12 de setembro de 2018

25 - Uma caverna e um circo

Nós nos rematerializamos em uma densa floresta. O ar estava quente, mas nuvens se agrupavam no alto. Inspirei fundo e reconheci o lugar na mesma hora.
— Oregon — constatei. — Por que estamos aqui?
Anamika começou a avançar em meio às árvores e disse, sobre o ombro:
— Temos de libertar Ren.
Franzi a testa e segui em seu encalço.
— Libertá-lo? De que exatamente?
— Ele está preso como tigre. Isso é algo que você lhe impôs quando ele foi capturado, não é?
— É, mas...
— Estamos aqui para libertar seu lado humano. Diferentemente de como você está agora, ele poderá sustentar a forma humana por tempo limitado, mas isso lhe dará a oportunidade de que precisa para, enfim, quebrar a maldição.
Fiquei paralisado.
— Isso é quando Kelsey o conhece no circo.
— É o que diz o papel. — Ana voltou-se para mim. — O que é exatamente um circo?
Nunca tendo ido pessoalmente a um, mas tendo ouvido em primeira mão daqueles em quem confiava, eu disse:
— Kelsey e Ren têm opiniões opostas. Talvez devêssemos descobrir por nós mesmos.
— Certo — disse ela.
Quando chegamos ao limite das árvores e vi a grande tenda à nossa frente e o estacionamento cheio de carros e trailers, toquei o cotovelo dela.
— Que tal mudarmos de roupa para nos misturarmos às pessoas?
Ana assentiu e, embora Kelsey ainda não tivesse conhecido nenhum de nós àquela altura, decidimos que seria melhor alterar nossa aparência também. Depois de usar o lenço, parecíamos um casal jovem e comum do Oregon que tinha resolvido ir ao circo. Pelo menos era o que eu esperava. Minhas experiências no país de Kelsey me mostraram que era possível ir à maior parte dos eventos usando o que ela chamava de jeans. Ana esfregou as mãos nas coxas de sua calça, sentindo-se muito desconfortável.
— Tem certeza de que as mulheres usam esta coisa nesta época? — perguntou.
— Cobre muito mais do que o vestido que você usou no casamento de Ren — comentei.
— É, mas... — Ana chegou mais perto e sussurrou em meu ouvido: — ... mostra minhas formas.
Minhas sobrancelhas se juntaram quando recuei um passo e a olhei de cima a baixo. O jeans que se colava a seu corpo, sem dúvida, revelava suas formas. Embora estivéssemos disfarçados como outras pessoas, seu corpo havia permanecido praticamente o mesmo. Permiti a mim mesmo apreciar a visão por alguns segundos a mais enquanto ela se remexia, desconfortável.
— Você prefere uma saia? — perguntei.
Ana olhou para suas longas pernas, considerando a ideia.
— Não — disse por fim, com um suspiro. — Se é isto que as mulheres usam, é melhor me enquadrar.
— Sim — concordei.
Com um aceno de cabeça, ela aceitou minha mão estendida e eu a conduzi para a frente da tenda, onde encontramos um jovem vendendo bilhetes.
— Quanto? — perguntei a ele.
— Dez cada bilhete. Vinte no total — respondeu ele.
Soltei um grunhido, tateando os bolsos. Ana me entregou uma grande pedra preciosa e eu sacudi a cabeça lentamente. Uma família entrou na fila atrás de nós.
— Devo ter deixado a carteira no carro — falei. — Já voltamos.
Dando meia-volta, procurei uma placa indicando onde poderia ficar a máquina de dinheiro. Não sabia se conseguiria fazê-la funcionar usando nossos poderes, mas não custava tentar.
Ao encontrá-la, mostrei-a a Ana, que bateu de leve na lateral.
— Onde fica a fechadura? — perguntou.
— Não tenho certeza — respondi. — Além disso, existem câmeras. Se ficarmos muito tempo aqui experimentando, vamos alertar o banco.
— Câmeras? Banco?
— As câmeras tiram o seu retrato. Como alguém desenhando sua imagem. Mas, em vez de um artista, é uma máquina que faz isso. E o banco é a empresa proprietária da máquina.
— Entendo.
Eu não estava muito certo se ela entendia.
— Você pode me emprestar o amuleto? — perguntei.
Ela o tirou do pescoço e me entregou. Segurei-o com firmeza, dizendo-lhe o que eu queria, mas a máquina não fez mais do que emitir um zumbido. Quando tentava de novo, ouvi Ana dizer:
— Muito obrigada.
Olhei por sobre o ombro e a vi conversando com um rapaz que parecia um universitário. Ele entregou alguma coisa a ela e sorriu ao se afastar, andando de costas, até quase tropeçar em um bloco de cimento do estacionamento.
— O que ele queria? — perguntei.
