12 de setembro de 2018

20 - Um devorador de homens e um milagre

Seguimos pela passagem sombria por quase uma hora, até finalmente emergir na abertura de uma caverna escondida em uma montanha deserta. As crianças afastaram a vegetação para que eu pudesse passar sem espetar as pernas de Ana nos espinhos. Estreitando os olhos na escuridão, divisei as formas irregulares de muitos animais pontilhando o terreno. Respirei fundo ao ver os camelos.
As crianças me ajudaram a reunir três dos animais e eu os amarrei uns aos outros usando a faixa de minha cintura e as mangas das camisas dos meninos. Depois que as crianças montaram, subi na garupa do camelo dianteiro e acomodei a forma inerte de Ana na minha frente. Partimos para oeste, direção oposta à que eu queria ir, mas que nos afastava mais da cidadela do homem de turbante; achei melhor colocar o máximo possível de distância entre nós e seus mercenários. Felizmente, apenas alguns dos homens tinham conhecimento da passagem secreta. Tomamos o cuidado de fechá-la atrás de nós e as crianças tinham escondido os corpos dos homens que matamos. Se tivéssemos sorte, ninguém verificaria o senhor nem nossas jaulas até de manhã, e aí já estaríamos a uma boa distância quando se dessem conta do que tinha acontecido.
No pior dos casos, calculei que teríamos menos de uma hora de vantagem. Minha maior esperança era encontrar um comerciante amigável, que não devesse lealdade ao homem que vendia armas, mas as probabilidades estavam contra nós. Se fôssemos apenas Ana e eu, poderia haver uma chance de escapar. Mas uma dúzia de crianças dependiam de mim. Precisavam de comida e água e de um curandeiro para tratar suas feridas. Meus ferimentos se curavam devagar e estavam infeccionados, e, como arma, eu só podia contar com uma faca. Nossas chances de sobrevivência não pareciam muito boas.
Cruzamos o deserto rápida e silenciosamente por duas horas, o que já foi surpreendente, mas então deparamos com um poço, o que era uma sorte tão rara quanto formidável. As crianças beberam com sofreguidão. Até mesmo deram água aos camelos. Tentei fazer Anamika beber e forcei a concha entre seus lábios, mas ela me deu um tapa e jogou a cabeça para trás e para a frente, como se delirasse. Eu sabia como o deserto ficaria quente e desconfortável depois que o sol nascesse, por isso tentei ao máximo fazê-la beber água, mas só consegui que algumas gotas passassem entre seus lábios.
Acabei por desistir e instruí as crianças a montarem de novo nos camelos. Quando encontramos o poço, esperei que o proprietário trouxesse seus animais para beber água ao amanhecer, mas ninguém veio naquela hora silenciosa. Partimos, mantendo-nos próximos a uma trilha bastante usada onde eu poderia obter ajuda, mas longe o suficiente para não ficarmos expostos.
Somente uma hora após o nascer do sol me lembrei do ovo da Fênix. Chamei o menino que tanto havia me ajudado e ele incitou seu camelo a se aproximar.
— Pode pegar a pedra para mim? — pedi.
Ele a guardara embrulhada em uma camisa que se achava amarrada ao redor de seu corpo miúdo. Era espantoso que o peso dela não o tivesse derrubado. Era um garoto resistente. Sem questionar, desamarrou as mangas da camisa e a entregou a mim.
— Por favor, permita que isso funcione — murmurei. Apertando o ovo entre minhas mãos, espiei em seu interior. — Preciso de sua sabedoria — sussurrei para a pedra. — Por favor, ajude-me a salvar estas crianças.
De início, nada aconteceu, mas depois a luz dentro da pedra da verdade ganhou um brilho dourado e ela pulsou calorosamente em minhas mãos. O coração da Fênix falou em minha mente. A voz era ao mesmo tempo suave e terrível. Era totalmente irreconhecível e, no entanto, parecia, de algum modo, familiar. Minha cabeça ficou zonza e oscilei, quase caindo do camelo, mas então o horizonte se estabilizou e meu foco retornou à pedra. De súbito, um conceito ficou muito claro.
