12 de setembro de 2018

23 - Professor


O corpo da jovem Anamika elevou-se no ar e um redemoinho a envolveu. Levantei-me rapidamente, pensando em pegá-la, mas sem de fato saber o que fazer. Eu estava ciente de que era a magia da deusa em ação, e torcia para que isso significasse que eu havia finalmente conseguido trazê-la de volta.
A garota fechou os olhos e dedos de luz, vento e água cravaram-se nela ao mesmo tempo que me rasgavam. O calor percorreu meu corpo e meus membros tremeram. O amuleto que eu usava reluzia com uma luz branca que disparou na direção da garota e extraiu dela algo brilhante. Ana gritou e, de repente, a entidade reluzente flutuando acima dela fugiu como um estrela pela janela e desapareceu na escuridão lá fora. Com a respiração pesada, segurei seu corpo quando caiu.
Enquanto a colocava de volta na cama, ajeitando o cobertor, seus olhos se abriram.
— Ana? — falei suavemente. — Anamika, consegue me ouvir?
Não houve resposta. Na mesma hora ouvi um barulho de passos do lado de fora do quarto e os pais dela entraram.
— O que aconteceu? — perguntou a mãe, alarmada e, ao mesmo tempo, com um brilho de esperança.
Não havia censura nos olhos deles. Sabiam que eu passava grande parte de meu tempo vigiando-a, mesmo tarde da noite. A mãe quase parecia ter um sexto sentido em relação a mim e acreditava que eu possuía um toque de magia que poderia ajudar Ana. Em uma ocasião a ouvira falar com o marido que eu era um talismã e que a única razão pela qual Ana não definhara nesses últimos meses era eu estar partilhando minha energia vital com ela.
De certa forma, ela estava certa. Anamika e eu tínhamos mesmo um elo. Pelo menos, no futuro. Quanto a partilhar a energia, eu não sabia dizer, mas conseguia entender de onde ela tirara essa ideia. Bolsas haviam se formado sob meus olhos e, embora eu estivesse sempre exausto, raramente dormia a noite toda. Quando ocasionalmente adormecia na cadeira no quarto de Ana, ao acordar descobria que a mãe dela tinha ido ver se eu estava bem e me cobrira com uma manta durante a noite.
Maa? Baabaa? — Anamika sentou-se, esfregando os olhos com a palma das mãos.
— Estamos aqui, pyaari beti.
A mãe de Ana tomou a filha nos braços enquanto eu me afastava.
— Mika! — exclamou o pai com um arquejo estrangulado. — O que foi que você fez? — perguntou-me ao se aproximar e acariciar os cabelos da filha.
— Nada — respondi. — Ela acordou quando o raio caiu.
— Não ouvi nenhum trovão — disse a mãe, embalando a filha para a frente e para trás. — Obrigada — acrescentou com lágrimas nos olhos. — Você é um presente dos deuses.
Anamika resmungou:
— Estou com fome, baabaa.
Quando a mãe gritava para o andar de baixo, pedindo que um criado aquecesse a sopa e um pedaço de pão, um raio atingiu novamente o solo. Os pais de Ana pareceram não notar. Olhei pela janela e vi uma figura de pé na escuridão sob uma árvore. Quando outro relâmpago tornou a iluminar o céu, arquejei, o reconhecimento disparando eletricidade por minhas veias. Quando um raio caiu pela terceira vez, vi que a pessoa havia desaparecido.
— Vocês podem me dar licença? — perguntei. — Vou deixar que os três conversem.
Eles não fizeram qualquer comentário sobre minha saída. Segui para a árvore solitária e olhei ao redor, mas não vi ninguém. Um par de pegadas era visível no solo macio, mas não havia rastros levando a outro lugar.
— Você ainda está aqui? — perguntei baixinho.
— Estou aqui, filho.
Kadam pôs a mão em meu ombro e eu me virei. Minha pulsação disparou, batendo forte na garganta quando engoli em seco. Uma emoção arrebatadora percorreu meu corpo. Não pensei que o veria de novo. Na verdade, não pensei que veria nenhum daqueles que eu amava depois de meu fracasso em salvar Anamika. Reprimi um soluço.
