acusado de manter minha mente e meu coração afastados dela. Como eu poderia provar que não estava fazendo isso?
Ren e Kelsey seguiram fazendo perguntas, desesperados para saber mais, porém Ana usou o lenço e o poder da terra para nos cobrir novamente de poeira e pedra. Um véu estendeu-se sobre meus olhos e tornei a ficar imóvel. Kelsey levou a mão à minha cabeça empoeirada e tocou minha orelha, onde a mão de Ana tinha estado. Uma sensação fria apoderou-se de mim e, embora eu ainda estivesse preso dentro da estátua do tigre, senti que Ana não estava mais ali.
Kelsey girou quando ouviu um ruído, e vi Ana parada ali perto, as mãos nos quadris. Ela estava mais uma vez vestida com seu traje típico, as botas de couro macio que iam até a metade das coxas e o vestido verde. Seus olhos faiscaram quando ela olhou para mim, mas Kelsey não podia vê-la.
Ren seguiu Kelsey, deixando o templo, e após um longo momento ouvi o Jipe partindo pela estrada.
Ana ainda se manteve imóvel, simplesmente me olhando.
Apelando à sua mente, posto que não podia falar, gritei, um tanto nervoso: Hã, Ana? Uma ajudinha?

7 comentários:

  1. "Já os vi em ação também. Você sabia que eles quase mataram Kelsey? Se Fanindra não estivesse lá..."
    Claramente Kishan não conhece a arte de ficar com a boca fechada

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  2. Kisham é muito lento e "burro", com relação aos sentimentos de uma mulher. Pô ela deu um beijão nele, e ele ainda não sabe...

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  3. Manoooo o beijo mais esperado de todos os livros!!! Mas ainda não ta bom, era pra ter sido melhorkkkk

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  4. Mais lerdo que o Kishan só eu mesma, entendo a Ana, mas achei um pouco showzinho demais o fato dela não querer falar na Kelsey, mas tbm ne? a única pessoa q está com ela, ela acredita pensar em outra, então sla!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!