— Ele me deu vinte — respondeu Ana.
Olhei para o dinheiro apertado em sua mão e ela o estendeu para mim. Havia mais de 20 dólares em sua mão. Parecia que o rapaz tinha esvaziado a carteira. Ali estavam várias cédulas, totalizando pelo menos 300 dólares, assim como seu cartão de visita com o número do telefone circulado.
— Isso é suficiente? — perguntou ela.
— Mais do que suficiente.
Estendi a mão e ela a pegou.
— Por que você está emburrado? — perguntou. — Não está feliz porque temos os vinte?
— Estou. Só não gosto da ideia de rapazes ficarem dando o número do telefone deles para você.
— Não sei o que isso significa.
— É, eu sei que você não sabe. Significa que ele gosta de você.
— Se não gostasse, então não teríamos os vinte.
— Não é que eu não queira que as pessoas gostem de você. Sei que elas a amam. Elas são atraídas por você.
— Elas reagem à deusa.
— É, mas é mais do que isso. Mesmo antes de você se tornar deusa, os homens a seguiam cegamente.
— Isso é ruim?
— Não é, não. — Corri a mão pelos cabelos. — Os homens devem segui-la. Só não quero que eles tenham ideias.
— Ideias do tipo...?
— Ideias de romance.
Ana me olhou demoradamente enquanto eu comprava os ingressos. Quando lhe ofereci o braço, ela aceitou e me seguiu, entrando no circo. Assim que nos sentamos, ela finalmente falou:
— Você não quer que eu experimente um romance?
Deixei escapar um suspiro profundo.
— Não pensei que você quisesse isso. Não depois do que aconteceu.
— O que aconteceu comigo foi há muito tempo.
— Não é a sensação que tenho.
— Não?
Um homem passou com um grande recipiente cheio de caixas vermelhas e brancas de pipoca. Levantei a mão e comprei uma.
Abrindo-a, inclinei-a na direção de Anamika, que cobriu minha mão com a dela e levou a caixa ao nariz.
— O que é isso? — perguntou.
— Isso se chama pipoca. Esta, na verdade, é pipoca doce, que é ainda melhor do que a salgada. — Cutuquei seu ombro. — Experimente.
Com cuidado, ela pegou um grão e o colocou na ponta da língua. Sorri diante da expressão de surpresa em seu rosto quando ela o mordeu e ouvi o ruído.
— Gostou? — perguntei.
Ela assentiu e posicionei a caixa para que ela pudesse pegar mais. Quando enchi a mão depois dela, Ana protestou com um gritinho e a boca cheia e puxou a caixa de minha mão. As pipocas ameaçaram cair de sua boca e ela deu um empurrãozinho com as costas da mão, mastigando rapidamente, e me ameaçou de morte se eu pegasse mais.
Eu ri e fiz uma tentativa, de brincadeira, de tirar a caixa dela, mas Ana habilmente a afastou de mim, e, quando a vi murmurando disfarçadamente e a caixa tornando a se encher sozinha, adverti:
— Melhor não deixar nenhum desses mortais ver o que você está aprontando.
Ela limitou-se a sorrir e reclinou-se, saboreando seu lanche.
As pessoas iam entrando na tenda, ocupando os assentos, e Ana sugeriu que mudássemos para dois lugares algumas fileiras à frente, para ver melhor. Quando tornamos a nos acomodar e ela já havia acabado com metade da caixa de pipoca, Ana girou um grão entre os dedos e disse:
— Você não me perguntou sobre Sunil.
Dei de ombros.
— Pensei que a cena tivesse sido autoexplicativa. Você queria vê-lo feliz. Sinceramente, fiquei contente em ver que Nilima encontrou o amor. Ela é uma garota incrível. Acho que vão dar certo juntos.
— Então você aprova o... romance deles?
— Aprovo. Você não?
Ela pensou por um momento na resposta e então disse:
— Eu amo o meu irmão. Ele foi um companheiro sincero e leal e vai se dedicar a Nilima exatamente como fez comigo. A segurança dela nunca mais estará em risco.
Assenti, decidindo não elaborar sobre os perigos do tempo de Kelsey.
— Tive a impressão de que levou muito tempo para ele ganhá-la. — Quando ela franziu a testa, confusa, expliquei: — Para ele convencê-la a se casar com ele.
— Ele é persistente — disse ela.
Dando uma risadinha, falei:
— Eu me lembro. Nesse caso, a persistência dele deu resultado.
— É, mas ainda assim levou mais de dois anos, desde o momento em que ele me deixou, para conquistá-la completamente.
Soltei um suspiro. Era um tempo de espera muito longo. Eu os vira se beijarem no casamento de Ren, o que, pelos meus cálculos, fora apenas alguns meses após o retorno deles. Nilima fora teimosa. Aparentemente, os pensamentos de Ana tinham seguido a mesma linha que os meus, porque a pergunta que ela fez em seguida foi:
— Se o coração dos dois bate pelo outro daquela forma, por que eles hesitaram em formar um vínculo?