SEGURO, disse a pedra, e em seguida mostrou-me uma imagem. Era a estrada que percorríamos, e vi com o olho da mente o caminho que deveríamos seguir e uma grande casa no fim dele. O mapa ficou impresso em minha mente e eu soube aonde deveríamos ir e o que encontraríamos ao chegar. Também soube que a viagem levaria cerca de três dias a camelo.
Confiando na pedra da verdade, enrolei a camisa no pescoço, amarrei as mangas e seguimos em frente. Por volta do meio-dia, o grande peso que pressionava meu peito ficou quente e toquei a pedra. Ela me mostrou uma imagem de homens a cavalo. Foi o tempo exato de levar os camelos para trás de uma grande área de rochas e árvores raquíticas. Desmontando, fizemos os camelos se ajoelharem e as crianças se esconderam atrás deles.
Os homens chegaram perto o bastante para que eu escutasse seus gritos, e temi que encontrassem nossos rastros. Quando, porém, olhei para trás, as pegadas de nossos animais tinham desaparecido. Nem mesmo as minhas apareciam na areia funda, embora eu soubesse que havia sinais de nossa passagem por toda a região. Algo, ou alguém, estava nos protegendo.
Será que Kadam está atrás de nós? Como ele dissera que eu estaria por minha conta, descartei essa possibilidade. Durga não existia neste plano, ou assim ele dissera. Talvez fosse o coração da Fênix que nos protegia. O que ou quem quer que fosse, eu não me queixava. Esperamos ali, escondidos, até bem depois que os homens partiram e em seguida decidi que precisávamos descansar. Meu ombro latejava e minha cabeça doía. Embora estivéssemos todos incomodados com o calor e sofrendo pela exposição ao sol, eu sabia que também ardia em febre.
Dormimos à sombra das árvores esguias e altas por algumas horas e depois seguimos viagem. Eu me virava com frequência para olhar atrás de nós e vi que nossa trilha se dissolvia no deserto poucos segundos após nossa passagem, de modo que nos rastrear seria difícil, se não impossível.
Essa era uma reviravolta milagrosa, da qual precisávamos desesperadamente. Mais para o fim da tarde, pus a mão no ovo da Fênix e disse a ele que precisava encontrar comida, água e abrigo para a noite.
Um instante depois, senti no ar o cheiro de lenha queimando e avistei fumaça subindo no céu sem nuvens. Quando perguntei se o fogo representava um lugar seguro para nós, a pulsação do coração dentro da pedra se acelerou.
Guiei as crianças na direção da coluna de fumaça e localizamos uma pequena cabana no meio do nada. Árvores cercavam a casa, criando sombras que a protegiam do sol quente, e cada uma delas estava carregada de pesadas frutas maduras. Observei o pequeno pomar enquanto amarrava os camelos e vi que aquelas árvores normalmente não produziam frutos na mesma estação.
Apesar disso, não questionei nossa boa sorte. Em vez disso, soltei um suspiro de alívio. As crianças, famintas, alheias ao perigo ou à possibilidade de ofender nossos anfitriões, correram para as frutas, servindo-se de tantas quantas podiam. Bati na porta da cabana e esperei. Como ninguém atendeu, abri e entrei.
Uma peça de carne assava em um espeto sobre um fogo crepitante e havia uma pilha de roupas e sapatos macios — em número suficiente para todas as crianças —, até mesmo uma túnica e uma calça do meu tamanho. Um par de grandes botas estava ao lado. Havia também uma bacia enorme cheia de água quente, uma panela repleta até a borda com um mingau espesso e um pote de mel, além de um cesto com pães, ainda fumegantes e inflados do cozimento.
