12 de setembro de 2018

21 - O último presente

Não falamos muito de início. Eu estava feliz em deixar Ana em paz agora que ela estava a salvo. Ela passara por uma provação terrível e eu queria que começasse a se curar tanto mental quanto fisicamente. De tempos em tempos eu parava para descansar o cavalo e dar a Ana a oportunidade de se esticar. Ela estava mais acostumada a cavalgar do que alguém como Kelsey estaria, mas eu queria deixá-la o mais confortável possível.
Quando acampamos, ela recolheu madeira para mim e eu fiz uma cama para ela, usando o cobertor que a mulher nos dera. Comemos em silêncio e amarrei o cavalo em uma árvore que tinha bastante grama embaixo para que ele pastasse. Ao retornar de um riacho com os cantis cheios, vi que Ana havia apoiado a cabeça na sela, enfiado as mãos sob o rosto e adormecido placidamente.
Senti um aperto no coração ao notar que dormia da mesma forma descuidada que fazia em casa. Meus olhos arderam. Eu sentia falta dela. Mesmo com sua versão mais jovem a meu lado, descobri que ansiava pela companhia da mulher.
Quando eu era um tigre, vivendo na selva na Índia, ficar sozinho não me chateava. Pelo menos, eu me convencera disso. Vivia tão absorto em meu sofrimento que não me permitia buscar o que eu mais queria. Foi só quando Kadam veio até mim que percebi como eu queria fazer parte de alguma coisa novamente.
Eu ansiava por uma família. Por um lar. Por me cercar de pessoas que me amassem. Durante muito tempo, pensei que Kelsey seria essa família. De certa forma, acho que ela foi. Mas vê-la com Ren confirmou minhas dúvidas mais profundas. Kelsey não precisava de mim como eu precisava dela. Ela tinha meu irmão. Tinha um lar e uma vida da qual eu não podia mais fazer parte. Pelo menos não da maneira que eu havia esperado.
Sentando-me perto de Anamika, puxei a pedra da verdade para meu colo, olhando para a garota que dependia de mim. Se eu iria salvá-la, tinha de descobrir o que fazer em seguida.
— O que posso oferecer a ela? — murmurei para a pedra. — Como posso tirar minha Ana desta linha do tempo?
A pedra permaneceu fria e escura. Se existia uma resposta, ou ela não sabia ou não podia me ajudar.
Todas as vezes que havíamos feito uma oferenda para a deusa antes, tínhamos um sino e eu assumia a forma de tigre. Não podia fazer isso ali e não havia um sino entre nossas escassas posses. Apesar disso, separei um pedaço de fruta, uma pena que havia encontrado, uma garrafa de água e um carvão morno do fogo. Pensei que, oferecendo algo que representasse cada elemento, cobriria todas as bases. Então me ajoelhei ao lado dela e curvei a cabeça, encostando-a no chão aos pés dela.
— Poderosa Deusa — falei —, eu... eu sinto a sua falta. Por favor, ouça o apelo de Damon, seu tigre, e volte para mim.
Afora uma faísca que se soltou e voou para o céu noturno, nada aconteceu. Tentei outra vez, misturando as palavras, tentando replicar as coisas que eu ouvira Kelsey dizer. De novo, porém, não houve resposta. Até tentei imitar o som vibrante de um sino, cerrando os lábios, mas isso só serviu para eu me sentir um tolo.
Por fim desisti e me deitei, descansando a cabeça nas mãos enquanto olhava as estrelas.
— Me diga o que fazer — murmurei para o céu, mas as estrelas frias não sussurraram de volta.
Na manhã seguinte, Ana espreguiçou-se e me entregou a sela, que cheirava a couro, óleo e, para meu nariz, uma versão esmaecida de seu cheiro natural de jasmim. Quando eu prendia a pedra da verdade na lateral do cavalo, ela perguntou, hesitante:
— Você vai me ensinar a usar a faca? Quero poder ajudá-lo a lutar se alguém vier atrás de nós.
Fiquei um instante paralisado, as mãos apoiadas na sela.