— Pode haver várias razões.
— Tais como...?
— O momento, em primeiro lugar. Às vezes, a vida se põe no caminho.
— Não compreendo essa razão.
— Ela se aplica mais a este tempo do que ao nosso. Às vezes, uma pessoa quer terminar os estudos enquanto a outra trabalha em um país diferente.
— Uma separação física?
— É.
— Isso não me impediria.
— Eu... eu imagino que não — falei lentamente, não gostando do caminho que a conversa estava tomando.
— O que mais? — perguntou. — Que outras coisas dificultam o romance?
— Às vezes, o sentimento de uma pessoa é mais forte que o da outra.
Ela assentiu sabiamente, como se eu tivesse lhe dado a explicação da origem do universo.
— E a terceira?
As luzes diminuíram e a música começou, e nunca me senti tão aliviado em ser interrompido. Um homem grande usando uma maquiagem exagerada brilhava sob os refletores enquanto anunciava os números. Ana logo aprendeu a arte de aplaudir, começando o processo cedo demais e o finalizando tarde demais para ser natural, mas seus olhos estavam fixos no espetáculo. Ela não entendeu nada dos palhaços, mas adorou os acrobatas e divertiu-se especialmente com os cães, me fazendo prometer que encontraria um para ela. Tentei lhe dizer que cães e tigres quase nunca se dão bem, mas ela agitou a mão no ar em um gesto para que eu me calasse. Nesse momento, captei um cheiro, um cheiro humano familiar, o que era surpreendente, considerando as grandes quantidades de pipoca, algodão-doce e cachorro-quente na área.
Esquadrinhando a multidão, finalmente a avistei alguns bancos abaixo. Ela usava um traje brilhante e prendeu uma mecha solta de cabelo atrás da orelha. A indefectível fita estava amarrada na ponta da trança. Minha respiração ficou presa e a pulsação no pescoço se acelerou.
— O que foi? — perguntou Ana, então seguiu meus olhos até a pessoa mais abaixo, sentada sozinha. — É ela? — indagou suavemente.
Fiz que sim com a cabeça. O suor brotou na palma de minhas mãos, então as enxuguei nas coxas e apoiei os punhos fechados nos joelhos, não percebendo, até Ana tocar o dorso de uma delas, que minhas mãos ficaram brancas.
— Ela não vai nos reconhecer — sussurrou Ana em meu ouvido.
Virando a mão, agarrei seus dedos e ela deslizou um pouco mais para perto de mim no banco. Não desviei os olhos de Kelsey até captar outro cheiro. Esse, inconfundível. Minhas narinas se dilataram. Ouvi um suave rosnado, o ruído de garras e o resfolego de irritação antes que ele fosse trazido para a arena.
Uma música selvagem soou quando o homem apareceu para anunciar o ato final. As palavras repercutiram em meus ouvidos como uma canção que se repetisse indefinidamente.
“... tirado das selvas indômitas da Índia e trazido para os Estados Unidos.”
Os holofotes disparando raios de luz para todos os lados me deixaram tonto. Suor brotou em minhas têmporas. Era como se eu pudesse sentir os olhos da multidão fixos em mim, em expectativa. Os aplausos tornaram-se hostis a meus ouvidos. O barulho me atingia vindo de todos os lados. Meu coração batia freneticamente. Eu tinha a sensação de que estava sendo caçado. Eles iam me matar.
Uma grande gaiola sobre rodas foi trazida para a arena e meus nervos saltaram, desenfreados. Eu precisava escapar. Por trás da cortina, dentro do vagão, o tigre, que também era meu irmão, andava de um lado para outro, nervoso.
As palavras gritadas nadavam em meu cérebro.
Caçador.
Perigoso.
Predador.
“Observem com atenção nosso domador arriscar sua vida para lhes trazer... Dhiren!”
Ren desceu correndo a rampa e entrou na ampla gaiola, rugindo seu desagrado para a multidão. Dei um pulo com o estalo do chicote e lágrimas surgiram em meus olhos. Dedos macios envolveram meu pescoço quente. Uma dormência refrescante percorreu meu corpo àquele toque.
Ana me puxou delicadamente para ela e murmurou em meu ouvido:
— Fique calmo, Sohan. Estou aqui com você.
Senti a pressão de seus lábios em meu rosto molhado e assenti.
Busquei a mão dela, envolvendo-a com a minha, e fiquei apertando seus dedos com nervosismo enquanto assistia ao que se passava na arena. Era como estar preso em um pesadelo.