Meus olhos se encheram de lágrimas. Nunca em minha longa vida eu tinha me sentido tão grato por tão pouco. As crianças entraram correndo com os braços cheios de frutas e se maravilharam diante do presente colocado diante delas. Mandei que comessem enquanto eu cuidava de Ana. Elas caíram sobre a comida, as mais velhas ajudando as mais novas, sob a orientação de meu jovem capitão.
Anamika ainda não mostrava reação nem ficava em pé sozinha. Amparando-a em meus braços, mergulhei um pano na água quente, espremi o excesso e o pressionei contra suas faces vermelhas e a testa. Soltei os longos cabelos e os afastei de seu rosto, encolhendo-me ao ver os hematomas no pescoço e os lábios inchados e cortados.
Rapidamente, tirei a manta fina que a cobria e lavei seu corpo. A raiva que senti ao ver os vergões, os cortes e o sangue seco em suas pernas me fez tremer. Se ele já não estivesse morto, eu voltaria no tempo e mataria o homem de turbante de novo e de novo e de novo.
A ideia de que ele ousara satisfazer sua luxúria com uma criança inocente rasgava meu coração, e amaldiçoei a mim mesmo e minhas fraquezas mais uma vez. Era minha culpa. Eu nunca, jamais me perdoaria pelo que tinha acontecido a ela e prometi passar o resto da vida tentando compensar meu terrível fracasso.
Quando terminei de limpar Ana, uma das meninas me trouxe algumas roupas e me ajudou a vesti-la. Embora os olhos ainda estivessem abertos, os membros estavam tão inertes como os de uma boneca e ela não reagiu quando passei a túnica por sua cabeça e a baixei sobre o corpo magro. Com cuidado, puxei seu cabelo sobre o ombro e o prendi com um pequeno laço.
— Volte para mim, Ana — falei em tom suave enquanto tocava seu queixo e apertava sua mão. — Seu tigre está aqui.
Não me dei conta de que ela estava chorando até ver uma lágrima cair em seu rosto e escorrer para sua orelha. Ana piscou uma, duas vezes e depois virou a cabeça a fim de olhar para mim.
Deixando escapar um leve suspiro, acariciou meu rosto barbado, fechou os olhos e encostou a cabeça em meu ombro. Com delicadeza, puxei-a para meu peito, embalando-a em meus braços e acariciando seus cabelos. Quando vi que tinha adormecido, acomodei-a sobre a manta que as crianças esticaram e depois ajudei as outras a se banharem e se vestirem.
As mais velhas, depois de se lavarem, alegremente tornaram a encher a banheira para mim com água do poço que havia do lado de fora. Elas me viam como uma espécie de general e se esforçavam para me servir de todas as maneiras possíveis. Como pareciam revitalizadas pela refeição farta e as roupas limpas, permiti que me ajudassem e comi enquanto trabalhavam.
Quando a banheira ficou cheia, disse-lhes que era hora de dormir um pouco e que bons soldados aprendiam a pegar no sono rápido quando tinham uma oportunidade. Elas obedeceram de imediato e se acomodaram nas mantas perto de Ana, os pequenos de mãos dadas com os mais velhos. A noite caiu e eu fiquei fitando o fogo crepitante, perdido em pensamentos, fazendo listas mentais do que precisávamos empacotar para levar conosco.
Algum tempo depois, quando todas as crianças já estavam dormindo, tirei por fim as ataduras e as roupas sujas e afundei na banheira de água morna, estremecendo quando ela envolveu todos os cortes e machucados. Mal consegui abafar um grito ao lavar os ferimentos mais graves. Puxar as ataduras que tinham grudado nas feridas as reabriu. Estavam piores do que eu imaginava. Meus dedos estavam inchados e pálidos; só de pensar em dobrá-los eu já sentia dor. A ferida no ombro pulsava junto com as batidas de meu coração. Fazendo uma concha com a mão boa, lavei o local da melhor maneira que pude, mas quase desmaiei. Fiquei ofegante enquanto o mundo a meu redor girava e me recostei na banheira, tentando controlar a tontura.