— Eu... eu posso — disse, pigarreando e ajustando as rédeas sem olhar para ela. — Mas, primeiro, você vai ter de aprender a cuidar dela.
— Posso fazer isso — respondeu ela.
Virando-me, estudei seu rosto e então assenti brevemente com a cabeça.
— Vamos começar nossas aulas quando pararmos para o cavalo descansar no meio do dia.
E assim começou nosso treinamento.
Anamika tinha a mente viva e aprendia com rapidez. Assim que lhe ensinei a encontrar a pedra certa e afiar a faca em sua superfície, ela imediatamente começou a trabalhar. A cada dez minutos me entregava a arma para que eu a inspecionasse e eu apontava os pontos que deixara escapar. Quando terminou com a faca, começou a trabalhar na velha espada. Era pesada demais para ela carregar, mas deixei que cuidasse dela assim mesmo. Queria que ela tivesse a sensação de controle. Ser responsável por minhas armas e cuidar delas foi a primeira lição que Kadam me ensinou, portanto foi por onde comecei. Durante as horas que passava com ela no cavalo, eu falava sobre a filosofia da batalha, dava exemplos de guerras em que lutara e as razões para elas, e falava sobre as muitas ocasiões em que tivera de aprender as coisas da maneira mais difícil.
Quando eu disse que um homem podia afiar o corpo e a mente exatamente como fazia com as armas, ela perguntou:
— Uma mulher também?
— É claro — repliquei. — A mente deve ser regularmente afiada, como uma faca. Para fazer isso, você deve sempre se desafiar. Não importa que seja mulher. Verifiquei muitas vezes que as mulheres são mais espertas que os homens. Apenas se lembre de que sua mente é a arma mais poderosa à sua disposição. Uma ideia brilhante pode destruir um exército. Eu vi isso acontecer.
Durante as tardes e as noites, eu a treinava, ensinando-lhe a atacar um inimigo de surpresa e a esquivar-se de ataques físicos de inimigos muito maiores do que ela, e lhe dei enigmas mentais para resolver. Ela era brilhante e resolvia os enigmas de Kadam muito mais rápido do que eu jamais conseguira.
Todas as noites, depois que ela adormecia, eu tentava evocar a deusa novamente. Todas as tentativas fracassavam. O tempo estava se esgotando e eu começava a me desesperar. Por que Kadam não tinha me dito logo o que oferecer? Isso não fazia sentido. Eu havia tentado oferecer-lhe alguns pequenos lagartos e camundongos, mas eles simplesmente fugiam. Encontrei ovos de aves e uma cobra, mas nada do que eu fazia produzia resultado.
Enquanto cavalgávamos, eu parava diversas vezes para coletar coisas interessantes: uma folha bonita, uma pedra perfeitamente redonda, uma flor — nada funcionava. Anamika perguntou o que eu estava fazendo e, quando eu disse que estava tentando ganhar a simpatia de uma deusa, ela começou a me ajudar a procurar itens interessantes. Mesmo com a ajuda da própria deusa, meus esforços continuavam infrutíferos. Quando encontramos um mercador solitário, nós lhe demos parte de nossas rações em troca de um pedaço de tecido colorido que me lembrava o Lenço Divino.
Embora o tecido não tenha funcionado, Ana agradeceu o presente assim mesmo. Ela enrolava o tecido nos cabelos ou o usava como véu para se proteger do sol causticante enquanto viajávamos. Pressentindo minha depressão em razão da missão fracassada, ela costumava me pedir que lhe contasse mais histórias do tigre, e eu prontamente aquiescia, deleitando-a com narrativas de nossas aventuras, muitas vezes me descrevendo como herói, embora ela não soubesse.
Ela gostou sobretudo do relato em que o tigre enfrentava um grande urso na neve para salvar a vida de uma linda garota. Talvez eu tivesse exagerado as proporções do urso, mas ela não precisava saber disso. Ela também não perguntou como um tigre pôde carregar uma garota montanha abaixo.