Quase como se soubesse o turbilhão que agitava meu coração, ele segurou meu braço e me puxou para ele. Abracei-o, desesperado para me agarrar ao pouco de minha vida que restava. Os ombros dele tremiam. Ele cheirava a chá e especiarias, livros e a nossa casa. Eu sentira tanto a falta dele.
— Eu falhei com ela — lamentei em resposta.
O sentimento de vazio que eu vinha nutrindo havia meses tinha crescido no centro de meu peito, lentamente sugando toda a esperança e drenando o senso de propósito. Embora Ana houvesse enfim acordado e Kadam estivesse nesse momento ali de pé na minha frente, a escuridão bocejava, abrindo a boca para engolir os pequenos fragmentos a que eu me agarrava. Ele viera para se despedir. Qualquer que fosse meu destino, eu o merecia. Kadam estava ali para me dizer que estava tudo acabado.
— Não. — Ele recuou um passo, suas mãos sacudindo meus braços enquanto fitava meus olhos. — Não. Você não falhou com ela. Você a salvou. Era como devia acontecer.
Percebendo que o olhava boquiaberto, sacudi a cabeça e perguntei, atropelando as palavras:
— Como devia acontecer?
Lembrei-me de suas palavras apressadas e enigmáticas ditas havia muito tempo. Ele tinha me advertido de que algo pernicioso aconteceria a Ana e que eu precisava aceitar, permitir que ocorresse.
Afastei-me bruscamente dele, mas meu gesto não foi enérgico o bastante e uma de suas mãos continuou firme em meu braço.
— Eu deveria deixar que abusassem dela? — acusei, incrédulo. — Deveria deixá-la morrer? Você sabia que isso ia acontecer e não fez nada para impedir. Você não é o homem que eu acreditava que fosse.
— Talvez eu não seja — replicou ele suavemente. — Eu lhe disse que viajar pelos caminhos do tempo me afetou. Sem dúvida, todos nós mudamos. O universo irá decidir se para melhor ou para pior.
Ele encolheu-se quando recuei, trôpego. A justa indignação que queimava como ácido minhas veias lentamente esfriou, transformando-se em uma tristeza sombria. Eu lamentava por mim, mas lamentava ainda mais por Anamika. A doce e jovem garota que eu sabia não merecer o que lhe tinha acontecido.
— Sei que você está abalado — disse ele. — Não o culpo, filho. Mas esse é o passado dela, Kishan. Você se lembra das histórias. A deusa Durga nasceu do rio. Quando as chuvas vieram, a Anamika que você conheceu precisava perecer para que a deusa pudesse nascer. O que passou como cativa é a lembrança obscura que ela esconde de você. Estava lá. Sempre esteve lá, Kishan.
Em tom desdenhoso, sentindo-me indignado tanto comigo quanto com ele, repliquei:
— Devia haver outra forma.
— Não — retrucou ele. — Você lhe deu o quinto presente, a pedra da verdade. E o quinto sacrifício agora está plenamente cumprido. Sem os terríveis acontecimentos de seu passado, Ana jamais teria estado naquela estrada solitária, nunca teria tido você a seu lado e jamais teria se tornado a deusa.
— Talvez isso tivesse sido melhor.
— Melhor para quem? — perguntou Kadam.
— Melhor para ela — devolvi.
Os lábios de Kadam se contraíram em uma linha fina. Ele me deu as costas.
— Ela está à sua espera, você sabe.
Meu olhar disparou para a janela de Ana.
— Não, não aquela — esclareceu ele. — A que você extraiu dela.
Corri os olhos à minha volta, pela paisagem escura.
— Ela está aqui? — perguntei, desesperado para vê-la.
Ele sacudiu a cabeça.
— Aqui, não — falou. — Em casa. No tempo que vocês partilham. Ela o está chamando agora mesmo. Quer que você volte para casa. Você não consegue ouvi-la?
Franzindo a testa, inspirei fundo e fechei os olhos. Uma suave vibração de energia pulsava sob minha pele e me senti renovado e vivo, de uma forma que não me sentia havia muito tempo.
