12 de setembro de 2018

22 - O quinto sacrifício

Honestamente, eu não sabia o que fazer. A cobra estava presa ao pescoço de Ana como uma longa sanguessuga. Seu corpo ondulava à medida que injetava o veneno dourado no pescoço pálido. Um fio escorreu lentamente e cintilou à luz do fogo.
— Vá em frente — sussurrei para a criatura recém-nascida. — Por favor, salve-a, se puder.
Por fim, a cobra desprendeu-se, deslizou pelo ombro e desapareceu sob os cabelos da garota morta. Fiquei lá sentado, boquiaberto, sem saber o que fazer.
Fechando a boca, inclinei-me para a frente.
— Aonde você foi, cobrinha? — perguntei, levantando, hesitante, a trança de Ana para olhar debaixo dela. Encontrei a minúscula serpente enroscada em um círculo no espaço entre o pescoço de Ana e o chão. Sua cabeça descansava na última volta do corpo, os olhos de esmeralda reluzindo no esconderijo escuro. Soltei a trança, deixando a cobra em paz, e encolhi os joelhos, abraçando-os. Fiquei sentado ali por muito tempo, a testa pressionada contra os joelhos, sentindo-me anestesiado.
O sol subira no céu, já passando do meio-dia, e eu sabia que não podia mais postergar. Não sabia o que estava esperando. Suponho que um milagre. O veneno dourado parecia a mesma substância que salvara Kelsey mais de uma vez. Essa nova cobra, porém, por mais que parecesse Fanindra, não era ela, e Anamika tinha partido. Seria apenas ilusão esperar que uma serpente mágica, nascida do ovo da Fênix, a trouxesse de volta?
Saí da caverna e passei o restante da tarde cavando um túmulo. Se o Amuleto de Damon funcionasse, eu poderia ter executado a tarefa em alguns segundos, apenas com a mente, mas trabalhar dessa maneira, de alguma forma, era bom e parecia certo. Era o último ato de culto que eu podia prestar à deusa a quem servia. O suor fazia a túnica colar nas costas e nos braços enquanto eu trabalhava, então finalmente a tirei e joguei sobre uma pedra.
Se eu tivesse as ferramentas apropriadas, a tarefa teria sido muito mais fácil. Em vez disso, cavei o lugar do descanso final de Ana usando grandes galhos que cravavam farpas em minhas mãos. Eu acolhia a dor de bom grado. O suor que me escorria entre as escápulas brilhava no peito e pingava do rosto, misturando-se com as lágrimas que escorriam sem cessar.
Na metade do trabalho, pensei em queimar seu corpo, mas a ideia de que ela então deixaria totalmente de existir, suas cinzas elevando-se para o céu noturno, muito além de meu alcance, doía mais do que eu pensava ser possível. A própria ideia de que ela não teria um lugar de descanso final era inaceitável para mim. Era um imenso peso em meu peito que me fazia afundar no negrume de um piche de emoções.
Enquanto eu trabalhava noite adentro, meus membros tremendo de exaustão, as mãos em carne viva, o desalento em minha alma permeava todo o corpo. Vindo à superfície, poluía meus pensamentos e voltava minha mente para a vingança. Eu culpava um homem pela morte de Ana, por sua dor, e o mínimo que poderia fazer era me certificar de sua morte.
Se, por alguma razão, ele houvesse sobrevivido, e uma parte de mim esperava que isso tivesse acontecido, então eu tentaria matá-lo outra vez. Eu mataria todos eles. Minha ira seria brilhante e feroz. Inflamá-la seria tão fácil quanto riscar um fósforo.
Com a tarefa finalmente cumprida, joguei água no rosto e no torso e corri as mãos pelos cabelos, que pingavam. A poeira cobria meu rosto e eu tive de lavar e cuspir várias vezes para livrar a boca da sujeira. Quando me vi suficientemente limpo, entrei na caverna. Com cuidado, ajeitei o cobertor em torno do corpinho de Ana e a ergui nos braços. Depois de depositar um beijo suave em sua testa, ajoelhei-me para colocá-la no túmulo. Foi quando senti um sopro em meu pescoço. Franzindo a testa, olhei com atenção o rosto dela, então apoiei seu corpo em um braço e pus a palma da mão perto de sua boca. Pela segunda vez, senti uma leve respiração.