Quando ficávamos em silêncio, eu pensava no que aconteceria se não conseguisse realizar minha tarefa. Pelo menos agora Ana estava em segurança. Ela cresceria com Sunil. Era óbvio que a Ana mais velha amava o irmão. Pelo menos, dessa vez, ela ficaria com ele. Sunil não a deixaria se ela nunca assumisse o papel de deusa. Quanto a mim, poderia ficar com a família dela. Talvez me aceitassem como empregado. Esfreguei o queixo, com a barba crescida. Eu poderia fazer o que Kadam fazia e treinar seus soldados. Ponderei que podiam nos acontecer coisas piores do que ficar presos no passado dela.
Não era o futuro que eu imaginara para mim e, sim, o mundo teria de sobreviver sem a ajuda da deusa, mas pelo menos Ana estava a caminho de casa, para ficar com pessoas que a amavam. Isso havia se tornado mais importante para mim do que qualquer outra coisa.
As advertências de Kadam ainda me alfinetavam no fundo da mente, mas não havia mais nada que eu pudesse fazer além do que já estava fazendo. Sabia que meu mentor não podia me pedir mais do que isso, e as ramificações de meu fracasso eram algo que eu havia afastado de minha mente consciente. À medida que os dias passavam, Ana se tornou minha única preocupação. Era nela que eu estava concentrado.
— A escuridão pode proteger você — falei uma noite quando ela colocava um graveto no fogo depois de terminado nosso treinamento. — Lembra-se do tigre que nos atacou?
Ela fez que sim com a cabeça.
— Os tigres usam a grama e a vegetação rasteira para se esconder. Sua pelagem se mistura ao ambiente. A invisibilidade é a melhor arma que eles têm. Você pode pensar que são os dentes ou as garras. Essas são, de fato, armas poderosas, mas os animais que eles caçam são rápidos. A camuflagem é muito importante para a sobrevivência de um tigre. Use isso em seu benefício.
Ana franziu a testa, confusa.
— Você quer que eu me vista como um tigre, Kishan?
— Não — repliquei.
Eu havia refletido sobre usar um nome diferente com ela, mas concluí que, se estávamos presos no passado, não faria diferença e, se eu de alguma forma conseguisse evocar a deusa, poderíamos tirar as lembranças que Ana teria de mim, exatamente como Anamika havia se apagado de minha mente tantos anos antes. Voltando à pergunta dela, respondi:
— O que quero dizer é que você deve usar sua aparência externa para enganar os outros e levá-los a esperar menos. É como se esconder à vista de todos.
— Não entendo.
Corri a mão pelos cabelos.
— Você é uma mulher... quero dizer, uma garota... linda. Ninguém imaginaria que você também é uma boa lutadora. Tudo que verão é o que está no exterior. Os homens, principalmente, cometem esse erro. Eles baixam a guarda porque não conseguem imaginar que uma mulher vá superá-los. Essa é a hora de você atacar.
Ela assentiu de maneira vivaz e sua expressão tornou-se mais doce e afável. Piscou rapidamente e jogou a trança por sobre o ombro.
— Você diz assim? — perguntou ela, os olhos brilhando à luz do fogo.
Não pude deixar de rir.
— É, isso mesmo. — Estendendo a mão, dei um leve puxão em sua trança. — Ninguém esperaria que alguém tão adorável tivesse uma faca escondida na manga.
O rosto de Ana tornou-se sombrio.
— Quem dera eu tivesse uma faca quando fui levada.
— Eu concordo.
— Mas não teria feito diferença. Eles provavelmente me revistariam e a tomariam.
— É provável.
Ela ficou em silêncio por um momento. Então chamou:
— Kishan?
— Sim?
— Você... você acha que meu pai vai me aceitar de volta?
— Claro que sim — assegurei a ela rapidamente enquanto acrescentava outro pedaço de madeira à fogueira.
— Como é que você sabe?
— Porque ele é um homem bom. Um homem sábio. Aqueles que são sensatos não culpam uma pessoa, especialmente alguém tão jovem quanto você, pelos erros dos outros.
— Mas nenhum homem me tomará como esposa agora.
Abri a boca para dizer que isso não era verdade, mas sabia como era no tempo em que ela vivia. Também sabia que Anamika não havia se casado.
— Você quer se casar? — perguntei.
— Não se ele fizer comigo o que aquele homem fez.