Virando o pescoço, dilatei as narinas e cheiros de todos os tipos foram registrados por minha mente. Minhas pálpebras se abriram com a surpresa e invoquei a energia da transformação. No espaço de alguns segundos, minha perspectiva mudou. Bigodes brotaram sobre meu lábio superior e meus dentes se alongaram. Eu me abaixei, aproximando-me do chão, e experimentei a sensação familiar das garras rasgando a grama. Abanando a cauda, arqueei as costas e me espreguicei de uma forma que me pareceu perfeita. Meu tigre estava de volta. Era interessante para mim como eu sentira a falta dele.
Grunhi baixinho e bufei aos pés de Kadam, embaçando seus sapatos lustrosos com minha respiração. Uma melodia monótona e longínqua fez cócegas nos pelos sensíveis de meus ouvidos.
Inclinei a cabeça. Era o pássaro recém-nascido de Durga cantando com sua deusa enquanto ela chamava seu tigre. Quase com relutância, voltei à forma humana.
— Lamento pelo que você perdeu, filho.
— Você quer dizer pelo que Ana perdeu.
— Não, não é a isso que estou me referindo, embora lamente por isso também.
— Então o que é?
— Aquilo de que abriu mão desta vez para salvá-la, para trazê-la de volta.
— Você se refere a me comprometer com uma vida dedicada a servir à deusa?
— Tem isso também. Mas, ao trazer Ana de volta, você abriu mão de algo.
Meu coração congelou. Lembrei-me daquele dia muito distante em que salvei Ren. Kadam, ou Phet, tinha me dito que eu abrira mão de minha humanidade para trazê-lo de volta. Não me parecera grande coisa na ocasião e, sinceramente, eu não queria viver para sempre. Não mesmo.
Mas minha imortalidade já fora levada. O que restava dela.
— Me diga — pedi, tenso.
— Você não pode mais ser separado do tigre. Se você escolher esse caminho e decidir levar a cabo tudo que está na lista, então o tigre será uma parte de você até o dia em que morrer. Sua vida estará para sempre interligada à dele.
— Entendo.
Ali de pé, considerei a consequência de salvar Ana e concluí muito rapidamente que valera a pena. Eu tinha vivido com o tigre por muito tempo. Éramos parte um do outro. Não me arrependia de ter salvado Ren e não iria me arrepender de fazer o mesmo por Ana.
— Sei que não confia em mim neste momento, Kishan — disse Kadam. — Acredite, se eu pudesse ter mudado esse acontecimento na vida da jovem Anamika, teria feito isso.
— Você quer dizer que teria mudado se não afetasse a existência da deusa.
Os olhos dele desviaram-se rapidamente.
— Sim. É isso que quero dizer.
Endireitei os ombros, com uma expressão pétrea.
— Então o que vem agora? — perguntei. — Eu simplesmente retorno para ela?
— Ainda não. Volte e fique com a família de Ana esta noite. Tente descansar um pouco. Você me verá amanhã e entenderá tudo então.
Exausto, olhei para a casa.
— Muito bem.
Dei alguns passos, afastando-me dele, e então parei quando ouvi suas palavras suaves:
— Espero que você possa me perdoar um dia, Kishan. Mas eu o encorajo a, pelo menos, perdoar a si mesmo. Você não tem culpa do que aconteceu.
Sem olhar para trás, continuei em frente e entrei na casa. Anamika estava na cozinha, remexendo no conteúdo de uma tigela de sopa.
— Pensei que você estivesse com fome, Mika — disse a mãe.
— Se você lhe desse algum espaço em vez de ficar em cima dela como uma galinha com os pintos, então talvez ela comesse — disse o pai.
O jovem Sunil encontrava-se sentado diante deles, o rosto apoiado nas mãos fechadas enquanto observava a conversa.
— Você viu muitos bandidos? — perguntou ele.
— Psiu! — repreendeu o pai. — Você não deve falar dessas coisas.
Anamika ergueu os olhos para Sunil e então me fitou brevemente. Eu nem tinha certeza de que ela percebera minha presença no cômodo. Seu rosto enrubesceu.
— Havia muitos bandidos — disse ela a Sunil. — Havia mercadores de escravos, homens que chicoteiam crianças e... vilões malvados. E um dia eu vou matar todos eles.
