12 de setembro de 2018

26 - Encarnando Phet

O tremor parou logo depois que Ren e Kelsey fugiram, mas as pedras ainda se deslocavam e uma grande caiu perto da rocha sobre a qual estávamos. Nossa rocha se moveu. Agarrei-me em Ana quando caímos com a rocha, determinado a protegê-la da queda e do ácido que se espalhava e que eu podia ver brilhando como um lago dourado na escuridão. Ela gritou, surpresa. Meu ombro acertou a parede e bati a cabeça com força. Apertando Ana contra o peito, virei em pleno ar, como Ren tinha feito quando pulou o abismo com Kelsey. Mesmo que fossem graves, os ferimentos provavelmente não incapacitariam nenhum de nós por muito tempo, mas eu não quis arriscar.
Ana podia quebrar o pescoço ou bater a cabeça em uma pedra. Havia muitas variáveis que não conhecíamos com relação aos limites de nosso poder e eu me recusava a perdê-la de novo por ser descuidado. Kadam tinha me avisado que eu abrira mão de uma parte de mim para trazer Ren de volta e de outra para salvar Ana. Depois de sentir recentemente o gosto da mortalidade, eu não estava disposto a aceitar ferimentos corporais graves de novo. Esperei pelo impacto do chão em minhas costas, mas ele não veio.
Pisquei na escuridão e me dei conta de que o peso do corpo de Anamika ainda estava sobre mim, mas pairávamos no ar, a centímetros do chão. Seus cabelos longos caíam à nossa volta, envolvendo-nos em uma tenda que cheirava a flores de lótus e jasmim. Nossas pernas estavam entrelaçadas e eu a abraçava com força, as mãos espalmadas em suas costas e cintura. Esticando o pé para baixo, toquei o chão.
— Pode nos soltar agora, Ana.
Ela nos baixou devagar até o solo e fiquei aliviado ao ver que estávamos bem longe da efusão de ácido.
— Você está bem? — perguntei, puxando seus cabelos para trás, para poder ver seu rosto.
— Sabia que seus olhos brilham no escuro? — indagou ela, inclinando a cabeça para olhar dentro de meus olhos.
Franzi o cenho, surpreso com a pergunta.
— Não. Nunca me disseram isso.
De repente fiquei muito consciente da posição em que nos encontrávamos. Cada centímetro de seu corpo curvilíneo estava pressionado contra o meu. Coxa contra coxa, barriga contra barriga, peito contra peito. Suas mãos tremiam, apoiadas em meu peito.
— Er... desculpe — falei, saindo, desajeitado, de baixo dela. — Venha. Deixe-me ajudá-la a levantar.
— Por que está se desculpando? — perguntou ela ao ficar em pé.
— Eu não pretendia… Sei que você não gosta… — comecei, hesitante. — Serei mais cuidadoso no futuro — completei.
— Cuidadoso? — Ana olhou o caos à nossa volta. — Você não fez a rocha cair. Fui eu.
— É, mas eu agarrei você, puxei-a da rocha, e acho que com isso causei mais danos do que se tivesse deixado você se cuidar.
Levei a mão à nuca e suspirei enquanto ela me olhava, confusa. Tentando explicar melhor, eu disse:
— Sinto necessidade de tomar conta de você e protegê-la, Ana. Esqueço que você é poderosa o suficiente para se manter a salvo.
— É verdade — concordou ela.
Saímos juntos da caverna e, com um gesto de sua mão, as pedras encheram toda a estrutura.
— Mas às vezes até mesmo uma deusa quer que tomem conta dela.
Fitei-a, sentindo que ela queria dizer mais, porém Ana se calou. À medida que retornávamos, passando por todas as armadilhas que tínhamos preparado, o chão subia atrás de nós, seguindo nossas pegadas e ocultando a Caverna de Kanheri, enterrando cada passagem como se nunca tivesse existido. Mesmo se alguém tentasse explorá-la no futuro, não encontraria evidência alguma de que a deusa ou sua profecia tinham estado ali algum dia.