Eu sabia o que Ren havia sofrido. Ele descrevera para mim várias vezes. Enquanto o número continuava, passei a observar Kelsey. Ela olhava, extasiada com tudo aquilo. Quando o homem com o chicote pôs a cabeça na boca de Ren, apertei os punhos.
— Morda — sussurrei selvagemente.
Ele não fez isso, é claro, apesar de praticamente deslocar o maxilar para se certificar de que seus dentes não machucariam o homem sem querer. Pensei que, se aquele homem era tolo o bastante para pôr a cabeça na boca de um tigre, merecia pelo menos um arranhão pelo incômodo.
Só consegui voltar a respirar quando ele foi levado sob os ruidosos aplausos da multidão — de Kelsey, inclusive.
Para mim, pareceu uma traição ver Kelsey ali sentada, batendo palmas. Ela não fazia ideia do que estava de fato acontecendo. Eu sabia disso. Mas vê-la arrebatada no que, para mim, se tratava de uma exibição tão humilhante era deprimente. Ana manteve-se em silêncio a meu lado, tão ciente de meu estado de espírito quanto eu sempre estava do dela. Eu me sentia melancólico. Indigno. Quantas vezes ele havia se apresentado assim? Com que frequência bateram nele, o açoitaram? Era demais. Era eu o responsável por sua captura. Era minha culpa.
— Sohan — disse Ana e me abraçou.
Enterrei meu rosto em seu pescoço e não me dei conta, a princípio, de que ela estava usando seus poderes. Era uma coisa natural, instintiva, da parte dela. Ana percebeu minha tensão e quis me acalmar à sua doce maneira, e o mundo à sua volta respondeu. Uma brisa leve invadiu a tenda, trazendo com ela os cheiros de seu jardim, que era um de nossos lugares favoritos. As pessoas se viravam para um lado e para outro, perguntando-se se seria algum truque do circo, mas eu sabia o que era. Era o amor incondicional da deusa.
No momento em que Kelsey se virava em nossa direção, canalizei o poder do Amuleto de Damon para nos tornar invisíveis.
Ficamos lá sentados, os braços de Ana à minha volta, mesmo quando a multidão começou a se dispersar. Como não estávamos visíveis, Anamika disse ao lenço para nos devolver nossa aparência. Senti o formigamento em meu corpo enquanto minha forma física se transformava, mas isso não diminuiu em nada a ansiedade que empoçava em minhas entranhas. Kelsey se levantou e começou a trabalhar. Aparentemente, ela estava no serviço de limpeza. Era impressionante a rapidez com que tudo era desfeito e quanta sujeira umas poucas centenas de pessoas podiam fazer.
Quando finalmente ficamos sozinhos, Ana perguntou:
— Como você está, Sohan?
Eu ri com tristeza.
— Estou me sentindo... me sentindo mal. Ele passou por tanta coisa... e fui eu que fiz isso.
— É. Você fez. Mas ele lhe disse que confiava em você. Não foi?
— Foi. Ele confiava em mim.
— Ele não passaria por tudo novamente para ficar com Kelsey?
Não respondi de imediato. A garota em questão entrou na tenda e começou a mover caixas de um lado para outro. Enquanto ela lidava com seus fardos, agitei a mão no ar e fiz metade das caixas desaparecerem e reaparecerem no lugar certo, do outro lado. Fiquei chocado que tivesse a habilidade de fazer isso com um simples pensamento. Agora que eu pensava a respeito, as caixas que foram movidas estavam cheias de comida, então deviam ser o lenço e o fruto, combinados, que fizeram o trabalho.
— Passaria — respondi, por fim.
Kelsey parou e se virou, pondo uma caixa debaixo do braço e examinando os assentos, como se pudesse nos ouvir conversando.
Logo que Kells continuou o que estava fazendo, Ana disse:
— Foi disso que você falou antes. A barreira para o romance. Ren e Kelsey estavam separados pelo tempo e pela localização física. É claro que, no caso deles, estavam também separados pela natureza de tigre de Ren. Era essa a terceira coisa de que você falou?
O canto de minha boca se ergueu. Ana tinha um talento todo especial para me distrair de meu humor azedo. Não era algo que me agradasse sempre, mas funcionava, de qualquer forma.
— Não — retorqui. — A maioria dos romances não é frustrada por uma pessoa se metamorfoseando em um animal.
— Então o que era a terceira coisa? — perguntou ela, levantando-se e esperando que eu a seguisse. — Seria a aprovação da família?
— Isso era verdade nos tempos passados — respondi, seguindo-a pelas fileiras de assentos. — Mas não tanto neste tempo. Os jovens saem com quem querem.
— Saem?
— Um jeito moderno de dizer que namoram.
— Ah. Você... saiu com Kelsey?
— De certo modo. Jantamos juntos.
— Comer é namorar?
— Não é tanto o consumo da comida, é mais ficarem sozinhos um com o outro, se conhecerem.