A mãe de Anamika começou a chorar e dizer que seu bebê não sabia o que estava falando, enquanto a expressão do pai se tornava dura. Mas os olhos de Ana encontraram os do irmão e ele assentiu, sério. Em seus rostos jovens pude ver os guerreiros que um dia se tornariam. Ver isso partiu meu coração e, no entanto, eu também compreendi. Esse foi o momento da virada para ela. Kadam estava certo. O que acontecera a Anamika marcara seu caminho de tal forma que forjaria quem ela se tornaria no futuro. Eu não podia negar minha parte nele ou o fato de que admirava a pessoa que ela era e que se tornaria. Só queria que não tivesse de acontecer do jeito que aconteceu, e não estava muito certo de que poderia perdoar a mim ou Kadam por deixar que acontecesse.
Anamika levou a colher à boca e começou a comer com vontade. Nenhum deles me deteve quando deixei a cozinha. Dormi um sono agitado por algumas horas e então voltei a esculpir a pedra da verdade. Agora que Ana estava acordada, terminei de fazer o cordão que tinha planejado para ela usando uma comprida tira de couro. Depois de passar a tira pelo pequeno tigre que havia esculpido junto com algumas contas que a mãe dela me deu, enfiei o cordão em uma bolsinha, planejando entregar a ela na próxima vez que nos falássemos.
Na manhã seguinte, houve uma grande movimentação quando um viajante apareceu. Ele foi recebido na casa e imediatamente fui convocado de minhas devoções matinais no jardim. Sunil me encontrou e me levou para a casa. Quando vi Anamika, dei-lhe um raminho de jasmim e ela o pegou, retorcendo-o entre os dedos. Os longos cabelos de Ana ainda estavam molhados do banho e suas bochechas reluziam de saúde. Ela sorriu timidamente para mim.
— Nós conversamos e estávamos nos perguntando... Você pode treinar Sunil também? — perguntou ela.
O irmão assentiu vigorosamente com a cabeça.
— Precisamos estar preparados, caso os homens voltem.
Respirei fundo enquanto considerava os dois.
— Podemos falar sobre isso depois de encontrarmos o visitante? — perguntei.
Ambos concordaram.
Dirigindo-me à sala onde os homens haviam se reunido, perguntei-me o que aconteceria aos dois em seguida. O pai não era exatamente um guerreiro, até onde eu podia ver. Imaginei que o visitante fosse Kadam, embora não tivesse certeza. Não pela primeira vez, odiei o fato de ele guardar tantos segredos.
Quando entrei na sala e vi quem estava sentado ali, fiquei paralisado por alguns segundos, olhando demoradamente o visitante. É claro. Tudo fazia sentido. Um sorridente Phet me espiou de onde estava sentado, os olhos disparando mensagens secretas pelo ar como se fossem flechas.
Ergui uma sobrancelha, em uma expressão sardônica, mandando também uma mensagem.
— Meu garoto! — exclamou Phet, levantando-se com agilidade.
Ele firmou as mãos em meus ombros e ficou na ponta dos pés para murmurar em meu ouvido. Kadam tinha quase a minha altura. Eu sabia que o Lenço Divino mudava aparências, mas, pela primeira vez, me perguntei onde o restante dele tinha ido parar. Phet era minúsculo, em comparação com Kadam. Confirmou o que eu havia acabado de entender e nos sentamos.
Ele facilitou as coisas para mim e deu a maior parte das explicações. Depois de se apresentar como meu ex-professor, disse que havia sido enviado para me chamar de volta para casa. O rosto de Anamika ficou triste e eu não fui o único a vê-la sair abruptamente da sala. O irmão a seguiu um momento depois. Até a mãe deixou cair a costura no chão e logo se abaixou para apanhá-la.
— Ele precisa ir agora? — perguntou ela.
— Sinto muito — disse Phet com sinceridade —, mas estão precisando dele em casa.
O pai de Ana assentiu.
— Tem sido uma bênção para nossa família tê-lo aqui. Temos com ele e com sua família uma dívida que nunca poderá ser paga. — Ele voltou-se para mim. — Iremos, naturalmente, equipá-lo com nosso melhor cavalo, provisões e ouro.