Quando chegamos a seus insetos, ela os chamou. Eles a cercaram, subindo uns nos outros para chegar mais perto, como se fossem limalhas muito feias respondendo a um ímã. Suas pernas aderentes e mandíbulas estalando não pareciam incomodá-la em absoluto. Fiz uma careta quando um deles subiu em seu ombro e desapareceu sob seus cabelos. Ela murmurou instruções e abriu um buraco na caverna acima de nós, expondo o céu noturno. Como se fossem uma só, as criaturas bateram asas e subiram em uma nuvem, desaparecendo na escuridão acima ao obedecer à sua deusa.
— Para onde você os mandou? — perguntei.
— Para um tempo e lugar onde vão prosperar.
— E onde fica isso? — perguntei, esperando não encontrá-los em minha cama quando chegássemos em casa.
— Mandei-os para o Egito — respondeu ela. — Sua magia será apreciada por lá.
— Entendo — retorqui, sem querer realmente saber quão mágicos eram seus insetos recém-criados.
Enquanto andávamos, pensei em como Ana parecia saber tantas coisas. Ela me lembrava Kadam nesse aspecto. Só porque eu também tinha acesso ao amuleto não significava que entendesse os movimentos do universo. Talvez eu fosse apenas um animal burro — um soldado ignorante nos caminhos dos estudiosos.
Ren me chamara de corajoso, e em algumas situações eu era, mas a ideia de viajar entre as estrelas, sendo desfeito pelo tempo e vendo todas as coisas passadas, presentes e futuras, me perturbava. Eu tinha pensado que Ana era igual a mim, mas talvez o fato de ser uma deusa desse a ela uma percepção maior. Um dia, quando eu de fato tivesse coragem suficiente, perguntaria a ela sobre isso.
— E agora? — indaguei quando terminamos nosso trabalho.
Ela examinou a lista.
— Aqui diz para esvaziarmos o complexo depois da batalha com Lokesh e ajudar os baigas.
Como uma observação, Kadam adicionou: “Diga a Kishan que é a batalha das balas duras.” —
Anamika franziu o cenho.
— Ele quer que experimentemos doces?
Eu ri.
— Não. As balas eram tão duras que foram usadas como armas. Então fomos nós que fizemos tudo aquilo desaparecer. Kadam tinha dito que todas as coisas no complexo sumiram misteriosamente. Ele deduzira que tinha sido uma ação de Lokesh. — Respirando fundo, continuei: — Acho que posso tomar a frente disso. Mas preciso cronometrar com cuidado para não deparar comigo mesmo.
Depois de nos levarmos de volta ou, acho eu, para a frente, partindo do tempo da caverna, fizemos uma pausa nas cercanias da floresta dos baigas e observamos um Lokesh cheio de ira sair correndo do prédio. Se Ana ficou chocada ao ver veículos, luzes ou tecnologias modernas, não demonstrou. Ela era notavelmente resiliente nesse aspecto.
Começamos pelo lado de fora. Todo homem ferido que servia a Lokesh foi mandado para os arredores de uma cidade grande próxima. Anamika não queria ajudá-los demais. Os baigas que ela encontrou foram curados e se arrastaram atrás de nós como servos fiéis, comentando sobre a deusa que os salvou e ajudando-nos a vasculhar os destroços para procurar os mortos em combate.
Ela ignorou praticamente todas as tentativas de envolvê-la e desmontamos depressa os equipamentos na sala principal. A madeira danificada das torres da guarda se transformou em cinzas e foi carregada pelo vento. As peças de metal do prédio derreteram e vi quando o chão se abriu para engolir o que outrora fora uma sala repleta de computadores, cabos, registros de vídeo e câmeras.
Quando chegamos à área cheia de doces, Ana pegou uma bala dura vermelha e a rolou entre os dedos com uma sobrancelha erguida. Coloquei uma na boca, mordi e me arrependi.
— Ai! — exclamei, com o doce embolado na boca.
— Como Kelsey criou isto? — perguntou ela.
— Com o Fruto Dourado.
— Criativo. — Ana encostou a língua no doce, cautelosa. — Eu gosto — disse. — Talvez, se lamber em vez de morder, você aprecie o sabor.
— É — falei, observando seus olhos se fecharem, o rosto fascinado, enquanto lambia o doce.