Ela tentou entender essa ideia enquanto esperávamos que Kelsey retornasse para que a seguíssemos até Ren. Ana me disse que Ren não poderia se transformar até que ela tocasse sua cabeça. Não sei bem por que isso era importante. Mas era como nos orientavam as anotações de Kadam. Observamos Kelsey durante toda aquela tarde e aquela noite, no entanto, ela não se aproximou de Ren nem uma só vez.
Ana estava preocupada enquanto esperávamos que Kelsey terminasse o jantar. Pousando a mão no topo do papel de Kadam, ela canalizou suas energias, e ambos sentimos a leve pulsação que vibrou em nossa pele.
— O momento está errado — comentei.
— Você também sentiu isso? — perguntou ela. — É minha culpa. Eu estava... distraída quando saltamos.
Inclinando a cabeça, esperei que ela finalizasse sua explicação, mas Ana optou por não dizer nada.
— Você sabe como consertar? — perguntei.
— Segure-se em mim — pediu ela.
Pus as mãos em seus ombros e ela avançou o tempo. As estrelas moveram-se acima de nossas cabeças como um borrão e então o sol se levantou e se pôs em questão de minutos. Ainda assim, havia uma vibração do tempo ligeiramente discordante e, quando ela finalmente nos desacelerou, era quase como se tivéssemos caído em um espaço criado apenas para nós. Era fim de tarde e o espetáculo do circo já havia começado. O número de Ren fora anunciado. Entramos sorrateiramente na tenda, invisíveis, e nos sentamos perto do picadeiro. Não havia muitas pessoas na plateia nesse dia, então acabamos ficando muito perto da jaula. Eu soube na mesma hora que alguma coisa estava errada. Ele não assumiu a posição que o treinador indicou. Em vez disso, começou a correr em torno da jaula, a cabeça levantada.
— Ele pode me farejar — afirmei, agitando a mão no ar, anulando o cheiro. — Estamos perto demais e esqueci de mascarar meu cheiro.
— Talvez não seja isso — respondeu Ana. — Ele parece ter se acalmado agora.
Ana estava certa. O que quer que tenha causado sua inquietação, não dava para saber agora. Ele se apresentou rapidamente e foi tão obediente quanto aqueles malditos cães. Puxei a gola de minha camisa, enervado, sentindo que estava preso por algemas invisíveis.
Quando o espetáculo chegou ao fim e Kelsey terminou a limpeza, nós a seguimos até um amplo galpão. Eu podia ouvir Ren andando de um lado para outro antes mesmo de entrarmos. Ele estava claramente agitado. Tomando o cuidado de fazer o mínimo de barulho, avançamos, mantendo distância tanto de Kelsey quanto do tigre.
“Oi, Ren”, disse Kelsey, aproximando-se da jaula. “O que está havendo com você hoje? Estou preocupada. Espero que não esteja ficando doente nem nada.”
No momento em que a viu, ele se acalmou. Seus olhos se fixaram nela e ele se manteve tão alheio à nossa presença quanto Kelsey. Ela parecia transfixada pelo tigre branco, assim como ele por ela. Devagar, ela estendeu a mão e tocou sua testa. Lancei um olhar incisivo a Ana, mas ela apenas sacudiu a cabeça e disse, sem emitir som: “Ainda não.”
Ouvi Kelsey arquejar quando ele lambeu seus dedos. Ela lhe agradeceu por não comê-la e sentou-se para ler um poema para ele. Revirei os olhos. Algumas coisas não mudavam nunca. Se havia duas pessoas feitas uma para a outra, eram esses dois. O fato de eu pensar isso me espantou.
É isso mesmo que eu acho? Kelsey estava destinada a ficar com ele desde o início?
A despeito de minha antipatia generalizada por poesia, me peguei arrebatado pelo poema sobre gatos. Desse eu gostei. Serviu para corrigir a minúscula fissura no caráter dela que eu permitira que me deixasse ressentido na última hora. Kelsey era jovem. Ela ainda não sabia quem éramos ou o que tínhamos passado. Eu não podia culpá-la por se sentir fascinada por um tigre, mesmo que fosse um mantido em cativeiro.
Enquanto a ouvia ler e falar com Ren, me dei conta de duas coisas. A primeira era que ela e Ren sempre estiveram mesmo destinados a ficar juntos. A segunda era que era hora de me libertar dela, de deixar Kelsey livre para viver a vida que ela escolhera.
No momento em que ela sussurrou “Queria que você fosse livre”, quase pude sentir a magia vibrando pelo galpão. Ela circulou em mim tanto quanto nela e em Ren. O poder da deusa e de seu tigre se elevaram, uma luz dourada se irradiando de mim e de Ana, e, após um breve toque da deusa, se assentou sobre as duas pessoas perto da jaula. Ren e Kelsey responderam a essa força.