Levantando a mão, eu disse:
— Vocês foram mais do que generosos, permitindo que eu ficasse aqui esses últimos meses. Agradeço a oferta, mas prefiro viajar com o mínimo possível e caçar ao longo do caminho. — Fazendo uma pausa, e incapaz de ignorar as sobrancelhas erguidas de Phet, acrescentei: — No entanto, há uma coisa que poderiam fazer por mim.
— Diga qualquer coisa que queira e cuidaremos para que seja feita, se for possível — replicou o pai de Ana.
— Durante a jornada até aqui, antes de adoecer, Anamika me pediu que a ensinasse a usar a faca.
A mãe de Ana cobriu a boca com a mão. Seu leve arquejo pôde ser ouvido.
— Pensei que aprender a manejar a arma a ajudaria a sentir-se confiante. Se ela fosse apanhada de surpresa, teria um meio de se defender.
O pai de Ana apertou os braços da cadeira, os nós dos dedos ficando brancos, enquanto a boca da mãe se movia sem emitir som. Eu sabia que ela protestaria contra o que eu estava planejando sugerir, então tentei evocar a diplomacia de Ren e explicar de uma forma que entendessem.
Como não dissessem nada, segui em frente, torcendo para que desse certo:
— Ela é muito boa com a faca. Seus reflexos são instintivos e aguçados. Acredito que a continuação do treinamento irá ajudá-la a se ajustar ao que aconteceu.
— Mas... mas mulheres não treinam com armas — disse a mãe de Ana.
Sua costura havia caído no chão de novo e dessa vez ela não se deu o trabalho de pegá-la.
— Algumas treinam — afirmei. — Minha mãe, na verdade, é uma renomada espadachim. Phet trabalhou com ela inúmeras vezes.
Os pais de Ana lançaram um olhar de dúvida a Phet e eu ri.
— Ele não parece tão ameaçador quanto era antes, mas foi quem me treinou.
As sobrancelhas de ambos se ergueram. Tinham me visto treinar com os poucos homens que empregavam como soldados. Eu tinha passado muitas horas com eles, ajudando-os a aperfeiçoar suas habilidades. Nenhum deles chegava sequer perto de meu nível e os pais de Ana sabiam disso.
Eles se entreolharam e então voltaram-se para nós dois.
— Se permitirem — falei —, Phet gostaria de ficar com vocês por alguns meses. Ele não é mais tão ágil de corpo quanto costumava ser, mas sua mente continua bem alerta.
— É claro que seu amigo pode ficar — disse a mãe de Ana. — Mas tem certeza de que você não pode ficar até ele se recuperar e então seguirem viagem juntos?
Sacudi a cabeça.
— Infelizmente, não posso. Já fiquei muito tempo. Há pessoas em casa que precisam de mim.
O pai de Ana mexeu-se na cadeira, desconfortável, e inclinou-se para a frente. Eu podia ver por sua linguagem corporal que ele iria negar meu pedido. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, aproximei-me dele e, baixando a voz, acrescentei:
— Eu consideraria esse um favor de peso equivalente ao que fiz ao senhor ao trazer Anamika para casa. Phet não pode viajar tão rápido quanto eu, então seria um grande conforto para minha mente se ele ficasse com vocês por um tempo.
Eu sabia que, quando Kadam estava disfarçado como Phet, podia ouvir tudo que eu dizia, mas ele olhava pela janela, chamando com os dedos um passarinho que havia pousado no parapeito, e então pegou agilmente o bordado caído, devolvendo-o à mãe de Ana. Ela agradeceu e ele lhe dirigiu um sorriso em que faltavam alguns dentes.
Em voz mais alta, continuei:
— Ele é um estrategista brilhante e poderia me substituir no treinamento de seus soldados. Pode cuidar de Anamika e Sunil e instruí-los em quaisquer disciplinas que vocês desejem. Se precisarem de mim, podem mandá-lo me buscar.
Isso mais do que qualquer coisa pesou na decisão a meu favor.
— Ficaríamos encantados em mostrar a... Phet — a mãe de Anna fez um gesto de cabeça para ele — nossa hospitalidade. Considere sua a nossa casa — disse ela. — Quando você vai partir? — perguntou após voltar-se para mim.
— Dentro de uma hora. Se me permitem, gostaria de me despedir primeiro de Anamika e seu irmão.