— Ana? — chamei, a voz grossa de esperança. — Anamika?
Ela não se moveu nem piscou, mas, quando examinei o pescoço, onde a cobra havia picado, vi dois minúsculos furinhos. Milagrosamente, a pele estava se regenerando. Colocando-a no chão, pus a palma da mão em seu peito. Senti um batimento. Prendi a respiração para ter certeza. Um longo momento se passou e então senti um segundo batimento. Ela estava viva! Ri e chorei outra vez, então dei um pulo para trás quando algo tocou meu braço. A pequena cobra devia ter ficado presa no cobertor de Ana.
Com delicadeza, tirei a serpente, que, de imediato, se retorceu entre meus dedos e levantou a cabeça, olhando para mim.
— Você é um amuleto que me trouxe uma boa sorte que eu não esperava — afirmei. — Nunca vou conseguir agradecer o suficiente a você.
Coloquei-a em uma pedra próxima e ela se enroscou, os olhos fixos em Ana.
Minha empolgação por saber que Ana ainda estava viva foi rapidamente substituída por um intenso desejo de salvá-la. Era claro que havia algo de muito errado com a garota e que estava além de meu poder resolver isso. Eu precisava levá-la para casa. Tive um sono intermitente naquela noite, acordando com frequência para me certificar de que ela ainda estava respirando.
Na manhã seguinte, reuni todos os nossos pertences e enrolei Ana no cobertor. A cobra havia deslizado para minha bolsa e fiquei feliz em deixá-la ali. Quando tudo que restava na caverna eram os fragmentos da pedra da verdade, peguei um dos pedaços maiores e o examinei.
— Eu vou salvá-la — garanti, e, para minha surpresa, a pedra reluziu. Durante a doença de Ana, nem uma só vez a pedra havia me respondido.
Aproveitando-me de seu poder renovado, enchi-a de perguntas e declarações.
— Vou levá-la para casa — declarei, e a pedra respondeu afirmativamente. — Ela não vai morrer aqui. — Mais uma vez, ela cintilou. Uma energia renovada corria em meu corpo. Sem demora, recolhi todos os pedaços da pedra e os coloquei em um dos alforjes, ficando com um pequeno pedaço e enfiando-o no bolso da túnica. Então enchi nossos cantis com água, amarrei-os à sela e peguei Anamika.
Tendo ficado amarrado tanto tempo, o cavalo, inquieto, estava ávido para se pôr em movimento. Eu decididamente também queria partir. Isso iria funcionar. Eu iria salvá-la e, de alguma forma, invocar minha Anamika e consertar tudo. Com a jovem Ana aninhada em meus braços, parti pela estrada mais uma vez, usando um pequeno pedaço da pedra da verdade como guia.
Duas semanas se passaram antes que finalmente chegássemos à casa do pai dela. Quando me aproximei do portão, cavaleiros armados vieram a meu encontro. Eu devia estar parecendo um vagabundo, sujo como estava, sem fazer a barba havia mais de um mês. Ficara sem suprimentos na semana anterior e conseguira caçar e cozinhar um coelho, mas não fora suficiente. Tínhamos bastante água, mas eu estava faminto e Ana ficava cada vez mais magra. A água que eu forçava por sua boca escorria pelos lados do rosto. Eu estava certo de que uma parte chegava a seu estômago, mas sabia que era apenas uma questão de tempo para que ela morresse de desidratação.
Ela ainda dormia como se estivesse à beira da morte, mas seu pulso era estável, e a respiração, regular. Eu não compreendia o que havia causado seu sono profundo, mas me sentia grato por ele. Uma coisa era certa: Anamika havia morrido e agora, de alguma forma, estava viva. E vida significava esperança. Ninguém jamais se sentiu mais feliz do que eu ao deixar aquela cova rasa para trás, e torci para que não houvesse razão para abrir outra. Pelo menos, não por muito, muito tempo.