Senti a garganta se fechar de repente e quase sufoquei com minha bala dura. Quando ela não estava olhando, cuspi o doce na pilha que rolava entre nossas pernas e usei o poder do amuleto para transformar aquilo tudo em uma massa de pó cintilante que Ana varreu porta afora com um floreio da mão. O doce que ela segurava também se transformou e ela soprou o pó de sua mão. Tentei ignorar a atraente mancha vermelha em seus lábios enquanto seguíamos em frente.
Na outra ponta do prédio, chegamos à prisão onde Lokesh mantivera Ren. Ana parou por um instante na cela onde Ren sofrera por meses e correu a ponta dos dedos pelas barras. Começou o trabalho de fazer desaparecer tudo que havia dentro do recinto a partir da cela dele. Fiquei de lado, completamente hipnotizado pelas ferramentas que Lokesh tinha usado para ferir Ren.
Não tenho certeza do que me deu. Tinha estado ali antes, sabia o que Ren tinha enfrentado. Na época, porém, havia me concentrado em Kelsey e em tirar Ren dali. Agora, vendo as evidências da brutalidade que Lokesh infligira a meu irmão, não podia mais fechar os olhos ao que tinha sido feito a ele. As evidências se achavam diante de mim em fios de sangue seco sobre a mesa. Minhas mãos tremiam ao tocar com a ponta dos dedos o cabo de uma maça. Ela se moveu ligeiramente e encostou em uma das quatro algemas sobre a mesa. A corrente presa a ela retiniu de leve.
De repente, foi como se eu estivesse de volta ao circo, farejando sua ansiedade, seu medo. O sangue começou a latejar em minhas veias e a respiração ficou presa em meus pulmões. Aquela cena toda foi de mais para mim. Por que eu não o resgatara? Por que não voltava no tempo agora e impedia isso? Eu não tinha nada de corajoso. Era um covarde. Fraco e frouxo demais para proteger aqueles que amava da dor desnecessária.
Joguei os instrumentos para o lado e, com um poderoso golpe, atirei a mesa para o outro lado da sala. Ela se despedaçou contra a parede. Depois de me transformar em tigre, destruí armários e objetos de madeira com as garras e quebrei uma cadeira com os dentes.
Alguma coisa tocou meu ombro; girei, rosnando, e rugi alto. O cheiro era fresco, como de flores, mas eu estava ensandecido de raiva e não queria me acalmar. Golpeei algo macio e escutei um grito. Com aquilo fora do caminho, retornei a minha tarefa destruidora e, quando não havia mais nada ao alcance do tigre, reassumi a forma humana.
Ao ver todos os ganchos, todas as serras e todas as facas a meus pés quebrados ou lançados longe o bastante de meu campo de visão, desabei no chão, o peito arfando. A dor invadiu meus pulmões e meu coração, como se uma das facas quebradas tivesse sido cravada em meu peito. E ali ficou, denteada e afiada, cortando minha respiração ao meio.
Um soluço escapou de meus lábios e, uma vez que o primeiro deixou meu corpo, outros se seguiram. Com as costas apoiadas na parede, puxei as pernas dobradas para o peito, pressionei a cabeça entre as mãos e chorei com a angústia mais profunda que já sentira. O vasto mundo, todo o tempo e o espaço estavam abertos para mim e, mesmo assim, me sentia confinado em uma prisão que eu mesmo criara. Queria desesperadamente modificar o que acontecera com Ren, no entanto, Kadam me disse que eu não podia. Só me era permitido mudar as coisas que eu já tinha feito. Se eu tivesse tido a coragem de salvar Ren, se tivesse cumprido de verdade minha missão, ele nunca teria sofrido nas mãos de Lokesh. Mas ele sofreu. E suas desgraças eram agora duas vezes minha culpa. Certa vez, na floresta com Kelsey, eu falhara com Ren e ele fora capturado por Lokesh. E agora aqui estava eu de novo, permitindo que sua tortura e sua angústia continuassem. Como ele poderia me perdoar pelo que eu tinha feito? Parecia que eu estava destinado a falhar com todos.