Se podiam nos ver ou apenas ver nosso poder, eu não tinha certeza, mas podiam definitivamente ver alguma coisa.
As pedras da verdade que pendiam em nossos pescoços brilharam e vimos a luz branca das auras de Ren e Kelsey se tornarem douradas e reluzentes como o sol. Kelsey recuou até ser amparada por um fardo de feno enquanto ofegava e levava a mão à boca, e Ren, rosnando, fugiu para o fundo da jaula. Chegando mais perto de meu irmão, tornei-me visível e usei o Amuleto de Damon para lhe devolver a habilidade de se transformar em homem, embora por apenas breves 24 minutos diários.
Quando os deixamos, eles não tinham qualquer lembrança de nós ou do que havia acontecido. Até onde sabiam, a única magia fora o toque de uma garota em um tigre. Voltamos para a floresta.
— O que vem agora? — perguntei.
— A Caverna de Kanheri — murmurou Ana, após examinar a lista de Kadam. — Precisamos criá-la.
— Criá-la? — ecoei, incrédulo. — Não sei bem que aparência ela deve ter.
— Como é totalmente desconhecida para mim, terei de confiar em seu conhecimento.
Esfreguei a nuca com a mão, pensando, e então estalei os dedos.
— Tenho uma ideia. Mas teremos de ser sorrateiros.
Ana prontamente veio para meus braços, para que eu pudesse canalizar o poder do amuleto, e levei-a de volta para minha casa na Índia. O luar se infiltrava pelas amplas janelas quando nos dirigimos, às escondidas, para o escritório de Kadam. Ele roncava levemente no quarto ao lado.
Usando minha visão noturna de tigre, examinei seus arquivos e finalmente descobri o que estava procurando — imagens digitais da Caverna de Kanheri. Kelsey tinha fotografado o lugar quando esteve lá.
Ao me virar, esbarrei em um vaso cheio de penas de pavão e o derrubei. Anamika me pediu silêncio e ouvi o ruído de Kadam saindo da cama e de garras nos ladrilhos da cozinha. Apertando os arquivos de encontro ao peito, puxei Ana para mim e desaparecemos, deixando para trás o vaso caído.
De volta a nossa casa, estudamos com atenção as imagens.
— O monólito parece fácil de fazer — disse Ana.
— Havia armadilhas — expliquei. — Felizmente, Kadam fez muitas anotações.
— Parecem perigosas — disse Ana.
— E eram mesmo — murmurei, distraído com o que estava lendo. — Kelsey quase morreu. — Apontei uma observação escrita por Kadam. — A caverna é antiga. Teremos de calcular o ano aproximado. Além disso, havia entalhes nas paredes.
— Se ela quase morreu, temos de ficar e guiá-los — disse Ana. — Não podemos correr o risco de deixá-los passar por lá sozinhos.
Ergui os olhos.
— Certo. Podemos fazer isso.
— E se não for para ajudarmos?
Dando de ombros, eu disse:
— Isso importa? Kadam disse que éramos os responsáveis por isso. Foi impreciso de propósito.
— Suponho que sim — replicou ela. Após um momento, empurrou um papel para mim. — O que fazemos a respeito disto? — perguntou.
Fiquei sem ar quando ela me estendeu uma fotografia muito clara do selo real da família Rajaram. Peguei a foto e a estudei. Era ainda mais óbvio para mim agora que a coisa que eu tinha começado a esculpir, e deixado de lado antes de terminar, um dia se tornaria a relíquia de família ali retratada.
— É, esse pode ser um problema.
— Não está com você?
— Não exatamente. Eu não... hã... terminei ainda.
— Terminou? Como assim?
Fiz um relato abreviado dos entalhes que havia feito na pedra da verdade. Ana sabia que ela vinha de um ovo, mas eu ainda não encontrara a oportunidade de partilhar as origens do selo de minha família com ela.
— Não vejo por que isso deveria nos deter. Você vai ter muitos anos para finalizar a pedra e sabe o aspecto que ela deve ter. Certamente pode criar uma entrada secreta para a caverna, com base em sua forma.
— Suponho que sim — concordei.
— Então vamos.
Com o poder do Amuleto de Damon, foi surpreendentemente rápido criar a caverna. Voltamos ao tempo em que Kadam estimara que ela fora descoberta e arquitetamos toda a estrutura subterrânea usando a parte de terra do amuleto. Tínhamos fotos e impressões feitas com carvão do monólito, e Ana ficou muito orgulhosa de criá-lo enquanto eu instalava as várias armadilhas.
