12 de setembro de 2018

24 - Confissão na piscina

Enquanto caminhava em direção à nossa casa, eu refletia sobre nosso encontro. Sentia-me empolgado e ao mesmo tempo hesitante em vê-la. Na verdade, não me sentia tão nervoso desde meu primeiro encontro com Kelsey. Não que Ana e eu fôssemos ter um encontro romântico, mas o que tínhamos passado juntos havia me modificado, ou nos modificado, ou modificado nosso relacionamento. Não havia?
Eu tinha a sensação que sim.
Abrindo uma nova porta na base de nossa montanha, praticamente no mesmo lugar que a antiga, vinculei sua abertura à impressão de minha mão, fazendo uma nota mental de acrescentar a de Ana mais tarde. Entrei e fechei-a com cuidado. Minha visão de tigre entrou em ação e, sem nenhuma luz, subi o longo lance de escada que levava à casa que compartilhávamos. Correndo a mão por meus cabelos longos demais e sentindo a barba espetar, pensei que talvez fosse melhor passar primeiro em meu quarto e me fazer apresentável.
Disse a mim mesmo que era um sinal de respeito me lavar antes de ir vê-la. Não estava postergando. Ao menos, foi o que disse a mim mesmo. Após um banho rápido, vasculhei as poucas caixas e recipientes na mesa de meu quarto despojado, procurando uma tesoura. Quando meus cabelos ficaram mais curtos e tão cuidados quanto me era possível deixá-los sem os benefícios dos produtos disponíveis no tempo de Kelsey, fitei-me no espelho. Embora agora estivesse barbeado e de volta ao meu antigo eu imortal, meus olhos pareciam velhos. Eu havia perdido peso nos últimos meses, preso no tempo da adolescência de Ana, sem o apetite de tigre, mas o peito e os braços ainda eram fortes e musculosos. Tracei algumas cicatrizes de batalhas familiares em meu torso. Havia muito elas tinham clareado e se harmonizado com a pele. Eram remanescentes de meu tempo de mortal.
Desde então, eu não tinha adicionado nenhuma outra a elas, pois o poder de cura do tigre sempre reparava qualquer dano que eu sofresse. Mas agora havia algumas marcas novas. Cicatrizes que falavam de meu tempo no passado. Ferimentos que sofrera enquanto salvava Ana.
Ao tocar uma, no dorso da mão, refleti que aquela imperfeição valera a pena. Independentemente do que acontecesse no futuro, eu sabia que sempre serviria como lembrete de meu voto de permanecer ao lado dela e servi-la.
Mesmo enquanto vestia uma túnica e uma calça, podia sentir a força que me atraía para ela. Ana estava ciente de meu retorno e tranquila com a espera, mas seu chamado era algo que eu não podia ignorar. Anamika era como um ímã e quanto menor a distância entre nós, mais forte a urgência em estar perto dela. Nossa conexão sempre me parecera uma algema, mas agora havia mudado. Agora me parecia uma promessa.
Obedecendo à atração, segui para a sala do trono, mas fiquei surpreso ao encontrá-la vazia. Pensei em verificar no quarto, mas, ao fechar os olhos, soube exatamente onde ela estava e então me dirigi para o jardim. Quando meus pés tocaram a grama, fiquei tentado a me transformar no tigre. Nossa relação tinha sido sempre melhor quando eu era o tigre. Mas essa era uma saída covarde. O mínimo que eu podia fazer era dar a ela a chance de me criticar por meu fracasso, cara a cara.
Na realidade, eu havia falhado com ela em mais de um aspecto. A lasca da pedra da verdade pendurada em meu pescoço se aqueceu e eu soube que ela confirmava meus pensamentos. Meus passos vacilaram quando a vi. Ela estava podando suas rosas, os longos cabelos roçando a cintura.
O fundo de minha garganta queimava e meu cumprimento morreu na língua. Eu sabia que havia deixado sua versão jovem no passado e, no entanto, ainda a via nos gestos familiares de Ana.