Alguma coisa macia tocou meu braço e o frescor de dedos tirou os cabelos de minha testa. Ana se agachou diante de mim. Sua mente tocou a minha, que estava sobrecarregada, e por um tempo ela observou meus pensamentos em silêncio, como se à distância. Em vez de tentar racionalizar ou mudar o que eu estava sentindo, ela simplesmente me permitiu ser. Deixou que a tristeza se instalasse entre nós e dividiu seu peso comigo.
Sem ter plena consciência do que estava fazendo, estendi a mão para ela, necessitando de sua proximidade, tanto física quanto mental. Seus pensamentos se fecharam para mim por um instante quando ela se reposicionou em meus braços. Deixei cair as mãos e recuei mentalmente, achando que ela estava desconfortável. Mas um momento depois sua mente estava aberta para mim de novo. Ela passou os braços a meu redor e acariciou minhas costas em pequenos círculos enquanto eu a apertava de encontro a mim.
— Shh, Sohan — disse ela. — Volte para mim, meu tigre.
Sua voz abrandou e aliviou meus pensamentos hesitantes. Seus lábios tocaram minha têmpora e minhas sobrancelhas enquanto ela cobria minha testa de beijos leves. Senti um bálsamo refrescante correr por minhas veias. O efeito era quase entorpecente. Os limites de meu campo de visão se tornaram indistintos e tudo dentro de mim ficou dormente.
— O que... o que você fez? — perguntei.
— Estou fazendo a dor diminuir — respondeu ela, as mãos segurando meu rosto.
Ana mordeu o lábio e respirou fundo. Hesitante, a princípio, ela aproximou o rosto do meu, devagar, e então sua boca, trêmula e cheia, tocou a minha. O beijo durou apenas um momento e fiquei chocado demais ou incapaz de responder, mas jamais esqueceria a sensação de sua boca na minha.
Seus lábios eram almofadas, macios e doces como pétalas de rosas. A boca maleável e hesitante de Ana era como um bálsamo calmante e, embora eu permanecesse imóvel, uma parte profunda de minha alma queria absorvê-la e esquecer tudo que eu era e tudo que eu sabia. O beijo mágico levou embora o resto de minha dor, deixando atrás de si uma bem-aventurada paz e um desejo de algo que eu sabia ser impossível.
Quando se afastou, ela inclinou a cabeça enquanto olhava para minha boca, como se a se perguntar, assim como eu, exatamente como e por que aquilo acontecera. Mas, para ser sincero, eu não queria saber. Por enquanto, só queria fingir que havia uma bela garota que gostava de mim e queria estar comigo. Por mais que tentasse ignorar as razões, um pensamento me passou pela cabeça, e uma sensação alarmante me percorreu, expulsando o encanto do momento que acabara de experimentar.
— Não quero me esquecer — declarei, presumindo que ela estava entorpecendo mais do que a dor. Minha voz soou rouca e grave.
Ela não respondeu de imediato e eu me mexi. Suas mãos se afastaram, mas peguei uma delas e a retive.
Por fim, ela retorquiu:
— Eu não o livrei de sua dor de verdade, Sohan. Ao menos não totalmente. Eu só... só a estou dividindo com você. — As palavras dela eram fracas e sem firmeza. — Eu nunca vou tirar suas lembranças.
Quando ela se levantou e sacudiu o pó das mãos, eu me perguntei se estaria falando da tortura de Ren ou do beijo. Eu me lembrei de ambos e, francamente, não sabia dizer qual deles me afetava mais.
Após demolirmos tudo no complexo, exceto a estrutura principal, levamos os baigas restantes conosco enquanto procurávamos sua tribo. Avançamos um dia no tempo, para que as antigas versões de mim, Kadam, Ren e Kelsey pudessem fugir, e depois entramos no acampamento dos baigas com os membros da tribo que foram resgatados.
Filhos correram para pais que eles acreditavam estar mortos e mulheres deram boas-vindas a maridos e filhos. Eles falaram da sorte de encontrar deuses duas vezes em tantos dias. O gunia me olhou, pensativo. Eu tinha me esquecido de mudar minha aparência, mas ele apenas se curvou e comentou sobre como estava contente em ver que eu tinha encontrado uma deusa para mim. Dei um grunhido em resposta e, depois que ele concordou com a relocação de sua tribo, transportamos o grupo todo, com cabanas e tudo, para um tempo e um lugar diferentes.