Abrindo um pouquinho um dos olhos, cutuquei o ombro de novo e vi pequenas veias vermelhas de infecção espalhando-se a partir da ferida. A pele ao redor parecia um dos mapas de papel de Kadam. Um líquido amarelo escorreu pelo braço. Onde antes havia uma dor vaga, agora a mão e o ombro pareciam estar em chamas. Deixei-me afundar na água e usei a mão boa para alisar para trás meus cabelos desgrenhados.
Ao recostar na água morna, senti a emoção das últimas semanas me subjugar. Como pude arruinar minha missão daquele jeito? Ana tinha sido raptada e sofrera abuso de um monstro. Eu tinha mais de uma dúzia de crianças dependendo de mim e a chance de salvar todos nós era pequena, sendo otimista. Mesmo que encontrássemos um porto seguro, eu não tinha ideia de como tirar a Anamika adulta de dentro de seu corpo jovem, e ocorreu-me que talvez nem fosse possível regressar a nosso tempo.
Eu precisava de uma grande dose de sorte, mas o abismo entre onde me encontrava agora e a conclusão bem-sucedida da missão parecia tão vasto quanto o cosmos, e eu não tinha meios para transpor esse vão. Meus pensamentos vagaram e devo ter adormecido. Espirrei água fora da banheira quando acordei, sobressaltado, e vi que o fogo se apagara e meus dedos estavam enrugados.
Saindo da banheira, sequei-me com a camisa velha e peguei a túnica nova que tinha sido deixada para mim. O tecido era macio e confortável e ela coube direitinho. Mais uma vez me perguntei quem seriam nossos misteriosos benfeitores e se algum dia ele se apresentariam. Depois de vestido, sentei-me em frente ao fogo quase extinto, recostei-me na parede e aninhei o ovo da Fênix no colo, na esperança de que ele me concedesse mais sabedoria ou me mostrasse em sonhos o que eu deveria fazer.
Não sonhei com o lugar aonde eu precisava ir nem com o que precisava fazer. Em vez disso, sonhei com Bodha, a Cidade da Luz. Alguém caminhava à minha frente, apesar de eu não poder ver-lhe o rosto. Mas sabia que era uma mulher, porque ouvi sua risada.
— Venha, Sohan — disse ela. — Venha e deixe que as árvores curem você.
Ela me guiou até um grupo de árvores de fogo e uma delas estendeu um dos galhos para tocar meu rosto, depois desceu até meu ombro e tocou o ferimento. Soltei um silvo e dei um passo para trás.
— Não — disse a mulher. — Confie no fogo. Ele vai tirar o veneno do seu organismo.
Quando hesitei, senti que a mão dela pegava a minha, puxando-me para as árvores. Depois de me achar no meio das árvores e elas baixarem seus galhos, passando-os ao redor de meu corpo, a mulher tentou se afastar.
— Não vá — pedi. — Por favor.
Ela parou por um momento e então se virou para mim. Deslizou os braços, subindo por meu peito, e passou-os ao redor de meu pescoço, pressionando o corpo contra o meu. Abracei-a com força, sustentando seu peso com facilidade quando as árvores nos levantaram no ar. O calor pulsava à minha volta, queimando-me de dentro para fora. Gritei de dor, mas ela acariciou meus cabelos e sussurrou em meu ouvido que logo estaria terminado.
Enterrei o rosto em seu pescoço e respirei seu perfume — jasmim e rosas — e depois molhei seu ombro com lágrimas que secaram em sua pele, que ardia tanto quanto a minha. O calor enfim diminuiu e as árvores nos baixaram devagar até o chão, mas continuei a segurá-la. Soltá-la seria insuportável. Ela permaneceu comigo e ficamos ali, colados um no outro, ambos encontrando consolo e companheirismo.