Eu me vi incapaz de me mover. Será que ela me culpava? Como poderia não culpar? Minha coragem enfraqueceu, meus músculos se liquefizeram. A tristeza tomou conta de mim, espessa e viscosa. Como pude ter permitido que aquele homem cruel a tocasse? Como pude deixar a garota que me implorava para ensiná-la a lutar? As lembranças do que acontecera e das escolhas que eu fizera atravessaram minha mente outra vez, como vinham fazendo com muita frequência. Como ela poderia me perdoar um dia?
O encantamento que senti ao vê-la encolheu como uma frágil plantinha queimando em uma fogueira. Então se transformou em uma bola preta e compacta e se plantou em minhas vísceras. Camadas de autorrecriminação a cobriram até ela me pesar como uma pedra. Não havia nada que eu pudesse dizer, nada que pudesse fazer que apagasse a coisa horrível que lhe acontecera. Ela era vítima de algo terrível. Algo que pessoa alguma jamais deveria ter de sofrer.
O que eu poderia dizer? Nenhuma palavra, por mais cuidado que eu tivesse ao escolhê-la, jamais seria suficiente para me desculpar. Jamais seria suficiente para consertar o que acontecera. Era como colocar um cataplasma em um homem eviscerado — um esforço inútil e insensato.
Anamika virou a cabeça ligeiramente, de modo que pude ver seu rosto de perfil, mas manteve a atenção nas flores.
— Então? — disse ela em tom sarcástico, cortando bruscamente um ramo comprido. — Demorou bastante para que você me agraciasse com sua presença. Vai ficar aí parado trocando de pé ou vai me cumprimentar adequadamente?
Tentei responder, mas o único resultado foi um vibrante “Eu...” e então o ineficaz abrir e fechar da boca, como um peixe tirado da água, uma reação muito distante do refinado cumprimento que planejara originalmente. Como falar não estava funcionando para mim, apoiei um joelho no chão, baixando a cabeça.
— Sou seu criado, minha senhora — consegui, enfim, deixar sair.
Anamika me olhou e franziu o cenho, uma ruga entre as sobrancelhas. Cerrou os lábios e veio até mim. Depois de prender o cortador no cinto de couro, pôs as mãos nos quadris e me observou.
Minha cabeça voltou a baixar e senti uma familiar ferroada no fundo dos olhos. A grama sob meus pés tornou-se um borrão e então ela tocou minha cabeça. Em seguida, abaixou-se a meu lado e deslizou a mão para meu pescoço. Senti seu questionamento mental e, de bom grado, abri meus pensamentos para ela. Mostrei-lhe a completa confusão que fiz em tudo. Toda a culpa e a vergonha que me corroíam por dentro foram expostas para que ela as visse.
Enquanto ela estudava meus pensamentos, me encolhi, sabendo que ela me menosprezaria e que eu merecia isso.
— Eu sinto tanto, tanto, Ana.
Eu nem sabia que tinha falado em voz alta até sentir a vibração das palavras no fundo da garganta.
Em resposta, Anamika passou os braços à minha volta. Os meus serpentearam pela cintura dela e puxei-a com força para meu peito, descansando a cabeça contra seu pescoço delicado.
— Shh — murmurou ela, correndo as mãos lentamente por meus cabelos. — Eu estou aqui, Sohan — acrescentou, sua voz, veludosa e cálida, me tranquilizando, embora eu soubesse que não era digno de tal tratamento.
À medida que ela me tocava, luz entrava pelas bordas de minha mente. Eu sabia que a luz vinha dela. O que eu via era a alma de Anamika revelada pela pedra da verdade. Era brilhante e linda, e, enquanto ela me olhava de cima, como a deusa que era, a escuridão e a culpa dentro de mim se encolheram e desapareceram. Deliciei-me nas camadas de calor e no poder bruto da deusa. Lentamente, minha consciência recuou e eu adormeci.
Quando acordei na cama, minha mente estava calma e sossegada, como terra coberta por um manto de neve. O mundo à minha volta era suave, novo e limpo. Pus as mãos sob a cabeça e refleti sobre o que tinha acontecido. Ana me dera um presente. Algo raro e precioso. Seu perdão e sua compreensão haviam enterrado meus fardos em uma macia camada de marshmallow. Eu ainda tinha as lembranças. Ainda sabia o que havia no fundo de minha alma, mas ela me oferecera o tipo de misericórdia que somente uma deusa podia dar. Tinha me absolvido da culpa e exigira que, em troca, eu aprendesse também a me perdoar.