— Um homem que a ame não vai machucá-la dessa forma. — Recostei-me em um tronco, cruzando as pernas na altura dos tornozelos. Ela também se recostou, imitando minha pose. — Meu mentor certa vez me disse que um vilão pode machucar sua mente e seu corpo. Ele pode tomar as coisas que são mais preciosas para você. Mas não pode diminuir quem você é. Seu coração e sua alma pertencem a você, Anamika.
Após uma breve pausa, prossegui:
— Você pode dar seu coração a um homem digno, mas é você quem decide quem vai ser esse homem privilegiado, e, se ele não cuidar do presente que lhe foi dado, você simplesmente o pega de volta. Ninguém... nem um estranho, nem seu pai, e certamente não esse homem que a machucou... pode obrigá-la a entregar essa parte especial de você. O amor é um presente. Quando você escolher se casar, se o fizer, o homem que escolher irá cair a seus pés e adorá-la como a uma deusa.
Ela bufou e levou a mão à boca para reprimir a risada.
— Não vai, não — disse Ana, rindo.
Sorri.
— Eu lhe garanto que estou falando a mais absoluta verdade. Quando um homem ama de verdade uma mulher, ele cuida dela todos os dias de sua vida e sacrifica qualquer coisa pela felicidade dela.
Ficamos fitando o fogo e peguei a pedra da verdade, embalando-a nas mãos.
— É como aquela história que você contou para a gente sobre o tigre — disse ela. — Ele amava tanto a garota que abriu mão de tudo para ficar com ela. Desafiou até mesmo os deuses para isso. Foi assim que ele conseguiu as asas.
— É — falei, com o canto da boca levantado de forma provocadora. — Às vezes até mesmo um tigre pode encontrar o amor.
— Posso... posso ir com você se meu pai não me receber de volta?
— Ah, Ana — murmurei suavemente e deixei escapar um suspiro. — Pode. Se isso tranquiliza sua mente, prometo ficar com você pelo tempo que precisar de mim.
— Obrigada — retrucou ela.


Naquela noite, tentei evocar outra vez minha versão de Ana e uma brisa soprou, levando embora minha pena de pavão. Respirei fundo e estudei o céu. Uma tempestade se aproximava. Mesmo sem meu nariz de tigre, eu podia sentir o cheiro da chuva. Em menos de três horas, ela caiu. Quis deixar Ana dormir o máximo possível, mas quando pesadas gotas de chuva caíram sobre o fogo, fazendo-o chiar, e salpicaram as pedras à nossa volta, trazendo com elas um cheiro doce e úmido, eu a acordei.
Não sabia o que encontraríamos à frente, mas lembrei que tínhamos passado por uma área com um afloramento de rochas algumas horas antes. Colocando-a na minha frente na sela, disse-lhe que tentasse dormir enquanto eu voltava até aquele abrigo. Os rastros que tínhamos deixado antes desapareceram rapidamente na chuva. Eu a protegi da água da melhor maneira possível, mas a tempestade, fustigada pelo vento, nos açoitava de forma tão violenta quanto um martelo batendo em uma bigorna.
Logo nossa roupa ficou encharcada e a chuva escorria por meu pescoço e pingava da ponta do nariz. Também fazia frio. O vento cortante gritava, estridente, ao passar velozmente por nós. Depois da terceira hora nas costas do cavalo, eu soube que tínhamos perdido o afloramento de rochas que eu estava procurando. Pus a mão sobre a pedra da verdade e pedi orientação ou sabedoria, e, como se pressentisse nosso desespero, ela me mostrou um caminho à esquerda. Eu o peguei e logo chegamos a uma caverna.
Entrei no abrigo, torcendo para que não houvesse um tigre ou outro predador qualquer escondido nos recessos escuros, e vi que estava vazio. Voltando a Ana, envolvi seu corpo trêmulo com os braços. Ela estava inclinada sobre o cavalo, na tentativa de proteger o rosto da chuva.
— Venha — chamei, elevando a voz acima do ruído do vento. — Vamos esperar aqui dentro a tempestade passar.