Quando finalmente se afastou, tocou meu ombro recém-cicatrizado e sorriu, e eu estava prestes a descobrir quem era ela quando empurrou meu ombro. Meus olhos se abriram e percebi que era de manhã e que meu jovem capitão estava tentando me acordar.
— Estou acordado — falei, quando ele fez menção de me sacudir de novo.
Eu ia lhe dizer que não tocasse naquele ombro quando me dei conta de que não estava doendo. Puxei a gola da túnica e espiei o local. Estava completamente cicatrizado. Levantei a palma da mão e a virei para ver as costas, depois flexionei os dedos. Eles se dobraram sem dificuldade e os únicos sinais dos ferimentos anteriores eram poucas cicatrizes novas. A pedra da verdade estava perto de minha coxa e pulsava, quente.
— Obrigado — disse-lhe em voz baixa, pousando a mão agora saudável sobre ela.
Virando-me para o menino, eu o instruí a providenciar que todas as crianças comessem e que os camelos recebessem água. Ele imediatamente foi cumprir a tarefa. Enquanto isso, peguei uma manga e um pedaço de pão e fui até Anamika. Ela se sentava encostada na parede, os braços envolvendo as pernas dobradas. Interpretei aquilo como um bom sinal.
Sentei-me a seu lado e entreguei-lhe a comida.
— Você deve estar com fome — sugeri.
Ela limitou-se a me olhar, desconfiada. Tentei usar um tom de voz tranquilizador.
— Você sabia — falei, usando a faca para cortar fatias da manga — que a árvore de onde veio esta fruta dá quatro tipos de manga diferentes? É incrível. Terei de contar a Sunil quando o virmos. Talvez eu leve uma muda para ele.
— Su… Sunil?
A voz dela soava rouca, como se tivesse chorado ou gritado muito. Tentei não me sobressaltar.
Colocando uma fatia de fruta na boca, assenti.
— Está deliciosa — declarei. — É claro, só comi uma delas até agora. As outras podem não estar tão gostosas quanto parecem. Tome, experimente.
Ofereci-lhe uma fatia de manga e ela a pegou, hesitante.
Sem querer intimidá-la, concentrei-me em cortar outra fatia e comer, e me senti recompensado quando ergui os olhos e a vi mordiscar a borda do pedaço, o suco molhando seus dedos.
— Acho que já estou satisfeito — comentei, preparando-me para me levantar. — Aqui, pegue a faca e coma quanto quiser, enquanto peço aos outros que colham mais para nossa viagem.
Entreguei-lhe o restante da manga e a faca. Seus olhos verdes se arregalaram quando apertei a faca em sua mão. A princípio, ela olhou o objeto como se fosse uma cobra, mas depois cerrou os maxilares quando seus dedos seguraram o cabo com força. Ela assentiu com a cabeça e mordeu a manga sem usar a faca.
Voltando as costas para ela, comi um pedaço de pão enquanto as crianças se lavavam e se preparavam para partir. Meu jovem capitão veio lá de fora.
— Encontramos estas bolsas — disse, segurando uma em cada mão. — Estavam empilhadas do lado de fora da porta da cabana.
— Ótimo — sorri. — Encha-as de frutas, pão e carne. Vamos levar tudo.
Ele assentiu e foi cuidar de seu trabalho.
— E umas garrafas vazias ao lado do poço — informou uma garota. — Já enchemos com água.
— Maravilha. Avisem-me quando estiver tudo pronto.
As crianças demoraram menos de dez minutos para reunir tudo. Então dispuseram as bolsas atravessadas no dorso dos camelos e montaram sozinhas, as mais velhas ajeitando as mais novas entre elas. Quando Anamika saiu da cabana, andando devagar em nossa direção, parei ao lado de meu camelo.
— Escolha um animal — sugeri, tentando parecer não me importar com sua escolha.