Essa parte levaria tempo.
Não havia como negar agora que Anamika era especial. Fora uma garotinha especial e se tornara uma mulher especial. Eu levara muito tempo para reconhecer esse fato, mas agora reconhecia, e passaria o resto de minha vida, por mais longa que fosse, tratando-a de uma forma que demonstrasse meu respeito.
Afastando o cobertor, levantei-me, me vesti e segui para a sala do trono. Quando entrei, encontrei-a cumprimentando uma variedade de visitantes. O Amuleto de Damon agora estava em seu pescoço. Levando a mão ao meu, me perguntei quando ela o pegara. Então franzi a testa, tentando imaginar como ela me levara para o quarto. Sendo deusa, era forte, mas eu nunca a vira levantar nada tão pesado quanto eu.
Concluindo que era melhor não pensar sobre isso, fiz uma profunda mesura no momento em que ela dispensava um visitante e instruía seu guarda de que não receberia mais ninguém com pedidos nesse dia. Ela estendeu a mão para mim e sorriu.
— Dormiu bem? — perguntou.
Apertei seus dedos de leve e respondi:
— Sim, graças a você. — Olhando ao redor e vendo dezenas de presentes espalhados pela sala, me dei conta de que provavelmente ela já estava trabalhando havia horas e acrescentei: — Você deveria ter me acordado. Está trabalhando muito.
— Sim. Ficamos fora muito tempo. Há bastante trabalho a ser feito.
— Estou pronto para começar quando você estiver — declarei cordialmente.
— Haverá tempo para isso mais tarde — disse ela. — Venha, sente-se aqui comigo.
Levantando-se do trono, ela sentou-se nos degraus de mármore e estendeu a mão. Eu a tomei e me sentei ao lado dela. Nossos ombros estavam colados e nenhum dos dois sentiu necessidade de se afastar, como teríamos feito antes. Ana tampouco tirou a mão da minha, portanto continuei a segurá-la.
Como eu estava com dificuldade com as palavras, ela começou a falar:
— Eu... eu queria agradecer a você.
Virei-me rapidamente em sua direção, pensando que ela havia enlouquecido. Um sorrisinho brincava sobre seus lábios, à espera para irromper. Aquilo não fazia sentido.
— Me agradecer? — perguntei, hesitante. — Por que diabo você ia querer fazer isso?
— Eu não sabia antes — disse ela. — Que foi você, quero dizer.
— Fui eu o quê?
— Foi você quem me salvou.
— Salvei você? Eu falhei com você.
— Não, você conseguiu. — Ana suspirou e puxou minha mão para seu colo, brincando com meus dedos. Isso me deixou muito consciente de como estávamos perto. Remexi-me, desconfortável. — Eu voltei enquanto você dormia — disse baixinho, como se estivesse confessando um crime. — Tirei as lembranças dela... quero dizer, as lembranças que eu tinha de você.
— Você fez isso?
— Fiz. Quando encontrei você, Ren e Kelsey pela primeira vez, eu não o conhecia. Nunca tinha visto você antes.
— Isso é verdade — rebati.
— Tive de voltar e apagar essas lembranças. Meu eu mais jovem sabe que um homem a salvou, um homem que lhe ensinou a usar a faca, mas agora ela não consegue se lembrar do rosto dele. Meus pais e Sunil também esqueceram você.
Assentindo, eu disse:
— Isso foi inteligente.
— Foi? — perguntou, entrelaçando seus dedos aos meus e erguendo os olhos para mim. — Talvez, se meu eu mais jovem se lembrasse de você, tivéssemos brigado menos quando nos conhecemos.
— Talvez — respondi. Senti que meu pescoço de repente estava quente. Esfreguei o rosto no ombro. — Mas agora isso não tem importância. O que está feito está feito, certo?
— Certo — concordou, os olhos verdes examinando os meus. — No entanto, agora eu me lembro. Me lembro de tudo.
Engolindo em seco e tentando umedecer a boca repentinamente seca, eu disse:
— Você... você se lembra?
— Sim. Eu estava com você, sabe? Quando minha consciência se fundiu com meu eu mais jovem, era como se eu estivesse presa dentro dela. Eu vi tudo, revivi tudo.