Optamos por não fazer muita coisa na superfície que levava à caverna. Kadam dissera que os monges budistas se estabeleceriam ali em algum momento do século III. Criamos, porém, uma marca que se ajustava ao selo e a moldamos para abrir a porta que dava para a caverna, quando encaixada e girada. Para disfarçar, Ana usou seu poder para recriar todos os glifos da foto que Kelsey havia tirado. Nenhum de nós conseguiu ler, e nem tínhamos certeza se era um idioma real, mas ficaria ali ao longo dos séculos.
Decidimos criar os insetos quando Kelsey e Ren entrassem ali, caso contrário teríamos ou uma caverna lotada de insetos ou um punhado de insetos extintos e petrificados. Quando fizemos a porta onde o monólito ficaria, contei a Ana sobre a marca da palma da mão que deu acesso a Kelsey e o desenho de hena. Ana andou de um lado para outro por um tempo, pensando em como fazer esse mecanismo funcionar.
— Como ele criou um desenho de hena mágico? — perguntou Ana.
— Não sei. Talvez a capacidade de abrir a porta venha do poder do relâmpago da parte de fogo do amuleto — retruquei, e então pensei melhor. — Não. Isso não é possível. Kells só conseguiu aquele pedaço do amuleto mais tarde.
— Não podemos simplesmente fazer a mesma coisa que fizemos com nossa casa? — perguntou ela. — Criar uma fechadura que abra quando ela a tocar?
— Mas isso só funciona conosco.
Refletindo, Ana disse:
— Vimos como o poder da deusa e de seu tigre envolveu os dois no circo. Talvez a porta responda a isso.
— Acho que podemos tentar. Se não funcionar, faremos outra coisa para deixá-la entrar.
Ana levou a mão à parede de pedra perto da porta e eu pousei a minha sobre a dela. Uma luz prateada surgiu debaixo de sua palma. Ao erguermos nossas mãos, uma impressão luminosa ficou ali.
Quando julgamos que havíamos recriado a caverna da forma correta, atravessamos o tempo até chegarmos ao exato momento em que Kelsey e Ren entraram nela. O selo dos Rajaram pendia do pescoço de Kelsey, portanto, mesmo que ele tecnicamente ainda não existisse para mim, eu sabia que um dia concluiria aquele objeto muitíssimo importante.
Mais uma vez invisíveis, Ana e eu os conduzimos através do labirinto. Flutuamos em uma brisa que ela evocou com o amuleto. Dessa forma, nossos pés nunca tocavam o chão e não levantavam suspeitas em Ren. Embora ele pudesse pressentir nossa presença, levando seus instintos a adverti-lo do perigo, isso serviria para deixá-lo mais alerta e cauteloso. Confiávamos nesse seu sentido inato para proteger os dois das armadilhas que tínhamos criado.
Quando Kells quase voltou, pegando o caminho errado, fiz aparecer um portão e bloqueei o caminho para que ela não recuasse. Embora estivesse apavorada, Kelsey foi em frente e seguiu para o lugar onde deveriam encontrar os insetos. Pessoalmente, eu considerava os insetos verdadeiras pragas. Pulgas, piolhos, moscas, mosquitos — essas coisas eram, no mínimo, irritantes para um tigre e, no pior dos casos, transmissores de doenças. Mas Anamika amava toda espécie de animal, inclusive os insetos.
Percorremos o túnel antes que Ren e Kelsey chegassem. Anamika ergueu os braços e, no instante seguinte, enxames rastejavam acima de nossas cabeças, subindo pelas paredes, sobre nós. Abriam caminho para ela a cada passo seu, o chão aparecendo logo embaixo de nossos pés, e, quando ela estendeu as mãos, eles voaram para suas palmas, erguendo as mandíbulas afiadas e estalando-as, como se fossem bichinhos de estimação pedindo um mimo. Enquanto ela falava carinhosamente com eles, eu estremecia de repulsa.
Depois de sair, sacudi-me de um lado para outro, tentando me livrar deles. Ela sibilou e me fez ficar imóvel enquanto pacientemente os retirava de minhas roupas e meus cabelos. Com delicadeza, colocou-os de volta no túnel enquanto esperávamos que Ren e Kelsey surgissem.
Quando nossos dois protegidos saíram correndo do túnel, Ana fechou a cara, zangada ao ver muitas de suas criações sendo destruídas. Bufou em silêncio, agitou a mão e nós dois ascendemos no ar e seguimos para nossa próxima armadilha, deixando Ren e Kelsey se recobrando da experiência. A armadilha seguinte eram as lanças envenenadas. Elas não estavam envenenadas de fato. Só fiz o cheiro do veneno chegar às narinas de tigre de Ren.
Fui duro com eles, sem dúvida, e estavam assustados, mas em nenhum momento estiveram em perigo. Avancei o tempo devagar, à medida que prosseguiam, observando com muito cuidado cada movimento que faziam. Mesmo quando Kelsey escorregou, eu poderia ter facilmente feito a lança desaparecer. Em vez disso, deixei que ela atravessasse a mochila dela só para ter certeza de que Ren estava devidamente motivado para tomar conta de Kelsey dali em diante. Não havia nada como ver sua garota quase morrer para se livrar da negligência.