Ana me garantiu que estariam bem escondidos e que agora poderiam viver suas vidas como bem desejassem, sem a interferência dos homens do tempo de Kelsey. Olhei ao redor da nova selva me perguntando em que tempo estávamos exatamente, mas decidi que, no fundo, não importava. Depois de usar seu amuleto para criar um curso d’água perene, lavouras, muitos animais na floresta para eles caçarem e um suprimento de comida, ela os instou a chamarem, se precisassem, e ela viria, se possível.
Satisfeitos, mergulhamos nas sombras da selva e Ana examinou a lista.
— Você tem energia suficiente para cumprir mais uma tarefa antes de descansarmos? — perguntou.
— Depende de quanto tempo vai demorar — respondi.
— Acredito que esta será breve — disse ela, enigmática.
Então pegou minha mão e fomos levados embora do novo lar dos baigas na selva. O chão se solidificou sob meus pés e uma cabana familiar entrou em foco.
— A cabana de Phet? — Franzi a testa. — O que temos a fazer aqui?
— Diz aqui que você deve assumir o papel de Phet para poder guiar Kadam.
— Espere... O quê? — perguntei, confuso.
— Só diz isso — respondeu ela.
Naquele momento, Kadam surgiu de trás da cabana. Meu coração disparou quando pensei ter estragado a linha do tempo, mas Kadam nos cumprimentou calorosamente.
— Muito bem — disse ele. — Eu queria falar com vocês antes de entrarem.
— O que exatamente você quer que façamos? — perguntei.
— Posso ver a lista, minha cara? — Ele estendeu a mão para Ana e ela a entregou de bom grado. Ele examinou os itens riscados. — Excelente. Vocês estão fazendo progressos — elogiou.
O vento aumentou e a grama alta perto da cabana sussurrou segredos como as ondas sibilantes do oceano. Eu queria que tudo silenciasse. Estava cansado de mistérios envoltos em charadas.
— Foi aqui que encontrei Phet pela primeira vez — disse ele.
— Não entendo — retruquei. — Pensei que você fosse Phet.
— Sou, na maior parte do tempo. Mas não na primeira vez. A primeira aparição de Phet era você. — Ele percebeu minha expressão e me dirigiu um sorriso breve e compreensivo. — Entrem, por favor; vou explicar.
Entramos na cabana e bati minha cabeça na entrada, como de costume. Não entendia por que alguém faria uma porta tão pequena. O interior me pareceu um pouco diferente da última vez que estivera ali. Lembrava-me de uma pia, de armários, frascos cheios de ervas e temperos em pó, até de uma banheira. A mesa e as cadeiras ainda estavam ali, assim como uma cama improvisada e uma lanterna.
Pensando melhor, não me lembrava de ter visto o jardim de Phet nem o varal. Havia madeira empilhada lá fora e um lugar pequeno para acender o fogo, mas parecia que a cabana não era usada havia muito, muito tempo. O musgo tinha crescido sobre as pedras e o telhado estava caindo aos pedaços.
— O que aconteceu com este lugar? — perguntei.
— Nada — respondeu Kadam. — Nenhuma das melhorias de que você se lembra foi feita ainda.
Com a luz que se infiltrava pela porta, eu podia ver os centímetros de poeira e as plantas passando entre as fendas onde as paredes encontravam o chão. Respirei fundo e soltei o ar.
— Animais já viveram aqui — afirmei.
Kadam sorriu.
— É possível. Esta cabana pode ser uma toca muito aconchegante. — Seus olhos me seguiram enquanto eu andava pelo pequeno espaço, olhando tudo. — Nada vive aqui há algum tempo, creio.
— É verdade — admiti. — Nenhum dos cheiros é fresco.
Ele assentiu, como que satisfeito com minha avaliação.
— Vamos nos sentar? — sugeriu, indicando a mesa com um gesto.
Tocando o amuleto em sua garganta, ele congelou o tempo que nos rodeava para garantir que seu outro eu não aparecesse por acaso enquanto falávamos.
Tomamos nossos lugares. Ana sentou-se a meu lado e usou o Fruto Dourado para nos oferecer uma pequena mesa de chá. Kadam sorriu, deliciado.