Depois que a deixei em segurança no interior da caverna, tirei a sela e nossas bolsas e amarrei o cavalo a uma árvore próxima. Mal havia espaço para duas pessoas, quanto mais para um cavalo, e, embora ele relinchasse em protesto, eu sabia que estaria seguro do lado de fora. Espremi minhas roupas, eliminando o máximo de água possível, tirei a camisa e a pendurei em uma pedra. Só havia dois pedaços de madeira secos dentro da caverna, então acendi uma fogueira minúscula e nos sentamos diante dela para nos secarmos da melhor forma possível.
Ana estremeceu; o calor vindo da fogueirinha não era suficiente nem para cozinhar um marshmallow, muito menos para aquecer uma garota com frio. Um relâmpago caiu lá fora e o cavalo relinchou alto. Ouvi o rugido da água e prendi a respiração quando pensei no solo antes ressecado. Será possível que viemos parar em uma zona de inundação rápida?
A tempestade era violenta. Enquanto Ana dormia, os braços finos envolvendo o próprio corpo, eu fitava o céu turvo. Não tentei invocar a deusa naquela noite. O fogo se consumiu rapidamente e, sem lenha seca para alimentá-lo, ergui Ana em meus braços e me sentei, as costas pressionadas contra a pedra, com ela aninhada em meu peito. Ela não acordou, o que provavelmente foi melhor. Não queria assustá-la ainda mais depois do que ela passara.
Se eu ainda tivesse a habilidade de me transformar em tigre, poderia facilmente tê-la mantido aquecida, mas meu corpo humano tremia de frio. Ainda assim, mantê-la perto de mim era o melhor que podia fazer. Caí em um sono agitado e acordei, atordoado, com o canto de um pássaro lá fora.
A aurora cinzenta ainda estava nublada e chuvosa, mas pelo menos o vento havia passado. A chuva fina caía em um ritmo monótono, embora ainda desconfortável sobre o cavalo. Foi só quando voltei a atenção para o calor em meu peito que percebi que algo estava errado.
— Ana?
Sacudi-a de leve, mas, quando ela abriu os olhos, eles estavam sem foco. Ela rapidamente tornou a fechá-los, gemeu baixinho e tentou falar, mas sua voz saía engrolada. Eu não conseguia entender o que ela dizia. Cutucando-a com mais energia e não obtendo resposta, tomei seu rosto entre as mãos e senti o calor intenso da febre.
Agora desesperado, eu a pousei com cuidado no chão e vasculhei nossas bolsas em busca de um frasco de água. Levei-o aos lábios dela, mas as gotas escorreram por seu pescoço e molharam ainda mais a blusa úmida.
— Ana — chamei novamente, dessa vez de forma mais enérgica. — Ana, qual é o problema?
Era uma pergunta estúpida. O que não estava errado em sua situação? Ela fora levada de casa à força, privada de alimentos, abusada, e eu fora negligente o bastante para nos deixar apanhar em uma forte tempestade sem abrigo. O que deveria me surpreender era que ela tivesse se saído tão bem até aqui. Eu havia sido descuidado e perdido o suco de fruta do fogo. Kadam me dissera para ser cuidadoso com ele, mas eu lhe dera ouvidos? Claro que não.
Então lembrei-me da pedra da verdade. Ela havia de alguma forma me curado. Ou pelo menos eu achava que sim. Tinha toda a certeza de que não havia ido de verdade à floresta de fogo em meu sonho. Eu a tirei da bolsa e coloquei a mão de Ana sobre ela.
— Você pode curá-la, por favor? — pedi. — Ela precisa de você.
O ovo da Fênix permaneceu escuro, embora a leve pulsação em seu interior tremulasse. Esperei um minuto e mais outro. Nada estava acontecendo, até onde eu podia ver. Esfregando minha mão sobre a superfície lisa da pedra, eu disse:
— Se não pode curá-la, então me dê sabedoria. Diga-me o que fazer.