A armadilha seguinte era o tanque de água. Fiquei preocupado durante os vários e longos minutos que levaram para escapar. Era uma armadilha razoavelmente simples, pensei. Kelsey só precisava usar o selo para abri-la e escoar a água. Eles ainda pareciam ver a situação com senso de humor depois que conseguiram sair, o que era um bom sinal. Pobres Ren e Kelsey. Queria ter podido dizer a eles que estava lá ou ajudá-los a resolver tudo usando meu poder, mas fazer isso teria arruinado sua linha do tempo e, como Kadam várias vezes me advertira, havia consequências, às vezes desastrosas, ao se fazer tal coisa.
Quando Ana e eu estávamos posicionados no lado oposto da câmara, ela ergueu os braços e a terra tremeu, fazendo surgir um abismo. Depois usou o poder do vento para ajudá-los a atravessar.
Desviei os olhos, pouco à vontade ao ver a ternura com que Ren segurava Kelsey. Quando me virei e vi que Ana também os observava, senti o calor subir pelo pescoço. Então, por fim, eles se viram diante da porta atrás da qual o monólito estava escondido.
Kells pousou a mão sobre a marca na porta e soltou uma exclamação por causa da luz, mas não pôde ver o que fizemos. Para ela, a hena simplesmente fazia brilhar uma luz vermelha, mas nós víamos a conexão entre ela e seu tigre. Tanto Kelsey quanto Ren se iluminaram com sua luz dourada, a aura que mostrava sua conexão e seus corações afinados um com o outro. Ela envolveu seus corpos e o dispositivo respondeu, não só a nós, mas à outra versão da deusa e a seu tigre.
A porta deslizou, se abrindo, e Ana e eu entrando, os seguimos.
Kelsey passou pelas etapas necessárias para acionar o monólito e Ana ergueu as mãos, provocando uma reação química que expôs os entalhes. Nós dois nos sentamos no alto de uma grande pedra enquanto o ácido começava a se espalhar e escorrer pelas laterais da pedra e pelo chão. Queríamos ficar por tempo suficiente para nos assegurarmos de que eles não se queimariam e que conseguiriam sair com segurança antes que destruíssemos a caverna.
Alheia ao líquido dourado se espalhando, Kelsey estava debruçada sobre uma pedra, fazendo uma impressão com carvão e fotografando. Ren já tinha visto o perigo, mas Kelsey estava distraída. Ele rugiu baixinho. Ana pensou que um empurrãozinho poria os dois a caminho, então fez a caverna tremer ligeiramente. Uma pedra caída do teto bateu no ácido e espirrou.
Uma gota do líquido dourado respingou em minha mão. Soltei um silvo de dor, sacudindo-a, e os olhos de Ren dispararam na direção de onde estávamos, como se pudesse nos ouvir, mas eu estava confiante em que ele não conseguia nos ver nem farejar, e, de qualquer forma, ele estava muito mais preocupado com Kelsey do que com quaisquer sons estranhos em uma caverna desabando.
O ácido formou uma bolha no dorso de minha mão, corroendo a pele bem rápido. Mesmo enquanto eu sarava, sua ação continuou. O que quer que Ana tenha criado era poderoso. Só torci para que não caísse em Kelsey ou Ren.
Anamika cerrou os lábios. Então se inclinou, tomou minha mão na dela e soprou suavemente no local. O ácido secou e foi levado pelo vento. Deslizando delicadamente os dedos sobre a pele agora cicatrizada, ela levou minha mão até sua boca. O ar ficou preso em meus pulmões enquanto eu olhava seus lábios sensuais tocarem minha pele. Embora eu não estivesse respirando, meu coração começou a vibrar em staccato.
Melhor?, seus lábios formaram a palavra silenciosamente após o beijo casto.
Assenti em silêncio, a boca escancarada. Obrigando-me a sair daquele transe, ouvi Ren gritar. Ele deu um pulo, sacudindo a pata com cuidado. Ana soprou um beijo de deusa na direção dele, curando sua ferida, e fiquei feliz que ela não tivesse de beijá-lo como fez comigo. Ela então agitou os dedos e os tremores do solo se intensificaram. No instante em que o monólito rachou e se partiu, os pedaços pesados despencando, Ana abriu um buraco que levava ao lado de fora e Ren aproveitou-se dele, cavando com as garras até que ficasse grande o suficiente para ambos escaparem.
Assim que eles se encontraram em segurança do lado de fora, uma rocha caiu ruidosamente sobre o buraco e mergulhamos na escuridão.

4 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!