Exausto, permiti que os homens nos levassem, mas me recusei a entregar Anamika. Quando seu pai veio cavalgando até nós, em uma comoção de cascos e crinas, puxou as rédeas com força ao se aproximar e correu até mim. Afastei o cobertor que cobria o rosto de Ana. As lágrimas em seus olhos se derramaram e ele estendeu os braços para receber a filha. Hesitando somente por um momento, eu a entreguei com todo o cuidado e ele esporeou o cavalo, lutando para equilibrar seu fardo, voltando em disparada para a casa. Eu o segui.
A mãe de Ana veio correndo em nossa direção, agitando os braços, aos prantos. Os dois, meio desajeitados, conseguiram pôr a filha no chão e o pai gritou que um médico fosse chamado. Dois homens imediatamente partiram a cavalo. Minha montaria parou, mas meu corpo continuou a se mover. A próxima coisa de que lembro é que o mundo se inclinou e desabei com força no chão antes que tudo ficasse escuro.


Quando acordei, era noite e reconheci o quarto de hóspedes em que ficara antes. Alguém estava sentado na cadeira ao lado.
— Está acordado? — perguntou um garoto.
— Sunil? — Minha voz era áspera e rouca.
— Você a encontrou — disse ele.
— Sim.
Mudando de posição na cama para me sentar, pus a cabeça latejante nas mãos.
Sunil saiu em disparada e levei um momento para fortalecer minha determinação. Semanas nas costas de um cavalo haviam deixado todo o corpo rígido. Antes que conseguisse me levantar, a mãe de Sunil entrou no quarto. Gritou ordens para o filho, que a seguira e saiu correndo para cumpri-las. Ela sentou-se na cadeira dele. Levando um copo a meus lábios, ordenou:
— Beba.
Bebi, hesitante a princípio, e então pus a mão sobre a dela e a virei, bebendo a água fresca e doce em grandes goles até acabar.
— Ótimo — disse ela. — Agora você vai comer. — Virou-se para o vão da porta vazio. — Sunil? A sopa. Depressa!
Sunil entrou correndo no quarto em um emaranhado desengonçado de braços e pernas adolescentes e entregou à mãe uma tigela de sopa.
— Consegue comer sozinho? — perguntou ela. — Sunil pode ajudá-lo, se precisar.
Os olhos do garoto se arregalaram e ele engoliu em seco, mas assentiu quando olhei para ele com o canto da boca levantado.
— Posso comer sozinho — respondi. — Como está Ana? — Rapidamente me corrigi: — Anamika, quero dizer.
— Sua mente ainda está dormindo — disse a mãe. — Mas consegui alimentá-la um pouco.
— Ótimo.
— Quero lhe agradecer por trazê-la de volta para nós. Tive medo de nunca mais ver minha filha.
— Ela... ela passou por muita coisa — comentei, olhando para Sunil.
A mãe olhou para o filho, depois para mim. Após um instante, ela assentiu rigidamente.
— Coma. Enquanto come, Sunil vai lhe trazer água para o banho e roupas limpas. Cuide disso, filho — instruiu, deixando o quarto.
— Sim, mãe — guinchou Sunil com sua voz instável.
Ele estremeceu com as dores do crescimento, esfregou os olhos para espantar o sono e começou a trazer baldes de água quente, despejando-os em uma pequena banheira de metal, cujo tamanho era suficiente apenas para que eu me sentasse. Saboreei a sopa deliciosa, aromatizada com ervas, cheia de pedaços de carne e de vegetais, e tirei a camisa suja.
Sunil ficou para esfregar minhas costas, embora eu tenha lhe dito que não era necessário. Ele insistiu, dizendo que era o mínimo que podia fazer depois de eu salvar sua irmã. Quando terminei de ensaboar o cabelo e o corpo, ele jogou um balde de água fria em minha cabeça e me entregou uma toalha fina para me secar.