— Você se lembrou dos meus favoritos — disse a Ana enquanto enchia a caneca.
Olhei para ela e vi um rubor feliz subir por seu rosto.
— Lembro-me de tudo que você me ensinou.
— Você foi uma excelente aluna — disse ele. — Muito mais maleável do que este aqui — acrescentou, acenando com a cabeça para mim. — Talvez agora você já saiba como ele pode ser teimoso.
Ana riu, e percebi que gostava tanto daquele som que esqueci de me irritar com o fato de a piada ser sobre mim. Depois de comermos, pedi:
— Diga-me o que devo fazer.
Kadam empurrou o prato cheio de migalhas e juntou os dedos das mãos.
— Você deve me orientar para encontrar Kelsey e trazê-la aqui, onde eu, como Phet, vou aconselhá-la para que ela e Ren encontrem a Caverna de Kanheri.
— Então eu lhe digo onde ela está?
— Não. De modo algum. Seu principal objetivo aqui é me dar esperança. Dar esperança a Ren. Depois de ver Phet e descobrir que há uma profecia, vou visitar Ren ao longo dos anos e, embora não consiga libertá-lo, vou dizer-lhe que existe um modo de quebrar a maldição, se tivermos paciência suficiente para esperar por isso.
— Você quer dizer esperar por ela.
— É, exatamente. Eu já sussurrei a ideia de que existe um xamã nesta selva para alguns de meus antigos contatos e eles compartilharam a informação com meu outro eu. Tracei percursos e vasculhei esta selva por muitos anos antes de descobrir esta cabana. Fica longe de todas as estradas, mesmo no tempo de Kelsey.
Soltei um suspiro.
— Bem, então por que eu?
— Você conhece tanto quanto eu os perigos de cruzar o caminho consigo mesmo. Será mais seguro para mim não encontrar uma versão futura ou passada de mim mesmo. A propósito, não se esqueça de me dizer que, depois que a garota escolhida for encontrada, ela e seu tigre deverão vir aqui sozinhos. Devo ficar bem longe enquanto você estiver atuando como Phet nesse momento.
— Entendo. Então quando você vai chegar?
— Alguns instantes depois que eu reiniciar o tempo. — Kadam levantou-se e colocou a mão em meu ombro. — Vocês dois estão se saindo muito bem. Desejo-lhes sorte ao completar o restante da lista. — Ele se inclinou para meu ouvido. — E não se esqueça de trazer aquele pergaminho em suas próximas aventuras.
Fiz uma careta ao escutar a palavra aventuras, mas assenti com a cabeça. Ele reiniciou o tempo, depois desapareceu com um estalo e ficamos sozinhos.
— Pode me emprestar o lenço? — perguntei. — Se Kadam vai chegar logo, é melhor eu mudar de forma.
— Posso ficar e assistir? — perguntou Ana enquanto enrolava o lenço em meu pescoço. Eu tinha me abaixado e nossos rostos estavam muito próximos.
Meus olhos se desviaram para seus lábios e, quando ela se aproximou, eu recuei e pigarreei.
— Acho que pode. Mas fique invisível.
Ela afastou-se no tempo, seu corpo tremeluzindo e depois desaparecendo quando os fios do lenço começaram a trabalhar, transformando-me no homem curvado chamado Phet. Quando terminou, toquei várias vezes minha túnica rústica. Corri os dedos por minha cabeça calva e passei a língua nos lábios, sentindo as lacunas onde os dentes deveriam estar.
Ouvi uma risadinha vir do canto da sala e virei-me, quase tropeçando em minhas pernas magricelas.
— Não se parece nada com você, Sohan — observou ela.
Dando-lhe um sorriso largo e desdentado, perguntei:
— Você sente mais falta dos meus cabelos ou dos meus dentes?
Uma mão fantasmagórica tocou meu braço.
— Humm. Eu diria que dos seus músculos. — Ana sacudiu meu braço. — Está magricela como uma galinha.
Eu ri e passei uma das mãos ao redor dela, surpreso por encontrar sua cintura mais alta do que costumava ser. Aparentemente, eu encolhera tanto na altura quanto nos músculos.