Desviei o olhar.
— Eu sinto muito.
— Eu não.
— Como você pode não sentir? — perguntei, incrédulo.
— Eu não queria reviver meu rapto, se é o que você está pensando, mas revivê-lo me deu uma nova compreensão em relação a ele. De minha perspectiva adulta, ele era um homem patético. Descobri, mais do que qualquer outra coisa, que eu queria proteger meu eu jovem. Agora, com meus poderes, eu poderia matá-lo só com o pensamento, mas meu eu jovem ficava aterrorizado com ele. Esse medo permaneceu comigo por muitos anos.
Depois de um instante de reflexão, ela continuou:
— Em minhas lembranças, ele era monstruoso, desumano, poderoso. Agora eu o vi como uma criatura fraca, doente e morta de fato. Essa revelação foi importante para mim. Tive longos meses para pensar a respeito, presa dentro da garota que também estava aprisionada dentro de si mesma, esperando que você me libertasse.
— Então você está dizendo que estava alerta esse tempo todo? Mesmo enquanto ela dormia?
— Estava. Mesmo quando ela morreu. Foi minha presença que a manteve presa a esta esfera mortal por tempo suficiente para que ela se curasse. Sem você, ela, quero dizer, eu, teria morrido. Está vendo? Você me salvou, sim. Mais de uma vez. E, como fui eu quem tirou essas lembranças dela, agora posso me lembrar de tudo que foi escondido de minha mente jovem anos atrás.
— Voltar foi perigoso — comentei. — Você poderia ter sido sugada outra vez.
Anamika deu de ombros.
— Fui quando ela estava dormindo. A chance de ela acordar era menor. — Ana sorriu. — Também fiquei observando Sunil por um tempo enquanto ele dormia. Esqueci quanto ele tomou para si a tarefa de ser meu guardião. — Erguendo os olhos para mim, acrescentou: — Você deve saber também que apaguei os rastros e forneci alimento e abrigo quando você resgatou as crianças.
— Isso foi fundamental. Você me levou à floresta de fogo para que eu me curasse? — perguntei.
Ela franziu a testa.
— Não. Pelo menos, acho que não. Sonhei com isso enquanto estava presa. Como a pedra da verdade veio da floresta de fogo, talvez ela tenha canalizado a cura das árvores.
— Entendo.
Ana hesitou e em seguida acrescentou:
— Também conferi para ter certeza de que o homem que abusou de mim estava morto. Eu precisava saber.
Assentindo, repliquei:
— Se você não tivesse feito isso, eu faria.
Puxando algo de seu cinto, ela me estendeu uma faca familiar. A que eu usara para esculpir a pedra, que usara para escapar.
— Você a guardou? — perguntei, pegando-a de sua mão e deslizando o polegar ao longo do fio. Uma fina linha de sangue surgiu, mas o corte cicatrizou-se rapidamente. — Estou vendo que a manteve amolada.
— Foi minha primeira lição como guerreira — disse Ana, sorrindo e batendo em meu ombro. — Fique com ela. Venho guardando-a para você todos esses anos, embora não soubesse disso.
Agradecendo, deixei-a ao lado. Ficamos calados e o silêncio entre nós pareceu denso, com uma tensão indefinida. Gentilmente, apertei a mão dela.
— Está pronta para trabalhar? — perguntei.
— Se você estiver.
Seu rosto se iluminou e ela se levantou, invocando as armas e os presentes. Eles voaram em sua direção e eu peguei o chakram com facilidade, amarrando-o a uma tira de couro no cinto que usava. A seguir vieram o tridente, o kamandal, o Fruto Dourado. Com movimentos rápidos, a mão de Anamika pegou um de cada vez no ar. Ela me jogou o kamandal e eu o passei pela cabeça de modo que a concha descansou ao lado da pequena pedra da verdade.
Quando ela pegou a Corda de Fogo e a enrolou na cintura, formando um cinto, notei um pendente em forma de tigre em seu pescoço. Tomando-o entre os dedos, sorri, vendo que era o presente que eu lhe dera antes de partir. Ela segurou minha mão e deu um passo em minha direção enquanto o Lenço Divino se assentava em seus ombros, transformando-se em manto.