— Obrigado — agradeci enquanto enrolava a toalha em torno dos quadris. — Sua mãe mencionou alguma coisa sobre roupas?
Ele saiu correndo novamente e logo voltou com uma túnica fina e uma confortável calça de pijama. Vesti a roupa, amarrando a calça apertada na cintura para que se mantivesse no lugar. Ele também me deu um par de sandálias e um pente. Assim que fiquei apresentável, quis ver Ana, mas era tarde da noite e ouvi o zumbido cadenciado de uma mulher falando baixinho vindo de seu quarto. Então segui Sunil até o andar de baixo, onde o ruído grave de vozes masculinas chamou minha atenção.
Tão logo os homens me viram, suas vozes silenciaram. O pai de Ana fez sinal para que eu me sentasse e, assim que me sentei, não perdeu tempo.
— Conte para nós — disse, simplesmente.
Puxei minha barba curta, me perguntando quanto deveria lhe contar. Quando pensei no que eu quereria saber se fosse minha filha que tivesse sido raptada, minha decisão foi tomada.
— Ela foi vendida como escrava — contei. — Não creio que tenha sido em retaliação ao senhor ou a sua família. Ninguém falou disso no complexo e os mercadores que a levaram não pareciam se importar com sua origem.
O pai de Anamika engoliu em seco. Sua boca tornou-se uma linha implacável e seus olhos brilhavam.
— Então quem é o responsável por isso? — perguntou.
— Não tenho certeza — respondi. — Talvez um mercador ao passar tenha visto sua beleza e soube que ela renderia um bom preço. Mas também é inteiramente possível que alguém quisesse atingir sua família com uma vingança pessoal e tenha sugerido que ela fosse levada. Não sei o que aconteceu de fato, mas prometo que vou descobrir.
— Houve um mercador — disse ele devagar. — O homem mostrou interesse por Ana e perguntou se ela já estava prometida. Eu não gostei da maneira como os olhos dele se demoravam em minha filha e o mandei embora. Talvez seja essa a razão.
— Lembra-se do nome dele?
— Não. — Ele sacudiu a cabeça. — O incidente aconteceu rápido demais e eu o expulsei de minhas terras antes de saber mais sobre ele.
— Então, quando eu estiver recuperado, vou fazer o que puder para descobrir quem ele é e onde se encontra.
— Você já fez muito. Estamos em dívida com você, estranho. Por favor, considere nossa casa sua pelo tempo que desejar, mas, como pai dela, insisto em tomar conta, eu mesmo, desse assunto daqui em diante, como é meu direito.
Nesse momento, a mãe de Ana entrou na sala.
— Se este jovem deseja ficar e ajudá-lo a encontrar a pessoa responsável, então ele fica.
— Vamos falar sobre isso depois — retrucou o marido.
— Eu disse o que tinha a dizer, o que significa que não temos mais nada a falar sobre o assunto. O mínimo que você poderia fazer é não chamá-lo de estranho.
— Por acaso ele me disse seu nome para que eu pudesse usá-lo?
O homem se pôs de pé e encarou a mulher, a frustração estampada em seu rosto. Pressenti que essa contenda era algo comum entre eles. Lembrei-me de Anamika. Ela herdara o lado questionador da mãe. Recostei-me e fiquei ouvindo a discussão com um sorriso no rosto.
— Meu nome é Kishan — informei. — Kishan Rajaram.
— Está vendo? — disse a mulher, sacudindo um dedo em minha direção e depois na direção do marido. — Você deveria agradecer-lhe adequadamente e usar seu nome, agora que sabe. Na verdade, deveria estar cobrindo-o de ouro e ajoelhando-se aos pés dele.
— Ele não precisa fazer isso — comecei, mas fui rapidamente cortado pelo pai de Ana:
— Vou agradecer a quem eu tiver de agradecer e vou usar nomes quando achar adequado usá-los. Não me diga como conduzir questões entre homens. — Seu pescoço ficara vermelho. — Se eu quiser me ajoelhar e me humilhar, farei isso. Se quiser lhe dar ouro, também farei isso. Mas você não decide o que eu faço!