Enquanto esperava uma resposta ou uma visão, eu alisava os cabelos de Ana, afastando-os de seu rosto. Os cílios escuros pareciam pequenas luas crescentes em suas faces. A pele queimava com a febre e não havia nada que eu pudesse fazer para baixá-la. Eu não tinha qualquer dos remédios de Kelsey. O único objeto mágico que possuía era a pedra da verdade e, embora ela bruxuleasse, não estava ajudando. Eu não queria arriscar sair do lado dela para buscar ervas e plantas que poderiam ajudar com a febre e, de qualquer forma, duvidava que encontraria o que precisava.
Pegando o pedaço de tecido que lhe dera, lavei seu rosto e sentei-me ao lado dela. Enquanto pressionava o tecido molhado em seu pescoço e nos braços, falava com ela. Quando ela gemia ou se debatia, eu a segurava junto de mim, tentando acalmá-la, e, quando ela ficava imóvel, sua respiração tornando-se cada vez mais rasa, eu massageava suas mãos e implorava que melhorasse. Tentei mantê-la hidratada e amaldiçoei o fato de não termos um hospital moderno para onde pudesse levá-la. Talvez ela tivesse sido picada por um mosquito portador de alguma doença. Talvez sua enfermidade fosse resultado da tempestade ou alguma sequela do abuso que sofrera. O que quer que fosse, estava devastando seu jovem corpo. Ela estava morrendo e não havia nada que eu pudesse fazer exceto assistir.
Um dia se passou, e então um segundo e um terceiro. Pressentindo que sua força se esvaía a cada hora, espremi o suco das últimas frutas e a encorajei a beber. Insistindo até conseguir atear fogo à madeira úmida, preparei um caldo com a carne-seca, mas ela não conseguiu mantê-lo no estômago.
Eu conservava a pedra da verdade perto dela e falava com o objeto com frequência, persuadindo, implorando, ameaçando e amaldiçoando. Desesperado, pus as mãos de Ana sobre a pedra de forma que esta ficasse apoiada sobre seu peito, como se fosse uma boneca sendo abraçada, e gritei:
— Ela é sua, Ana. Pegue-a! Deixe o poder dela tomar conta de você. Sare. Por favor.
As mãos flácidas dela caíram de lado, então eu as peguei e as cobri com as minhas.
— A Fênix queimou Kelsey — murmurei —, mas a trouxe de volta. Faça o mesmo por Ana — implorei à pedra. — Você precisa. O coração dela é merecedor.
O coração flamejante dentro da pedra permaneceu mudo. Mantive os olhos fixos nela por horas, polindo-a, esperando que a magia ali dentro agisse. Depois, para manter as mãos e a mente ocupadas, penteei os cabelos de Ana, trancei-os e tornei a amarrá-los. Contei-lhe história após história em voz animada, torcendo para que isso a despertasse. Na quarta manhã, eu soube que ela estava chegando ao fim. Havia tanto que eu não tinha dito a ela, tanto que guardara para mim.
Então falei tudo — desculpando-me por meu orgulho, minha arrogância e minha atitude rude quando fora deixado para trás. Esfregando meu polegar sobre os dedos dela, contei-lhe tudo sobre os sonhos e as esperanças a que eu havia renunciado. Falando das batalhas que lutamos juntos, sussurrei palavras de admiração e respeito e disse que ela era a criatura mais impressionante que eu já havia contemplado.
Quando sua respiração rasa tornou-se mais intercalada, segurei sua mão junto a meu rosto e chorei com todo o sentimento que meu coração mais jovem nutrira por ela. Então beijei cada um de seus dedos e solucei pelas experiências que eu jamais teria com ela. Sem Ana, não restava nada para mim. Eu falhara com ela. Falhara com o mundo inteiro.
— O que vou fazer sem você? — sussurrei.
Quando ela soltou seu último suspiro, o pequeno tórax subindo e descendo pela última vez, alguma coisa em mim se partiu. Tinha acabado. Eu havia fracassado. A deusa jamais existiria. Nunca salvaria ninguém. Ren e Kelsey nunca se conheceriam. Tudo e todos que eu conhecia haviam desaparecido. Eu estava sozinho.
Terrivelmente. Absolutamente. Só.