O Colar de Pérolas enrolou-se em seu pescoço, prendendo-se enquanto ela apanhava a gada e o arco com as flechas, pendurando todos em bolsas nas costas. Os dois broches se encaixaram, como se fossem luas gêmeas em órbita. Uma delas se fixou em seu manto e a outra se prendeu em minha túnica.
A espada disparou em nossa direção, dividindo-se em duas no último minuto, e cada um de nós agarrou uma e a colocou na bainha que havia se materializado na lateral de nossos cintos. Pelas minhas contas, tínhamos recuperado todas as armas, mas Ana pôs a mão em meu braço.
— Espere — disse. — Ela está vindo.
Eu não sabia a quem Ana estava se referindo. Até que vi uma cabeça dourada disparando em nossa direção ao entrar na sala. Anamika sorriu beatificamente e abaixou-se, estendendo o braço.
A serpente enroscou-se nele, mas seu corpo não era longo o bastante para dar mais do que uma volta.
A cobra voltou a cabeça para o rosto de Ana e a deusa fez um carinho nela.
— Olá — disse. — Acho que por ora um anel seria mais adequado, não acha?
— Um anel? — perguntei, confuso.
— Sim. Ela não se transformou ainda? — perguntou Ana.
— Transformou?
Ana franziu o cenho.
— Quem você acha que ela é? — perguntou.
Dei de ombros.
— Parece Fanindra, mas essa saiu do ovo da Fênix, então eu de fato não sei.
— Esta é Fanindra — afirmou Anamika.
— Não pode ser — repliquei. — Fanindra morreu. Eu vi seu corpo desaparecer.
— O que aconteceu antes de ela morrer? Me diga exatamente.
— O corpo... o corpo dela se enrijeceu. Metade dele permaneceu como metal. Ela estava fraca. Usou toda a energia que tinha para me levar para o passado. — Senti a garganta se fechar com a lembrança. — Segundos antes de morrer, ela mordeu o ovo da Fênix. Não creio que soubesse o que estava fazendo. Então morreu e seu corpo desapareceu.
— Entendo. — As sobrancelhas de Ana se juntaram quando ela se inclinou, aproximando o rosto da cobra. — Sim — disse suavemente. — Compreendo. — Uma pausa. Então: — É mesmo? Isso nunca tinha me ocorrido.
— Com quem você está falando? — perguntei, olhando à nossa volta.
— Fanindra. Você não a está ouvindo?
— Ouvindo? — Sacudi a cabeça. — Nem Fanindra nem essa cobra falam.
— É claro que ela fala. — Mais uma vez Ana hesitou, como se estivesse ouvindo. — Certo, eu não tinha pensado nisso — disse. — Você pode segurá-la por um momento? — perguntou, dirigindo-se a mim.
Assenti e a cobra se enroscou na ponta de meus dedos. Anamika afastou o Amuleto de Damon do pescoço e, com a ponta dele, tocou o corpo de Fanindra. Fechando os olhos, murmurou algumas palavras e um colar dourado flutuou até nós, trazido por um vento que soprou seus cabelos para trás. Quase como se uma minúscula explosão tivesse acontecido, o cordão se desfez em pequenos fragmentos que começaram a girar em uma nuvem diante de nós.
— Tem certeza? — perguntou Ana.
— Certeza de quê? — respondi.
— Shh — sibilou ela. — Não estou falando com você.
A cobra ergueu a cabeça e oscilou no ar como se transfixada pelas partículas de ouro rodopiantes.
— Muito bem — disse Ana.
Sua mão girou e direcionou para minha mão a nuvem cintilante, que envolveu a cobra. Com um estalo e uma luz brilhante, as partículas de ouro foram sugadas pelo corpo da cobra. Sua forma esguia adquiriu um brilho familiar e o desenho de suas escamas se definiu com um contorno tremeluzente.
— Pronto — disse Ana. — Vá em frente e tente.
Com isso, a serpente enroscou-se em seus dedos e então seu corpo se imobilizou e encolheu até se transformar em um anel dourado com pedras preciosas como olhos.
Estendendo um dedo, deslizei-o sobre a cabeça da cobra.
— Tem certeza que é ela? — perguntei.