— Ora — disse ela e virou as costas para o marido no intuito de se retirar, mas parou junto à porta. — Não podemos dispensar um homem assim tão facilmente. Ele trouxe de volta nossa Mika. Isso não significa nada para você?
O rosto do homem passou do amargo ao terno em questão de segundos.
— É claro que sim. Significa tudo tê-la de volta. — Depois de dizer isso, ele perguntou: — Alguma mudança?
Os ombros da mulher se curvaram.
— Ainda não. É como se ela estivesse esperando alguma coisa, mas não sei o que poderia ser.
O pai de Anamika aproximou-se da mulher e tocou-lhe o ombro. Ela apoiou-se nele e os braços dele a envolveram. Peguei a pedra da verdade e a esfreguei entre os dedos, um hábito que adquirira durante a viagem, e levei um susto ao ver uma aura suave ao redor dos pais de Ana, que se iluminou enquanto eles falavam baixinho um como o outro.
Lembrei então que a Fênix dissera que a pedra da verdade também me permitiria ver dentro dos corações. Era óbvio para mim que o pai e a mãe de Anamika se amavam, apesar de suas rixas. Quando ela se afastou, ele beijou-lhe suavemente a fronte e ela saiu. Ele voltou para junto de nós, o pescoço ainda um pouco vermelho, e seus olhos desviaram-se dos meus, como se estivesse constrangido por eu ter ouvido a conversa.
— Minha mulher tem razão — falou. — Eu não lhe agradeci suficientemente pelo que fez.
— Estou feliz por tê-la encontrado.
A pedra da verdade ainda estava em minha mão e notei que a luz que cercava o pai de Ana diminuiu um pouco quando ele se separou da mulher, mas ainda estava lá. Curioso, olhei para os outros homens, que presumi fossem parentes ou empregados que haviam ajudado na busca. Examinei cada um deles e descobri que todos eram cercados por graus variados de luz. Alguns tinham tons de azul ou verde em sua luz — a dos pais de Ana era de um amarelo vivo —, mas havia um homem que não tinha luz alguma. Não havia nada de extraordinário nele. Permanecia quieto, participando pouco da conversa, mas algo nele me parecia ligeiramente anormal. Isso me incomodou e me peguei voltando os olhos para ele diversas vezes.
— Por favor, pode me falar a verdade — disse o pai de Ana.
Voltei minha atenção para ele.
— A verdade sobre o que aconteceu? — perguntei.
— É. Temos nossas suspeitas, mas eu gostaria de ouvir de você.
Assentindo, deixei escapar um leve suspiro e torci para que estivesse certo em relação ao pai de Ana. Será que ele teria vergonha dela depois de saber o que acontecera?
— O senhor confia em todos aqui? — perguntei-lhe. — É um assunto delicado.
— Sem sombra de dúvida — replicou.
— Muito bem. — Inclinei-me para a frente, pondo a pedra entre a palma das mãos e movimentando-a devagar para a frente e para trás. — Ana foi levada por uma caravana de mercadores e então foi entregue a outro bando, que vende carne. Quando alcancei o primeiro comboio, consegui obter informações sobre a localização dos outros. Minha intenção era fazer uma permuta pela libertação dela, mas eu mesmo fui feito prisioneiro.
Depois de uma pausa, continuei:
— Uma escrava generosa me advertiu sobre o homem que ela suspeitava que iria comprar Anamika. Quando fui levado a leilão, eu o irritei o suficiente para fazê-lo me comprar também. Levei semanas para conseguir entrar na casa onde ele mantinha Anamika e outras crianças escravas, e ainda mais tempo para planejar a fuga. Assim que escapamos, eu tinha não só Anamika, mas várias outras crianças para cuidar. Deixei-as com um generoso casal de idosos, peguei Anamika e parti. O casal nos deu suprimentos, mas, como podem ver, eles acabaram.