— Acho que ainda sou forte o suficiente para lutar com uma deusa.
Ela gritou e se afastou. Eu estava prestes a procurá-la com meu faro quando ouvi uma voz.
— Olá! — chamou alguém lá fora.
— Entre! — gritei com minha voz normal. Então me lembrei que Phet não falava assim. — Venha! Venha, meu jovem — falei em um tom cantado e abri a pequena porta.
Um Kadam mais jovem enfiou a cabeça pela porta.
— Obrigado — disse ele. — Faz muito tempo que ninguém me chama de jovem.
Olhando para ele do jeito que eu achava que um falso sábio olharia, eu disse:
— Percebo que você é mais velho do que sua idade e, no entanto, jovem para este mundo.
— Suponho que sim — disse Kadam. — Tenho percorrido um longo caminho.
— Viajou longe. Ah, sim. Phet vê. Você é — fiz uma pausa, tentando evocar Phet — muito bem-vindo. Bebida? — ofereci.
— Por favor, obrigado — respondeu ele ao se sentar.
Virei-me para o espaço que ainda viria a ser a cozinha e torci as mãos por um momento, e então senti algo sendo enfiado entre elas. Anamika preparara uma caneca de chá fumegante. Dei tapinhas em sua mão invisível e me dirigi à mesa, pousando a caneca na frente de Kadam.
— Aqui — eu disse enquanto ele pegava a caneca. — Beba tudo, bom para você. Agora conte a Phet de suas viagens.
— Sim, bem, estou na selva à procura de um xamã.
— Xamã? — Inclinei a cabeça para o lado. — O que é xamã?
— Um homem que conhece as respostas.
Eu ri.
— Todos os homens conhecem algumas respostas. Todos os homens são xamãs?
— Não. — Kadam sorriu. — Procuro um homem que conheça uma resposta específica. Sabe, existe um tigre, um par deles, na verdade...
— Ah! — falei. — Você deseja quebrar a maldição do tigre. Você procura remédio.
Ele pousou a caneca na mesa bruscamente.
— Você sabe disso? — perguntou, a esperança iluminando sua expressão.
Senti uma mão fantasmagórica em meu ombro e um calor reverberou por meu corpo, preenchendo-me.
— Linda deusa guerreira, Durga, é forte. Ela fala ao meu ouvido. Muito suaves são suas palavras, mas homens inteligentes escutam mulheres. Principalmente deusa.
Os cabelos invisíveis de Ana caíam sobre meu ombro enquanto ela soprava suavemente em meu ouvido. Pigarreei alto, esfregando o lóbulo extralongo de minha orelha com os dedos, e prossegui:
— Ela gosta de tigres, mas só uma garota especial pode ajudar. Garota protegida da deusa. Garota ama tigre. Alivia dores e sofrimentos dele.
— Como encontro essa garota? — perguntou Kadam.
Ele pegou um bloco de papel e começou a fazer anotações rápidas.
— Phet sonha tigres. Um claro como lua. Um escuro como noite. Garota é devotada, excepcional. Ela vai encontrar seu tigre. Libertar ele. Então você sabe. — Minha voz se suavizou quando me lembrei de Kelsey: — Garota está sozinha, sem família. Ela se preocupa com tigre. Seu cabelo é marrom como casca de árvore, seus olhos, escuros e suaves. Traga garota especial para mim. Vou orientar mais.
Foi então que percebi que Anamika tinha se afastado. Virando a cabeça, tentei farejar seu cheiro, mas ela estava se escondendo de mim. Eu continuei:
— Quando ela vem, você fica para trás. Só garota e tigre podem entrar na selva. — Franzindo o cenho, concluí: — Ela é a protegida de Durga, que quebra a maldição do tigre.
Ao mencionar a deusa, estendi meus dedos mentais, tentando me conectar com ela, mas Ana se desligara de mim.
— Sim — disse Kadam. — Vou trazê-la. Obrigado. Muito obrigado!
Com isso, ele saltou da cadeira, inclinou a cabeça respeitosamente, pôs a mochila no ombro e partiu.
Assim que ele se foi, mãos fantasmagóricas agarraram minha túnica fina e me jogaram contra a parede.

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