— É Fanindra — garantiu Ana. — Ela nasceu do ovo da Fênix. Você foi testemunha tanto do nascimento quanto da morte dela.
— Mas como isso é possível?
— Como alguma coisa do que fazemos é possível?
— E... ela fala com você?
— Ela me disse que somente aqueles que ela já picou podem ouvi-la. Kelsey achou que fosse a própria mente lhe dizendo coisas, ou que fosse a deusa ou sua mãe, mas era Fanindra, que ela também podia ouvir, quando necessário. Somos novos para ela agora, mas ela diz que está feliz em ficar conosco. — Ana olhou afetuosamente para a cobra. — E, embora ela tenha vida própria, não se importa que você tenha me presenteado com ela.
— O que... o que você fez com ela?
— Eu lhe dei a habilidade de se transformar. Lembra-se de como Lokesh usava o amuleto para fazer novas criaturas?
Fiz que sim com a cabeça.
— A magia em si não é maligna, mas ele forçava mudanças em criaturas que não queriam mudar. Phet, ou Kadam, como você o conhece, me disse que precisaríamos dominar o mesmo poder. Ele não me contou tudo, é claro, mas disse que Fanindra nos mostraria o caminho. — Ela estendeu a mão, tocando meu braço. — Está pronto, Sohan?
— Estou.
— Importa-se se fizermos uma única parada antes de começarmos?
— Estou a seu serviço, Deusa.
Uma sombra passou momentaneamente pelo rosto de Anamika, mas então ela respirou fundo e me dirigiu um breve sorriso. Fomos levados dali e nos materializamos em um local muito familiar.
— Ana! — sibilei. — Por que estamos aqui?
— Shh — murmurou ela e me puxou para trás do armário de toalhas.
Ela levou a mão ao amuleto e senti quando nos tornamos invisíveis. Eu estava prestes a questioná-la outra vez quando ouvi um barulho de água e uma exclamação indignada.
— Sunil!
Uma risada profunda seguiu-se logo depois. Ana pegou minha mão e me levou mais para perto, de modo que pudéssemos ter uma visão melhor das duas pessoas na piscina. Sob o guarda-sol, deitada em uma espreguiçadeira ao ar livre, estava Nilima. A água pingava de suas pernas e ela bufou, impaciente, enquanto enxugava o livro que estava lendo.
— Eu não sabia que você estava lendo — disse ele, embora fosse evidente que sabia. — Peço desculpas se estraguei seu livro.
— Tudo bem — resmungou ela. — Só não faça isso de novo.
Sunil cruzou os braços na borda da piscina e apoiou o queixo neles.
— Tem certeza que não quer me acompanhar aqui? — perguntou. — A água está fresca e você parece estar pegando fogo.
Seu sorriso ia de orelha a orelha e as sobrancelhas de Nilima se juntaram quando ela o olhou de cara feia.
— Pare de usar essa expressão.
— O quê? Pegar fogo? — perguntou ele inocentemente.
— Ela não tem o sentido que você está usando.
Ela levantou o livro, bloqueando-o de seu campo de visão.
Sunil saiu da piscina e pegou uma toalha, enrolando-a na cintura. Secou os cabelos com outra e jogou a toalha úmida nas pernas de Nilima.
— Sunil! — exclamou ela outra vez e se pôs de pé em um salto, pegando a toalha e jogando no rosto dele.
Ele a pegou com facilidade e partiu para cima de Nilima, mas ela manteve a cadeira entre os dois. Ele foi se aproximando devagarzinho, sorrindo, enquanto ela pegava o copo de limonada cheio. Os olhos de Sunil se estreitaram.
— Você não faria isso — disse ele.
— Eu acho que você está pegando fogo, Sunil — disse Nilima, triunfante.
No momento exato em que ele saltou, ela lançou o conteúdo do copo em seu rosto e, com um gritinho, tentou correr, mas ele a segurou pela cintura e pulou na piscina, levando-a junto. Nilima subiu à superfície, arquejando e cuspindo água. Ele também emergiu e inspirou.
— Você mereceu isso, mulher. Há meses está me enlouquecendo lentamente.