— E as crianças escravas — disse o pai de Ana — trabalhavam na casa?
— Algumas, sim — respondi. — Outras eram mantidas para as afeições abomináveis do senhor. Lamento dizer que Anamika era uma dessas.
Os homens à nossa volta arquejaram e se puseram de pé, ultrajados. O único que permaneceu sentado foi o pai de Anamika. Suas mãos tremiam quando ele fechou os olhos.
— E onde está esse homem agora?
— Presumo que esteja morto, pois eu o apunhalei no pescoço. — Inclinei-me, aproximando-me dele, e pousei a mão em seu ombro. — De verdade, lamento não ter conseguido salvá-la antes que fosse vendida.
— Eu também, Kishan. Eu também.
O pai de Anamika pareceu envelhecer dez anos no espaço de dez minutos. Os homens começaram a falar em vingança e perguntaram se eu poderia guiá-los de volta ao complexo. Eles especulavam sobre qual caravana fora responsável por levar Anamika e falavam sobre muitos outros homens que poderiam angariar para sua causa. O tempo todo o pai de Ana continuou sentado, imóvel e rígido.
— Você pode fazer isso? — perguntou-me.
— Levá-los até lá? — Assenti lentamente. — Posso. Mas existem muitos homens nesse complexo. São soldados treinados e mercenários. Por mais correto e adequado que seja lançar a vingança sobre suas cabeças, vocês precisariam de um exército para derrotá-los. Eles têm mais armas do que já vi em um só lugar. Em minha opinião, seria temerário enfrentá-los em um embate aberto.
A atmosfera havia se tornado tensa e pesada. Eu compreendia como era difícil ficar ali sentado e não fazer nada. Eu me irritava diante dessa ideia também, mas sabia que a vingança raramente acalmava uma mente perturbada.
Ficamos lá sentados, falando baixinho, por muitas horas. Era como se estivéssemos presos em uma bolha cheia de ar envenenado. Quanto mais os homens falavam no sangue que queriam derramar, mais o veneno nos penetrava, enrijecendo nossos braços e pernas e cegando nossos olhos. Achei interessante que o único homem que não tinha uma aura fosse o mais silencioso em relação à captura de Anamika.
O sol se ergueu e pedi licença ao grupo de homens, perguntando se podia dar uma volta no jardim. O pai de Anamika me acompanhou. Parecia perdido em pensamentos e fiquei feliz com seu silêncio. Quando dobramos em outra aleia, eu o segui e fiquei surpreso ao pararmos diante de um pequeno monumento.
— O que é isto? — perguntei.
— Um cenotáfio para Anamika — disse ele e deu uma breve risada. — A mãe dela ficou muito aborrecida quando mandei construí-lo. — Voltou-se para mim, os olhos lacrimosos injetados de sangue. — Eu desisti dela, está vendo, mas a mãe não. Ela é muito mais forte do que eu. Cheia de fé. — Erguendo a mão, acrescentou: — Mas não lhe conte que eu disse isso. Ela nunca mais ia parar de falar nisso.
Acocorando-me, apanhei algumas flores murchas perto da base do monumento e joguei-as para o lado.
— É um gesto lindo — falei debilmente, sem saber como responder.
— É? — perguntou ele. — Ou é só um monumento à minha fraqueza?
— O senhor acha que é uma fraqueza não defender a honra dela — adivinhei.
— Acho. Você não acharia a mesma coisa?
— Eu acho o mesmo — respondi, solidário. — Ele merecia morrer e acredito que tenha morrido.
— Mas você não tem certeza.
— Não. Era mais importante salvar as crianças do que me certificar da morte dele.
— Temos sorte de um homem como você surgir em nossas vidas.
Eu ia dizer que era eu quem tinha sorte. Conhecer Ana de todas as formas que a conhecia agora era um presente. Ela era especial. Em vez de lhe dizer isso, o que teria soado bem estranho vindo de uma pessoa que eles mal conheciam, apenas agradeci e me virei para voltar para a casa.
Nesse momento, ele fez a pergunta pela qual eu vinha esperando.