Levantei-me para procurar Ana. Fechando os olhos, me abri para nossa conexão. Era mais forte onde a Ana adulta me aguardava no futuro, mas eu também podia localizá-la onde se encontrava agora e nossa ligação estava totalmente aberta. Aberta o bastante para eu saber que ela era uma garota que fora horrivelmente usada, mas ainda era muito inocente e estava com o coração partido.
Ana se encontrava sentada no chão, as costas apoiadas no memorial que o pai encomendara para ela quando pensou que estivesse morta. Sunil sentava-se perto dela, vigiando-a. Notei que trazia uma espada pequena na mão. Ele se levantou quando me aproximei, como se pretendesse defender a irmã.
— Quer dizer que você veio se despedir? — perguntou, o rosto jovem feroz e carrancudo.
— Vim — respondi.
— Então está simplesmente nos abandonando? Não se importa mais conosco?
— É claro que me importo com vocês. Mas estão precisando de mim em casa. E tenho boas notícias.
— O que é? — perguntou ele, cruzando os braços diante do peito.
— Seu pai concordou com o treinamento. Dos dois.
— Quem vai nos treinar, se você vai embora? — perguntou uma vozinha.
Olhei para Anamika. Os longos cabelos pendiam em mechas que cobriam seu rosto. Enquanto Sunil estava fechado e aborrecido, Ana era o oposto. Com as costas curvadas e os braços caindo flacidamente no colo, parecia esgotada e vazia, como um pedaço de renda descartado, uma coisa bonita que tinha sido descuidadamente deixada de lado. Doía o fato de ser eu a causa de ela se sentir assim.
Agachando-me ao lado dela, eu disse:
— Sunil? Importa-se de me dar um momento para falar com Anamika em particular?
Ele pareceu querer protestar, mas então assentiu e voltou para a casa.
— Ana? — Peguei sua mão, mas ela a puxou de volta e virou as costas para mim. Suspirei e sentei-me ao lado dela, também me recostando no monumento de pedra. — Sinto muito ter de ir embora. Eu convenci, sim, seus pais a permitirem que você seja treinada. Phet será um bom professor. Eu prometo. Ele me ensinou tudo que sei.
Ela me olhou, desconfiada, através da cortina de cabelo.
— Não vai ser a mesma coisa — disse.
— Eu sei. Mas você não precisa mais de mim.
— Não é o que eu sinto.
— Não — concordei. — Não é.
Ouvi uma fungada e a vi passando a mão pelos olhos.
— Trouxe uma coisa para você.
— O que é? — perguntou ela, virando-se parcialmente em minha direção.
— É algo para você se lembrar de mim.
Pegando a bolsinha, tirei lá de dentro o cordão do tigre e o estendi para ela.
— É o tigre que vimos em nossa jornada? — perguntou.
Sacudi a cabeça.
— Não. Este tigre é muito especial. Quando você se sentir sozinha ou triste, se não tiver certeza do que fazer, pergunte ao seu tigre. Ele vai estar sempre à sua disposição e lhe dirá qual é o caminho certo a seguir. Tome.
Abrindo os dedos dela, coloquei o tigre em sua palma.
— Faça uma pergunta a ele.
— Eu... — Ela fez uma pausa e umedeceu os lábios. — Eu vou ver Kishan novamente?
O tigre brilhou e ela arquejou, admirada.
— Pronto. Está vendo? Ele tem um pouco de magia. Prometo que ele vai sempre proteger você e vai fazer tudo que puder para mantê-la a salvo de qualquer mal. Quando ele se aquecer em sua mão, a resposta é sim, e isso também quer dizer que as pessoas na sua presença estão falando a verdade, mas, se ele permanecer frio, é melhor você agir com cuidado. Entendeu?
Ana assentiu, os olhos arregalados de espanto.
— Obrigada por este presente.
Toquei seu queixo com o dedo e sorri.
— Eu lhe daria qualquer coisa que pedisse, Anamika Kalinga.
Seus olhos encheram-se de lágrimas.
— Então você vai ficar?
— Eu sempre estarei com você, Ana. Mesmo que não possa me ver.