Eu preferia que ela continuasse comigo, mas não queria forçá-la. Ela se dirigiu para o último camelo, que estava lotado com cinco crianças bem agarradas umas às outras. Então voltou para o meu.
— Posso ir com você? — perguntou.
— Hum… — Esfreguei o queixo, como se estivesse considerando a possibilidade. — Acho que sim. Você ocupa muito espaço? Detestaria ser derrubado.
Seu breve sorriso foi como uma vitória.
— Não muito — respondeu.
— Bem, vamos fazer uma tentativa. — Estendi a mão e ela hesitou, olhando de minha mão para meu rosto antes de finalmente aceitá-la. Depois que nos acomodamos, estalei a língua e o camelo levantou-se, desajeitado, soltando um pequeno grito de protesto.
Prosseguimos, parando ao meio-dia para descansar e comer, e acampamos sob as estrelas naquela noite. No dia seguinte, andamos ainda mais depressa e encontramos um espaço plano perto de uma fonte borbulhante. Tínhamos consumido todo o pão e toda a carne, mas enchemos os cantis com água e havia frutas suficientes para que cada um de nós comesse duas, deixando uma para o café da manhã.
A pedra da verdade indicou que estávamos na trilha certa e que chegaríamos ao lugar seguro na tarde do dia seguinte. Quando nos preparávamos para partir, na manhã seguinte, senti um formigamento na nuca. Os camelos blateraram, nervosos, olhando para uma moita de arbustos. Olhei nessa direção por um longo tempo e depois respirei fundo.
Embora não pudesse ver nada atrás dos arbustos, eu sabia exatamente o que era — um tigre. Um tigre faminto, caso estivesse pensando em atacar nosso grupo. Não era natural para os tigres caçar seres humanos. Predadores de homens eram pouco comuns, a menos que estivessem feridos demais para caçar suas presas habituais.
— Crianças — falei baixinho —, venham para trás de mim. Ana? Vou precisar daquela faca.
Estendi a mão por trás das costas e senti o cabo da faca roçar minha palma. Fechando os dedos sobre ele, dei um passo à frente, erguendo a faca diante de meu corpo. Olhando diretamente para a moita, sabendo que o fato de ser visto enervaria o tigre, eu disse em voz alta:
— Não há nada para você aqui, meu amigo felino. Sugiro que vá andando.
Os arbustos se mexeram e ouvi um rugido gutural e profundo. Uma pata enorme afastou o mato, seguida por uma segunda, e então a cara listrada emergiu, os olhos amarelos fixos em mim. Ele se agachou, a cauda balançando ligeiramente enquanto me estudava. O tigre era imenso e me perguntei se eu parecia tão grande quando assumia minha forma felina. Minha percepção como tigre era diferente e eu nunca olhara de perto meu reflexo antes, exceto em uma poça d’água. Incerto sobre o que éramos, o tigre começou a andar para a minha esquerda, onde a maioria das crianças estava amontoada.
— Fiquem juntos — avisei. — Se vocês se separarem, ele vai atacar.
Uma das crianças choramingou, mas foi logo silenciada.
— Acho que não, meu amigo — falei, posicionando o corpo de maneira a ficar entre ele e as crianças.
Ele estacou e recuou alguns passos, rosnando. Seu rugido baixo teria me aterrorizado se eu fosse um ser humano normal, mas reconheci a hesitação quando seu rosnado parou. Ele estava inseguro em relação a nós.
Recuou mais um passo e então notei sua pata traseira mutilada. O tigre tinha sido apanhado em uma armadilha e perdera parte da pata. Sua dificuldade de andar era visível.
— Lamento por você, meu velho — falei —, mas não vai encontrar seu café da manhã aqui.