— Por quê? — murmurou. — Por que arriscou tanto por nós? Por ela?
Eu sabia que aquela pergunta viria e, por mais que vasculhasse meu cérebro, nada me ocorreu que soasse razoável. Senti seus olhos em minhas costas, querendo que eu respondesse. Quase sem pensar, falei:
— Uma garota que amei foi destruída por um homem assim. Eu não pude evitar sua morte. A dor quase me matou. Não poderia deixar que isso acontecesse de novo. Não quando eu podia salvá-la.
Ele não fez qualquer comentário, então o deixei com suas ruminações.


Passaram-se dias e eu não estava nem perto de descobrir como extrair minha Ana de sua versão mais jovem. Oferecia um sacrifício todas as noites — acendendo velas e fazendo oferendas à deusa. A mãe de Ana me dera um pequeno sino e cuidava para que toda a casa me deixasse sozinho quando eu perambulava pelas aleias do jardim.
Quando ela perguntou o que eu estava fazendo, disse-lhe que estava rezando por Ana. Fora ela quem sugerira usar o jardim. Na verdade, sua fé em mim era tão certa que ela começou a me perguntar se eu precisava de alguma coisa a cada noite após o jantar. Ela não hesitou quando pedi velas, penas, pedaços de tecido ou mangas. Uma vez, ela me acompanhou. Murmurei minhas preces em silêncio naquela noite e ela deve ter percebido meu desconforto, porque, depois disso, me deixou sozinho.
Durante o dia, eu me sentava ao lado de Ana. Lia para ela e, quando ficávamos sozinhos, conversava com ela, enquanto ela continuava dormindo, contando-lhe como sentia falta de estar com ela. Anamika parecia saudável. Apesar de não comer e não beber de verdade, seu corpo estava se curando. Eu não sabia se isso se devia à magia da deusa ou à da picada da cobra, mas, de qualquer jeito, era grato.
Tentei juntar os pedaços da pedra da verdade novamente, pensando em refazer o ovo da Fênix, mas eles pareciam não se encaixar. Ergui um dos pedaços maiores e ocorreu-me que talvez pudesse aparar a ponta afiada, e assim, em uma tarde, peguei minha faca e comecei a trabalhar na pedra. De início foi preciso algum esforço, mas descobri que, quando posicionava a faca em um determinado ângulo, a pedra se descamava como madeira. Quando aquela extremidade ficou lisa, comecei a trabalhar do outro lado, pensando em moldar uma bela pedra preciosa que poderia servir como pingente no pescoço de Ana.
Passado um mês, ainda não havia qualquer mudança em Ana. Eu tinha me tornado parte da casa e costumava sair para caçar ou ajudar o pai de Ana, mas fazia questão de me sentar ao lado de sua cama todos os dias e esculpir. A mãe de Ana estranhava esse comportamento, mas o pai lhe disse que me deixasse, que eu curaria minhas feridas ficando perto dela. Ele não sabia quão verdadeiras eram suas palavras.
Terminei um pequeno pedaço da pedra e o transformei em um tigre. Coloquei-o em uma caixinha em meu quarto, perto da cobra. A serpente estava crescendo aos poucos, mas conseguia se esconder sem dificuldade quando alguém entrava no quarto. Eu lhe trazia água e camundongos que encontrava no celeiro, mas ela ignorava os bichinhos, deixando-os fugir. Eu não sabia o que serpentes mágicas comiam. Na verdade, nunca vira Fanindra comer, então talvez elas não precisassem de alimento.
O homem sem aura foi apanhado deixando a propriedade com uma preciosa coleção de facas. Ele foi seguido e, após um interrogatório intenso, confessou que conspirara com o mercador expulso para capturar Anamika. Aparentemente, ele recebera uma generosa quantia pela ajuda. Em troca de conduzir um grupo de homens até o mercador, que logo foi despachado, sua vida foi conservada.