— E você? — devolveu ela enquanto tirava o cabelo do rosto e começava a nadar em direção aos degraus. — Você vem sendo um espinho no meu pé desde que chegou aqui!
— Você é tão espinhenta que estou surpreso que note um pequeno espinho como eu — replicou ele, seguindo-a.
— Queria que você fosse um de meus empregados para eu fazer uma observação em sua ficha — vociferou ela. — E não, essa eu não vou explicar. Descubra por si mesmo!
Sunil a havia encurralado na borda da piscina. Ela voltou-se para ele e fez uma débil tentativa de fugir, mas logo desistiu. Sua respiração estava acelerada, e seus olhos, em brasa.
— Então — disse ele, levando a mão a um fio molhado do cabelo dela e passando-o sobre o ombro, seus dedos roçando-lhe a pele — você finalmente admite que vem me observando.
— Como ousa! Eu...
Sunil deu um passo à frente e cobriu com sua boca a dela. Ela o empurrou por um momento, mas ele tirou a mão dela de seu peito e a pôs em seu pescoço. Quando ela gemeu baixinho e deslizou a mão para os cabelos dele, ele a puxou pela cintura, abraçando-a com força. Eles se beijaram de maneira tão apaixonada quanto brigaram. Mas, de repente, os beijos dele se tornaram mais suaves e lentos e ele se afastou antes que ela quisesse.
Ele encostou a testa à dela.
— Nilima — disse, correndo a mão pela extensão de seus cabelos molhados —, diga que me ama.
Ela afastou-se dele, mas não foi muito longe.
— Não, Sunil. Eu não... — Nilima fez uma pausa, as palavras congelando em seus lábios.
Sunil tocou o pescoço dela, o polegar desenhando a linha de seu maxilar. Ele chegou mais perto e os olhos dela desceram para seus lábios. Ele sorriu.
— Muito bem, sua teimosa. Então eu vou dizer primeiro.
Ele segurou o rosto dela entre as mãos.
— Eu amo você mais do que qualquer coisa neste mundo. Mais do que as lembranças do meu passado que tanto prezo e mais do que os milagres do presente. Ponho meu futuro a seus pés. Eu percorreria o desconhecido com você a meu lado e descobriria cada novidade que este mundo tem a oferecer. Seja minha noiva, Nilima. Você não precisa dizer que me ama. Diga apenas que aceita se casar comigo e vou me dedicar todos os dias a conquistar o restante.
Nilima piscou, a água batendo em seus ombros.
— Oh, Sunil — sussurrou com um suspiro.
— Você quer esmagar meu coração? Meu espírito? — perguntou ele com uma falsa expressão de horror. Então pôs as mãos nos ombros dela e a sacudiu de leve. — Confesse os seus sentimentos. Eu sei que você tem sentimentos. Dentro deste exterior frio — disse ele, cutucando-a no braço — existe uma mulher cálida. Disso eu sei bem — acrescentou, levantando as sobrancelhas de modo significativo. Então falou em voz alta: — Ela me nega seu afeto, mas continua a me atacar escandalosamente em cada canto escuro, comprometendo minha reputação. E agora ela me jogou numa piscina para me seduzir!
— Pare com isso! Pare! — Ela riu, cobrindo-lhe a boca com a mão.
Os olhos dele cintilavam enquanto ele beijava a palma da mão dela e cada um dos dedos.
— Diga que vai se casar comigo, Nilima — implorou ele baixinho. — Por favor.
Ela pôs a mão em seu rosto.
— Sim, Sunil. Eu me caso com você.
Sunil riu, contente, e a agarrou, girando com ela até Nilima gritar e rir com ele, agarrando-se com força em seus braços.
— E agora diga que me ama.
— Eu te amo — ecoou ela.
Ele parou de girar, pondo-a no chão, e acrescentou:
— Com todo o seu coração.
Correndo a mão pelos músculos fortes de seu peito e parando quando sua palma alcançou a altura do coração dele, ela aquiesceu:
— Com todo o meu coração.
Então, com a mão cobrindo a dela, ele baixou a cabeça e capturou seus lábios mais uma vez.
Ana apertou minha mão e a cena diante de nós desapareceu.

2 comentários:

  1. oi, obrigada por compartilhar!!! O cap 23 não está aparecendo!!

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