Levando a mão ao pescoço, puxei o Amuleto de Damon com força suficiente para arrebentar a tira de couro e esfreguei o polegar sobre o tigre. Gentilmente, coloquei-o sobre o peito de Ana e cruzei suas pequenas mãos sobre ele, de modo que o medalhão parecia espreitar entre seus dedos.
Emocionalmente esgotado, corri a mão sobre meus olhos ainda úmidos e pelos cabelos. Eu teria de enterrá-la. Embora soubesse que precisava fazer alguma coisa, meu corpo não se movia. Como poderia colocá-la no chão? Cobrir um rosto tão lindo com cascalho e terra?
Escondendo o rosto nas mãos, entreguei-me aos soluços, e a profundidade de minha dor era tamanha que de início não ouvi os estalidos. Quando finalmente registrei o som, ergui os olhos e limpei as lágrimas para poder ver. A pedra da verdade estava tremendo, caída ao lado do corpo de Ana. Uma rachadura longa e irregular surgiu no meio do ovo e então outra fissura se espalhou pela lateral.
Ele estava eclodindo. Como era possível? A Fênix tinha dito que o ovo não era mais viável depois de sair do reino do fogo.
Um pedaço da pedra esfacelou-se e caiu, e uma língua disparou do interior do ovo. Fiquei ali, imobilizado. Seria aquela a língua da Fênix? Eu não conseguia me lembrar. Parecia mais a língua de um dragão do que do pássaro de fogo. Inclinando-me a fim de chegar mais perto, espiei dentro dele, mas não dava para ver nada exceto o brilho externo da pedra preciosa. Então uma cabeça surgiu.
Era dourada, com minúsculos olhos de um tom de verde exatamente igual ao dos olhos de Ana.
A cabeça desapareceu de volta no interior da pedra e eu disse:
— É seguro aqui. Se quiser sair, não vou machucar você.
A língua voltou a se projetar da pedra e então a criatura emergiu. Rapidamente deslizou e enrolou o corpo em um círculo ao lado do ovo. Ergueu a cabeça e oscilou no ar, dilatando o pescoço. Era uma naja. Recém-nascida. A largura de seu corpo era igual à do meu dedo mínimo e seu comprimento era de apenas uns 25 centímetros.
— Olhe só você — falei com um arquejo incrédulo. — Parece Fanindra.
Talvez eu devesse ter medo dela, mas não tive. Havia perdido tudo, e se morrer da picada de uma cobra mágica era meu destino, eu não ligava. Estendi um dedo e a minúscula cobra enroscou-se nele. Acariciei-lhe a barriga branca e ela disparou a língua e a encostou em minha unha. A língua era branca, o que era raro em najas. Franzindo a testa, virei o dedo para estudar a parte posterior do capuz. Os padrões das escamas eram mais claros que os de Fanindra, mas pareciam idênticos.
— Você é parente de Fanindra? — perguntei em voz alta, tentando entender como uma cobra bebê fora parar no ovo da Fênix. O sorriso tolo desapareceu rapidamente quando me lembrei de Anamika; enxuguei uma lágrima.
A serpente, é claro, não respondeu.
Segurando-a de maneira delicada, expliquei:
— Fanindra foi uma cobra dourada e gloriosa. Pertencia à deusa Durga. — Ela inclinou a cabeça pequenina para o corpo a meu lado. — Se minha Ana ainda estivesse viva, você também pertenceria a ela, suponho.
Esticando o corpo sinuoso, ela passou para o braço de Ana e deslizou até suas mãos. A cobra bebê projetou a língua para fora e então aproximou-se da cabeça de Ana. Ergueu-se o mais alto que seu corpinho permitia e espiou o rosto da garota. Então abriu a boca e deu o bote, as pequenas presas enterrando-se no pescoço de Anamika.

7 comentários:

  1. EU CHOREI TANTO AGR
    É a nova Fanindra, Kishan. Para de ser lerdo!
    ELA TA SALVANDO A ANA

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  2. uma espécie de Fanindrinha, acredito que ela é a Fanindra bb, ela é de Durga, ela ta viva, todo mundo vai viver aaaaaaaaaaaa

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  3. kishan te amo, mas vc é muito lesado as vezes, mas te amo mesmo assim kkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!