Para agradecer à escrava que me ajudara, o pai de Anamika procurou seu senhor. Então comprou sua liberdade e a mandou para o casal que cuidava das crianças resgatadas, junto com três camelos carregados de suprimentos e dinheiro suficiente para sustentar todos eles. Ele recebeu uma carta dizendo que três das crianças retornaram a suas famílias, mas as das outras ainda precisavam ser localizadas.
Eu já estava no segundo mês ali, esculpindo o ovo de pedra preciosa quebrado, quando a faca escorregou e um pedaço da pedra se partiu. Cortei o dedo e rapidamente o coloquei na boca enquanto observava a falha que havia feito em meu trabalho. Alguma coisa ali me pareceu familiar.
Eu o examinei, tentando ver, sob a superfície, em que aquilo se transformaria. Prendi a respiração e meu coração disparou. Uma risadinha boba saiu de minha boca e virei o objeto, me certificando de que estava mesmo vendo o que achei que estivesse.
— Será possível? — murmurei.
A única pessoa no quarto era Anamika e, até onde eu sabia, ela não podia me ouvir. As cores eram aquelas. O tamanho combinaria, mas minha mente não conseguia apreender de fato o que estava acontecendo. Testando minha ideia, recomecei a esculpir, dessa vez com a nova imagem na mente. As camadas externas da pedra preciosa soltaram-se como manteiga à medida que minha faca reduzia uma das bordas, quase como se estivesse me ajudando a moldá-la no que estava destinada a ser. Corri o dedo ao longo do corte recente. Agora não tinha como estar enganado. Aquilo que eu tinha nas mãos ainda não era, mas um dia seria o selo da família Rajaram.
Era claro para mim que algo muito simples e precioso estivera em minhas mãos o tempo todo e eu não conseguira ver. Havia me resignado a meu destino, acreditando que fracassara em minha missão, e decidira que poderia ter uma vida feliz no passado, servindo à família de Anamika e cuidando dela até eu morrer. Mas ver o selo de minha família ganhando vida em minhas mãos era um milagre. Ele simbolizava o futuro.
Com esperança renovada, pus a faca de lado e me ajoelhei diante de Ana, pondo a pedra da verdade na cama, perto dela. Peguei sua mão, levei-a aos lábios e tentei ver nela a coisa preciosa que estava escondida de mim, tanto quanto o selo estivera.
— Sei que não sou digno de você — declarei, esfregando meu polegar em seus dedos. — Eu não a salvei quando você precisou de mim. Não fui o companheiro que você merecia. — A pedra da verdade brilhava onde estava. Uma represa se rompeu dentro de mim e todos os pensamentos e palavras que eu havia guardado jorraram: — Quando Phet disse que um tigre precisava ficar para trás, eu não queria que fosse eu. Secretamente esperei que Ren tomasse a atitude nobre, como ele sempre fazia, para que eu voltasse para o tempo de Kelsey com ela. Eu não via você como você era de verdade.
Estendendo a mão para ela, alisei os cabelos escuros, afastando-os de seu rosto.
— Agora eu conheço você, Ana. Conheço a garota que você foi, a mulher por quem me apaixonei aos 13 anos, a guerreira capaz de me enlouquecer e a deusa que você se tornou. Me dê uma chance. Volte para mim. Desta vez estou escolhendo esta vida sem reservas. Prometo servir a seu lado pelo resto de nossos dias.
Encostei os lábios em sua testa e lhe dei um beijo casto. Levou um momento para eu me dar conta de que meus cabelos, mais longos do que costumava usar, estavam roçando em meu pescoço.
Ergui a cabeça e vi que o quarto havia se tornado claro e um vento rápido agitava as cortinas na janela. O céu escuro lá fora se iluminou quando um raio caiu e todos os pelos em meus braços e na nuca ficaram em pé.
Uma voz ecoou no quarto. Era melodiosa, como o tilintar de sinos, e ao mesmo tempo tão poderosa que penetrou em minha mente e em meu coração como um trovão.
Anamika abriu os olhos e os voltou para mim. Então me dirigiu um sorriso doce e disse:
— Sohan, sua oferenda foi aceita.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!