Ela pareceu aceitar a resposta e eu a deixei ali com seus pensamentos, torcendo para que Phet fosse de fato capaz de guiá-la. Ela era tão vulnerável, tão frágil. Estar com ela e saber o que lhe acontecera me ajudou muito a entender a mulher que ela se tornara. Enquanto caminhava de volta à casa, percebi que me sentia ansioso por me reconectar com a Anamika adulta. Talvez agora não brigássemos tanto. Talvez conseguíssemos encontrar uma forma de nos sentirmos confortáveis ao lado do outro.
Quando voltei a meu quarto, enquanto reunia meus pertences, uma cabeça dourada projetou-se de sob o travesseiro.
— Aí está você — falei, pegando a cobra nas mãos.
Ela se enroscou em meu pulso e, quando abri a bolsa, enfiou a cabeça ali dentro e o restante do corpo logo a seguiu. Então me despedi dos pais de Ana e Phet ofereceu-se para me acompanhar até o limite da propriedade.
Assim que nos vimos longe da casa, ele aprumou as costas curvadas e mudou para seu aspecto normal.
— É melhor voltar para ela agora, filho — disse.
— O que vai acontecer?
— Você quer dizer com Anamika?
Fiz que sim com a cabeça.
— Seus pais vão acabar se convencendo, mas terei de treinar Ana e Sunil em segredo por alguns anos. Quando os pais perceberem quão habilidosos, de fato, eles são os dois já estarão bem perto de se tornar guerreiros. Sunil ficará ao lado da irmã todos os dias, assumindo a tarefa de seu guardião pessoal. Ele se culpa pelo que aconteceu com ela.
Kadam refletiu um pouco e então acrescentou:
— Na verdade, a única razão de ele ter deixado a irmã e ido para o futuro foi acreditar que faria um desserviço a ela se ficasse. As lembranças de prejudicá-la pelo tempo que ficou sob o jugo de Lokesh são muito fortes. Fortes demais para que ele as ignore. A última coisa que ele deseja fazer é lhe causar algum mal.
— Você viu o futuro dele? — perguntei.
— Sim. — Kadam sorriu. — Eles estão muito felizes juntos.
— Nilima e Sunil, você quer dizer?
Ele sorriu, o rosto sereno.
— É o que eu quero para vocês todos, sabe? Para ela também.
Eu não tinha certeza se ele ainda estava falando sobre Nilima ou se seus pensamentos tinham divagado para outro lugar, mas achei melhor não perguntar.
— Agora vá. — Ele me deu um empurrão de leve. — Tenho muito trabalho a fazer.
— Como você conseguiu? — perguntei. — Você ensinou aos dois durante anos. Como teve tempo?
Uma expressão cansada cruzou rapidamente seu rosto.
— O tempo é meu maior aliado, Kishan. É meu maior inimigo também. Você vai aprender isso por si mesmo, receio. — Ele segurou meu ombro. — Mas há muito mais em seu caminho antes disso. Verei você em breve.
O pequeno pedaço da pedra da verdade que pendia de uma tira de couro em meu pescoço se aqueceu.
— Até breve — falei.
Ele deu meia-volta e seguiu para a casa, e eu o observei mudar fisicamente de um homem alto e ereto para um mago enrugado e corcunda. Assim que desapareceu, respirei fundo e permiti que a conexão com Anamika aflorasse em meu peito. A consciência de sua existência saiu de meu coração como um raio e preencheu meu corpo com uma luz penetrante.
— Estou indo — falei baixinho.
Quando apertei o amuleto com força, pensei na garotinha que estava deixando para trás. A deusa estivera aprisionada dentro de uma jovem vulnerável e desesperançada. A Anamika que eu conhecia fizera todo o possível para esconder aquela garotinha, trancando-a bem fundo dentro de si. Talvez agora ela abrisse essa parte de si mesma para mim. Talvez, quando eu olhasse em seus olhos, ela me deixasse ver aquele pedaço dela, havia muito esquecido.
Em um torvelinho de energia, o tempo e o espaço se dobraram à minha volta e logo eu estava olhando para nossa familiar montanha. Seguindo para casa, sorri, achando que agora conhecia Anamika de todas as formas possíveis.
Eu estava enganado.

Um comentário:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!