Ficamos nos encarando por longos minutos. O tigre devia estar desesperado, porque não dava mostras de desistir. A pedra da verdade se achava fechada em uma bolsa no dorso do camelo. Com cuidado, deslizei a mão para dentro da bolsa e toquei a pedra, murmurando um pedido de ajuda. A pedra esquentou e em seguida ouvi o som sibilante de cobras, muitas delas. A menos de 1 metro de onde eu estava, uma cabeça marrom triangular ergueu-se de um buraco. Outra deslizou rapidamente por um declive e mais duas juntaram-se a ela.
As crianças começaram a chorar de verdade quando um número cada vez maior de cobras emergiu do solo. Os répteis avançavam como um tapete ondulante, criando uma grande barreira entre nós e o tigre. Devagar, elas rastejavam, aproximando-se mais do imenso animal. Ele franziu o focinho e bufou. Frustrado, começou a andar de um lado para outro, dando um salto rápido para trás quando diversas cobras esguicharam veneno em sua direção e outras deram o bote, errando por centímetros. Finalmente ele se virou e fugiu, a cauda marcando seu avanço pelo capim.
As cobras continuaram olhando adiante por um momento e depois foram embora deslizando, algumas pelo capim, outras entrando em buracos. Outras apenas rumaram para o deserto e desapareceram. Quando todas haviam ido embora, virei-me para as crianças trêmulas e as abracei com força, segurando em meus braços tantas quantas eu podia.
— Vocês foram todos muito corajosos — afirmei. — Agora vamos. O perigo passou. Montem nos camelos.
Não houve mais incidentes pelo restante de nossa jornada e a gratidão e o alívio que senti quando a casa que aparecera em minha visão surgiu foram imensos. Um casal idoso saiu da casa quando chegamos mais perto e o homem me saudou. Eles deviam estar confusos e surpresos ao verem tantas crianças viajando com um homem sozinho.
Enquanto a mulher levava as crianças exaustas para dentro, a fim de alimentá-las e ajudá-las no banho, expliquei ao marido quem éramos e que, embora apreciássemos sua hospitalidade, ele provavelmente estava colocando sua família em risco ao nos oferecer auxílio. Ele pôs a mão em meu ombro e contou que tinha escutado rumores sobre o homem que eu matara e que ficaria contente em nos ajudar.
Mais tarde naquela noite, soube que os dois viviam sozinhos havia muitos anos e que tinham desejado uma família grande, mas a mulher não pôde ter filhos. Ele concordou em ajudar as crianças a encontrar as respectivas famílias e, para aquelas que não se lembravam mais de onde tinham vindo, ficaria feliz em lhes oferecer um lar.
Contei que tinha sido encarregado de encontrar Anamika e devolvê-la à família e que precisava fazer isso o mais depressa possível. O casal insistiu em que eu ficasse com eles, para descansar após nossa provação. Quando eu quis partir na manhã seguinte, eles prepararam bolsas com suprimentos e até ofereceram um cavalo em troca dos camelos.
O homem me deu de presente uma espada antiga e me orientou a seguir para o sul. Disse-me que as caravanas e os negociantes de camelos costumavam usar as rotas do norte. Demoraria mais tempo para levar Ana para casa, mas era melhor evitá-los sempre que possível.
Embora lamentassem minha partida, era óbvio que as crianças já tinham se apegado ao casal e se despediram de mim carinhosamente. Anamika não hesitou em juntar-se a mim. O homem lhe dera uma bainha para sua faca e ela usava o cinto de couro com orgulho, de vez em quando descansando a mão sobre o cabo da faca, como querendo se tranquilizar.
Depois de sentá-la no dorso do cavalo e montar atrás dela, partimos pela estrada do sul, a pedra da verdade segura em uma bolsa a nosso lado.

2 comentários:

  1. Depois de quase matar a gente do coração, ele ta fazendo as coisas darem certo

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  2. tudo dando certo amém, foi lindo ver as crianças se ajudando e ajudando ele, me doi pensar nas que ficaram lá, estou curiosa sobre como vai ser deixar a Ana com os pais e como ela n se lembra dele

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